Matthew Henry

Êxodo 19

Argumento

Este capítulo apresenta a solenidade da entrega da lei sobre o monte Sinai, uma das mais impressionantes aparições da glória divina que já houve neste mundo terreno. Temos aqui:

I. As circunstâncias de tempo e de lugar, v. 1, 2.

II. A aliança entre Deus e Israel estabelecida em geral:

A proposta graciosa que Deus lhes fez (vv. 3-6), e o consentimento deles à proposta, v. 7, 8.

III. O aviso, dado três dias antes, do desígnio de Deus de dar a lei do meio de uma nuvem espessa, v. 9. As ordens dadas para preparar o povo para receber a lei (vv. 10-13), e o cuidado tomado em executar essas ordens, v. 14, 15.

IV. Uma aparição terrível da glória de Deus sobre o monte Sinai, vv. 16-20.

V. O silêncio proclamado e as ordens rigorosas dadas ao povo para guardar o decoro enquanto Deus lhes falava, v. 21, etc.

Versículos 1 a 8

A Aliança do Sinai. (a.C. 1491.)

Aqui está:

I. A data daquela grande carta pela qual Israel foi constituído em corpo:

  1. O tempo de que ela leva data (v. 1): no terceiro mês depois que saíram do Egito.

Calcula-se que a lei foi dada exatamente cinquenta dias depois da saída do Egito, em memória do que a festa de Pentecostes era observada no quinquagésimo dia depois da páscoa, e em conformidade com o que o Espírito foi derramado sobre os apóstolos na festa de Pentecostes, cinquenta dias depois da morte de Cristo.

No Egito tinham falado de uma jornada de três dias pelo deserto até o lugar do seu sacrifício (Êxodo 5:3), mas veio a ser uma jornada de quase dois meses. Tantas vezes erramos no cálculo dos tempos, e as coisas se mostram mais demoradas de fazer do que esperávamos.

  1. O lugar de que ela leva data: o monte Sinai, um lugar que a natureza, não a arte, tornara eminente e notável, porque era o mais alto de toda aquela cadeia de montanhas.

Assim Deus lançou desprezo sobre as cidades, os palácios e as construções magníficas, armando o seu pavilhão no alto de um monte elevado, num deserto ermo e estéril, para ali conduzir este tratado. Chama-se Sinai pela multidão de arbustos espinhosos que o cobrem.

II. A carta em si:

Moisés foi chamado a subir o monte (em cujo topo Deus armara a sua tenda, e a cujo pé Israel armara as suas), e foi empregado como mediador, ou antes, nada mais que o mensageiro da aliança: “Assim dirás à casa de Jacó, e anunciarás aos filhos de Israel”, v. 3.

Aqui o erudito bispo Patrick observa que o povo é chamado tanto pelo nome de Jacó quanto pelo de Israel, para lembrá-los de que aqueles que havia pouco estavam tão baixos como Jacó quando foi para Padã-Arã tinham agora crescido tanto quanto Deus o fez quando ele veio de lá (justamente enriquecido com os despojos daquele que o oprimira) e foi chamado Israel. Agora observe:

  1. Que o autor, e primeiro motor, da aliança é o próprio Deus.

Nada foi dito nem feito pelo próprio povo estúpido e irrefletido em vista deste estabelecimento; não houve iniciativa nem pedido do favor de Deus, mas esta bendita carta foi concedida ex mero motu — puramente por boa vontade do próprio Deus.

Repare: em todo o nosso lidar com Deus, a graça gratuita se antecipa a nós com as bênçãos de bondade, e todo o nosso consolo se deve, não ao nosso conhecer a Deus, mas antes ao “sermos conhecidos dele”, Gálatas 4:9.

Nós o amamos, o visitamos e fazemos aliança com ele porque ele primeiro nos amou, nos visitou e fez aliança conosco. Deus é o Alfa, e por isso tem de ser o Ômega.

  1. Que a matéria da aliança não é só justa e irrepreensível, e tal que não lhes impõe dureza nenhuma, mas bondosa e graciosa, e tal que lhes dá os maiores privilégios e vantagens imagináveis.

(1.) Ele os lembra do que fizera por eles, v. 4.

Ele lhes fizera justiça e os vingara dos seus perseguidores e opressores: “Vós vistes o que fiz aos egípcios, quantas vidas foram sacrificadas à honra e aos interesses de Israel”.

Ele lhes dera mostras sem paralelo do seu favor para com eles e do seu cuidado por eles: “Eu vos levei sobre asas de águias”, expressão sublime da maravilhosa ternura que Deus lhes mostrara.

Isso é explicado em Deuteronômio 32:11, 12. Denota grande velocidade. Deus não só veio sobre a asa para a libertação deles (quando o tempo marcado chegou, ele cavalgou sobre um querubim e voou), mas os apressou para fora, por assim dizer, sobre a asa.

Ele o fez também com grande facilidade, com a força e também com a rapidez de uma águia: dos que não desfalecem nem se cansam se diz que “sobem com asas como águias”, Isaías 40:31.

Sobretudo, denota o cuidado particular de Deus por eles e o afeto dele para com eles. Até o Egito, aquela fornalha de ferro, foi o ninho em que estes filhotes foram chocados, onde primeiro se formaram como o embrião de uma nação; quando, pelo aumento do seu número, chegaram a alguma maturidade, foram levados para fora daquele ninho.

Outras aves levam os filhotes nas garras, mas a águia (dizem) sobre as asas, de modo que até aqueles arqueiros que atiram em voo não podem ferir os filhotes sem antes atravessar a velha com o tiro.

Assim, no mar Vermelho, a coluna de nuvem e de fogo, o sinal da presença de Deus, interpôs-se entre os israelitas e os seus perseguidores (linhas de defesa que não se podiam forçar, um muro que não se podia penetrar).

Contudo isso não era tudo; o caminho deles, assim pavimentado, assim guardado, era glorioso, mas o fim deles muito mais: “Eu vos trouxe a mim mesmo”.

Eles foram trazidos não só a um estado de liberdade e honra, mas à aliança e comunhão com Deus. Esta, esta era a glória da libertação deles, como é da nossa por Cristo: que ele morreu, o justo pelos injustos, para nos levar a Deus.

É a isto que Deus visa em todos os métodos graciosos da sua providência e da sua graça: trazer-nos de volta a si mesmo, de quem nos revoltamos, e trazer-nos para casa, para si mesmo, em quem somente podemos ser felizes.

Ele apela para eles mesmos, e para a observação e a experiência deles, quanto à verdade do que aqui se insiste: “Vós vistes o que eu fiz”; de modo que não podiam descrer de Deus sem primeiro descrer dos próprios olhos.

Eles viram como tudo o que foi feito era puramente obra do Senhor. Não foram eles que se estenderam para Deus, mas foi ele que os trouxe a si mesmo.

Alguns observaram bem que da igreja do Antigo Testamento se diz que foi levada sobre asas de águias, denotando o poder daquela dispensação, que foi conduzida com mão forte e braço estendido.

Mas da igreja do Novo Testamento se diz que é ajuntada pelo Senhor Jesus, “como a galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das asas” (Mateus 23:37), denotando a graça e a compaixão daquela dispensação, e a admirável condescendência e humilhação do Redentor.

(2.) Ele lhes diz claramente o que esperava e exigia deles numa palavra: obediência (v. 5), que obedecessem de fato à sua voz e guardassem a sua aliança. Sendo assim salvos por ele, aquilo em que ele insistia era que fossem governados por ele.

A razoabilidade desta exigência é, muito tempo depois, alegada diante deles: que no dia em que os tirou da terra do Egito esta era a condição da aliança, “Obedecei à minha voz” (Jeremias 7:23); e diz-se que ele lhes protestou isto com insistência, Jeremias 11:4, 7.

Somente obedecer de fato, não em profissão e promessa apenas, não em alegação, mas com sinceridade. Deus lhes mostrara favores reais, e por isso exigia obediência real.

(3.) Ele lhes assegura a honra que poria sobre eles, e a bondade que lhes mostraria, caso guardassem assim a sua aliança (v. 5, 6): “Então sereis para mim um tesouro peculiar”.

Ele não especifica nenhum favor particular, como dar-lhes a terra de Canaã, ou coisa parecida, mas o exprime naquilo que incluía toda felicidade: que ele seria para eles um Deus em aliança, e eles seriam para ele um povo.

[1.] Deus afirma aqui a sua soberania sobre toda a criação visível, e a sua propriedade nela: “Toda a terra é minha”. Por isso não precisava deles; aquele que tinha domínio tão vasto era grande o bastante, e feliz o bastante, sem se preocupar com uma propriedade tão pequena como era Israel.

Sendo suas todas as nações da terra, podia escolher a que quisesse para ser o seu peculiar, e agir com soberania.

[2.] Ele apropria Israel a si mesmo: Primeiro, como um povo caro a ele. “Sereis um tesouro peculiar”.

Não que Deus fosse enriquecido por eles, como um homem o é pelo seu tesouro, mas ele se agradou de valorizá-los e estimá-los como um homem faz com o seu tesouro.

Eles eram “preciosos aos seus olhos e honrados” (Isaías 43:4); ele “pôs o seu amor sobre eles” (Deuteronômio 7:7), tomou-os sob o seu cuidado e proteção especiais, como um tesouro guardado sob chave e ferrolho.

Ele olhava para o resto do mundo apenas como lixo e entulho em comparação com eles. Dando-lhes revelação divina, ordenanças instituídas e promessas que incluíam a vida eterna, enviando os seus profetas entre eles e derramando o seu Espírito sobre eles, ele os distinguiu de todos os povos e os dignificou acima deles.

E esta honra têm todos os santos; eles são para Deus “um povo peculiar” (Tito 2:14) e lhe pertencerão quando ele reunir as suas joias.

Segundo, como um povo devotado a ele, à sua honra e ao seu serviço (v. 6), “um reino de sacerdotes, uma nação santa”.

Todos os israelitas, comparados com os outros povos, eram sacerdotes para Deus, tão perto estavam eles dele (Salmos 148:14), tão empregados no seu serviço direto, e tão íntima era a comunhão que tinham com ele. Quando foram feitos povo livre pela primeira vez, foi para que sacrificassem ao Senhor seu Deus, como sacerdotes.

Estavam sob o governo direto de Deus, e a tendência das leis que lhes foram dadas era distingui-los dos outros e empenhá-los para Deus como nação santa. Assim todos os crentes são, por Cristo, feitos “reis e sacerdotes para o nosso Deus” (Apocalipse 1:6), “geração eleita, sacerdócio real”, 1 Pedro 2:9.

III. A aceitação desta carta por Israel, e o consentimento dele nas condições dela:

  1. Moisés expôs fielmente a eles a mensagem de Deus (v. 7): “Ele pôs diante do rosto deles todas aquelas palavras”; ele não só lhes explicou o que Deus lhe dera por encargo, mas pôs à escolha deles aceitar ou não estas promessas nestes termos. Pôr-lhes isso diante do rosto significa pôr-lhes isso diante da consciência.

  2. Eles concordaram prontamente com a aliança proposta. Eles se obrigariam a obedecer à voz de Deus e tomariam como grande favor ser feitos um reino de sacerdotes para ele.

Eles responderam juntos como um só homem, nemine contradicente — sem voz discordante (v. 8): “Tudo o que o Senhor falou faremos”. Assim fecham o trato, aceitando que o Senhor lhes seja Deus, e entregando-se para lhe serem povo. Quem dera houvesse neles tal coração!

  1. Moisés, como mediador, devolveu a Deus as palavras do povo, v. 8.

Assim Cristo, o Mediador entre nós e Deus, como profeta nos revela a vontade de Deus, os seus preceitos e promessas, e depois, como sacerdote, oferece a Deus os nossos sacrifícios espirituais, não só de oração e louvor, mas de afetos devotos e resoluções piedosas, a obra do seu próprio Espírito em nós. Assim ele é aquele bendito árbitro que põe a mão sobre nós dois.

Versículos 9 a 15

A Aproximação de Deus Anunciada. (a.C. 1491.)

Aqui, I. Deus dá a entender a Moisés o seu propósito de descer sobre o monte Sinai, em alguma aparição visível da sua glória, numa nuvem espessa (v. 9); porque ele disse que habitaria nas trevas espessas (2 Crônicas 6:1) e faria delas o seu pavilhão (Salmos 18:11), retendo a face do seu trono quando o assentou sobre o monte Sinai, e estendendo uma nuvem sobre ele, Jó 26:9.

Essa nuvem espessa devia proibir as indagações indiscretas sobre as coisas secretas e ordenar uma adoração reverente daquilo que era revelado.

Deus desceria à vista de todo o povo (v. 11); embora não vissem semelhança alguma, veriam o bastante para se convencerem de que Deus estava de fato no meio deles.

E tão alto era o cume do monte Sinai que se supõe que não só o arraial de Israel, mas até os países em redor, pudessem divisar alguma aparição extraordinária de glória sobre ele, que lhes causaria terror.

Parece também ter sido destinada em particular a dar honra a Moisés: “Para que ouçam quando eu falar contigo, e creiam em ti para sempre”, v. 9.

Assim a comunicação devia ser estabelecida primeiro por uma aparição palpável da glória divina, que depois seria conduzida mais silenciosamente pelo ministério de Moisés.

Do mesmo modo, o Espírito Santo desceu visivelmente sobre Cristo no seu batismo, e todos os que estavam presentes ouviram Deus falar com ele (Mateus 3:17), para que depois, sem a repetição de tais sinais visíveis, pudessem crer nele.

Assim também o Espírito desceu em línguas repartidas sobre os apóstolos (Atos 2:3), para que eles fossem cridos.

Observe: quando o povo se declarou disposto a obedecer à voz de Deus, então Deus prometeu que ouviriam a voz dele; porque, se alguém está resolvido a fazer a vontade dele, ele a conhecerá, João 7:17.

II. Ele ordena a Moisés que se prepare para esta grande solenidade, dando-lhe dois dias para isso.

  1. Ele deve santificar o povo (v. 10), como Jó, antes disso, mandou chamar os seus filhos e os santificou, Jó 1:5.

Ele deve levantar a expectativa deles avisando-os do que Deus faria, e auxiliar a preparação deles dirigindo-os no que deviam fazer.

“Santifica-os”, isto é, “aparta-os dos seus negócios mundanos e chama-os aos exercícios religiosos, à meditação e à oração, para que recebam a lei da boca de Deus com reverência e devoção. Que estejam prontos”, v. 11.

Repare: quando devemos comparecer diante de Deus em ordenanças solenes, convém-nos santificar-nos e nos preparar de antemão.

Os pensamentos errantes precisam ser recolhidos, as afeições impuras abandonadas, as paixões inquietas reprimidas; mais que isso, todo cuidado com os negócios seculares deve, por ora, ser dispensado e posto de lado, para que o nosso coração se empenhe em se aproximar de Deus.

Duas coisas foram prescritas em particular como sinais e mostras da preparação deles:

(1.) Em sinal de que se limpavam de toda poluição pecaminosa, para que fossem santos a Deus, eles deviam lavar as suas vestes (v. 10), e assim fizeram (v. 14).

Não que Deus se importe com as nossas vestes; mas, enquanto lavavam as vestes, ele queria que pensassem em lavar a alma pelo arrependimento dos pecados que tinham contraído no Egito e desde a sua libertação.

Convém-nos comparecer com vestes limpas quando nos apresentamos diante dos grandes; assim, corações limpos são exigidos no nosso comparecimento diante do grande Deus, que os vê tão claramente quanto os homens veem as nossas vestes.

Isto é absolutamente necessário para que adoremos a Deus de modo aceitável. Veja Salmos 26:6; Isaías 1:16-18; Hebreus 10:22.

(2.) Em sinal de que se dedicavam inteiramente aos exercícios religiosos nesta ocasião, eles deviam abster-se até dos gozos lícitos durante estes três dias, e não se chegar às suas mulheres, v. 15. Veja 1 Coríntios 7:5.

  1. Ele deve pôr limites em redor do monte, v. 12, 13. Provavelmente traçou uma linha, ou vala, em volta do pé do monte, que ninguém devia passar sob pena de morte.

Isso devia dar a entender:

(1.) Aquela reverência humilde e temerosa que deve dominar a mente de todos os que adoram a Deus.

Somos criaturas baixas diante de um grande Criador, pecadores vis diante de um Juiz santo e justo; e por isso um temor piedoso e vergonha nos ficam bem, Hebreus 12:28; Salmos 2:11.

(2.) A distância a que os adoradores eram mantidos sob aquela dispensação, no que devemos reparar, para que valorizemos ainda mais o nosso privilégio sob o evangelho, “tendo ousadia para entrar no santíssimo pelo sangue de Jesus”, Hebreus 10:19.

  1. Ele deve mandar que o povo esteja atento à convocação que seria dada (v. 13): “Quando a trombeta soar longamente, então que tomem os seus lugares ao pé do monte, e assim se assentem aos pés de Deus”, como é explicado em Deuteronômio 33:3.

Nunca se convocou, e se pregou de uma só vez, a uma congregação tão grande como esta aqui. A voz de nenhum homem poderia ter alcançado a tantos, mas a voz de Deus alcançou.

Versículos 16 a 25

A Presença Divina no Monte Sinai. (a.C. 1491.)

Chega, enfim, aquele dia memorável, aquele dia terrível do Senhor, aquele dia de juízo em que Israel ouviu a voz do Senhor Deus que lhes falava do meio do fogo, e viveu, Deuteronômio 4:33.

Nunca se pregou, nem antes nem depois, sermão como este que aqui foi pregado à igreja no deserto. Porque:

I. O pregador foi o próprio Deus (v. 18): “O Senhor desceu em fogo”; e (v. 20), “O Senhor desceu sobre o monte Sinai”.

A shechinah, ou glória do Senhor, apareceu à vista de todo o povo; ele “resplandeceu desde o monte Parã com dezenas de milhares dos seus santos” (Deuteronômio 33:2), isto é, acompanhado, como a Majestade divina sempre é, por uma multidão dos santos anjos, que deviam tanto honrar a solenidade quanto assistir a ela. Daí se diz que a lei foi dada “por disposição de anjos”, Atos 7:53.

II. O púlpito (ou antes o trono) foi o monte Sinai, coberto de uma nuvem espessa (v. 16), envolto em fumaça (v. 18), e feito tremer fortemente.

Foi então que “a terra tremeu à presença do Senhor”, e “os montes saltaram como carneiros” (Salmos 114:4, 7); que o próprio Sinai, embora áspero e rochoso, “se derreteu diante do Senhor Deus de Israel”, Juízes 5:5.

Foi então que “os montes o viram, e tremeram” (Habacuque 3:10), e foram testemunhas contra um povo de coração duro e não comovido, a quem nada influenciava.

III. A congregação foi convocada pelo som de uma trombeta, altíssimo (v. 16), e que ia ficando cada vez mais forte, v. 19. Isso se fez pelo ministério dos anjos, e lemos de trombetas tocadas por anjos, Apocalipse 8:6.

Foi o som da trombeta que fez todo o povo tremer, como quem conhecia a própria culpa e tinha razão para esperar que o som daquela trombeta fosse para eles o alarme de guerra.

IV. Moisés levou os ouvintes ao lugar do encontro, v. 17. Aquele que os tirara da servidão do Egito agora os levava a receber a lei da boca de Deus.

As pessoas públicas são de fato bênçãos públicas quando se empenham, no posto que ocupam, em promover o culto público de Deus. Moisés à frente de uma assembleia que adorava a Deus era tão verdadeiramente grande quanto Moisés à frente de um exército em campanha.

V. As introduções ao culto foram trovões e relâmpagos, v. 16. Foram destinados a incutir temor reverente no povo e a despertar e prender a atenção deles.

Estavam dormindo? Os trovões os despertariam. Estavam olhando para outro lado? Os relâmpagos os levariam a voltar o rosto para aquele que lhes falava.

O trovão e o relâmpago têm causas naturais, mas a Escritura nos orienta de modo particular a reparar, neles, no poder de Deus e no terror dele.

O trovão é a voz de Deus, e o relâmpago o fogo de Deus, próprios para prender os sentidos da vista e do ouvido, pelos quais recebemos grande parte do que sabemos.

VI. Moisés é o ministro de Deus, a quem se fala para impor silêncio e manter a congregação em ordem: “Moisés falou”, v. 19.

Alguns pensam que foi agora que ele disse: “Estou grandemente amedrontado e trêmulo” (Hebreus 12:21); mas Deus acalmou o medo dele com o favor distintivo que lhe fez, chamando-o ao alto do monte (v. 20), com o que também provou a fé e a coragem dele.

Mal Moisés subira um pouco em direção ao alto do monte, foi mandado descer outra vez, para impedir que o povo rompesse os limites para fitar, v. 21.

Até os sacerdotes, ou príncipes, os chefes das famílias, que oficiavam pelas suas respectivas casas e por isso se diz que em outras ocasiões se chegavam ao Senhor, deviam agora guardar distância e portar-se com muita cautela.

Moisés alega que não era preciso dar-lhes nenhuma ordem a mais, já tendo sido tomado cuidado eficaz para impedir qualquer intrusão, v. 23.

Mas Deus, que conhecia a obstinação e a presunção deles, e o que estava agora no coração de alguns, apressa-o a descer com esta ordem: que nem os sacerdotes nem o povo se atrevessem a romper os limites estabelecidos para subir ao Senhor; somente Moisés e Arão, os homens a quem Deus se agradou de honrar, poderiam subir. Observe:

  1. O que era que Deus lhes proibia: romper os limites para fitar. Havia provisão bastante para despertar a consciência deles, mas não lhes era permitido satisfazer a vã curiosidade. Podiam ver, mas não fitar.

Alguns deles, provavelmente, desejavam ver alguma semelhança, para saber como fazer uma imagem de Deus, o que ele teve o cuidado de impedir, porque eles “não viram semelhança nenhuma”, Deuteronômio 4:15.

Repare: nas coisas divinas não devemos cobiçar saber mais do que Deus quer que saibamos; e ele nos permitiu tanto quanto nos é bom. O desejo de um conhecimento proibido foi a ruína dos nossos primeiros pais.

Os que querem ser sábios acima do que está escrito, e se intrometem nas coisas que não viram, precisam desta admoestação: que não rompam os limites para fitar.

  1. Sob que pena isso era proibido: “para que o Senhor não irrompa contra eles” (vv. 22-24), e muitos deles pereçam. Repare:

(1.) As restrições e as advertências da lei divina são todas destinadas ao nosso bem, e a nos guardar daquele perigo em que, de outro modo, por nossa própria loucura, nos meteríamos.

(2.) É por nossa conta e risco que rompemos os limites que Deus nos pôs e nos intrometemos naquilo que ele não nos permitiu; os bete-semitas e Uzá pagaram caro pela sua presunção.

E, mesmo quando somos chamados a nos aproximar de Deus, temos de lembrar que ele está no céu e nós na terra, e por isso nos convém exercer reverência e temor piedoso.


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