Êxodo 14
Argumento
A partida dos filhos de Israel do Egito (que foi de fato o nascimento da igreja judaica) é tornada ainda mais memorável por outras obras maravilhosas, operadas logo em seguida a ela.
Disso dão testemunho os registros deste capítulo, cujo conteúdo e cuja chave encontramos em Hebreus 11:29: “Passaram pelo Mar Vermelho como por terra seca, o que intentando fazer os egípcios, foram afogados”; e isto eles fizeram pela fé, o que dá a entender que havia nisso algo de típico e espiritual. Aqui está:
I. A extrema aflição e o perigo em que Israel se viu junto ao Mar Vermelho:
Disso foi dado aviso a Moisés de antemão, vv. 1-4.
A causa disso foi a perseguição violenta de Faraó contra eles, vv. 5-9.
Israel ficou em grande consternação por causa disso, vv. 10-12.
Moisés se esforça por encorajá-los, v. 13, 14.
II. O livramento maravilhoso que Deus operou para eles, tirando-os dessa aflição:
Moisés é instruído a respeito disso, vv. 15-18.
Linhas que não podiam ser rompidas são postas entre o arraial de Israel e o arraial de Faraó, v. 19, 20.
Pelo poder divino o Mar Vermelho é dividido (v. 21), e é feito:
(1.) Uma vereda para os israelitas, que marcharam em segurança por ele, v. 22, 29.
Mas, (2.) para os egípcios foi feito:
[1.] Uma emboscada para dentro da qual foram atraídos, vv. 23-25.
E, [2.] uma sepultura em que todos foram enterrados, vv. 26-28.
III. As impressões que isto produziu nos israelitas, v. 30, 31.
Versículos 1 a 9
Os Israelitas Perseguidos por Faraó. (a.C. 1491.)
Temos aqui:
I. As instruções dadas a Moisés a respeito das marchas e dos arraiais de Israel, que eram tão surpreendentes que, se Moisés não tivesse recebido ordens expressas sobre elas de antemão, dificilmente teriam sido persuadidos a seguir a coluna de nuvem e de fogo.
Para que, portanto, não haja escrúpulo nem descontentamento a respeito disso, Moisés é avisado de antemão:
- Para onde devem ir, v. 1, 2.
Eles haviam chegado à borda do deserto (Êxodo 13:20), e mais uma ou duas jornadas os teriam levado a Horebe, o lugar designado para servirem a Deus; mas, em vez de seguir adiante, recebem ordem de virar bruscamente, à direita, afastando-se de Canaã, e de marchar rumo ao Mar Vermelho.
Onde estavam, em Etã, não havia mar nenhum no caminho para obstruir a passagem deles; mas o próprio Deus os manda para dentro de apertos, o que lhes podia dar a certeza de que, servidos os seus propósitos, ele sem falta os tiraria daqueles apertos.
Repare: às vezes Deus levanta dificuldades no caminho da salvação do seu povo, para que tenha a glória de subjugá-las e de ajudar o seu povo a passar por cima delas.
- O que Deus tinha por desígnio nessas ordens estranhas.
Moisés teria prestado uma obediência implícita, ainda que Deus não lhe tivesse dado razão nenhuma; mas esconderá ele de Moisés o que faz? Não: Moisés saberá:
(1.) Que Faraó tem o desígnio de arruinar Israel, v. 3.
(2.) Que por isso Deus tem o desígnio de arruinar Faraó, e toma este caminho para efetuá-lo, v. 4.
A sagacidade de Faraó concluiria que Israel estava enredado no deserto e que assim se tornaria presa fácil para ele; e, para que ficasse ainda mais inclinado a pensar assim, Deus os manda para dificuldades ainda maiores.
Além disso, desviando-os tanto do seu caminho, ele deixa Faraó ainda mais perplexo e lhe dá mais ocasião para supor que estavam num estado de embaraço e de perigo. E assim (diz Deus) “serei honrado em Faraó”. Repare:
[1.] Sendo todos os homens feitos para a honra do seu Criador, ele fará manifesta a sua honra até naqueles que não o honram.
[2.] O que parece tender para a ruína da igreja é muitas vezes revertido para a ruína dos inimigos da igreja, cuja soberba e malícia são alimentadas pela Providência, para que amadureçam para a destruição.
II. A perseguição de Israel por Faraó, na qual, enquanto satisfaz a sua própria malícia e vingança, ele está adiantando o cumprimento dos conselhos de Deus a respeito dele. Foi-lhe dito que o povo havia fugido, v. 5.
Estava ele em tal susto, quando lhes deu licença para partir, que, passado um pouco o susto, ou esqueceu, ou não quis reconhecer, que eles partiram com o consentimento dele; e por isso estava disposto a que aquilo lhe fosse representado como uma ruptura da lealdade que lhe deviam.
Assim, o que facilmente pode ser justificado é facilmente condenado, quando se lhe dá uma falsa aparência. Ora, diante disso:
- Ele pensa nisso com pesar por haver tolerado a partida deles.
Ele e os seus servos, ainda que fosse com a maior razão do mundo que haviam deixado Israel ir, estavam agora irados consigo mesmos por causa disso: “Por que fizemos assim?”
(1.) Irritava-os que Israel tivesse a sua liberdade, que eles tivessem perdido o lucro dos trabalhos deles e o prazer de castigá-los.
É comida e bebida para os perseguidores soberbos pisar os santos do Altíssimo e dizer à alma deles: “Abaixa-te, para que passemos por cima”; e por isso os irrita ter as mãos atadas.
Repare: a liberdade do povo de Deus é grande motivo de ressentimento para os seus inimigos, Ester 5:12, 13; Atos 5:17, 33.
(2.) Agravava a irritação o fato de eles mesmos terem consentido nisso, pensando agora que poderiam tê-lo impedido, e que não precisavam ter cedido, ainda que tivessem resistido até a última extremidade.
Assim Deus faz da inveja e da fúria dos homens contra o seu povo um tormento para eles mesmos, Salmos 112:10.
Foi bem feito deixar Israel ir, e era coisa em que teriam pensado com consolo se o tivessem feito por um princípio honesto; mas, fazendo-o por coação, chamaram-se mil vezes tolos por tê-lo feito e desejaram ardentemente desfazer aquilo.
Repare: é muito comum, mas muito absurdo e criminoso, que as pessoas se arrependam das suas boas obras; da sua justiça e da sua caridade, e até do seu arrependimento, elas se arrependem. Veja um caso um tanto parecido com este, Jeremias 34:10, 11.
- Ele resolve, se possível, ou submetê-los de novo ou vingar-se deles; para isso, levanta um exército, reúne toda a sua força de carros e de cavaleiros, v. 6, 7 (pois, ao que parece, não levou infantaria consigo, porque o negócio do rei exigia pressa), e assim não duvida de que os escravizará de novo, v. 6, 7.
É fácil imaginar em que fúria Faraó estava agora, rugindo como um leão privado da sua presa; como o seu coração soberbo agravava a afronta, inchava de indignação, desdenhava ser frustrado, ansiava por ser vingado: e agora todas as pragas são como se nunca tivessem existido.
Esqueceu inteiramente os funerais dolorosos do seu primogênito e não consegue pensar em outra coisa senão em fazer Israel sentir os seus ressentimentos.
Agora pensa que pode ser forte demais para o próprio Deus; pois, de outro modo, poderia esperar conquistar um povo tão caro a ele? Deus o entregou a essas paixões do seu próprio coração, e assim o endureceu.
É dito (v. 8): “os filhos de Israel saíram com alta mão”, isto é, com muita coragem e bravura, triunfando na sua libertação, e resolvidos a romper as dificuldades que estavam no seu caminho. Mas os egípcios (v. 9) foram em perseguição deles.
Repare: aqueles que a sério voltam o rosto para o céu, e querem viver piedosamente em Cristo Jesus, devem esperar ser assaltados pelas tentações e pelos terrores de Satanás. Ele não se separará mansamente de ninguém que esteja ao seu serviço, nem sairá sem se enfurecer, Marcos 9:26.
Versículos 10 a 14
Temos aqui:
I. O susto em que os filhos de Israel ficaram quando perceberam que Faraó os perseguia, v. 10.
Eles conheciam muito bem a força e a fúria do inimigo, e a própria fraqueza; numerosos de fato eles eram, mas todos a pé, desarmados, sem disciplina, inquietados por uma longa servidão e — o que era o pior de tudo — agora encurralados pela posição do seu arraial, de modo que não podiam escapar.
De um lado estava Pi-Hairote, uma cadeia de rochedos escarpados e intransponíveis; do outro lado estavam Migdol e Baal-Zefom, que alguns pensam terem sido fortes e guarnições nas fronteiras do Egito.
Diante deles estava o mar; atrás deles estavam os egípcios: de modo que não havia caminho aberto para eles senão para cima, e foi de lá que veio o seu livramento.
Repare: podemos estar no caminho do nosso dever, seguindo a Deus e apressando-nos rumo ao céu, e ainda assim estar em grandes apertos, “atribulados por todos os lados”, 2 Coríntios 4:8.
Nessa aflição, não é de admirar que os filhos de Israel ficassem muito temerosos; o pai deles, Jacó, ficou assim em caso semelhante (Gênesis 32:7); quando de fora há lutas, não pode ser de outro modo senão que por dentro haja temores. Qual foi, então, o fruto desse temor? Conforme ele fosse, o temor era bom ou mau.
Alguns deles clamaram ao Senhor; o temor os pôs a orar, e esse foi um bom efeito dele. Deus nos traz a apertos para poder nos trazer aos nossos joelhos.
Outros deles clamaram contra Moisés; o temor os pôs a murmurar, v. 11, 12. Eles se dão por perdidos; e, como se o braço de Deus se tivesse encurtado de repente, e ele não fosse tão capaz de fazer milagres hoje como era ontem, desesperam do livramento e não podem contar com nada senão morrer no deserto.
Quão indesculpável era a desconfiança deles! Não se viam sob a direção e a proteção de uma coluna vinda do céu? E pode um poder todo-poderoso falhar-lhes, ou uma bondade infinita ser falsa para com eles?
Contudo, este não era o pior; eles entram em desavença com Moisés por tê-los tirado do Egito e, ao entrar em desavença com ele, atiram-se contra a face do próprio Deus e provocam à ira aquele cujo favor era agora o único socorro a que podiam recorrer.
Assim como os egípcios ficaram irados consigo mesmos pela melhor coisa que jamais fizeram, também os israelitas ficaram irados com Deus pela maior bondade que jamais lhes foi feita; tão grosseiros são os absurdos da incredulidade. Eles expressam aqui:
(1.) Um desprezo vil pela liberdade, preferindo-lhe a servidão, só porque ela vinha acompanhada de algumas dificuldades.
Um espírito generoso teria dito: “Se o pior vier a acontecer”, como dizemos, “é melhor morrer no campo da honra do que viver nas cadeias da escravidão”.
Ou melhor, sob a condução de Deus eles não podiam fracassar e, portanto, podiam dizer: “É melhor viver como homens livres de Deus ao ar livre de um deserto do que como escravos dos egípcios na fumaça dos fornos de tijolos”.
Mas, porque no momento estão um pouco embaraçados, ficam irados por não terem sido deixados sepultados vivos na sua casa de servidão.
(2.) Ingratidão baixa para com Moisés, que tinha sido o instrumento fiel do livramento deles.
Eles o condenam, como se ele os tivesse tratado com dureza e sem bondade, quando era evidente, fora de discussão, que tudo o que ele fazia, e qualquer que fosse o desfecho, era por direção do Deus deles e com desígnio para o bem deles.
O que tinham dito numa agitação anterior (quando não deram ouvidos a Moisés por causa da angústia de espírito), repetem e justificam nesta: “Dissemos no Egito: Deixa-nos”.
Foi mal dito, ainda que mais desculpável, porque então não tinham tido tanta experiência quanto agora das aparições maravilhosas de Deus em favor deles.
Mas tão depressa tinham esquecido os milagres de misericórdia quanto os egípcios tinham esquecido os milagres de ira; e eles, assim como os egípcios, endureceram o coração, afinal, para a sua própria ruína.
Como o Egito depois de dez pragas, também Israel, depois de dez provocações — das quais esta foi a primeira (Números 14:22) —, foi sentenciado a morrer no deserto.
II. O encorajamento oportuno que Moisés lhes deu nessa aflição, v. 13, 14. Ele não respondeu a estes tolos segundo a sua tolice.
Deus suportou a provocação que lhe fizeram e não escolheu (como poderia justamente ter feito) as ilusões deles, nem trouxe sobre eles os seus temores; e por isso Moisés bem podia passar por cima da afronta que lhe fizeram.
Em vez de repreendê-los, ele os consola e, com admirável presença e serenidade de espírito, sem se desanimar nem com as ameaças do Egito nem com os tremores de Israel, aquieta a murmuração deles com a garantia de um livramento rápido e completo: “Não temais”.
Repare: é nosso dever e nosso interesse, quando não conseguimos sair das nossas tribulações, ainda assim subir acima dos nossos temores, para que eles sirvam apenas para avivar as nossas orações e os nossos esforços, mas não consigam calar a nossa fé e a nossa esperança.
- Ele lhes garante que Deus os livraria, que se encarregaria do livramento deles e que o efetuaria na ruína total dos seus perseguidores: “O Senhor pelejará por vós”.
Disto Moisés mesmo estava confiante, e queria que eles também estivessem, embora ainda não soubesse como nem por que meio isso se realizaria. Deus lhe tinha garantido que Faraó e a sua hoste seriam arruinados, e ele os consola com as mesmas consolações com que tinha sido consolado.
- Ele os orienta a deixar a coisa com Deus, numa expectativa silenciosa do resultado: “Estai quietos, e não penseis em salvar-vos nem lutando nem fugindo; esperai as ordens de Deus e observai-as.”
“Não fiqueis maquinando que rumo tomar, mas segui o vosso guia; esperai as aparições de Deus e reparai nelas, para que vejais como sois tolos ao desconfiar delas.”
“Sossegai-vos, por uma inteira confiança em Deus, numa perspectiva pacífica da grande salvação que Deus está agora prestes a operar por vós. Calai-vos; nem sequer precisais dar um brado contra o inimigo, como em Josué 6:16. A obra será feita sem nenhum concurso da vossa parte.” Repare:
(1.) Se o próprio Deus traz o seu povo a apertos, ele mesmo descobrirá um caminho para tirá-lo de novo.
(2.) Em tempos de grande dificuldade e de grande expectativa, é sabedoria nossa manter o espírito calmo, quieto e sereno; porque então estamos na melhor disposição tanto para fazer a nossa própria obra quanto para considerar a obra de Deus.
A força de vocês está em permanecer quietos (Isaías 30:7), porque “os egípcios ajudarão em vão” e ameaçarão ferir em vão.
Versículos 15 a 20
A Coluna de Nuvem. (a.C. 1491.)
Temos aqui:
I. Direção dada ao líder de Israel:
- O que ele mesmo deve fazer. Ele deve, por ora, deixar de orar e aplicar-se à sua tarefa (v. 15): “Por que clamas a mim?”
Moisés, ainda que estivesse seguro de um bom desfecho para a aflição presente, contudo não descuidou da oração.
Não lemos uma só palavra que ele tenha dito em oração, mas ele levantou a Deus o seu coração, cuja linguagem Deus entendeu bem e em que reparou.
As orações silenciosas de fé de Moisés prevaleceram mais junto a Deus do que os altos clamores de temor de Israel, v. 10. Repare:
(1.) Orar, se for do tipo certo, é clamar a Deus, o que indica ser a linguagem tanto de um desejo natural quanto de um desejo insistente.
(2.) Para avivar a sua diligência. Moisés tinha outra coisa a fazer além de orar; devia comandar as hostes de Israel, e era agora necessário que estivesse no seu posto. Cada coisa é bela no seu tempo.
- O que ele deve ordenar a Israel que faça: “Fala-lhes que sigam para a frente.”
Alguns pensam que Moisés tinha orado não tanto pelo livramento deles (disso ele estava seguro) quanto pelo perdão das suas murmurações, e que a ordem de Deus para que seguissem para a frente era um indício do perdão.
Não há como seguir para a frente com nenhum consolo senão na consciência da nossa reconciliação com Deus.
Moisés lhes tinha dito que ficassem quietos e aguardassem ordens de Deus; e agora as ordens são dadas.
Eles pensavam que deviam ser encaminhados ou para a direita ou para a esquerda. “Não”, diz Deus, “fala-lhes que sigam para a frente, direto para a beira do mar”, como se houvesse uma frota de navios de transporte pronta para eles embarcarem.
Repare: quando estamos no caminho do nosso dever, ainda que encontremos dificuldades, devemos seguir para a frente, e não ficar parados num assombro mudo.
Devemos cuidar do trabalho presente e depois deixar o resultado a Deus, usar os meios e confiar-lhe o desfecho.
- O que ele podia esperar que Deus fizesse. Que os filhos de Israel avancem até onde puderem em terra seca, e então Deus dividirá o mar e abrirá para eles uma passagem através dele, vv. 16-18.
Deus tem por desígnio não só livrar os israelitas, mas destruir os egípcios; e o plano dos seus conselhos é conforme a isto:
(1.) Ele mostrará favor a Israel; as águas serão divididas para eles passarem por meio delas, v. 16.
O mesmo poder poderia ter congelado as águas para eles passarem por cima; mas a Sabedoria Infinita preferiu antes dividir as águas para eles passarem por meio delas, pois sempre se escolhe aquele caminho de salvação que mais humilha.
Assim se diz, a respeito disto (Isaías 63:13, 14): ele os conduziu pelo abismo, como uma besta desce ao vale, e assim fez para si um nome glorioso.
(2.) Ele obterá honra sobre Faraó. Se o devido aluguel de honra não for pago ao grande proprietário, por quem e de quem temos e mantemos o nosso ser e os nossos consolos, ele procederá à penhora e receberá o que lhe é devido.
Deus não sairá perdendo por homem nenhum. Para isso é feita a ameaça: “Eu, eis que eu, endurecerei o coração de Faraó”, v. 17.
O modo de expressão é digno de nota: “Eu, eis que eu, o farei.” “Eu, que tenho o direito de fazê-lo”: assim é a linguagem da sua soberania.
Não nos é lícito contribuir para o endurecimento do coração de ninguém, nem deixar de fazer o que pudermos para amolecê-lo; mas a graça de Deus é dele, ele tem misericórdia de quem quer ter misericórdia e endurece a quem quer.
“Eu, que posso fazê-lo”: assim é a linguagem do seu poder; ninguém senão o Todo-Poderoso pode amolecer o coração (Jó 23:16), nem pode nenhum outro ser endurecê-lo.
“Eu, que o farei”: pois é a linguagem da sua justiça; é coisa justa da parte de Deus pôr debaixo das impressões da sua ira aqueles que por muito tempo resistiram às influências da sua graça.
É dito em tom de triunfo sobre este rebelde obstinado e presunçoso: “Eu, eu mesmo, tomarei um caminho eficaz para humilhá-lo; quebrará aquele que não quis dobrar-se.” É uma expressão como aquela (Isaías 1:24): “Ah, eu me aliviarei dos meus adversários.”
II. Uma guarda posta sobre o arraial de Israel onde ele agora estava mais exposto, que era na retaguarda, v. 19, 20.
O anjo de Deus, cujo ministério foi usado na coluna de nuvem e de fogo, partiu de diante do arraial de Israel, onde eles agora não precisavam de guia (não havia perigo de errarem o caminho através do mar, nem precisavam de outra palavra de comando senão a de seguir para a frente).
E veio para trás deles, onde agora precisavam de guarda (estando os egípcios a ponto de agarrar os que iam por último), e assim era um muro de separação entre eles.
Ali ele era de utilidade aos israelitas, não só para protegê-los, mas para iluminá-los através do mar; e, ao mesmo tempo, confundia os egípcios, de modo que perderam de vista a sua presa justo quando estavam prontos para lhe pôr as mãos em cima.
A palavra e a providência de Deus têm um lado negro e escuro para o pecado e os pecadores, mas um lado brilhante e agradável para os que são verdadeiramente israelitas. O que para uns é cheiro de vida para vida, para outros é cheiro de morte para morte.
Esta não era a primeira vez que aquele que no princípio dividiu entre a luz e as trevas (Gênesis 1:4), e continuamente forma as duas (Isaías 45:7), tinha, ao mesmo tempo, destinado trevas aos egípcios e luz aos israelitas.
Foi uma amostra da distinção sem fim que será feita entre a herança dos santos na luz e aquelas trevas exteriores que para sempre serão a porção dos hipócritas. Deus separará entre o precioso e o vil.
Versículos 21 a 31
A Destruição dos Egípcios. (a.C. 1491.)
Temos aqui a história daquela obra maravilhosa que é tantas vezes mencionada tanto no Antigo quanto no Novo Testamento: a divisão do Mar Vermelho diante dos filhos de Israel.
Foi o terror dos cananeus (Josué 2:9, 10), o louvor e o triunfo dos israelitas, Salmos 114:3; 106:9; 136:13, 14. Foi um tipo do batismo, 1 Coríntios 10:1, 2.
A passagem de Israel por ele era típica da conversão das almas (Isaías 11:15), e a perdição dos egípcios nele era típica da ruína final de todos os pecadores impenitentes, Apocalipse 20:14. Aqui temos:
I. Um exemplo do poder todo-poderoso de Deus no reino da natureza, ao dividir o mar e abrir uma passagem pelo meio das águas.
Era uma baía, ou golfo, ou braço de mar, de duas ou três léguas de largura, que foi dividido, v. 21.
O sinal instituído de que se fez uso foi Moisés estender a mão sobre ele, para significar que aquilo se fazia em resposta à sua oração, para confirmação da sua missão e em favor do povo que ele conduzia.
O sinal natural foi um forte vento oriental, significando que aquilo se fazia pelo poder de Deus, a quem os ventos e os mares obedecem.
Se há alguma passagem no livro de Jó que se refira aos milagres operados para o livramento de Israel do Egito, é a de Jó 26:12: ele divide o mar com o seu poder e, pelo seu entendimento, fere Raabe de lado a lado (assim está a palavra), isto é, o Egito.
Repare: Deus pode levar o seu povo pelas maiores dificuldades e forçar um caminho onde não o encontra.
O Deus da natureza não se prendeu às leis dela, mas, quando lhe apraz, dispensa-as; e então o fogo não queima, nem a água corre.
II. Um exemplo do seu favor maravilhoso para com o seu Israel. Passaram pelo mar até a margem oposta, porque não posso supor, com alguns, que tenham dado uma volta e saído de novo do mesmo lado, v. 22. “Andaram em terra seca pelo meio do mar”, v. 29.
E, sendo a coluna de nuvem, aquela glória do Senhor, a retaguarda deles (Isaías 58:8), para que os egípcios não os atacassem pelo flanco, “as águas lhes eram um muro” (é mencionado duas vezes) “à sua mão direita e à sua esquerda”.
É provável que Moisés e Arão tenham se arriscado primeiro nesse caminho jamais pisado, e depois todo o Israel atrás deles; e esta marcha pelas veredas das grandes águas tornaria menos temível a marcha que fariam depois pelo deserto.
Quem havia seguido a Deus pelo mar não precisava temer segui-lo para onde quer que ele os levasse.
Esta marcha pelo mar foi de noite, e não numa noite de luar, porque eram sete dias depois da lua cheia, de modo que não tinham outra luz senão a que lhes vinha da coluna de nuvem e de fogo.
Isso a tornava mais imponente; mas onde Deus nos conduz, ele nos ilumina; enquanto seguimos a sua condução, não nos faltarão os seus consolos.
Isto foi feito, e registrado, para encorajar o povo de Deus em todas as épocas a confiar nele nos maiores apertos.
O que não pode fazer aquele que fez isto? O que não fará por aqueles que o temem e o amam aquele que fez isto por estes israelitas murmuradores e incrédulos, que ainda assim eram amados por causa dos seus pais e por causa de um remanescente entre eles?
Encontramos os santos, muito tempo depois, fazendo-se participantes dos triunfos desta marcha (Salmos 66:6): “Passaram o rio a pé; ali nos alegramos nele”; e veja como esta obra de maravilha é aproveitada, Salmos 77:11, 16, 19.
III. Um exemplo da sua ira justa e reta sobre os inimigos dele e do seu povo, os egípcios. Observe aqui:
- Como foram feitos insensatos. No calor da perseguição, entraram atrás dos israelitas pelo meio do mar, v. 23. “Ora”, pensaram eles, “por que não podemos nos arriscar onde Israel se arriscou?”
Uma ou duas vezes os magos do Egito haviam feito o que Moisés fez, com os seus encantamentos; Faraó se lembrava disso, mas esqueceu como eles ficaram desconcertados no fim.
Estavam providos com mais vantagem, com carros e cavalos, enquanto os israelitas iam a pé. Faraó havia dito: “Não conheço o Senhor”; e por isto se via que de fato não conhecia, senão não se teria arriscado assim.
Ninguém tão ousado quanto os que são cegos. A fúria contra Israel os tornou assim audazes e irrefletidos: haviam por muito tempo endurecido os próprios corações; e agora Deus os endureceu para a sua ruína, e escondeu dos seus olhos as coisas que pertenciam à sua paz e à sua segurança.
“Certamente em vão se estende a rede à vista de qualquer ave” (Provérbios 1:17); e no entanto tão cegos estavam os egípcios que se apressaram para o laço, Provérbios 7:23.
Repare: a ruína dos pecadores é trazida sobre eles pela sua própria presunção, que os precipita de cabeça no fosso. São destruidores de si mesmos.
- Como foram perturbados e perplexos, v. 24, 25. Por algumas horas marcharam pelas águas divididas com tanta segurança e triunfo quanto Israel, sem duvidar de que, em pouco tempo, alcançariam o seu intento.
Mas, na vigília da manhã, “o Senhor olhou para a hoste dos egípcios e a perturbou”. Alguma coisa viram ou ouviram da coluna de nuvem e de fogo que os lançou em grande consternação e lhes deu a apreensão da sua ruína antes que ela lhes sobreviesse.
Agora se via que o triunfo dos ímpios é curto, e que Deus tem meios de assustar os pecadores até o desespero, antes de mergulhá-los na destruição. Ele corta o espírito dos príncipes, e é terrível para os reis da terra.
(1.) Haviam fanfarronado e se gabado como se o dia fosse deles; mas agora estavam perturbados e desalentados, tomados de pânico.
(2.) Haviam guiado os carros com fúria; mas agora avançavam com dificuldade, atravancados e embaraçados a cada passo; o caminho ficava fundo, os corações ficavam tristes, as rodas se soltavam e os eixos falhavam. Assim pode Deus refrear a violência dos que estão em perseguição do seu povo.
(3.) Vinham voando sobre a retaguarda de Israel, como o gavião sobre a pomba trêmula; mas agora clamaram: “Fujamos de diante da face de Israel”, que se lhes tornara como uma tocha de fogo num feixe, Zacarias 12:6.
Israel se tornou agora, de repente, motivo de tanto terror para eles quanto eles haviam sido para Israel. Poderiam ter deixado Israel em paz, e não quiseram; agora querem fugir de diante da face de Israel e não podem.
Os homens não se convencem, até que seja tarde demais, de que os que se metem com o povo de Deus se metem para o próprio dano.
Quando o Senhor vier com dezenas de milhares dos seus santos, para executar juízo, os poderosos buscarão em vão abrigar-se debaixo de rochas e montanhas de diante da face de Israel e do Rei de Israel, Apocalipse 6:15. Compare com esta história, Jó 27:20, etc.
- Como foram todos afogados. Assim que os filhos de Israel chegaram em segurança à praia, Moisés recebeu ordem de estender a mão sobre o mar, e assim dar às águas o sinal de se fecharem de novo, assim como antes, à palavra de comando, elas se haviam aberto à direita e à esquerda, v. 29.
Assim fez, e imediatamente as águas voltaram ao seu lugar e submergiram toda a hoste dos egípcios, v. 27, 28. Faraó e os seus servos, que haviam endurecido uns aos outros no pecado, caíram agora juntos, e nem um escapou.
Uma tradição antiga diz que os magos de Faraó, Janes e Jambres, pereceram com os demais, como Balaão com os midianitas que ele havia seduzido, Números 31:8. E agora:
(1.) Deus vingou sobre os egípcios o sangue dos primogênitos que eles haviam afogado; e o principal é pago com juros, é recompensado em dobro, egípcios adultos por israelitas recém-nascidos; assim o Senhor é justo, e precioso é o sangue do seu povo aos olhos dele, Salmos 72:14.
(2.) Deus ajustou contas com Faraó por toda a sua conduta soberba e insolente para com Moisés, seu embaixador. Zombar dos mensageiros do Senhor, e fazer troça deles, traz ruína sem remédio.
Agora Deus obteve honra sobre Faraó, olhando para aquele soberbo e abatendo-o, Jó 40:12. Venha e veja as desolações que ele fez, e escreva isto, não na água, mas com pena de ferro na rocha para sempre.
Aqui jaz aquele tirano sanguinário que desafiou o seu Criador, as suas exigências, as suas ameaças e os seus juízos; rebelde contra Deus e escravo das suas próprias paixões bárbaras; perfeitamente perdido para a humanidade, a virtude e toda honra verdadeira.
Aqui jaz ele, sepultado no fundo, monumento perpétuo da justiça divina. Aqui desceu ele à cova, embora fosse o terror dos poderosos na terra dos viventes. “Este é Faraó e toda a sua multidão”, Ezequiel 31:18.
IV. A atenção que os israelitas deram a esta obra maravilhosa que Deus operou por eles, e as boas impressões que ela lhes produziu no momento:
- Viram os egípcios mortos sobre as areias, v. 30. A Providência ordenou de tal modo que a maré seguinte lançou para fora os corpos mortos:
(1.) Para maior desgraça dos egípcios. Agora os animais e as aves de rapina eram chamados para comer a carne dos capitães e dos poderosos, Apocalipse 19:17, 18.
Os egípcios eram muito escrupulosos e primorosos em embalsamar e conservar os corpos dos seus grandes homens, mas aqui o maior desprezo é derramado sobre todos os grandes do Egito; veja como jazem, montes sobre montes, como esterco sobre a face da terra.
(2.) Para maior triunfo dos israelitas, e para afetá-los mais com o seu livramento; porque o olho afeta o coração. Veja Isaías 66:24: “Eles sairão, e olharão para os cadáveres dos homens que transgrediram contra mim.”
Provavelmente despojaram os mortos e, tendo pedido emprestadas joias aos seus vizinhos antes — as quais, tendo os egípcios quebrado a fé com eles por esta perseguição hostil, dali em diante não estavam obrigados a restituir —, tiraram deles agora armas, das quais, pensam alguns, não estavam antes providos.
Assim, quando Deus quebrou em pedaços as cabeças do Leviatã, deu-o por alimento ao povo que habita o deserto, Salmos 74:14.
- A vista desta grande obra os afetou grandemente, e agora “temeram ao Senhor, e creram no Senhor e em seu servo Moisés”, v. 31.
Agora estavam envergonhados das suas desconfianças e murmurações e, no bom ânimo em que estavam, nunca mais desesperariam do socorro do Céu, não, nem mesmo nos maiores apertos; nunca mais entrariam em desavença com Moisés, nem falariam de voltar ao Egito.
Foram agora batizados em Moisés no mar, 1 Coríntios 10:2. Esta grande obra que Deus operou por eles pelo ministério de Moisés os obrigou eficazmente a seguir as suas orientações, debaixo de Deus.
Isto confirmou a fé deles nas promessas que ainda estavam por cumprir; e, sendo assim triunfalmente tirados do Egito, não duvidaram de que estariam em breve em Canaã, tendo tal Deus em quem confiar e tal mediador entre eles e ele.
Oh, se tivesse havido neles tal coração como agora parecia haver! As misericórdias palpáveis, quando estão frescas, produzem impressões palpáveis; mas em muitos essas impressões logo se desgastam.
Enquanto veem as obras de Deus e sentem o benefício delas, temem-no e nele confiam; mas logo esquecem as suas obras, e então o desprezam. Como seria bom para nós se estivéssemos sempre em tão boa disposição como às vezes estamos!