Êxodo 26
Argumento
Aqui Moisés recebe instruções:
I. A respeito das cortinas internas da tenda, ou tabernáculo, e da união dessas cortinas, vv. 1-6.
II. A respeito das cortinas externas, que eram de pelos de cabra, para reforçar as primeiras, vv. 7-13.
III. A respeito do invólucro, ou cobertura, que devia protegê-lo das intempéries, v. 14.
IV. A respeito das tábuas que deviam ser erguidas para sustentar as cortinas, com as suas travessas e bases, vv. 15-30.
V. A divisória entre o lugar santo e o santíssimo, vv. 31-35.
VI. O véu para a porta, v. 36, 37.
Estes pormenores, registrados assim com tanta amplitude, parecem de pouca utilidade para nós hoje; contudo, tendo sido de grande utilidade para Moisés e para Israel, e tendo Deus achado por bem preservar até nós a lembrança deles, não devemos passá-los por alto. Até a antiguidade torna venerável este relato.
Versículo 1
O Tabernáculo e a Sua Mobília. (a.C. 1491.)
I. A casa devia ser um tabernáculo, ou tenda, como as que os soldados usam hoje no acampamento, que era tanto uma morada humilde quanto uma morada móvel.
E, no entanto, a arca de Deus não teve nada melhor, até que Salomão construiu o templo 480 anos depois disto, 1 Reis 6:1.
Deus manifestou assim a sua presença entre eles num tabernáculo:
- Em atenção à condição presente deles no deserto, para que o tivessem consigo aonde quer que fossem.
Repare: Deus ajusta os sinais do seu favor e os dons da sua graça às carências e necessidades do seu povo, conforme a situação em que ele se encontra, acomodando a sua misericórdia ao estado dele, próspero ou adverso, estável ou instável. “Quando passares pelas águas, eu serei contigo”, Isaías 43:2.
- Para que representasse o estado da igreja de Deus neste mundo: é um estado de tabernáculo, Salmos 15:1.
Não temos aqui cidade permanente; sendo estrangeiros neste mundo, e viajantes rumo a um mundo melhor, nunca estaremos fixos até chegarmos ao céu.
Os privilégios da igreja são bens móveis, de um lugar para outro; o evangelho não está preso a lugar nenhum; o candelabro está numa tenda, e pode ser facilmente removido, Apocalipse 2:5.
Se valorizarmos o tabernáculo e aproveitarmos o privilégio dele, aonde quer que formos ele nos acompanhará; mas, se o negligenciarmos e o desonrarmos, onde quer que fiquemos ele nos abandonará. “Que tem o meu amado que fazer na minha casa?”, Jeremias 11:15.
II. As cortinas do tabernáculo deviam corresponder a um modelo divino:
Deviam ser muito ricas, as melhores do gênero, de linho fino torcido; e de cores muito agradáveis, azul, e púrpura, e escarlata.
Deviam ser bordadas com querubins (v. 1), para dar a entender que os anjos de Deus armam as suas tendas ao redor da igreja, Salmos 34:7.
Assim como havia querubins sobre o propiciatório, assim os havia ao redor do tabernáculo; porque encontramos os anjos cercando não só o trono, mas os anciãos; veja Apocalipse 5:11.
- Devia haver dois cortinados, com cinco larguras em cada um, costuradas juntas, e os dois cortinados unidos por colchetes, ou grampos, de ouro, para que tudo fosse um só tabernáculo, v. 6.
Assim as igrejas de Cristo e os santos, ainda que sejam muitos, são contudo um só, ajustando-se bem uns aos outros no amor santo, e pela unidade do Espírito, crescendo assim para um só templo santo no Senhor, Efésios 2:21, 22; 4:16.
Este tabernáculo era muito apertado e estreito; mas, à pregação do evangelho, a igreja recebe a ordem de alargar o lugar da sua tenda e de estender as suas cortinas, Isaías 54:2.
Versículo 7
Aqui Moisés recebe ordem de fazer uma cobertura dupla para o tabernáculo, para que a chuva não entrasse e para que a beleza daquelas cortinas esmeradas não fosse danificada.
- Devia haver uma cobertura de cortinas de camelão de pelo, que eram um tanto maiores em todas as dimensões que as cortinas internas, porque deviam envolvê-las, e provavelmente ficavam estendidas a alguma pequena distância delas, v. 7, etc.
Essas eram unidas umas às outras com colchetes de bronze. Sendo o material menos valioso, os grampos também o eram; mas os grampos de bronze atenderiam ao intuito tão eficazmente quanto os de ouro.
Os laços de unidade podem ser tão fortes entre cortinas de pelos de cabra quanto entre as de púrpura e escarlata.
- Sobre esta devia haver outra cobertura, também dupla (v. 14): uma de peles de carneiro tintas de vermelho, provavelmente preparadas com a lã ainda nelas; a outra, de peles de texugo, segundo a nossa tradução.
Esta última, porém, parece ter sido algum tipo de couro resistente (mas muito bem-acabado), pois lemos que dele se faziam os melhores calçados, Ezequiel 16:10. Observe aqui:
(1.) Que o lado de fora do tabernáculo era grosseiro e áspero; a beleza dele estava nas cortinas internas. Aqueles em quem Deus habita devem esforçar-se por ser melhores do que parecem ser.
Os hipócritas põem o melhor lado para fora, como sepulcros caiados; mas “a filha do rei é toda gloriosa por dentro” (Salmos 45:13).
Aos olhos do mundo, ela é negra como as tendas de Quedar; aos olhos de Deus, formosa como as cortinas de Salomão (Cantares de Salomão 1:5). Seja o nosso adorno o do “homem oculto do coração”, que Deus valoriza, 1 Pedro 3:4.
(2.) Que, onde Deus põe a sua glória, ele criará uma defesa sobre ela; até sobre as habitações dos justos haverá um abrigo, Isaías 4:5, 6.
A proteção da Providência estará sempre sobre a beleza da santidade. A tenda de Deus será um pavilhão, Salmos 27:5.
Versículo 15
Aqui são dadas orientações bem particulares a respeito das tábuas do tabernáculo, que deviam sustentar as cortinas, como as estacas de uma tenda, que precisavam ser fortes, Isaías 54:2.
Essas tábuas tinham espigas que entravam nos encaixes feitos para elas em bases de prata. Deus cuidou de que tudo no seu tabernáculo fosse forte, além de belo.
Cortinas sem tábuas teriam sido sacudidas por qualquer vento; mas é boa coisa ter o coração firmado pela graça, que é como as tábuas que sustentam as cortinas da profissão de fé, as quais de outro modo não resistirão por muito tempo.
As tábuas eram unidas umas às outras por argolas de ouro em cima e embaixo (v. 24), e mantidas firmes por travessas que corriam por presilhas de ouro em cada tábua (v. 26); e as tábuas e as travessas eram todas ricamente douradas, v. 29.
Assim tudo no tabernáculo era muito esplêndido, condizente com aquele estado infantil da igreja, quando tais coisas eram bastante próprias para agradar a crianças.
Elas incutiam na mente dos adoradores reverência pela glória divina e os impressionavam com a grandeza daquele príncipe que disse: “Aqui habitarei”. Em alusão a esse esplendor, diz-se que a nova Jerusalém é “de ouro puro”, Apocalipse 21:18.
Mas os construtores da igreja do evangelho disseram: Prata e ouro não temos; e contudo a glória do edifício deles excedia em muito a do tabernáculo, 2 Coríntios 3:10, 11. Quanto melhor é a sabedoria do que o ouro!
Nenhuma ordem é dada aqui a respeito do piso do tabernáculo; provavelmente também ele era de tábuas, porque não podemos pensar que, dentro de todas essas cortinas esmeradas, eles pisassem no chão frio ou molhado. Se foi deixado assim, isso pode nos lembrar de Êxodo 20:24: “Um altar de terra me farás”.
Versículo 31
Dois véus são aqui mandados fazer:
- Um para servir de divisória entre o lugar santo e o santíssimo, o qual não só proibia a entrada de qualquer pessoa, mas também impedia que se olhasse para dentro do santo dos santos, v. 31, 33.
Sob aquela dispensação, a graça divina estava velada, mas agora a contemplamos “com rosto descoberto”, 2 Coríntios 3:18.
O apóstolo nos diz (Hebreus 9:8, 9) qual era o significado deste véu: ele indicava que a lei cerimonial não podia aperfeiçoar os que a ela se chegavam, nem a observância dela levaria os homens ao céu.
O caminho para o santo dos santos não estava manifesto enquanto o primeiro tabernáculo estava em pé; a vida e a imortalidade jaziam ocultas até serem trazidas à luz pelo evangelho, o que por isso foi significado pelo rasgar-se deste véu na morte de Cristo, Mateus 27:51.
Agora temos ousadia para entrar no santo dos santos, em todos os atos de devoção, pelo sangue de Jesus; essa ousadia, porém, nos obriga a uma santa reverência e à humilde consciência da distância que nos separa de Deus.
- Outro véu era para a porta externa do tabernáculo, v. 36, 37.
Por este primeiro véu os sacerdotes entravam todos os dias para ministrar no lugar santo, mas não o povo, Hebreus 9:6.
Este véu, que era toda a defesa que o tabernáculo tinha contra ladrões e assaltantes, podia ser rompido com facilidade, pois não podia ser trancado nem aferrolhado. Poderíamos pensar que a abundância de riquezas no tabernáculo seria uma tentação.
Mas, ao deixá-lo assim exposto:
(1.) Os sacerdotes e os levitas ficariam tanto mais obrigados a manter vigilância estrita sobre ele.
(2.) E Deus mostraria o seu cuidado pela sua igreja na terra, ainda que ela seja fraca e indefesa, e continuamente exposta.
Uma cortina será (se Deus quiser fazê-la assim) defesa tão forte para a sua casa quanto portas de bronze e ferrolhos de ferro.