Matthew Henry

Efésios 2

Argumento

Este capítulo contém um relato:

I. Da condição miserável desses efésios por natureza (vv. 1-3) e novamente, v. 11, 12.

II. Da mudança gloriosa que foi operada neles pela graça que converte (vv. 4-10) e novamente, v. 13.

III. Dos grandes e poderosos privilégios que tanto judeus quanto gentios convertidos recebem de Cristo, vv. 14-22.

O apóstolo procura sensibilizá-los com uma devida percepção da mudança maravilhosa que a graça divina havia operado neles; e isso é muito aplicável àquela grande mudança que a mesma graça opera em todos os que são trazidos a um estado de graça.

De modo que temos aqui um retrato vivo tanto da miséria dos homens não regenerados quanto da condição feliz das almas convertidas, suficiente para despertar e alarmar os que ainda estão nos seus pecados e levá-los a apressar-se para sair daquele estado.

E para confortar e deleitar aqueles a quem Deus vivificou, com a consideração dos poderosos privilégios de que são investidos.

Versículos 1 a 3

Estado dos Efésios por Natureza. (d.C. 61.)

A condição miserável dos efésios por natureza é aqui descrita em parte. Observe:

  1. As almas não regeneradas estão mortas em transgressões e pecados. Todos os que estão nos seus pecados estão mortos em pecados; sim, e ainda, em transgressões e pecados, o que pode significar todas as espécies de pecados, habituais e efetivos, pecados do coração e da vida.

O pecado é a morte da alma. Onde quer que prevaleça, há uma privação de toda vida espiritual. Os pecadores estão mortos no seu estado, sendo destituídos dos princípios e poderes da vida espiritual e separados de Deus, a fonte da vida.

E estão mortos perante a lei, como se diz que um malfeitor condenado é um homem morto.

  1. Um estado de pecado é um estado de conformidade com este mundo, v. 2. No primeiro versículo fala do estado interior deles; neste, da sua conduta exterior: “Nos quais”, nessas transgressões e pecados, “em tempos passados andastes”.

Vocês viviam e se comportavam da maneira como os homens do mundo costumam fazer.

  1. Somos por natureza escravos cativos do pecado e de Satanás. Os que andam em transgressões e pecados e segundo o curso deste mundo andam segundo o príncipe da potestade do ar. O diabo, ou o príncipe dos diabos, é assim descrito. Veja Mateus 12:24, 26.

As legiões dos anjos apóstatas são como um poder unido sob um chefe; e, por isso, o que em outros lugares é chamado poderes das trevas é aqui referido no singular.

O ar é representado como a sede do seu reino; e era a opinião tanto dos judeus quanto dos pagãos que o ar está cheio de espíritos e que ali eles se exercitam e atuam.

O diabo parece ter algum poder (pela permissão de Deus) na região inferior do ar; ali está à mão para tentar os homens e fazer ao mundo tanto dano quanto puder.

Mas é o conforto e alegria do povo de Deus que aquele que é cabeça sobre todas as coisas para a igreja venceu o diabo e o tem na sua corrente.

Mas os homens perversos são escravos de Satanás, pois andam segundo ele; conformam as suas vidas e ações à vontade e prazer desse grande usurpador.

O curso e teor das suas vidas são segundo as sugestões dele e em conformidade com as suas tentações; estão sujeitos a ele e são por ele levados cativos à sua vontade, pelo que é chamado o deus deste mundo e o espírito que agora opera nos filhos da desobediência.

Os filhos da desobediência são os que escolhem desobedecer a Deus e servir ao diabo; nesses ele opera de maneira muito poderosa e eficaz.

Assim como o bom Espírito opera o que é bom nas almas obedientes, assim esse espírito maligno opera o que é mau nos homens perversos; e agora opera, não somente antes, mas até desde que o mundo foi abençoado com a luz do glorioso evangelho.

O apóstolo acrescenta: “Entre os quais também todos nós tivemos a nossa conduta em tempos passados”; palavras que se referem aos judeus, dos quais indica aqui que estiveram em semelhante condição triste e miserável por natureza.

E que foram tão vis e perversos quanto os próprios gentios não regenerados, e cujo estado natural descreve ulteriormente nas palavras seguintes.

  1. Somos por natureza serviçais da carne e das nossas afeições corruptas, v. 3. Ao satisfazer os desejos da carne e da mente, os homens contraem aquela imundície da carne e do espírito da qual o apóstolo exorta os cristãos a se limparem, 2 Coríntios 7:1.

A satisfação dos desejos da carne e da mente inclui todo o pecado e perversidade praticados tanto nos poderes inferiores como nos superiores ou mais nobres da alma, e por eles. Vivíamos na prática efetiva de todos aqueles pecados aos quais a natureza corrupta nos inclinava.

A mente carnal torna um homem escravo completo do seu apetite vicioso. A satisfação das vontades da carne: assim as palavras podem ser traduzidas, denotando a eficácia dessas cobiças e o poder que têm sobre aqueles que se entregam a elas.

  1. Somos por natureza filhos da cólera, assim como os outros. Os judeus eram assim, assim como os gentios; e um homem o é tanto quanto outro por natureza, não somente por costume e imitação, mas desde quando começamos a existir e por causa das nossas inclinações e apetites naturais.

Todos os homens, sendo naturalmente filhos da desobediência, são também por natureza filhos da cólera: Deus está irado com os perversos todos os dias. O nosso estado e curso são tais que merecem cólera e terminariam em cólera eterna, se a graça divina não interviesse.

Que motivo têm, então, os pecadores para procurar aquela graça que os fará, de filhos da cólera, filhos de Deus e herdeiros da glória! Até aqui o apóstolo descreveu nesses versículos a miséria de um estado natural, o que o veremos continuar novamente em alguns versículos seguintes.

Versículos 4 a 10

A Mudança Operada nos Efésios. (d.C. 61.)

Aqui o apóstolo começa o seu relato da mudança gloriosa que foi operada neles pela graça que converte; observe:

I. Por quem e de que maneira foi produzida e realizada:

  1. Negativamente: “Não de vós mesmos”, v. 8. A nossa fé, a nossa conversão e a nossa salvação eterna não são mero produto de quaisquer capacidades naturais, nem de qualquer mérito nosso próprio: “Não de obras, para que nenhum homem se glorie”, v. 9.

Essas coisas não são realizadas por qualquer coisa feita por nós e, por isso, toda vanglória é excluída; quem se gloria não deve gloriar-se em si mesmo, mas no Senhor. Não há lugar para qualquer homem se gabar das suas próprias capacidades e poder, ou como se tivesse feito qualquer coisa que pudesse merecer favores tão imensos de Deus.

  1. Positivamente: “Mas Deus, que é rico em misericórdia”, etc., v. 4. O próprio Deus é o autor dessa grande e feliz mudança, e o seu grande amor é a origem e causa originária dela; daí resolveu mostrar misericórdia.

O amor é a sua inclinação para nos fazer bem, considerados simplesmente como criaturas; a misericórdia nos considera como criaturas apóstatas e miseráveis.

Observe: O amor eterno ou boa vontade de Deus para com as suas criaturas é a fonte de onde procedem todas as suas misericórdias concedidas a nós; e esse amor de Deus é grande amor, e essa sua misericórdia é rica misericórdia, inexprimivelmente grande e inesgotavelmente rica.

E então “pela graça sois salvos” (v. 5), e “pela graça sois salvos mediante a fé”; “é o dom de Deus”, v. 8. Repare: Todo pecador convertido é um pecador salvo. Tais pessoas são libertas do pecado e da cólera; são trazidas a um estado de salvação e lhes é dado pela graça o direito à felicidade eterna.

A graça que as salva é a bondade e favor gratuitos e imerecidos de Deus; e ele as salva, não pelas obras da lei, mas mediante a fé em Cristo Jesus, pela qual chegam a participar das grandes bênçãos do evangelho.

E tanto essa fé quanto essa salvação, sobre a qual ela tem tão grande influência, são o dom de Deus. Os grandes objetos da fé são tornados conhecidos pela revelação divina, e críveis pelo testemunho e evidência que Deus nos deu.

E que creiamos para a salvação e obtenhamos salvação pela fé é inteiramente devido à assistência e graça divinas; Deus ordenou tudo para que fique evidente que tudo é da graça. Observe:

II. Em que consiste essa mudança, em diversas particularidades, correspondentes à miséria do nosso estado natural, algumas das quais são enumeradas nesta seção, e outras são mencionadas abaixo:

  1. Nós, que estávamos mortos, somos vivificados (v. 5), somos salvos da morte do pecado e temos um princípio de vida espiritual implantado em nós. A graça na alma é uma nova vida na alma.

Assim como a morte encerra os sentidos e sela todos os poderes e faculdades, assim faz um estado de pecado, quanto a qualquer coisa boa. A graça destranca e abre tudo, e amplia a alma.

Observe: Um pecador regenerado se torna uma alma viva: vive uma vida de santificação, sendo nascido de Deus; e vive no sentido da lei, sendo liberto da culpa do pecado pela graça que perdoa e justifica. Ele nos vivificou juntamente com Cristo.

A nossa vida espiritual resulta da nossa união com Cristo; é nele que vivemos: “Porque eu vivo, vós também vivereis”.

  1. Nós, que estávamos sepultados, somos ressuscitados, v. 6. O que ainda resta fazer é aqui referido como se já tivesse passado, embora de fato sejamos ressuscitados em virtude da nossa união com aquele a quem Deus ressuscitou dentre os mortos.

Quando ressuscitou Cristo dentre os mortos, na prática ressuscitou todos os crentes juntamente com ele, sendo ele a sua cabeça comum.

E, quando o colocou à sua direita nos lugares celestiais, os elevou e glorificou nele e com ele, sua cabeça e precursor ressuscitado e exaltado. “E nos fez assentar juntamente nos lugares celestiais em Cristo Jesus.” Isso pode ser entendido em outro sentido.

Os pecadores se revolvem no pó; as almas santificadas se assentam nos lugares celestiais, são elevadas acima do mundo; o mundo é como nada para elas, comparado com o que foi e com o que é o outro mundo.

Os santos não são somente os homens livres de Cristo, mas são cojuízes com ele; pela assistência da sua graça, ascenderam com ele acima deste mundo para ter comunhão com outro, e vivem na sua constante expectativa.

Não são somente servos do melhor dos senhores na melhor obra, mas são exaltados para reinar com ele; assentam-se no trono com Cristo, como ele se assentou com o seu Pai no seu trono.

III. Observe qual é o grande desígnio e alvo de Deus ao produzir e realizar essa mudança. E isso:

  1. Com respeito a outros: “Para que nos séculos vindouros mostrasse”, etc. (v. 7), para dar uma amostra e prova da sua grande bondade e misericórdia, para o ânimo dos pecadores no tempo futuro.

Observe: A bondade de Deus ao converter e salvar pecadores antes é um ânimo apropriado a outros em tempo posterior para esperarem na sua graça e misericórdia e se aplicarem a elas. Tendo Deus isso no seu desígnio, os pobres pecadores deveriam tirar grande ânimo disso.

E o que não podemos esperar de tal graça e benevolência, de riquezas da graça, às quais essa mudança é devida? “Por Cristo Jesus”, por quem e mediante quem Deus nos transmite todo o seu favor e bênçãos.

  1. Com respeito aos próprios pecadores regenerados: “Pois somos sua obra, criados em Cristo Jesus para boas obras”, etc., v. 10. Fica evidente que tudo é da graça, porque todas as nossas vantagens espirituais vêm de Deus.

Somos sua obra; ele quer dizer com respeito à nova criação, não somente como homens, mas como santos. O novo homem é uma nova criatura; e Deus é seu Criador. É um novo nascimento, e somos nascidos ou gerados da sua vontade.

“Em Cristo Jesus”, isto é, por causa do que fez e sofreu e pela influência e operação do seu bendito Espírito. “Para boas obras”, etc.

O apóstolo, tendo antes atribuído essa mudança à graça divina com exclusão das obras, para que não parecesse assim desanimar as boas obras, aqui observa que, embora a mudança não deva ser atribuída a nada dessa natureza (pois somos a obra de Deus), contudo, Deus, na sua nova criação, nos destinou e preparou para boas obras.

“Criados para boas obras”, com o desígnio de que sejamos frutíferos nelas. Onde quer que Deus pela sua graça implante bons princípios, eles são destinados a boas obras.

“Que Deus antes ordenou”, isto é, decretou e designou. Ou as palavras podem ser lidas: Para as quais Deus antes nos preparou, isto é, abençoando-nos com o conhecimento da sua vontade e com a assistência do seu Espírito Santo, e produzindo tal mudança em nós.

“Para que andássemos nelas”, ou glorificássemos a Deus por uma conduta exemplar e pela nossa perseverança em santidade.

Versículos 11 a 13

A Condição Miserável dos Efésios por Natureza. (d.C. 61.)

Nestes versículos, o apóstolo prossegue no seu relato da condição miserável desses efésios por natureza. “Por isso, lembrai-vos”, etc., v. 11.

Como se dissesse: “Vocês deveriam lembrar-se do que foram e compará-lo com o que agora são, para se humilharem e incitarem o seu amor e gratidão a Deus.” Repare: Os pecadores convertidos devem refletir frequentemente sobre a pecaminosidade e miséria do estado em que estavam por natureza.

“Gentios na carne”, isto é, vivendo na corrupção das suas naturezas e sendo destituídos da circuncisão, o sinal exterior de participação na aliança da graça.

“Que sois chamados incircuncisão pelo que”, etc., isto é: “Vocês eram desacreditados e repreendidos por isso pelos judeus formais, que faziam uma profissão exterior e não olhavam além da ordenança exterior.”

Repare: Os que professam hipocritamente costumam valorizar-se principalmente pelos seus privilégios exteriores e desacreditar e desprezar outros que são destituídos deles. O apóstolo descreve a miséria do seu caso em diversas particularidades, v. 12.

“Naquele tempo, enquanto eram gentios e num estado não convertido, vocês estavam”:

  1. “Numa condição sem Cristo, sem o conhecimento do Messias e sem qualquer participação salvadora nele ou relação com ele.”

É verdadeiro acerca de todos os pecadores não convertidos, todos os que são destituídos de fé, que não têm participação salvadora em Cristo; e deve ser algo triste e deplorável para uma alma estar sem um Cristo. Estando sem Cristo, eram:

  1. “Alheios à comunidade de Israel”; não pertenciam à igreja de Cristo nem tinham comunhão com ela, sendo ela confinada à nação israelita. Não é pequeno privilégio ser colocado na igreja de Cristo e compartilhar com os seus membros as vantagens peculiares a ela.

  2. São “estranhos às alianças da promessa”. A aliança da graça sempre foi a mesma na substância, embora, tendo passado por diversos acréscimos e aperfeiçoamentos nas diversas épocas da igreja, seja chamada alianças.

E alianças da promessa, porque é composta de promessas e particularmente contém a grande promessa do Messias e da vida eterna por ele. Agora, os efésios, no seu gentilismo, eram estranhos a essa aliança, nunca tendo tido qualquer informação nem proposta dela.

E todos os pecadores não regenerados são estranhos a ela, pois não têm participação nela. Os que estão sem Cristo e, por isso, não têm participação no Mediador da aliança não têm nenhuma nas promessas da aliança.

  1. Não tinham esperança, isto é, além desta vida; nenhuma esperança bem fundada em Deus, nenhuma esperança de bênçãos espirituais e eternas. Os que estão sem Cristo e são estranhos à aliança não podem ter boa esperança; pois Cristo e a aliança são a base e fundamento de todas as esperanças do cristão.

Estavam num estado de distância e afastamento de Deus: “Sem Deus no mundo”; não sem algum conhecimento geral de uma divindade, pois adoravam ídolos, mas vivendo sem qualquer devida consideração por ele, qualquer dependência reconhecida dele e qualquer participação especial nele.

As palavras são: ateus no mundo; pois, embora adorassem muitos deuses, contudo, estavam sem o verdadeiro Deus.

O apóstolo prossegue (v. 13) ilustrando ulteriormente a mudança feliz que foi feita no seu estado: “Mas agora, em Cristo Jesus, vós que noutro tempo estáveis longe”, etc.

Estavam longe de Cristo, da sua igreja, das promessas, da esperança cristã e do próprio Deus; e, por isso, de todo bem, como o filho pródigo na terra distante: isso havia sido representado nos versículos anteriores.

Os pecadores não convertidos se afastam de Deus, e Deus os põe à distância: ele contempla o orgulhoso de longe.

“Mas agora, em Cristo Jesus, etc., na sua conversão, em virtude da união com Cristo e da participação nele pela fé, vocês são aproximados.” Foram trazidos para casa a Deus, recebidos na igreja, admitidos na aliança e investidos de todos os outros privilégios consequentes a esses.

Repare: Os santos são um povo próximo a Deus. A salvação está longe dos perversos; mas Deus é um auxílio à mão para o seu povo; e isso é pelo sangue de Cristo, pelo mérito dos seus sofrimentos e morte.

Todo pecador que crê deve a sua proximidade de Deus e a sua participação no seu favor à morte e sacrifício de Cristo.

Versículos 14 a 22

A União de Judeus e Gentios. (d.C. 61.)

Chegamos agora à última parte do capítulo, que contém um relato dos grandes e poderosos privilégios que tanto judeus quanto gentios convertidos recebem de Cristo. O apóstolo mostra aqui que aqueles que estavam num estado de inimizade são reconciliados.

Entre os judeus e os gentios havia uma grande inimizade; assim existe entre Deus e todo homem não regenerado. Agora, Jesus Cristo é a nossa paz, v. 14. Fez a paz pelo sacrifício de si mesmo; e veio reconciliar:

  1. Judeus e gentios uns com os outros. Fez ambos um, reconciliando essas duas divisões de homens, que antes costumavam difamar, odiar e desacreditar uns aos outros.

Derrubou o muro divisório do meio, a lei cerimonial, que causava a grande hostilidade e era a insígnia da peculiaridade dos judeus, chamado muro divisório por alusão à divisória no templo que separava o pátio dos gentios daquele em que somente os judeus tinham liberdade de entrar. Assim aboliu na sua carne a inimizade, v. 15.

Pelos seus sofrimentos na carne, tirou o poder obrigatório da lei cerimonial (removendo assim aquela causa de inimizade e distância entre eles), aqui chamada lei dos mandamentos contidos em ordenanças, porque ordenava uma multidão de ritos e cerimônias exteriores e consistia em muitas instituições e designações acerca das partes exteriores do culto divino.

As cerimônias legais foram ab-rogadas por Cristo, tendo nele o seu cumprimento. Tirando-as do caminho, formou uma igreja de crentes, fossem eles antes judeus ou gentios. Assim fez em si mesmo de dois um novo homem.

Formou ambas essas partes num novo convívio, ou corpo do povo de Deus, unindo-as a si mesmo como sua cabeça comum, sendo elas renovadas pelo Espírito Santo e agora juntando-se numa nova maneira de culto do evangelho, fazendo assim a paz entre essas duas partes, que antes estavam tão em divergência.

  1. Há uma inimizade entre Deus e os pecadores, sejam judeus ou gentios; e Cristo veio abater essa inimizade e reconciliar ambos com Deus, v. 16. O pecado gera uma desavença entre Deus e os homens.

Cristo veio resolver a desavença e levá-la ao fim, reconciliando tanto judeu quanto gentio, agora reunidos e congregados num corpo, com um Deus provocado e ofendido.

E isso pela cruz, ou pelo sacrifício de si mesmo sobre a cruz, tendo abatido assim a inimizade. Ele, sendo abatido ou sacrificado, abateu a inimizade que havia entre Deus e os pobres pecadores.

O apóstolo prossegue ilustrando as grandes vantagens que ambas as partes ganham pela mediação do nosso Senhor Jesus Cristo, v. 17.

Cristo, que adquiriu a paz na cruz, veio em parte na sua própria pessoa, quanto aos judeus, dos quais se diz aqui que estavam próximos, e em parte nos seus apóstolos, aos quais deu comissão para pregar o evangelho aos gentios, dos quais se diz que estavam longe, no sentido dado antes.

E pregou a paz, ou proclamou os termos da reconciliação com Deus e da vida eterna. Repare aqui: Quando os mensageiros de Cristo expõem as suas verdades, na prática é o mesmo que se ele próprio o fizesse sem mediação.

Diz-se que prega por eles, de modo que quem os recebe o recebe, e quem os despreza (agindo eles em virtude da sua comissão e expondo a sua mensagem) despreza e rejeita o próprio Cristo.

Agora, o efeito dessa paz é o livre acesso que tanto judeus quanto gentios têm a Deus (v. 18): “pois por ele”, no seu nome e em virtude da sua mediação, “ambos temos acesso” ou admissão à presença de Deus, que se tornou o Pai comum reconciliado de ambos.

O trono da graça é erigido para chegarmos a ele, e nos é consentida liberdade de aproximação desse trono. O nosso acesso é pelo Espírito Santo. Cristo adquiriu em nosso favor permissão para chegar a Deus, e o Espírito nos dá um coração para chegar e força para chegar, até a graça para servir a Deus de maneira aceitável.

Observe: Aproximamo-nos de Deus por Jesus Cristo, pelo auxílio do Espírito. Tendo os efésios, na sua conversão, tal acesso a Deus, assim como os judeus, e pelo mesmo Espírito, o apóstolo lhes diz: “Agora, portanto, não sois mais estranhos e estrangeiros”, v. 19.

Menciona isso em oposição ao que havia observado deles no seu paganismo: agora não eram mais alheios à comunidade de Israel e não eram mais o que os judeus costumavam considerar todas as nações da terra além deles próprios (a saber, estranhos a Deus).

Mas “concidadãos com os santos e da família de Deus”, isto é, membros da igreja de Cristo, tendo direito a todos os seus privilégios. Observe aqui: A igreja é comparada a uma cidade, e todo pecador convertido tem a sua cidadania.

É também comparada a uma casa, e todo pecador convertido é um dos membros da casa, um da família, um servo e um filho na casa de Deus. No v. 20, a igreja é comparada a um edifício. Os apóstolos e profetas são o fundamento desse edifício.

Podem ser assim chamados num sentido secundário, sendo o próprio Cristo o fundamento primário; mas devemos antes entender isso acerca da doutrina exposta pelos profetas do Antigo Testamento e pelos apóstolos do Novo.

Segue-se: “Sendo o próprio Jesus Cristo a principal pedra de esquina”. Nele, tanto judeus quanto gentios se encontram e constituem uma igreja; e Cristo sustenta o edifício pela sua força: “No qual todo o edifício, bem ajustado”, etc., v. 21.

Todos os crentes de que consiste, sendo unidos a Cristo pela fé e entre si pela caridade cristã, crescem para um templo santo, tornam-se um convívio sagrado, no qual há muita comunhão entre Deus e o seu povo, como no templo.

Eles o adoram e servem, ele se manifesta a eles, eles oferecem sacrifícios espirituais a Deus e ele lhes dispensa as suas bênçãos e favores.

Assim o edifício, pela sua natureza, é um templo, um templo santo; pois a igreja é o lugar que Deus escolheu para pôr ali o seu nome, e se torna tal templo pela graça e força derivadas dele próprio: “no Senhor”.

A igreja universal, sendo edificada sobre Cristo como a pedra fundamental e unida em Cristo como a pedra de esquina, chega por fim a ser glorificada nele como a pedra do topo: “No qual também vós sois edificados juntamente”, etc., v. 22.

Observe: Não somente a igreja universal é chamada templo de Deus, mas as igrejas particulares; e até todo verdadeiro crente é um templo vivo, é uma habitação de Deus pelo Espírito.

Deus habita agora em todos os crentes, tendo eles se tornado o templo de Deus pelas operações do bendito Espírito, e a sua habitação com eles agora é um penhor da habitação deles juntamente com ele pela eternidade.


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