Matthew Henry

Ester 2

Argumento

Duas coisas são registradas neste capítulo, ambas contribuindo para a libertação dos judeus da conspiração de Hamã:

I. A ascensão de Ester ao posto de rainha no lugar de Vasti. Muitas outras eram candidatas a essa honra (vv. 1-4), mas Ester, órfã e judia cativa (vv. 5-7), conquistou primeiro o favor do camareiro do rei (vv. 8-11) e depois o do próprio rei (vv. 12-17), que a fez rainha, vv. 18-20.

II. O bom serviço que Mardoqueu prestou ao rei ao descobrir uma conspiração contra sua vida, vv. 21-23.

Versículos 1 a 20

A Ascensão de Ester; Ester Escolhida Rainha. (a.C. 514.)

No capítulo anterior, lemos como Deus derrubou de seu trono uma mulher altiva e poderosa; agora veremos como ele exaltou uma pessoa humilde, conforme observa a virgem Maria em seu cântico (Lucas 1:52), e Ana antes dela, 1 Samuel 2:4-8. Vasti foi humilhada por sua altivez, e Ester é elevada por sua humildade. Observe:

I. As medidas extravagantes tomadas para agradar ao rei com outra esposa no lugar de Vasti. Josefo diz que, quando a ira do rei passou, ele ficou extremamente triste por a questão ter ido tão longe e teria se reconciliado com Vasti, não fosse o fato de que, pela constituição do governo, a sentença era irrevogável.

Por isso, para fazê-lo esquecê-la, planejaram entretê-lo primeiro com uma grande variedade de concubinas e depois uni-lo à mais agradável de todas como esposa no lugar de Vasti.

Os casamentos dos príncipes costumam ser feitos por razões políticas e de interesse, para ampliar seus domínios e fortalecer suas alianças. Este, porém, seria decidido em parte pela adequação da mulher ao gosto do rei, fosse ela rica ou pobre, de linhagem nobre ou não. Quanto esforço foi feito para satisfazer o rei!

Como se o poder e a riqueza lhe tivessem sido dados apenas para que ele desfrutasse todos os prazeres dos sentidos no grau máximo, refinados ao extremo, embora, na melhor das hipóteses, eles sejam apenas escória e borra em comparação com os prazeres divinos e espirituais.

  1. Todas as províncias do reino deviam ser vasculhadas à procura de jovens virgens formosas, e oficiais deviam ser designados para escolhê-las, v. 3. 2. Preparou-se para elas uma casa especial, um serralho, e nomeou-se alguém para cuidar delas e garantir que fossem bem providas.

  2. Foi-lhes concedido nada menos que doze meses para a purificação, ao menos àquelas trazidas do interior, para que ficassem muito limpas e perfumadas, v. 12. Mesmo as obras-primas da natureza precisavam de todos esses recursos da arte para serem recomendadas a uma mente vã e carnal.

  3. Depois que o rei as levava à sua cama, ficavam enclausuradas para sempre, a menos que ele quisesse chamá-las alguma vez (v. 14). Eram consideradas esposas secundárias, sustentadas pelo rei de acordo com essa condição, e não podiam casar-se com outro homem.

Nesse exemplo, podemos ver a que práticas absurdas chegaram aqueles que não tinham a revelação divina e que, como castigo por sua idolatria, foram entregues a afeições vis. Depois de transgredirem a lei da criação decorrente de Deus ter feito o homem, transgrediram outra lei, fundamentada no fato de ele ter feito um homem e uma mulher.

Veja quanto era necessário o evangelho de Cristo para purificar os homens das concupiscências da carne e reconduzi-los à instituição original. Os que aprenderam de Cristo terão vergonha até de falar de coisas como essas, feitas por eles não apenas em segredo, mas abertamente, Efésios 5:12.

II. A Providência soberana de Deus, que assim levou Ester a tornar-se rainha. Se ela tivesse sido proposta a Assuero como esposa, ele teria rejeitado a sugestão com desprezo. Mas, quando chegou sua vez, depois de várias outras, viu-se que, embora muitas fossem talentosas e prudentes, graciosas e agradáveis, Ester superava todas elas.

Assim, até suas rivais lhe abriram caminho para conquistar o afeto do rei e as honras que vieram em consequência. É certo, como diz o bispo Patrick, que aqueles que sugerem que ela cometeu um grande pecado para alcançar essa posição não levam em conta os costumes daqueles tempos e países.

Toda mulher que o rei levava à sua cama estava casada com ele e era sua esposa de categoria inferior, assim como Agar era esposa de Abraão. Portanto, ainda que Ester não tivesse sido feita rainha, os filhos de Jacó não precisariam dizer que Assuero tratou a irmã deles como prostituta. A respeito de Ester, devemos observar:

  1. Sua origem e seu caráter. (1.) Era uma das filhas do cativeiro, judia e participante da sujeição de seu povo. Daniel e seus companheiros foram elevados à posição de destaque na terra onde eram cativos, pois estavam entre aqueles que Deus havia enviado para lá para o bem deles, Jeremias 24:5.

(2.) Era órfã; pai e mãe haviam morrido (v. 7), mas, quando eles a deixaram, o Senhor a acolheu, Salmos 27:10. Quando aqueles que, para sua infelicidade, perdem os pais na infância chegam mais tarde a destacar-se pela piedade e pela prosperidade, devemos reconhecer nisso a glória de Deus, de sua graça e de sua providência.

Ele incluiu entre os títulos de sua honra o de Pai dos órfãos. (3.) Ester era bela, formosa de corpo e de rosto; assim diz a nota à margem, v. 7. Sua sabedoria e sua virtude eram sua maior beleza, mas é uma vantagem para o diamante estar bem engastado.

(4.) Mardoqueu, seu primo de primeiro grau, foi seu responsável, criou-a e a tomou por filha. A Septuaginta diz que ele pretendia fazê-la sua esposa. Se foi assim, merece louvor por não se opor à posição melhor que ela alcançou.

Reconheçamos a Deus por suscitar amigos para os órfãos. Que também sirva de incentivo a esse piedoso ato de caridade o fato de muitos que cuidaram da educação de órfãos terem vivido para ver os bons frutos de seu zelo e esforço, para grande consolo próprio.

O dr. Lightfoot pensa que esse Mardoqueu é o mesmo mencionado em Esdras 2:2, que subiu a Jerusalém com o primeiro grupo e ajudou a estabelecer seu povo até que a construção do templo fosse interrompida; então voltou à corte persa, para ver que serviço poderia prestar-lhes ali.

Sendo Mardoqueu o responsável por Ester, no lugar dos pais dela, somos informados: [1.] De como ele a tratava com carinho, como se fosse sua própria filha (v. 11): passava todos os dias diante da porta dela para saber como estava e que favor havia conquistado.

Que os que recebem sob seus cuidados parentes por disposição da divina Providência lhes demonstrem igual afeição e cuidado. [2.] De como Ester o respeitava. Embora fossem iguais quanto ao parentesco, ela era mais jovem e dependia dele; por isso, honrava-o como pai e cumpria suas ordens, v. 20.

Esse é um exemplo para os órfãos. Se forem acolhidos por pessoas que os amam e cuidam deles, retribuam com o devido respeito e afeto. Quanto menor era o dever que obrigava seus responsáveis a sustentá-los, maior é a gratidão que os obriga a honrá-los e obedecer-lhes.

Um exemplo da obediência de Ester a Mardoqueu é que ela não revelou seu povo nem sua parentela, porque ele lhe ordenara que não o fizesse, v. 10. Não lhe disse que negasse sua terra nem que mentisse para ocultar sua origem; se tivesse dito, ela não deveria obedecer. Apenas lhe disse que não anunciasse de onde vinha.

Nem toda verdade deve ser dita em todo momento, embora uma mentira nunca deva ser dita. Como Ester nascera em Susã e seus pais estavam mortos, todos a julgavam de origem persa, e ela não era obrigada a desfazer esse engano.

  1. Sua ascensão. Quem teria imaginado que uma judia, cativa e órfã, nascera para ser rainha, uma imperatriz? Contudo, foi o que aconteceu. A Providência às vezes levanta os pobres do pó para colocá-los entre príncipes, 1 Samuel 2:8.

(1.) O camareiro do rei a honrou (v. 9) e se dispôs a servi-la. A sabedoria e a virtude conquistam respeito. Os que se asseguram do favor de Deus também encontrarão favor diante dos homens, na medida em que isso lhes for bom.

Todos os que viam Ester a admiravam (v. 15) e concluíam que ela ganharia o prêmio; e o ganhou. (2.) O próprio rei se apaixonou por ela. Ester não se preocupou, como as outras moças, em realçar a aparência por meios artificiais: não pediu nada além do que lhe fora designado (v. 15), e ainda assim foi a mais bem recebida. Quanto mais natural a beleza, mais agradável é.

“O rei amou Ester mais que todas as mulheres”, v. 17. Agora não precisava fazer outras experiências nem reservar tempo para deliberar. Logo decidiu pôr a coroa real sobre a cabeça dela e fazê-la rainha, v. 17.

Isso aconteceu no sétimo ano de seu reinado (v. 16), e Vasti fora repudiada no terceiro ano (Ester 1:3); assim, ele passou quatro anos sem rainha. Registram-se: [1.] As honras que o rei concedeu a Ester. Celebrou a solenidade da coroação com um banquete real (v. 18).

Talvez nesse banquete Ester, atendendo ao desejo do rei, tenha comparecido em público, o que Vasti se recusara a fazer. Assim Ester receberia elogios por obedecer na mesma situação em que a outra recebera a mancha da desobediência.

O rei também concedeu uma dispensa às províncias, fosse o perdão dos impostos atrasados, fosse um ato de clemência para os criminosos, como Pilatos, que libertava um preso na festa. Isso aumentaria a alegria.

[2.] O respeito que Ester continuou a demonstrar ao antigo responsável por ela. Ainda cumpria as ordens de Mardoqueu, como quando fora criada com ele, v. 20. Mardoqueu se assentava à porta do rei: essa era a posição mais alta a que havia chegado; era um dos porteiros ou guardas da entrada da corte.

Não nos é dito se já ocupava esse posto ou se Ester o obteve para ele. Mas ali se assentava satisfeito, sem aspirar a nada mais alto; e Ester, embora elevada ao trono, continuava atenta às orientações dele.

Isso demonstrava humildade e gratidão: ela se lembrava das antigas bondades de Mardoqueu e reconhecia sua sabedoria constante. É grande adorno e motivo de louvor para quem ascende lembrar-se de seus benfeitores, conservar as marcas da boa educação, desconfiar de si mesmo, dispor-se a receber conselhos e ser grato por eles.

Versículos 21 a 23

A Descoberta de uma Conspiração por Mardoqueu. (a.C. 510.)

Registra-se aqui o bom serviço que Mardoqueu prestou ao governo ao descobrir uma conspiração contra a vida do rei, porque a menção desse ato voltará mais tarde em seu benefício. Ainda não foi dado nenhum passo para realizar o desígnio de Hamã de destruir os judeus, mas vários passos já foram dados para realizar o desígnio de Deus de libertá-los, e este é um deles.

Deus dá agora a Mardoqueu a oportunidade de prestar um bom serviço ao rei, para que depois tenha uma oportunidade ainda melhor de prestar um bom serviço aos judeus.

  1. Dois servos do próprio rei conspiraram contra ele e procuraram lançar mão dele, não apenas para prendê-lo, mas para tirar-lhe a vida, v. 21. Provavelmente se ressentiam de alguma afronta que julgavam ter recebido dele, ou de alguma injúria que ele lhes fizera.

Quem desejaria ser poderoso, para se tornar alvo de tanta inveja? Quem desejaria governar arbitrariamente, para se tornar alvo de tanta hostilidade? Mais que quaisquer outros mortais, os príncipes trazem continuamente a vida nas mãos e muitas vezes descem mortos à sepultura, sobretudo aqueles que causaram terror na terra dos viventes.

  1. Mardoqueu soube da traição e, por meio de Ester, revelou-a ao rei, confirmando-a no favor real e recomendando a si mesmo a esse favor. Não se sabe como ele tomou conhecimento da conspiração. Talvez tenha ouvido a conversa dos traidores, ou talvez eles tenham tentado aliciá-lo; de todo modo, o fato chegou a seu conhecimento.

Isso deve servir de aviso contra todas as práticas de traição e sedição: embora os homens confiem no segredo, uma ave dos céus levará a voz. Assim que soube, Mardoqueu fez o caso chegar ao conhecimento do rei.

Seu ato deve instruir todos os que desejam ser bons súditos e servir-lhes de exemplo: não ocultem nenhum desígnio mau de que saibam contra o governante ou a paz pública, pois isso equivale a unir-se aos inimigos públicos.

  1. Os traidores foram enforcados, como mereciam, mas só depois que uma investigação comprovou plenamente a traição deles (v. 23). Todo o caso foi registrado nos anais do rei, com menção especial a Mardoqueu como aquele que havia descoberto a conspiração.

Ele não foi recompensado de imediato, mas escreveu-se um livro de memória. Do mesmo modo, quanto aos que servem a Cristo, embora sua recompensa seja adiada até a ressurreição dos justos, mantém-se o registro de sua obra de fé e de seu esforço de amor, dos quais Deus não é injusto para se esquecer, Hebreus 6:10.


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