Ester 8
Argumento
Deixamos o conspirador na forca; agora veremos o que acontece com sua trama. I. Sua trama visava acumular bens para si; todos os seus bens, confiscados por traição, são entregues a Ester e Mardoqueu, v. 1, 2. II. Sua trama visava arruinar os judeus; quanto a isso:
- Ester intercede fervorosamente para que o decreto contra eles seja revogado, vv. 3-6. 2. Na prática, isso é feito por outro decreto, aqui publicado, que autoriza os judeus a defender-se de seus inimigos, vv. 7-14. III. Isso causa grande alegria aos judeus e a todos os seus amigos, vv. 15-17.
Versículos 1 a 2
Ester e Mardoqueu Enriquecidos. (a.C. 510.)
Há pouco vimos Ester e Mardoqueu entre lágrimas e temores, mas jejuando e orando; vejamos agora como a luz surgiu para eles nas trevas. Temos aqui: 1. Ester enriquecida. Hamã foi enforcado como traidor; por isso, seus bens foram confiscados pela coroa, e o rei entregou todos a Ester como compensação pelo medo e pela aflição que aquele homem perverso lhe causara, v. 1.
Suas casas e terras, seus bens e objetos móveis e todo o dinheiro que acumulara enquanto era o principal ministro de Estado (que, podemos supor, não era pouco) foram dados a Ester. Tudo passou a ser dela, somando-se à dotação que já recebia.
Assim, “a riqueza do pecador é guardada para o justo”, e o inocente reparte a prata, Provérbios 13:22; Jó 27:17, 18. Ester usará para fazer o bem aquilo que Hamã teria usado para fazer o mal; os patrimônios devem ser avaliados pelo uso que se faz deles.
- Mardoqueu promovido. Sua pomposa procissão pelas ruas da cidade naquela manhã foi apenas um súbito clarão ou fulgor de honra. Aqui, porém, vemos os cargos mais duradouros e lucrativos a que foi elevado, para os quais a procissão, felizmente, abriu caminho.
(1.) Ele é agora reconhecido como primo da rainha, fato que, ao que parece, o rei desconhecia até então, embora Ester já fosse rainha havia quatro anos. Mardoqueu era tão humilde, tão modesto e tão distante da ambição de obter um lugar na corte que ocultara seu parentesco com a rainha e a dívida que ela tinha com ele como seu tutor.
Nunca se valera da influência de Ester para obter vantagem própria. Quem, senão Mardoqueu, teria dado tão pouca importância a uma honra tão grande? Agora, porém, foi levado à presença do rei, apresentado, como se diz, para beijar-lhe a mão.
Finalmente, Ester dissera ao rei o que Mardoqueu era para ela: não apenas seu parente próximo, mas o melhor amigo que tinha no mundo, aquele que cuidara dela quando era órfã e a quem ainda respeitava como pai.
Agora o rei reconhece que, por causa da esposa, tem um dever ainda maior do que imaginava de honrar Mardoqueu com alegria. Quão grandes eram os méritos daquele homem a quem tanto o rei quanto a rainha, na prática, deviam a vida! Levado à presença do rei, sem dúvida Mardoqueu se curvou e lhe prestou reverência, embora não o tivesse feito diante de Hamã, um amalequita.
(2.) O rei faz dele o responsável por seu selo privado no lugar de Hamã. Toda a confiança depositada em Hamã e todo o poder que lhe fora concedido são transferidos a Mardoqueu: o rei lhe entrega o anel que havia tomado de Hamã.
Assim, faz desse homem confiável e humilde seu favorito, confidente e agente, como antes fizera daquele homem orgulhoso e pérfido. Foi feliz sua troca de amigos íntimos, e sem dúvida tanto ele quanto seu povo logo perceberam isso.
(3.) A rainha faz de Mardoqueu administrador dos bens de Hamã, para cuidar deles e assegurar e manter sua posse: ela o colocou à frente da casa de Hamã. Veja a vaidade de acumular tesouros na terra: aquele que ajunta riquezas não sabe quem as recolherá (Salmos 39:6).
Não sabe sequer se quem as recolherá será “sábio ou tolo” (Eclesiastes 2:19), muito menos se será amigo ou inimigo. Com quão pouco prazer, ou melhor, com que constante aflição Hamã teria olhado para seus bens se pudesse prever que Mardoqueu, a pessoa que mais odiava no mundo, governaria tudo aquilo pelo qual ele trabalhara e no que julgava ter mostrado sabedoria!
Portanto, é de nosso interesse assegurar aquelas riquezas que não serão deixadas para trás, mas nos acompanharão ao outro mundo.
Versículos 3 a 14
Os Judeus Animados a Defender-se. (a.C. 510.)
Hamã, o principal inimigo dos judeus, fora enforcado; Mardoqueu e Ester, seus principais amigos, estavam bem protegidos. Havia, porém, muitos outros nos domínios do rei que odiavam os judeus e desejavam sua ruína, e todo o restante desse povo estava exposto à fúria e à malícia deles.
O decreto contra os judeus continuava em vigor; com base nele, seus inimigos os atacariam no dia marcado. Se os judeus tentassem resistir e tomassem armas para se defender, seriam considerados rebeldes contra o rei e seu governo. Para evitar isso:
I. A rainha intercede aqui com muito afeto e insistência. Pela segunda vez, entrou sem ser chamada na presença do rei (v. 3) e, como antes, foi animada a apresentar sua petição quando ele lhe estendeu o cetro de ouro, v. 4.
Ela pede que o rei, depois de se livrar de Hamã, também se livre do mal e da trama que ele preparou contra os judeus, para que não se concretizem depois de sua morte.
Muitas vezes o mal que alguém trama sobrevive a ele, e a perversidade que concebe continua agindo após sua partida. Aquilo que os homens projetam e escrevem pode ser, depois de sua morte, muito proveitoso ou muito nocivo.
Por isso, para frustrar a trama de Hamã, era necessário recorrer ao rei em busca de outro ato de graça: que um novo decreto anulasse as cartas planejadas e escritas por Hamã. Ester não diz que o rei anuiu a elas e as confirmou com seu próprio selo; deixa que ele reconheça isso em sua consciência.
Por meio dessas cartas, Hamã tomara medidas eficazes para destruir os judeus em todas as províncias do rei, v. 5. Se o rei estava de fato aflito, como parecia, por ter promulgado tal decreto, não poderia fazer menos que revogá-lo. Afinal, que é arrependimento senão desfazer, até onde pudermos, aquilo que fizemos de errado?
- Ester apresenta essa petição com muito afeto: caiu aos pés do rei e suplicou-lhe com lágrimas (v. 3), cada lágrima tão preciosa quanto qualquer das pérolas com que se adornava. Era hora de insistir, pois a igreja de Deus estava em perigo.
Que ninguém seja tão importante que se recuse a se humilhar, nem tão alegre que se recuse a chorar, quando assim puder prestar algum serviço à igreja e ao povo de Deus. Embora ela própria estivesse em segurança, Ester caiu aos pés do rei e suplicou com lágrimas pela libertação de seu povo.
- Expressa a petição com grande submissão e profundo respeito ao rei, à sua sabedoria e à sua vontade (v. 5): “Se agradar ao rei e se achei favor aos seus olhos” — e, de novo: “Se a causa em si parecer justa e razoável ao rei, e se eu, que a apresento, for agradável aos seus olhos, que o decreto seja anulado.”
Mesmo quando temos a razão e a justiça inteiramente do nosso lado e uma causa muito clara a defender, convém dirigir-nos aos superiores com humildade, modéstia e todas as expressões possíveis de respeito. Não devemos falar como quem exige quando estamos suplicando.
Nada se perde com a decência e as boas maneiras. Assim como respostas brandas afastam a ira, pedidos brandos obtêm favor.
- Reforça a petição com um apelo comovente: “Pois como poderei suportar ver o mal que virá sobre meu povo? Pouco consolo terei da minha própria vida se não conseguir salvar a deles. Preferiria sofrer eu mesma esse mal a vê-lo cair sobre eles; pois como poderei suportar ver a destruição dos meus parentes, que me são queridos?”
Ester, embora rainha, reconhece seus parentes pobres e fala deles com grande ternura. Foi então que misturou lágrimas às palavras, chorando enquanto suplicava. Não lemos que tenha chorado ao pedir pela própria vida; agora, certa de que esta estava segura, chorava por seu povo. Lágrimas de compaixão e ternura são as que mais se parecem com as de Cristo.
Os que verdadeiramente se importam com o bem público prefeririam morrer na última trincheira a viver para ver a devastação da igreja de Deus e a ruína de sua terra. Espíritos sensíveis não suportam pensar na destruição de seu povo e de seus parentes; por isso, não ousam perder nenhuma oportunidade de socorrê-los.
II. O rei toma medidas para impedir o mal planejado por Hamã. 1. Ele sabia, e informou a rainha, que, segundo a constituição do governo persa, o decreto anterior não podia ser revogado (v. 8): o que era escrito em nome do rei e selado com seu anel não podia ser anulado sob pretexto algum.
Essa era uma disposição fundamental de sua carta magna: nenhuma lei ou decreto, depois de aprovado pelo rei, poderia ser revogado ou retirado; nenhuma decisão judicial poderia ser anulada, nem nenhuma condenação por traição, revertida, Daniel 6:15.
Longe de atestar a sabedoria e a honra dos medos e persas, isso atesta seu orgulho e sua insensatez e, por consequência, sua vergonha. É ridículo alguém, ou qualquer grupo de pessoas, alegar sabedoria tão infalível que possa prever todas as consequências de seus decretos.
Portanto, é injusto e prejudicial à humanidade reivindicar poder tão supremo que torne tais decretos irrevogáveis, sejam suas consequências boas ou más. Isso lembra a antiga presunção que arruinou a todos nós: seremos como deuses.
Muito mais prudente é a disposição de nossa constituição segundo a qual nenhuma lei pode, por quaisquer palavras ou sanções, tornar-se irrevogável, assim como nenhum patrimônio pode tornar-se inalienável. Cujus est instruere, ejus est destruere — o direito de promulgar implica o direito de revogar.
É prerrogativa de Deus não se arrepender e dizer aquilo que jamais poderá ser alterado ou desdito.
- Ainda assim, o rei encontrou um meio de desfazer as maquinações de Hamã e frustrar seu desígnio: assinou e publicou outro decreto, autorizando os judeus a se defender, vim vi repellere, et invasorem occidere — opor força à força e destruir o agressor. Isso lhes daria proteção eficaz.
O rei lhes mostra que já fizera o suficiente para provar seu interesse pela nação judaica, pois mandara enforcar seu favorito porque este levantara a mão contra os judeus (v. 7). Portanto, faria tudo o que pudesse para protegê-los.
Deixa Ester e Mardoqueu tão livres para usar seu nome e poder em favor da libertação dos judeus quanto antes deixara Hamã usá-los para destruí-los: “Escrevei pelos judeus como vos parecer bem” (v. 8), “resguardando apenas a honra de nossa constituição. Afastai o dano com toda a eficácia possível sem revogar as cartas.”
Os secretários de Estado foram convocados para redigir o decreto no vigésimo terceiro dia do terceiro mês (v. 9), cerca de dois meses depois da divulgação do primeiro, mas nove meses antes da data marcada para sua execução. Ele deveria ser redigido e divulgado nas línguas respectivas de todas as províncias.
Os súditos de um príncipe terreno teriam acesso aos seus decretos numa língua que entendiam, e os oráculos e as leis de Deus ficariam trancados para seus servos numa língua desconhecida? O decreto deveria ser dirigido às autoridades competentes de cada província, tanto aos juízes de paz quanto aos tenentes adjuntos.
Deveria ser distribuído com cuidado por todos os domínios do rei, e cópias fiéis, enviadas às províncias por mensageiros especiais. O propósito do decreto era autorizar os judeus, no dia marcado para sua destruição, a reunir-se como um só corpo em defesa própria. E:
(1.) Lutar pela própria vida, de modo que quem os atacasse assumisse o risco. (2.) Poderiam agir não apenas em defesa, mas também destruir, abater e fazer perecer todas as forças dos povos que os atacassem, homens, mulheres e crianças (v. 11).
Assim poderiam vingar-se de seus inimigos (v. 13) e, se quisessem, enriquecer à custa deles, pois tinham autorização para tomar seus despojos como presa. [1.] Isso mostrava a bondade do rei para com os judeus e lhes dava proteção suficiente: o segundo decreto seria visto como revogação tácita do primeiro, embora não o anulasse expressamente.
[2.] Isso também mostra o absurdo da cláusula constitucional que impedia a revogação dos decretos reais. Ela obrigou o rei a decretar uma guerra civil em seus próprios domínios entre judeus e inimigos, de modo que ambos os lados tomaram armas por sua autoridade e, ao mesmo tempo, contra ela.
Nada melhor poderia resultar da pretensão humana de ser sábio além da medida que lhe foi dada. O decreto foi distribuído com grande rapidez, pois o próprio rei estava aflito com a possibilidade de que chegasse tarde demais e de que os judeus sofressem algum mal pelo primeiro decreto antes que a notícia do segundo chegasse.
Por isso, tanto por ordem do rei quanto por ordem de Mardoqueu, os mensageiros foram apressados e instados a seguir adiante (v. 14), recebendo animais velozes, v. 10. Não era ocasião de perder tempo quando tantas vidas corriam perigo.
Versículos 15 a 17
A Alegria dos Judeus. (a.C. 510.)
Há poucos dias vimos Mardoqueu vestido de pano de saco e todos os judeus em tristeza. Aqui, porém, há uma mudança bendita: Mardoqueu vestido de púrpura e todos os judeus em alegria. Veja Salmos 30:5, 11, 12.
- Mardoqueu vestido de púrpura, v. 15. Depois de obter uma ordem para socorrer todos os judeus, ficou tranquilo, despiu as roupas de luto e vestiu trajes reais, que ou pertenciam ao seu cargo ou lhe foram dados pelo rei por ser seu favorito.
Suas vestes eram ricas, azuis e brancas, de linho fino e púrpura; também seu diadema era de ouro. Esses detalhes não mereceriam atenção, a não ser por serem sinais do favor do rei, fruto, por sua vez, do favor de Deus para com sua igreja. Vai bem a terra em que as insígnias da dignidade se tornam adornos de piedade séria.
A cidade de Susã percebeu a vantagem que a promoção de Mardoqueu lhe traria; por isso, exultou e se alegrou. Além de se agradar, em geral, da elevação da virtude, esperava, em particular, tempos melhores, pois um homem tão bom recebera autoridade.
Hamã fora enforcado e, “quando perecem os perversos, há júbilo”, Provérbios 11:10. Mardoqueu fora promovido e, quando os justos governam, o povo se alegra.
- Os judeus em alegria, v. 16, 17. Pouco antes estavam sob uma nuvem escura, abatidos e desonrados; agora tinham luz e contentamento, alegria e honra, um banquete e um dia feliz. Se não tivessem sido ameaçados e afligidos, não teriam motivo para essa alegria extraordinária.
Assim, às vezes o povo de Deus é levado a semear em lágrimas para colher com alegria ainda maior. A rapidez e o caráter inesperado da mudança dos acontecimentos em seu favor aumentaram muito sua alegria. Eram como os que sonham; então sua boca se encheu de riso, Salmos 126:1, 2.
Um bom efeito dessa libertação foi que muitos dos habitantes da terra, pessoas ponderadas, sensatas e bem-dispostas, se tornaram judeus. Converteram-se à religião judaica, renunciaram à idolatria e passaram a adorar somente o Deus verdadeiro.
Hamã pensava em exterminar os judeus, mas o resultado foi um grande aumento do número deles e o acréscimo de muitos à igreja. Observe: quando os judeus tiveram alegria e contentamento, muitos dos habitantes da terra se tornaram judeus.
A santa alegria daqueles que professam a religião é um grande adorno para sua profissão de fé e convidará e animará outros a ser religiosos. O motivo aqui apresentado para tantos se tornarem judeus nessa ocasião é que “o temor dos judeus caiu sobre eles”.
Quando observaram como a Providência divina se declarara por eles e agira maravilhosamente em seu favor naquela hora decisiva, (1.) julgaram-nos grandes e consideraram felizes os que estavam entre eles.
Por isso, juntaram-se a eles, conforme fora predito em Zacarias 8:23: Iremos com vocês, pois ouvimos e vimos que Deus está com vocês, escudo do seu socorro e espada da sua excelência, Deuteronômio 33:29.
Quando a igreja prospera e recebe favor, muitos se juntam a ela que a evitariam quando estivesse em dificuldades. (2.) Consideraram os judeus temíveis e julgaram miseráveis os que se lhes opunham. Viram claramente no destino de Hamã que qualquer pessoa que ferisse os judeus o faria por sua conta e risco; por isso, para a própria segurança, juntaram-se a eles.
É insensato pensar em contender com o Deus de Israel; por isso, é sábio pensar em submeter-se a ele.