Ester 5
Argumento
Na última notícia que tivemos de Hamã, ele estava embriagado, Ester 3:15. Na última notícia que tivemos da rainha Ester, ela estava em lágrimas, jejuando e orando. Agora este capítulo apresenta: I. Ester alegre, recebendo o sorriso do rei e sendo honrada com sua companhia no banquete de vinho que ofereceu, vv. 1-8.
II. Hamã irritado porque Mardoqueu não lhe tirou o chapéu nem dobrou o joelho, e erguendo com grande indignação uma forca para ele, vv. 9-14. Assim, os que semeiam em lágrimas colherão com alegria, mas breve é o triunfo dos ímpios.
Versículos 1 a 8
Ester se Apresenta ao Rei. (a.C. 510.)
Temos aqui: I. A ousada aproximação de Ester ao rei, v. 1. Terminado o tempo marcado para o jejum, ela não perdeu tempo: no terceiro dia, quando a impressão deixada pelas suas devoções ainda estava fresca em seu espírito, apresentou-se ao rei.
Quando o coração se dilata na comunhão com Deus, ele ganha coragem para agir e sofrer por ele. Alguns pensam que o jejum de três dias compreendeu apenas um dia inteiro e duas noites inteiras, sem que comessem nada durante todo esse tempo, e que isso é chamado de três dias assim como o tempo em que Cristo permaneceu no sepulcro.
Essa interpretação ganha força pelo fato de que a rainha apareceu na corte no terceiro dia. Decisões que precisam vencer dificuldades e perigos devem ser executadas sem demora, para que a determinação não esfrie nem enfraqueça. O que você tiver de fazer com ousadia, faça depressa.
Ester então vestiu os trajes reais para causar melhor impressão no rei e deixou de lado as roupas do dia de jejum. Pôs suas belas vestes não para agradar a si mesma, mas ao marido. Em sua oração, conforme encontramos nos livros apócrifos (Ester 14:16), ela apela assim a Deus:
“Sabes, Senhor, que abomino o sinal de minha alta posição que trago sobre a cabeça nos dias em que me apresento, etc.” Que os que, por sua posição, precisam usar roupas ricas aprendam com isso a estar mortos para elas e a não fazer delas seu adorno. Ester permaneceu no pátio interno, diante do rei, aguardando uma possível condenação entre a esperança e o medo.
II. A recepção favorável que o rei lhe deu. Quando a viu, ela alcançou favor aos seus olhos. O autor apócrifo e Josefo dizem que Ester levou consigo duas servas: apoiava-se em uma delas, enquanto a outra sustentava a cauda de seu vestido. Seu rosto estava alegre e muito amável, mas seu coração estava angustiado.
Dizem ainda que o rei ergueu o rosto, que resplandecia de majestade, e a princípio a olhou com grande ferocidade. Ela então empalideceu, desmaiou e inclinou-se sobre a cabeça da serva que a acompanhava.
Segundo esses relatos, Deus mudou o ânimo do rei: assustado, ele saltou do trono, tomou-a nos braços até que voltasse a si e a consolou com palavras afetuosas. Aqui, somos informados apenas de que:
Ele a protegeu da lei e lhe garantiu segurança estendendo-lhe o cetro de ouro (v. 2). Ela tocou agradecida a ponta do cetro, apresentando-se assim como suplicante humilde. Tendo obtido poder com Deus e prevalecido, como Jacó, ela também teve poder diante dos homens. Quem quiser perder a vida por Deus a salvará ou a encontrará numa vida melhor.
Ele a animou a apresentar seu pedido (v. 3): “Que queres, rainha Ester, e qual é a tua petição?” Longe de considerá-la transgressora, parecia feliz por vê-la e desejoso de agradá-la. Aquele que se divorciara de uma esposa porque ela não viera quando chamada não trataria outra com severidade por ter vindo sem ser chamada.
Deus pode inclinar o coração dos homens, dos grandes homens e dos que agem da maneira mais arbitrária, na direção que lhe agradar em nosso favor. Ester temia perecer, mas recebeu a promessa de que obteria o que pedisse, mesmo que fosse metade do reino.
Repare: em sua providência, Deus muitas vezes se antecipa aos temores e supera as esperanças de seu povo, sobretudo quando ele se arrisca por sua causa. Tiremos desta história, como nosso Salvador tira da parábola do juiz injusto, ânimo para orar sempre ao nosso Deus e não desanimar, Lucas 18:6-8.
Ouça o que diz esse rei altivo: “Qual é a tua petição, e qual é o teu pedido? Ser-te-á concedido.” E pergunte: Deus não ouvirá e responderá às orações de seus próprios eleitos, que clamam a ele dia e noite? Ester foi a um homem orgulhoso e imperioso; nós vamos ao Deus de amor e graça.
Ela não havia sido chamada; nós somos: o Espírito diz “Vem”, e a noiva diz “Vem”. Ela tinha uma lei contra si; nós temos uma promessa, muitas promessas, a nosso favor: “Pedi, e vos será dado.” Ela não tinha amigo que a apresentasse ou intercedesse por ela; pelo contrário, o favorito do rei naquela época era seu inimigo.
Nós, porém, temos um advogado junto ao Pai, em quem ele se compraz. Portanto, aproximemo-nos com ousadia do trono da graça.
- Todo o pedido que Ester lhe fez naquele momento foi que viesse a um banquete preparado para ele e trouxesse Hamã consigo, v. 4, 5. Com isso: (1.) Ela lhe mostraria quanto prezava seu favor e sua companhia. Qualquer que fosse seu pedido, desejava acima de tudo o favor do rei e estava disposta a obtê-lo a qualquer preço.
(2.) Verificaria como ele se sentia a respeito dela; se recusasse esse convite, ainda não adiantaria apresentar-lhe o outro pedido. (3.) Procuraria deixá-lo de bom humor e abrandar-lhe o ânimo, para que recebesse com mais ternura a impressão da queixa que ela lhe faria.
(4.) Procuraria agradá-lo fazendo uma cortesia a Hamã, seu favorito, e convidando alguém cuja companhia sabia que o rei apreciava. Além disso, queria Hamã presente quando apresentasse a queixa, pois não diria nada sobre ele que não ousasse dizer na sua frente.
(5.) Esperava encontrar no banquete de vinho uma oportunidade mais propícia e favorável para apresentar sua petição. A sabedoria ajuda a orientar como lidar com pessoas difíceis e a encontrar a maneira certa de abordá-las.
- O rei aceitou prontamente e mandou Hamã acompanhá-lo (v. 5), indício do afeto que ainda conservava por Ester. Se realmente pretendesse destruir a ela e ao seu povo, não teria aceitado o banquete.
Ali, tornou a perguntar-lhe com bondade “Qual é a tua petição?” e renovou sua promessa generosa de concedê-la, ainda que fosse metade do reino (v. 6). Era uma expressão proverbial, pela qual lhe assegurava que nada razoável lhe seria negado. Herodes a usou, Marcos 6:23.
- Então Ester achou por bem pedir apenas que ele prometesse aceitar outro banquete no dia seguinte, nos aposentos dela, levando Hamã consigo (v. 7, 8). Deu a entender que nessa ocasião lhe diria qual era seu assunto. Esse adiamento da petição principal pode ser atribuído:
(1.) À prudência de Ester. Esperava, assim, conquistar ainda mais o favor do rei e cair-lhe nas graças. Talvez, no momento de apresentar seu pedido, lhe tenha faltado coragem e ela quisesse mais tempo para orar, a fim de que Deus lhe desse palavras e sabedoria.
É provável que soubesse que o rei receberia bem o adiamento como expressão de sua grande reverência por ele e de sua relutância em pressioná-lo demais. O que se pede às pressas muitas vezes é negado às pressas; mas o que se pede depois de uma pausa merece consideração.
(2.) À providência de Deus, que pôs no coração de Ester o desejo de adiar a petição por mais um dia. Ela não sabia por quê, mas Deus sabia: os acontecimentos da noite entre aquele dia e o seguinte poderiam favorecer seu plano e preparar seu êxito, permitindo que Hamã chegasse ao auge da malícia contra Mardoqueu e começasse a cair diante dele.
Talvez os judeus censurassem Ester pela demora, e alguns começassem a duvidar de sua sinceridade, ou ao menos de seu zelo. O desfecho, porém, mostrou que essa desconfiança era infundada, e tudo aconteceu para o melhor.
Versículos 9 a 14
A Alegria e o Desgosto de Hamã; a Vingança Planejada por Hamã. (a.C. 510.)
O relato aqui apresentado sobre Hamã comenta o que Salomão disse em Provérbios 21:24: escarnecedor soberbo e altivo é o nome daquele que age com cólera soberba. Nunca alguém correspondeu melhor a esse nome que Hamã, em quem o orgulho e a cólera exerciam tamanho domínio. Veja-o:
I. Envaidecido pela honra de ter sido convidado ao banquete de Ester. Ele estava alegre e contente de coração por isso, v. 9. Observe com que exultação fala do convite (v. 12), quanto se orgulha dele e como pensa estar perto da felicidade perfeita.
A rainha Ester não permitira que nenhum homem além da poderosa pessoa dele acompanhasse o rei ao banquete. Hamã pensava que ela ficara tão encantada com sua companhia que o convidara também para o dia seguinte, junto com o rei; ninguém seria tão adequado quanto ele para fazer companhia ao monarca.
Repare: os que se admiram e se lisonjeiam enganam a si mesmos. Hamã se alegrava imaginando que a rainha, ao repetir o convite, queria honrá-lo, quando na verdade pretendia acusá-lo. Ao chamá-lo para o banquete, chamava-o ao tribunal. Que lentes de aumento os orgulhosos usam para contemplar o próprio rosto! Como o orgulho do coração os engana! Obadias 1:3.
II. Irritado e contrariado com o desprezo de Mardoqueu, o que o tornou um incômodo para si mesmo e para todos ao redor. 1. Mardoqueu continuava tão decidido quanto antes: “Não se levantou nem se moveu por causa dele”, v. 9.
Sua atitude vinha de um princípio de consciência; por isso, perseverou e não se rebaixou diante de Hamã, não, nem mesmo quando tinha motivos para temê-lo e a própria Ester lhe fazia uma cortesia. Sabia que Deus podia libertá-lo e libertaria a ele e a seu povo da fúria de Hamã, sem recorrer a expedientes tão vis e servis para abrandá-lo.
Os que andam em santa sinceridade podem andar em santa segurança e continuar seu trabalho sem temer o que o homem lhes possa fazer. Quem anda com retidão anda em segurança.
- Hamã suportava esse desprezo tão mal quanto antes; ou melhor, quanto mais alto era elevado, menos suportava ser desprezado e mais se enfurecia. (1.) Isso lhe tirou a paz de espírito e o lançou numa agitação penosa. Estava cheio de indignação (v. 9) e, ainda assim, conteve-se, v. 10.
De bom grado teria sacado a espada e atravessado Mardoqueu por tê-lo afrontado daquele modo. Esperava, porém, vê-lo cair em breve com todos os judeus; por isso, com grande esforço dominou-se e não o apunhalou.
Que luta havia em seu peito entre a ira, que exigia a morte imediata de Mardoqueu (Ah, se eu pudesse ter da carne dele! Não consigo me satisfazer! — Jó 31:31), e a malícia, decidida a aguardar o massacre geral! Assim, espinhos e laços estão no caminho do perverso.
(2.) Isso tirou o sabor de todos os seus prazeres. A pequena afronta recebida de Mardoqueu foi a mosca morta que estragou o pote inteiro de seu precioso unguento.
Ele mesmo admitiu, diante da esposa e dos amigos, para eterna vergonha de uma mente orgulhosa e descontente, que não encontrava consolo em seus bens, cargo e família enquanto Mardoqueu vivesse e ocupasse um lugar à porta do rei, vv. 10-13.
Falou de suas riquezas e honras, de sua família numerosa e dos altos cargos a que fora elevado; era o querido do príncipe e o ídolo da corte. No entanto, nada disso lhe valia coisa alguma enquanto Mardoqueu não fosse enforcado.
Quem está inclinado ao descontentamento nunca ficará sem algum motivo de inquietação. Os orgulhosos podem ter muito do que desejam, mas, se não tiverem tudo, esse muito lhes parecerá nada.
A milésima parte do que Hamã possuía bastaria para proporcionar a um homem humilde e modesto toda a felicidade que ele espera obter deste mundo. Mesmo assim, Hamã se queixava com tanta paixão como se tivesse caído no grau mais baixo de pobreza e desonra.
III. Planejando vingança, auxiliado nisso pela esposa e pelos amigos, v. 14. Eles viram como ele desejava abandonar a decisão de adiar a matança até a data determinada pela sorte. Por isso, aconselharam-no a receber um sinal e um antegosto da satisfação que esperava, mediante a pronta execução de Mardoqueu; isso o agradaria naquele momento.
Como julgava certa a destruição de todos os judeus na data marcada, não consideraria indigno, por enquanto, executar apenas Mardoqueu. 1. Para satisfazer sua fantasia, aconselharam-no a preparar uma forca e erguê-la diante de sua própria casa.
Assim, logo que conseguisse a ordem assinada, não haveria demora na execução; nem sequer precisaria esperar que a forca fosse construída. A ideia agradou muito a Hamã, que mandou fazer e levantar a forca imediatamente.
Ela deveria ter cinquenta côvados de altura, ou chegar o mais perto possível disso, para maior desonra de Mardoqueu e para expô-lo a todos os que passassem. E deveria ficar diante da casa de Hamã, para que todos vissem que Mardoqueu fora sacrificado ao ídolo de sua vingança e para que ele próprio alimentasse os olhos com aquela visão.
- Para conseguir o que queria, aconselharam-no a procurar o rei cedo pela manhã e obter dele uma ordem para enforcar Mardoqueu. Não duvidavam de que ela seria prontamente concedida a quem era tão favorecido pelo rei e conseguira com tanta facilidade um decreto para destruir toda a nação judaica.
Não era preciso inventar nenhuma acusação: bastava que dissesse ao rei que Mardoqueu, desprezando sua ordem, recusava-se a reverenciar Hamã. Deixamos agora Hamã ir dormir, satisfeito com a ideia de ver Mardoqueu enforcado no dia seguinte e depois seguir alegre para o banquete, sem sonhar que seria o primeiro a usar sua própria forca.