Ester 4
Argumento
Deixamos o Isaque de Deus amarrado sobre o altar, prestes a ser sacrificado, enquanto os inimigos triunfavam diante dessa perspectiva. Aqui, porém, os acontecimentos começam a encaminhar-se para um livramento, e começam pelo lugar certo.
I. Os amigos dos judeus tomam a sério o perigo e o lamentam, vv. 1-4. II. Mardoqueu e Ester combinam medidas para evitá-lo. 1. Ester procura saber o que está acontecendo e recebe um relato detalhado, vv. 5-7. 2. Mardoqueu a exorta a interceder junto ao rei pela revogação do decreto, vv. 8-9.
III. Ester apresenta o perigo de dirigir-se ao rei sem ser chamada, vv. 10-12. IV. Mardoqueu insiste para que ela se arrisque, vv. 13-14. V. Após um jejum religioso de três dias, Ester promete fazê-lo, vv. 15-17; veremos que foi bem-sucedida.
Versículos 1 a 4
Grande Luto entre os Judeus. (a.C. 510.)
Temos aqui o relato da tristeza geral que tomou os judeus quando foi publicado o decreto sanguinário de Hamã contra eles. Era um tempo sombrio para a igreja.
- Mardoqueu clamou amargamente, rasgou as vestes e vestiu pano de saco, vv. 1-2. Não apenas expressou sua dor desse modo, mas a tornou pública, para que todos percebessem que ele não se envergonhava de se declarar amigo dos judeus e companheiro deles no sofrimento, irmão e companheiro na tribulação, por mais desprezíveis e odiosos que os partidários de Hamã agora os apresentassem.
Foi nobre assumir publicamente uma causa que ele sabia ser justa e pertencente a Deus, mesmo quando parecia desesperada e prestes a sucumbir. Mardoqueu sentiu o perigo mais que os demais porque sabia que a hostilidade de Hamã se dirigia primeiro contra ele e que os outros judeus eram atacados por sua causa.
Por isso, embora não se arrependesse do que alguns chamariam de obstinação, pois nela persistiu (Ester 5:9), afligia-o muito que seu povo sofresse por seus escrúpulos de consciência. Talvez isso tenha levado alguns a considerá-lo rigoroso demais.
Mas, podendo apelar a Deus de que agira por motivo de consciência, ele podia confiar com serenidade sua causa e a de seu povo àquele que julga com justiça. Deus guardará os que são expostos ao perigo pela delicadeza de sua consciência.
Menciona-se aqui uma lei segundo a qual ninguém podia entrar pelo portão do rei vestido de pano de saco. Embora o poder arbitrário dos reis muitas vezes fizesse muitos lamentar, como então acontecia, ninguém devia aproximar-se do rei em trajes de luto, porque ele não queria ouvir as queixas dessas pessoas.
Somente o que era alegre e agradável podia aparecer na corte; tudo o que era triste devia ser banido dali. Todos os que vivem nos palácios dos reis usam roupas delicadas (Mateus 11:8), não pano de saco.
Mas impedir a entrada dos sinais de tristeza, sem impedir também suas causas, era uma zombaria. Proibir a entrada do pano de saco só faria sentido se também pudessem proibir a entrada da doença, da aflição e da morte. Essa regra, porém, obrigou Mardoqueu a manter distância: ele só pôde chegar diante do portão, sem ocupar seu lugar nele.
- Todos os judeus, em cada província, sentiram profundamente a notícia, v. 3. Privaram-se do conforto da mesa, pois jejuaram e misturaram lágrimas à comida e à bebida, e do conforto da cama à noite, pois se deitaram sobre pano de saco e cinzas.
Os que permaneceram na terra do cativeiro quando Ciro lhes permitiu partir, por falta de confiança em Deus e de amor à própria terra, talvez agora se arrependessem de sua insensatez e desejassem, tarde demais, ter atendido ao chamado de Deus.
- Ao saber de maneira geral da aflição de Mardoqueu, a rainha Ester ficou profundamente entristecida, v. 4. A dor dele era também a dela, tamanho o respeito que ainda lhe tinha. O perigo dos judeus era igualmente sua angústia, pois, embora rainha, não se esqueceu de seu vínculo com eles.
Que nem mesmo os mais importantes julguem indigno de si sofrer pela aflição de José, ainda que se unjam com os melhores óleos, Amós 6:6. Ester enviou uma muda de roupas a Mardoqueu: óleo de alegria em lugar do luto e vestes de louvor em lugar do espírito abatido.
Mas ele queria que ela percebesse a profundidade de sua dor e, por consequência, a causa dessa dor. Por isso não aceitou as roupas e permaneceu como alguém que se recusa a ser consolado.
O Apelo de Mardoqueu a Ester; Ester É Exortada a Pedir ao Rei; Ester Decide Pedir ao Rei. (a.C. 510.)
Versículos 5 a 17
As leis da Pérsia restringiam tanto as esposas, sobretudo as esposas do rei, que Mardoqueu não podia conversar pessoalmente com Ester sobre esse assunto importante. Por isso, várias mensagens foram levadas entre eles por Hataque, designado pelo rei para servi-la e em quem, ao que parece, ela podia confiar.
I. Ester mandou perguntar a Mardoqueu, com mais detalhes, que aflição ele lamentava (v. 5) e por que não tirava o pano de saco. Quem ama Sião faz bem em buscar notícias, para saber orientar melhor suas tristezas e alegrias, orações e louvores. Se devemos chorar com os que choram, precisamos saber por que choram.
II. Mardoqueu lhe enviou um relato autêntico de todo o caso e a incumbiu de interceder junto ao rei. Contou a Hataque tudo o que lhe acontecera (v. 7): o rancor de Hamã contra ele porque não se curvava diante dele e os artifícios pelos quais Hamã obtivera o decreto.
Enviou também uma cópia fiel do decreto, para que Ester visse o perigo iminente em que ela e seu povo se encontravam. Pediu-lhe que, se tinha algum respeito por ele ou afeto pela nação judaica, se apresentasse agora em defesa deles, corrigisse as informações falsas com que o rei fora enganado e expusesse o assunto conforme a verdade. Não duvidava de que o rei então revogaria o decreto.
III. Ester apresentou a Mardoqueu sua situação: não podia dirigir-se ao rei sem arriscar a vida; portanto, ele a submetia a uma grande agrura ao insistir nisso. Ela os serviria de bom grado e se rebaixaria para fazer o bem aos judeus. Mas, se tivesse de correr o risco de ser executada como criminosa, bem podia dizer: “Peço-lhe que me dispense e encontre outro intercessor.”
- A lei era expressa e conhecida de todos: quem se aproximasse do rei sem ser chamado deveria morrer, a menos que ele estendesse à pessoa o cetro de ouro. Era extremamente incerto que ela o encontrasse de tão bom humor, v. 11.
Essa lei fora feita menos por prudência, para maior segurança pessoal do rei, do que por orgulho: ao ser visto raramente e apenas com grande dificuldade, ele seria adorado como um pequeno deus. Era uma lei insensata, pois:
(1.) Tornava infelizes os próprios reis, confinando-os a seus aposentos por receio de serem vistos. Assim, o palácio real pouco se distinguia de uma prisão real. Os reis inevitavelmente se tornavam mal-humorados e talvez melancólicos, causando terror aos outros e sendo um peso para si mesmos. Muitos tornam a própria vida miserável por sua arrogância e seu mau temperamento.
(2.) Prejudicava os súditos. De que lhes servia um rei a quem nunca podiam recorrer livremente em busca de reparação de injustiças ou para apelar das decisões dos juízes inferiores? Não é assim na corte do Rei dos reis: podemos aproximar-nos com confiança, a qualquer tempo, do escabelo do seu trono da graça e estar seguros de uma resposta de paz à oração da fé.
Somos bem-vindos não apenas ao pátio interior, mas até ao Santo dos Santos, pelo sangue de Jesus.
(3.) Era especialmente penosa para as esposas dos reis, pois a lei não abria exceção para elas, embora fossem osso dos ossos e carne da carne deles. Talvez tivesse sido perversamente concebida contra elas tanto quanto contra qualquer outro, para que os reis desfrutassem mais livremente de suas concubinas; Ester sabia disso.
Miserável era o reino cujos governantes faziam leis a serviço de seus desejos lascivos.
- Naquele momento, a situação de Ester era muito desanimadora. A providência dispôs as coisas de modo que, justamente nessa ocasião, ela estivesse sob uma nuvem: o afeto do rei por ela esfriara, pois fazia trinta dias que não era chamada à sua presença.
Sua fé e coragem seriam assim ainda mais provadas, e a bondade de Deus no favor que, apesar disso, ela agora encontraria junto ao rei brilharia com mais intensidade. É provável que Hamã procurasse distrair o rei, por meio de mulheres e vinho, do que fizera.
Ester, então, foi negligenciada; sem dúvida, Hamã também fez tudo o que podia para afastar dela o rei, pois sabia que ela se opunha a ele.
IV. Mardoqueu continuou a insistir que, fosse qual fosse o perigo, Ester precisava dirigir-se ao rei nessa grande questão, vv. 13-14. Nenhuma desculpa serviria: ela tinha de defender essa causa. Ele lhe mostrou:
- Que se tratava da causa dela própria, pois o decreto de extermínio de todos os judeus não a excluía. “Não pense que escapará na casa do rei, que o palácio a protegerá ou que a coroa salvará sua cabeça. Não: você é judia e, se os demais forem eliminados, você também será.”
Sem dúvida, era mais sábio expor-se à possibilidade de morrer por decisão do marido do que à certeza de morrer por obra do inimigo.
- Que, de um modo ou de outro, a causa certamente triunfaria; por isso, ela podia arriscar-se com confiança. “Se você se recusar a servir, alívio e livramento virão aos judeus de outro lugar.”
Essa era a linguagem de uma fé forte, que não vacilava diante da promessa mesmo quando o perigo mais ameaçava; contra toda esperança, ela cria com esperança. Os instrumentos podem falhar, mas a aliança de Deus não falhará.
Que, se abandonasse agora os amigos por covardia e incredulidade, teria motivo para temer que algum juízo do céu trouxesse a ruína dela e de sua família: “Você e a casa de seu pai serão destruídas, enquanto as demais famílias judaicas serão preservadas.” Quem tenta salvar a vida por meios pecaminosos e não consegue confiá-la a Deus no caminho do dever a perderá no caminho do pecado.
Que a providência divina tivera esse momento em vista ao elevá-la à condição de rainha: “Quem sabe se não foi para um tempo como este que você chegou ao reino?” Portanto, (1.) Por gratidão, ela tinha o dever de prestar esse serviço a Deus e à sua igreja; de outro modo, não cumpriria o propósito de sua elevação.
(2.) Não precisava temer o fracasso da iniciativa. Se Deus a havia destinado a ela, Deus a sustentaria e lhe daria êxito.
Agora, [1.] Os acontecimentos mostraram que ela chegou ao reino para ser instrumento do livramento dos judeus; logo, Mardoqueu acertara em sua conjectura. Porque o Senhor amava seu povo, fez de Ester rainha. Há um conselho e um desígnio sábios em todas as providências divinas, desconhecidos para nós até que se cumpram.
Ao fim, ficará claro que todas visam ao bem da igreja e nele convergem. [2.] Essa possibilidade já era uma boa razão para ela agir e fazer o máximo por seu povo. Cada um de nós deve considerar com que finalidade Deus nos colocou onde estamos e procurar cumpri-la.
Quando surge uma oportunidade especial de servir a Deus e à nossa geração, devemos cuidar para não deixá-la passar. Ela nos foi confiada para que a aproveitássemos.
Esses foram os argumentos apresentados por Mardoqueu a Ester. Alguns escritores judeus, férteis em invenções, acrescentam outra coisa que lhe teria acontecido (v. 7) e que ele desejaria que Ester soubesse: “Na noite anterior, ao voltar para casa profundamente abatido depois de saber da trama de Hamã, encontrou três crianças judias saindo da escola.”
“Perguntou-lhes o que haviam aprendido naquele dia. A primeira disse que sua lição era Provérbios 3:25, 26: ‘Não temas o pavor repentino.’ A segunda citou Isaías 8:10: ‘Tomai juntamente conselho, e será frustrado.’ A terceira citou Isaías 46:4: ‘Eu vos fiz, e eu vos levarei; eu mesmo vos carregarei e vos livrarei.’”
“‘Ó bondade de Deus’, diz Mardoqueu, ‘que da boca das crianças e dos que mamam suscita força!’”
V. Diante disso, Ester decidiu dirigir-se ao rei, custasse o que custasse, mas somente depois de ela e seus amigos se dirigirem a Deus. Que primeiro obtivessem o favor divino pelo jejum e pela oração; então ela poderia esperar encontrar favor junto ao rei, vv. 15-16. Suas palavras mostram:
- A piedade e a devoção próprias de uma israelita. Ela erguia os olhos a Deus, em cujas mãos está o coração dos reis, e dependia dele para inclinar o coração daquele rei em seu favor. Arriscava a vida, mas se consideraria segura e ficaria em paz ao confiar a guarda de sua alma a Deus e colocar-se sob sua proteção.
Cria que o favor de Deus podia ser alcançado pela oração, que seu povo é um povo que ora e que ele ouve as orações. Sabia que, em situações extraordinárias, os piedosos costumavam unir jejum e oração, e muitos se reuniam para praticar ambos. Por isso:
(1.) Pediu a Mardoqueu que convocasse os judeus de Susã para santificar um jejum e uma assembleia solene. Deveriam reunir-se nas sinagogas a que pertenciam, orar por ela e guardar um jejum solene por três dias, abstendo-se de refeições regulares e alimentos agradáveis e, tanto quanto possível, de qualquer comida.
Fariam isso em sinal de humilhação por seus pecados e por reconhecerem que não eram dignos da misericórdia de Deus. Não sabem apreciar os favores divinos os que consideram excessivos esse esforço e essa renúncia ao buscá-los.
(2.) Prometeu que ela e os de sua casa santificariam o jejum em seus aposentos no palácio, pois ela não podia participar das assembleias. Suas servas eram judias ou prosélitas o suficiente para acompanhá-la no jejum e na oração. Temos aqui o bom exemplo de uma senhora que ora com suas servas, digno de ser seguido.
Observe também: os que precisam permanecer em particular podem unir suas orações às das assembleias solenes do povo de Deus. Ausentes em corpo, podem estar presentes em espírito. Quem pede e recebe as orações de outros por si não deve pensar que isso o dispense de orar por si mesmo.
- A coragem e a resolução próprias de uma rainha. “Depois de buscarmos a Deus nesse assunto, irei ao rei interceder por meu povo. Sei que isso não está de acordo com a lei do rei, mas está de acordo com a lei de Deus. Por isso, aconteça o que acontecer, correrei o risco e não considerarei preciosa a minha vida, desde que possa servir a Deus e à sua igreja. Se eu perecer, perecerei.”
“Não poderia perder a vida por causa melhor. É preferível cumprir meu dever e morrer por meu povo a fugir do dever e morrer com ele.” Seu raciocínio era semelhante ao dos leprosos (2 Reis 7:4): “Se eu ficar parada, morrerei; se me arriscar, talvez viva e possa salvar meu povo. Se o pior acontecer”, como costumamos dizer, “no máximo, morrerei.” Quem nada arrisca, nada conquista.
Ela não disse isso por desespero ou paixão, mas por santa decisão de cumprir o dever e confiar o resultado a Deus, acolhendo sua santa vontade. Na parte apócrifa deste livro (Ester 13 e 14), encontram-se as orações de Mardoqueu e Ester nessa ocasião, ambas muito específicas e pertinentes.
Na continuação da história, veremos que Deus não disse a essa descendência de Jacó: “Buscai-me em vão.”