Esdras 10
Argumento
Neste capítulo, vemos corrigido o agravo de que se queixaram e que lamentaram no capítulo anterior. Observe: I. Como o coração do povo foi preparado para essa correção por sua profunda humilhação pelo pecado, v. 1. II. Como Secanias a propôs a Esdras, vv. 2-4. III. Como a proposta foi posta em prática.
Os líderes juraram apoiá-la, v. 5. 2. Esdras foi o primeiro a agir, v. 6. 3. Convocou-se uma assembleia geral, vv. 7-9. 4. Todos concordaram com a reforma, atendendo à exortação de Esdras, vv. 10-14.
Comissários foram designados para se reunir de die in diem — dia após dia —, investigar quem havia se casado com mulheres estrangeiras e obrigá-los a repudiá-las. Isso foi feito (vv. 15-17), e apresentou-se uma lista dos nomes dos culpados, vv. 18-44.
Versículos 1 a 4
A Reforma de Esdras. (a.C. 456.)
Aqui nos é dito:
I. Que boas impressões a humilhação e a confissão do pecado de Esdras causaram no povo. Mal se espalhou pela cidade a notícia de que seu novo governador, em quem se alegravam, estava profundamente aflito por eles e por seu pecado, uma grande multidão se reuniu em torno dele para saber o que acontecia e juntar suas lágrimas às dele, v. 1.
Nosso choro pelos pecados de outras pessoas pode levar a chorar por seus próprios pecados aqueles que, de outro modo, continuariam insensíveis e sem remorso. Veja a boa influência que os bons exemplos dos grandes podem exercer sobre os que lhes são inferiores.
Quando Esdras, escriba, homem instruído e revestido de autoridade pelo rei, lamentou tão profundamente a corrupção pública, concluíram que ela era de fato muito grave; do contrário, ele não teria sofrido tanto por ela. Isso arrancou lágrimas de todos: homens, mulheres e crianças choraram amargamente quando ele chorou assim.
II. Que boa proposta Secanias fez nessa ocasião. O lugar era Boquim, um lugar de pranto. Mas, pelo que se vê, reinava profundo silêncio entre eles, como entre os amigos de Jó, que não lhe disseram palavra porque viram que sua dor era muito grande.
Então Secanias, um dos companheiros de Esdras vindos da Babilônia (Esdras 8:3, 5), levantou-se e dirigiu-lhe um discurso no qual:
- Reconhece a culpa nacional, resume em uma palavra toda a confissão de Esdras e atesta que ela é verdadeira: “Temos transgredido contra o nosso Deus e tomado mulheres estrangeiras”, v. 2. “A situação é clara demais para ser negada e ruim demais para ser desculpada.”
Não parece que o próprio Secanias fosse culpado nesse assunto. Se tivesse uma trave no próprio olho, não teria visto tão claramente para tirá-la do olho do irmão. Mas seu pai e vários membros da família paterna eram culpados (como mostra o v. 26); por isso, ele se inclui entre os transgressores.
Tampouco procura desculpar ou atenuar o pecado, embora alguns de seus parentes fossem culpados. Na causa de Deus, diz a seu pai que não o conhece, como Levi, Deuteronômio 33:9.
Talvez a estrangeira com quem seu pai se casara tivesse sido uma madrasta injusta e pouco bondosa para ele e causado problemas na família. Talvez supusesse que outras haviam feito o mesmo, o que o tornou ainda mais disposto a se opor a essa corrupção. Nesse caso, não foi a única vez que a providência de Deus se sobrepôs a ressentimentos particulares e os fez servir ao bem público.
- Anima a si mesmo e aos outros com a esperança de que, embora a situação fosse ruim, poderia ser corrigida: “Ainda há esperança em Israel”, mesmo quanto a esse assunto. Onde mais haveria esperança senão em Israel? Diz-se que os estranhos a essa comunidade não têm esperança, Efésios 2:12.
O caso é triste, mas não desesperador; a doença é ameaçadora, mas não incurável. Há esperança de que o povo seja reformado, os culpados recuperados e a propagação do contágio detida. Assim, os juízos merecidos pelo pecado podem ser evitados, e tudo ficará bem.
Agora há esperança: uma vez descoberta a doença, metade da cura já foi alcançada. Agora que o alarme soou, o povo começa a perceber o mal e a lamentá-lo.
Um espírito de arrependimento parece ter sido derramado sobre todos, que assim se humilham diante de Deus por esse pecado. Agora há esperança de que Deus perdoe e tenha misericórdia.
O vale de Acor, isto é, da perturbação, é a porta da esperança (Oseias 2:15), pois o pecado que realmente nos perturba não nos arruinará. Há esperança agora que Israel tem um governador prudente, piedoso e zeloso como Esdras para conduzir esse assunto.
Repare: (1.) Em tempos sombrios, devemos ver e observar tanto o que nos favorece quanto o que nos contraria. (2.) Pela graça, pode haver boas esperanças mesmo quando sentimos grande culpa diante de Deus.
(3.) Onde o pecado é reconhecido e lamentado e se tomam bons passos rumo à reforma, até os pecadores devem ser encorajados. (4.) Até os grandes santos devem receber com gratidão o conselho e o consolo oportunos daqueles que lhes são muito inferiores, como Esdras recebeu os de Secanias.
- Aconselha que se tome uma medida rápida e eficaz para o divórcio das mulheres estrangeiras. O caso é claro: o que foi feito de errado deve ser desfeito, tanto quanto possível. Nada menos que isso é verdadeiro arrependimento. Despeçamos todas as mulheres e os que delas nasceram, v. 3.
Embora soubesse que esse era o único modo de corrigir o agravo, Esdras talvez não o julgasse viável e desesperasse de conseguir que o povo o fizesse. Isso o deixou na perplexidade em que o vimos no capítulo anterior.
Secanias, porém, que convivia mais com o povo do que ele, garantiu-lhe que a medida era praticável, se agissem com sabedoria.
Quanto a nós, hoje, é certo que o pecado deve ser afastado. É preciso dar-lhe carta de divórcio, resolvidos a nunca mais ter qualquer trato com ele, mesmo que seja querido como a mulher de seu peito, ou melhor, como o olho direito ou a mão direita. Caso contrário, não há perdão nem paz.
O que foi obtido injustamente não pode ser mantido com justiça; deve ser restituído. Mas, quanto ao caso de estar em jugo desigual com descrentes, o conselho que Secanias deu então com tanta convicção não vale hoje. É certo que esses casamentos são pecaminosos e não devem ser contraídos, mas não são nulos.
Quod fieri non debuit, factum valet — aquilo que não deveria ter sido feito deve, uma vez feito, permanecer. Nossa regra sob o evangelho é: “Se um irmão tem mulher que não crê e ela consente em morar com ele, não a repudie”, 1 Coríntios 7:12, 13.
- Apresenta-lhes um bom método para realizar essa reforma e lhes mostra não só que ela deve ser feita, mas também como. (1.) “Que Esdras e todos os presentes nesta assembleia concordem em uma resolução de que isso deve ser feito. Votem imediatamente nesse sentido, e a proposta será aprovada nemine contradicente — por unanimidade.”
“Assim se poderá dizer que a medida foi tomada segundo o conselho de meu senhor, presidente da assembleia, com o assentimento unânime dos que tremem diante do mandamento do nosso Deus, descrição dos que se reuniram em torno dele, Esdras 9:4.”
“Declarem que essa é a opinião de todas as pessoas sensatas e sérias entre nós; isso certamente terá grande influência entre os israelitas.”
(2.) “Que o mandamento de Deus nesse assunto, que Esdras recitou em sua oração, seja apresentado ao povo, para que vejam que a medida se toma segundo a lei. Ela nos dá autorização e, mais ainda, nos obriga a fazer o que fazemos. Não é um acréscimo nosso à lei divina, mas sua execução necessária.”
(3.) “Enquanto estamos bem dispostos, comprometamo-nos por voto e aliança solenes a fazê-lo, para que a medida não fique por fazer quando passarem as impressões atuais.”
“Façamos aliança não só para repudiar nossas mulheres estrangeiras, se as tivermos, mas também, caso não as tenhamos, para fazer tudo o que pudermos, cada qual em seu lugar, para obrigar os outros a repudiar as suas.”
(4.) “Que o próprio Esdras presida esse assunto. A comissão do rei lhe dá autoridade para investigar se a lei de Deus é devidamente observada em Judá e Jerusalém (Esdras 7:14). Resolvamos todos apoiá-lo nisso (v. 4): levante-se e tenha bom ânimo. Chorar, nesse caso, é bom; reformar é melhor.” Veja o que Deus disse a Josué em um caso semelhante, Josué 7:10, 11.
III. A boa resolução que tomaram diante dessa boa proposta, v. 5. Eles não apenas concordaram que a medida deveria ser tomada, mas se comprometeram por juramento a agir segundo essa palavra. Compromisso firme, resultado seguro.
Versículos 6 a 14
Temos aqui um relato dos procedimentos adotados em consequência das resoluções recém-tomadas sobre as mulheres estrangeiras. Não perderam tempo: malharam o ferro enquanto estava quente e logo puseram em movimento as engrenagens da reforma.
- Esdras foi à sala do conselho, onde provavelmente os sacerdotes costumavam se reunir para tratar dos assuntos públicos.
Até chegar ali (assim o bispo Patrick entende que o texto deve ser lido), até ver que algo fora feito e que mais provavelmente seria feito para corrigir esse agravo, não comeu nem bebeu, mas continuou de luto.
A tristeza pelo pecado deve ser duradoura; cuide para que continue até que o pecado seja afastado.
- Mandou que todos os filhos do cativeiro se apresentassem a ele em Jerusalém dentro de três dias (v. 7, 8). Como tinha autoridade do rei para impor suas ordens mediante penalidades (Esdras 7:26), ameaçou confiscar os bens de quem desobedecesse à convocação e excluí-lo da comunidade.
A sentença de quem não comparecesse a essa ocasião religiosa seria que seus bens, em seu lugar, seriam destinados para sempre ao serviço da religião. Ele próprio, por seu desprezo, seria excluído para sempre das honras e dos privilégios da religião; seria excomungado.
- Dentro do prazo estabelecido, a maior parte do povo se reuniu em Jerusalém e compareceu à praça da casa de Deus, v. 9.
Mesmo os que não tinham zelo pela obra para a qual haviam sido convocados, e talvez até a desaprovassem por serem eles próprios infratores, respeitaram a autoridade de Esdras e ficaram tão intimidados pela penalidade que não ousaram faltar.
- Deus lhes deu um sinal de seu desagrado na forte chuva que caiu naquela ocasião (v. 9 e novamente v. 13). Talvez ela tenha impedido alguns de comparecer e foi muito penosa para os que se reuniram na praça a céu aberto.
Quando choraram, os céus também choraram. Isso indicava que, embora Deus estivesse irado com eles por seu pecado, estava satisfeito com seu arrependimento e, como se diz em Juízes 10:16, “sua alma se entristeceu por causa da miséria de Israel”.
Também indicava os bons frutos do arrependimento deles, pois a chuva torna a terra fértil.
- Esdras apresentou a acusação nessa grande sessão de julgamento. Explicou por que os havia convocado: desde o retorno do cativeiro, haviam aumentado a transgressão de Israel ao se casar com mulheres estrangeiras. Aos antigos pecados haviam acrescentado essa nova transgressão, que certamente voltaria a introduzir a idolatria.
Era precisamente o pecado pelo qual haviam sofrido e do qual ele esperava que o cativeiro os tivesse curado. Ele os havia convocado para que confessassem seu pecado a Deus e, depois disso, declarassem estar prontos e dispostos a fazer a vontade dele, conforme lhes fosse revelada.
Todos os que verdadeiramente se arrependem do que fizeram para provocar o desagrado de Deus agirão assim. Esdras queria, em especial, que se separassem de todos os idólatras, sobretudo das mulheres idólatras com quem se haviam casado, v. 10, 11.
Podemos supor que se estendeu sobre esses pontos e provavelmente fez outra confissão do pecado semelhante à que havia feito em Esdras 9, à qual exigiu que respondessem amém.
- O povo se submeteu não apenas à jurisdição de Esdras em geral, mas também à sua investigação e decisão nesse assunto: “Assim como disseste, assim devemos fazer”, v. 12. “Pecamos ao nos mesclar com os pagãos. Com isso, corremos o risco não só de ser corrompidos por eles, pois somos frágeis, mas também de desaparecer entre eles, pois somos poucos.”
“Estamos, portanto, convencidos da absoluta necessidade de voltar a nos separar deles.” Há esperança para um povo quando está convencido não apenas de que é bom abandonar seus pecados, mas de que isso é indispensável: precisamos fazê-lo ou estaremos perdidos.
- Concordou-se em conduzir o assunto não numa assembleia popular nem com a expectativa de resolvê-lo todo de uma vez, mas por meio de um tribunal de delegados designados para receber denúncias, ouvi-las e julgá-las.
Não era possível fazê-lo naquele momento, pois ainda não havia um método definido, e o povo não conseguia permanecer ao ar livre por causa da chuva. Os infratores eram muitos, e descobri-los e examiná-los levaria tempo. Surgiriam casos delicados, que não poderiam ser julgados sem discussão e ponderação, v. 13.
“Portanto, que a multidão seja dispensada e que os líderes permaneçam para receber as informações. Que avancem cidade por cidade, e que os infratores sejam declarados culpados perante eles, na presença dos juízes e dos anciãos de sua própria cidade. Que a eles se confie a execução das ordens.”
“Assim, se tomarmos o tempo necessário, terminaremos mais cedo; se agirmos às pressas, faremos o serviço pela metade, v. 14. Se por esse método se fizer uma reforma completa, a cólera feroz de Deus se desviará de nós, pois sabemos que está prestes a irromper contra nós por essa transgressão.”
Esdras aceitou que seu zelo fosse guiado pela prudência do povo e submeteu o assunto a esse método. Não teve vergonha de reconhecer que o conselho partira deles, assim como não teve vergonha de segui-lo.
Versículos 15 a 44
Definido o método de proceder nesse assunto e dispensada a congregação, para que cada um, em seu lugar, pudesse obter e transmitir informações que facilitassem a tarefa, aqui nos é dito:
- Quem se encarregou de conduzir o assunto e apresentar regularmente os casos aos comissários: Jônatas e Jaazias, dois homens diligentes. Não se sabe se eram sacerdotes ou do povo.
Provavelmente foram eles que fizeram a proposta (v. 13, 14) e, por isso, eram os mais aptos a acompanhar sua execução. Dois levitas honestos se uniram a eles e os ajudaram, v. 15.
O dr. Lightfoot dá a isso o sentido contrário: somente (ou contudo) Jônatas e Jaazias se opuseram a esse assunto — leitura que o original admite muito bem —, e os dois levitas os ajudaram na oposição, fosse à medida em si, fosse ao método de executá-la. Seria estranho que uma obra desse tipo avançasse sem encontrar oposição.
- Quem eram os comissários que julgaram esse assunto. Esdras era o presidente e tinha consigo alguns chefes de famílias, qualificados para esse serviço com sabedoria e zelo maiores que os de outros, v. 16.
Foi uma felicidade terem um homem como Esdras para liderá-los. Não poderiam ter feito bem o trabalho sem sua direção; ele, porém, não quis realizá-lo sem o acordo deles.
- Quanto tempo levaram. Começaram a examinar o assunto no primeiro dia do décimo mês (v. 16), apenas dez dias depois de proposto o método (v. 9), e terminaram em três meses, v. 17. Reuniram-se assiduamente e se concentraram no trabalho; de outro modo, não teriam resolvido tantos casos em tão pouco tempo.
Pois podemos supor que a todos os acusados se perguntou com justiça que razão poderiam apresentar para não se separarem de suas mulheres. E, a julgar por outros casos, se a mulher tivesse se convertido à religião judaica, não deveria ser repudiada. Verificar isso exigiria grande cuidado.
- Quem foram os culpados desse crime. Seus nomes estão registrados aqui para seu descrédito perpétuo. Muitos sacerdotes, até membros da família de Jesua, o sumo sacerdote, foram considerados culpados (v. 18).
A lei, porém, havia disposto especialmente, para preservar a honra dos sacerdotes em seus casamentos, que, sendo eles próprios santos, não se casassem com mulheres profanas, Levítico 21:7.
Os que deveriam ensinar a lei aos outros a violaram e, por seu exemplo, encorajaram outros a fazer o mesmo. Mas, depois de perderem a inocência nesse assunto, fizeram bem em se retratar e dar exemplo de arrependimento.
Comprometeram-se por escrito a repudiar suas mulheres estrangeiras. Alguns entendem que juraram fazê-lo com as mãos levantadas.
Também seguiram o meio prescrito para obter perdão, trazendo o carneiro determinado pela lei para a oferta pela culpa (Levítico 6:6). Assim reconheceram sua culpa e o castigo que mereciam e pediram humildemente perdão.
Ao todo, cerca de 113 pessoas que se haviam casado com mulheres estrangeiras são nomeadas aqui. Diz-se que algumas delas (v. 44) tiveram filhos com essas mulheres. Isso sugere que poucas os tiveram, pois Deus não coroou aqueles casamentos com a bênção da descendência.
Não está claro se os filhos foram mandados embora com as mães, como Secanias propôs; parece que não. Seja como for, é provável que as mulheres repudiadas tenham recebido provisão adequada à sua posição.
Poderíamos pensar que esse agravo havia sido inteiramente corrigido. Contudo, voltamos a encontrá-lo (Neemias 13:23 e Malaquias 2:11), pois corrupções como essa entram fácil e imperceptivelmente, mas só com grande dificuldade são novamente eliminadas.
Os melhores reformadores só podem fazer o que está ao seu alcance. Quando, porém, o próprio Redentor vier a Sião, ele afastará eficazmente a impiedade de Jacó.