Êxodo 32
Argumento
É muito lamentável a interrupção que a história deste capítulo dá ao registro do estabelecimento da igreja e da religião entre os judeus.
As coisas iam admiravelmente bem rumo àquela feliz consolidação: Deus se mostrara muito favorável, e o povo também parecia bastante dócil.
Moisés já tinha quase completado os seus quarenta dias no monte e, podemos supor, se comprazia com a expectativa das boas-vindas muito alegres que teria no arraial de Israel ao voltar, e do rápido levantamento do tabernáculo entre eles.
Mas eis que os planos são frustrados, o pecado de Israel desvia deles aquelas boas coisas e detém a corrente dos favores de Deus; o pecado que fez o estrago (você acreditaria?) foi adorar um bezerro de ouro.
O casamento estava prestes a ser celebrado entre Deus e Israel, mas Israel se prostitui, e assim o enlace se desfaz, e não será coisa fácil recompô-lo. Aqui está:
I. O pecado de Israel, e de Arão em particular, em fazer o bezerro de ouro por deus (vv. 1-4) e em adorá-lo, v. 5, 6.
II. O aviso que Deus deu disto a Moisés, que estava então no monte com ele (v. 7, 8), e a sentença da sua cólera contra eles, v. 9, 10.
III. A intercessão que Moisés imediatamente fez por eles no monte (vv. 11-13), e o êxito dessa intercessão, v. 14.
IV. A sua descida do monte, quando se tornou testemunha ocular da idolatria deles (vv. 15-19), por horror à qual, e como expressão de justa indignação, quebrou as tábuas (v. 19) e queimou o bezerro de ouro, v. 20.
V. O exame de Arão a respeito disso, vv. 21-24.
VI. A execução da sentença sobre os cabeças da idolatria, vv. 25-29.
VII. A intercessão ulterior que Moisés fez por eles, para desviar deles a cólera de Deus (vv. 30-32), e uma suspensão da pena concedida em consequência disso, reservando-os para um acerto de contas ulterior, v. 33, etc.
Versículos 1 a 6
O Bezerro de Ouro. (a.C. 1491.)
Enquanto Moisés estava no monte, recebendo a lei de Deus, o povo tinha tempo para meditar no que havia sido exposto e para se preparar para o que ainda seria revelado, e quarenta dias era pouco para essa obra.
Mas, em vez disso, havia entre eles os que maquinavam como quebrar as leis que já tinham recebido e como antecipar-se àquelas que estavam esperando.
No trigésimo nono dos quarenta dias, irrompeu a trama de rebelião contra o Senhor. Aqui está:
I. Um apelo tumultuoso que o povo fez a Arão, a quem fora confiado o governo na ausência de Moisés: “Levanta-te, faze-nos deuses que vão adiante de nós”, v. 1.
- Veja o mau efeito da ausência de Moisés no meio deles. Se ele não tivesse tido o chamado de Deus tanto para ir quanto para ficar, não teria ficado de todo livre de culpa.
Quem tem outros a seu cargo — magistrados, ministros e chefes de família — não deve, sem justa causa, ausentar-se do seu encargo, para que Satanás não tire vantagem disso.
- Veja a fúria e a violência de uma multidão quando é influenciada e corrompida por aqueles que estão à espreita para enganar.
Uns poucos, ao que parece, foram a princípio tomados por esse capricho, enquanto muitos, que nunca teriam pensado nisso se não lhes tivessem posto no coração, foram levados a seguir os seus caminhos perniciosos.
E imediatamente uma multidão tal foi arrastada pela corrente, que os poucos que abominavam a proposta não ousaram sequer registrar o seu protesto contra ela.
Veja quanta coisa um pouco de fogo incendeia! Pois bem, o que havia com essa multidão estouvada?
(1.) Estavam cansados de esperar pela terra prometida. Achavam-se detidos tempo demais no monte Sinai; e, embora ali estivessem muito seguros e muito à vontade, bem alimentados e bem ensinados, estavam impacientes para seguir adiante.
Tinham um Deus que ficava com eles e manifestava a sua presença por meio da nuvem, mas isso não bastava. Precisavam de um deus que fosse adiante deles.
Estão com pressa de chegar à terra que mana leite e mel, e não podem esperar para levar a sua religião consigo.
Repare: quem quer antecipar-se aos conselhos de Deus é, comumente, precipitado nos seus próprios. Temos primeiro de esperar pela lei de Deus, antes de nos lançarmos sobre as suas promessas.
Quem crê não se apressa nem corre mais do que convém para chegar bem ao fim.
(2.) Estavam cansados de esperar o regresso de Moisés. Quando ele subiu ao monte, não lhes tinha dito (porque Deus não lhe tinha dito) quanto tempo deveria ficar.
Por isso, quando ele passou do prazo que eles lhe davam, ainda que estivessem em tudo bem providos na sua ausência, algumas pessoas más levantaram não sei que suspeitas a respeito da sua demora: “Quanto a este Moisés, o homem que nos tirou do Egito, não sabemos o que lhe aconteceu.” Observe:
[1.] Com que desdém falam da pessoa dele — “este Moisés”. Assim são ingratos para com Moisés, que tinha mostrado por eles um cuidado tão terno, e assim andam contrariamente a Deus.
Enquanto Deus se compraz em pôr honra sobre ele, eles se comprazem em pôr desprezo sobre ele — e isso na cara de Arão, seu irmão, e agora seu vice-rei.
Repare: os maiores méritos não podem livrar o homem das maiores indignidades e afrontas neste mundo ingrato.
[2.] Com que desconfiança falam da sua demora: “não sabemos o que lhe aconteceu”. Pensavam que ou fora consumido pelo fogo devorador, ou morrera de fome por falta de alimento.
Como se aquele Deus que os guardava e alimentava, a eles que eram tão indignos, não fosse cuidar da proteção e do sustento de Moisés, seu favorecido.
Alguns deles, dispostos a pensar bem de Moisés, talvez sugerissem que tinha sido trasladado ao céu como Enoque.
Enquanto outros, que não se importavam com o quanto pensassem mal dele, insinuavam que tinha abandonado a empresa, incapaz de levá-la adiante, e voltado para o sogro, para cuidar do rebanho dele.
Todas essas sugestões eram perfeitamente infundadas e absurdas, nada poderia ser mais. Era fácil dizer o que lhe tinha acontecido.
Foi visto entrando na nuvem, e a nuvem em que entrou continuava a ser vista por todo o Israel sobre o cume do monte.
Tinham toda a razão do mundo para concluir que ele estava seguro ali. Se ao Senhor tivesse aprazido matá-lo, não lhe teria mostrado favores como esses.
Se ele demorava, era porque Deus tinha muito que lhe dizer, para o bem deles. Ele residia no monte como o embaixador, e certamente voltaria assim que terminasse o negócio a que fora.
E, contudo, fazem disso o pretexto para a sua proposta ímpia: “não sabemos o que lhe aconteceu”.
Repare, primeiro: quem está resolvido a pensar mal, tendo embora toda a razão para pensar bem, comumente alega que não sabe o que pensar.
Segundo: as más interpretações das demoras do nosso Redentor são a ocasião de muitíssima maldade.
O nosso Senhor Jesus subiu ao monte da glória, onde está comparecendo na presença de Deus por nós, mas fora da nossa vista. Os céus têm de contê-lo, têm de escondê-lo, para que vivamos pela fé.
Ali ele está há muito tempo; ali ele está ainda. Daí os incrédulos sugerirem que não sabem o que lhe aconteceu, e perguntarem: “Onde está a promessa da sua vinda?” (2 Pedro 3:4), como se, por não ter vindo ainda, nunca fosse vir.
O servo mau anima-se nas suas impiedades com esta consideração: “O meu Senhor tarda em vir.”
Terceiro: o cansaço na espera nos entrega a um grande número de tentações. Foi assim que começou a ruína de Saul: ele esperou por Samuel até a última hora do prazo marcado, mas não teve paciência para esperar aquela hora (1 Samuel 13:8, etc.).
Assim Israel aqui: se ao menos tivessem podido esperar um dia a mais, teriam visto o que tinha acontecido a Moisés.
O Senhor é um Deus de juízo, e deve ser esperado até que venha, esperado ainda que tarde; e então não perderemos o nosso trabalho, porque aquele que há de vir virá, e não tardará.
(3.) Estavam cansados de esperar por uma instituição divina do culto religioso no meio deles, porque era isso que agora esperavam.
Fora-lhes dito que deviam servir a Deus neste monte, e eles acolheriam de bom grado a pompa e a cerimônia desse culto.
Mas, porque isso não lhes foi ordenado tão cedo quanto desejavam, puseram o próprio engenho a trabalhar para inventar sinais da presença de Deus com eles, e para se gloriar neles, e para ter um culto de invenção própria, provavelmente como o que tinham visto entre os egípcios.
Porque Estêvão diz que, quando disseram a Arão “Faze-nos deuses”, eles, no coração, se voltaram para o Egito, Atos 7:39, 40.
Esta foi uma proposta muito estranha: “Levanta-te, faze-nos deuses.”
Se não sabiam o que tinha acontecido a Moisés e o tinham por perdido, teria sido decente da parte deles marcar um luto solene por ele durante alguns dias; mas veja quão depressa se esquece um benfeitor tão grande.
Se tivessem dito “Moisés está perdido, faze-nos um governador”, haveria algum sentido nisso, ainda que com muita ingratidão para com a memória de Moisés e muito desprezo por Arão e Hur, que ficaram como regentes na sua ausência.
Mas dizer “Moisés está perdido, faze-nos um deus” era o maior absurdo imaginável.
Era Moisés o deus deles? Alguma vez ele alegou sê-lo? Fosse o que fosse que tivesse acontecido a Moisés, não era evidente, sem contradição possível, que Deus continuava com eles?
E tinham eles alguma margem para pôr em dúvida que conduzia o seu arraial aquele que o abastecia tão bem todos os dias?
Poderiam ter algum outro deus que provesse tão bem para eles como ele tinha feito — ou melhor, como ele agora fazia?
E, ainda assim: “Faze-nos deuses que vão adiante de nós”! Deuses! Quantos queriam? Não basta um?
“Faze-nos deuses”! E que bem lhes fariam deuses de fabricação própria? Precisavam de deuses que fossem adiante deles e que não podiam ir por si mais longe do que fossem carregados.
Tão miseravelmente embrutecidos e embriagados são os idólatras: “eles são loucos pelos seus ídolos”, Jeremias 50:38.
II. Aqui está a exigência que Arão faz das joias deles em seguida: “Trazei-me os vossos brincos de ouro”, v. 2.
Não encontramos que ele tenha dito uma só palavra para desaprovar a proposta deles. Não repreendeu a insolência, não argumentou com eles para convencê-los do pecado e da loucura daquilo, mas pareceu aprovar a proposta e não se mostrou avesso a lhes fazer a vontade nisso.
Bem que se gostaria de esperar que ele tivesse, a princípio, o desígnio de apenas fazer disso uma brincadeira e, levantando no meio deles uma imagem ridícula, expor a proposta e lhes mostrar a loucura dela.
Mas, se foi assim, ficou provado que é mau brincar com o pecado: é de perigosa consequência a mosca incauta brincar em volta da vela.
Alguns supõem, caridosamente, que, ao mandar que arrancassem os brincos e lhe trouxessem, Arão o fez com o desígnio de esmagar a proposta.
Crendo que, embora a avareza deles os tivesse deixado “esbanjar o ouro da bolsa” para fazer dele um ídolo (Isaías 46:6), o orgulho deles não lhes teria permitido separar-se dos brincos de ouro.
Mas não é seguro experimentar até onde as concupiscências pecaminosas dos homens os levarão num caminho pecaminoso, e a que despesa chegarão. Aqui isso se mostrou experimento perigoso.
III. Aqui está a fabricação do bezerro de ouro, v. 3, 4:
- O povo trouxe os seus brincos a Arão, cuja exigência, em vez de enfraquecer a proposta, talvez antes lisonjeasse a superstição deles e gerasse neles a fantasia de que o ouro tirado das suas orelhas seria o mais aceitável e faria o deus mais valioso.
Que a prontidão deles em se desfazer dos brincos para fazer um ídolo nos envergonhe da nossa mesquinhez no serviço do Deus verdadeiro.
Não recuaram eles diante da despesa da sua idolatria? E vamos nós regatear as despesas da nossa religião, ou deixar morrer de fome uma causa tão boa?
- Arão fundiu os brincos deles e, tendo um molde preparado para esse fim, despejou nele o ouro derretido, e depois o produziu na forma de um boi, ou bezerro, dando-lhe alguns retoques de acabamento com um buril.
Alguns pensam que Arão escolheu esta figura como sinal, ou símbolo, da presença divina, porque julgava a cabeça e os chifres de um boi um emblema apropriado do poder divino.
E, contudo, sendo coisa tão simples e comum, esperava que o povo não fosse tão estúpido a ponto de adorá-la.
Mas é provável que tivessem aprendido dos egípcios a representar assim a Divindade, porque está dito (Ezequiel 20:8): “Não deixaram os ídolos do Egito”; e (Ezequiel 23:8): “Nem deixou ela as suas prostituições trazidas do Egito”.
Assim “mudaram a sua glória na semelhança de um boi” (Salmos 106:20), e proclamaram a sua própria loucura, além da de outros idólatras, que adoravam o exército do céu.
IV. Tendo feito o bezerro em Horebe, “adoraram a imagem de escultura”, Salmos 106:19.
Arão, vendo o povo afeiçoado ao seu bezerro, quis fazer-lhes a vontade ainda mais, e edificou um altar diante dele e proclamou uma festa em honra dele (v. 5), uma festa de dedicação.
Contudo, ele a chama de festa a Jeová; porque, por mais embrutecidos que fossem, não imaginavam que essa imagem fosse ela mesma um deus, nem tencionavam encerrar a sua adoração na imagem.
Mas a fizeram como representação do Deus verdadeiro, a quem pretendiam adorar na imagem e por meio dela.
E, ainda assim, isso não os desculpava de grosseira idolatria, tampouco desculpará os papistas, cuja alegação é que não adoram a imagem, mas a Deus pela imagem.
Fazendo-se assim idólatras tais quais os adoradores do bezerro de ouro, cuja festa era uma festa a Jeová, e assim foi proclamada, para que o mais ignorante e irrefletido não se enganasse.
O povo está bastante disposto a celebrar esta festa (v. 6): “levantaram-se de madrugada no dia seguinte”, para mostrar quão satisfeitos estavam com a solenidade.
E, segundo os antigos ritos de culto, ofereceram sacrifício a esta divindade recém-feita, e depois banquetearam-se do sacrifício.
Assim, tendo feito o seu deus à custa dos seus brincos, procuram, à custa dos seus animais, tornar este deus propício.
Se tivessem oferecido estes sacrifícios diretamente a Jeová, sem a mediação de uma imagem, poderiam (pelo que sei) ter sido aceitos (Êxodo 20:24).
Mas, tendo levantado diante de si uma imagem como símbolo da presença de Deus, e assim mudado a verdade de Deus em mentira, estes sacrifícios eram abominação, nada poderia ser mais.
Quando essa idolatria deles é mencionada no Novo Testamento, o relato do banquete sobre o sacrifício é citado e referido (1 Coríntios 10:7).
“Assentaram-se a comer e a beber” do que sobrou do que fora sacrificado, “e levantaram-se para folgar” — para folgar como tolos, para folgar como devassos.
Tal deus, tal culto. Não teriam feito de um bezerro o seu deus se não tivessem primeiro feito do seu ventre o seu deus; mas, sendo o deus uma piada, não é de admirar que o serviço fosse folia.
Sendo vãos nas suas imaginações, tornaram-se vãos no seu culto, tão grande era esta vaidade. Pois bem:
- Era estranho que qualquer um do povo, e especialmente um número tão grande deles, fizesse tal coisa.
Não tinham eles, ainda outro dia, neste próprio lugar, ouvido a voz do Senhor Deus falando-lhes do meio do fogo: “Não farás para ti imagem de escultura”?
Não tinham ouvido o trovão, visto os relâmpagos e sentido o terremoto, com a pompa terrível com que esta lei foi dada? Não tinham sido advertidos em particular a não fazer deuses de ouro? Êxodo 20:23.
Ou melhor: não tinham eles próprios entrado solenemente em aliança com Deus, e prometido que fariam tudo o que ele lhes tinha dito, e que seriam obedientes? Êxodo 24:7.
E, contudo, antes de se moverem do lugar onde esta aliança tinha sido solenemente ratificada, e antes que a nuvem se retirasse do cume do monte Sinai, quebrar assim um mandamento expresso, desafiando uma ameaça expressa de que esta iniquidade seria visitada sobre eles e sobre os seus filhos — o que se há de pensar disso?
É indicação clara de que a lei não era mais capaz de santificar do que de justificar: por ela vem o conhecimento do pecado, mas não a cura dele.
Isto está insinuado na ênfase posta sobre o lugar onde este pecado foi cometido (Salmos 106:19): “Fizeram um bezerro em Horebe” — o próprio lugar onde a lei foi dada.
Foi de outro modo com os que receberam o evangelho: logo se converteram dos ídolos, 1 Tessalonicenses 1:9.
- Era especialmente estranho que Arão estivesse tão profundamente implicado neste pecado, que fizesse ele o bezerro e proclamasse a festa!
É este Arão, o santo do Senhor, o irmão de Moisés, seu profeta, que sabia falar tão bem (Êxodo 4:14), e contudo não fala uma só palavra contra esta idolatria?
É este aquele que não só tinha visto, mas fora empregado em convocar, as pragas do Egito e os juízos executados sobre os deuses dos egípcios?
Como! E ele próprio a copiar as idolatrias devassas do Egito?
Com que cara podiam dizer “Estes são os teus deuses, que te tiraram do Egito”, quando trazem assim consigo a idolatria do Egito (a pior coisa que havia lá)?
É este o Arão que estivera com Moisés no monte (Êxodo 19:24; 24:9), e sabia que não se via ali semelhança alguma pela qual pudessem fazer uma imagem?
É este o Arão a quem foi confiado o cuidado do povo na ausência de Moisés? É ele que auxilia e incita nesta rebelião contra o Senhor?
Como era possível que ele algum dia fizesse coisa tão pecaminosa? Ou foi estranhamente apanhado de surpresa e o fez meio adormecido, ou foi levado a isso pelo susto, ante os desatinos da ralé.
Os judeus têm uma tradição de que, opondo-se a isso o seu colega Hur, o povo caiu sobre ele e o apedrejou (e por isso nunca mais lemos a respeito dele), e que isso, pelo susto, levou Arão a ceder.
E Deus o deixou entregue a si mesmo:
[1.] Para nos ensinar o que são os melhores dos homens quando assim são deixados; para que deixemos de confiar no homem, e para que quem pensa estar em pé tome cuidado, para não cair.
[2.] Arão estava, nesse momento, destinado por designação divina ao grande ofício do sacerdócio; embora ele não o soubesse, Moisés, no monte, sabia.
Pois bem, para que não se ensoberbecesse além da medida com as honras que lhe seriam postas, permitiu-se que um mensageiro de Satanás prevalecesse sobre ele, para que a lembrança disso o mantivesse humilde todos os seus dias.
Aquele que uma vez se desonrou a ponto de edificar um altar a um bezerro de ouro tem de reconhecer-se de todo indigno da honra de servir ao altar de Deus, e devedor puramente da graça gratuita por ela.
Assim o orgulho e a jactância foram para sempre silenciados, e um bom efeito foi tirado de uma causa má.
Por isto igualmente foi mostrado que a lei constituía sacerdotes homens que tinham fraqueza, e que precisavam primeiro oferecer pelos seus próprios pecados.
Versículos 7 a 14
A Intercessão de Moisés. (a.C. 1491.)
Aqui:
I. Deus dá a conhecer a Moisés o que se passava no arraial enquanto ele estava ausente, v. 7, 8.
Ele poderia ter-lhe dito mais cedo, logo que o primeiro passo foi dado nessa direção, e tê-lo feito descer depressa para impedir isso; mas permitiu que a coisa chegasse a este ponto, por fins sábios e santos, e então o mandou descer a fim de puni-la.
Repare: não é descrédito para a santidade de Deus que ele permita que o pecado seja cometido, pois ele sabe não só como refreá-lo quando lhe apraz, mas também como torná-lo útil aos desígnios da sua própria glória.
Observe o que Deus diz aqui a Moisés a respeito deste pecado:
Que eles se tinham corrompido. O pecado é a corrupção ou a depravação do pecador, e é uma autocorrupção; cada homem é tentado quando desviado pela sua própria concupiscência.
Que se tinham desviado do caminho. O pecado é um desvio do caminho do nosso dever para um atalho.
Quando prometeram fazer tudo o que Deus lhes ordenasse, partiram da melhor maneira possível; mas agora erraram o caminho e se desviaram.
- Que se tinham desviado depressa, depressa depois de a lei lhes ser dada e de eles terem prometido obedecer-lhe, depressa depois de Deus ter feito coisas tão grandes em favor deles e ter declarado as suas bondosas intenções de fazer maiores. Logo se esqueceram das obras dele.
Cair em pecado depressa depois de renovarmos as nossas alianças com Deus, ou de recebermos dele misericórdia especial, é muito provocante.
- Ele lhe diz em particular o que tinham feito: “Fizeram um bezerro e o adoraram.”
Repare: os pecados que são ocultados aos nossos governantes estão nus e abertos diante de Deus. Ele vê aquilo que eles não conseguem descobrir, nem há maldade nenhuma no mundo que lhe esteja oculta.
Não suportaríamos ver a milésima parte da provocação que Deus vê todos os dias e ainda assim se cala.
- Ele parece renegá-los, ao dizer a Moisés: “Eles são o teu povo, que tu fizeste subir da terra do Egito”; como se dissesse: “Não reconhecerei nenhuma relação com eles, nem preocupação por eles; nunca se diga que são o meu povo, ou que eu os tirei do Egito.”
Repare: os que se corrompem não só envergonham a si mesmos, mas até fazem o próprio Deus envergonhar-se deles e da bondade que teve para com eles.
- Ele o manda descer até eles com toda a pressa: “Vai, desce.”
Ele tem de interromper até a sua comunhão com Deus para ir cumprir o seu dever como magistrado entre o povo; assim também Josué, Josué 7:10. Cada coisa é bela no seu tempo.
II. Ele expressa o seu desagrado contra Israel por este pecado, e a determinação da sua justiça de exterminá-los, v. 9, 10.
- Ele dá a este povo o seu verdadeiro caráter: “É um povo de dura cerviz, pouco apto a vir para debaixo do jugo da lei divina, e governado como que por um espírito de contradição, avesso a todo bem e propenso ao mal, obstinado contra os métodos empregados para a sua cura.”
Repare: o Deus justo vê não só o que fazemos, mas também o que somos, não só as ações das nossas vidas, mas também as disposições dos nossos espíritos, e tem os olhos nelas em todos os seus procedimentos.
- Ele declara qual era o justo merecimento deles: que a sua cólera se acendesse contra eles, de modo a consumi-los de uma vez, e apagasse o nome deles de debaixo do céu (Deuteronômio 9:14); não só lançá-los fora da aliança, mas também expulsá-los do mundo.
Repare: o pecado nos expõe à cólera de Deus; e essa cólera, se não for abrandada pela misericórdia divina, nos queimará como restolho.
Seria justo da parte de Deus deixar a lei seguir o seu curso contra os pecadores e exterminá-los imediatamente no próprio ato do pecado; e, se ele o fizesse, não seria perda nem desonra para ele.
- Ele acena a Moisés com alicientes para não interceder por eles: “Portanto, deixa-me.”
O que fez Moisés, ou o que podia ele fazer, para impedir que Deus os consumisse? Quando Deus resolve abandonar um povo, e o decreto de ruína saiu, nenhuma intercessão pode evitá-lo, Ezequiel 14:14; Jeremias 15:1.
Mas Deus queria assim exprimir a grandeza do seu justo desagrado contra eles, ao modo dos homens, que não querem ninguém a interceder por aqueles com quem estão resolvidos a ser severos.
Assim também ele queria pôr honra sobre a oração, dando a entender que nada senão a intercessão de Moisés poderia salvá-los da ruína, para que ele fosse tipo de Cristo, por cuja mediação somente Deus reconciliaria consigo o mundo.
Para que a intercessão de Moisés se mostrasse ainda mais ilustre, Deus francamente lhe oferece que, se ele não interviesse neste assunto, faria dele uma grande nação.
Ou, com o correr do tempo, levantaria um povo dos lombos de Moisés, ou, de imediato, por um meio ou outro, traria outra grande nação sob o seu governo e a sua condução, de sorte que ele não sairia perdendo com a ruína deles.
Se Moisés tivesse tido um espírito estreito e egoísta, teria aceitado esta oferta; mas ele prefere a salvação de Israel ao engrandecimento da sua própria família. Aqui estava um homem apto para ser governante.
III. Moisés intercede fervorosamente com Deus a favor deles (vv. 11-13): ele “suplicou ao Senhor seu Deus”.
Se Deus não queria ser chamado o Deus de Israel, ainda assim Moisés esperava poder dirigir-se a ele como o seu próprio Deus. A influência que temos junto ao trono da graça devemos aproveitá-la em favor da igreja de Deus e dos nossos amigos.
Agora Moisés está de pé na brecha, para desviar a cólera de Deus, Salmos 106:23.
Ele sabiamente aproveitou a deixa que Deus lhe deu ao dizer “Deixa-me”, o que, embora parecesse proibir a sua intercessão, na verdade a animava, ao mostrar que poder tem junto de Deus a oração da fé.
Num caso como este, Deus se admira de que não haja intercessor, Isaías 59:16. Observe:
- A sua oração (v. 12): “Torna-te do furor da tua cólera”; não que ele pensasse que Deus não estava com justiça irado, mas ele pede que não estivesse tão grandemente irado a ponto de consumi-los.
“Que a misericórdia se glorie contra o juízo; arrepende-te deste mal; muda a sentença de destruição na de correção.”
- Os seus apelos. Ele enche a sua boca de razões, não para mover a Deus, mas para exprimir a sua própria fé e para acender o seu próprio fervor na oração. Ele insiste:
(1.) O interesse de Deus neles, as grandes coisas que já fizera em favor deles e o vasto dispêndio de favores e milagres que tivera com eles, v. 11.
Deus tinha dito a Moisés (v. 7): “Eles são o teu povo, que tu fizeste subir do Egito”; mas Moisés humildemente os devolve a Deus outra vez.
“Eles são o teu povo, tu és o Senhor e dono deles; eu sou apenas o servo deles. Tu os tiraste do Egito; eu fui apenas o instrumento na tua mão; fez-se, para o livramento deles, aquilo que só tu podias fazer.”
Ainda que o serem povo dele fosse motivo para que se irasse com eles por terem levantado outro deus, era, porém, motivo para que não se irasse tanto a ponto de consumi-los.
Nada é mais natural do que um pai corrigir o seu filho, mas nada mais antinatural do que um pai abater o seu filho.
E assim como a relação é um bom apelo (“eles são o teu povo”), também o é a experiência que tiveram da bondade dele para com eles.
“Tu os tiraste do Egito, ainda que fossem indignos e ali tivessem servido aos deuses dos egípcios, Josué 24:15. Se fizeste isso em favor deles, apesar dos seus pecados no Egito, desfarás isso por causa dos pecados deles da mesma natureza no deserto?”
(2.) Ele apela para a preocupação com a glória de Deus (v. 12): “Por que hão de dizer os egípcios: Para dano os tirou?”
Israel é caro a Moisés como a sua parentela, como o seu encargo; mas é a glória de Deus que mais lhe importa; isso lhe está mais perto do coração do que qualquer outra coisa.
Se Israel pudesse perecer sem nenhum descrédito para o nome de Deus, Moisés poderia persuadir-se a sentar-se contente; mas ele não suporta ouvir que Deus seja mal falado, e por isso insiste nisto: “Senhor, o que dirão os egípcios?”
Os olhos deles, e os olhos de todas as nações vizinhas, estavam agora sobre Israel; dos começos maravilhosos daquele povo eles levantavam as suas expectativas de algo grande no fim dele.
Mas, se um povo tão extraordinariamente salvo fosse subitamente arruinado, o que diria o mundo disso, especialmente os egípcios, que têm um ódio tão implacável tanto contra Israel quanto contra o Deus de Israel?
Eles diriam: “Deus ou era fraco, e não podia, ou era volúvel, e não queria, completar a salvação que começou; ele os trouxe para aquele monte não para sacrificar, como se alegava, mas para serem sacrificados.”
Eles não considerarão a provocação dada por Israel, que justificaria o proceder, mas acharão causa bastante para triunfar o fato de que Deus e o seu povo não puderam concordar, mas que o Deus deles fez aquilo que eles, os egípcios, desejavam ver feito.
Repare: assim como o glorificar-se o nome de Deus deve ser a nossa primeira petição (é assim na oração do Senhor), assim também deve ser o nosso grande apelo, Salmos 79:9.
“Não desonres o trono da tua glória”, Jeremias 14:21; e veja Jeremias 33:8, 9.
E, se quisermos apelar para isto diante de Deus, com consolo, como motivo para que ele não nos destrua, devemos apelar para isto diante de nós mesmos como motivo para que não o ofendamos: “O que dirão os egípcios?”
Devemos sempre zelar para que o nome de Deus e a sua doutrina não sejam blasfemados por nossa causa.
(3.) Ele apela para a promessa de Deus aos patriarcas, de que multiplicaria a semente deles e lhes daria a terra de Canaã por herança, promessa confirmada por um juramento, um juramento por si mesmo, visto que não podia jurar por outro maior, v. 13.
As promessas de Deus devem ser os nossos apelos na oração; pois o que ele prometeu ele é capaz de cumprir, e a honra desta verdade está empenhada no cumprimento dela.
“Senhor, se Israel for exterminado, o que será da promessa? Porventura a incredulidade deles a anulará? De modo nenhum.”
Assim devemos tirar o nosso ânimo na oração somente de Deus.
IV. Deus graciosamente abrandou o rigor da sentença, e se arrependeu do mal que tencionava fazer (v. 14); ainda que planejasse puni-los, ainda assim não quis arruiná-los. Veja aqui:
O poder da oração; Deus permite que a humilde e crente importunação dos intercessores prevaleça sobre ele.
A compaixão de Deus para com os pobres pecadores, e quão pronto ele está a perdoar.
Assim ele deu outras provas, além do seu próprio juramento, de que não tem prazer na morte dos que morrem; pois ele não só perdoa ao arrependimento dos pecadores, mas também poupa e concede suspensão da pena à intercessão de outros em favor deles.
Versículos 15 a 20
Moisés Quebra as Tábuas da Lei. (a.C. 1491.)
Aqui está:
I. O favor de Deus para com Moisés, ao confiar-lhe as duas tábuas do testemunho, que, embora de pedra comum, eram muito mais valiosas do que todas as pedras preciosas que ornavam o peitoral de Arão. O topázio da Etiópia não podia igualá-las, v. 15, 16.
O próprio Deus, sem o ministério de homem nem de anjo (até onde se vê), escreveu os dez mandamentos nestas tábuas, dos dois lados, alguns numa tábua e alguns na outra, de modo que ficavam dobradas juntas como um livro, para serem depositadas na arca.
II. A familiaridade entre Moisés e Josué. Enquanto Moisés estava na nuvem, como na câmara de audiência, Josué permanecia tão perto quanto podia, na antecâmara (por assim dizer), esperando até que Moisés saísse, para estar pronto a acompanhá-lo.
E, ainda que estivesse totalmente sozinho por quarenta dias (alimentado, é provável, com maná), não se cansou de esperar, como o povo se cansou; mas, quando Moisés desceu, ele desceu com ele, e não antes. E aqui nos é dito que interpretações eles deram ao ruído que ouviram no arraial, v. 17, 18.
Ainda que Moisés tivesse estado tanto tempo em comunhão direta com Deus, não desdenhou falar livremente com o seu servo Josué. Aqueles a quem Deus eleva, ele preserva de se inflarem.
Nem desdenhou falar dos negócios do arraial. O bem-aventurado Paulo não foi menos atento à igreja na terra por ter estado no terceiro céu, onde ouviu palavras inefáveis.
Josué, que era homem de armas e tinha o comando das milícias, temeu que houvesse ruído de guerra no arraial, e que então ele fizesse falta; mas Moisés, tendo recebido aviso disso da parte de Deus, distinguiu melhor o som e percebeu que era “a voz dos que cantam”.
Não parece, contudo, que ele tenha contado a Josué o que sabia da ocasião daquele canto; porque não devemos estar prontos a proclamar as faltas dos homens: elas serão conhecidas cedo demais.
III. O grande e justo desagrado de Moisés contra Israel, pela idolatria deles. Sabendo o que esperar, imediatamente se deu conta do bezerro de ouro e da folia que o povo fazia com ele.
Ele viu como podiam estar alegres na sua ausência, quão depressa foi esquecido entre eles, e que pouco pensavam nele e na sua volta.
Ele podia com justiça levar isso a mal, como afronta a si mesmo, mas essa era a menor parte da queixa; considerou-o uma ofensa a Deus e um escândalo para o povo dele.
Veja que mudança é descer do monte da comunhão com Deus para conviver com um mundo que jaz na maldade. Em Deus não vemos nada senão o que é puro e agradável; no mundo, nada senão poluição e provocação.
Moisés era o homem mais manso da terra e, ainda assim, quando viu o bezerro e as danças, a sua ira se acendeu.
Repare: não é quebra da lei da mansidão mostrar o nosso desagrado diante da maldade dos maus. Estão irados e não pecam aqueles que se iram somente contra o pecado, não por uma ofensa feita a si mesmos, mas por uma ofensa feita a Deus.
Éfeso é famosa pela paciência e, ainda assim, “não pode suportar os que são maus”, Apocalipse 2:2. Convém-nos ser frios na nossa própria causa, mas quentes na de Deus.
Moisés se mostrou muito irado, tanto ao quebrar as tábuas quanto ao queimar o bezerro, para que, por estas expressões de forte indignação, despertasse o povo para o senso da grandeza do pecado de que se tinham feito culpados.
Eles teriam estado prontos a fazer pouco caso do pecado se ele não tivesse assim mostrado o seu ressentimento, como quem estava deveras empenhado na convicção deles.
- Para convencê-los de que tinham decaído do favor de Deus e o haviam perdido, ele quebrou as tábuas, v. 19.
Ainda que Deus soubesse do pecado deles antes que Moisés descesse, não lhe ordenou que deixasse as tábuas para trás, mas deu-as a ele para levar na mão, para que o povo visse quão disposto Deus estava a tomá-los em aliança consigo, e que nada senão o próprio pecado deles o impedia.
Contudo, ele lhe pôs no coração, quando “a iniquidade de Efraim foi descoberta” (como diz a expressão, Oseias 7:1), quebrar as tábuas diante dos olhos deles (como está em Deuteronômio 9:17), para que a vista disso mais os afetasse e os enchesse de confusão, ao verem que bênçãos tinham perdido.
Assim, tendo eles cometido infração tão notória do tratado então em curso, os escritos foram rasgados, mesmo quando estavam prontos para ser selados.
Repare: o maior sinal do desagrado de Deus contra qualquer pessoa ou povo é ele lhes tirar a sua lei. O quebrar das tábuas é o quebrar dos cajados da Beleza e da União (Zacarias 11:10, 14); deixa um povo sem igreja e arruinado.
Alguns pensam que Moisés pecou ao quebrar as tábuas, e observam que, quando os homens estão irados, correm o risco de quebrar todos os mandamentos de Deus; mas parece antes ato de justiça do que de paixão, e não achamos que ele mesmo fale disso depois (Deuteronômio 9:17) com qualquer pesar.
- Para convencê-los de que tinham recorrido a um deus que não podia socorrê-los, ele queimou o bezerro (v. 20), fundiu-o e depois o limou até reduzi-lo a pó.
E, para que o pó a que foi reduzido fosse notado por todo o arraial, espalhou-o sobre aquela água de que todos bebiam.
Para que ficasse claro que “um ídolo nada é no mundo” (1 Coríntios 8:4), ele o reduziu a átomos, para que fosse o mais perto do nada que fosse possível.
Para mostrar que os falsos deuses não podem socorrer os seus adoradores, ele mostrou aqui que este não podia salvar a si mesmo, Isaías 46:1, 2.
E, para nos ensinar que todas as relíquias da idolatria devem ser abolidas, e que os nomes dos baalins devem ser tirados, o próprio pó a que foi moído foi espalhado.
As limalhas de ouro são preciosas (dizemos nós), e por isso são cuidadosamente recolhidas; mas as limalhas do bezerro de ouro eram odiosas, e tinham de ser espalhadas com detestação.
Assim os ídolos de prata e de ouro devem ser “lançados às toupeiras e aos morcegos” (Isaías 2:20; 30:22), e Efraim dirá: “Que tenho eu mais com os ídolos?”
O misturar esse pó na bebida deles lhes significava que a maldição que assim tinham trazido sobre si se misturaria a tudo o que desfrutassem e o amargaria.
Ela entraria nas suas entranhas como água, e como azeite nos seus ossos. O desviado de coração será farto dos seus próprios caminhos; beberá conforme fermentou. Estas eram, de fato, águas de Mara.
Versículos 21 a 29
Moisés Repreende Arão; Destruição dos Idólatras. (a.C. 1491.)
Moisés, tendo mostrado a sua justa indignação contra o pecado de Israel ao quebrar as tábuas e queimar o bezerro, passa agora a acertar contas com os pecadores e a chamá-los a prestar contas.
Nisso ele age como representante de Deus, que não é só santo e odeia o pecado, mas também é justo, e a sua honra o compromete a puni-lo, Isaías 59:18. Pois bem:
I. Ele começa com Arão, como Deus começou com Adão, porque ele era a pessoa principal, ainda que não fosse o primeiro na transgressão, mas tenha sido arrastado a ela. Observe aqui:
- A justa repreensão que Moisés lhe dá, v. 21.
Ele não manda que Arão seja eliminado, como aqueles (v. 27) que tinham sido os instigadores do pecado.
Repare: será feita grande diferença entre os que presunçosamente se lançam no pecado e os que por fraqueza são apanhados por ele de surpresa, entre os que vão atrás da falta, embora ela lhes fuja, e os que são alcançados pela falta da qual procuram fugir. Veja Gálatas 6:1.
Não que Arão não merecesse ser eliminado por este pecado, e o teria sido se Moisés não tivesse intercedido particularmente por ele, como se vê em Deuteronômio 9:20.
E, tendo conseguido de Deus o intento por ele, para salvá-lo da ruína, aqui argumenta com ele, para levá-lo ao arrependimento. Ele leva Arão a considerar:
(1.) O que ele tinha feito a este povo: “Trouxeste sobre eles tão grande pecado.”
O pecado da idolatria é um grande pecado, tão grande que o mal que há nele não se pode exprimir.
Do povo, que dera início a tudo, podia-se dizer que levou Arão ao pecado; mas Arão, como magistrado que deveria reprimi-lo e, em vez disso, o ajudou e favoreceu, de fato levou o pecado ao povo, pois endureceu o coração deles e fortaleceu as suas mãos para cometê-lo.
É chocante que governantes façam a vontade do povo nos seus pecados e deem apoio àquilo que deveriam combater com autoridade.
Observe, em geral: os que trazem o pecado sobre outros, seja arrastando-os a ele, seja encorajando-os nele, fazem mais estrago do que percebem; de fato odiamos aqueles a quem levamos ao pecado ou deixamos permanecer nele, Levítico 19:17.
Os que participam do pecado ajudam a arruinar os seus parceiros, e de fato destroem uns aos outros.
(2.) O que o levou a isso: “Que te fez este povo?”
Ele dá por certo que só algo fora do comum poderia ter levado Arão a fazer tal coisa, insinuando assim uma desculpa para ele, porque sabia que o seu coração era reto.
“Que fizeram eles? Dirigiram-se a ti com boas palavras e te persuadiram a fazê-lo? E ousaste desagradar ao teu Deus para agradar ao povo?”
“Venceram-te pela importunação; e tinhas tão pouca resolução que cedeste à torrente de um clamor popular?”
“Ameaçaram apedrejar-te; e não podias ter oposto as ameaças de Deus às deles, e atemorizá-los pior do que eles podiam atemorizar a ti?”
Repare: nunca devemos ser arrastados ao pecado por coisa alguma que o homem possa nos dizer ou nos fazer, porque não nos justificará dizer que assim fomos arrastados.
Os homens só podem nos tentar ao pecado; não podem nos forçar. Os homens só podem nos atemorizar; se não cedermos, não podem nos ferir.
- A desculpa frívola que Arão dá por si mesmo.
Esperemos que ele tenha testemunhado depois o seu arrependimento por este pecado melhor do que o fez agora; porque o que ele diz aqui tem pouco da linguagem de um penitente. Se um justo cai, ele se levantará outra vez, mas talvez não depressa.
(1.) Ele roga que se afaste apenas a ira de Moisés, quando deveria ter rogado em primeiro lugar contra a ira de Deus: “Não se acenda a ira do meu senhor”, v. 22.
(2.) Ele lança toda a culpa sobre o povo: estavam inclinados ao mal e lhe tinham pedido que fizesse deuses para eles.
É natural para nós procurar assim transferir a nossa culpa; isso faz parte da nossa natureza: Adão e Eva fizeram o mesmo. O pecado é uma cria que ninguém quer reconhecer como sua.
Arão era então o principal magistrado e tinha poder sobre o povo, e no entanto alega que o povo o dominou; ele, que tinha autoridade para contê-los, tinha tão pouca resolução que cedeu a eles.
(3.) Seria bom que ele não tivesse pretendido lançar uma censura sobre Moisés, como cúmplice do pecado por demorar tanto no monte, ao repetir, sem necessidade, aquela suspeita odiosa do povo: “Quanto a este Moisés, não sabemos o que lhe aconteceu”, v. 23.
(4.) Ele atenua e esconde a sua própria parte no pecado, como se apenas lhes tivesse mandado tirar o ouro que traziam consigo, pretendendo fazer uma experiência rápida por ora e ver o que poderia produzir com o ouro que estava mais à mão.
E puerilmente insinua que, quando lançou o ouro no fogo, ele saiu com esta forma, ou por acaso ou pela arte mágica de alguns da multidão mista (como sonham os escritores judeus); mas nem uma palavra de tê-lo cinzelado e modelado, v. 24.
Apesar disso, Moisés relata a todas as eras o que ele fez (v. 4), embora ele mesmo aqui não o quisesse admitir. Repare: quem encobre o seu pecado não prosperará, porque cedo ou tarde ele será descoberto.
Pois bem, isto foi tudo o que Arão teve a dizer em sua defesa; e teria sido melhor não ter dito nada, porque a sua defesa apenas agravou a sua ofensa.
E, no entanto, ele não só é poupado, mas promovido; assim como o pecado abundou, a graça superabundou muito mais.
II. O povo é o próximo a ser julgado por este pecado. A chegada de Moisés logo estragou a folia deles e transformou a sua dança em tremor.
Os que intimidaram Arão a condescender com eles no seu pecado não ousaram olhar Moisés na cara, nem fazer a menor oposição à severidade que ele achou por bem usar tanto contra o ídolo quanto contra os idólatras.
Repare: não é impossível fazer que pecados cometidos com ousada presunção pareçam desprezíveis, quando os seus insolentes perpetradores se esgueiram, esmagados pela própria confusão.
O rei que se assenta no trono do juízo dissipa com os olhos todo o mal. Observe duas coisas:
- Como ficaram expostos à vergonha pelo seu pecado: “O povo estava despido” (v. 25), não tanto porque alguns deles tinham perdido os brincos (isso era insignificante), mas porque tinham perdido a integridade.
E jaziam sob a censura de ingratidão para com o seu melhor benfeitor, e de uma traiçoeira revolta contra o seu legítimo Senhor.
Era vergonha para eles, e mancha perpétua, que tivessem mudado a sua glória na semelhança de um boi.
Outras nações se gabavam de ser fiéis aos seus deuses falsos; bem pode Israel corar por ser infiel ao Deus verdadeiro.
Assim foram despidos, despojados dos seus ornamentos e expostos ao desprezo; despojados da sua armadura e sujeitos a insultos. Assim os nossos primeiros pais, quando pecaram, ficaram despidos, para vergonha deles.
Repare: os que trazem desonra a Deus trazem realmente a maior desonra sobre si mesmos. Foi assim que Israel fez aqui, e Moisés se afligiu ao ver isso, embora eles mesmos não se afligissem; ele viu que estavam despidos.
- O caminho que Moisés tomou para tirar esta censura, não escondendo o pecado nem lhe dando uma aparência enganosa, mas punindo-o e assim dando testemunho público contra ele.
Sempre que lhes fosse lançado no rosto que tinham feito um bezerro em Horebe, poderiam responder aos que os censuravam que, embora fosse verdade que houve quem fizesse isso, a justiça foi executada sobre eles.
O governo desaprovou o pecado e não permitiu que os pecadores ficassem impunes. Eles o fizeram, mas pagaram caro por isso.
Assim (disse Deus) “tirarás o mal do meio de ti”, Deuteronômio 13:5. Observe aqui:
(1.) Por quem a vingança foi tomada: pelos filhos de Levi (v. 26, 28).
Não pela mão direta do próprio Deus, como sobre Nadabe e Abiú, mas pela espada do homem, para lhes ensinar que a idolatria era uma iniquidade a ser punida pelo juiz, por ser uma negação do Deus que está acima, Jó 31:28; Deuteronômio 13:9.
Devia ser feito pela espada dos seus próprios irmãos, para que a execução da justiça redundasse mais para a honra da nação.
E, se agora tinham de cair nas mãos do homem, melhor assim do que fugir diante dos seus inimigos.
Os inocentes deviam ser escolhidos para ser os executores dos culpados, para que isso fosse para eles mesmos aviso tanto mais eficaz, e não fizessem o mesmo outra vez.
E pô-los num serviço tão desagradável, e tão a contragosto como este necessariamente era, matar os seus vizinhos mais próximos, era também castigo para eles por não terem aparecido antes para impedir o pecado e resistir a ele.
Os levitas em particular foram empregados em fazer esta execução; porque, ao que parece, mais membros dessa tribo se haviam conservado livres do contágio do que membros de qualquer outra.
O que era tanto mais louvável quanto Arão, o chefe da sua tribo, estava tão profundamente envolvido nisso. Aqui nos é dito:
[1.] Como os levitas foram convocados para este serviço: Moisés pôs-se à porta do arraial, o lugar do juízo; ali desfraldou um estandarte, por assim dizer, por causa da verdade, para alistar soldados para Deus.
Ele proclamou: “Quem está do lado do Senhor?” Os idólatras tinham levantado o bezerro de ouro por seu estandarte, e agora Moisés levantava o seu, em oposição a eles.
Agora Moisés se vestiu de zelo como de um manto, e convocou todos os que estavam do lado de Deus a comparecer imediatamente, contra o bezerro de ouro.
Ele não proclama, como Jeú: Quem está do meu lado (2 Reis 9:32), para vingar a afronta feita a mim? Em vez disso, proclama: “Quem está do lado do Senhor?” Era a causa de Deus que ele abraçava contra os malfeitores, Salmos 94:16. Repare:
Primeiro, há dois grandes interesses em jogo no mundo, e com um ou com outro todos os filhos dos homens estão tomando partido.
O interesse do pecado e da maldade é o interesse do diabo, e todos os ímpios tomam partido com esse interesse; o interesse da verdade e da santidade é o interesse de Deus, com o qual todos os piedosos tomam partido; e é um caso que não admite neutralidade.
Segundo, importa a todos nós indagar se estamos ou não do lado do Senhor.
Terceiro, os que estão do lado dele são, comparativamente, apenas poucos, e às vezes parecem menos do que realmente são.
Quarto, Deus às vezes chama os que estão do lado dele a comparecer por ele, como testemunhas, como soldados, como intercessores.
[2.] Como foram comissionados para este serviço (v. 27): “Matai cada um o seu irmão”, isto é: “Matai todos aqueles que sabeis terem sido ativos em fazer e adorar o bezerro de ouro, ainda que fossem os vossos parentes mais próximos ou os vossos amigos mais queridos.”
O crime foi cometido publicamente, os levitas viram quais dos seus conhecidos estavam envolvidos nele, e por isso não precisavam de outra indicação senão o próprio conhecimento de quem matar.
E provavelmente a maior parte dos culpados era conhecida, e conhecida como tal, por um ou outro dos levitas empregados na execução.
Ao que parece, porém, deviam matar somente aqueles que encontrassem fora, nas ruas do arraial; porque era de esperar que os que se tinham recolhido às suas tendas estivessem envergonhados do que tinham feito, e de joelhos, arrependendo-se.
Estão marcados para a ruína os que persistem no pecado e não se envergonham das abominações que cometeram, Jeremias 8:12.
Mas como ousaram os levitas enfrentar corpo tão grande, que provavelmente estava muito enfurecido pela queima do seu bezerro?
É fácil explicar isto: o sentimento de culpa desanimou os culpados, e uma comissão divina animou os executores.
E uma coisa que lhes deu ânimo foi que Moisés tinha dito: “Consagrai-vos hoje ao Senhor, para que ele vos conceda uma bênção.”
Com isso lhes dava a entender que agora estavam em boa posição para receber uma distinção e que, se apenas se destacassem nesta ocasião, isso seria interpretado como uma consagração de si mesmos a Deus e ao serviço dele, trazendo honra perpétua à sua tribo.
Aos que se consagram ao Senhor, ele os separará para si. Os que cumprem o dever terão a dignidade; e, se prestarmos serviços notáveis a Deus, ele nos concederá bênçãos especiais.
Havia uma bênção destinada à tribo de Levi; então diz Moisés: “Consagrai-vos ao Senhor, para que vos qualifiqueis a receber a bênção.”
Os levitas deviam ajudar na oferta do sacrifício a Deus; e agora tinham de começar oferecendo estes sacrifícios em honra da justiça divina.
Os que devem servir nas coisas santas têm de ser não só sinceros e sérios, mas fervorosos e zelosos, ousados e corajosos, por Deus e pela piedade.
Assim, todos os cristãos, em especial os ministros, devem deixar pai e mãe e colocar o serviço de Cristo e sua causa muito acima dos parentes mais próximos e queridos; pois, se amamos nossos parentes mais do que a Cristo, não somos dignos dele. Veja como este zelo dos levitas é louvado, Deuteronômio 33:9.
(2.) Sobre quem a vingança é tomada: “Caíram do povo naquele dia cerca de três mil homens”, v. 28.
Provavelmente estes eram poucos, em comparação com os muitos que eram culpados; mas estes eram os homens que encabeçaram a rebelião, e por isso foram escolhidos para servir de exemplo, para terror de todos os outros.
Os que de manhã estavam gritando e dançando, antes da noite estavam morrendo no próprio sangue.
Tal mudança repentina fazem às vezes os juízos de Deus com os pecadores que estão seguros e alegres no seu pecado, como com Belsazar pela escrita na parede.
Isto está escrito para aviso nosso. 1 Coríntios 10:7: “Nem sejam idólatras, como alguns deles.”
Versículos 30 a 35
A Intercessão de Moisés. (a.C. 1491.)
Moisés, tendo executado a justiça sobre os principais ofensores, trata aqui tanto com o povo quanto com Deus.
I. Com o povo, para levá-lo ao arrependimento, v. 30.
- Quando alguns foram mortos, para que os demais não imaginassem que, por estarem isentos da pena capital, eram por isso tidos por livres de culpa, Moisés diz aqui aos sobreviventes: “Vós pecastes um grande pecado; e portanto, ainda que desta vez tenhais escapado, se não vos arrependerdes, todos perecereis igualmente.”
Para que não fizessem pouco caso do pecado em si, ele o chama de “grande pecado”; e para que não se julgassem inocentes, porque talvez não fossem todos tão profundamente culpados quanto alguns dos que foram mortos, ele diz a todos: “Vós pecastes um grande pecado.”
O trabalho dos ministros é mostrar ao povo os seus pecados, e a grandeza dos seus pecados.
“Vós pecastes, e portanto estais perdidos se os vossos pecados não forem perdoados; para sempre perdidos, sem um Salvador. É um grande pecado, e portanto pede grande tristeza, porque vos põe em grande perigo.”
Para impressioná-los com a grandeza do seu pecado, ele lhes insinua quão difícil seria compor a desavença que Deus tinha com eles por causa disso:
(1.) Não se comporia, a não ser que ele mesmo subisse ao Senhor de propósito e se aplicasse por tanto tempo e tão solenemente quanto se aplicara para receber a lei.
(2.) E, contudo, mesmo assim era apenas uma possibilidade que ele fizesse expiação por eles; o caso era extremamente arriscado.
Isto deveria convencer-nos do grande mal que há no pecado: que aquele que se encarregou de fazer expiação achou que não era coisa fácil de fazer; ele teve de subir ao Senhor com o seu próprio sangue para fazer expiação. A malignidade do pecado aparece no preço dos perdões.
- Ainda assim era algum encorajamento para o povo (quando lhes foi dito que tinham pecado um grande pecado) ouvir que Moisés, que tinha tanta influência no céu e tão verdadeira afeição por eles, subiria ao Senhor para fazer expiação por eles.
A consolação deve andar junto com a convicção: primeiro ferir, depois curar; primeiro mostrar ao povo a grandeza do seu pecado, e depois dar-lhe a conhecer a expiação e dar-lhe esperanças de misericórdia.
Moisés subirá ao Senhor, ainda que seja apenas uma possibilidade que ele faça expiação.
Cristo, o grande Mediador, foi com maior certeza do que esta, porque estivera no seio do Pai e conhecia perfeitamente todos os seus conselhos.
Mas para nós, pobres suplicantes, é encorajamento bastante, na oração por misericórdias particulares, que exista a possibilidade de obtê-las, ainda que não tenhamos uma promessa absoluta. Sofonias 2:3: “Pode ser que sejais escondidos.”
Nas nossas orações pelos outros, devemos ser humildemente insistentes com Deus, ainda que seja apenas uma possibilidade que Deus lhes dê arrependimento, 2 Timóteo 2:25.
II. Ele intercede junto a Deus por misericórdia. Observe:
- Quão comovente foi o seu discurso. Moisés voltou ao Senhor, não para receber mais instruções acerca do tabernáculo: naquele momento não houve mais conversas sobre o assunto.
Assim os pecados e as insensatezes dos homens dão trabalho aos seus amigos e ministros — trabalho desagradável, muitas vezes — e interrompem grandemente o trabalho em que estes se deleitam.
Moisés, neste discurso, exprime:
(1.) A sua grande detestação do pecado do povo, v. 31. Ele fala como quem está tomado do horror daquilo: “Oh! este povo pecou um grande pecado.”
Deus lhe tinha falado disso primeiro (v. 7), e agora ele fala disso a Deus, por modo de lamentação.
Ele não os chama povo de Deus — sabia que eram indignos de ser assim chamados —, mas “este povo”, este povo traiçoeiro e ingrato, que fez para si deuses de ouro.
É de fato um grande pecado fazer do ouro o nosso deus, como fazem aqueles que o tornam a sua esperança e nele põem o coração.
Ele não trata de desculpar nem de atenuar o pecado; mas o que dissera a eles para convencê-los, diz a Deus como confissão: eles pecaram um grande pecado.
Não veio apresentar desculpas, mas fazer expiação. Ele pede ao Senhor que perdoe o pecado, porque é grande (Salmos 25:11).
(2.) O seu grande desejo do bem-estar do povo (v. 32): mas agora não é pecado grande demais para a misericórdia infinita perdoar, e portanto: “se perdoares o pecado deles”.
E então, Moisés? É uma expressão abrupta: “Se quiseres, não peço mais; se quiseres, serás louvado, eu ficarei satisfeito e abundantemente recompensado pela minha intercessão.”
É uma expressão como a do cultivador da vinha (Lucas 13:9), “Se der fruto”; ou “se perdoares” equivale a “Oh, se quisesses perdoar!”, como em Lucas 19:42 “se tivesses conhecido” é “Oh, se tivesses conhecido!”.
“Mas se não, se o decreto já saiu e não há remédio, e eles têm de ser arruinados; se este castigo que já foi infligido a muitos não é suficiente (2 Coríntios 2:6), e todos têm de ser cortados, risca-me, peço-te, do livro que escreveste.”
Isto é: “Se eles têm de ser cortados, que eu seja cortado com eles e privado de Canaã; se todo o Israel tem de perecer, contento-me em perecer com eles; que a terra da promessa não seja minha por direito de sobrevivente.”
Esta expressão pode ser esclarecida por Ezequiel 13:9, onde se ameaça aos falsos profetas que não serão escritos no registro da casa de Israel nem entrarão na terra de Israel.
Deus tinha dito a Moisés que, se ele não se interpusesse, faria dele uma grande nação, v. 10.
“Não”, diz Moisés, “estou tão longe de desejar ver o meu nome e a minha família edificados sobre as ruínas de Israel, que antes escolherei afundar com eles.”
“Se não posso impedir a destruição deles, que eu não a veja (Números 11:15); que eu não seja escrito entre os vivos (Isaías 4:3), nem entre os que estão marcados para a preservação; deixa-me até morrer na última trincheira.”
Assim ele exprime a sua terna afeição pelo povo, e é um tipo do bom Pastor, que dá a sua vida pelas ovelhas (João 10:11), que devia ser cortado da terra dos viventes pela transgressão do meu povo, Isaías 53:8; Daniel 9:26.
Ele é também um exemplo de espírito público para todos, especialmente para os que ocupam postos públicos.
Todos os interesses particulares devem ficar subordinados ao bem e ao bem-estar das comunidades.
Pouco importa o que será de nós e das nossas famílias neste mundo, contanto que vá bem com a igreja de Deus e haja paz sobre Israel.
Assim Moisés importuna por um perdão e luta com Deus, sem prescrever-lhe (“Se não perdoares, és ou injusto ou sem bondade”); não, ele está longe disso; mas: “Se não, deixa-me morrer com os israelitas, e faça-se a vontade do Senhor.”
- Observe quanto o seu discurso obteve. Deus não o tomou pela palavra: não; ele não riscará ninguém do seu livro senão os que, pela sua desobediência voluntária, perderam a honra de estar nele inscritos (v. 33); a alma que peca, essa morrerá, e não o inocente pelo culpado.
Isto era também uma insinuação de misericórdia para o povo: que não seriam todos destruídos em massa, mas somente os que tiveram parte no pecado. Assim Moisés vai ganhando terreno aos poucos.
Deus não quis dar-lhe de saída plena segurança de estar reconciliado com eles, para que, se o consolo de um perdão fosse obtido com facilidade demais, não se animassem a fazer o mesmo outra vez e não fossem levados a sentir bastante o mal do pecado.
Os consolos são suspensos para que as convicções sejam impressas mais fundo; e Deus quis também, com isso, exercitar a fé e o zelo de Moisés, o grande intercessor deles.
Ademais, em resposta ao discurso de Moisés:
(1.) Deus promete, apesar disto, prosseguir com o seu bondoso intento de lhes dar a terra de Canaã, a terra de que lhes falara, v. 34.
Por isso ele manda Moisés de volta a eles para conduzi-los, ainda que fossem indignos dele, e promete que o seu anjo iria adiante deles: algum anjo criado que era empregado nos serviços comuns do reino da providência.
Isso insinuava que eles não deviam esperar que no futuro se fizesse por eles coisa alguma fora do caminho comum da providência, nada de extraordinário.
Moisés obteve depois a promessa da presença especial de Deus com eles (Êxodo 33:14, 17); mas, no momento, isto era tudo o que ele podia obter.
(2.) Contudo, ele ameaça lembrar-se deste pecado contra eles quando dali em diante visse razão para castigá-los por outros pecados: quando os visitasse, incluiria este pecado entre os demais. Da próxima vez que tomasse a vara na mão, eles receberiam um golpe a mais por causa disso.
Os judeus têm um dito, fundado nisto: que dali em diante nenhum juízo caiu sobre Israel em que não houvesse uma onça do pó do bezerro de ouro.
Não vejo fundamento na Escritura para a opinião de alguns, de que Deus não os teria sobrecarregado com tal multidão de sacrifícios e outras instituições cerimoniais se não o tivessem provocado adorando o bezerro de ouro.
Pelo contrário, Estêvão diz que, quando fizeram um bezerro e ofereceram sacrifício ao ídolo, “Deus se voltou e os entregou a adorar o exército do céu” (Atos 7:41, 42).
De modo que o estranho apego daquele povo ao pecado da idolatria era um justo juízo sobre eles por terem feito e adorado o bezerro de ouro, e um juízo do qual nunca ficaram de todo livres até o cativeiro da Babilônia. Veja Romanos 1:23-25.
Repare: muitos que não são cortados de imediato nos seus pecados são reservados para um dia de acerto de contas ulterior; a vingança é lenta, mas certa.
No momento, o Senhor feriu o povo (v. 35), provavelmente pela peste, ou alguma outra doença infecciosa, que era mensageira da ira de Deus e prenúncio de coisa pior.
Arão fez o bezerro, e ainda assim se diz que o povo o fez, porque o adorou. Deos qui rogat, ille facit — Quem pede deuses, ele os faz.
Arão não foi ferido, mas o povo; porque o dele foi pecado de fraqueza, e o deles pecado de presunção, entre os quais há uma grande diferença, nem sempre discernível para nós, mas evidente para Deus, cujo juízo, por isso, temos certeza, é segundo a verdade.
Assim Moisés conseguiu uma suspensão da pena e uma mitigação do castigo, mas não pôde desviar de todo a ira de Deus.
Isto (alguns pensam) mostra a incapacidade da lei de Moisés para reconciliar os homens com Deus e para aperfeiçoar a nossa paz com ele, o que ficou reservado para Cristo realizar, em quem somente Deus perdoa o pecado de tal modo que não mais se lembra dele.