Ester 7
Argumento
Assistiremos agora ao segundo banquete para o qual o rei e Hamã foram convidados. Nele: I. A petição de Ester ao rei por sua vida e pela vida de seu povo, vv. 1-4. II. A declaração clara de Ester ao rei de que Hamã tinha o desígnio de arruiná-la e arruinar todos os seus amigos, v. 5, 6.
III. A ordem do rei para enforcar Hamã na forca que este havia preparado para Mardoqueu, ordem que foi cumprida, vv. 7-10. Assim, com a destruição do autor da trama, deu-se um bom passo para frustrá-la.
Versículos 1 a 4
Hamã Acusado por Ester. (a.C. 510.)
O rei, de bom humor, e Hamã, de mau humor, encontram-se à mesa de Ester. Agora:
I. O rei instou Ester pela terceira vez a dizer qual era seu pedido, pois ansiava por sabê-lo, e repetiu a promessa de atendê-lo, v. 2.
Se tivesse esquecido que Ester tinha algo a lhe pedir e não voltasse a perguntar o que era, ela dificilmente saberia como retomar o assunto sozinha. Mas ele se lembrava e agora estava preso pelo cordão tríplice de uma promessa feita três vezes de favorecê-la.
II. Por fim, Ester surpreende o rei com uma petição. Não pede riqueza, honra ou a promoção de alguns amigos a altos cargos, como ele esperava, mas que ela e seus compatriotas sejam preservados da morte e da destruição, v. 3, 4.
- Até um estrangeiro ou criminoso pode pedir pela própria vida. Era, porém, muito comovente que uma amiga e esposa precisasse apresentar tal pedido: “Que me seja dada a vida por minha petição, e a meu povo, por meu pedido.” Duas coisas mostram que vidas são muito preciosas e, se inocentes, dignas de ser salvas a qualquer custo:
(1.) A majestade. Se a vítima visada é uma pessoa coroada, é hora de agir. Ester o era: “Que me seja dada a vida. Se tens alguma afeição pela esposa do teu peito, é agora que deves mostrá-la, pois a vida dela está em perigo.”
(2.) A multidão. Se são muitas vidas, muitíssimas, e vidas de pessoas que não fizeram nada para perdê-las, não se deve perder tempo nem poupar esforços para impedir o dano. “Não é um amigo ou dois, mas meu povo, uma nação inteira, uma nação querida para mim, por cuja salvação agora intercedo.”
- Para comover ainda mais o rei, ela sugere: (1.) Que ela e seu povo haviam sido comprados e vendidos. Não se haviam vendido por cometer ofensa alguma contra o governo, mas foram vendidos para satisfazer o orgulho e a vingança de um só homem.
(2.) Que não era apenas sua liberdade, mas suas vidas, que haviam sido vendidas. “Se tivéssemos sido vendidos à escravidão”, diz ela, “não me teria queixado, pois, com o tempo, poderíamos recuperar a liberdade, embora o rei tivesse feito um mau negócio e não aumentado sua riqueza com o preço pago por nós.”
“Qualquer que fosse a quantia paga por nós, a perda de tantas mãos trabalhadoras retiradas de seu reino teria causado ao tesouro dano maior do que esse preço poderia compensar.”
Perseguir pessoas boas é tão pouco sagaz quanto ímpio e prejudica manifestamente os interesses de príncipes e Estados, que com isso se enfraquecem e empobrecem.
Esse, porém, não era o caso. “Fomos vendidos”, diz ela, “para sermos destruídos, para sermos abatidos e para perecermos”; então era hora de falar. Ester remete às palavras do decreto (Ester 3:13), que visava nada menos que a destruição deles. Isso tocaria num ponto sensível, se houvesse algum no coração do rei, e o levaria a abrandar-se.
III. O rei fica espantado com essa declaração e pergunta (v. 5): “Quem é ele e onde está aquele que ousou presumir em seu coração fazer isso? Como! Tramar o assassinato da rainha e de todos os seus amigos? Existe na natureza tal homem, ou melhor, tal monstro? Quem é ele e onde está aquele cujo coração o impeliu a fazer isso?” Ou: “Quem lhe encheu o coração?”
Ele se espanta: 1. De que alguém seja tão perverso a ponto de pensar em semelhante coisa. Sem dúvida, Satanás lhe encheu o coração. 2. De que alguém seja tão ousado a ponto de fazê-la, com o coração tão resoluto a praticar o mal e tamanha audácia. Repare:
(1.) É difícil imaginar que se cometam no mundo maldades tão horrendas quanto as que realmente ocorrem. Quem e onde está aquele que ousa questionar a existência de Deus e sua providência, zombar de seus oráculos, profanar seu nome, perseguir seu povo e ainda desafiar sua cólera? Pessoas assim existem, e só de pensar nelas o horror nos domina, Salmos 119:53.
(2.) Às vezes nos assustamos ao ouvir falar de um mal pelo qual nós mesmos somos culpados. Assuero se espanta diante da maldade que ele próprio cometera, pois anuiu ao decreto sangrento contra os judeus. Ester poderia muito bem lhe ter dito: “Tu és o homem.”
IV. Ester acusou Hamã claramente diante dele: “Aqui está ele; que fale por si, pois foi para isso que o convidaram: o adversário e inimigo é este perverso Hamã” (v. 6). “Foi ele quem teve o desígnio de nos assassinar e, pior, arrastou vilmente o rei a ser particeps criminis — participante do crime dele —, fazendo-o concordar sem saber.”
V. Hamã logo percebe o perigo: teve medo diante do rei e da rainha. Era hora de temer, pois a rainha o acusava, o rei o julgava e sua consciência testemunhava contra ele. As surpreendentes ações da Providência contra ele naquela mesma manhã só podiam aumentar-lhe o medo.
Agora pouco se alegra por ter sido convidado ao banquete de vinho. Vê-se apertado justamente quando pensava estar no auge de sua prosperidade. Seus próprios pés o lançaram numa rede.
O Rei Encolerizado com Hamã; Hamã Enforcado na Própria Forca. (a.C. 510.)
Versículos 7 a 10
Aqui: I. O rei se retira irado. Levantou-se da mesa em grande cólera e foi ao jardim do palácio para se acalmar e pensar no que fazer, v. 7. Não chamou seus sete conselheiros sábios, que conheciam os tempos, pois se envergonhava de consultá-los para desfazer o que fizera precipitadamente sem seu conhecimento ou conselho.
Foi caminhar um pouco no jardim para comparar, em pensamento, o que Ester acabara de lhe contar com o que antes se passara entre ele e Hamã. Podemos supor que estava:
Irritado consigo mesmo por ter sido tolo a ponto de condenar à destruição uma nação inocente, incluindo sua própria rainha, pelas vis sugestões de um homem interesseiro, sem verificar a verdade de suas acusações. Quem age por puro capricho depois reflete sobre seus atos com autorrecriminação.
Irritado com Hamã, a quem acolhera junto ao peito, por ser tão vil a ponto de abusar da influência que tinha sobre ele para levá-lo a anuir a uma medida tão perversa. Ao se ver traído por alguém a quem favorecera, encheu-se de indignação contra Hamã.
Ainda assim, nada diria antes de tomar tempo para refletir novamente e ver se essas reflexões tornariam o caso melhor ou pior do que parecera a princípio, para então agir conforme o resultado. Quando estamos irados, devemos fazer uma pausa antes de tomar qualquer decisão, como pessoas que dominam o próprio espírito e são governadas pela razão.
II. Hamã se torna um humilde suplicante diante da rainha, pedindo pela vida. Pela saída apressada do rei, podia facilmente perceber que se decidira algum mal contra ele. A cólera de um rei, sobretudo de um rei como aquele, é como o rugido de um leão e como mensageiros da morte. Veja agora:
- Como Hamã parece desprezível quando primeiro se levanta e depois cai aos pés de Ester, implorando que ela lhe salve a vida e fique com tudo o que ele possui.
Os mais orgulhosos, insolentes e autoritários no poder e na prosperidade costumam ser os mais submissos e acovardados quando a sorte se volta contra eles. Dizem que os covardes são os mais cruéis; então, a consciência da própria crueldade os torna ainda mais covardes.
- Como Ester parece grandiosa. Pouco antes, ela fora negligenciada e condenada ao matadouro tanquam ovis — como uma ovelha. Agora seu inimigo jurado reconhece que está à mercê dela e lhe implora pela vida. Assim Deus atentou para a humilde condição de sua serva e dispersou os orgulhosos na imaginação de seus corações, Lucas 1:48, 51.
Compare com a promessa feita à igreja de Filadélfia (Apocalipse 3:9): Deus fará os da sinagoga de Satanás virem e adorarem diante dos pés dela e saberem que ele a amou. Virá o dia em que aqueles que odeiam e perseguem os escolhidos de Deus de bom grado dependerão deles. “Dai-nos do vosso azeite.” “Pai Abraão, envia Lázaro.” Os retos terão domínio pela manhã.
III. O rei volta ainda mais exasperado com Hamã. Quanto mais pensa nele, pior julga seu caráter e o que ele fez. Até pouco antes, tudo o que Hamã dizia e fazia, mesmo seus atos mais criminosos, era bem recebido e interpretado a seu favor.
Agora, ao contrário, até o que fazia sem culpa e como sinal de arrependimento era mal recebido e, sem sombra de razão, interpretado contra ele. Jazia aterrorizado aos pés de Ester, implorando pela vida. “Como!”, diz o rei, “ele vai forçar a rainha também, diante de mim, dentro de casa?”
Não que acreditasse em tal intenção. Mas, depois de meditar no desígnio de Hamã de abater a rainha e encontrá-lo naquela posição, aproveitou a ocasião para descarregar sua cólera contra ele, como se fosse homem capaz de cometer os atos mais graves e descarados.
“Ele tinha o desígnio de abater a rainha, e de abatê-la comigo dentro de casa; será que também a forçará da mesma forma? Como! Violentá-la primeiro e depois assassiná-la? Quem tinha um desígnio contra a vida dela bem pode ser suspeito de ter um desígnio contra sua castidade.”
IV. Os que rodeavam o rei estavam prontos para servir de instrumentos de sua cólera. Os membros da corte que adoravam Hamã quando ele era um sol nascente voltaram-se igualmente contra ele agora que se tornara estrela cadente. Até se alegravam com a oportunidade de derrubá-lo: tão pouco podem os orgulhosos confiar na influência que julgam ter.
- Assim que o rei pronunciou uma palavra de ira, cobriram o rosto de Hamã como o de um condenado, que já não era digno de ver o rei nem de ser visto por ele. Marcaram-no para a execução. Costuma-se cobrir o rosto dos enforcados. Veja como os servos estavam prontos a seguir a primeira indicação da vontade do rei nesse assunto.
Turba Romae sequitur fortunam, et semper et odit damnatos — A multidão romana muda conforme muda a sorte e sempre oprime os caídos. Se Hamã está caindo, todos gritam: “Abaixo ele!”
- Um dos que pouco antes tinham sido enviados à casa de Hamã para buscá-lo para o banquete informou ao rei sobre a forca que Hamã preparara para Mardoqueu, v. 9. Agora que Mardoqueu era o favorito, o camareiro o elogiava: Mardoqueu havia falado em favor do rei.
Com Hamã caído em desgraça, reparavam em tudo o que pudesse ser usado contra ele, inflamar a ira do rei e completar a medida de sua iniquidade.
V. O rei ordenou que Hamã fosse enforcado na própria forca, e assim se fez. Nem sequer lhe perguntaram o que tinha a dizer para impedir que a sentença fosse proferida contra ele e a execução ordenada. A sentença foi breve: “Enforquem-no nela”; e a execução, rápida: “Assim enforcaram Hamã na forca”, v. 10. Veja aqui:
O orgulho humilhado. Aquele que esperava a homenagem de todos agora é feito espetáculo vergonhoso diante do mundo e sacrificado à própria vingança. Deus resiste aos orgulhosos; os que enfrentam sua resistência descobrirão que ele é irresistível.
A perseguição punida. Hamã era perverso por muitos motivos, mas a inimizade contra a igreja de Deus era seu crime mais provocador. Por isso, o Deus a quem pertence a vingança agora lhe pede contas e, embora a trama tenha sido frustrada, retribui-lhe segundo a perversidade de seus esforços, Salmos 28:4.
O dano recai sobre quem o planejou: o perverso é enredado na obra das próprias mãos, Salmos 7:15, 16; 9:15, 16. Com justiça, Hamã foi enforcado na mesma forca que preparara injustamente para Mardoqueu.
Se não tivesse levantado aquela forca, talvez o rei nem pensasse em mandar enforcá-lo. Mas, se alguém ergue uma forca para o homem que o rei se compraz em honrar, é natural pensar que o rei ordene a esse alguém experimentá-la e ver se lhe serve e se gosta dela.
Muitas vezes os inimigos da igreja de Deus foram apanhados assim em sua própria astúcia. Pela manhã, Hamã destinava a si mesmo as vestes reais e a Mardoqueu a forca; agora tudo se inverteu: Mardoqueu tem a coroa, e Hamã, a cruz. O Senhor é conhecido por tais juízos. Veja Provérbios 11:8; 21:18.
Por último, a satisfação que o rei teve com essa execução. Só então sua cólera se aplacou. Teve tanto prazer em ordenar o enforcamento de Hamã quanto em ordenar que Mardoqueu fosse honrado. Assim se fará ao homem de quem o rei se compraz em vingar-se. Deus diz dos perversos (Ezequiel 5:13): “Farei repousar sobre eles a minha fúria, e serei consolado.”