Êxodo 31
Argumento
Deus está aqui chegando ao fim do que tinha a dizer a Moisés no monte, onde já estava com ele havia quarenta dias e quarenta noites; e, ainda assim, do que lhe foi dito em todo esse tempo não se registra nada além do que lemos nos seis capítulos anteriores. Nisto:
I. Ele designa que obreiros seriam empregados na construção e na preparação do tabernáculo, vv. 1-11.
II. Ele repete a lei do sábado e a observância religiosa dela, vv. 12-17.
III. Ele lhe entrega, na despedida, as duas tábuas do testemunho, v. 18.
Versículos 1 a 11
A Designação de Bezalel e Aoliabe. (a.C. 1491.)
Deus tinha mandado fazer muita obra esmerada acerca do tabernáculo; os materiais o povo devia fornecer, mas quem tinha de pô-los em forma?
O próprio Moisés tinha toda a erudição dos egípcios; mais que isso, conhecia bem as palavras de Deus e as visões do Todo-Poderoso; mas não sabia gravar nem bordar.
Podemos supor que havia entre os israelitas alguns homens muito engenhosos; mas, tendo vivido todos os seus dias em servidão no Egito, não podemos pensar que algum deles fosse instruído nessas artes primorosas.
Sabiam fazer tijolo e trabalhar em barro, mas nunca tinham sido treinados para trabalhar em ouro nem para lapidar diamantes.
Como devia ser feita a obra com o esmero e a exatidão que se exigiam, quando não tinham ourives nem joalheiros senão os que tivessem de sair de pedreiros e de assentadores de tijolo?
Podemos supor que havia número suficiente dos que de bom grado seriam empregados e fariam o seu melhor; mas seria difícil achar pessoa própria para presidir a esta obra. Quem era suficiente para estas coisas? Mas Deus cuida também deste assunto.
I. Ele nomeia as pessoas que seriam empregadas, para que não houvesse disputa pela distinção nem inveja dos que fossem distinguidos, tendo o próprio Deus feito a escolha.
- Bezalel seria o arquiteto, ou mestre da obra, v. 2.
Era da tribo de Judá, tribo que Deus se agradava de honrar; neto de Hur, provavelmente aquele Hur que ajudara a sustentar as mãos de Moisés (Êxodo 17) e que estava neste tempo encarregado, junto com Arão, do governo do povo na ausência de Moisés (Êxodo 24:14).
Foi dessa família, que era de nota em Israel, que o obreiro foi escolhido, e não acrescentou pouca honra à família que um ramo dela fosse empregado, ainda que só como operário, ou artífice de ofício manual, para o serviço do tabernáculo.
A tradição dos judeus é que Hur era o marido de Miriã; e, se assim é, era necessário que Deus o designasse para este serviço, para que, se o próprio Moisés o tivesse feito, não fosse tido por parcial para com os seus próprios parentes, sendo o seu irmão Arão também elevado ao sacerdócio.
Deus porá honra sobre os parentes de Moisés e, contudo, fará com que se veja que Moisés não toma a honra para si nem para a sua própria família, mas que é puramente obra do Senhor.
- Aoliabe, da tribo de Dã, é designado logo depois de Bezalel, e como companheiro dele, v. 6. Dois são melhores do que um.
Cristo enviou de dois em dois os seus discípulos, que deviam erguer o tabernáculo do evangelho, e lemos das suas duas testemunhas.
Aoliabe era da tribo de Dã, que era uma das tribos menos honradas, para que as tribos de Judá e de Levi não se exaltassem, como se lhes coubessem todas as distinções.
Para evitar um cisma no corpo, Deus dá honra àquela parte que carecia dela, 1 Coríntios 12:24. A cabeça não pode dizer ao pé: “Não tenho necessidade de ti.”
Hirão, que foi o obreiro principal na construção do templo de Salomão, era também da tribo de Dã, 2 Crônicas 2:14.
- Havia outros que eram empregados por estes e debaixo destes nas diversas operações acerca do tabernáculo, v. 6.
Repare: quando Deus tem obra a fazer, nunca lhe faltarão instrumentos com que fazê-la, porque todos os corações, e as cabeças também, estão debaixo do seu olho e na sua mão.
E podem alegremente empreender qualquer serviço para Deus, e prosseguir nele, aqueles que têm razão para pensar que, de um modo ou de outro, ele os chamou para isso; porque a quem ele chama, ele reconhecerá e sustentará.
II. Ele habilita estas pessoas para o serviço (v. 3): “Enchi-o do Espírito de Deus”; e (v. 6) “nos corações de todos os que são sábios de coração pus sabedoria”.
Repare: 1. A habilidade nas artes e ocupações comuns é dom de Deus; dele derivam tanto a aptidão quanto o seu aperfeiçoamento.
É ele que põe até esta sabedoria no interior, Jó 38:36. Ele ensina discernimento ao lavrador (Isaías 28:26) e ao artífice também; e ele deve receber o louvor por isso.
- Deus dispensa os seus dons de modos diversos, um dom a um, outro a outro, e todos para o bem do corpo inteiro, tanto o do gênero humano quanto o da igreja.
Moisés era o mais apto de todos para governar Israel, mas Bezalel era mais apto do que ele para construir o tabernáculo.
O bem comum é muito sustentado pela variedade das faculdades e das inclinações dos homens; a aptidão natural de uns os leva a ser úteis de um modo, e a de outros, de outro modo, e “todas estas coisas opera um e o mesmo Espírito”, 1 Coríntios 12:11.
Isto proíbe o orgulho, a inveja, o desprezo e a emulação carnal, e fortalece o vínculo do amor mútuo.
- Aqueles a quem Deus chama para algum serviço, ele ou os achará aptos para ele, ou os fará aptos.
Se Deus dá a comissão, ele dará em alguma medida as qualificações, conforme for o serviço.
A obra que devia ser feita aqui era fazer o tabernáculo e os utensílios dele, que são aqui particularmente enumerados, v. 7, etc. E para isto as pessoas empregadas foram habilitadas a trabalhar em ouro, em prata e em bronze.
Quando Cristo enviou os seus apóstolos para erguer o tabernáculo do evangelho, derramou sobre eles o seu Espírito, para habilitá-los a falar em línguas as obras maravilhosas de Deus; não para trabalhar sobre metal, mas para trabalhar sobre homens.
Tanto mais excelentes eram os dons, quanto o tabernáculo a ser armado era “um maior e mais perfeito tabernáculo”, como lhe chama o apóstolo, Hebreus 9:11.
Versículos 12 a 18
A Observância do Sábado. (a.C. 1491.)
Aqui está:
I. Um mandamento rigoroso para a santificação do dia de sábado, vv. 13-17.
A lei do sábado lhes tinha sido dada antes de qualquer outra lei, a modo de preparação (Êxodo 16:23); foi inserida no corpo da lei moral, no quarto mandamento; foi anexada à lei judicial (Êxodo 23:12); e aqui é acrescentada à primeira parte da lei cerimonial, porque a observância do sábado é de fato a bainha e a cerca de toda a lei.
Onde não se faz consciência disso, adeus tanto à piedade quanto à honestidade; pois, na lei moral, ele fica no meio, entre as duas tábuas.
Alguns sugerem que ele entra aqui por outra razão. Foram dadas agora ordens de que um tabernáculo fosse levantado e aparelhado para o serviço de Deus com toda a presteza possível.
Mas, para que não pensassem que a natureza da obra, e a pressa que ela exigia, os justificaria em trabalhar nela em dias de sábado, a fim de terminá-la mais cedo, esta advertência é inserida oportunamente: “Certamente, ou contudo, os meus sábados guardareis.”
Ainda que devessem apressar a obra, não deviam ter tanta pressa que prejudicassem a boa execução; não deviam quebrar a lei do sábado na sua pressa: até a obra do tabernáculo deve ceder ao descanso do sábado; tão zeloso é Deus pela honra dos seus sábados.
Observe o que se diz aqui a respeito do dia de sábado:
- A natureza, o sentido e a intenção do sábado, pela declaração dos quais Deus lhe põe honra e nos ensina a valorizá-lo. Aqui se dizem diversas coisas do sábado:
(1.) Ele é “um sinal entre mim e vós” (v. 13), e de novo, v. 17.
A instituição do sábado era uma grande mostra do favor de Deus para com eles, e um sinal de que ele os tinha distinguido de todos os outros povos; e a observância religiosa que faziam do sábado era uma grande mostra do dever e da obediência deles para com ele.
Deus, santificando este dia entre eles, deu-lhes a saber que ele os santificava e os separava para si e para o seu serviço; de outro modo não lhes teria revelado os seus santos sábados, para serem o sustento da religião entre eles.
Ou pode referir-se à lei a respeito do sábado: “Guardai os meus sábados, para que saibais que eu, o Senhor, vos santifico.”
Repare: Se Deus, pela sua graça, inclinar os nossos corações a guardar a lei do quarto mandamento, isso será evidência de uma boa obra operada em nós pelo seu Espírito.
Se santificamos o dia de Deus, é sinal entre ele e nós de que ele santificou os nossos corações; daí ser o caráter do homem bem-aventurado “que guarda o sábado de profaná-lo”, Isaías 56:2.
Os judeus, observando um dia em sete, depois de seis dias de trabalho, testificavam e declaravam que adoravam o Deus que fez o mundo em seis dias e descansou no sétimo.
E assim se distinguiam das outras nações, que, tendo primeiro perdido o sábado, o qual foi instituído para ser um memorial da criação, aos poucos perderam o conhecimento do Criador e deram à criatura aquela honra que só a ele era devida.
(2.) Ele “vos é santo” (v. 14), isto é: “Foi destinado para o vosso benefício, assim como para a honra de Deus”; o sábado foi feito para o homem.
Ou: “Será tido por santo por vós, e assim há de ser observado, e olhareis como sacrilégio profaná-lo.”
(3.) É “o sábado de descanso, santo ao Senhor”, v. 15.
Ele está separado do uso comum e destinado à honra e ao serviço de Deus; e pela observância dele somos ensinados a descansar dos afazeres mundanos e do serviço da carne, e a dedicar-nos, com tudo o que somos, temos e podemos fazer, à glória de Deus.
(4.) Devia ser observado “pelas suas gerações”, em toda era, “por aliança perpétua”, v. 16.
Este devia ser um dos sinais mais duradouros daquela aliança que havia entre Deus e Israel.
- A lei do sábado. Eles devem guardá-lo (v. 13, 14, 16), guardá-lo como um tesouro, como um depósito, observá-lo e preservá-lo, guardá-lo de profaná-lo, mantê-lo de pé como sinal entre Deus e eles, guardá-lo e nunca se apartar dele.
Os gentios tinham festas anuais, em honra dos seus deuses; mas era peculiar aos judeus ter uma festa semanal; esta, portanto, deviam observar com cuidado.
- A razão do sábado; pois as leis de Deus não só são apoiadas pela mais alta autoridade, como também sustentadas pela melhor razão.
O próprio exemplo de Deus é a grande razão, v. 17.
Assim como a obra da criação é digna de ser assim comemorada, assim o grande Criador é digno de ser assim imitado, por um descanso santo no sétimo dia, depois de seis dias de trabalho, especialmente porque esperamos, em ulterior conformidade com o mesmo exemplo, descansar em breve com ele de todos os nossos trabalhos.
- A pena a ser infligida pela quebra desta lei:
“Todo aquele que profanar o sábado, fazendo nele qualquer obra que não sejam obras de piedade e misericórdia, será extirpado do meio do seu povo (v. 14); certamente será morto, v. 15.”
“O magistrado deve extirpá-lo pela espada da justiça, se o crime puder ser provado; se não puder, ou se o magistrado for negligente e não cumprir o seu dever, Deus tomará a obra nas suas próprias mãos e o extirpará com um golpe do céu, e a família dele será desarraigada de Israel.”
Repare: O desprezo e a profanação do dia de sábado são uma iniquidade a ser punida pelos juízes; e, se os homens não a punirem, Deus a punirá, aqui ou no além, a não ser que dela se arrependam.
II. A entrega das duas tábuas do testemunho a Moisés.
Deus lhe tinha prometido estas tábuas quando o chamou ao monte (Êxodo 24:12); e agora, quando o estava mandando descer, entregou-as a ele, para serem depositadas com cuidado e com honra na arca, v. 18.
Os dez mandamentos, que Deus tinha falado no monte Sinai aos ouvidos de todo o povo, foram agora escritos, in perpetuam rei memoriam — para memória perpétua, porque o que está escrito permanece.
Foram escritos em tábuas de pedra, preparadas não por Moisés, ao que parece (pois se dá a entender, Êxodo 24:12, que ele as encontrou já escritas quando subiu ao monte), mas, como alguns pensam, pelo ministério dos anjos.
A lei foi escrita em tábuas de pedra para denotar a duração perpétua dela (o que se pode supor que dure mais tempo do que aquilo que está escrito em pedra e guardado?), e para denotar igualmente a dureza dos nossos corações.
Seria mais fácil escrever em pedra do que escrever alguma coisa que fosse boa nos nossos corações corrompidos e pecaminosos.
- Foram escritos “com o dedo de Deus”, isto é, pela sua vontade e pelo seu poder sem mediação, sem o uso de nenhum instrumento.
Só Deus pode escrever a sua lei no coração; ele dá um coração de carne e então, pelo seu Espírito, que é o dedo de Deus, escreve a sua vontade “nas tábuas de carne do coração”, 2 Coríntios 3:3.
Foram escritos em duas tábuas, sendo destinados a nos dirigir no nosso dever tanto para com Deus quanto para com o homem.
São chamadas tábuas do testemunho, porque esta lei escrita testificava tanto a vontade de Deus a respeito deles quanto a boa vontade dele para com eles, e seria um testemunho contra eles se fossem desobedientes.
Foram entregues a Moisés, provavelmente com uma ordem, antes que ele as guardasse na arca, de mostrá-las publicamente, para que pudessem ser vistas e lidas por todos os homens, e assim o que eles tinham ouvido com o ouvir dos ouvidos pudesse agora ser trazido à lembrança deles.
Assim a lei foi dada por Moisés, mas a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo.