Esdras 9
Argumento
Podemos muito bem supor que os assuntos da igreja estavam em ótima situação agora que Esdras os dirigia. Olhemos para fora: o governo lhes era favorável. Não ouvimos queixas de perseguição nem de opressão; seus inimigos tinham mudado de coração ou, pelo menos, estavam de mãos atadas.
Seus vizinhos eram corteses, e não ouvimos falar de guerras nem de rumores de guerras; não havia quem os amedrontasse. Tudo estava tão bem quanto poderia estar, considerando que eram poucos, pobres e súditos de um príncipe estrangeiro.
Olhemos para dentro: não ouvimos falar de Baal, Astarote ou Moloque, de imagens, bosques ou bezerros de ouro, nem sequer de lugares altos (não só não havia altares idólatras, mas também não havia altares separados). O templo, porém, recebia o devido respeito, e seu serviço era mantido com zelo.
Ainda assim, nem tudo estava bem. As épocas mais puras da igreja têm tido algumas corrupções, e ela nunca será apresentada sem mácula nem ruga até ser “uma igreja gloriosa”, uma igreja “triunfante”, Efésios 5:27.
Temos aqui: I. Uma queixa apresentada a Esdras sobre os muitos casamentos contraídos com mulheres estrangeiras, v. 1, 2. II. A grande aflição que ele e outros, influenciados por seu exemplo, sentiram ao receber essa informação, v. 3, 4. III. A confissão solene que ele fez desse pecado a Deus, com tristeza segundo Deus e vergonha, vv. 5-15.
Versículos 1 a 4
A Reforma de Esdras. (a.C. 456.)
Esdras, como Barnabé quando foi a Antioquia e viu a graça de Deus para com seus irmãos ali, sem dúvida se alegrou e exortou a todos a que, com propósito de coração, se apegassem ao Senhor, Atos 11:23. Não viu nada de errado (muitas corrupções escapam aos olhos dos governantes mais vigilantes).
Mas aqui vem algo que abate sua alegria: informam-no de que muitos do povo, sim, e ainda alguns dos governantes, haviam tomado mulheres de famílias pagãs e se ligado por parentesco a estrangeiros. Observe:
I. Qual era o pecado de que eram culpados: mesclar-se com os povos daquelas terras (v. 2), associando-se a eles tanto no comércio quanto na conduta, tornando-se íntimos deles e, para completar o parentesco, tomando suas filhas em casamento para os próprios filhos.
Queremos esperar que não tenham adorado os deuses deles, mas que seu cativeiro os tenha curado de sua idolatria.
É dito, de fato, que agiam segundo as abominações deles; mas isso (diz o bispo Patrick) significa aqui apenas a imitação dos pagãos nos casamentos indiscriminados com pessoas de qualquer nação, o que aos poucos os levaria à idolatria.
Nisso, 1. Desobedeceram à ordem expressa de Deus, que proibia toda intimidade com os pagãos e, em particular, os contratos matrimoniais, Deuteronômio 7:3.
Profanaram a coroa de sua condição singular e se puseram no mesmo nível daqueles acima dos quais Deus os havia elevado por sinais especiais do seu favor, tanto recentemente quanto no passado.
Desconfiaram do poder de Deus para protegê-los e fazê-los prosperar. Foram guiados por uma política carnal, esperando fortalecer-se e ganhar influência entre seus vizinhos mediante essas alianças.
A incredulidade prática na plena suficiência de Deus está na raiz de todos os tristes expedientes que inventamos para ajudar a nós mesmos.
- Expuseram a si mesmos e, muito mais, a seus filhos ao perigo da idolatria, o próprio pecado, introduzido exatamente por esse caminho, que antes havia sido a ruína da sua igreja e nação.
II. Quem eram as pessoas culpadas desse pecado: não só algumas pessoas irrefletidas de Israel, que não sabiam agir melhor, mas muitos sacerdotes e levitas, cujo ofício era ensinar a lei, inclusive essa lei, e para os quais, por sua posição acima dos israelitas comuns, a culpa era maior.
Era uma diminuição da dignidade dos filhos daquela tribo casar-se com alguém de qualquer outra tribo, e eles raramente o faziam, exceto com a tribo real.
Mas casar-se com pagãos, com cananeus, hititas e não sei mais quem, era tamanho rebaixamento que, se tivessem alguma noção, ainda que não do dever, pelo menos da honra, seria de pensar que nunca teriam cometido tal ato.
Mas isso ainda não era o pior: a mão dos príncipes e governantes, que, por seu poder, deviam ter impedido ou corrigido essa grave transgressão, era a principal nesse pecado.
Se os príncipes participam de uma transgressão, ela lhes será imputada principalmente, por causa da influência que seus exemplos terão sobre os outros. Muitos seguirão seus caminhos perniciosos. Mas miserável é a situação do povo cujos líderes o corrompem e o levam a errar.
III. A informação dada a Esdras sobre isso. Foi dada pelas pessoas mais indicadas para apresentar a queixa: os príncipes que haviam conservado a integridade e, com ela, a dignidade. Não poderiam ter acusado os outros se eles mesmos não estivessem livres de culpa.
Foi dada à pessoa que tinha poder para corrigir a situação: como escriba versado na lei de Deus, Esdras podia argumentar com eles e, como comissário do rei, podia impor-lhes respeito.
É provável que esses príncipes tivessem tentado muitas vezes corrigir esse mal sem conseguir; agora, porém, recorreram a Esdras, esperando que sua sabedoria, autoridade e influência conseguissem fazê-lo.
Os que não podem, por si mesmos, corrigir os abusos públicos ainda podem prestar um bom serviço ao informar aqueles que podem.
IV. A impressão que isso causou em Esdras (v. 3): rasgou as roupas, arrancou os cabelos e sentou-se atônito. Assim expressou o profundo sentimento que tinha:
Da desonra causada a Deus com isso. Doía-lhe no coração pensar que um povo chamado pelo nome de Deus violasse tão grosseiramente a sua lei, tirasse tão pouco proveito da correção recebida e retribuísse tão mal seus favores.
Do dano que o povo havia causado a si mesmo e do perigo em que estava de ver a cólera de Deus irromper contra ele. Repare: (1.) Os pecados dos outros devem ser motivo de tristeza para nós, e devemos levar a sério a injúria que causam à honra de Deus e às almas dos homens.
(2.) A tristeza pelo pecado deve ser grande tristeza; assim era a de Esdras, como a tristeza por um filho único ou primogênito. (3.) Os pecados escandalosos dos que professam a fé são motivo para ficarmos atônitos. Podemos ficar admirados ao ver homens contradizerem, desvalorizarem, prejudicarem e arruinarem a si mesmos.
É estranho que ajam de maneira tão irrefletida e tão incoerente consigo mesmos! Os homens retos ficam atônitos diante disso.
V. A influência que a dor de Esdras por isso teve sobre os outros. Podemos supor que subiu à casa do Senhor para humilhar-se ali, porque, em sua dor, tinha os olhos postos em Deus, e aquele era o lugar apropriado para rogar que seu desagrado se afastasse.
Logo isso se tornou de conhecimento público, e todas as pessoas devotas e sérias que estavam por perto se reuniram a ele, ao que parece, por iniciativa própria, pois nada é dito sobre terem sido convocadas, v. 4.
Repare: 1. Uma característica das pessoas boas é tremer diante da palavra de Deus; elas reverenciam a autoridade dos seus preceitos e a severidade e justiça das suas ameaças. Para essas pessoas Deus olhará, Isaías 66:2.
Quem treme diante da palavra de Deus não pode deixar de tremer diante dos pecados dos homens, pelos quais a lei de Deus é quebrada e sua cólera e maldição são atraídas.
O zelo piedoso de uma pessoa contra o pecado pode talvez estimular muitas outras a fazer o mesmo, como diz o apóstolo em outro caso, 2 Coríntios 9:2. Muitos seguirão, embora não tenham reflexão, talento e coragem suficientes para conduzir uma boa obra.
Todas as pessoas boas devem reconhecer aqueles que se apresentam e agem na causa de Deus contra o vício e a profanação, ficar ao lado deles e fazer o que puderem para fortalecer-lhes as mãos.
Versículos 5 a 15
Podemos imaginar quais foram os pensamentos do coração de Esdras enquanto esteve sentado, atônito, por algumas horas, pelas palavras de sua boca quando, por fim, sua língua as proferiu. Nessa ocasião, ele dirige ao Céu uma fala extremamente comovente. Observe:
I. O momento em que fez essa fala: por ocasião do sacrifício da tarde, v. 5. Era então, provavelmente, que as pessoas devotas costumavam entrar nos pátios do templo para honrar a solenidade do sacrifício e oferecer a Deus suas próprias orações juntamente com ele.
Esdras escolheu fazer essa confissão diante delas, para que tivessem a devida consciência dos pecados do seu povo, nos quais, até então, não haviam reparado ou dos quais haviam feito pouco caso. A oração pode pregar.
O sacrifício, especialmente o da tarde, era um tipo da grande propiciação: aquele bendito Cordeiro de Deus que, na tarde do mundo, tiraria o pecado pelo sacrifício de si mesmo.
Podemos supor que Esdras olhava para ele com fé nessa fala penitente dirigida a Deus; fez a confissão como se tivesse a mão sobre a cabeça daquele grande sacrifício, por meio do qual recebemos a expiação.
Certamente Esdras conhecia a mensagem que o anjo Gabriel havia transmitido a Daniel alguns anos antes, na hora do sacrifício da tarde e como que em explicação dele, a respeito do Messias, o Príncipe (Daniel 9:21, 24). Talvez tenha levado isso em conta ao escolher esse momento.
II. Sua preparação para essa fala:
Levantou-se de seu abatimento e aliviou o peso de sua dor o suficiente para elevar o coração a Deus. Recuperou-se do espanto, acalmou um pouco a agitação do seu espírito perturbado e preparou seu espírito para a comunhão com Deus.
Ajoelhou-se, assumindo a postura de um penitente que se humilha e de um suplicante que pede misericórdia. Em ambos os papéis, representava o povo em favor de quem agora intercedia.
Estendeu as mãos, como alguém profundamente tocado pelo que estava prestes a dizer, oferecendo-o a Deus, esperando e, por assim dizer, estendendo as mãos com ardente expectativa para receber uma resposta favorável. Nisso, olhava para Deus como o Senhor e como seu Deus, um Deus de poder, mas também de graça.
III. A fala em si. A rigor, não se pode chamá-la de oração, pois não há nela uma só palavra de petição. Mas, se tomarmos oração em seu sentido mais amplo, ela é a apresentação a Deus de sentimentos piedosos e devotos. E muito devotos, muito piedosos, são os sentimentos que Esdras expressa aqui.
Sua fala é uma confissão penitente do pecado, não do seu próprio pecado (como alguém cuja consciência estivesse pesada pela própria culpa e temesse o próprio perigo), mas do pecado do seu povo.
Ela brota de uma preocupação benevolente pela honra de Deus e pelo bem de Israel. Eis um retrato vivo do arrependimento franco. Observe nessa fala:
- A confissão que faz do pecado e dos fatores que o agravam. Ele insiste neles para comover o próprio coração e o daqueles que se uniram a ele, levando-os a santa tristeza, vergonha e temor ao considerá-los, para que se humilhassem profundamente por isso.
É digno de nota que, embora estivesse inteiramente livre dessa culpa, incluiu a si mesmo entre os pecadores, pois era membro da mesma comunidade: nossos pecados e nossa transgressão.
Talvez se lembrasse agora, como falta sua, de que permanecera tanto tempo na Babilônia depois da partida de seus irmãos e não se separara dos povos daquelas terras tão cedo quanto poderia ter feito.
Quando lamentamos a maldade dos ímpios, talvez, se refletirmos devidamente sobre nós mesmos e permitirmos que nosso coração nos trate com fidelidade, possamos encontrar algo da mesma natureza, embora em grau menor, de que também fomos culpados. Seja como for, ele expressa aquilo que era, ou deveria ter sido, a queixa geral.
(1.) Reconhece que os pecados deles eram muito grandes: “Nossas iniquidades se multiplicaram sobre as nossas cabeças” (v. 6); estamos prestes a perecer nelas, como em águas profundas. Tão generalizado era o domínio desses pecados, tão violento o seu poder e tão ameaçadoras as suas consequências perniciosas.
“A iniquidade cresceu tanto entre nós que chega aos céus; é tão insolente que desafia o céu, tão provocadora que, como o pecado de Sodoma, clama ao céu por vingança.”
Mas seja este o consolo dos verdadeiros penitentes: embora seus pecados cheguem aos céus, a misericórdia de Deus está nos céus, Salmos 36:5. Onde o pecado abunda, a graça abundará muito mais.
(2.) Persistiram longamente no pecado (v. 7): “Desde os dias de nossos pais temos estado em grande transgressão”. Para ele, o exemplo dos que vieram antes, longe de desculpar a falta deles, tornava-a mais grave.
“Deveríamos ter aceitado o aviso para não tropeçar na mesma pedra. A corrupção é tanto pior porque criou raízes profundas e começa a reivindicar o direito da antiguidade; por isso, temos razão para temer que a medida da iniquidade esteja quase cheia.”
(3.) Os grandes e dolorosos juízos que Deus lhes havia trazido por causa dos pecados agravavam muito a culpa deles: por nossas iniquidades fomos entregues à espada e ao cativeiro (v. 7), e ainda assim não nos reformamos nem voltamos atrás; fomos triturados no almofariz e, ainda assim, a insensatez não nos deixou (Provérbios 27:22); fomos corrigidos, mas não voltamos atrás.
(4.) As misericórdias recentes que Deus lhes havia concedido também agravavam muito seus pecados. Esdras se detém bastante nelas, v. 8, 9. Observe:
[1.] O tempo da misericórdia: “Agora, por um breve momento”, isto é, “faz pouco tempo que recebemos nossa liberdade, e não é provável que ela dure muito”. O pecado deles era muito mais grave porque haviam saído tão recentemente da fornalha e não sabiam quão cedo poderiam voltar a ela. Ainda assim, podiam agir despreocupadamente?
[2.] A fonte da misericórdia: “Foi-nos concedida graça da parte do Senhor”. Os reis da Pérsia foram os instrumentos de sua soltura, mas Esdras a atribui a Deus e à sua graça, à sua graça gratuita, sem nenhum mérito da parte deles.
[3.] As correntes da misericórdia: não foram abandonados no cativeiro; mesmo na Babilônia, tiveram sinais da presença de Deus. Restou um remanescente de israelitas, poucos dentre muitos, e estes escaparam por pouco das mãos de seus inimigos, pelo favor dos reis da Pérsia.
Sobretudo, tinham um prego em seu lugar santo, isto é, como se explica no v. 9, haviam levantado a casa de Deus. Sua religião estava estabelecida, e o serviço do templo seguia uma ordem constante. Devemos considerar grande consolo e vantagem ter oportunidades regulares de adorar a Deus.
Bem-aventurados os que habitam na casa de Deus, como Ana, que não se afastava do templo. “Este é o meu repouso para sempre”, diz a alma agraciada.
[4.] Os efeitos de tudo isso. Iluminou-lhes os olhos e reanimou-lhes o coração; isto é, tudo isso lhes trouxe grande consolo, sentido ainda mais intensamente por ocorrer no cativeiro. Para eles, era vida dentre os mortos.
Embora fosse apenas um pequeno reavivamento, era um grande favor, pois não mereciam nenhum; e o dia das pequenas coisas era uma garantia de coisas maiores.
“Agora”, diz Esdras, “quanta ingratidão há em ofendermos um Deus que tem sido tão bondoso conosco! Quanta falta de franqueza em nos mesclarmos no pecado com as nações das quais fomos libertos por maravilhosa misericórdia!”
“Que insensatez nos expormos ao desagrado de Deus quando estamos sendo provados com o retorno do seu favor e precisamos comportar-nos bem para que ele continue!”
(5.) Agravava muito o pecado o fato de contrariar uma ordem expressa: “Abandonamos os teus mandamentos”, v. 10. Parece que não casar com famílias incircuncisas era uma antiga lei da casa de Jacó, Gênesis 34:14. Mas, além disso, Deus o havia proibido rigorosamente. Esdras repete a ordem, v. 11, 12.
Pois o pecado se mostra pecado, torna-se extraordinariamente pecaminoso, quando o comparamos com a lei que ele transgride. Nada poderia ser mais explícito: “Não deis vossas filhas aos filhos deles, nem tomeis as filhas deles para vossos filhos”.
O motivo apresentado é que, se se mesclassem com aquelas nações, se contaminariam. Era uma terra impura, e eles eram um povo santo.
Mas, se se mantivessem separados, isso lhes traria honra e segurança e perpetuaria sua prosperidade. Violar uma ordem tão explícita, apoiada em tais razões e fundamental para sua constituição como povo, provocava muito o Deus do céu.
(6.) Nos juízos que já haviam sofrido por seus pecados, Deus os havia punido menos do que suas iniquidades mereciam. Por isso, Esdras considerava que ainda deviam algo pela conta antiga.
“O quê! E ainda vamos acumular uma nova dívida? Deus nos tratou com tanta brandura ao nos corrigir, e vamos abusar assim do seu favor e transformar sua graça em libertinagem?”
Deus, em sua graça e misericórdia, havia dito a respeito do cativeiro de Sião: “Ela recebeu da mão do Senhor o dobro por todos os seus pecados” (Isaías 40:2).
Mas Esdras, com consciência penitente da grande malignidade do pecado deles, reconheceu que, embora o castigo tivesse sido muito grande, ainda era menor do que mereciam.
- Os sentimentos devotos que atuavam nele ao fazer essa confissão. Ao falar do pecado:
(1.) Fala como alguém profundamente envergonhado. Assim começa (v. 6): “Ó meu Deus! Estou envergonhado e ruborizado, ó meu Deus!” (nessa ordem aparecem as palavras), “para levantar meu rosto a ti”. Repare:
[1.] O pecado é vergonhoso; assim que nossos primeiros pais comeram o fruto proibido, ficaram envergonhados de si mesmos.
[2.] A vergonha santa é um elemento tão necessário ao arrependimento verdadeiro e franco quanto a tristeza santa.
[3.] Os pecados dos outros devem envergonhar-nos, e devemos corar por aqueles que não coram por si mesmos. Podemos com razão nos envergonhar por termos qualquer parentesco com pessoas tão ingratas para com Deus e tão imprudentes quanto a si mesmas. Isso é nos isentarmos dessa culpa, 2 Coríntios 7:11.
[4.] Os pecadores penitentes nunca encontram tanta razão para corar e envergonhar-se quanto quando se apresentam diante de Deus.
O sentimento natural da própria honra, que ferimos, nos fará sentir vergonha de encarar os homens depois de fazermos algo errado. Mas a preocupação piedosa com a honra de Deus nos fará sentir muito mais vergonha de encará-lo.
Quando o publicano foi ao templo para orar, baixou a cabeça mais do que nunca, como alguém envergonhado, Lucas 18:13.
[5.] Ter os olhos postos em Deus como nosso Deus nos será de grande ajuda no exercício do arrependimento. Esdras começa: “Ó meu Deus!”, e, ainda no mesmo fôlego: “Meu Deus”.
A consideração de nossa relação de aliança com Deus, como nosso Deus, nos ajudará a humilhar-nos e a ter o coração quebrantado pelo pecado, pois violamos tanto seus preceitos para nós quanto nossas promessas a ele.
Também nos animará a esperar perdão mediante o arrependimento. “Ele é o meu Deus, apesar disso”; e nem toda transgressão da aliança nos exclui dela.
(2.) Fala como alguém muito espantado (v. 10): “O que diremos depois disso? Quanto a mim, não sei o que dizer; se Deus não nos ajudar, estaremos perdidos.” A descoberta da culpa desperta espanto: quanto mais pensamos no pecado, pior ele nos parece. A dificuldade da situação desperta espanto. Como nos recuperaremos? De que modo faremos as pazes com Deus?
[1.] Os verdadeiros penitentes ficam sem saber o que dizer. Diremos que não pecamos ou que Deus não exigirá contas? Se o dissermos, enganamos a nós mesmos, e a verdade não está em nós.
Diremos que Deus tenha paciência conosco e que lhe pagaremos tudo, com milhares de carneiros ou com nosso primogênito por nossa transgressão? Não se zomba de Deus desse modo; ele sabe que somos insolventes. Diremos que não há esperança e que venha sobre nós o que vier? Isso é apenas piorar o que já está ruim.
[2.] Os verdadeiros penitentes pensarão no que dizer e deverão, como Esdras, pedir a Deus que lhes ensine. O que diremos? Digamos: “Pequei; agi de maneira insensata; Deus, tem misericórdia de mim, pecador”, e coisas semelhantes. Veja Oseias 14:2.
(3.) Fala como alguém muito amedrontado, v. 13, 14. “Todos os juízos vieram sobre nós para nos afastar do pecado, e todos os livramentos foram realizados em nosso favor para nos ligar a Deus e ao dever.”
“Depois disso, se voltássemos a quebrar os mandamentos de Deus, unindo-nos por parentesco aos filhos da desobediência e aprendendo seus caminhos, que mais poderíamos esperar senão que Deus se irasse contra nós até nos consumir, sem que restasse sequer um remanescente, nem alguém que escapasse da destruição?”
Não há prenúncio de ruína mais seguro nem mais triste para um povo do que voltar ao pecado, aos mesmos pecados, depois de grandes juízos e grandes livramentos.
Os que não se deixam transformar nem por uns nem por outros merecem ser rejeitados como prata reprovada, pois o fundidor derrete em vão.
(4.) Fala como alguém plenamente convencido da justiça de Deus e resolvido a aceitá-la e a deixar o assunto nas mãos daquele cujo juízo é conforme a verdade (v. 15): “Tu és justo, sábio, reto e bom; não nos farás injustiça nem serás duro conosco.”
“Por isso, eis que estamos diante de ti; jazemos a teus pés, esperando nossa sentença. Não podemos subsistir diante de ti, alegando qualquer justiça própria, pois não temos alegação que nos sustente ou nos livre. Por isso, caímos diante de ti em nossa transgressão e nos entregamos à tua misericórdia.”
“Faze-nos tudo o que te parecer bem”, Juízes 10:15. Nada temos a dizer nem a fazer, senão suplicar ao nosso Juiz, Jó 9:15. Assim, esse homem bom apresenta sua dor a Deus e depois a deixa com ele.