Êxodo 10
Argumento
A oitava e a nona das pragas do Egito, a dos gafanhotos e a das trevas, estão registradas neste capítulo.
I. Quanto à praga dos gafanhotos:
Deus instrui Moisés sobre o sentido dessas assombrosas dispensações da sua providência, v. 1, 2.
Ele ameaça com os gafanhotos, vv. 3-6.
Faraó, por persuasão dos seus servos, está disposto a tratar de novo com Moisés (vv. 7-9), mas não conseguem chegar a um acordo, v. 10, 11.
Os gafanhotos vêm, vv. 12-15.
Faraó clama Peccavi — ofendi (v. 16, 17), e então Moisés ora pela remoção da praga, e é feito; mas o coração de Faraó continua endurecido, vv. 18-20.
II. Quanto à praga das trevas:
Ela é infligida, vv. 21-23.
Faraó torna a negociar com Moisés a respeito de uma rendição, mas a negociação se rompe num acesso de cólera, v. 26, etc.
Versículos 1 a 11
As Pragas do Egito. (a.C. 1491.)
Aqui, I. Moisés é instruído. Bem podemos supor que ele, de sua parte, estivesse muito espantado tanto com a obstinação de Faraó quanto com a severidade de Deus, e que não pudesse deixar de se compadecer das desolações do Egito, sem saber conceber em que essa contenda viria a dar afinal.
Pois bem, aqui Deus lhe diz qual era o seu desígnio: não só a libertação de Israel, mas a exaltação do seu próprio nome, para que Moisés contasse nos seus escritos, que durariam até o fim do mundo, o que Deus fizera no Egito, v. 1, 2.
As dez pragas do Egito tinham de ser infligidas, para que ficassem registradas para as gerações futuras como provas inegáveis:
Do poder de Deus, que tudo governa no reino da natureza, do seu domínio sobre todas as criaturas e da sua autoridade para usá-las ou como servas da sua justiça ou como as que padecem por ela, segundo o conselho da sua vontade.
Do poder vitorioso de Deus sobre o reino de Satanás, para refrear a malícia e castigar a insolência dos inimigos dele e da sua igreja.
Estas pragas são monumentos permanentes da grandeza de Deus, da felicidade da igreja e da pecaminosidade do pecado, e advertências permanentes aos filhos dos homens, em todas as eras, para não provocarem o Senhor a ciúme nem contenderem com o seu Criador. O proveito dessas instruções para o mundo compensa suficientemente o custo.
II. Faraó é repreendido (v. 3): Assim diz o Senhor Deus dos pobres, desprezados e perseguidos hebreus: “Até quando recusarás humilhar-te diante de mim?”
Repare: com justiça se espera dos maiores entre os homens que se humilhem diante do grande Deus, e é por sua conta e risco que se recusam a fazê-lo.
Esta tem sido, mais de uma vez, a contenda de Deus com os príncipes. Belsazar não humilhou o seu coração, Daniel 5:22. Zedequias não se humilhou diante de Jeremias, 2 Crônicas 36:12.
A quem não se humilhar, Deus humilhará. Faraó às vezes alegara humilhar-se, mas não se fez caso disso, porque não era nem sincero nem constante nisso.
III. A praga dos gafanhotos é ameaçada, vv. 4-6. O granizo tinha derrubado os frutos da terra, mas estes gafanhotos viriam e os devorariam.
E não só isso: encheriam também as suas casas, ao passo que as investidas anteriores desses insetos tinham ficado confinadas às suas terras. Isto seria muito pior que todas as calamidades daquela espécie que jamais se conheceram.
Moisés, tendo proferido a sua mensagem, e não esperando resposta melhor que a de antes, virou-se e saiu da presença de Faraó, v. 6.
Assim Cristo determinou aos seus discípulos que se retirassem daqueles que não os recebessem e que sacudissem o pó dos seus pés em testemunho contra eles; e a ruína não está longe daqueles que assim são justamente abandonados pelos mensageiros do Senhor, 1 Samuel 15:27, etc.
IV. Os assistentes de Faraó, os seus ministros de estado, ou conselheiros privados, intervêm para persuadi-lo a chegar a algum acordo com Moisés, v. 7.
Eles, como era do seu dever, representam-lhe a condição deplorável do reino (“o Egito está destruído”) e aconselham-no por todos os meios a soltar os seus prisioneiros (“deixa ir os homens”); porque Moisés, viam eles, seria um laço para eles até que isso fosse feito, e melhor seria consentir de início do que ser compelido no fim.
Os israelitas tinham se tornado uma “pedra pesada” para os egípcios, e agora, enfim, os príncipes do Egito estavam dispostos a se ver livres deles, Zacarias 12:3.
Repare: é coisa a se lamentar (e a se evitar, se possível) que uma nação inteira seja arruinada pelo orgulho e pela obstinação dos seus príncipes, Salus populi suprema lex — Consultar o bem-estar do povo é a primeira das leis.
V. Inicia-se, com isso, uma nova negociação entre Faraó e Moisés, na qual Faraó consente que os israelitas vão ao deserto para sacrificar; mas o ponto em disputa era quem deveria ir, v. 8.
- Moisés insiste em que levem consigo as suas famílias inteiras e todos os seus bens, v. 9.
Repare: aqueles que servem a Deus devem servi-lo com tudo o que têm. Moisés alega: “Temos de celebrar uma festa; portanto temos de ter as nossas famílias para festejar conosco, e os nossos rebanhos e gados com que festejar, para a honra de Deus.”
- Faraó não concede isso de modo algum: permitirá que os homens vão, alegando que era isto tudo o que desejavam, embora esta questão nunca tivesse sido mencionada em nenhuma das negociações anteriores. Mas, quanto aos pequeninos, resolve mantê-los como reféns, para obrigá-los a voltar, v. 10, 11.
Num grande acesso de fúria, ele os amaldiçoa e ameaça que, se tentarem levar os seus pequeninos, o farão por sua conta e risco.
Repare: Satanás faz tudo o que pode para impedir que aqueles que, de sua parte, servem a Deus tragam os seus filhos para servi-lo.
Ele é inimigo jurado da piedade precoce, sabendo quão destrutiva ela é para os interesses do seu reino; tudo o que nos impeça de empenhar os nossos filhos ao máximo no serviço de Deus, temos razão de suspeitar aí da mão de Satanás.
- A negociação, com isso, rompe-se abruptamente: aqueles que antes saíram da presença de Faraó (v. 6) foram agora expulsos.
Aqueles que não suportam ouvir o seu dever depressa ouvirão a sua sentença. Veja 2 Crônicas 25:16.
Quos Deus destruet, eos dementat — Aqueles a quem Deus tenciona destruir, ele entrega à insensatez. Nunca homem algum foi tão entregue à insensatez para a sua própria ruína como Faraó.
Versículos 12 a 20
Aqui está:
I. A invasão da terra pelos gafanhotos — o grande exército de Deus, Joel 2:11.
Deus manda Moisés estender a mão (v. 12), para lhes acenar, por assim dizer (pois vieram a um chamado), e ele estendeu a vara, v. 13. Compare Êxodo 9:22, 23.
Moisés atribui isso ao estender, não da sua própria mão, mas da vara de Deus, o sinal instituído da presença de Deus com ele.
Os gafanhotos obedecem à intimação e voam sobre as asas do vento, o vento oriental, e lagartas sem número, como nos é dito, Salmos 105:34, 35.
Um temível exército de cavalaria e infantaria poderia ter sido resistido mais facilmente do que esta hoste de insetos. Quem, então, é capaz de subsistir diante do grande Deus?
II. As desolações que eles fizeram nela (v. 15): “cobriram a face da terra e comeram o fruto dela”.
A terra Deus deu aos filhos dos homens; contudo, quando a Deus apraz, pode perturbar a posse deles e mandar gafanhotos e lagartas para expulsá-los.
As ervas crescem para o serviço do homem; contudo, quando a Deus apraz, aqueles insetos desprezíveis não só serão comensais com ele, mas o saquearão e comerão o pão da sua boca.
Seja o nosso trabalho, não pela habitação e pelo alimento que assim ficam expostos, mas por aqueles que permanecem para a vida eterna, que não podem ser assim invadidos nem assim corrompidos.
III. A confissão de Faraó, em consequência disso, v. 16, 17.
Ele havia expulsado Moisés e Arão da sua presença (v. 11), dizendo-lhes (é provável) que não queria mais ter nada com eles.
Mas agora manda chamá-los outra vez a toda pressa e os corteja com tanto respeito quanto antes os havia despedido com desdém.
Repare: virá o dia em que aqueles que têm em nada os seus conselheiros e desprezam todas as suas repreensões ficarão contentes de buscar o favor deles e de empenhá-los a interceder em seu favor.
As virgens loucas cortejam as prudentes para que lhes deem do seu azeite; e veja Salmos 141:6.
- Faraó confessa a sua falta: “Pequei contra o Senhor vosso Deus e contra vós.”
Agora ele vê a própria loucura nas desfeitas e afrontas que havia lançado sobre Deus e sobre os seus embaixadores, e ao menos parece arrepender-se disso.
Quando Deus convence os homens do pecado e os humilha por causa dele, o desprezo que tiveram pelos ministros de Deus, e pela palavra do Senhor na boca deles, certamente entrará na conta e pesará sobre as suas consciências.
Alguns pensam que, quando Faraó disse “o Senhor vosso Deus”, ele na prática dizia: “O Senhor não será o meu Deus.”
Muitos tratam com Deus como com um inimigo poderoso, com quem estão dispostos a não estar em guerra, mas não se importam de tratar com ele como o seu príncipe legítimo, a quem estejam dispostos a submeter-se com afeto leal.
Os verdadeiros penitentes lamentam o pecado como cometido contra Deus, até contra o seu próprio Deus, a quem estão obrigados.
- Ele pede perdão, não a Deus, como devem os penitentes, mas a Moisés, o que nele era mais desculpável, porque, por uma comissão especial, Moisés foi feito deus para Faraó, e os pecados de quem quer que ele perdoasse ficavam perdoados.
Quando ele pede “Perdoa só esta vez”, na prática promete não ofender mais dessa maneira; contudo parece relutante em exprimir essa promessa, e não diz nada em particular sobre deixar o povo ir.
Repare: o arrependimento fingido costuma enganar as pessoas com promessas gerais e reluta em assumir o compromisso de abandonar pecados particulares.
- Ele roga a Moisés e Arão que orem por ele.
Há os que, na angústia, imploram a ajuda das orações de outras pessoas, mas não têm disposição para orar por si mesmos, mostrando com isso que não têm verdadeiro amor a Deus, nem deleite nenhum em ter comunhão com ele.
Faraó deseja as orações deles para que “somente esta morte” seja tirada, não este pecado: ele pede para ser livrado da praga dos gafanhotos, não da praga de um coração duro, que contudo era muito mais perigosa.
IV. A remoção do juízo, mediante a oração de Moisés, v. 18, 19. Isto foi:
- Tão grande exemplo do poder de Deus quanto o próprio juízo.
Um vento oriental trouxe os gafanhotos, e agora um vento ocidental os levou embora.
Repare: em qualquer ponto da bússola que o vento esteja, ele está cumprindo a palavra de Deus e gira segundo o conselho dele.
“O vento sopra onde quer”, no que diz respeito a qualquer controle nosso; não assim no que diz respeito ao controle de Deus: “ele o dirige debaixo de todo o céu”.
- Foi uma prova tão grande da autoridade de Moisés, e uma ratificação tão firme da sua comissão e do seu valimento junto àquele Deus que tanto faz a paz quanto cria o mal, Isaías 45:7.
Ou melhor: com isso ele não só conquistou o respeito dos egípcios, mas também a boa vontade deles, visto que, enquanto o juízo veio em obediência à sua intimação, a remoção dele foi em resposta às suas orações.
Ele nunca desejou o dia calamitoso, ainda que o ameaçasse. A sua comissão, de fato, corria contra o Egito, mas a sua intercessão era por ele, o que era boa razão para que o amassem, ainda que o temessem.
- Foi também um argumento tão forte para o arrependimento deles quanto o próprio juízo; pois por isto parecia que Deus está pronto a perdoar e é rápido em mostrar misericórdia.
Se ele desvia um juízo particular, como muitas vezes fez com Faraó, ou o adia, como no caso de Acabe, mediante a profissão de arrependimento e os sinais exteriores de humilhação, que fará ele se formos sinceros, e quão bem-vindos lhe serão os verdadeiros penitentes!
Oxalá esta bondade de Deus nos leve ao arrependimento!
V. O retorno de Faraó à sua resolução ímpia de novamente não deixar o povo ir (v. 20), pela mão justa de Deus sobre ele, endurecendo-lhe o coração e confirmando-o na sua obstinação.
Repare: aqueles que muitas vezes sufocaram as suas convicções e resistiram a elas perdem o benefício delas e são justamente entregues àqueles desejos dos seus próprios corações que (por mais fortes que sejam as suas convicções) se mostram fortes demais para eles.
Versículos 21 a 29
Aqui está:
I. A praga das trevas trazida sobre o Egito, e uma praga terribilíssima ela foi, e por isso é posta em primeiro lugar entre as dez em Salmos 105:28, embora tenha sido uma das últimas.
E na destruição do Egito espiritual ela é produzida pela quinta taça, que é derramada sobre o trono da besta, Apocalipse 16:10. “O seu reino ficou cheio de trevas.”
Observe em particular a respeito desta praga:
- Que foram trevas totais. Temos razão de pensar não só que as luzes do céu se anuviaram, mas que todos os seus fogos e velas foram apagados pelas exalações, ou vapores pegajosos, que foram a causa destas trevas; pois se diz (v. 23): “Não viam um ao outro.”
Ameaça-se ao ímpio (Jó 18:5, 6) que “a centelha do seu fogo não resplandecerá” — mesmo as centelhas que ele próprio acendeu, como são chamadas, Isaías 50:11 — e que “a luz será escura na sua tenda”. O inferno são trevas absolutas. “A luz da candeia não brilhará mais em ti”, Apocalipse 18:23.
- Que foram trevas “que se possam apalpar” (v. 21): apalpadas nas suas causas pelas pontas dos dedos deles (tão espessos eram os nevoeiros), e apalpadas nos seus efeitos, pensam alguns, pelos olhos, que eram picados de dor e ficavam tanto mais doloridos por esfregá-los.
Fala-se de grande dor como efeito daquelas trevas, Apocalipse 16:10, que alude a esta.
- Sem dúvida elas os espantaram e aterrorizaram. A nuvem de gafanhotos, que havia escurecido a terra (v. 15), não era nada perto disto.
A tradição dos judeus é que nestas trevas eles foram aterrorizados pelas aparições de espíritos malignos, ou antes pelos sons e murmúrios pavorosos que eles faziam, ou (o que não é menos assustador) pelos horrores da própria consciência.
E esta é a praga que alguns pensam estar em vista (pois, de outro modo, ela não é ali mencionada de forma alguma) em Salmos 78:49: “Lançou sobre eles o furor da sua ira, enviando anjos maus entre eles”; porque, para aqueles de quem o diabo foi enganador, ele será, afinal, terror.
- Elas duraram três dias, seis noites (diz o bispo Hall) numa só; tanto tempo ficaram presos por aquelas cadeias de trevas, e os palácios mais luminosos eram verdadeiras masmorras.
“Ninguém se levantou do seu lugar”, v. 23. Estavam todos confinados às suas casas, e tal terror se apoderou deles que poucos deles tiveram a coragem de ir da cadeira para a cama, ou da cama para a cadeira.
Assim ficaram “em silêncio nas trevas”, 1 Samuel 2:9. Agora Faraó tinha tempo de considerar, se o tivesse aproveitado.
As trevas espirituais são escravidão espiritual; enquanto Satanás cega os olhos dos homens para que não vejam, ele lhes amarra as mãos e os pés para que não trabalhem para Deus nem se movam rumo ao céu. Eles ficam sentados em trevas.
- Foi coisa justa da parte de Deus castigá-los assim. Faraó e o seu povo se rebelaram contra a luz da palavra de Deus, que Moisés lhes falava; com justiça, portanto, são castigados com trevas, pois as amaram e antes as escolheram.
A cegueira das suas mentes traz sobre eles estas trevas do ar. Nunca houve mente tão cegada como a de Faraó, nunca houve ar tão escurecido como o do Egito.
Os egípcios, pela sua crueldade, teriam apagado a lâmpada de Israel e extinguido a sua brasa; com justiça, portanto, Deus apaga as luzes deles. Compare isto com o castigo dos sodomitas, Gênesis 19:11.
Tenhamos pavor das consequências do pecado; se as trevas de três dias foram tão terríveis, o que serão as trevas eternas?
- Os filhos de Israel, ao mesmo tempo, “tinham luz nas suas habitações” (v. 23), não só na terra de Gósen, onde a maior parte deles morava, mas também nas habitações daqueles que estavam dispersos entre os egípcios.
Pois que alguns deles estavam assim dispersos aparece pelo sinal distintivo que depois se mandou pôr nos umbrais das suas portas, Êxodo 12:7. Isto é um exemplo:
(1.) Do poder de Deus acima do poder ordinário da natureza. Não devemos pensar que participamos das misericórdias comuns como coisa natural, e que por isso não devemos nenhum agradecimento a Deus por elas.
Ele poderia fazer distinção e reter de nós aquilo que concede a outros. Ele de fato ordinariamente faz o seu sol brilhar sobre justos e injustos; mas poderia fazer diferença, e devemos reconhecer-nos devedores à sua misericórdia por ele não a fazer.
(2.) Do favor particular que ele tem para com o seu povo: eles andam na luz quando outros vagueiam sem fim em densas trevas.
Onde quer que haja um verdadeiro israelita, ainda que neste mundo escuro, ali há luz, ali há um filho da luz, alguém para quem a luz é semeada e a quem visita o amanhecer do alto.
Quando Deus fez esta diferença entre os israelitas e os egípcios, quem não teria preferido a mais pobre cabana de um israelita ao mais esmerado palácio de um egípcio?
Ainda há uma diferença real, embora não tão perceptível, entre “a casa do ímpio”, que está debaixo de maldição, e “a habitação do justo”, que é abençoada, Provérbios 3:33. Devemos crer nessa diferença e nos governar de acordo com ela.
Sobre Salmos 105:28, “Enviou trevas, e fez escurecer; e não se rebelaram contra a sua palavra”, alguns fundam a conjectura de que, durante estes três dias de trevas, os israelitas foram circuncidados, para celebrarem a páscoa que agora se aproximava.
O mandamento que autorizava isso teria sido a palavra contra a qual eles não se rebelaram; pois a circuncisão deles, quando entraram em Canaã, é falada como uma segunda circuncisão geral, Josué 5:2.
Durante estes três dias de trevas para os egípcios, se Deus assim tivesse querido, os israelitas, pela luz que tinham, poderiam ter feito a sua fuga, e sem pedir licença a Faraó; mas Deus queria tirá-los com mão forte, e não às escondidas, nem “com pressa”, Isaías 52:12.
II. Aqui está a impressão feita sobre Faraó por esta praga, muito parecida com a das pragas anteriores.
- Ela o despertou a ponto de renovar a negociação com Moisés e Arão, e agora, enfim, consentir que levassem consigo os seus pequeninos; só que queria que o gado deles ficasse como penhor, v. 24.
É comum que os pecadores negociem assim com o Deus Todo-Poderoso. Alguns pecados eles deixarão, mas não todos; deixarão os seus pecados por um tempo, mas não lhes darão um adeus definitivo.
Permitirão a ele alguma parte nos seus corações, mas o mundo e a carne têm de repartir com ele: assim zombam de Deus, mas enganam a si mesmos.
Moisés resolve não ceder nada nos seus termos: “O nosso gado irá conosco”, v. 26. Repare: os termos da reconciliação estão de tal modo fixados que, por mais tempo que os homens os disputem, não podem de modo algum alterá-los nem baixá-los.
Temos de subir às exigências da vontade de Deus, pois não podemos esperar que ele condescenda com as ressalvas dos nossos apetites. Os mensageiros de Deus devem estar sempre presos àquela regra (Jeremias 15:19): “Tornem eles para ti, mas não tornes tu para eles.”
Moisés dá uma razão muito boa para que tenham de levar o gado consigo: têm de ir sacrificar, e portanto têm de levar com que fazê-lo. Que números e que espécies de sacrifícios seriam exigidos eles ainda não sabiam, e portanto tinham de levar tudo o que possuíam.
Repare: temos de dedicar ao serviço de Deus a nós mesmos, os nossos filhos e todas as nossas posses terrenas, porque não sabemos que uso Deus fará daquilo que temos, nem de que modo poderemos ser chamados a honrá-lo com isso.
- Contudo, ela o exasperou a ponto de, quando não pôde impor os seus próprios termos, romper a conversa abruptamente e tomar a resolução de não tratar mais. Sua cólera chegou ao extremo, e ele se enfureceu além de todo limite, v. 28.
Faraó despede Moisés com cólera, proíbe-o de entrar na corte sob pena de morte e até mesmo de tornar a encontrar-se com ele, como Moisés costumava fazer à beira do rio: “No dia em que vires o meu rosto, morrerás”.
Loucura prodigiosa! Não tinha ele descoberto que Moisés podia atormentá-lo com pragas sem ver o seu rosto? Ou tinha esquecido quantas vezes mandara chamar Moisés como seu médico, para curá-lo e aliviá-lo das suas pragas? E deve ele agora ser mandado não chegar mais perto dele?
Malícia impotente! Ameaçar de morte aquele que estava armado de tal poder, e a cuja mercê ele tantas vezes se havia entregado. A que não levará os homens a dureza de coração e o desprezo da palavra e dos mandamentos de Deus?
Moisés o toma pela palavra (v. 29): “Não verei mais o teu rosto”, isto é, “depois desta vez”.
Pois este colóquio não se rompeu senão em Êxodo 11:8, quando Moisés saiu em grande cólera e disse a Faraó quão depressa ele mudaria de ideia, e o seu espírito soberbo se abateria, o que se cumpriu (Êxodo 12:31), quando Faraó se tornou humilde suplicante a Moisés para que partisse. De modo que, depois desse encontro, Moisés não voltou mais, até ser mandado chamar.
Repare: quando os homens afastam de si a palavra de Deus, ele com justiça permite as ilusões deles e lhes responde segundo a multidão dos seus ídolos. Quando os gadarenos pediram a Cristo que partisse, ele imediatamente os deixou.