Matthew Henry

Êxodo 30

Argumento

Moisés é, neste capítulo, instruído ainda mais:

I. A respeito do altar do incenso, vv. 1-10.

II. A respeito do dinheiro do resgate que os israelitas deviam pagar, quando fossem contados, vv. 11-16.

III. A respeito da pia de bronze, que foi posta para os sacerdotes se lavarem nela, vv. 17-21.

IV. A respeito do preparo do azeite da unção, e do uso dele, vv. 22-33.

V. A respeito do incenso e do perfume que deviam ser queimados sobre o altar de ouro, v. 34, etc.

Versículos 1 a 10

O Tabernáculo e a Sua Mobília. (a.C. 1491.)

I. As ordens dadas a respeito do altar do incenso são:

  1. Que devia ser feito de madeira e coberto de ouro, ouro puro, com cerca de uma jarda de altura e meia jarda em quadrado, com chifres nos cantos, uma cornija de ouro em volta, e com argolas e varais de ouro, para a comodidade de carregá-lo, vv. 1-5.

Não parece que houvesse neste altar alguma grelha para as cinzas caírem nela, de modo que pudessem ser retiradas; mas, quando queimavam incenso, trazia-se um incensário de ouro com brasas dentro, e ele era colocado sobre o altar.

Nesse incensário o incenso era queimado, e com ele todas as brasas eram levadas embora, de sorte que nenhuma brasa nem cinza caía sobre o altar.

A medida do altar do incenso no templo de Ezequiel é o dobro do que é aqui (Ezequiel 41:22), e ali ele é chamado de altar de madeira, sem menção de ouro.

Isso significa que o incenso, nos tempos do evangelho, seria espiritual, o culto simples e o serviço de Deus ampliado; porque “em todo lugar se oferecerá incenso”, Malaquias 1:11.

  1. Que devia ser colocado diante do véu, do lado de fora dessa divisória, mas diante do propiciatório, que estava dentro do véu, v. 6.

Porque, ainda que aquele que ministrava ao altar não pudesse ver o propiciatório, interpondo-se o véu, tinha de olhar para ele e dirigir o seu incenso para aquele lado.

Isso nos ensina que, embora não possamos ver com os olhos do corpo o trono da graça, aquele bendito propiciatório, ainda assim devemos, na oração e pela fé, colocar-nos diante dele, dirigir a nossa oração e olhar para cima.

Esse trono tem tamanha glória que Deus, por compaixão de nós, oculta de nós a sua face e estende sobre ele uma nuvem.

  1. Que Arão devia queimar incenso aromático sobre este altar, toda manhã e toda tarde, cerca de meia libra de cada vez.

Isso era destinado não só a tirar o mau cheiro da carne que se queimava diariamente no altar de bronze, mas também à honra de Deus, e a mostrar como os serviços do seu povo lhe eram aceitos e o prazer que eles deviam ter em ministrar-lhe, v. 7, 8.

Assim como pelas ofertas no altar de bronze se fazia satisfação pelo que se tinha feito de desagradável a Deus, assim, pela oferta neste, o que eles faziam de bom era, por assim dizer, recomendado à aceitação divina.

Pois as nossas duas grandes questões com Deus são ser absolvidos da culpa e ser aceitos como justos aos olhos dele.

  1. Que nada devia ser oferecido sobre ele senão incenso, nem incenso algum senão o que era determinado, v. 9. Deus quer que o seu próprio serviço seja feito segundo a sua própria determinação, e não de outro jeito.

  2. Que este altar devia ser purificado com o sangue da oferta pelo pecado, posto sobre os chifres dele, todos os anos, no dia da expiação, v. 10. Veja Levítico 16:18, 19.

O sumo sacerdote devia fazer isso no caminho de saída do santo dos santos. Isso era para lhes dar a entender que os pecados dos sacerdotes que ministravam neste altar, e os do povo por quem ministravam, punham sobre ele uma impureza cerimonial, da qual devia ser limpo pelo sangue da expiação.

II. Este altar do incenso prefigurava:

  1. A mediação de Cristo. O altar de bronze no átrio era figura de Cristo morrendo na terra; o altar de ouro no santuário era figura de Cristo intercedendo no céu, em virtude da sua satisfação.

Este altar estava diante do propiciatório; porque Cristo sempre aparece na presença de Deus por nós; ele é o nosso “advogado para com o Pai” (1 João 2:1), e a sua intercessão é para Deus um aroma suave.

Este altar tinha uma coroa fixada nele; porque Cristo intercede como rei. “Pai, eu quero”, João 17:24.

  1. As devoções dos santos, de cujas orações se diz que são postas diante de Deus como incenso, Salmos 141:2. Assim como a fumaça do incenso ascendia, assim devem os nossos desejos para com Deus subir na oração, acesos com o fogo do santo amor e de outros afetos piedosos.

Quando o sacerdote estava queimando incenso, o povo estava orando (Lucas 1:10), para significar que a oração é o verdadeiro incenso.

Este incenso era oferecido diariamente, era “um incenso perpétuo” (v. 8); porque devemos orar sempre, isto é, devemos manter horas certas de oração todos os dias, de manhã e de tarde ao menos, e nunca omiti-la, mas assim orar sem cessar.

As lâmpadas eram preparadas, ou acesas, ao mesmo tempo em que o incenso era queimado, para nos ensinar que a leitura das Escrituras (que são a nossa luz e a nossa lâmpada) é parte do nosso trabalho diário, e deve ordinariamente acompanhar as nossas orações e louvores.

Quando falamos com Deus, devemos ouvir o que Deus nos diz, e assim a comunhão fica completa.

As devoções das almas santificadas são muito agradáveis a Deus, de cheiro suave; as orações dos santos são comparadas a odores suaves (Apocalipse 5:8), mas é o incenso que Cristo lhes acrescenta que as torna aceitáveis (Apocalipse 8:3), e o sangue dele que expia a culpa que se apega aos nossos melhores serviços.

E, se o coração e a vida não forem santos, até “o incenso é abominação” (Isaías 1:13), e quem o oferece é “como se bendissesse um ídolo”, Isaías 66:3.

Versículos 11 a 16

Alguns observam que a repetição daquelas palavras, “O Senhor falou a Moisés”, aqui e adiante (v. 17, 22, 34), dá a entender que Deus não entregou estes preceitos a Moisés no monte num discurso contínuo, mas com muitas interrupções, dando-lhe tempo ou de escrever o que lhe era dito, ou ao menos de gravá-lo na memória.

Cristo dava instruções aos seus discípulos conforme eram capazes de ouvi-las. Moisés recebe aqui a ordem de cobrar do povo uma quantia por cabeça, de igual valor para cada um, para o serviço do tabernáculo.

Isso ele devia fazer quando contasse o povo. Alguns pensam que se refere apenas ao primeiro recenseamento deles, agora quando o tabernáculo foi levantado, e que esse imposto era para suprir o que faltava nas contribuições voluntárias para a conclusão da obra, ou antes para o começo do serviço no tabernáculo.

Outros pensam que depois se repetia em qualquer emergência, e sempre que o povo era contado, e que Davi pecou por não exigi-lo quando contou o povo.

Mas muitos dos escritores judeus, e outros a partir deles, são de opinião que devia ser um tributo anual, só que foi começado quando Moisés contou o povo pela primeira vez.

Esse era aquele dinheiro do tributo que Cristo pagou, com receio de escandalizar os seus adversários (Mateus 17:27), quando, no entanto, mostrou boa razão pela qual deveria ter sido dispensado.

Homens eram designados em cada cidade para receber esse pagamento anualmente. Ora:

  1. O tributo a pagar era meio siclo, cerca de quinze pence do nosso dinheiro. Os ricos não deviam dar mais, nem os pobres menos (v. 15), para dar a entender que as almas dos ricos e as dos pobres são igualmente preciosas, e que “Deus não faz acepção de pessoas”, Atos 10:34; Jó 34:19.

Em outras ofertas os homens deviam dar segundo a sua capacidade; mas esta, que era o resgate da alma, devia ser igual para todos, porque os ricos têm tanta necessidade de Cristo quanto os pobres, e os pobres são tão bem-vindos a ele quanto os ricos.

Uns e outros contribuíam igualmente para a manutenção do serviço do templo, porque ambos deviam ter igual interesse nele e igual proveito dele. Em Cristo e nas suas ordenanças “ricos e pobres se encontram”; o Senhor é o Criador, e o Senhor Cristo o Redentor de ambos, Provérbios 22:2.

Os judeus dizem: “Se um homem se recusava a pagar este tributo, não estava compreendido na expiação.”

  1. Este tributo devia ser pago como resgate da alma, para que não houvesse praga entre eles.

Com isso eles reconheciam que recebiam de Deus as suas vidas, que haviam perdido diante dele o direito a elas, e que dependiam do poder e da paciência dele para a continuação delas.

E assim prestavam homenagem ao Deus das suas vidas, e rogavam que se afastassem aquelas pragas que os seus pecados tinham merecido.

  1. Este dinheiro que se arrecadava devia ser empregado no serviço do tabernáculo (v. 16). Com ele compravam sacrifícios, farinha, incenso, vinho, azeite, combustível, sal, vestes dos sacerdotes e todas as outras coisas em que toda a congregação tinha interesse.

Repare: os que têm entre si o benefício do tabernáculo de Deus devem estar dispostos a arcar com as despesas dele, sem se queixar dos gastos necessários do culto público de Deus.

Assim devemos honrar o Senhor com os nossos bens, e considerar melhor empregado aquilo que se emprega no serviço de Deus.

O dinheiro, de fato, não pode fazer expiação pela alma, mas pode ser usado para a honra daquele que fez a expiação, e para a manutenção do evangelho pelo qual a expiação é aplicada.

Versículos 17 a 21

São dadas aqui ordens:

  1. Para a feitura de uma pia, ou fonte, de bronze, um vaso grande, que continha boa quantidade de água, e que devia ser posta perto da porta do tabernáculo, v. 18.

A base de bronze, supõe-se, foi arquitetada de modo a receber a água, que era conduzida para dentro dela desde a pia por bicas, ou torneiras.

Eles tinham então uma pia para os sacerdotes apenas se lavarem nela; mas para nós, agora, há uma fonte aberta para Judá e Jerusalém se lavarem nela (Zacarias 13:1), uma fonte inesgotável de água viva, de modo que a culpa é nossa se permanecemos na nossa contaminação.

  1. Para o uso desta pia. Arão e os seus filhos deviam lavar as mãos e os pés nesta pia toda vez que entrassem para ministrar, pelo menos toda manhã, vv. 19-21. Para esse fim, água limpa era posta na pia, fresca, a cada dia.

Ainda que se lavassem nas suas próprias casas até ficarem bem limpos, isso não bastava; eles tinham de lavar-se na pia, porque era ela a designada para a lavagem, 2 Reis 5:12-14. Isto tinha por desígnio:

(1.) Ensinar-lhes pureza em todas as suas ministrações, e imbuí-los de reverência pela santidade de Deus e de pavor das contaminações do pecado.

Eles não deviam apenas lavar-se e ser tornados limpos quando foram consagrados pela primeira vez, mas deviam lavar-se e ser conservados limpos sempre que entrassem para ministrar. Só estará no lugar santo de Deus quem tem “mãos limpas e coração puro”, Salmos 24:3, 4.

E, (2.) Era para nos ensinar, a nós que diariamente devemos dedicar-nos a Deus, a renovar diariamente o nosso arrependimento pelo pecado e a aplicação, pela fé, do sangue de Cristo às nossas almas para remissão; porque em muitas coisas ofendemos diariamente e contraímos contaminação, João 13:8, 10; Tiago 3:2.

Esta é a preparação que devemos fazer para as ordenanças solenes. Limpem as mãos e purifiquem o coração, e então se aproximem de Deus, Tiago 4:8.

A esta lei Davi alude em Salmos 26:6: “Lavarei as minhas mãos em inocência, assim rodearei o teu altar, ó Senhor”.

Versículos 22 a 38

São dadas aqui instruções para a composição do santo azeite da unção e do incenso que deviam ser usados no serviço do tabernáculo. Com estes Deus devia ser honrado, e por isso ele determinaria o preparo deles; porque nada chega a Deus senão o que vem dele.

  1. O santo azeite da unção é aqui mandado preparar; os ingredientes, e as quantidades deles, são prescritos, vv. 23-25.

Os intérpretes não estão de acordo a respeito deles; temos certeza, em geral, de que eram os melhores e os mais próprios para o fim; não podiam deixar de sê-lo, já que a sabedoria divina os designou para a honra divina.

Devia ser composto secundum artem — segundo a arte do boticário (v. 25); as especiarias, que somavam ao todo quase 25 quilos, deviam ficar em infusão no azeite, que era de cerca de cinco ou seis quartilhos, e depois ser coadas, deixando no azeite um admirável aroma suave.

Com este azeite deviam ser ungidos a tenda de Deus e toda a mobília dela; devia ser usado também na consagração dos sacerdotes, vv. 26-30. Devia continuar por todas as gerações deles, v. 31.

A tradição dos judeus é que este mesmo azeite, preparado pelo próprio Moisés, durou até perto do cativeiro.

Mas o bispo Patrick mostra quão improvável é a tradição e supõe que o azeite foi refeito segundo esta prescrição: Salomão foi ungido com ele (1 Reis 1:39), assim como outros reis e todos os sumos sacerdotes, em quantidade tal que descia até as orlas das vestes. Também lemos do preparo desse unguento (1 Crônicas 9:30).

Ainda assim, todos concordam que no segundo templo não havia nada deste santo azeite, o que ele supõe ter-se devido à ideia de que não era lícito prepará-lo.

A Providência fez dessa falta um presságio da melhor unção do Espírito Santo nos tempos do evangelho, cuja variedade de dons era prefigurada por estes diversos ingredientes aromáticos.

Para mostrar a excelência da santidade, havia no tabernáculo aquilo que era, no mais alto grau, agradável tanto à vista quanto ao olfato.

Diz-se que o nome de Cristo é “como unguento derramado” (Cantares de Salomão 1:3), e que o bom nome dos cristãos é “melhor que o unguento precioso”, Eclesiastes 7:1.

  1. O incenso que era queimado sobre o altar de ouro era preparado igualmente de especiarias aromáticas, ainda que não tão raras e ricas como aquelas de que se compunha o azeite da unção, v. 34, 35.

Este era preparado uma vez por ano (dizem os judeus), uma libra para cada dia do ano, e três libras a mais para o dia da expiação.

Quando era usado, devia ser batido bem miúdo: assim agradou ao Senhor moer o Redentor, quando ele se ofereceu a si mesmo em sacrifício de cheiro suave.

  1. A respeito destes dois preparados é dada aqui a mesma lei (v. 32, 33, 37, 38): que não se fizesse coisa semelhante para nenhum uso comum.

Assim Deus preservaria na mente do povo uma reverência pelas suas próprias instituições, e nos ensinaria a não profanar nem abusar de nada pelo qual Deus se dá a conhecer, como fizeram aqueles que “inventaram para si” (para os seus divertimentos comuns) “instrumentos de música, como Davi”, Amós 6:5.

É grande afronta a Deus zombar de coisas sagradas, particularmente fazer troça da palavra e das ordenanças de Deus, ou tratá-las com leviandade, Mateus 22:5.

O que é propriedade peculiar de Deus não deve ser usado como coisa comum.


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