Êxodo 33
Argumento
Neste capítulo temos mais um relato da mediação de Moisés entre Deus e Israel, para reparar a brecha que o pecado tinha feito entre eles.
I. Ele traz da parte de Deus uma mensagem muito humilhante para eles (vv. 1-3, 5), que produz bom efeito sobre eles e ajuda a prepará-los para a misericórdia, v. 4, 6.
II. Ele estabelece uma comunicação entre Deus e eles, e tanto Deus quanto o povo manifestam a sua aprovação dessa comunicação, Deus descendo na coluna de nuvem, e o povo adorando às portas das tendas, vv. 7-11.
III. Ele é insistente com Deus em oração, e consegue o intento:
Por uma promessa da presença dele com o povo, vv. 12-17.
Por uma visão da glória dele para si mesmo, v. 18, etc.
Versículos 1 a 6
Os Israelitas Repreendidos. (a.C. 1491.)
Aqui está:
I. A mensagem que Deus enviou por Moisés aos filhos de Israel, dando a entender que o seu desagrado contra eles continuava, e em que maus termos eles ainda estavam com Deus. Isso ele tinha de dar-lhes a conhecer, para mortificação ainda maior deles.
- Ele lhes aplica um nome mortificante, dando-lhes o seu justo caráter: “um povo de dura cerviz”, v. 3, 5. “Vai”, diz Deus a Moisés, “vai e dize-lhes que assim são.” Quem os conhece melhor do que eles se conhecem diz isso deles.
Deus os teria posto debaixo do jugo da sua lei e dentro do vínculo da sua aliança, mas o pescoço deles era duro demais para se curvar a esse jugo.
Deus os teria curado das suas disposições corruptas e tortas, e os teria endireitado; mas eram voluntariosos e obstinados, detestavam ser emendados e não queriam que Deus reinasse sobre eles.
Repare: Deus julga os homens pela disposição da sua mente. Nós sabemos o que o homem faz; Deus sabe o que ele é. Nós sabemos o que procede do homem; Deus sabe o que há no homem.
E nada lhe é mais desagradável que a dureza de pescoço, assim como nada nos filhos é mais ofensivo aos pais e aos mestres do que a teimosia.
- Ele lhes diz o que mereciam: que ele viesse ao meio deles num momento e os consumisse, v. 5. Se tivesse tratado com eles segundo os seus pecados, os teria levado embora com uma destruição repentina.
Repare: aqueles a quem Deus perdoa têm de ser levados a saber o que o seu pecado merecia, e quão miseráveis teriam sido se não tivessem sido perdoados, para que a misericórdia de Deus seja tanto mais engrandecida.
- Ele lhes ordena que partam e subam daqui para a terra de Canaã, v. 1. Este monte Sinai, onde agora estavam, era o lugar designado para o levantamento do tabernáculo de Deus e do culto solene entre eles.
Isso ainda não fora feito, de modo que, ao mandá-los partir daqui, Deus dá a entender que não seria feito: “Que sigam adiante como estão”; e assim isso exprimia muito bem o desagrado de Deus.
Ele os entrega a Moisés, como o povo que este fizera subir da terra do Egito, e deixa a ele conduzi-los a Canaã.
Ainda que prometa cumprir a sua aliança com Abraão, dando-lhes Canaã, contudo lhes nega os sinais extraordinários da sua presença, com que até então tinham sido abençoados, e os deixa sob a condução comum de Moisés, o seu príncipe, e a escolta comum de um anjo da guarda:
“Enviarei um anjo adiante de ti, por teu protetor, de outro modo os anjos maus logo te destruiriam; mas não subirei no meio de ti, para que não te consuma” (v. 2, 3); não como se um anjo fosse mais paciente e compassivo que Deus, mas as afrontas feitas por eles a um anjo não seriam tão provocadoras quanto as feitas à shechinah, ou à própria Majestade divina.
Repare: quanto maiores os privilégios de que desfrutamos, maior é o nosso perigo se não os aproveitamos e não vivemos à altura deles.
- Ele fala como quem não sabe que rumo tomar com eles. A justiça dizia: “Extermina-os e consome-os.” A misericórdia dizia: “Como te entregarei, Efraim?” Oseias 11:8.
Pois bem, diz Deus, “despe os teus ornamentos, para que eu saiba o que fazer contigo”; isto é: “Põe-te na postura de penitente, para que a disputa seja determinada a teu favor, e a misericórdia se glorie contra o juízo”, v. 5.
Repare: os chamados ao arrependimento são indicações claras do desígnio de Deus de mostrar misericórdia. Se o Senhor se agradasse de nos matar, a justiça sabe o que fazer com um povo de pescoço duro; mas Deus não tem prazer na morte dos que morrem.
Que voltem e se arrependam, e então a misericórdia, que de outro modo não sabe que rumo tomar, sabe o que fazer.
II. A recepção melancólica que o povo deu a esta mensagem. Eram más notícias para eles ouvir que não teriam a presença especial de Deus com eles, e por isso:
- Eles prantearam (v. 4), prantearam pelo seu pecado, que provocara Deus a retirar-se deles, e prantearam por isso como o castigo mais doloroso do seu pecado.
Quando 3.000 deles foram de uma vez estendidos mortos ali pela espada dos levitas, não achamos que tenham pranteado por isso (esperando que aquilo ajudasse a expiar a culpa); mas quando Deus lhes negou a sua presença favorável, então prantearam e estiveram em amargura.
Repare: de todos os frutos e consequências amargas do pecado, aquele que os verdadeiros penitentes mais lamentam, e mais temem, é a partida de Deus de junto deles.
Deus prometera que, apesar do seu pecado, lhes daria a terra que mana leite e mel; mas pouca alegria poderiam ter nisso se não tivessem a presença de Deus com eles.
A própria Canaã não seria terra agradável sem isso; por isso, se isso lhes falta, eles pranteiam.
- Em sinal de grande vergonha e humilhação, os que ainda não haviam posto os seus ornamentos não os puseram (v. 4), e os que já estavam adornados se despojaram deles, junto ao monte; ou, como alguns leem, a certa distância do monte (v. 6), permanecendo de longe como o publicano, Lucas 18:13.
Deus lhes ordenou que pusessem de lado os seus ornamentos (v. 5), e assim fizeram, tanto para mostrar, de modo geral, o seu profundo pranto, quanto para tomar, em particular, uma santa vingança contra si mesmos por terem dado os seus brincos para fazer deles o bezerro de ouro.
Os que se dispuseram a separar-se dos seus ornamentos para a manutenção do seu pecado não podiam fazer menos do que pôr de lado os seus ornamentos em sinal da sua tristeza e vergonha por ele.
Quando o Senhor Deus chama ao choro e ao pranto, devemos atender ao chamado, e não só jejuar do pão agradável (Daniel 10:3), mas pôr de lado os nossos ornamentos.
Mesmo os adornos bastante apropriados noutras ocasiões são usados fora de tempo em dias de humilhação ou em tempos de calamidade pública, Isaías 3:18.
Versículos 7 a 11
O Tabernáculo da Congregação. (a.C. 1491.)
Aqui está:
I. Uma marca de desagrado posta sobre eles para humilhá-los ainda mais: Moisés tomou o tabernáculo, não a sua própria tenda de família, mas a tenda em que dava audiência, ouvia as causas e consultava a Deus, como uma casa de reunião do acampamento deles.
Moisés armou-o fora, longe do acampamento (v. 7), para lhes indicar que se tinham tornado indignos dele e que, a não ser que se fizesse a paz, ele não voltaria mais para eles.
Deus quis assim fazê-los saber que estava em desacordo com eles: “O Senhor está longe dos ímpios.”
Assim a glória do Senhor partiu do templo quando ele foi poluído com o pecado, Ezequiel 10:4; 11:23.
Repare: é sinal de que Deus está irado quando ele remove o seu tabernáculo, porque as suas ordenanças são frutos do seu favor e sinais da sua presença; enquanto as temos conosco, temos a ele conosco.
Talvez este tabernáculo fosse uma planta, ou antes um modelo, do tabernáculo que depois seria erigido, um esboço apressado a partir do padrão que lhe foi mostrado no monte, destinado a orientar os operários e usado, nesse meio-tempo, como tabernáculo de encontro entre Deus e Moisés a respeito dos assuntos públicos.
Ele foi armado a distância, para impressionar o povo com a perda daquela estrutura gloriosa que, se eles não tivessem abandonado as suas próprias misericórdias por vaidades mentirosas, devia ter sido erigida no meio deles. Que vejam o que tinham perdido por culpa própria.
II. Muitos motivos de ânimo ele lhes dá, apesar disso, para esperarem que Deus ainda se reconciliasse com eles.
- Ainda que o tabernáculo tivesse sido removido, todo aquele que estivesse disposto a buscar o Senhor era bem-vindo a segui-lo, v. 7.
Os particulares, assim como Moisés, eram convidados e encorajados a recorrer a Deus como intercessores nesta ocasião. Foi designado um lugar para onde eles pudessem ir, fora do acampamento, para rogar o retorno de Deus a eles.
Assim, quando Esdras (um segundo Moisés) intercedeu por Israel, ajuntaram-se a ele “muitos que tremiam à palavra de Deus”, Esdras 9:4.
Quando Deus tem o desígnio de mostrar misericórdia, ele desperta a oração. Ele será buscado (Ezequiel 36:37); e, graças ao seu nome, ele pode ser buscado, e não rejeitará a intercessão do mais pobre.
Todo israelita que buscasse o Senhor era bem-vindo a este tabernáculo, assim como Moisés, o homem de Deus.
- Moisés encarregou-se de mediar entre Deus e Israel. Saiu para o tabernáculo, o lugar do tratado, provavelmente armado entre eles e o monte (v. 8), e entrou no tabernáculo, v. 9.
Não podia deixar de ir bem aquela causa que tinha tão bom representante; quando o juiz deles (debaixo de Deus) se torna o advogado deles, e aquele que foi designado para ser o legislador deles é intercessor por eles, há esperança em Israel quanto a isto.
- O povo parecia estar num ânimo muito bom e bem disposto a uma reconciliação:
(1.) Quando Moisés saía para ir ao tabernáculo, o povo o acompanhava com o olhar (v. 8), em sinal do respeito que tinha por aquele a quem antes desprezara, e da sua inteira dependência da mediação dele.
Por isso parecia que estavam muito empenhados nesta matéria, desejosos de estar em paz com Deus e preocupados em saber qual seria o desfecho.
Assim os discípulos olharam para o nosso Senhor Jesus quando ele subiu ao alto para entrar no lugar santo não feito por mãos, até que uma nuvem o recebeu, tirando-o da vista deles, como aqui aconteceu com Moisés.
E nós devemos, com o olho da fé, segui-lo igualmente até lá, onde ele está aparecendo na presença de Deus por nós; então teremos o benefício da mediação dele.
(2.) Quando viram a coluna de nuvem, aquele símbolo da presença de Deus, ir ao encontro de Moisés, todos adoraram, cada um à porta da sua tenda, v. 10. Com isso eles significavam:
[1.] A sua humilde adoração da divina Majestade, a quem sempre adorarão, e não mais deuses de ouro.
[2.] A sua alegre gratidão a Deus por ele se ter agradado de lhes mostrar este sinal para o bem e de lhes dar esperança de uma reconciliação; porque, se lhe tivesse agradado matá-los, não lhes teria mostrado tais coisas como estas, não lhes teria suscitado tal mediador nem lhe teria dado tanto favor.
[3.] A sua cordial concordância com Moisés, como advogado deles, em tudo o que ele prometesse por eles, e a sua expectativa de um desfecho consolador e feliz deste tratado.
Assim devemos adorar a Deus nas nossas tendas, com o olhar posto em Cristo como o Mediador. O fato de adorarem às portas das suas tendas declarava claramente que não se envergonhavam de reconhecer publicamente o seu respeito por Deus e por Moisés, assim como publicamente tinham adorado o bezerro.
- Deus estava, por meio de Moisés, reconciliando Israel consigo mesmo, e manifestou-se muito disposto a estar em paz:
(1.) Deus encontrou-se com Moisés no lugar do tratado, v. 9. A coluna de nuvem, que se tinha retirado do acampamento quando este foi poluído com idolatria, voltou agora a este tabernáculo, a alguma distância, voltando aos poucos.
Se os nossos corações saem em direção a Deus para encontrá-lo, ele descerá graciosamente para nos encontrar.
(2.) Deus falou com Moisés (v. 9), falou-lhe “face a face, como um homem fala com o seu amigo” (v. 11), o que dá a entender que Deus se revelou a Moisés não só com maior clareza e evidência de luz divina do que a qualquer outro dos profetas, mas também com maiores expressões de bondade e graça particulares.
Ele falou não como um príncipe a um súdito, mas como um homem ao seu amigo, a quem ama e com quem tem doce conselho.
Isto era grande encorajamento para Israel: ver que o advogado deles era tão grande favorito. E, para que se animassem com isso, Moisés voltou para o acampamento, para contar ao povo que esperanças tinha de levar este negócio a bom desfecho, e para que não se desesperassem se ele ficasse muito tempo ausente.
Mas, como pretendia voltar logo ao tabernáculo da congregação, deixou Josué ali, porque não convinha que o lugar ficasse vazio enquanto a nuvem de glória estivesse à porta (v. 9).
Mas, se Deus tivesse alguma coisa a dizer daquela nuvem enquanto Moisés estivesse ausente, Josué estava ali, pronto para ouvir.
Versículos 12 a 23
Moisés Pede para Ver a Glória de Deus. (a.C. 1491.)
Moisés, tendo voltado à porta do tabernáculo, torna-se ali um suplicante humilde e importuno por dois favores muito grandes, e como príncipe tem poder com Deus, e consegue o intento nos dois. Nisto ele foi tipo de Cristo, o grande intercessor, a quem o Pai sempre ouve.
I. Ele é muito insistente com Deus por uma concessão da presença dele com Israel no resto da sua marcha para Canaã, apesar das provocações deles.
O povo tinha, pelo seu pecado, merecido a cólera de Deus, e para afastá-la Moisés já tinha conseguido o intento, Êxodo 32:14.
Mas eles também tinham perdido o direito à presença favorável de Deus, e a todo o benefício e consolo dela, e é o retorno disso que Moisés está aqui pedindo.
Assim, pela intercessão de Cristo, obtemos não só a remoção da maldição, mas a garantia da bênção; não somos apenas salvos da ruína, mas ficamos com direito à felicidade eterna.
Observe quão admiravelmente Moisés ordena esta causa diante de Deus, e enche a boca de argumentos. Que valor ele exprime pelo favor de Deus, que preocupação pela glória de Deus e pelo bem-estar de Israel. Como ele alega e como obtém resposta.
- Como ele alega.
(1.) Ele insiste na comissão que Deus lhe tinha dado para fazer subir este povo, v. 12. É com isto que ele começa: “Senhor, és tu mesmo que me empregas; e não me reconhecerás? Estou no caminho do meu dever; e não terei a tua presença comigo nesse caminho?”
Àquele a quem Deus chama para algum serviço, ele certamente proverá com as ajudas necessárias. “Agora, Senhor, tu me ordenaste uma grande obra, e no entanto me deixaste sem saber como empreendê-la e como levá-la até o fim.”
Repare: os que têm o desígnio sincero de cumprir o seu dever e se esforçam por fazê-lo podem, pela fé, pedir a Deus direção e força para isso.
(2.) Ele aproveita o crédito que ele mesmo tinha junto a Deus, e alega as expressões bondosas de afeto que Deus lhe dirigira: “Tu disseste: Eu te conheço pelo nome”, como a um amigo e confidente particular, “e também achaste graça aos meus olhos”, acima de qualquer outro.
Agora, portanto, diz Moisés, se de fato é assim, “que achei graça aos teus olhos, mostra-me o caminho”, v. 13.
Do favor que Deus tinha manifestado ao povo, eles tinham perdido o benefício; não havia como insistir nisso. Por isso Moisés põe o peso da sua alegação sobre o que Deus lhe tinha dito a ele, do que, embora se reconheça indigno, espera não ter se lançado fora do benefício dele.
Por isto ele lança mão de Deus: “Senhor, se alguma vez fizeres alguma coisa por mim, faze isto pelo povo.”
Assim também o nosso Senhor Jesus, na sua intercessão, apresenta-se ao Pai como aquele em quem ele está sempre bem satisfeito, e assim obtém misericórdia para nós, com quem ele está justamente descontente; e somos aceitos no Amado.
Assim também os homens de espírito público gostam de aproveitar o crédito que têm tanto com Deus quanto com os homens para o bem público.
Observe o que é que ele pede com tanto ardor: “Mostra-me o teu caminho, para que eu saiba que achei graça aos teus olhos.”
Repare: a direção divina é uma das melhores evidências do favor divino. Por isto podemos saber que achamos graça aos olhos de Deus: se achamos graça no coração para nos guiar e nos vivificar no caminho do nosso dever. A boa obra de Deus em nós é a mais segura revelação da boa vontade dele para conosco.
(3.) Ele insinua que o povo também, ainda que muito indigno, estava em alguma relação com Deus: “Considera que esta nação é o teu povo, um povo por quem fizeste grandes coisas, que resgataste para ti mesmo e tomaste em aliança contigo; Senhor, eles são teus, não os deixes.”
O pai ofendido considera isto: “O meu filho é tolo e rebelde, mas é meu filho, e não posso abandoná-lo.”
(4.) Ele exprime o grande valor que dava à presença de Deus. Quando Deus disse “A minha presença irá contigo”, ele se agarrou a essa palavra, como àquilo sem o que não podia viver nem mover-se: “Se a tua presença não for comigo, não nos faças subir daqui”, v. 15.
Ele fala como quem temia a ideia de seguir adiante sem a presença de Deus, sabendo que as suas marchas não poderiam ser seguras, nem os seus acampamentos tranquilos, se não tivessem Deus com eles.
“Melhor deitar-se e morrer aqui no deserto do que ir adiante para Canaã sem a presença de Deus.”
Repare: os que sabem dar valor aos favores de Deus são os que estão melhor preparados para recebê-los. Observe como Moisés é insistente nesta matéria; ele pede como quem não aceitaria uma recusa.
“Aqui ficaremos até obtermos o teu favor; como Jacó, não te deixarei ir se não me abençoares.”
E observe como ele avança sobre as concessões de Deus; as bondosas insinuações que lhe são dadas fazem-no ainda mais importuno.
Assim as promessas graciosas de Deus, e os avanços da misericórdia para conosco, não devem só animar a nossa fé, mas despertar o nosso fervor na oração.
(5.) Ele conclui com um argumento tirado da glória de Deus (v. 16): “Em que se saberá, entre as nações que têm os olhos sobre nós, que eu e o teu povo (com quem os meus interesses estão todos entrelaçados) achamos graça aos teus olhos, um favor distintivo, a ponto de sermos separados de todos os povos da terra?”
“Como aparecerá que somos de fato assim honrados? Não é em que tu vais conosco? Nada menos do que isto corresponderá a essas características.”
“Que nunca se diga que somos um povo peculiar, e altamente favorecido, porque estamos apenas no mesmo nível que os nossos demais vizinhos, a não ser que tu vás conosco; mandar um anjo conosco não servirá.”
Ele insiste no lugar: “aqui neste deserto, para onde nos conduziste, e onde certamente estaremos perdidos se nos deixares.”
Repare: a presença especial de Deus conosco neste deserto, pelo seu Espírito e pela sua graça, para nos dirigir, defender e consolar, é o penhor mais seguro do seu amor especial por nós, e reverterá tanto para a glória dele quanto para o nosso benefício.
- Observe como ele se sai. Ele obteve a garantia do favor de Deus:
(1.) Para si mesmo (v. 14): “Eu te darei descanso, cuidarei de te deixar tranquilo nesta matéria; seja como for, terás satisfação.”
Moisés nunca entrou em Canaã, e no entanto Deus cumpriu a sua palavra de que lhe daria descanso, Daniel 12:13.
(2.) Para o povo, por causa dele. Moisés não se contentou com aquela resposta que anunciava favor só para ele mesmo; precisa obter uma promessa, uma promessa expressa, também para o povo, ou não está em repouso.
As almas graciosas e generosas não acham suficiente chegar elas mesmas ao céu, mas gostariam que todos os seus amigos fossem para lá também. E também nisto Moisés conseguiu o intento: “Farei também esta coisa que disseste”, v. 17.
Moisés não é contido como um mendigo desarrazoado, a quem nenhuma resposta satisfaria, mas recebe ânimo. Deus concede enquanto ele pede, dá liberalmente e não o repreende.
Veja o poder da oração, e seja por isso vivificado a pedir, buscar e bater, e a perseverar na oração, a orar sempre e não desfalecer.
Veja as riquezas da bondade de Deus. Quando já fez muito, ainda está disposto a fazer mais: “Farei também isto” — acima do que somos capazes de pedir ou pensar.
Veja, em tipo, como a intercessão de Cristo consegue o intento, intercessão que ele vive sempre para fazer por todos os que por ele se chegam a Deus, e o fundamento disso.
É puramente o mérito dele, e não alguma coisa naqueles por quem intercede; é porque “achaste graça aos meus olhos”.
E agora a matéria está resolvida, Deus está perfeitamente reconciliado com eles, a sua presença na coluna de nuvem volta para eles e continuará com eles.
Tudo está bem outra vez, e daqui em diante não ouvimos mais falar do bezerro de ouro. “Senhor, quem é Deus como tu, que perdoa a iniquidade?”
II. Tendo conseguido este ponto, ele em seguida pede a visão da glória de Deus, e é ouvido também nesta matéria. Observe:
- O pedido humilde que Moisés faz: “Rogo-te, mostra-me a tua glória”, v. 18.
Moisés tinha estado havia pouco no monte com Deus, tinha continuado ali muito tempo, e tinha desfrutado de uma comunhão com Deus tão íntima como jamais qualquer homem teve deste lado do céu; e ainda assim continua desejando conhecê-lo mais.
Todos os que são eficazmente chamados ao conhecimento de Deus e à comunhão com ele, ainda que não desejem nada além de Deus, continuam mesmo assim ansiando por mais e mais dele, até chegarem a ver como são vistos.
Moisés tinha conseguido de Deus, maravilhosamente, um favor após outro, e o êxito das suas orações encorajou-o a continuar buscando a Deus; quanto mais tinha, mais pedia.
Quando estamos bem dispostos à oração junto ao trono da graça, devemos procurar preservar e aproveitar essa disposição, e malhar o ferro enquanto está quente:
“Mostra-me a tua glória; faze-me vê-la” (é essa a palavra); “torna-a visível de algum modo, e capacita-me a suportar a sua vista.”
Não que ele fosse tão ignorante a ponto de pensar que a essência de Deus pudesse ser vista com olhos corporais; mas, tendo até ali apenas ouvido uma voz saída de uma coluna de nuvem ou de fogo, desejava ver alguma representação da glória divina, tal como Deus achasse por bem conceder-lhe.
Não era conveniente que o povo visse semelhança alguma quando o Senhor lhes falava, para que não se corrompessem; mas ele esperava que não houvesse esse perigo em ele ver alguma semelhança.
Alguma coisa mais do que já tinha visto era o que Moisés desejava. Se fosse puramente para auxílio da sua fé e da sua devoção, o desejo era louvável; mas talvez houvesse nele uma mistura de fraqueza humana. Deus quer que andemos por fé, e não por vista, neste mundo; e a fé vem pelo ouvir.
Alguns pensam que Moisés desejava a visão da glória de Deus como sinal da reconciliação dele, e como arras daquela presença que lhes tinha prometido; mas ele não sabia o que pedia.
- A resposta graciosa que Deus deu a este pedido:
(1.) Ele negou o que não convinha ser concedido, e o que Moisés não podia suportar: “Não poderás ver a minha face”, v. 20.
Uma revelação plena da glória de Deus dominaria por completo as faculdades de qualquer homem mortal no estado presente, e o esmagaria, até mesmo o próprio Moisés.
O homem é pequeno e indigno dela, fraco e não poderia suportá-la, culpado e não poderia deixar de temê-la.
É por compaixão da nossa fraqueza que “Deus retém a face do seu trono, e sobre ele estende a sua nuvem”, Jó 26:9.
Deus disse que aqui (isto é, neste mundo) a sua face não se verá (v. 23); essa é uma honra reservada para o estado futuro, para ser a bem-aventurança eterna das almas santas. Se os homens neste estado soubessem o que é, não se contentariam em viver aquém dela.
Há um conhecimento e um gozo de Deus que devem ser esperados em outro mundo, quando “o veremos como ele é”, 1 João 3:2.
Enquanto isso, adoremos a altura do que de fato conhecemos de Deus, e a profundidade do que não conhecemos.
Muito antes disto, Jacó tinha falado dele com espanto, por ter visto a Deus face a face e a sua vida ter sido preservada, Gênesis 32:30.
O homem pecador teme a visão de Deus, seu Juiz; mas as almas santas, “sendo pelo Espírito do Senhor transformadas na mesma imagem, contemplam com rosto descoberto a glória do Senhor”, 2 Coríntios 3:18.
(2.) Ele concedeu o que satisfaria abundantemente.
[1.] Ele ouviria o que lhe agradaria (v. 19): “Farei passar toda a minha bondade diante de ti.”
Deus lhe tinha dado exemplos maravilhosos da sua bondade ao reconciliar-se com Israel; mas isso era apenas bondade na corrente; ele lhe mostraria a bondade na nascente — toda a sua bondade.
Esta era uma resposta suficiente ao seu pedido. “Mostra-me a tua glória”, diz Moisés. “Eu te mostrarei a minha bondade”, diz Deus.
Repare: a bondade de Deus é a sua glória; e ele quer que o conheçamos pela glória da sua misericórdia mais do que pela glória da sua majestade; pois devemos temer até “o Senhor e a sua bondade”, Oseias 3:5.
O que especialmente é a glória da bondade de Deus é a soberania dela: que ele será gracioso a quem for gracioso.
Que, como proprietário absoluto, faz a diferença que quer ao conceder os seus dons, e não é devedor a ninguém, nem tem de prestar contas a ninguém (não pode ele fazer o que quiser com o que é seu?).
Também que todas as razões da sua misericórdia são buscadas dentro dele mesmo, e não de algum mérito nas suas criaturas: assim como ele tem misericórdia de quem quer, assim também a tem porque quer. “Assim seja, Pai, porque assim foi do teu agrado.”
Nunca se diz: “Ficarei irado com quem eu quiser”, porque a sua cólera é sempre justa e santa; mas: “Usarei de misericórdia com quem usar de misericórdia”, porque a sua graça é sempre livre. Ele nunca condena por prerrogativa, mas por prerrogativa ele salva.
O apóstolo cita isto (Romanos 9:15) em resposta aos que acusavam Deus de injustiça por dar livremente a uns aquela graça que ele justamente retém de outros.
[2.] Ele veria o que podia suportar, e o que lhe bastaria. A coisa foi arranjada de modo que Moisés estivesse seguro e ainda assim satisfeito.
Primeiro, A salvo numa fenda da rocha, v. 21, 22. Nela ele seria abrigado da luz deslumbrante e do fogo devorador da glória de Deus.
Esta era a rocha em Horebe de onde se tirou água, da qual se diz: “Aquela rocha era Cristo”, 1 Coríntios 10:4.
É nas fendas desta rocha que estamos seguros da cólera de Deus, que de outro modo nos consumiria; o próprio Deus protegerá os que assim estão escondidos.
E é somente por Cristo que temos o conhecimento da glória de Deus. Ninguém pode ver a glória dele para o seu consolo senão os que estão sobre esta rocha e nela se abrigam.
Segundo, Ele ficou satisfeito com a visão das costas dele, v. 23. Ele veria de Deus mais do que jamais alguém viu na terra, mas não tanto quanto veem os que estão no céu.
O rosto, no homem, é a sede da majestade, e as pessoas são conhecidas pelo rosto; nele tomamos a visão completa delas.
Essa visão de Deus Moisés não podia ter, e sim tal visão como a que temos de um homem que passou por nós, de modo que só lhe vemos as costas e temos (como dizemos) um relance dele.
Não se pode dizer que olhemos para Deus, e sim que olhamos “após ele” (Gênesis 16:13); porque vemos por espelho, obscuramente.
Quando vemos o que Deus fez nas suas obras, e observamos os passos do nosso Deus, o nosso Rei, vemos (por assim dizer) as suas costas.
Assim, os melhores conhecem só em parte, e não podemos ordenar o nosso discurso a respeito de Deus, por causa das trevas, mais do que podemos descrever um homem cujo rosto nunca vimos.
Ora, a Moisés foi permitido ver só as costas; mas muito tempo depois, quando foi testemunha da transfiguração de Cristo, viu o seu rosto brilhar como o sol.
Se aproveitarmos fielmente as revelações que Deus nos dá de si mesmo enquanto estamos aqui, uma cena mais brilhante e mais gloriosa nos será aberta em breve; porque ao que tem lhe será dado.