Matthew Henry

Esdras 8

Argumento

Este capítulo apresenta um relato mais pormenorizado da viagem de Esdras a Jerusalém, da qual tivemos uma visão geral no capítulo anterior.

I. O grupo que subiu com ele, vv. 1-20. II. O jejum solene que observou com seus companheiros para implorar a presença de Deus durante a viagem, vv. 21-23. III. Seu cuidado com o tesouro que levava e as instruções dadas aos sacerdotes a quem o confiou, vv. 24-30.

IV. O cuidado que Deus teve dele e de seus companheiros pelo caminho, v. 31. V. Sua chegada segura a Jerusalém. Ali entregaram o tesouro aos sacerdotes (vv. 32-34), entregaram suas comissões aos representantes do rei (v. 36), ofereceram sacrifícios a Deus (v. 35) e então se dedicaram aos seus assuntos.

Versículos 1 a 20

A Viagem de Esdras e de Outros. (a.C. 457.)

Depois de receber sua autorização do rei, Esdras convoca voluntários, por assim dizer. Ergue um estandarte para reunir os desterrados de Israel e os dispersos de Judá, Isaías 11:12.

“Quem dentre os filhos de Sião, que habitam entre as filhas da Babilônia, estiver disposto a ir a Jerusalém, agora que o templo ali está concluído e o serviço do templo começou, esta é a sua hora.”

Seria de esperar que, com tal líder e tamanho incentivo, todos os judeus enfim se sacudissem do pó e soltassem as amarras do pescoço, conforme a convocação de Isaías 52:1, 2 e seguintes. Espanta-me que alguém pudesse ler aquele capítulo e ainda ficar para trás. Mas multidões ficaram.

Preferiram a comodidade à sua religião, julgaram-se bem onde estavam e ou não acreditaram que Jerusalém melhoraria sua condição, ou não ousaram enfrentar as dificuldades da viagem. Aqui, porém, lemos:

I. Alguns se ofereceram espontaneamente para acompanhar Esdras. Os chefes das diversas famílias são citados pelo nome, para sua honra, bem como o número de homens que cada um trouxe: 1.496 ao todo.

Dois sacerdotes são mencionados (v. 2) e um descendente de Davi. Ao que parece, porém, vieram sem as famílias, talvez pretendendo avaliar se gostariam de Jerusalém e então mandar buscá-las ou voltar para junto delas, conforme julgassem melhor.

Várias famílias ou clãs aqui citados já apareceram em Esdras 2. Alguns deles subiram naquela ocasião; outros subiram agora, conforme Deus inclinou o coração de cada um. Uns foram chamados à vinha na terceira hora; outros, só na décima primeira, mas nem estes foram rejeitados.

Lemos, porém, sobre os últimos filhos de Adonicão (v. 13). Alguns entendem isso como censura, por terem sido os últimos a alistar-se com Esdras. Prefiro entendê-lo como elogio: agora todos os filhos daquela família voltaram, sem deixar ninguém para trás.

II. Os levitas que acompanharam esse grupo praticamente tiveram de ser recrutados à força. Esdras marcou uma reunião geral de seus companheiros num lugar determinado, no dia do ano-novo, o primeiro dia do primeiro mês, Esdras 7:9.

Ali os examinou e contou e, para sua surpresa, não encontrou nenhum dos filhos de Levi, v. 15. Havia alguns sacerdotes, mas nenhum outro levita.

Onde estava o espírito daquela tribo sagrada? Esdras, sacerdote como Moisés, proclama: “Quem é do lado do Senhor?”. Eles, diferentes de Levi, recuam e desejam permanecer entre os currais para ouvir o balido do rebanho.

Supomos que tivessem sinagogas na Babilônia, onde oravam, pregavam e guardavam os sábados. Quando não tinham coisa melhor, tinham razão para ser gratos por elas. Mas agora que o templo de Jerusalém estava aberto — templo para cujo serviço haviam sido ordenados —, deveriam ter preferido as portas de Sião a todas aquelas sinagogas.

Isso fica registrado aqui para sua vergonha; mas não se conte em Gate. Ao notar que não havia levitas em seu séquito, Esdras ficou muito embaraçado.

Tinha dinheiro suficiente para o serviço do templo, mas faltavam-lhe homens. O rei e os príncipes haviam feito mais do que sua parte; os filhos de Levi não haviam feito nem a metade da deles.

Esdras escolheu onze homens de seu grupo — homens de destaque e entendimento — para preencher essa lamentável falta. Aqui somos informados:

  1. De sua missão. Esdras os enviou ao lugar apropriado, Casifia, onde havia uma comunidade de levitas. Talvez fosse uma rua ou praça da Babilônia destinada a esse fim; poderíamos chamá-la Rua da Prata, pois ceseph significa prata.

Enviou-os à pessoa adequada, Ido, o principal dirigente daquela comunidade. Não queria insistir que ele próprio viesse — suponhamos que fosse velho e incapaz de enfrentar tal mudança —, mas que mandasse alguns dos mais jovens, ministros para a casa de nosso Deus, v. 17.

Prover a casa de Deus de bons ministros é uma boa obra que traz conforto e honra a todos os que dela participam.

  1. De seu êxito. Não voltaram de mãos vazias: apesar do pouco tempo de aviso, trouxeram cerca de quarenta levitas para acompanhar Esdras. Serebias, conhecido como homem de grande entendimento, veio com mais dezoito (v. 18); Hasabias e Jesaías vieram com mais vinte, v. 19.

Isso mostra que os levitas não eram contrários a ir; eram preguiçosos e desatentos, precisando apenas que alguém os chamasse e os animasse. Que pena que homens bons deixem de realizar uma boa obra simplesmente porque ninguém lhes falou! Que pena que precisem ser chamados! E, se precisam, que pena que ninguém os chame!

Entre os netineus, auxiliares daquela comunidade sagrada, a species infima — a ordem mais baixa dos ministros do templo —, mais pessoas se mostraram dispostas a ir do que entre os próprios levitas. Desses, 220 responderam ao chamado apressado e tiveram a honra de ser registrados pelo nome na lista de Esdras, v. 20.

“Assim”, diz Esdras, “fomos providos de levitas pela boa mão de nosso Deus sobre nós”. Se, onde faltavam ministros, as vagas são bem preenchidas, deem a Deus a glória. Reconheçam que sua boa mão os capacita para o serviço, inclina-os a ele e lhes abre uma oportunidade.

Versículos 21 a 23

O Jejum de Esdras. (a.C. 457.)

Esdras conseguira levitas para acompanhá-lo. Mas de que lhe valeria isso se Deus não estivesse com ele? Essa é, portanto, sua principal preocupação. Devemos reconhecer Deus em todos os nossos caminhos, especialmente naqueles em que buscamos promover os interesses de seu reino entre os homens. Esdras faz isso aqui. Observe:

I. A firme confiança que tinha em Deus e em sua graciosa proteção. Disse ao rei (v. 22) os princípios que o guiavam: os que buscam a Deus estão seguros à sombra de suas asas, mesmo nos maiores perigos; os que o abandonam ficam continuamente expostos, ainda quando estão mais seguros.

Os servos de Deus têm o poder divino empenhado em favor deles; os inimigos de Deus têm esse poder empenhado contra si. Esdras cria nisso de coração e o confessou diante do rei.

Por essa razão, teve vergonha de pedir-lhe uma escolta, para não dar ao rei e aos que o cercavam motivo para duvidar do poder de Deus para socorrer seu povo, ou da confiança de Esdras nesse poder.

Os que confiam em Deus e se gloriam nele sentirão vergonha de buscar proteção numa criatura, sobretudo de recorrer a expedientes indignos para garantir a própria segurança. Agindo assim, contradiriam a si mesmos e a confiança que professam.

Isso não significa que quem depende de Deus deva deixar de usar os meios adequados para se preservar, nem que precise envergonhar-se de usá-los. Quando, porém, está em jogo a honra de Deus, é melhor expor-se a um perigo do que prejudicar essa honra, que deve ser mais preciosa para nós do que a própria vida.

II. A solene súplica que dirigiu a Deus nessa confiança: proclamou um jejum, v. 21. Sem dúvida, desde a primeira vez que pensou no empreendimento, pedira pessoalmente a orientação de Deus. Mas, para obter misericórdias públicas, é preciso fazer orações públicas, a fim de que todos os que participarão de seu conforto também participem do pedido.

Seu jejum tinha dois objetivos. 1. Expressar a humilhação. É isso que Esdras declara ser sua intenção: “afligir-nos diante de nosso Deus” por nossos pecados e, assim, preparar-nos para receber o perdão. Ao entrar numa nova condição de vida, devemos cuidar para não levar conosco a culpa dos pecados da condição anterior.

Quando enfrentamos um perigo iminente, tratemos de fazer as pazes com Deus. Então estaremos seguros: nada nos poderá causar dano verdadeiro.

  1. Estimular suas súplicas. A oração sempre acompanhava o jejum religioso. Foram ao trono da graça pedir a Deus o caminho certo. Queriam entregar-se à direção da providência divina, pôr-se sob sua proteção e suplicar-lhe que os guiasse e guardasse na viagem, conduzindo-os em segurança ao destino.

Não conheciam o caminho, teriam de atravessar terras de inimigos e não possuíam uma coluna de nuvem e fogo para guiá-los, como tiveram seus pais. Mas criam que o poder e o favor de Deus, junto com o serviço de seus anjos, ocupariam para eles o lugar daquela coluna. Esperavam obter auxílio divino por meio da oração.

Repare: em tudo que diz respeito a nós, nossas famílias e nossos bens, é sábio e nosso dever entregar o assunto a Deus em oração e deixar o cuidado em suas mãos, Filipenses 4:6.

III. O bom resultado de agirem assim (v. 23): “Suplicamos a nosso Deus”, em oração conjunta, e “ele nos atendeu”. Tiveram no coração uma consoladora certeza de que suas orações foram respondidas, e os acontecimentos o confirmaram. Pois ninguém que buscou sinceramente a Deus jamais o buscou em vão.

Versículos 24 a 30

O Cuidado de Esdras com o Tesouro do Templo. (a.C. 457.)

Temos aqui o relato do cuidado especial de Esdras com o tesouro do santuário de Deus que levava consigo. Observe:

  1. Depois de confiar sua guarda a Deus, confiou-a também a homens apropriados, cujo dever era vigiá-lo, embora sem Deus tivessem vigiado em vão. Repare: nossas orações devem sempre ser acompanhadas de nossos esforços.

Não devemos deixar o cuidado do evangelho de Cristo, de sua igreja e de suas ordenanças somente com ele; é preciso confiá-lo também a homens fiéis, 2 Timóteo 2:2.

  1. Após pedir a Deus que preservasse todos os bens que levavam, mostrou especial preocupação com a parte pertencente à casa de Deus e oferecida a ele.

Esperamos que Deus, por sua providência, guarde o que nos pertence? Então guardemos, por sua graça, o que pertence a ele. Se a honra e os interesses de Deus forem nosso cuidado, poderemos esperar que nossa vida e nosso bem-estar sejam cuidados por ele. Observe:

(1.) As pessoas a quem entregou as ofertas da casa de Deus. Escolheu doze sacerdotes principais e igual número de levitas para essa responsabilidade (v. 24, 30). Pelo ofício, tinham o dever de cuidar das coisas de Deus e seriam especialmente beneficiados por aqueles tesouros sagrados.

Esdras explicou-lhes por que lhes entregava os objetos (v. 28): “Vocês são santos ao Senhor; os utensílios também são santos”. Quem é mais apto a cuidar de coisas santas do que pessoas santas? Os que recebem a dignidade e a honra do sacerdócio devem assumir também sua responsabilidade e seus deveres.

O profeta anuncia o retorno do povo e dos ministros de Deus da Babilônia quando lhes dá esta ordem solene (Isaías 52:11): “Sejam limpos os que levam os utensílios do Senhor”.

(2.) A grande precisão com que lhes confiou os bens. Pesou a prata, o ouro e os utensílios antes de entregá-los (v. 25), porque esperava recebê-los de volta também por peso. Em toda responsabilidade, sobretudo na que envolve coisas sagradas, devemos ser exatos e manter um entendimento correto entre ambas as partes.

No tempo de Zorobabel, os utensílios foram entregues por número; aqui, por peso. Assim, tudo deveria ser apresentado de novo, e seria fácil perceber se algo faltasse. Isso lembra aos que recebem coisas santas — como todos os administradores dos mistérios de Deus — que logo terão de prestar contas muito pormenorizadas.

Devem lembrar-se disso tanto ao receber quanto ao cumprir sua responsabilidade, para serem fiéis e, assim, prestarem contas com alegria.

(3.) As instruções que lhes deu com aqueles tesouros (v. 29): vigiem-nos e guardem-nos, para que não se percam, não sejam desviados nem se misturem aos demais objetos. Mantenham-nos reunidos; mantenham-nos separados; mantenham-nos em segurança até pesá-los no templo diante dos homens de destaque dali.

Com isso, Esdras indicava quanto lhes convinha ser cuidadosos e fiéis e quanta honra haveria em demonstrar tal fidelidade.

Do mesmo modo, quando Paulo confia a Timóteo o tesouro do evangelho, manda que o guarde até a manifestação de Jesus Cristo. Então Timóteo comparecerá diante dele para prestar contas do depósito recebido, e sua fidelidade será sua coroa.

Versículos 31 a 36

A Chegada de Esdras a Jerusalém. (a.C. 457.)

Acompanhemos agora Esdras até Jerusalém. A viagem durou cerca de quatro meses ao todo, mas o grande número de pessoas tornava lentas as marchas e curtas as etapas. Aqui nos é dito:

I. Que seu Deus foi bom, e Esdras reconheceu sua bondade: “A mão de nosso Deus estava sobre nós”, para nos animar naquela empreitada. Deviam a ele:

  1. Terem sido preservados na viagem, sem que todos fossem mortos. Havia inimigos à espreita pelo caminho para lhes fazer mal ou, pelo menos, como Amaleque, atacar os que ficavam para trás. Deus, porém, os protegeu, v. 31.

Até os perigos comuns das viagens nos obrigam a santificar a partida com oração e o retorno em paz com louvor e ações de graças. Quanto mais devemos reconhecer Deus numa expedição tão perigosa como essa!

  1. Terem chegado em segurança ao destino, v. 32. Os que puseram firmemente o rosto em direção à nova Jerusalém prossigam e perseverem até o fim, até comparecerem diante de Deus em Sião. Descobrirão que aquele que começou a boa obra a completará.

II. Que os tesoureiros foram fiéis. Ao chegarem a Jerusalém, tinham pressa de ser dispensados da responsabilidade. Por isso, dirigiram-se aos homens de destaque do templo, que receberam os bens e lhes deram plena quitação, v. 33, 34.

É um grande alívio para a mente ser dispensado de uma responsabilidade, e uma grande honra para o próprio nome poder demonstrar que ela foi cumprida fielmente.

III. Que os companheiros de Esdras eram devotos. Assim que chegaram perto do altar, sentiram-se obrigados a oferecer sacrifícios, fosse o que fosse que tivessem feito na Babilônia, v. 35. Isso é dispensado quando nos falta oportunidade; quando a porta se abre novamente, porém, espera-se que o façamos. Observe:

  1. Entre os sacrifícios havia uma oferta pelo pecado. É a expiação que torna cada misericórdia doce e segura para nós. Nenhuma misericórdia será verdadeiramente consoladora se a iniquidade não for removida e nossa paz com Deus não for estabelecida.

  2. O número das ofertas correspondia ao número das tribos: doze bois, doze bodes e noventa e seis carneiros — isto é, oito vezes doze. Isso indicava a união dos dois reinos, segundo a profecia de Ezequiel 37:22.

Já não seguiam duas tribos por um caminho e dez por outro; representantes de todas as doze se reuniam diante do mesmo altar.

IV. Que até os inimigos dos judeus se tornaram seus amigos. Acataram a autorização de Esdras e, em vez de impedir o povo de Deus, ajudaram-no (v. 36), apenas para agradar ao rei. Quando ele se mostrou moderado, todos também quiseram parecer moderados. Então as igrejas tiveram descanso.


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