Esdras 6
Argumento
Lemos em Esdras 3 com quanta solenidade foram lançados os alicerces do templo. Vimos em Esdras 4 e 5 como a construção avançou lentamente e com grande dificuldade. Neste capítulo, porém, vemos como a pedra de remate foi enfim colocada gloriosamente, em meio a aclamações.
Até nós, a tantos séculos de distância, podemos exclamar ao ler esse relato: “Graça, graça a ela!” Quanto a Deus, sua obra é perfeita; pode ser uma obra lenta, mas será uma obra segura.
Temos aqui: I. A repetição do decreto de Ciro para a construção do templo, vv. 1-5. II. O reforço desse decreto por uma nova ordem de Dario para concluir a obra, vv. 6-12. III. A conclusão da obra em consequência disso, vv. 13-15.
IV. A dedicação solene do templo depois de construído (vv. 16-18) e sua primeira utilização, por assim dizer, com a celebração da Páscoa, vv. 19-22. Agora podemos dizer que as coisas iam bem, muito bem, em Judá e Jerusalém.
Versículos 1 a 12
O Decreto Favorável de Dario. (a.C. 519.)
Temos aqui: I. A repetição do decreto de Ciro para a construção do templo. Os samaritanos se referiram a ele porque os judeus o invocavam e talvez esperassem que não fosse encontrado. Nesse caso, a alegação dos judeus seria rejeitada e a obra, interrompida.
Ordenou-se uma busca nos arquivos, pois, ao que parece, as tribos não haviam providenciado uma cópia autêntica do decreto, que lhes teria sido muito útil; precisavam recorrer ao original. Procuraram-no na Babilônia (v. 1), onde Ciro estava quando o assinou.
Quando não o encontraram ali, Dario não alegou que a ausência do decreto ali provasse que ele nunca existira, nem decidiu por isso contra os judeus. É provável que já tivesse ouvido falar com certeza da existência do decreto e mandasse procurar os rolos em outros lugares.
Por fim, encontraram-no em Acmeta, na província dos medos, v. 2. Talvez alguns que não ousavam destruí-lo o tivessem escondido ali por hostilidade aos judeus, para que eles perdessem o benefício do decreto. Mas a Providência dispôs as coisas de modo que ele viesse à luz; seu texto aparece aqui, vv. 3-5.
Há uma autorização para construir o templo: que a casa de Deus em Jerusalém, sim, que aquela casa seja construída, como também se pode ler, dentro de tais dimensões e com tais materiais.
Há uma autorização para pagar as despesas da construção com a receita do rei, v. 4. Não encontramos indicação de que tenham recebido o que lhes foi ordenado aqui, pois a situação na corte logo mudou.
Há uma autorização para devolver os vasos e utensílios do templo que Nabucodonosor havia levado (v. 5), com a ordem de que os sacerdotes, ministros do Senhor, devolvessem todos eles aos seus lugares na casa de Deus.
II. A confirmação do decreto de Ciro por outro decreto de Dario, fundamentado no primeiro e emitido para cumpri-lo:
- O decreto de Dario é muito explícito e satisfatório:
(1.) Proíbe que seus oficiais façam qualquer coisa contra a construção do templo. O modo de falar sugere que ele sabia que pretendiam atrapalhá-la: que se afastem dali (v. 6) e “Deixai em paz a obra desta casa de Deus”, v. 7. Assim, a cólera do inimigo foi levada a louvar a Deus, e ele conteve o que dela restou.
(2.) Ordena-lhes que ajudem os construtores com dinheiro de sua própria receita. [1.] Para dar prosseguimento à construção, v. 8. Nisso segue o exemplo de Ciro, v. 4. [2.] Para sustentar os sacrifícios ali depois de construído o templo, v. 9.
Ordenou que lhes fornecessem tudo de que precisassem tanto para holocaustos quanto para ofertas de cereais. Aceitou que isso fosse um encargo permanente sobre sua receita e ordenou o pagamento diário, sem falta.
Assim, os sacerdotes poderiam oferecer sacrifícios e, com eles, orações, pois os patriarcas invocavam o nome do Senhor quando sacrificavam; Samuel, Elias e outros faziam o mesmo. Orariam pela vida, isto é, pela felicidade e prosperidade, do rei e de seus filhos, v. 10.
Veja aqui como ele presta honra: primeiro, ao Deus de Israel, a quem chama mais de uma vez de Deus do céu; segundo, aos ministros desse Deus, ao ordenar que seus representantes forneçam recursos para o serviço do templo conforme a determinação dos sacerdotes.
Os que pretendiam controlar os sacerdotes agora deviam obedecer-lhes nesse assunto. Era novidade os sacerdotes de Deus terem tamanho acesso ao dinheiro público.
Terceiro, Dario presta honra à oração: para que orem pela vida do rei. Sabia que eram um povo de oração e ouvira que Deus estava perto deles em tudo quanto lhe pediam. Percebia que precisava de suas orações e podia beneficiar-se delas; tratou-os com bondade para conquistar um lugar em suas orações.
O povo de Deus tem o dever de orar pelos que exercem autoridade sobre ele, não só pelos bons e bondosos, mas também pelos obstinados. Em especial, a gratidão o obriga a orar por seus protetores e benfeitores; é sábio da parte dos príncipes desejar essas orações e procurar obtê-las.
Que nem os maiores príncipes desprezem as orações dos santos mais humildes. É desejável tê-las em nosso favor e terrível tê-las contra nós.
(3.) Dario reforça seu decreto com uma pena (v. 11): ninguém deve opor-se à obra e ao serviço do templo nem reter o auxílio que a coroa lhe concedeu, sob pena de morte.
Se alguém alterar o decreto, será enforcado numa viga da própria casa, como dizemos, diante da própria porta, e sua casa, como a de um homem execrável, será transformada em monturo.
(4.) Impõe uma maldição divina a todos os reis e povos que algum dia participarem da destruição dessa casa, v. 12. O que não faria pessoalmente para proteger o templo, desejava que Deus, a quem pertence a vingança, fizesse. Isso mostra seu zelo pela causa.
Embora esse templo tenha sido, por fim, destruído com toda a justiça pela mão justa de Deus, talvez os romanos, instrumentos daquela destruição, tenham sentido os efeitos dessa maldição, pois seu império entrou em visível declínio depois disso.
- Aprendemos com tudo isso: (1.) Que o coração dos reis está na mão de Deus, e ele o dirige para onde lhe agrada. Deus os faz ser o que são, pois é Rei dos reis.
(2.) Que, quando chegar o tempo de Deus realizar seus propósitos de graça para com a igreja, ele levantará para promovê-los pessoas de quem não se esperava tal serviço. Às vezes a terra ajuda a mulher (Apocalipse 12:16), e pessoas com pouca religião são usadas na defesa da religião.
(3.) Que aquilo que se planeja para prejudicar a igreja muitas vezes se torna útil a ela pela providência de Deus, que se sobrepõe aos planos humanos, Filipenses 1:12.
Os inimigos dos judeus apelaram a Dario esperando obter uma ordem para reprimi-los; em vez disso, receberam uma ordem para ajudá-los. Assim, do comedor sai alimento.
O livro apócrifo de Esdras (ou Ezra), Livro I, capítulos 3 e 4, apresenta outro relato desse decreto favorável aos judeus. Segundo ele, Dario havia feito o voto de que, se algum dia chegasse ao trono, construiria o templo em Jerusalém.
Zorobabel, que seria um de seus servidores, embora aqui esteja claro que estava em Jerusalém, teria feito diante dele um discurso engenhoso sobre o tema: grande é a verdade e prevalecerá. Dario então o convidou a pedir a recompensa que quisesse, e Zorobabel pediu somente essa ordem, em cumprimento do voto do rei.
Versículos 13 a 22
A Conclusão do Segundo Templo. (a.C. 516.)
Temos aqui: I. Os inimigos dos judeus transformados em seus amigos. Ao receberem a ordem do rei, apressaram-se tanto a animar e ajudar a obra quanto seus predecessores haviam se apressado a interrompê-la, Esdras 4:23.
Fizeram o que o rei ordenara e, para não parecerem relutantes, agiram depressa, v. 13. A moderação do rei os levou, contra sua própria inclinação, a também ser moderados.
II. A construção do templo levada adiante e concluída em pouco tempo, v. 14, 15. Os anciãos dos judeus construíam agora com alegria. Pelo que sei, talvez tenham trabalhado pessoalmente com as próprias mãos. Se o fizeram, isso não diminuiu sua dignidade de anciãos; antes, animou os outros trabalhadores.
Sentiam-se obrigados a trabalhar pelo mandamento do Deus de Israel, que lhes dera poder para que o empregassem em seu serviço.
Sentiam-se envergonhados e compelidos a trabalhar pelo mandamento dos reis pagãos: Ciro antes, Dario agora e Artaxerxes algum tempo depois. Poderiam os anciãos dos judeus ser negligentes nessa boa obra quando esses príncipes estrangeiros se mostravam tão dedicados a ela?
Os israelitas nativos relutariam em dedicar esforço e cuidado à construção, quando estrangeiros não relutavam em custeá-la?
- Sentiam-se animados a trabalhar pela pregação profética de Ageu e Zacarias. É provável que eles lhes apresentassem, como sugere o bispo Patrick, a maravilhosa bondade de Deus ao inclinar o coração do rei da Pérsia a favorecê-los desse modo.
A obra avançou então tão bem que foi concluída em quatro anos. Quanto a Deus, sua obra é perfeita. A igreja do evangelho, esse templo espiritual, demora a ser construída, mas será concluída por fim, quando o corpo místico estiver completo.
Cada crente é um templo vivo e edifica a si mesmo na sua fé santíssima. Satanás e nossa própria corrupção opõem muita resistência a essa obra. Nós a tratamos com descuido e avançamos com muitas interrupções e pausas.
Mas aquele que começou a boa obra cuidará de levá-la a termo e levará o juízo à vitória. Os espíritos dos justos serão aperfeiçoados.
III. A dedicação do templo. Como havia sido construído com o desígnio de servir apenas a usos sagrados, mostraram por um exemplo como deveria ser usado. Esse, diz o bispo Patrick, é o sentido próprio da palavra dedicar.
Inauguraram-no com solenidade e provavelmente com uma declaração pública de que o separavam dos usos comuns e o entregavam à honra de Deus, para ser empregado em sua adoração.
- Participaram desse serviço não apenas os sacerdotes e levitas que oficiaram, mas também os filhos de Israel, alguns de cada uma das doze tribos, embora Judá e Benjamim predominassem, e os demais filhos do cativeiro ou da deportação.
Isso sugere que, além dos filhos de Israel, havia muitas pessoas de outras nações que migraram com eles e se tornaram prosélitos da sua religião. A menos que leiamos: até mesmo o remanescente dos filhos do cativeiro.
Nesse caso, podemos supor que o texto chama a atenção para sua condição humilde e aflita, pois pensar nela os ajudava a agir com devoção e seriedade nesse e em outros exercícios religiosos.
Que triste mudança! Os filhos de Israel se tornaram filhos do cativeiro, e deles só parece restar um remanescente, conforme a predição (Isaías 7:3): Sear-Jasube, “O remanescente voltará”.
- Os sacrifícios oferecidos nessa ocasião foram novilhos, carneiros e cordeiros (v. 17), como holocaustos e ofertas pacíficas. Não se comparavam, em número, aos oferecidos na dedicação do templo de Salomão; mas, por serem proporcionais às possibilidades atuais do povo, foram aceitos.
Depois de uma grande prova de aflição, a abundância de sua alegria e sua profunda pobreza transbordaram em riquezas de generosidade, 2 Coríntios 8:2. Aquelas centenas representavam mais para eles do que os milhares de Salomão representaram para ele.
Além desses animais, ofereceram doze bodes como ofertas pelo pecado, um por tribo, para fazer expiação por seus pecados. Consideravam isso necessário para que seus serviços fossem aceitos.
Ao terem a iniquidade removida, ficariam livres daquilo que fora o aguilhão de suas aflições recentes e que, se não fosse removido, seria um verme na raiz de seus consolos presentes.
- Esse serviço foi realizado com alegria. Todos se alegraram ao ver o templo construído e seus assuntos em tão bom estado.
Aprendamos a receber com alegria as santas ordenanças e a participar delas com prazer. Sirvamos ao Senhor com alegria. Tudo o que dedicarmos a Deus, façamos com a alegria de que ele se digne a aceitá-lo.
- Ao dedicar a casa, organizaram os que nela serviriam. O templo lhes traria pouco consolo sem o serviço do templo; por isso, estabeleceram os sacerdotes em suas divisões e os levitas em suas turmas, v. 18.
Depois de instituir o culto a Deus nessa dedicação, cuidaram de mantê-lo e tomaram o livro de Moisés como regra para essa organização.
Embora agora não pudessem realizar o serviço do templo com tanta pompa e abundância quanto antes, por causa de sua pobreza, talvez o realizassem com tanta pureza e fidelidade à instituição divina quanto em qualquer outro tempo. Essa era sua verdadeira glória. Nenhuma beleza se compara à beleza da santidade.
IV. A celebração da Páscoa no templo recém-erguido. Como haviam acabado de ser libertos da escravidão na Babilônia, era oportuno recordar sua libertação da escravidão no Egito. As misericórdias recentes devem lembrar-nos das anteriores.
Podemos supor que, desde sua volta, celebravam de algum modo a Páscoa todos os anos, pois tinham um altar e um tabernáculo. Mas estavam sujeitos a frequentes perturbações causadas pelos inimigos, tinham pouco espaço e lhes faltavam condições adequadas.
Assim, não puderam celebrá-la com a devida solenidade até que o templo fosse construído. Agora fizeram dela uma festa alegre, ocorrida no mês seguinte à conclusão e dedicação do templo, v. 19. Aqui se chama a atenção para:
- A pureza dos sacerdotes e levitas que imolaram a Páscoa, v. 20. No tempo de Ezequias, muitos sacerdotes foram censurados por não se purificarem. Agora se observa, para louvor deles, que foram purificados juntos, como um só homem, segundo a expressão original.
Havia unanimidade tanto na decisão quanto no esforço para se tornarem e permanecerem cerimonialmente puros para essa solenidade. Uniram-se nos preparativos para ajudar uns aos outros, de modo que todos estavam puros, sem exceção.
A pureza dos ministros muito contribui para a beleza de seu ministério; sua unidade também.
- Os prosélitos que participaram com eles dessa ordenança:
Todos os que se haviam separado para se unir a eles, deixado sua terra e suas superstições e lançado sua sorte com o Israel de Deus, e se afastado da impureza dos pagãos da terra, tanto de suas idolatrias quanto de suas imoralidades, para buscar o Senhor, Deus de Israel, como seu Deus, comeram a Páscoa.
Veja como são descritos os prosélitos, os convertidos. Separaram-se da impureza do pecado e do convívio com os pecadores, uniram-se ao Israel de Deus em conformidade e comunhão e se dispuseram a buscar o Deus de Israel.
Os que fazem isso sinceramente, ainda que sejam estranhos e estrangeiros, são bem-vindos ao banquete do evangelho como concidadãos dos santos e membros da família de Deus.
- A grande alegria e satisfação com que celebraram a festa dos pães sem fermento, v. 22. O Senhor os fizera alegres: dera-lhes tanto motivo para se alegrar quanto coração disposto à alegria.
Fazia cerca de vinte anos desde que os alicerces desse templo haviam sido lançados. Podemos supor que a maioria dos velhos que choraram naquela época ao se lembrarem do primeiro templo já estivesse morta; por isso, agora não havia lágrimas misturadas à alegria.
Os que têm bons motivos para se alegrar têm, por isso, motivo para agradecer, pois é Deus quem os faz alegres. Ele é a fonte de onde correm todos os rios da nossa alegria.
Deus prometeu a todos os que se apegam à sua aliança que os fará alegres em sua casa de oração. O motivo especial da alegria deles nessa ocasião era que Deus havia voltado o coração do imperador para eles, a fim de fortalecer-lhes as mãos.
Se os que se opuseram a nós, ou aqueles de quem temíamos oposição, se mostrarem a nosso favor, podemos alegrar-nos com isso como um bom sinal de que nossos caminhos agradam ao Senhor (Provérbios 16:7). A ele devemos dar a glória por isso.