Matthew Henry

Ester 1

Argumento

Ester
UMA
EXPOSIÇÃO,
COM OBSERVAÇÕES PRÁTICAS,
DO LIVRO DE
ESTER.

Nos dois livros anteriores, lemos como a providência de Deus velou pelos judeus que haviam voltado do cativeiro à sua terra e que coisas grandes e bondosas foram realizadas em favor deles. Mas muitos ficaram para trás, pois não tinham zelo suficiente pela casa de Deus, pela terra santa e pela cidade santa para enfrentar as dificuldades de se mudar para lá.

Poderíamos pensar que esses deveriam ficar excluídos da proteção especial da Providência, como indignos do nome de israelitas; mas nosso Deus não nos trata conforme nossa insensatez e fraqueza.

Vemos neste livro que até os judeus espalhados pelas províncias dos gentios foram cuidados, assim como os que se reuniram na terra da Judeia, e foram maravilhosamente preservados quando condenados à destruição e destinados como ovelhas para o matadouro.

Não se sabe ao certo quem escreveu esta história. Mardoqueu era tão capaz quanto qualquer outro homem de relatar, por conhecimento próprio, seus diversos acontecimentos; quorum pars magna fuit — pois teve neles uma participação destacada.

E somos informados de que ele escreveu o relato necessário para dar a seu povo conhecimento dos motivos para celebrar a festa de Purim (Ester 9:20: Mardoqueu escreveu estas coisas e as enviou em cartas a todos os judeus). Portanto, temos razões para pensar que ele foi o autor de todo o livro.

É a narrativa de uma conspiração para exterminar todos os judeus, que foi maravilhosamente frustrada por uma combinação de providências. A exposição mais concisa dela será lê-la toda seguida, com atenção, de uma só vez; pois os acontecimentos posteriores explicam os anteriores e mostram o que a providência pretendia por meio deles.

O nome de Deus não aparece neste livro. Mas o acréscimo apócrifo a ele (que não se encontra no hebraico nem jamais foi recebido pelos judeus no cânon), que contém seis capítulos, começa assim: “Então Mardoqueu disse: Deus fez estas coisas.”

Embora o nome de Deus não esteja no livro, o dedo de Deus está, dirigindo muitos acontecimentos pequenos para realizar a libertação de seu povo. Os detalhes são não apenas surpreendentes e muito interessantes, mas também edificantes e muito animadores para a fé e a esperança do povo de Deus nos tempos mais difíceis e perigosos.

Não podemos esperar hoje que se realizem por nós milagres como os que se realizaram por Israel quando foi tirado do Egito; mas podemos esperar que Deus continue a proteger seu povo por meios semelhantes àqueles que empregou aqui para frustrar a conspiração de Hamã.

Somos informados: I. Como Ester se tornou rainha e Mardoqueu adquiriu importância na corte, sendo eles os instrumentos da libertação planejada, Ester 1 e 2. II. Mediante que provocação e por quais artifícios Hamã, o amalequita, obteve uma ordem para destruir todos os judeus, Ester 3.

III. A grande aflição em que, por isso, se encontraram os judeus, especialmente seus defensores, Ester 4. IV. A frustração da conspiração específica de Hamã contra a vida de Mardoqueu, Ester 5-7. V. A frustração de sua conspiração geral contra os judeus, Ester 8.

VI. O cuidado que se teve para perpetuar a lembrança disso, Ester 9 e 10. Toda a história confirma a observação do salmista (Salmos 37:12, 13): “O ímpio maquina contra o justo e range contra ele os dentes. O Senhor se rirá dele; vê que o seu dia se aproxima.”

Vários acontecimentos deste capítulo são, por si mesmos, muito instrutivos e úteis. O desígnio de registrar essa história, porém, é mostrar como se abriu o caminho para Ester chegar à coroa e, assim, tornar-se instrumento para frustrar a trama de Hamã.

Isso aconteceu muito antes de a trama ser concebida, para que observemos e admiremos a presciência e o vasto alcance da Providência.

“Todas as suas obras são conhecidas de Deus” de antemão. Quanto ao rei Assuero, temos: I. No auge de seu poder, o banquete que ofereceu a todos os seus grandes homens, vv. 1-9. II. No calor da ira, o divórcio de sua rainha, porque ela não quis comparecer quando ele mandou chamá-la, vv. 10-22.

Isso mostra como Deus realiza seus propósitos até mesmo por meio dos pecados e das insensatezes dos homens, que ele não permitiria se não soubesse tirar deles o bem.

Versículos 1 a 9

O Banquete de Assuero. (a.C. 519.)

Os estudiosos não concordam sobre qual dos reis da Pérsia foi esse Assuero. Diz-se que Mardoqueu estava entre os que foram levados cativos de Jerusalém (Ester 2:5, 6), o que parece indicar que Assuero foi um dos primeiros reis daquele império.

O dr. Lightfoot entende que ele foi o Artaxerxes que impediu a construção do templo e que também é chamado Assuero (Esdras 4:6, 7), em homenagem a seu bisavô, da linhagem dos medos, Daniel 9:1. Temos aqui o relato:

I. Da vasta extensão de seu domínio. Nos dias de Dario e Ciro havia apenas 120 príncipes (Daniel 6:1); agora havia 127, desde a Índia até a Etiópia, v. 1. O reino crescera demais e, com o tempo, afundaria sob o próprio peso. Como de costume, perderia suas províncias tão depressa quanto as conquistasse.

Se tamanho poder cair em mãos más, poderá causar tanto mais dano; mas, se cair em mãos boas, poderá fazer tanto mais bem. O reino de Cristo é, ou será, muito maior que esse, quando todos os reinos do mundo se tornarem seus; e durará para sempre.

II. Da grande pompa e magnificência de sua corte. Quando se viu firme no trono, com o orgulho crescendo em seu coração à medida que crescia o esplendor do reino, ofereceu um banquete extravagantíssimo. Teve despesas e trabalhos enormes apenas para mostrar as riquezas de seu reino glorioso e a honra de sua excelente majestade, v. 4.

Isso era vanglória, apego à pompa sem propósito algum; ninguém questionava as riquezas de seu reino nem pretendia disputar com ele a honra. Se tivesse mostrado essas riquezas e essa honra contribuindo generosamente para a construção do templo e a manutenção de seu culto, como fizeram alguns sucessores (Esdras 6:8; 7:22), o resultado teria sido muito melhor.

Assuero ofereceu dois banquetes: 1. Um para seus nobres e príncipes, que durou cento e oitenta dias, v. 3, 4. Não quer dizer que tenha servido as mesmas pessoas todos os dias durante todo esse período. Talvez tenha recebido os nobres e príncipes de uma província num dia e os de outra província no dia seguinte, enquanto ele e seus acompanhantes habituais se banqueteavam suntuosamente todos os dias.

O parafraseador caldeu, que é muito ousado nos acréscimos à história deste livro, diz que houvera uma rebelião entre os súditos de Assuero e que o banquete celebrava a repressão dessa revolta.

  1. Outro banquete foi oferecido a todo o povo, grandes e pequenos, e durou sete dias: alguns foram recebidos num dia, outros em outro. Como nenhuma casa comportaria todos, foram recebidos no pátio do jardim, v. 5.

Eram muito esmerados e ricos os cortinados que dividiam os vários espaços, ou as tendas ali armadas para os convidados. O mesmo se podia dizer dos leitos ou bancos em que se sentavam e do piso sob seus pés, v. 6.

Melhor é um jantar de verduras em paz, na própria companhia e na de um amigo, do que esse banquete de vinho, com todo o barulho e tumulto que inevitavelmente o acompanhava.

III. Da boa ordem que, apesar de tudo, foi mantida ali em certos aspectos. Não vemos nesse banquete o que houve no de Belsazar, quando deuses da esterqueira foram louvados e os utensílios do santuário, profanados, Daniel 5:3, 4. A paráfrase caldeia, porém, diz que os utensílios do santuário foram usados nesse banquete, para grande dor dos judeus piedosos.

Tampouco foi como o banquete de Herodes, que reservou a cabeça de um profeta para o último prato. Do relato desse banquete, podemos extrair duas práticas dignas de elogio:

  1. Ninguém era forçado a brindar à saúde de outros nem pressionado a fazê-lo. Bebia-se conforme a lei, provavelmente uma lei recém-estabelecida. Ninguém obrigava os demais, nem mesmo propondo brindes sem parar, como explica Josefo. Não faziam a taça circular entre os convidados; cada um bebia como queria, v. 8.

Portanto, se alguém bebesse em excesso, a culpa seria sua. Poucos cometeriam essa falta quando a ordem do rei honrava a sobriedade. A cautela desse príncipe pagão, mesmo desejando mostrar sua generosidade, pode envergonhar muitos dos que se dizem cristãos.

Esses pensam que não demonstram hospitalidade suficiente nem recebem bem os amigos a menos que os embriaguem. Sob o pretexto de fazer circular o brinde à saúde, fazem circular o pecado e, com ele, a morte. Há um ai para quem age assim; que o leiam e tremam, Habacuque 2:15, 16.

É roubar dos homens a razão, sua joia mais preciosa, e transformá-los em tolos, a maior injustiça que se pode cometer.

  1. Não houve danças entre homens e mulheres, pois eles foram recebidos separadamente. Não foi como no banquete de Belsazar, cujas mulheres e concubinas beberam com ele (Daniel 5:2), nem como no de Herodes, em que sua filha dançou diante dele.

Vasti ofereceu um banquete às mulheres em seus aposentos, não abertamente no pátio do jardim, mas no palácio real, v. 9. Assim, enquanto o rei mostrava a honra de sua majestade, ela e suas damas mostravam a honra de seu recato, que é a verdadeira majestade do belo sexo.

Versículos 10 a 22

A Recusa de Vasti em Comparecer; o Divórcio de Vasti. (a.C. 519.)

Temos aqui um golpe em toda a alegria do banquete de Assuero. Ele terminou em tristeza, não como o banquete dos filhos de Jó, por um vento vindo do deserto, nem como o de Belsazar, por uma escrita na parede, mas pela insensatez do próprio rei.

Ao fim da festa, houve um infeliz desentendimento entre o rei e a rainha. Ele encerrou bruscamente o banquete e fez os convidados partirem calados e envergonhados.

I. Foi certamente uma fraqueza do rei mandar chamar Vasti à sua presença quando estava embriagado e cercado de muitos homens, vários dos quais provavelmente se achavam na mesma condição. Quando o vinho lhe alegrou o coração, nada o satisfaria a não ser que Vasti comparecesse, bem-vestida e com a coroa na cabeça, para que príncipes e povo vissem como era bela, v. 10, 11.

Com isso: 1. Desonrou a si mesmo como marido. Devia proteger o recato da esposa, jamais expô-lo. Devia ser para ela “uma cobertura dos olhos” (Gênesis 20:16), não expô-la aos olhares.

  1. Rebaixou-se como rei ao ordenar à esposa algo que ela poderia recusar para honra de sua virtude. O costume dos persas não permitia que as mulheres aparecessem em público. Ele a submeteu a uma grande agrura ao não pedir, mas ordenar que fizesse algo tão estranho e se tornasse um espetáculo.

Se não tivesse perdido o domínio de si por beber em excesso, não teria feito tal coisa; pelo contrário, teria se irritado com qualquer um que a sugerisse. Quando entra o vinho, sai o juízo, e os homens perdem a razão.

II. Ainda assim, talvez não tenha sido sensato da parte dela recusá-lo. Vasti não quis comparecer, v. 12. Embora o rei transmitisse sua ordem por sete mensageiros honrados, diante de todos, e Josefo diga que a repetiu várias vezes, ela persistiu na recusa.

Se tivesse comparecido, seria evidente que o fazia apenas por obediência, e isso não prejudicaria seu recato nem daria mau exemplo. O ato não era pecaminoso em si; por isso, obedecer lhe traria mais honra do que ser tão rigorosa. Talvez tenha recusado com arrogância, e então certamente agiu mal: desprezou a ordem do rei.

Que humilhação para ele! Enquanto exibia a glória de seu reino, expôs o descrédito de sua família: tinha uma esposa que fazia o que bem entendia. As contendas entre os que partilham o jugo do casamento já são ruins em qualquer ocasião; diante de convidados, porém, são muito escandalosas e causam constrangimento e mal-estar.

III. O rei então se enfureceu. Quem governava 127 províncias não governava o próprio espírito: sua ira ardia dentro dele, v. 12. Teria olhado mais por seu conforto e sua reputação se contivesse a indignação, deixasse passar a afronta da esposa e a levasse na brincadeira.

IV. Embora estivesse muito irado, não quis tomar nenhuma providência antes de consultar seus conselheiros privados. Assim como tinha sete camareiros para executar suas ordens, cujos nomes aparecem no v. 10, tinha sete conselheiros para orientá-las. Quanto maior o poder de alguém, maior sua necessidade de conselho, para não abusar dele.

Diz-se desses conselheiros que eram instruídos, pois conheciam a lei e o direito; que eram sábios, pois conheciam os tempos; e que o rei depositava neles grande confiança e lhes concedia grande honra, pois viam seu rosto e ocupavam os primeiros lugares no reino, v. 13, 14. Na multidão de tais conselheiros há segurança. Temos agora:

  1. A questão proposta a esse conselho reservado (v. 15): “Que faremos à rainha Vasti segundo a lei?” Observe: (1.) Embora fosse a rainha quem havia cometido a falta, a lei devia seguir seu curso. (2.) Embora o rei estivesse muito irado, nada faria além do que lhe aconselhassem como conforme à lei.

  2. A proposta de Memucã: que Vasti fosse repudiada por sua desobediência. Alguns sugerem que ele deu esse conselho severo, e os demais concordaram, porque sabiam que agradaria ao rei: satisfaria sua ira naquele momento e seus apetites mais tarde.

Josefo, porém, diz o contrário: o rei tinha forte afeição por Vasti e não a teria repudiado por essa ofensa se pudesse legalmente deixá-la passar. Nesse caso, devemos supor que Memucã, ao aconselhá-lo, tinha um interesse sincero pela justiça e pelo bem público.

(1.) Ele mostra as más consequências que adviriam se a desobediência da rainha ao marido fosse ignorada e não censurada: outras esposas se sentiriam encorajadas tanto a desobedecer aos maridos quanto a dominá-los.

Se o infeliz desentendimento entre o rei e a esposa, do qual ela saíra vencedora, tivesse ocorrido em particular, o erro ficaria entre os dois e a desavença poderia ser resolvida em particular.

Mas ocorreu em público; talvez as damas que então festejavam com a rainha até tivessem demonstrado aprovação de sua recusa. Seu mau exemplo poderia, portanto, influenciar negativamente todas as famílias do reino.

Se a rainha pudesse fazer o que bem entendesse e o rei tivesse de se submeter, as esposas se tornariam arrogantes e autoritárias e desprezariam a obediência aos maridos. Afinal, as casas das pessoas comuns costumam tomar as cortes dos príncipes como modelo.

Os pobres maridos desprezados poderiam indignar-se, mas nada fariam para mudar a situação, pois “as disputas de uma esposa são um gotejar contínuo” (Provérbios 19:13; 27:15); veja também Provérbios 21:9; 25:24.

Quando as esposas desprezam os maridos, a quem devem respeitar (Efésios 5:33), e disputam o domínio sobre aqueles a quem devem estar sujeitas (1 Pedro 3:1), só podem resultar culpa e dor contínuas, confusão e toda espécie de obra má. Os poderosos precisam tomar cuidado para não dar exemplos desse tipo, vv. 16-18.

(2.) Ele mostra as boas consequências de um decreto que determinasse o divórcio de Vasti. Podemos supor que, antes de chegar a esse extremo, perguntaram-lhe se ainda se submeteria, se diria Peccavi — “Errei” — e pediria perdão ao rei. Caso o fizesse, o dano de seu exemplo seria efetivamente evitado e o processo seria interrompido.

É provável, porém, que ela tenha permanecido obstinada e insistido que era sua prerrogativa fazer o que bem entendesse, agradasse isso ao rei ou não. Por isso, proferiram contra ela a sentença de que não voltaria à presença do rei, e a confirmaram de modo irrevogável, v. 19.

Esperava-se que, em consequência, as esposas honrassem seus maridos: tanto as das classes altas, apesar da posição que ocupavam, quanto as das classes baixas, apesar da humilde condição dos maridos, v. 20. Assim, cada homem governaria sua casa como devia; estando as esposas sujeitas, filhos e servos também estariam. É do interesse dos Estados e reinos preservar a boa ordem nas famílias.

  1. O decreto promulgado conforme essa proposta declarava que a rainha havia sido repudiada por insubordinação, segundo a lei, e que outras esposas igualmente desobedientes aos maridos deveriam esperar igual desonra (v. 21, 22). Seriam elas melhores que a rainha?

Quer esse decreto tenha servido à ira do rei, quer a seus cálculos políticos, a providência de Deus o empregou para seu próprio propósito: abrir caminho para Ester chegar à coroa.


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