Matthew Henry

Eclesiastes 9

Argumento

Neste capítulo, para apresentar outra prova da vaidade deste mundo, Salomão nos oferece quatro observações que fez ao reconhecer a condição dos filhos dos homens nele:

I. Observou que, em geral, quanto às circunstâncias exteriores, os bons e os maus passam por experiências muito semelhantes (vv. 1-3).

II. Que a morte põe fim definitivo a todas as nossas atividades e alegrias neste mundo (vv. 4-6). Daí conclui que é sábio desfrutar os confortos da vida e cuidar das tarefas da vida enquanto ela dura (vv. 7-10).

III. Que a providência de Deus muitas vezes frustra as probabilidades mais favoráveis e promissoras dos esforços humanos, e que grandes calamidades frequentemente surpreendem as pessoas antes que percebam (v. 11, 12).

IV. Que a sabedoria muitas vezes torna as pessoas muito úteis e, ainda assim, lhes granjeia pouco respeito, pois pessoas de grande mérito são desprezadas (vv. 13-18). Que há, então, neste mundo para nos apegarmos tanto a ele?

Versículos 1 a 3

Mistérios da Providência.

Observou-se, a respeito dos que alegavam procurar a pedra filosofal, que, embora nunca encontrassem o que buscavam, ainda assim fizeram muitas outras descobertas e experiências úteis durante a busca.

Assim também Salomão, quando, no fim do capítulo anterior, aplicou o coração a conhecer a obra de Deus e se esforçou muito para investigá-la, embora não esperasse descobri-la, ainda assim encontrou algo que o recompensou abundantemente pela busca e lhe deu alguma satisfação. É isso que nos comunica aqui.

Por isso, ele considerou tudo isso no coração e ponderou cuidadosamente para poder declará-lo em benefício dos outros. Repare: antes de declarar algo, devemos considerá-lo; pensemos duas vezes antes de falar uma. E, depois de considerar algo, devemos declará-lo. Cri, por isso falei.

A grande dificuldade que Salomão encontrou ao estudar o livro da providência foi a pequena diferença feita entre os bons e os maus na distribuição dos benefícios e das adversidades e no dispor dos desfechos. Isso deixou perplexos muitos homens sábios e reflexivos.

Salomão discorre sobre a questão nestes versículos e, embora não se proponha a desvendar essa obra de Deus, ainda assim diz coisas que podem impedir que ela se torne um tropeço para nós.

I. Antes de descrever toda a força dessa tentação, ele estabelece uma verdade grande e indiscutível, à qual resolve se apegar e que, se for firmemente crida, bastará para neutralizar a tentação. É assim que o povo de Deus enfrenta essa dificuldade.

Jó, antes de tratar do assunto, apresenta a doutrina da onisciência de Deus (Jó 24:1); Jeremias, a de sua justiça (Jeremias 12:1); outro profeta, a de sua santidade (Habacuque 1:13); e o salmista, a de sua bondade e favor especial para com o próprio povo (Salmos 73:1).

É a essa última verdade que Salomão se apega e na qual resolve permanecer: embora o bem e o mal pareçam ser distribuídos indistintamente, ainda assim Deus tem zelo particular por seu próprio povo e se interessa por ele. “Os justos e os sábios, e suas obras, estão na mão de Deus”, sob sua proteção e direção especiais.

Deus conduz todos os seus assuntos para o bem deles. Todas as suas ações sábias e justas estão em suas mãos para serem recompensadas no outro mundo, embora não o sejam neste. Parecem entregues às mãos dos inimigos, mas não é assim. Os homens não têm contra eles poder algum que não lhes seja concedido do alto.

Os acontecimentos que os afetam não ocorrem por acaso, mas segundo a vontade e o conselho de Deus, que fará cooperar em favor deles até aquilo que parecia mais contrário a eles.

Que nos tranquilize, aconteça o que acontecer, o fato de que todos os santos de Deus estão em suas mãos (Deuteronômio 33:3; João 10:29; Salmos 31:15).

II. Ele estabelece como regra que o amor e o ódio de Deus não devem ser medidos nem julgados pela condição exterior das pessoas.

Se a prosperidade fosse sinal certo do amor de Deus, e a aflição, de seu ódio, então seria justo que nos escandalizasse ver ímpios e piedosos passarem pelas mesmas experiências. Mas não é assim: “Ninguém conhece nem o amor nem o ódio por tudo o que tem diante de si” neste mundo, por aquilo que os sentidos percebem. Podemos conhecê-los pelo que está dentro de nós.

Se amamos a Deus de todo o coração, podemos saber por isso que ele nos ama. Da mesma forma, podemos saber que estamos debaixo de sua cólera se somos governados pela mente carnal, que é inimiga dele.

Essas coisas serão conhecidas pelo que virá depois, pela condição eterna das pessoas. É certo que alguém é feliz ou infeliz conforme esteja sob o amor ou o ódio de Deus, e não conforme receba os sorrisos ou os semblantes carregados do mundo.

Portanto, se Deus ama um justo, como certamente o ama, ele é feliz, ainda que o mundo lhe mostre um semblante carregado. Se Deus odeia um ímpio, como certamente o odeia, ele é infeliz, ainda que o mundo lhe sorria. Assim desaparece o tropeço causado pela distribuição indistinta dos acontecimentos.

III. Tendo estabelecido esses princípios, ele reconhece que tudo acontece igualmente a todos. Assim foi no passado; por isso, não devemos estranhar que seja assim agora, conosco e com nossa família.

Alguns consideram estas palavras, e tudo o que vem até o v. 13, como a argumentação perversa dos ateus contra a doutrina da providência de Deus.

Prefiro, porém, entendê-las como uma concessão de Salomão, que podia fazê-la com mais liberdade depois de firmar as verdades capazes de impedir qualquer mau uso dela. Observe aqui (v. 2):

  1. A grande diferença entre o caráter dos justos e o dos ímpios. Diversos exemplos são apresentados em oposição uns aos outros. Embora tudo aconteça igualmente a todos, ainda assim isso não desfaz minimamente a distinção eterna entre o bem e o mal moral; ela permanece imutável.

(1.) Os justos são limpos, têm mãos limpas e coração puro. Os ímpios são sujos, dominados por desejos sujos; talvez pareçam puros aos próprios olhos, mas não foram limpos de sua imundície. Deus certamente distinguirá os limpos dos sujos, o precioso do vil, no outro mundo, embora não pareça fazê-lo neste.

(2.) Os justos sacrificam, isto é, cuidam conscienciosamente de adorar a Deus segundo a vontade dele, tanto no culto interior quanto no exterior. Os ímpios não sacrificam: negligenciam a adoração a Deus e relutam em separar qualquer coisa para sua honra. Que é o Todo-Poderoso para que o sirvam?

(3.) Os justos são bons, bons aos olhos de Deus, e fazem o bem no mundo. Os ímpios são pecadores: violam as leis de Deus e dos homens e provocam a ambos.

(4.) O ímpio jura, não reverencia o nome de Deus, mas o profana com juramentos precipitados e falsos. O justo teme o juramento: não jura por conta própria, mas, quando é chamado a jurar, o faz com grande reverência.

Teme fazer um juramento porque se trata de um recurso solene a Deus como testemunha e juiz; depois de fazê-lo, teme quebrá-lo porque Deus é justo e exerce a vingança.

  1. A pequena diferença entre a condição dos justos e a dos ímpios neste mundo: há um só desfecho para ambos. Davi é rico? Nabal também. José é favorecido pelo príncipe? Hamã também. Acabe é morto em batalha? Josias também. Os figos ruins são levados para a Babilônia? Os bons também (Jeremias 24:1).

Há enorme diferença entre a origem, o desígnio e a natureza do mesmo desfecho para uns e para outros; seus efeitos e resultados também são muito diferentes. A mesma providência é para uns cheiro de vida para vida e, para outros, cheiro de morte para morte, embora, na aparência exterior, seja igual.

IV. Ele reconhece que isso é grande motivo de aflição para os sábios e bons: “Este é um mal, a maior perplexidade, entre todas as coisas que se fazem debaixo do sol” (v. 3); “nada me perturbou mais do que isto: a todos sucede a mesma coisa”.

Isso endurece os ateus e fortalece as mãos dos malfeitores. Por esse motivo, o coração dos filhos dos homens está cheio de mal e inteiramente disposto a praticar o mal (Eclesiastes 8:11).

Quando percebem que o mesmo acontece a justos e ímpios, concluem perversamente que, para Deus, tanto faz que sejam justos ou ímpios; por isso, não hesitam em satisfazer suas paixões.

V. Para um esclarecimento ulterior dessa grande dificuldade, ele começou o discurso com a doutrina da felicidade dos justos. Sofram o que sofrerem, eles e suas obras estão nas mãos de Deus, portanto em boas mãos; não poderiam estar em mãos melhores. Agora conclui com a doutrina da miséria dos ímpios.

Por mais que prosperem, há loucura em seu coração enquanto vivem, e depois vão para os mortos. Não inveje a prosperidade dos malfeitores, pois:

  1. Agora são loucos, e todas as delícias com as quais parecem abençoados não passam dos sonhos e fantasias agradáveis de uma pessoa perturbada. Enlouquecem por seus ídolos (Jeremias 50:38) e contra o povo de Deus (Atos 26:11).

Quando o filho pródigo se arrependeu, diz-se que “caiu em si” (Lucas 15:17), o que sugere que antes estava fora de si.

  1. Em breve estarão mortos. Enquanto vivem, fazem muito barulho e agitação; pouco depois, porém, vão para os mortos, e toda a sua pompa e poder acabam. Então terão de prestar contas de toda a sua loucura e violência no pecado.

Embora deste lado da morte justos e ímpios pareçam iguais, do outro lado haverá enorme diferença entre eles.

Versículos 4 a 10

As Consequências da Morte; O Desfrute Adequado da Vida.

Salomão, num momento de irritação, havia louvado os mortos mais do que os vivos (Eclesiastes 4:2). Aqui, porém, ao considerar as vantagens da vida para nos prepararmos para a morte e assegurarmos a esperança de uma vida melhor, parece pensar de outro modo.

I. Ele mostra as vantagens que os vivos têm sobre os mortos (vv. 4-6):

  1. Enquanto há vida, há esperança. Dum spiro, spero: enquanto respiro, tenho esperança. É privilégio dos vivos estar unidos aos vivos por relações, comércio e comunhão; enquanto isso acontece, há esperança.

Se a condição de alguém é ruim sob qualquer aspecto, há esperança de que melhore. Se seu coração está cheio de mal e loucura, enquanto há vida ainda há esperança de que a graça de Deus produza uma bendita mudança. Mas, depois que as pessoas vão para os mortos (v. 3), é tarde demais: quem então for impuro continuará impuro, impuro para sempre.

Se alguém é deixado de lado como inútil, ainda assim, enquanto continua unido aos vivos há esperança de que torne a criar raízes e dar fruto. Quem está vivo é, ou pode vir a ser, útil para alguma coisa; quem morreu não é capaz de prestar qualquer serviço ulterior a este mundo.

Por isso, um cão vivo é melhor do que um leão morto. O mendigo vivo mais humilde desfruta de um conforto deste mundo e lhe presta um serviço de que o maior príncipe, depois de morto, é totalmente incapaz.

  1. Enquanto há vida, há oportunidade de nos prepararmos para a morte. Os vivos sabem algo de que os mortos não têm conhecimento: em particular, sabem que morrerão. Esse conhecimento pode influenciá-los a se preparar para a grande mudança, que certamente virá e pode chegar de repente.

Repare: os vivos não podem deixar de saber que morrerão, que necessariamente têm de morrer. Sabem que estão sob sentença de morte; seus mensageiros já os detiveram e sentem que suas forças diminuem. Esse conhecimento é necessário e útil, pois que tarefa temos enquanto vivemos senão nos prepararmos para morrer?

Os vivos sabem que morrerão; a morte ainda virá e, por isso, podem se preparar. Os mortos sabem que estão mortos, mas já é tarde demais; estão do outro lado do grande abismo estabelecido.

  1. Quando a vida acaba, todo este mundo acaba para nós com ela. (1.) Termina toda a nossa familiaridade com este mundo e suas coisas. Os mortos não sabem nada daquilo com que conviviam intimamente enquanto viviam.

Não parece que saibam coisa alguma do que fazem os que deixaram para trás. Abraão não sabe de nós; eles foram levados às trevas (Jó 10:22).

(2.) Termina todo o nosso desfrute neste mundo. Os mortos já não recebem recompensa pelos esforços dedicados ao mundo; devem deixar a outros tudo o que ganharam. Há recompensa por suas ações santas, mas não pelas mundanas. Os alimentos e o ventre serão destruídos juntos (João 6:27; 1 Coríntios 6:13).

Isso é explicado no v. 6: “Tampouco terão mais uma porção para sempre”, isto é, nenhuma daquelas coisas realizadas e obtidas debaixo do sol que imaginavam ser sua porção para sempre. As coisas deste mundo não serão a porção da alma porque não serão uma porção para sempre.

Aqueles que as escolhem como seus bens têm porção apenas nesta vida (Salmos 17:14). O mundo só pode proporcionar uma renda vitalícia, não uma porção eterna.

(3.) Termina seu nome. São poucos aqueles cujo nome lhes sobrevive por muito tempo. A sepultura é terra do esquecimento, pois a lembrança dos que ali são colocados logo se apaga. Seu lugar já não os conhece, nem as terras às quais deram o próprio nome.

(4.) Terminam seus afetos, suas amizades e inimizades: “Seu amor, seu ódio e sua inveja já pereceram”. Os bens que amavam, os males que odiavam e a prosperidade alheia que invejavam, tudo isso terminou para eles.

A morte separa os que se amavam e põe fim à sua amizade; também separa os que se odiavam e põe fim às suas desavenças.

Actio moritur cum personâ: a pessoa e suas ações morrem juntas. Ali, nossos amigos não poderão nos beneficiar com seu amor, nem nossos inimigos nos causar estrago com seu ódio e inveja. Ali os ímpios deixam de perturbar.

As coisas que agora tanto nos afetam e ocupam, com as quais tanto nos preocupamos e das quais tanto desconfiamos, ali terão chegado ao fim.

II. Disso ele conclui que é sábio aproveitar a vida da melhor maneira enquanto ela dura e administrar bem o tempo que resta.

  1. Desfrutemos os confortos da vida enquanto vivemos e recebamos com alegria nossa parte de seus prazeres. Salomão, que havia caído na armadilha do abuso dos prazeres sensoriais, alerta os outros para o perigo.

Não os proíbe inteiramente, mas orienta seu uso sóbrio e moderado. Podemos usar o mundo, mas não abusar dele; recebamos o que ele oferece, sem esperar mais. Temos aqui:

(1.) Os exemplos particulares da alegria recomendada: “Você está abatido e melancólico. Vá, como o tolo que é, e adote uma disposição melhor”.

[1.] “Tenha o espírito tranquilo e agradável. Haja então alegria e um coração contente dentro de você”, um bom coração, conforme a palavra original. Isso distingue tal alegria da diversão carnal e do prazer sensual, que são males do coração, tanto sintomas quanto causas de muitos males ali.

Devemos desfrutar nossa própria vida, nossos amigos e nosso Deus, procurando manter a consciência limpa para que nada perturbe essas alegrias.

Sirvamos a Deus com contentamento ao usar o que ele nos dá e sejamos generosos ao repartir com outros. Não permitamos que a preocupação desmedida nem a dor pelas coisas do mundo nos oprimam.

Devemos comer nosso pão como israelitas, não em meio ao luto (Deuteronômio 26:14); como cristãos, com alegria e generosidade de coração (Atos 2:46). Veja Deuteronômio 28:47.

[2.] “Use os confortos e prazeres que Deus lhe deu: coma seu pão, beba seu vinho, os seus, não os de outra pessoa. Não coma pão adquirido pelo engano nem beba vinho obtido pela violência, mas aquilo que foi adquirido honestamente. De outro modo, não poderá consumi-los com conforto nem esperar bênção sobre eles.”

“Seu pão e seu vinho devem ser adequados à sua posição: nem extravagantes, acima dela, nem miseráveis, abaixo dela. Empregue o que Deus lhe deu nos fins para os quais lhe foi confiado, pois você é apenas um administrador.”

[3.] “Demonstre sua alegria (v. 8): ‘Sejam sempre brancas as suas vestes’. Guarde proporção nos gastos. Não reduza a alimentação para alimentar o orgulho, nem as roupas para alimentar a sensualidade. Seja asseado, use roupa de linho limpa e não seja desleixado.”

Ou: “Sejam brancas as suas vestes em sinal de alegria e contentamento”, expressos por roupas brancas (Apocalipse 3:4); “e, como sinal ulterior de alegria, não falte à sua cabeça o óleo apropriado”.

Nosso Salvador permitiu esse prazer numa refeição festiva (Mateus 26:7), e Davi o menciona entre os dons da generosidade de Deus: “Unges a minha cabeça com óleo” (Salmos 23:5).

Isso não significa que devamos pôr nossa felicidade nos prazeres dos sentidos ou prender neles o coração. Devemos, porém, desfrutar da maneira mais confortável que pudermos aquilo que Deus nos deu, dentro dos limites da sobriedade e da sabedoria, sem esquecer os pobres.

[4.] “Seja agradável aos seus familiares: ‘Viva alegremente com a mulher que você ama’. Não monopolize os prazeres, dando grande apreço só a si e não se importando com o que acontece aos que estão ao seu redor. Reparta-os com eles e faça com que também vivam tranquilos.”

“Tenha uma esposa, pois nem mesmo no paraíso era bom que o homem estivesse só. Permaneça com ela, com uma só, e não multiplique as mulheres” — Salomão havia descoberto o dano disso —; “seja fiel somente a ela e não se envolva com nenhuma outra”. Como pode alguém viver alegremente com uma mulher se não vive honestamente com ela?

“Ame sua esposa; é provável que viva alegremente com a esposa que ama.” Quando cumprimos os deveres dos relacionamentos, podemos esperar deles o conforto. Veja Provérbios 5:19.

“Viva com sua esposa e tenha prazer no convívio dela. Viva alegremente com ela e esteja especialmente contente quando estiverem juntos. Alegre-se com sua família, com sua videira e suas mudas de oliveira.”

(2.) As condições necessárias para essa alegria: “Alegre-se e tenha o coração contente, se Deus já aceita suas obras. Se você está reconciliado com Deus e recebeu seu favor, então tem motivo para se alegrar; caso contrário, não.”

“Não te alegres, ó Israel, com júbilo, como os outros povos, porque te prostituíste, apartando-te do teu Deus” (Oseias 9:1).

Nosso primeiro zelo deve ser fazer as pazes com Deus, obter seu favor e praticar aquilo que ele aceitará. Então: “Vá, coma seu pão com alegria”. Repare: aqueles cujas obras Deus aceitou têm motivo para se alegrar e devem fazê-lo.

“Agora que você come com alegria o pão de seus sacrifícios e participa com o coração contente do vinho de suas ofertas de bebida, Deus aceita suas obras. Seus serviços religiosos, quando realizados com santa alegria, agradam a Deus. Ele gosta de ouvir seus servos cantar enquanto trabalham: isso proclama que ele é um bom Mestre.”

(3.) As razões para essa alegria: “Viva alegremente, pois:” [1.] “Tudo isso não é mais do que o necessário para tornar fácil e agradável sua passagem por este mundo. Os dias de sua vida são os dias de sua vaidade; aqui só há tribulação e decepção.”

“Você terá tempo suficiente para a tristeza e a dor quando não puder evitá-las. Portanto, viva alegremente enquanto pode, sem se afligir com pensamentos e cuidados sobre amanhã; basta a cada dia seu próprio mal. Que a serenidade concedida pela graça seja um poderoso antídoto contra a vaidade do mundo.”

[2.] “Isso é tudo o que você pode obter deste mundo: é sua porção nas coisas desta vida. Em Deus e na outra vida, terá porção melhor e melhor recompensa por seus trabalhos na religião; mas, por seus esforços com as coisas debaixo do sol, isso é tudo o que pode esperar. Portanto, não se prive dessa porção.”

  1. Dediquemo-nos às tarefas da vida enquanto ela durar e usemos seus prazeres de modo que nos preparem para os deveres: “Portanto, coma com alegria e coração contente, não para que sua alma descanse” (como em Lucas 12:19), “mas para que trabalhe ainda mais, e a alegria do Senhor seja sua força e o óleo de suas rodas” (v. 10).

“Tudo o que sua mão encontrar para fazer, faça-o com toda a sua força.” Observe aqui:

(1.) Nesta vida não há apenas coisas a receber, mas também coisas a fazer. O principal bem que devemos buscar é o bem que devemos praticar (Eclesiastes 2:3). Este é o mundo do serviço; o vindouro é o mundo da recompensa.

Este é o mundo da provação e da preparação para a eternidade. Estamos aqui para cumprir uma tarefa e demonstrar boa conduta.

(2.) A oportunidade deve orientar e apressar o dever. Devemos fazer aquilo que nossa mão encontrar, aquilo que a ocasião pedir. Uma mão ativa sempre encontrará algo útil para fazer. Naquilo que necessariamente deve ser feito, nossa mão encontrará aqui recursos para fazê-lo (Provérbios 17:16).

(3.) Devemos praticar o bem que temos oportunidade de fazer enquanto ela está disponível, com toda a força, zelo, vigor e determinação, quaisquer que sejam as dificuldades e desestímulos encontrados.

Os dias da colheita são dias de muito trabalho; precisamos fazer feno enquanto o sol brilha. Devemos servir a Deus e desenvolver nossa salvação com tudo o que há em nós, embora isso ainda seja pouco.

(4.) Há bom motivo para realizarmos as obras daquele que nos enviou enquanto é dia, pois vem a noite, quando ninguém pode trabalhar (João 9:4). Precisamos nos levantar e agir agora com toda a diligência possível, porque nosso tempo de trabalho logo acabará, e não sabemos quão cedo.

Sabemos, porém, que, se a tarefa da vida não estiver cumprida quando nosso tempo terminar, estaremos perdidos para sempre: “Na sepultura para onde você vai não há obra a fazer, nem artifício para fazê-la, nem conhecimento para a reflexão, nem sabedoria para a prática.”

Todos seguimos em direção à sepultura; cada dia nos aproxima dela. Quando ali estivermos, será tarde demais para corrigir os erros da vida, arrepender-nos e fazer as pazes com Deus ou guardar algo para a vida eterna.

Isso deve ser feito agora ou nunca. A sepultura é terra de trevas e silêncio; ali nada podemos fazer por nossa alma. Deve ser agora ou nunca (João 12:35).

Versículos 11 a 12

A Frustração das Esperanças.

Para dar outra prova da vaidade do mundo e nos convencer de que todas as nossas obras estão nas mãos de Deus, e não nas nossas, o pregador mostra aqui a incerteza e a contingência dos desfechos futuros e como tantas vezes contrariam nossas previsões.

Ele nos exortou (v. 10) a realizar com toda a força o que temos a fazer. Aqui, porém, lembra-nos que, depois de fazermos tudo, devemos deixar o resultado com Deus, sem confiar no sucesso.

I. Muitas vezes somos privados do bem em que tínhamos grandes esperanças (v. 11). O próprio Salomão fez essa observação, assim como muitos depois dele: os desfechos, tanto em assuntos públicos quanto particulares, nem sempre correspondem às previsões e probabilidades mais razoáveis.

Nulli fortuna tam dedita est ut multa tentanti ubique respondeat: a fortuna não se entrega a ninguém a ponto de lhe garantir sucesso, por mais numerosos que sejam seus empreendimentos. Sêneca.

O resultado dos negócios muitas vezes contraria inexplicavelmente a expectativa de todos, para que os mais elevados não se tornem presunçosos nem os mais humildes se desesperem, mas todos vivam em humilde dependência de Deus, de quem procede o juízo sobre cada pessoa.

  1. Ele apresenta exemplos de frustração mesmo onde os meios e instrumentos eram mais animadores e prometiam sucesso. (1.) Seria de esperar que o mais veloz ganhasse o prêmio da corrida.

Entretanto, a corrida nem sempre é dos velozes: algum acidente os retarda, ou ficam seguros demais, tornam-se negligentes e deixam que competidores mais lentos larguem na frente.

(2.) Seria de esperar que o exército mais numeroso e poderoso sempre vencesse a batalha e, no combate individual, que o campeão valente e forte conquistasse os louros. Mas a batalha nem sempre é dos fortes.

Uma tropa de filisteus foi posta em fuga por Jônatas e seu escudeiro; um só de vocês perseguirá mil. A justiça de uma causa muitas vezes assegurou a vitória contra o poder mais temível.

(3.) Seria de esperar que os homens sensatos sempre tivessem posses e que os que sabem viver neste mundo não apenas dispusessem de sustento abundante, mas também reunissem grandes patrimônios. Nem sempre é assim: nem mesmo o pão é sempre dos sábios, muito menos as riquezas dos entendidos.

Muitos homens inteligentes e experientes nos negócios, dos quais se esperava prosperidade no mundo, sofreram uma decadência surpreendente e terminaram sem nada.

(4.) Seria de esperar que quem entende as pessoas e sabe administrar os assuntos sempre obtivesse cargos e conquistasse o favor dos poderosos. Mas muitos capazes foram frustrados, passaram a vida na obscuridade, ou melhor: caíram em desonra e talvez se arruinaram pelos meios com que esperavam ascender. O favor nem sempre é dos habilidosos: os tolos são favorecidos enquanto os sábios são malvistos.

  1. Ele atribui todas essas frustrações a um poder e uma providência que se sobrepõem a elas. O modo como ela dispõe as coisas parece casual para nós, e o chamamos de acaso, mas na verdade segue o conselho determinado e a presciência de Deus.

Na linguagem deste livro, isso é chamado de tempo (Eclesiastes 3:1; Salmos 31:15): “O tempo e o acaso sobrevêm a todos”.

A Providência soberana desfaz os planos humanos, frustra as esperanças e ensina que o caminho do homem não está em suas próprias mãos, mas está sujeito à vontade divina. Devemos usar os meios, sem depositar neles a confiança.

Se tivermos sucesso, devemos louvar a Deus (Salmos 44:3); se nossos planos forem frustrados, devemos aceitar sua vontade e nossa porção.

II. Muitas vezes somos surpreendidos por males que pouco temíamos (v. 12): “O homem não conhece o seu tempo”, o tempo de sua calamidade, queda ou morte, chamado nas Escrituras de nosso dia e nossa hora.

  1. Não sabemos que tribulações virão, quais nos afastarão de nossas atividades e nos tirarão do mundo, que tempo e acaso nos sobrevirão, nem o que um dia ou uma noite produzirá.

Não nos cabe conhecer os tempos, nem mesmo o nosso próprio tempo: quando ou como morreremos. Em sua sabedoria, Deus nos mantém sem esse conhecimento para que estejamos sempre preparados.

  1. Talvez encontremos tribulação justamente naquilo de que esperamos a maior satisfação e vantagem. Os peixes e pássaros são atraídos para a armadilha e a rede pela isca oferecida para seduzi-los, à qual avançam avidamente.

Assim também os filhos dos homens muitas vezes são apanhados num tempo mau, que lhes sobrevém de repente, antes que percebam. Essas coisas também acontecem igualmente a todos.

Muitas vezes, as pessoas encontram a própria ruína onde procuravam sua felicidade e encontram a morte onde esperavam achar um prêmio. Portanto, nunca nos sintamos seguros demais, mas estejamos sempre prontos para mudanças. Assim, ainda que cheguem de repente, não nos causarão surpresa nem terror.

Versículos 13 a 18

As Vantagens da Sabedoria.

Salomão continua recomendando a sabedoria como necessária para preservar nossa paz e aperfeiçoar nossos negócios, apesar das vaidades e contratempos a que os assuntos humanos estão sujeitos. Ele dissera (v. 11) que o pão nem sempre é dos sábios. Ainda assim, não quer que por isso pensem que ou deprecia ou desanima a sabedoria.

Não: mantém seu princípio de que a sabedoria excede a insensatez tanto quanto a luz excede as trevas (Eclesiastes 2:13).

Devemos amá-la, acolhê-la e ser guiados por ela por causa de seu valor intrínseco e da capacidade que nos dá para servir aos outros, ainda que não obtenhamos bens nem cargos por meio dela.

Essa sabedoria, isto é, a que ele descreve aqui, permite a alguém servir ao país por puro amor aos interesses dele, mesmo sem obter vantagem pessoal, não, nem sequer agradecimento por seu esforço ou reconhecimento por ele. Foi essa sabedoria que, segundo Salomão, lhe pareceu grandiosa (v. 13).

O espírito público numa posição particular é uma sabedoria que aqueles que sabem discernir as coisas não podem deixar de considerar magnífica.

I. Salomão apresenta o exemplo de um homem pobre que, por sua sabedoria, prestou grande serviço numa época de angústia e perigo públicos (v. 14). Provavelmente foi um fato ocorrido em algum país vizinho. Havia uma cidade pequena, prêmio insignificante para quem a conquistasse.

Dentro dela havia poucos homens para defendê-la. Os homens, quando corajosos, são as melhores fortificações de uma cidade; ali, porém, eram poucos e, por serem poucos, fracos, medrosos e prontos a entregar a cidade por julgá-la indefensável.

Contra essa pequena cidade veio um grande rei com um exército numeroso e a sitiou, fosse por orgulho, pela cobiça de possuí-la ou para se vingar de alguma ofensa, castigando-a e destruindo-a. Por imaginá-la mais forte do que era, construiu grandes baluartes para atacá-la e não duvidou de que logo a conquistaria.

Quanta inquietação injusta os príncipes ambiciosos causam a seus vizinhos inofensivos! Esse grande rei não precisava temer a pequena cidade; por que, então, aterrorizá-la?

A conquista lhe traria pouco proveito; por que arcar com despesa tão grande para obtê-la? Mas, assim como pessoas comuns por vezes são irracionais e insaciavelmente ávidas por juntar casa a casa e campo a campo, os grandes reis frequentemente querem juntar cidade a cidade e província a província, até ficarem sozinhos na terra (Isaías 5:8).

A vitória e o sucesso acompanharam os fortes? Não. Nessa pequena cidade, entre os poucos habitantes, encontrou-se um homem pobre e sábio. Era sábio e, ainda assim, pobre; não havia recebido nenhum cargo de lucro ou poder na cidade.

Os cargos de confiança não eram dados de acordo com o mérito e a aptidão das pessoas, pois, de outro modo, um homem sábio como esse não teria sido pobre. Ora:

  1. Por ser sábio, serviu à cidade apesar de sua pobreza. Na angústia, procuraram-no (Juízes 11:7) e pediram seu conselho e ajuda.

Por sua sabedoria, ele livrou a cidade: ou por orientações prudentes dadas aos sitiados, dirigindo-os a uma estratégia antes impensada para sua própria segurança; ou por um tratado prudente com os sitiadores, como fez a mulher de Abel (2 Samuel 20:16).

Ele não os repreendeu pelo desprezo com que o haviam tratado ao excluí-lo do conselho, nem disse que, por ser pobre e nada ter a perder, não se importava com o destino da cidade. Fez por ela o melhor que pôde e foi abençoado com sucesso.

Repare: os interesses particulares e ressentimentos pessoais devem sempre ser sacrificados ao bem público e esquecidos quando está em jogo o bem-estar de todos.

  1. Por ser pobre, foi desprezado pela cidade, apesar de ser sábio e ter ajudado a salvar todos da ruína: “Ninguém se lembrou daquele mesmo homem pobre”. Seus bons serviços não receberam atenção; não recebeu recompensa nem honrarias, mas continuou vivendo na pobreza e obscuridade de antes.

As riquezas não couberam a esse homem entendido, nem o favor a esse homem habilidoso. Muitos que prestaram excelentes serviços a seu príncipe e a seu país foram mal recompensados. Vivemos num mundo ingrato.

É bom que os homens úteis tenham um Deus em quem confiar e que os recompensará generosamente; entre os homens, grandes serviços muitas vezes provocam inveja e recebem o mal como pagamento pelo bem.

II. Desse exemplo, ele tira algumas conclusões úteis: observa-o e dele recebe instrução.

  1. Reconhece a grande utilidade e excelência da sabedoria e a bênção que ela torna as pessoas para seu país: “Melhor é a sabedoria do que a força” (v. 16). Uma mente prudente, que honra o homem, deve ser preferida a um corpo robusto, no qual muitas criaturas brutas superam os seres humanos.

Por sua sabedoria, alguém consegue realizar o que jamais conseguiria pela força e pode vencer pela inteligência aqueles que seriam capazes de dominá-lo fisicamente. Ou melhor: “a sabedoria é melhor do que as armas de guerra”, sejam ofensivas ou defensivas (v. 18).

A sabedoria, isto é, a religião e a piedade — pois o sábio é aqui contraposto ao pecador —, é melhor do que todos os talentos e equipamentos militares.

Ela envolve Deus em nosso favor; então estaremos seguros nos maiores perigos e seremos bem-sucedidos nos maiores empreendimentos. Se Deus é por nós, quem será contra nós ou poderá resistir-nos?

  1. Reconhece a força e a autoridade da sabedoria, mesmo quando enfrenta desvantagens exteriores (v. 17): “As palavras dos sábios são ouvidas em silêncio”.

O que dizem, por ser dito com calma e reflexão — embora, por não serem ricos nem autoridades, não ousem falar alto nem com muita segurança —, será escutado e levado em conta.

Conquistará respeito; ou melhor: alcançará o objetivo, exercendo mais influência sobre as pessoas do que o clamor arrogante daquele que governa entre tolos. Estes, como tolos que são, escolheram-no governante por causa de seu barulho e arrogância e pensam que, pelos mesmos meios, ele triunfará sobre todos os outros.

Algumas razões sólidas valem mais do que muitas palavras grandiosas. Os que se rendem a uma argumentação justa respondem àqueles que os intimidam e insultam segundo a insensatez deles. Quão eficazes são as palavras certas!

O que é dito com sabedoria deve ser dito com calma; assim será ouvido em silêncio e considerado serenamente. A paixão, porém, reduzirá a força até da razão, em vez de aumentá-la.

  1. Reconhece que os sábios e bons, apesar disso, muitas vezes precisam se contentar com a satisfação de ter feito o bem, ou ao menos de tê-lo tentado e oferecido, quando não conseguem fazer todo o bem que desejam nem receber o reconhecimento que merecem.

A sabedoria capacita alguém a servir os vizinhos, e ele oferece seus serviços. Mas, se for pobre, sua sabedoria é desprezada e suas palavras não são ouvidas (v. 16).

Muitos são enterrados vivos na pobreza e obscuridade, embora pudessem ser uma grande bênção para o mundo se recebessem o devido ânimo. Muitas pérolas se perdem dentro da concha.

Virá, porém, o dia em que a sabedoria e a bondade serão honradas, e os justos brilharão.

  1. Do grande bem que um só homem sábio e virtuoso pode fazer, ele conclui quanto dano um só ímpio pode causar e quanto bem pode impedir: “Um só pecador destrói muito bem”.

(1.) Quanto a si mesmo, a condição pecaminosa é destrutiva. Quantos bons dons tanto da natureza quanto da Providência um só pecador destrói e desperdiça!

Bom senso, bons talentos, boa instrução, boa disposição, bons bens, bons alimentos, boas bebidas e uma abundância das boas criaturas de Deus são empregados a serviço do pecado. Assim, são destruídos e perdidos, e o fim para o qual foram dados é frustrado e pervertido. Quem destrói a própria alma destrói muito bem.

(2.) Quanto aos outros, quanto dano um só ímpio pode causar numa cidade ou num país! Um pecador que se dedica a corromper os outros pode anular e frustrar as intenções de muitas leis boas e de muita boa pregação, levando muitos aos seus caminhos perniciosos. Um pecador pode arruinar uma cidade, assim como um só Acã perturbou todo o acampamento de Israel.

O sábio que livrou a cidade teria recebido o respeito e a recompensa devidos se algum pecador não tivesse impedido isso, diminuindo invejosamente o valor de seu serviço. Muitos projetos bons, bem planejados para o bem público, haviam sido destruídos por um só adversário astuto.

A sabedoria de alguns teria curado a nação, mas, por causa da maldade de uns poucos, ela não seria curada. Veja quem são os amigos e os inimigos de um reino: um santo faz muito bem, e um pecador destrói muito bem.


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