Eclesiastes 8
Argumento
Salomão, neste capítulo, passa a nos recomendar a sabedoria como o antídoto mais poderoso tanto contra as tentações quanto contra as aflições que surgem da vaidade do mundo. Aqui está:
I. O benefício e o louvor da sabedoria, v. 1.
II. Alguns exemplos particulares de sabedoria prescritos a nós:
Devemos permanecer na devida sujeição ao governo que Deus colocou sobre nós, vv. 2-5.
Devemos nos preparar para males repentinos, e especialmente para a morte repentina, vv. 6-8.
Devemos nos armar contra a tentação de um governo opressor e não estranhar isso, v. 9, 10.
A impunidade dos opressores os torna mais ousados (v. 11), mas no desfecho irá bem aos justos e mal aos ímpios (v. 12, 13). Por isso, a prosperidade presente dos ímpios e as aflições dos justos não devem ser uma pedra de tropeço para nós, v. 14.
Devemos usar com alegria os dons da providência de Deus, v. 15.
Devemos, com inteira satisfação, aquiescer à vontade de Deus. Sem alegar descobrir o fundo, devemos adorar humilde e silenciosamente a profundidade dos seus conselhos insondáveis, certos de que todos são sábios, justos e bons, v. 16, 17.
Versículos 1 a 5
A Excelência da Sabedoria; o Dever dos Súditos.
Aqui está:
I. Um elogio da sabedoria (v. 1), isto é, da verdadeira piedade, guiada em todos os seus exercícios pela prudência e pelo discernimento.
O homem sábio é o homem bom, que conhece Deus e o glorifica, conhece a si mesmo e faz o bem em favor de si mesmo. A sua sabedoria é uma grande felicidade para ele, pois:
- Ela o eleva acima dos seus vizinhos e o torna mais excelente do que eles: “Quem é como o sábio?” Repare: a sabedoria celestial fará de um homem uma pessoa incomparável.
Nenhum homem sem graça, embora seja instruído, ou nobre, ou rico, pode ser comparado com um homem que tem verdadeira graça e por isso é aceito por Deus.
Ela o torna útil entre os seus vizinhos e muito prestativo para eles. Quem senão o sábio conhece a interpretação de uma coisa, isto é, entende os tempos e os seus desfechos e as suas conjunturas críticas, de modo a orientar o que Israel deve fazer, 1 Crônicas 12:32.
Ela embeleza um homem aos olhos dos seus amigos. Faz o seu rosto brilhar, como o de Moisés quando desceu do monte.
Ela confere honra a um homem e brilho a toda a sua conduta, faz com que seja considerado e notado e lhe conquista respeito (como Jó 29:7, etc.). Torna-o amável e agradável, e o querido e a bênção do seu país.
A força do seu rosto, a aspereza e a severidade do seu semblante (assim alguns entendem a última oração), serão transformadas por ela em algo doce e atencioso.
Até aqueles cujo temperamento natural é rude e mal-humorado são extraordinariamente transformados pela sabedoria. Tornam-se brandos e gentis e aprendem a ter uma aparência agradável.
- Ela dá ousadia a um homem contra os seus adversários, as suas tentativas e o seu escárnio. A ousadia do seu rosto será duplicada pela sabedoria.
Ela acrescentará muito à sua coragem para manter a sua integridade quando ele não só tem uma causa honesta a defender, mas pela sua sabedoria sabe como conduzi-la e onde encontrar a interpretação de uma coisa. Ele não será envergonhado, mas falará com o seu inimigo na porta.
II. Um exemplo particular de sabedoria que nos é insistentemente recomendado, e que é a sujeição à autoridade e uma perseverança obediente e pacífica na nossa fidelidade ao governo que a Providência colocou sobre nós. Observe:
- Como o dever dos súditos é descrito aqui:
(1.) Devemos observar as leis. Em todas as coisas em que o poder civil deve intervir, seja legislativo ou judicial, devemos nos submeter à sua ordem e às suas disposições: “Eu te aconselho”.
Pode-se igualmente suprir: “Eu te ordeno”, não só como príncipe, mas como pregador. Ele podia fazer ambas as coisas.
“Eu te recomendo isso como uma parte da sabedoria; digo, seja o que for que digam os dados à mudança, guarda o mandamento do rei; onde quer que resida o poder soberano, sujeita-te a ele. Observa a boca de um rei” (assim é a expressão).
“Dize como ele diz; faze como ele te manda; seja a sua palavra uma lei, ou melhor, seja a lei a sua palavra.”
Alguns entendem a oração seguinte como uma limitação dessa obediência:
“Guarda o mandamento do rei, contudo de modo a ter consideração pelo juramento de Deus, isto é, de modo a manter uma boa consciência e a não violar as tuas obrigações para com Deus, que são anteriores e superiores às tuas obrigações para com o rei.”
“Dá a César as coisas que são de César, mas de modo a reservar puras e inteiras a Deus as coisas que são dele.”
(2.) Não devemos estar prontos para censurar a administração pública, ou entrar em desavença com tudo que não corresponde exatamente ao nosso pensamento, nem abandonar o nosso posto de serviço sob o governo e largá-lo a cada descontentamento (v. 3):
“Não te apresses em sair da sua presença, quando ele estiver descontente contigo (Eclesiastes 10:4), ou quando tu estiveres descontente com ele; não te afastes num acesso de paixão, nem nutras tais suspeitas a seu respeito que te atraiam a renunciar à corte ou abandonar o reino.”
Os súditos de Salomão, assim que a cabeça dele baixou à morte, procederam diretamente contra essa regra. Diante da resposta rude que Roboão lhes deu, apressaram-se em sair da sua presença, não quiseram dar tempo a uma segunda reflexão nem admitir propostas de acordo, mas clamaram: “Às tuas tendas, ó Israel!”
“Talvez haja uma causa justa para sair da sua presença; mas não te apresses em fazê-lo; age com grande deliberação.”
(3.) Não devemos persistir numa falta quando ela nos é mostrada:
“Não permaneças numa coisa má; em qualquer ofensa que tenhas causado ao teu príncipe, humilha-te e não te justifiques, pois isso tornará a ofensa muito mais ofensiva.”
“Em qualquer desígnio mau que tenhas concebido contra o teu príncipe por algum descontentamento, não prossigas nele; mas, se procedeste insensatamente em te elevares, ou pensaste o mal, põe a tua mão sobre a tua boca”, Provérbios 30:32.
Repare: embora possamos ser arrastados de surpresa para uma coisa má, ainda assim não devemos permanecer nela, mas recuar dela assim que nos parecer má.
(4.) Devemos nos acomodar prudentemente às nossas oportunidades, tanto para o nosso próprio alívio, se nos julgamos injustiçados, quanto para a reparação dos agravos públicos: “O coração de um sábio discerne tanto o tempo quanto o juízo” (v. 5).
A sabedoria dos súditos, ao se dirigirem aos seus príncipes, consiste em investigar e considerar tanto em que ocasião quanto de que maneira podem fazê-lo melhor e com maior eficácia para apaziguar a ira do príncipe, obter o seu favor ou obter a revogação de alguma medida gravosa prescrita.
Ester, ao lidar com Assuero, empenhou-se muito para discernir tanto o tempo quanto o juízo, e teve êxito de acordo com isso.
Pode-se tomar isso como uma regra geral de sabedoria: tudo deve ser feito no tempo apropriado. Os nossos empreendimentos terão então probabilidade de êxito, quando aproveitarmos a oportunidade exata para eles.
- Que razões são usadas aqui para nos levar a nos sujeitar aos poderes superiores. São muito semelhantes às que Paulo usa, Romanos 13:1, etc.:
(1.) Necessariamente devemos nos sujeitar por causa da consciência, e esse é o princípio mais poderoso de sujeição.
Devemos nos sujeitar por causa do juramento de Deus, o juramento de fidelidade que prestamos de ser fiéis ao governo, a aliança entre o rei e o povo, 2 Crônicas 23:16.
Davi fez uma aliança, ou contrato, com os anciãos de Israel, embora fosse rei por designação divina, 1 Crônicas 11:3.
“Guarda os mandamentos do rei, pois ele jurou governar-te no temor de Deus, e tu juraste, nesse temor, ser fiel a ele.” É chamado juramento de Deus porque Deus é testemunha dele e vingará a sua violação.
(2.) Por causa da cólera, por causa da espada que o príncipe traz e do poder que lhe é confiado, que o tornam temível: “Ele faz tudo o que lhe agrada”. Ele tem grande autoridade e grande capacidade de sustentar essa autoridade (v. 4).
“Onde está a palavra de um rei”, dando ordens para prender um homem, “há poder”. Há muitos que executarão as suas ordens, o que torna a cólera de um rei, ou governo supremo, semelhante ao rugido de um leão e a mensageiros da morte.
“Quem lhe pode dizer: Que fazes?” Quem o contradiz faz isso por sua conta e risco. Os reis não suportam que as suas ordens sejam contestadas, mas esperam que sejam obedecidas.
Em suma, contender com a soberania é perigoso, e algo de que muitos se arrependeram. Um súdito está em condição desigual diante de um príncipe. Pode me comandar aquele que tem legiões sob o seu comando.
(3.) Por causa do nosso próprio conforto: quem guarda o mandamento e vive uma vida tranquila e pacífica não sentirá coisa má alguma. A isso corresponde o que diz o apóstolo (Romanos 13:3): Você quer, então, não temer o poder do rei?
Faça o que é bom, como convém a um súdito obediente e leal, e normalmente receberá louvor dele. Quem não faz mal não sentirá mal e não precisa temer mal algum.
Versículos 6 a 8
A Certeza da Morte.
Salomão havia dito (v. 5) que o coração de um sábio discerne o tempo e o juízo, isto é, a sabedoria de um homem, pela bênção de Deus, irá longe nas previsões morais.
Mas aqui ele mostra que poucos têm essa sabedoria e que até os mais sábios podem ainda ser surpreendidos por uma calamidade que não previram de modo algum. Por isso, a nossa sabedoria consiste em esperar mudanças repentinas e nos preparar para elas. Observe:
- Todos os desfechos que nos dizem respeito, com o seu tempo exato, são determinados e designados no conselho e na presciência de Deus, e tudo em sabedoria.
Para cada propósito há um tempo prefixado, e é o melhor tempo, pois é tempo e juízo, tempo designado tanto em sabedoria quanto em justiça. A designação não pode ser acusada de insensatez ou iniquidade.
- Estamos muito no escuro quanto aos desfechos futuros e ao tempo e à ocasião deles. O próprio homem não sabe o que acontecerá; e quem pode lhe dizer quando ou como acontecerá? v. 7.
Isso não pode ser nem previsto por ele nem predito a ele. As estrelas não podem predizer a um homem o que será, nem nenhuma das artes da adivinhação. Deus, em sabedoria, ocultou de nós o conhecimento dos acontecimentos futuros, para que possamos estar sempre prontos para mudanças.
- A nossa grande infelicidade e miséria consiste em que, por não podermos prever um mal, não sabemos como evitá-lo ou nos resguardar dele. Por não estarmos cientes da ocasião apropriada e favorável das ações, por isso perdemos as nossas oportunidades e erramos o nosso caminho.
Porque para cada propósito há somente um caminho, um método, uma oportunidade apropriada, a miséria do homem pesa muito sobre ele. É tão árduo acertar nisso que as probabilidades são de mil contra uma de que ele erre.
A maioria das misérias sob as quais os homens labutam teria sido evitada se elas pudessem ter sido previstas e o momento favorável pudesse ter sido descoberto para evitá-las. Os homens são miseráveis porque não são suficientemente sagazes e atentos.
- Quaisquer outros males que possam ser evitados, todos estamos sob uma necessidade fatal de morrer, v. 8:
(1.) Quando a alma é exigida, deve ser entregue, e é inútil contestar isso, ou por armas ou por razões, ou por nós mesmos ou por algum amigo. Não há homem que tenha poder sobre o seu próprio espírito para retê-lo, quando é convocado a retornar a Deus, que o deu.
Ele não pode fugir para lugar algum fora da jurisdição da morte, nem encontrar algum lugar onde os seus mandados não vigorem. Não pode se esconder de modo a escapar do olhar da morte, embora esteja oculto aos olhos de todos os vivos.
Um homem não tem poder para adiar o dia da sua morte, nem pode por orações ou subornos obter um adiamento da execução. Nenhuma fiança será aceita, nenhuma essoine [escusa], proteção ou imparlance [colóquio] será consentida.
Não temos poder sobre o espírito de um amigo para retê-lo. O príncipe, com toda a sua autoridade, não pode prolongar a vida do mais valioso dos seus súditos, nem o médico com os seus remédios e métodos, nem o soldado com a sua força, nem o orador com a sua eloquência, nem o melhor santo com as suas intercessões.
O golpe da morte de modo algum pode ser desviado quando os nossos dias estão determinados e chegou a hora designada para nós.
(2.) A morte é um inimigo com o qual todos devemos entrar na arena, mais cedo ou mais tarde. Não há dispensa nessa guerra, nenhuma exoneração dela, ou dos homens de negócios ou dos tímidos, como havia entre os judeus, Deuteronômio 20:5, 8.
Enquanto vivemos, lutamos com a morte, e nunca tiraremos a armadura até tirarmos o corpo, nunca obteremos uma dispensa até que a morte tenha obtido o domínio.
O mais jovem não é liberado como soldado inexperiente, nem o mais velho como miles emeritus, um soldado cujos méritos lhe deram direito a uma dispensa.
A morte é uma batalha que deve ser travada. Não há envio a essa guerra (assim alguns leem), nenhuma substituição por outro para se apresentar em nosso lugar, nenhum campeão admitido para lutar em nosso favor. Nós mesmos devemos entrar nela e precisamos nos preparar de acordo com isso, como para uma batalha.
(3.) A impiedade dos homens, pela qual frequentemente escapam à justiça do príncipe ou a afrontam, não pode resguardá-los da prisão pela morte, nem pode o pecador mais obstinado endurecer o seu coração contra esses terrores.
Embora ele se fortaleça tanto quanto possa na sua impiedade (Salmos 52:7), a morte será forte demais para ele. A impiedade mais sutil não pode enganar a morte, nem a impiedade mais insolente intimidar a morte. Ou melhor: a impiedade à qual os homens se entregam estará tão longe de livrá-los da morte que os entregará à morte.
Versículos 9 a 12
O Mal dos Governantes Opressores.
Salomão, no começo do capítulo, havia nos avisado para não termos coisa alguma a ver com súditos sediciosos. Aqui, nestes versículos, ele nos anima quanto ao dano causado por governantes tirânicos e opressores, tais como aqueles de que havia se queixado antes, Eclesiastes 3:16; 4:1.
- Ele havia observado muitos desses governantes, v. 9. Nas considerações e reconsiderações sérias que fizera dos filhos dos homens e do seu estado, ele observara que muitas vezes um homem governa sobre outro para seu prejuízo. Isto é:
(1.) Para o prejuízo dos governados (muitos entendem assim). Embora devessem ser ministros de Deus para o bem dos seus súditos (Romanos 13:4), para administrar a justiça e preservar a paz e a ordem públicas, usam o seu poder para o prejuízo deles, para invadir a sua propriedade, usurpar a sua liberdade e patrocinar os atos de injustiça.
É triste para um povo quando aqueles que deveriam proteger a sua religião e os seus direitos visam à destruição de ambos.
(2.) Para o prejuízo dos governantes (assim traduzimos), para o seu próprio prejuízo, para alimentar o seu orgulho e a sua cobiça, satisfazer a sua paixão e a sua vingança, e assim encher a medida dos seus pecados e apressar e agravar a sua ruína.
Agens agendo repatitur, o prejuízo que os homens fazem aos outros retornará, no fim, para o seu próprio prejuízo.
- Ele havia observado que prosperavam e floresciam no abuso do seu poder (v. 10). Vi aqueles governantes ímpios virem e irem do lugar santo, irem com solenidade ao lugar de julgamento e retornarem dele com pompa.
Esse é chamado lugar do Santo porque “o juízo é do Senhor”, Deuteronômio 1:17, e ele “julga entre os deuses”, Salmos 82:1, e está com eles no juízo, 2 Crônicas 19:6.
Eles continuaram todos os seus dias no cargo, nunca tiveram de prestar contas da sua má administração, mas morreram com honra e foram sepultados magnificamente. As suas nomeações eram durante vitâ, durante a vida, e não quamdiu se bene gesserint, enquanto se comportassem bem.
E “foram esquecidos na cidade onde tinham agido assim”. As suas práticas ímpias não foram lembradas contra eles, para o seu descrédito e a sua infâmia, quando partiram.
Ou, antes, isso denota a vaidade da sua dignidade e do seu poder, pois essa é a observação dele a esse respeito no final do versículo: “Isso também é vaidade”. Eles se orgulham dos seus bens, do seu poder e da sua honra, porque se assentam no lugar santo. Mas tudo isso não pode resguardar:
(1.) Os seus corpos de serem sepultados no pó. Vi que foram colocados na sepultura, e a sua pompa, embora os acompanhasse até lá, não pôde descer atrás deles, Salmos 49:17.
(2.) Nem os seus nomes de serem sepultados no esquecimento, pois foram esquecidos, como se nunca tivessem existido.
- Ele havia observado que a sua prosperidade os endurecia na sua impiedade, v. 11. É verdade de todos os pecadores em geral, e particularmente dos governantes ímpios, que, porque a sentença contra as suas obras más não é executada rapidamente, pensam que nunca será executada.
Por isso, desafiam a lei e os seus corações estão inteiramente dispostos a fazer o mal. Aventuram-se a causar tanto mais dano, ampliam o alcance dos seus desígnios ímpios e estão seguros e destemidos nisso, e cometem iniquidade com mão elevada. Observe:
(1.) Uma sentença é proferida contra obras más e praticantes do mal pelo justo Juiz do céu e da terra, até contra as obras más dos príncipes e dos grandes homens, assim como das pessoas de posição inferior.
(2.) A execução dessa sentença muitas vezes é adiada por longo tempo, e o pecador continua, não só sem punição, mas próspero e bem-sucedido.
(3.) A impunidade endurece os pecadores na impiedade, e a paciência de Deus é vergonhosamente abusada por muitos que, em vez de serem conduzidos por ela ao arrependimento, são confirmados por ela na sua impenitência.
(4.) Os pecadores nisso enganam a si mesmos, pois, embora a sentença não seja executada rapidamente, ainda assim será executada com maior severidade no fim. A vingança vem lentamente, mas vem com certeza, e a cólera, nesse meio-tempo, é acumulada para o dia da cólera.
- Ele previu um fim de todas essas coisas que seria suficiente para nos impedir de entrar em desavença com a Providência divina por causa delas.
Ele supõe que um governante ímpio faça uma coisa injusta cem vezes, e que ainda assim a sua punição seja adiada e a paciência de Deus para com ele seja prolongada muito além do que se esperava, e os dias do seu poder sejam estendidos, de modo que continue a oprimir. Contudo, ele dá a entender que não devemos desanimar.
(1.) O povo de Deus é certamente um povo feliz, embora seja oprimido. “Irá bem àqueles que temem a Deus, digo, a todos aqueles, e somente àqueles, que temem diante dele.” Repare:
[1.] O caráter do povo de Deus consiste em temer a Deus, ter reverência por ele nos seus corações e ser consciencioso no seu dever para com ele. Isso porque veem que o olhar dele está sempre sobre eles e sabem que lhes cabe se apresentar aprovados diante dele.
Quando estão à mercê de opressores orgulhosos, temem a Deus mais do que os temem. Não entram em desavença com a providência de Deus, mas se submetem a ela.
[2.] A felicidade de todos que temem a Deus consiste em que, nos piores tempos, irá bem a eles. A sua felicidade no favor de Deus não pode ser prejudicada, nem a sua comunhão com Deus interrompida, pelas suas tribulações.
Estão em boa situação, pois são mantidos numa boa disposição sob as suas tribulações, e no fim terão um livramento bendito delas e uma abundante recompensa por elas.
E por isso “certamente sei, sei pela promessa de Deus e pela experiência de todos os santos, que, seja como for com os outros, irá bem a eles”. Tudo está bem quando termina bem.
(2.) Os ímpios são certamente um povo miserável. Embora prosperem e consigam o intento por algum tempo, a maldição é tão certa para eles quanto a bênção é para os justos.
“Não irá bem ao ímpio”, como outros pensam que vai, julgando pela aparência exterior, e como eles mesmos esperam que irá. Ou melhor: “Ai do ímpio; irá mal a ele” (Isaías 3:10, 11). Terão de prestar contas de todo o mal que fizeram. Nada que lhes aconteça será realmente bom para eles.
Nihil potest ad malos pervenire quod prosit, imo nihil quod non noceat, nenhum desfecho pode ocorrer aos ímpios que lhes faça bem, ou antes, nenhum desfecho que não lhes cause prejuízo. Sêneca. Repare:
[1.] Os dias do ímpio são como uma sombra, não só incertos e em declínio, como são os dias de todos os homens, mas inteiramente inúteis. Os dias de um homem bom têm alguma substância em si; ele vive para um bom propósito. Os dias de um ímpio são todos como uma sombra, vazios e sem valor.
[2.] Esses dias não serão prolongados até o que ele prometeu a si mesmo. Ele não viverá metade dos seus dias, Salmos 55:23. Embora possam ser prolongados (v. 12) além do que outros esperavam, ainda assim chegará o seu dia de cair.
Ele não alcançará a vida eterna, e então a sua longa vida na terra valerá pouco.
[3.] A grande desavença de Deus com os ímpios é porque eles não temem diante dele. Isso está no fundo da sua impiedade e os priva de toda felicidade.
Versículos 14 a 17
Os Mistérios da Providência.
Homens sábios e bons, desde a antiguidade, têm ficado perplexos com esta dificuldade: como a prosperidade dos ímpios e as tribulações dos justos podem ser conciliadas com a santidade e a bondade do Deus que governa o mundo. A esse respeito, Salomão nos dá aqui o seu conselho.
I. Ele não quer que nos surpreendamos com isso, como se acontecesse alguma coisa estranha, pois ele mesmo viu isso nos seus dias, v. 14:
Ele viu homens justos a quem acontecia segundo a obra dos ímpios, que, apesar da sua justiça, sofriam coisas muito árduas e continuavam por longo tempo a sofrê-las, como se devessem ser punidos por alguma grande impiedade.
Ele viu homens ímpios a quem acontecia segundo a obra dos justos, que prosperavam de modo tão extraordinário como se tivessem sido recompensados por alguma boa ação, e isso por si mesmos, por Deus, pelos homens.
Vemos os justos perturbados e perplexos nas suas próprias mentes, os ímpios tranquilos, destemidos e seguros. Os justos contrariados e afligidos pela Providência divina, os ímpios prósperos, bem-sucedidos e favorecidos. Os justos censurados, desacreditados e depreciados pelos poderes superiores, os ímpios aplaudidos e elevados a cargos.
II. Ele quer que aproveitemos a ocasião, a partir disso, para acusar o mundo de vaidade, em vez de acusar Deus de iniquidade. Não se deve encontrar falta em Deus. Mas, quanto ao mundo, isso é vaidade sobre a terra, e novamente, “isso também é vaidade”.
Isto é, constitui uma prova certa de que as coisas deste mundo não são as melhores coisas nem jamais foram destinadas a ser a nossa porção e felicidade.
Pois, se fossem, Deus não teria atribuído tantos bens deste mundo aos seus piores inimigos e tantas das suas tribulações aos seus melhores amigos.
Deve, por isso, haver outra vida depois desta, com alegrias e dores reais e substanciais, capazes de tornar os homens, na verdade, felizes ou, na verdade, miseráveis, pois este mundo não faz nem uma coisa nem outra.
III. Ele quer que não nos aflijamos nem fiquemos perplexos com isso, nem nos inquietemos, mas desfrutemos com alegria do que Deus nos deu no mundo, fiquemos contentes com isso e o aproveitemos ao máximo, embora outros estejam muito melhor, e sejam tais que os consideramos muito indignos (v. 15):
Então recomendei a alegria, uma santa segurança e serenidade de mente, que surge da confiança em Deus e no seu poder, na sua providência e na sua promessa. Porque um homem não tem coisa melhor debaixo do sol (embora um homem bom tenha coisas muito melhores acima do sol) do que comer e beber.
Isto é, usar sóbria e agradecidamente as coisas desta vida, de acordo com a sua posição, e ser alegre, aconteça o que acontecer, pois isso permanecerá com ele do seu trabalho.
Esse é todo o fruto que ele tem para si mesmo dos esforços que faz nos negócios do mundo. Portanto, que ele o tome, e que isso lhe faça muito bem. E que não negue isso a si mesmo por um descontentamento irritadiço porque o mundo não anda como ele gostaria.
Isso permanecerá com ele durante os dias da vida que Deus lhe dá debaixo do sol. A nossa vida presente é uma vida debaixo do sol, mas esperamos a vida do mundo por vir, que começará e continuará quando o sol se transformar em trevas e não brilhar mais.
Esta vida presente deve ser contada por dias. Esta vida nos é dada, e os seus dias nos são atribuídos, pelo conselho de Deus. Por isso, enquanto ela durar, devemos nos acomodar à vontade de Deus e nos empenhar em corresponder às finalidades da vida.
IV. Ele não quer que nos proponhamos dar um motivo para o que Deus faz, pois o seu caminho está no mar e a sua vereda nas grandes águas, impossíveis de sondar.
Por isso, devemos permanecer contentes e piedosamente ignorantes do significado dos procedimentos de Deus no governo do mundo, v. 16, 17. Aqui ele mostra:
- Que tanto ele mesmo quanto muitos outros haviam estudado o ponto muito atentamente e explorado profundamente os motivos da prosperidade dos ímpios e das aflições dos justos.
Ele, por sua parte, havia aplicado o coração a conhecer essa sabedoria e a observar o que se faz na terra pela Providência divina, para descobrir se havia algum plano definido, alguma regra ou método constante pelo qual os assuntos deste mundo inferior eram administrados.
Queria encontrar algum modo de governo tão certo e estável como o curso da natureza, de modo que, pelo que se faz agora, pudéssemos predizer o que será feito em seguida com tanta certeza quanto predizemos, pela mudança da lua, quando ela estará cheia. Era isso que ele desejava muito descobrir.
Outros também se haviam dedicado a essa investigação com tanto empenho que não encontravam tempo para dormir, nem de dia nem de noite; tampouco tinham ânimo para dormir, tão cheios de ansiedade estavam a respeito dessas coisas.
Alguns pensam que Salomão fala de si mesmo, que estava tão ansioso em prosseguir nessa grande investigação que não conseguia dormir por pensar nela.
- Que tudo isso era trabalho em vão, v. 17. Quando olhamos todas as obras de Deus e da sua providência e comparamos uma parte com outra, não podemos descobrir que haja algum método certo desse tipo pelo qual seja dirigida a obra que se faz debaixo do sol.
Não podemos descobrir nenhuma chave para decifrar essa escrita; nem podemos, examinando precedentes, conhecer a prática desse tribunal ou qual será o seu juízo.
[1.] Embora um homem seja tão diligente quanto possa, embora trabalhe para descobrir isso.
[2.] Embora seja tão engenhoso quanto possa, embora seja sábio em outras coisas e possa sondar os conselhos dos próprios reis e rastreá-los pelas suas pegadas. Ou melhor:
[3.] Embora esteja muito confiante no êxito, embora pense conhecer isso, ainda assim não o conhecerá; não pode descobri-lo. Os caminhos de Deus estão acima dos nossos, nem ele está preso aos seus próprios caminhos anteriores, mas os seus juízos são um grande abismo.