Matthew Henry

Êxodo 24

Argumento

Moisés, como mediador entre Deus e Israel, tendo recebido de Deus diversas leis e ordenanças em particular nos três capítulos anteriores, neste capítulo:

I. Desce ao povo, dá-lhes a conhecer as leis que havia recebido e obtém a anuência deles a essas leis (v. 3); escreve as leis e as lê ao povo, que repete a sua anuência (vv. 4-7); e então, pelo sacrifício e pela aspersão do sangue, ratifica a aliança entre eles e Deus, v. 5, 6, 8.

II. Volta a Deus outra vez, para receber orientações ulteriores. Quando foi dispensado do seu comparecimento anterior, recebeu ordem de comparecer de novo, v. 1, 2. Assim fez, com setenta dos anciãos, a quem Deus fez uma revelação da sua glória, vv. 9-11.

Moisés recebe ordem de subir ao monte (v. 12, 13); os demais recebem ordem de descer ao povo, v. 14.

A nuvem da glória é vista por todo o povo no cume do monte Sinai (vv. 15-17), e Moisés fica ali com Deus quarenta dias e quarenta noites, v. 18.

Versículos 1 a 7

A Aceitação das Leis por Israel. (a.C. 1491.)

Os dois primeiros versículos registram a marcação de uma segunda sessão no monte Sinai, para a feitura de leis, quando se pôs fim à primeira.

Quando uma comunhão se inicia entre Deus e nós, ela nunca falhará do lado dele, se não falhar primeiro do nosso.

Moisés recebe a ordem de trazer Arão e os seus filhos, e os setenta anciãos de Israel, para que sejam testemunhas da glória de Deus e daquela comunhão com ele à qual Moisés foi admitido; e para que o testemunho deles confirme a fé do povo. Nesta aproximação:

  1. Todos devem ser muito reverentes: “Adorai vós de longe”, v. 1. Antes de chegarem perto, deviam adorar.

Assim devemos entrar pelas portas de Deus com adorações humildes e solenes, aproximar-nos como os que conhecem a nossa distância, e admirar as condescendências da graça de Deus ao nos admitir a chegar perto.

Os grandes príncipes são abordados com as profundas reverências do corpo? E a alma que se aproxima de Deus não se inclinará diante dele?

  1. Nenhum deles deve chegar tão perto quanto Moisés, v. 2. Devem subir ao Senhor (e quem quer aproximar-se de Deus tem de subir), mas só Moisés deve chegar perto, sendo nisso tipo de Cristo, que, como sumo sacerdote, entrou sozinho no lugar santíssimo.

Nos versículos seguintes temos a aliança solene feita entre Deus e Israel, e a troca das ratificações; e foi uma transação muito solene, que prefigurava a aliança da graça entre Deus e os crentes por meio de Cristo.

I. “Moisés contou ao povo as palavras do Senhor”, v. 3. Ele não os conduziu à aliança de olhos vendados, nem lhes ensinou uma devoção que fosse filha da ignorância; mas expôs diante deles todos os preceitos, gerais e particulares, dos capítulos anteriores; e lhes pôs a questão com lealdade: se estavam dispostos a submeter-se a estas leis ou não.

II. O povo anuiu unanimemente aos termos propostos, sem reserva nem exceção: “Todas as palavras que o Senhor tem dito, faremos.”

Antes já tinham anuído em geral a estar sob o governo de Deus (Êxodo 19:8); aqui anuem em particular a estas leis agora dadas.

Quem dera houvesse neles um coração assim! Como seria bom se as pessoas ao menos estivessem sempre na mesma boa disposição em que às vezes parecem estar!

Muitos anuem à lei e contudo não vivem à altura dela; não têm nada a objetar contra ela e contudo não querem persuadir-se a ser governados por ela.

Este é o teor da aliança: que, se observassem os preceitos anteriores, Deus cumpriria as promessas anteriores. “Obedeça, e seja feliz.” Aqui está o trato feito. Observe:

  1. Como ela foi lavrada no livro da aliança: “Moisés escreveu as palavras do Senhor” (v. 4), para que não houvesse engano; provavelmente ele as havia escrito à medida que Deus as ditava no monte.

Assim que Deus separou para si um povo peculiar no mundo, governou-os por uma palavra escrita, como tem feito desde então, e fará enquanto durar o mundo e a igreja nele.

Moisés, tendo lavrado os artigos do acordo concluído entre Deus e Israel, leu-os aos ouvidos do povo (v. 7), para que ficassem perfeitamente inteirados da coisa e pudessem provar se as suas segundas ideias eram as mesmas que as suas primeiras, quanto a todo o assunto.

E podemos supor que eram; porque as palavras deles (v. 7) são as mesmas que foram (v. 3), mas algo mais fortes: “Tudo o que o Senhor tem dito” (seja bom, seja mau, para a carne e o sangue, Jeremias 42:6) “faremos”; assim tinham dito antes, mas agora acrescentam: “E seremos obedientes; não só faremos o que foi ordenado, mas também em tudo o que for ordenado ulteriormente seremos obedientes.”

Bravamente resolvido! se ao menos tivessem ficado firmes na sua resolução. Veja aqui que as alianças e os mandamentos de Deus são tão incontestavelmente equitativos em si mesmos, e tão altamente vantajosos para nós, que quanto mais pensamos neles, e quanto mais clara e plenamente nos são postos diante, mais motivo veremos para atendê-los.

  1. Como ela foi selada pelo sangue da aliança, para que Israel recebesse fortes consolações da ratificação das promessas de Deus a eles, e ficasse sob fortes obrigações pela ratificação das promessas deles a Deus.

Assim a Sabedoria Infinita concebeu meios para que sejamos confirmados tanto na nossa fé quanto na nossa obediência, e sejamos tanto animados no nosso dever quanto comprometidos com ele.

A aliança tinha de ser feita por sacrifício (Salmos 50:5), porque, tendo o homem pecado e perdido o favor do seu Criador, não pode haver comunhão por aliança enquanto não houver primeiro amizade e expiação por sacrifício.

(1.) Em preparação, por isso, para que as partes pusessem reciprocamente os seus selos nesta aliança:

[1.] Moisés edifica um altar, para a honra de Deus, que era o principal alvo em todos os altares que se edificavam, e que era a primeira coisa a se olhar na aliança que agora iam selar.

Nenhum acréscimo às perfeições da natureza divina pode ser feito por qualquer dos tratos de Deus com os filhos dos homens, mas neles as suas perfeições são manifestadas e engrandecidas, e a sua honra é publicada.

Por isso ele será representado por um altar, para significar que tudo o que ele esperava deles era que lhe dessem honra, e que, sendo o seu povo, fossem para ele por nome e por louvor.

[2.] Ele levanta doze colunas, segundo o número das tribos. Estas deviam representar o povo, a outra parte da aliança; e podemos supor que foram postas de frente para o altar, e que Moisés, como mediador, passava de um lado para outro entre o altar e as colunas.

Provavelmente cada tribo levantava e conhecia a sua própria coluna, e os seus anciãos ficavam junto dela.

[3.] Ele designou sacrifícios para serem oferecidos sobre o altar (v. 5), holocaustos e ofertas pacíficas, que contudo eram destinados a ser expiatórios.

Não nos interessa indagar quem eram estes jovens que foram empregados em oferecer estes sacrifícios; porque o próprio Moisés era o sacerdote, e o que eles faziam era puramente como servos dele, por ordem e designação dele.

Sem dúvida eram homens que pela sua força corporal estavam qualificados para o serviço, e pela sua posição entre o povo eram os mais aptos para a honra.

(2.) Feita assim a preparação, as ratificações foram trocadas muito solenemente:

[1.] O sangue do sacrifício que o povo ofereceu foi (parte dele) aspergido sobre o altar (v. 6), o que significa que o povo dedicava a si mesmo, as suas vidas e os seus seres a Deus e à honra dele.

No sangue (que é a vida) dos sacrifícios mortos todos os israelitas eram apresentados a Deus como sacrifícios vivos, Romanos 12:1.

[2.] O sangue do sacrifício que Deus reconhecera e aceitara foi (o restante dele) aspergido ou sobre o próprio povo (v. 8) ou sobre as colunas que o representavam, o que significava que Deus lhes conferia graciosamente o seu favor e todos os frutos desse favor, e lhes dava todos os dons que podiam esperar ou desejar de um Deus reconciliado com eles e em aliança com eles por sacrifício.

Esta parte da cerimônia era assim explicada: “Eis o sangue da aliança; vede aqui como Deus vos selou para serdes um povo; as promessas dele a vós, e as vossas a ele, são tanto sim quanto amém.”

Assim o nosso Senhor Jesus, o Mediador da nova aliança (de quem Moisés era tipo), tendo oferecido a si mesmo em sacrifício sobre a cruz, para que o seu sangue fosse de fato o sangue da aliança, aspergiu-o sobre o altar na sua intercessão (Hebreus 9:12).

E ele o asperge sobre a sua igreja pela sua palavra e ordenanças e pelas influências e operações do Espírito da promessa, pelo qual somos selados.

Ele mesmo pareceu aludir a esta solenidade quando, na instituição da ceia do Senhor, disse: “Este cálice é o Novo Testamento” (ou aliança) “no meu sangue”. Compare com isto, Hebreus 9:19, 20.

Versículos 9 a 11

Uma Manifestação de Deus. (a.C. 1491.)

O povo, além de se submeter à cerimônia da aspersão do sangue, tinha declarado uma e outra vez o seu contentamento no seu Deus e na sua lei.

Deus dá aqui aos representantes deles alguns sinais especiais do seu favor para com eles (porque Deus vem ao encontro de quem se alegra e pratica a justiça), e os admite mais perto de si do que poderiam ter esperado.

Assim, na igreja do Novo Testamento, encontramos os quatro seres viventes e os vinte e quatro anciãos honrados com lugares ao redor do trono, remidos para Deus pelo sangue do Cordeiro que está no meio do trono, Apocalipse 4:4, 6; 5:8, 9. Observe:

  1. “Viram o Deus de Israel” (v. 10), isto é, tiveram algum vislumbre da glória dele, em luz e fogo, embora não vissem semelhança alguma, e o seu ser é aquilo que “nenhum homem viu nem pode ver”, 1 Timóteo 6:16.

“Viram o lugar onde estava o Deus de Israel” (assim os LXX), algo que se aproximava de uma semelhança, mas não era.

Fosse o que fosse que viram, era certamente algo de que não se poderia fazer imagem nem retrato, e ainda assim bastante para convencê-los de que Deus estava com eles de fato.

Nada é descrito senão o que estava debaixo dos pés dele; porque as nossas concepções de Deus estão todas abaixo dele, e ficam infinitamente aquém de serem adequadas.

Não viram nem sequer os pés de Deus; mas, no fundo do resplendor, e como o estrado ou o pedestal dele, viram um pavimento riquíssimo e esplêndido, como nunca viram antes nem depois, como se fosse de safiras, de azul, ou da cor do céu.

Os próprios céus são o pavimento do palácio de Deus, e o trono dele está acima do firmamento.

Veja quanto a sabedoria é melhor que o precioso ônix ou as safiras, porque a sabedoria era desde a eternidade a delícia de Deus (Provérbios 8:30), e estava no seio dele; mas as safiras são o pavimento debaixo dos seus pés. Ali ponhamos toda a riqueza deste mundo, e não no nosso coração.

  1. “Sobre os nobres” (ou anciãos) “de Israel ele não pôs a sua mão”, v. 11. Embora fossem homens, o esplendor deslumbrante da glória dele não os subjugou; mas ela foi de tal modo moderada (Jó 26:9), e eles de tal modo fortalecidos (Daniel 10:19), que puderam suportá-la.

Ou melhor: embora fossem homens pecadores, e expostos à justiça de Deus, ainda assim ele não pôs sobre eles a sua mão punitiva e vingadora, como eles temiam que fizesse.

Quando consideramos que fogo consumidor Deus é, e que restolho somos diante dele, teremos motivo para dizer, em todas as nossas aproximações a ele: “É por misericórdias do Senhor que não somos consumidos.”

  1. “Viram a Deus, e comeram e beberam.” Não tiveram só as suas vidas preservadas, mas também o seu vigor, a sua coragem e o seu consolo; isso não abateu a alegria deles, antes a aumentou e elevou.

Banquetearam-se do sacrifício, diante de Deus, em sinal da sua anuência alegre à aliança agora feita, da sua aceitação agradecida dos benefícios dela e da sua comunhão com Deus, em prosseguimento dessa aliança.

Assim os crentes comem e bebem com Cristo à mesa dele, Lucas 22:30. Bem-aventurados os que comerão o pão no reino do nosso Pai, e beberão ali do vinho novo.

Versículos 12 a 18

Terminada a cerimônia pública de selar a aliança, Moisés é chamado a subir para receber instruções ulteriores, que temos nos capítulos seguintes.

I. Ele é chamado a subir ao monte, e ali permanece seis dias a certa distância. Ordens lhe são dadas (v. 12): “Sobe ao monte, e fica ali” — isto é: “Espera continuar ali por um tempo considerável.”

Quem quer ter comunhão com Deus não deve apenas vir às ordenanças, mas também deve permanecer junto delas. Bem-aventurados os que habitam na sua casa, não os que apenas fazem uma visita ali.

“Sobe, e eu te darei uma lei, para que os ensines.” Moisés não lhes ensinou nada senão o que havia recebido do Senhor, e nada recebeu do Senhor senão o que lhes ensinou; porque era fiel tanto para com Deus quanto para com Israel, e não acrescentou nem diminuiu, mas se ateve às suas instruções. Recebidas estas ordens:

  1. Ele designou Arão e Hur para serem como regentes na sua ausência, para manter a paz e a boa ordem na congregação, v. 14.

A preocupação com o seu governo ele deixaria para trás ao subir ao monte, para não ter isso a lhe distrair a mente; e, ainda assim, não deixaria o povo como ovelhas que não têm pastor, não, nem mesmo por alguns dias.

Os bons príncipes acham o seu governo uma preocupação constante, e o seu povo o acha uma bênção constante.

  1. Ele levou Josué consigo na subida ao monte, v. 13. Josué era o servidor de Moisés, e seria uma satisfação para Moisés tê-lo consigo como companheiro durante os seis dias em que ficou no monte, antes que Deus o chamasse.

Josué devia ser o seu sucessor, e por isso foi assim honrado diante do povo, acima dos demais anciãos, para que depois o tomassem tanto mais prontamente por seu governante; e assim foi preparado para o serviço, sendo instruído em comunhão com Deus.

Josué era um tipo de Cristo, e (como bem observa o erudito bispo Pearson) Moisés o leva consigo ao monte, porque sem Jesus, em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento, não há como olhar para os segredos do céu, nem aproximar-se da presença gloriosa de Deus.

  1. Uma nuvem cobriu o monte seis dias, sinal visível da presença especial de Deus ali, pois ele se mostra a nós de tal modo que ao mesmo tempo se esconde de nós.

Ele nos dá a conhecer o bastante para nos assegurar da sua presença, do seu poder e da sua graça, mas nos dá a entender que não podemos sondá-lo até a perfeição.

Durante esses seis dias Moisés ficou esperando no monte por um chamado para a câmara da presença, v. 15, 16. Deus assim provou a paciência de Moisés, e a sua obediência àquele mandamento (v. 12): “fica ali”.

Se Moisés tivesse se cansado antes do sétimo dia (como Saul, 1 Samuel 13:8, 9) e tivesse dito: “Por que esperaria eu mais pelo Senhor?”, teria perdido a honra de entrar na nuvem; mas a comunhão com Deus vale a pena esperar. E convém que nos apliquemos às ordenanças solenes com uma pausa solene, tomando tempo para nos compormos, Salmos 108:1.

II. Ele é chamado a subir para dentro de uma nuvem no sétimo dia, provavelmente no dia de sábado, v. 16. Ora:

  1. A nuvem espessa se abriu à vista de todo o Israel, e a glória do Senhor irrompeu como fogo devorador, v. 17.

Deus, sim, o nosso Deus, é fogo consumidor, e assim ele teve por bem manifestar-se ao dar a lei, para que, conhecendo os terrores do Senhor, sejamos persuadidos a obedecer e por eles sejamos preparados para os consolos do evangelho, e para que a graça e a verdade que vêm por Jesus Cristo sejam tanto mais aceitáveis.

  1. A entrada de Moisés na nuvem foi muito assombrosa: “Moisés entrou no meio da nuvem”, v. 18.

Foi uma extraordinária presença de espírito que a graça de Deus lhe supriu pelos seus seis dias de preparação; do contrário, não teria ousado aventurar-se na nuvem, especialmente quando ela irrompeu em fogo devorador.

Moisés estava certo de que aquele que o chamou o protegeria; e mesmo aqueles atributos gloriosos de Deus que são os mais terríveis para os ímpios, neles os santos se alegram com humilde reverência.

Quem “anda em justiça e fala com retidão” é capaz de habitar até com este fogo devorador, como nos é dito, Isaías 33:14, 15. Há pessoas e obras que suportarão o fogo, 1 Coríntios 3:12, etc., e algumas que terão confiança diante de Deus.

  1. A sua permanência na nuvem não foi menos assombrosa; ele esteve ali quarenta dias e quarenta noites.

Ao que parece, os seis dias (v. 16) não eram parte dos quarenta; porque, durante esses seis dias, Moisés esteve com Josué, que comeu do maná e bebeu do ribeiro mencionado em Deuteronômio 9:21, e enquanto estiveram juntos é provável que Moisés tenha comido e bebido com ele.

Mas quando Moisés foi chamado para o meio da nuvem, deixou Josué do lado de fora, que continuou a comer e a beber diariamente enquanto esperava o retorno de Moisés; mas dali em diante Moisés jejuou.

Sem dúvida Deus poderia ter dito em um dia o que tinha agora a dizer a Moisés, mas, para maior solenidade da coisa, manteve-o consigo no monte quarenta dias e quarenta noites.

Somos ensinados com isto a passar muito tempo em comunhão com Deus, e a considerar mais bem empregado o tempo que assim se emprega. Quem quer obter o conhecimento da vontade de Deus deve meditar nela dia e noite.


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