Matthew Henry

Eclesiastes 4

Argumento

Depois de mostrar a vaidade deste mundo na tentação que os poderosos sentem de oprimir e pisotear seus súditos, Salomão mostra aqui também: I. A tentação de descontentamento e impaciência que os oprimidos enfrentam, vv. 1-3.

II. A tentação que os amantes do descanso enfrentam de entregar-se ao descanso e negligenciar o trabalho por medo da inveja, vv. 4-6. III. A insensatez de acumular grandes riquezas terrenas, v. 7, 8. IV. Um remédio para essa insensatez: reconhecer os benefícios do convívio e da ajuda mútua, vv. 9-12.

V. A instabilidade até da dignidade real, não só por causa da insensatez do próprio príncipe (v. 13, 14), mas também pela inconstância do povo, por mais prudente que seja o príncipe, v. 15, 16. Nem mesmo os reis têm o privilégio de ficar livres da vaidade e da inquietação que acompanham essas coisas; portanto, ninguém mais espere tal privilégio.

Versículos 1 a 3

A Prevalência da Opressão.

Salomão tinha grandeza de alma (1 Reis 4:29), e isso se via, entre outras coisas, em sua terna preocupação pelos que sofriam entre os homens e na atenção que dava às aflições dos aflitos.

Ele havia repreendido os opressores (Eclesiastes 3:16, 17) e lembrado a eles o juízo vindouro, para refrear sua insolência; agora observa os oprimidos. Sem dúvida, como príncipe, fazia isso para lhes garantir justiça e vingá-los de seus adversários, pois tanto temia a Deus quanto levava as pessoas em consideração. Aqui, porém, age como pregador e mostra:

I. As tribulações da condição deles (v. 1), das quais fala com profunda sensibilidade e compaixão. Causava-lhe dor:

  1. Ver a força prevalecer contra o direito; ver tanta opressão praticada debaixo do sol; ver servos, trabalhadores e operários pobres oprimidos por patrões que se aproveitam de suas necessidades para impor-lhes as condições que desejam.

Ver devedores oprimidos por credores cruéis, e também credores por devedores fraudulentos; inquilinos oprimidos por proprietários severos e órfãos por tutores traiçoeiros; e, pior que tudo, súditos oprimidos por príncipes arbitrários e juízes injustos.

Tais opressões ocorrem debaixo do sol; acima dele, a justiça reina para sempre. Os sábios considerarão essas opressões e maquinarão fazer algo para aliviar os oprimidos. Bem-aventurado aquele que considera o pobre.

  1. Ver quanto os prejudicados sentiam as injustiças que sofriam. Ele contemplou as lágrimas dos oprimidos e talvez não tenha conseguido deixar de chorar com eles. O mundo é um lugar de gente que chora: para onde quer que olhemos, temos diante de nós uma cena triste, as lágrimas de quem é oprimido por uma tribulação ou outra.

Essas pessoas veem que reclamar não adianta e por isso choram em segredo, como Jó (Jó 16:20; 30:28). Mas bem-aventurados os que choram.

  1. Ver como eram incapazes de ajudar a si mesmas. Do lado dos opressores estava o poder de sustentar e impor o mal que haviam praticado. Assim, os pobres eram esmagados por uma mão forte e não tinham como obter reparação.

É triste ver o poder nas mãos erradas e aquilo que foi dado aos homens para capacitá-los a fazer o bem pervertido para apoiá-los na prática do mal.

  1. Ver como eles e suas calamidades eram desprezados por todos ao redor. Choravam e precisavam de consolo, mas ninguém lhes prestava esse serviço de amigo: não tinham consolador.

Os opressores eram poderosos e ameaçadores, e por isso os oprimidos não tinham consolador. Aqueles que deveriam consolá-los não ousavam fazê-lo, com medo de desagradar aos opressores e de sofrer com os oprimidos por lhes oferecer consolo. É triste ver tão pouca humanidade entre as pessoas.

II. As tentações da condição deles. Tratados com tanta dureza, são tentados a odiar e desprezar a vida, invejar os mortos que jazem no sepulcro e desejar nunca ter nascido (v. 2, 3). Salomão está pronto a concordar com eles, pois isso prova que tudo é vaidade e inquietação, já que muitas vezes a própria vida também o é.

Se desprezamos a vida em comparação com o favor e a fruição de Deus (como Paulo, Atos 20:24; Filipenses 1:23), isso nos honra. Mas, se a desprezamos apenas por causa das misérias que a acompanham, como neste caso, revelamos nossa fraqueza e julgamos segundo a carne, como Jó e Elias fizeram.

  1. Ele considera felizes os que terminaram esta vida miserável, cumpriram seu papel e deixaram o palco: “Louvei os mortos que já morreram, aqueles que foram abatidos de vez ou atravessaram depressa o mundo, tomando um atalho pelo oceano da vida; morreram antes mesmo de começar a viver de verdade.”

“Fiquei satisfeito com a sorte deles e, se lhes coubesse escolher, teria elogiado sua sabedoria por apenas olhar o mundo e depois retirar-se, por não gostar dele. Concluí que estão melhor que os vivos que ainda vivem e nada mais fazem senão arrastar a longa e pesada corrente da vida, deixando passar seus minutos cansativos.”

Isso pode ser comparado não com Jó 3:20, 21, mas com Apocalipse 14:13, onde, em tempos de perseguição como os que Salomão descreve, quem fala não é a paixão humana, mas o Espírito de Deus: “Bem-aventurados os mortos que, desde agora, morrem no Senhor.”

Repare: a condição dos santos que morreram e foram descansar com Deus é, por muitos motivos, melhor e mais desejável que a dos santos vivos que ainda prosseguem em seu trabalho e sua luta.

  1. Ele considera felizes os que nunca começaram esta vida miserável; ou melhor: considera-os os mais felizes de todos: aquele que não existiu é mais feliz que ambos. Melhor nunca ter nascido do que nascer para ver as obras más praticadas debaixo do sol, tanta perversidade cometida e tanta injustiça feita.

E não só ser incapaz de corrigir tudo isso, mas ainda sofrer o mal por fazer o bem. Um homem bom, por mais calamitosa que seja sua condição neste mundo, não tem motivo para desejar nunca ter nascido, pois glorifica o Senhor mesmo em meio às chamas e, por fim, será feliz, feliz para sempre.

Ninguém tampouco deve desejar isso enquanto vive, pois enquanto há vida há esperança. Uma pessoa só está definitivamente perdida quando está no inferno.

Versículos 4 a 6

A Prevalência da Opressão.

Aqui Salomão volta a observar e considerar a vaidade e a inquietação de espírito que acompanham os negócios deste mundo, assunto do qual já havia falado em Eclesiastes 2:11.

I. Se um homem é perspicaz, habilidoso e bem-sucedido em seus negócios, atrai a má vontade dos vizinhos, v. 4. Embora se esforce muito e suporte todo tipo de trabalho, não obtém facilmente seus bens, mas à custa de trabalho árduo.

Tampouco os adquire de maneira desonesta: não faz injustiça a ninguém nem defrauda ninguém. Ao contrário, faz toda obra correta, dedica-se à atividade que lhe cabe e a conduz conforme todas as regras da equidade e do trato justo. Ainda assim, o vizinho o inveja por isso, e tanto mais pela reputação conquistada por sua honestidade. Isso mostra:

  1. Quão pouca consciência tem a maioria das pessoas: guardam rancor de um vizinho, falam mal dele e lhe fazem mal apenas porque ele é mais engenhoso e trabalhador do que elas e tem mais da bênção do céu. Caim invejou Abel; Esaú, Jacó; e Saul, Davi; todos por suas obras corretas. Isso é puro comportamento diabólico.

  2. Quão pouco conforto os homens sábios e úteis devem esperar neste mundo. Por mais cautelosa que seja sua conduta, não conseguem escapar da inveja; e quem pode resistir a ela? Provérbios 27:4.

Os que se destacam na virtude sempre serão desagradáveis aos olhos dos que se excedem no vício. Isso não deve nos desanimar de realizar qualquer obra correta, mas levar-nos a esperar seu louvor de Deus, não das pessoas, e a não contar com satisfação e felicidade nas criaturas.

Pois, se as obras corretas se tornam vaidade e inquietação de espírito, nenhuma obra debaixo do sol pode produzir resultado diferente. Mas, por toda obra correta, um homem será aceito por seu Deus. Então, não precisa se importar com a inveja do vizinho; ela apenas poderá fazê-lo amar menos o mundo.

II. Se um homem é estúpido, lento e desajeitado em seus negócios, causa dano a si mesmo (v. 5). O tolo que trabalha como se tivesse as mãos envoltas e cruzadas, fazendo tudo de maneira desajeitada, é o preguiçoso — pois é um tolo — que ama o descanso e cruza as mãos para mantê-las aquecidas, porque elas se recusam a trabalhar.

Ele come a própria carne: é canibal de si mesmo. Leva-se a tamanha pobreza que não tem nada para comer senão a própria carne; chega a um desespero tão grande que está prestes a comê-la por inquietação. Vive como um cão: fome e descanso.

Como vê que os homens ativos que prosperam no mundo são invejados, vai ao extremo oposto. Para evitar ser invejado por suas obras corretas, faz tudo errado e não merece compaixão. Repare: a ociosidade é um pecado que traz em si seu próprio castigo.

As palavras seguintes (v. 6), “Melhor é uma mão cheia com tranquilidade do que ambas as mãos cheias com trabalho e inquietação de espírito”, podem ser entendidas de duas maneiras:

  1. Ou como razão do preguiçoso para desculpar sua ociosidade. Ele cruza as mãos e distorce e aplica mal uma verdade boa para justificar-se: como ter pouco com tranquilidade é melhor do que ter abundância com contenda, conclui que ter pouco com ociosidade é melhor do que ter abundância com trabalho honesto. Assim é sábio a seus próprios olhos, Provérbios 26:16.

  2. Mas prefiro entendê-las como conselho de Salomão para conservar o meio-termo entre o trabalho que torna uma pessoa alvo da inveja e a preguiça que a faz comer a própria carne. Por meio do trabalho honesto, obtenhamos a mão cheia para não nos faltarem as coisas necessárias, mas não procuremos encher as duas mãos, o que apenas nos trará inquietação de espírito.

Esforço moderado e ganhos moderados são o melhor. Uma pessoa pode possuir apenas uma mão cheia das coisas do mundo e, ainda assim, desfrutar delas e de si mesma com muita tranquilidade, contentamento da mente, paz de consciência e o amor e boa vontade de seus vizinhos.

Ao passo que muitos dos que têm as duas mãos cheias, mais do que o coração poderia desejar, experimentam muito trabalho e inquietação. Deve-se temer que aqueles que não conseguem viver com pouco tampouco viveriam como deveriam se possuíssem muito.

Versículos 7 a 12

A Vaidade dos Desejos Humanos.

Aqui Salomão destaca outro exemplo da vaidade deste mundo: muitas vezes, quanto mais as pessoas possuem, mais querem possuir. Ficam tão concentradas nisso que não desfrutam do que já têm. Salomão mostra:

I. Que o egoísmo é a causa desse mal (v. 7, 8). Há alguém sozinho, que só pensa em si, não se importa com ninguém e, se pudesse, gostaria de ser colocado sozinho no meio da terra. Não tem companheiro nem deseja ter. Julga que uma boca basta numa casa e se ressente de tudo o que é gasto com outra pessoa. Veja como esse verme avarento é descrito:

  1. Faz de si mesmo mero escravo dos negócios. Não tem ninguém sob seus cuidados, nem filho nem irmão, ninguém por quem zelar além de si mesmo, ninguém que dependa dele ou consuma seus recursos, nem parentes pobres. Nem se atreve a casar, por medo das despesas de uma família. Ainda assim, seu trabalho não tem fim.

Trabalha dia e noite, cedo e tarde, e mal consente que ele próprio e aqueles que emprega tenham o descanso necessário. Não se limita ao âmbito de sua própria profissão: quer participar de tudo que lhe possa trazer lucro. Veja Salmos 127:2.

  1. Nunca acha que tem o suficiente: seu olho não se satisfaz com as riquezas. A avareza é chamada de concupiscência dos olhos (1 João 2:16), porque olhar para os bens parece ser tudo o que o homem mundano deseja, Eclesiastes 5:11.

Como observa o bispo Reynolds, ele tem o suficiente para suas costas, para seu ventre, para sua profissão, para sua família e para viver decorosamente no mundo, mas não tem o suficiente para os olhos.

Embora só possa contemplar os bens e contar o dinheiro, sem ter ânimo para usá-lo, continua inquieto porque não possui mais para regalar os olhos.

  1. Nega a si mesmo o conforto do que possui: priva sua alma do bem. Se nossa alma é privada do bem, nós mesmos é que a privamos. Outros podem tirar-nos os bens exteriores, mas não podem roubar-nos nossas graças e nossos consolos, nossos bens espirituais. É culpa nossa se não desfrutamos da própria vida.

Ainda assim, muitos se apegam tanto ao mundo que, ao persegui-lo, privam a alma do bem agora e para sempre. Naufragam na fé e na boa consciência e privam-se não só do favor de Deus e da vida eterna, mas também dos prazeres deste mundo e desta vida presente.

As pessoas mundanas alegam ser sábias no cuidado dos próprios interesses, mas na verdade são inimigas de si mesmas.

  1. Não tem desculpa para fazer isso. Não possui filho nem irmão, ninguém com quem tenha obrigação e em favor de quem possa gastar seus bens com satisfação enquanto vive; ninguém por quem tenha afeto e para quem possa guardá-los com satisfação e deixá-los ao morrer; ninguém pobre ou querido entre os seus.

  2. Não reflete o bastante para perceber sua insensatez. Nunca se pergunta: “Para quem trabalho assim? Trabalho, como deveria, para a glória de Deus e para ter com que ajudar os necessitados?”

“Considero que trabalho apenas para o corpo, um corpo mortal? Trabalho para outros sem saber para quem; talvez para um tolo que espalhará os bens tão depressa quanto eu os reuni, talvez para um inimigo que não guardará gratidão pela minha memória?”

Repare: é sábio quem se esforça pelas coisas deste mundo considerar por quem faz todo esse esforço e se realmente vale a pena privar-se do bem para concedê-lo a um estranho. Se as pessoas não pensam nisso, tudo é vaidade e trabalho penoso; envergonham-se e inquietam-se sem propósito.

II. Que a sociabilidade é o remédio para esse mal. As pessoas são tão mesquinhas porque só pensam em si. Salomão mostra por diversos exemplos que não é bom que o homem esteja só (Gênesis 2:18). Ele tem nisso o desígnio de recomendar-nos tanto o casamento quanto a amizade, duas coisas que os avarentos recusam por causa das despesas.

Mas, se forem estabelecidos com prudência, o conforto e a vantagem de ambos compensarão amplamente o custo. Mesmo no paraíso, o homem não podia ser feliz sem uma companheira; por isso, logo que foi criado, recebeu uma.

  1. Salomão estabelece como verdade que dois são melhores que um. Juntos, são mais felizes do que qualquer um seria sozinho, encontram um no outro mais prazer do que encontrariam apenas em si mesmos, ajudam-se mutuamente a alcançar seu bem-estar e, pela força unida, têm maior capacidade de fazer o bem a outros.

Têm boa recompensa por seu trabalho: qualquer serviço que prestem lhes é retribuído de outra maneira. Quem serve apenas a si mesmo tem apenas a si como pagador e costuma ser mais injusto e ingrato consigo do que seu amigo seria com ele, caso servisse esse amigo.

Prova disso é o homem que trabalha sem parar e, ainda assim, priva a alma do bem: não recebe recompensa por seu trabalho. Quem trata outra pessoa com bondade, porém, tem boa recompensa; a alegria e a vantagem do amor santo compensam abundantemente todo esforço e trabalho de amor.

Daí Salomão infere o dano da solidão: “Ai daquele que está sozinho!” Ele fica exposto a muitas tentações que a boa companhia e a amizade impediriam e o ajudariam a precaver-se contra elas. Falta-lhe o benefício que um homem recebe do apoio de seu amigo, assim como o ferro é afiado pelo ferro.

Portanto, a vida monástica certamente nunca foi destinada a ser um estado de perfeição; tampouco devemos considerar os maiores amantes de Deus aqueles que não conseguem dispor o coração a amar mais ninguém.

  1. Ele prova isso com diversos exemplos dos benefícios da amizade e da boa comunhão:

(1.) Ajuda ocasional numa emergência. É bom que duas pessoas viajem juntas, pois, se uma cair, poderá perder-se por falta de um pouco de ajuda. Se alguém cair em pecado, o amigo o ajudará a restaurar-se com espírito de mansidão; se cair em tribulação, o amigo o consolará e aliviará sua dor.

(2.) Calor mútuo. Assim como é útil ter um companheiro de viagem — amicus pro vehiculo, um amigo é um bom substituto para um veículo —, também é útil ter alguém com quem partilhar a cama: “Se dois se deitarem juntos, têm calor.”

Do mesmo modo, o bom convívio desperta afetos virtuosos e piedosos, e os cristãos aquecem uns aos outros ao estimular-se mutuamente ao amor e às boas obras.

(3.) Força unida. Se um inimigo encontra alguém sozinho, é provável que o vença; essa pessoa não consegue defender-se apenas com suas forças. Se tiver um companheiro, porém, poderá resistir bem: “dois lhe resistirão”.

“Tu me ajudarás contra meu inimigo, e eu te ajudarei contra o teu”, conforme o acordo entre Joabe e Abisai (2 Samuel 10:11). Assim, ambos saem vencedores; separados, ambos teriam sido derrotados.

Como se dizia dos antigos britânicos quando os romanos os invadiram: Dum singuli pugnant, universi vincuntur — enquanto lutam em grupos separados, sacrificam a causa comum.

Na guerra espiritual, podemos ajudar uns aos outros, assim como no trabalho espiritual. Depois do conforto da comunhão com Deus, vem o da comunhão dos santos.

Ele conclui com este provérbio: um cordão de três dobras não se rompe facilmente, assim como um feixe de flechas, embora cada fio ou flecha, isoladamente, se rompa com facilidade.

Ele compara duas pessoas juntas a um cordão de três dobras. Pois, quando duas estão intimamente unidas em amor santo e comunhão, Cristo virá a elas por seu Espírito e será o terceiro, como se juntou aos dois discípulos a caminho de Emaús. Então há um cordão de três dobras que nunca se poderá romper. Aqueles que permanecem no amor permanecem em Deus, e Deus neles.

Versículos 13 a 16

As Vantagens do Convívio.

Salomão era rei e, por isso, pode falar com mais liberdade que outros sobre a vaidade da condição e da dignidade real. Aqui mostra como são incertas. Já dissera antes, em Provérbios 27:24, que a coroa não perdura por todas as gerações; seu filho comprovou essa verdade. Nada é mais instável que a mais alta posição de honra sem sabedoria e sem o amor do povo.

I. Um rei não é feliz se lhe falta sabedoria, v. 13, 14. Quem é na verdade sábio, prudente e piedoso, ainda que seja pobre neste mundo e muito jovem e, por ambas as razões, seja desprezado e poucos reparem nele, é melhor, tem mais valor na verdade e é mais digno de respeito.

Provavelmente cuidará melhor de si e será maior bênção para sua geração do que um rei, até mesmo um rei velho e, portanto, venerável tanto pela maturidade quanto pela dignidade, se esse rei for insensato e não souber conduzir os assuntos públicos por conta própria nem aceitar a advertência e o conselho de outros.

Ele não sabe receber advertência: não permite que lhe deem conselho ou advertência — ninguém ao seu redor ousa contradizê-lo —, ou não dá ouvidos aos conselhos e advertências recebidos.

A recusa em receber advertência está longe de fazer parte da honra dos reis; é a maior desonra que podem sofrer. A insensatez e a obstinação costumam andar juntas, e os que mais precisam de advertência são os que menos a suportam.

Nem a idade nem os títulos garantirão respeito a alguém sem verdadeira sabedoria e virtude. Já a sabedoria e a virtude conquistarão honra mesmo para quem enfrenta as desvantagens da juventude e da pobreza.

Para provar que o jovem sábio é melhor que o rei insensato, Salomão mostra o desfecho de cada um, v. 14. 1. Um pobre, por sua sabedoria, é elevado a um cargo, como José, que, ainda jovem, saiu da prisão para tornar-se o segundo homem do reino. Salomão parece fazer referência a essa história.

A Providência às vezes levanta os pobres do pó para colocá-los entre os príncipes, Salmos 113:7, 8. A sabedoria conquistou para pessoas não apenas a liberdade, mas também a dignidade: elevou-as do monturo e da masmorra ao trono.

  1. Um rei, por sua insensatez e obstinação, empobrece. Embora tenha nascido em seu reino e o recebido por herança, embora nele tenha envelhecido e tido tempo para encher seus tesouros, se seguir maus caminhos e não aceitar mais advertência como antes, julgando-se velho demais para isso, ainda assim ficará pobre.

Seu tesouro se esgotará, e talvez seja obrigado a renunciar à coroa e retirar-se para a vida privada.

II. Um rei provavelmente não continuará no trono se não tiver lugar firme no afeto do povo. Isso é sugerido, embora de modo um tanto obscuro, nos dois últimos versículos.

  1. Quem é rei precisa ter sucessor, um segundo, um jovem que ocupará seu lugar, talvez seu próprio filho, ou talvez o jovem pobre e sábio mencionado no v. 13. Ao envelhecer, os reis precisam suportar a humilhação de ver aqueles que os substituirão e ocuparão seu lugar.

  2. É comum o povo adorar o sol nascente: todos os viventes que andam debaixo do sol ficam ao lado do segundo jovem, apoiam seus interesses, convivem com ele e lhe fazem mais corte do que ao pai, a quem consideram de saída e desprezam porque seus melhores dias passaram.

Salomão refletiu sobre isso. Viu que seu próprio povo tinha essa disposição, que se manifestou logo depois de sua morte nas queixas sobre seu governo e no desejo de mudança.

  1. O povo nunca fica tranquilo nem satisfeito por muito tempo: não há fim nem descanso para toda essa gente. Deseja continuamente mudanças sem saber o que quer.

  2. Isso não é novidade, mas sempre foi o modo de agir dos que vieram antes deles. Há exemplos em todas as épocas: nem Samuel e Davi puderam agradar sempre.

  3. Assim como foi antes, provavelmente continuará a ser: os que vierem depois terão o mesmo espírito e não se alegrarão por muito tempo com aquele de quem, a princípio, pareciam gostar tanto. Hoje: “Hosana!”; amanhã: “Crucifica!”

  4. Não pode deixar de ser grande dor para os príncipes ver-se desprezados por aqueles a quem procuraram agradar e de quem dependeram. Não há fidelidade nem constância no homem. Isso é vaidade e inquietação de espírito.


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