Eclesiastes 11
Argumento
Neste capítulo temos: I. Uma exortação insistente às obras de caridade e generosidade para com os pobres, como o melhor remédio para a vaidade a que nossas riquezas terrenas estão sujeitas e o único modo de fazê-las render verdadeiro proveito, vv. 1-6. II. Uma séria advertência para nos prepararmos para a morte e o juízo e começarmos a fazê-lo cedo, mesmo nos dias da nossa juventude, vv. 7-10.
Versículos 1 a 6
As Obrigações de Ser Generoso; Respostas às Objeções contra a Generosidade.
Salomão insistiu muitas vezes, neste livro, para que os ricos desfrutassem das próprias riquezas; aqui insiste para que as usem em benefício dos outros e sejam abundantemente generosos com os pobres, o que, um dia, redundará em abundância a seu favor. Observe:
I. Como o próprio dever nos é recomendado, v. 1. 1. “Lança teu pão sobre as águas”, teu grão destinado a pão sobre os terrenos baixos (assim entendem alguns), numa alusão ao lavrador que sai levando semente preciosa e poupa parte do grão destinado ao pão de sua família para usá-lo na semeadura, sabendo que sem isso não poderá ter colheita no ano seguinte.
Assim também o homem caridoso separa do grão destinado a pão o grão para semear; restringe a si mesmo para suprir os pobres, a fim de semear junto a todas as águas (Isaías 32:20), porque, assim como semear, assim colherá, Gálatas 6:7. Lemos sobre a colheita do rio, Isaías 23:3.
Na Escritura, águas representam multidões (Apocalipse 17:15), e há multidões de pobres (não nos faltam pessoas a quem prestar caridade); águas também representam os que choram: os pobres são homens de dores. Você deve dar pão, os meios necessários de sustento da vida; não apenas boas palavras, mas coisas boas, Isaías 58:7.
Deve ser o seu pão, obtido honestamente; dar o que não é nosso para dar não é caridade, mas injúria. Primeiro, pratique a justiça; depois, ame a misericórdia. “O teu pão, que tiveste o desígnio de reservar para ti, deixa que os pobres tenham parte contigo, como tiveram com Jó (Jó 31:17).”
“Dá livremente aos pobres, como algo lançado sobre as águas. Envia-o numa viagem, envia-o como investimento arriscado, à maneira dos mercadores que comerciam pelo mar. Confia-o às águas; ele não afundará.”
- “Dá porção a sete e também a oito; isto é, sê desprendido e generoso nas obras de caridade.” (1.) “Dá muito, se tens muito para dar: não uma ninharia, mas uma porção; não um ou dois bocados, mas um prato, uma refeição. Dá uma esmola farta, não mesquinha; dá boa medida (Lucas 6:38).”
“Sê generoso ao dar, como aqueles que, nos dias de festa, enviavam porções aos que nada tinham preparado (Neemias 8:10), porções dignas.” (2.) “Dá a muitos, a sete e também a oito; se encontrares sete pessoas necessitadas, dá a todas; se encontrares uma oitava, dá-lhe também; e, se encontrares outras oito, dá a todas elas.”
“Não uses o bem que já fizeste como desculpa para deixar de fazer o bem que ainda te cabe fazer; prossegue e melhora. Em tempos difíceis, quando cresce o número de pobres, amplia proporcionalmente tua caridade.”
Deus é rico em misericórdia para com todos, inclusive para conosco, embora indignos; ele dá generosamente e não repreende por suas dádivas anteriores. Devemos ser misericordiosos como nosso Pai celestial.
II. Os motivos pelos quais esse dever nos é recomendado. Considere:
- Nossa recompensa por fazer o bem é muito certa. “Embora lances o pão sobre as águas e ele pareça perdido, pensas que te despediste dele e que provavelmente nunca mais terás notícia dele, ainda assim o encontrarás depois de muitos dias, como o lavrador reencontra sua semente numa colheita abundante e o mercador, seu investimento num retorno lucrativo.”
“Ele não está perdido, mas foi bem empregado e bem guardado. Rende juros plenos nas dádivas presentes da providência de Deus e nas graças e consolações do seu Espírito; e o capital está seguro, depositado no céu, pois foi emprestado ao Senhor.”
Sêneca, um pagão, pôde dizer: Nihil magis possidere me credam, quam bene donata — Nada possuo tão plenamente quanto aquilo que doei.
Hoc habeo quodcunque dedi; hæ sunt divitiæ certæ in quacunque sortis humanæ levitate — Tudo quanto dei ainda possuo; essas riquezas permanecem comigo em todas as vicissitudes da vida. “Tu o encontrarás, talvez não depressa, mas depois de muitos dias. O retorno pode demorar, mas é certo e será tanto mais abundante.”
O trigo, o cereal mais valioso, é o que fica por mais tempo na terra. As viagens longas dão os melhores retornos.
- Nossa oportunidade para fazer o bem é muito incerta: “Tu não sabes que mal poderá sobrevir à terra, privar-te dos bens e tirar-te a capacidade de fazer o bem. Portanto, enquanto dispões de recursos, sê generoso; aproveita a estação presente, como o lavrador que semeia a terra antes de chegar a geada.”
Temos motivo para esperar males na terra, pois nascemos para enfrentar tribulações. Não sabemos qual será o mal, mas, para estarmos preparados para ele, seja qual for, convém, no dia da prosperidade, estar no bem e fazer o bem. Muitos usam isso como razão contra dar aos pobres: não sabem se virão tempos difíceis nos quais eles mesmos passarão necessidade.
Entretanto, deveríamos, por isso mesmo, ser mais caridosos, para que, quando chegarem os dias maus, tenhamos o consolo de haver feito o bem enquanto podíamos. Nesse momento, esperaríamos encontrar misericórdia tanto diante de Deus quanto dos homens; por isso, devemos agora mostrar misericórdia.
Se, por meio da caridade, confiamos a Deus o que possuímos, colocamos nossos bens em boas mãos para os tempos difíceis.
III. Como ele afasta as objeções que poderiam ser feitas contra esse dever e as desculpas dos que não praticam a caridade.
- Alguns dirão que aquilo que possuem lhes pertence e se destina ao seu próprio uso, e perguntarão: “Por que lançaríamos isso assim sobre as águas? Por que tomaria eu meu pão e minha carne para dá-los a não sei quem?” Assim fez Nabal seu apelo, 1 Samuel 25:11.
“Olha para cima, homem, e considera quão depressa morrerias de fome num terreno estéril se as nuvens acima da tua cabeça fizessem esse apelo, dizendo que guardam suas águas para si. Mas vês que, quando estão cheias de chuva, elas a derramam sobre a terra para torná-la fértil, até se cansarem e se esgotarem de tanto regá-la, Jó 37:11.”
“Os céus são assim generosos para com a pobre terra, que está tão abaixo deles, e tu negarás tua generosidade ao teu irmão pobre, que é osso dos teus ossos?” Ou, ainda: alguns dirão: “Embora demos pouco aos pobres, graças a Deus temos um coração tão caridoso quanto qualquer outro.”
Ou melhor, diz Salomão: se as nuvens estiverem cheias de chuva, a derramarão; se houver caridade no coração, ela se manifestará, Tiago 2:15, 16. Quem abre a alma ao faminto estenderá a mão para ele, na medida de suas possibilidades.
- Alguns dirão que seu campo de atuação é pequeno e restrito. Não conseguem fazer o bem que veem outras pessoas fazerem, as quais ocupam posições de maior visibilidade; por isso, ficarão paradas, sem fazer nada. Ou melhor, diz ele: no lugar onde a árvore cair, ou onde vier a estar, ali permanecerá para benefício daqueles a quem pertence.
Cada um deve esforçar-se para ser uma bênção no lugar, seja ele qual for, em que a providência de Deus o colocou. Onde quer que estejamos, podemos encontrar boas obras a fazer, se ao menos tivermos disposição para isso.
Ou ainda: alguns dirão: “Muitos se apresentam como necessitados de caridade sem merecê-la, e não sei a quem é apropriado dar.” “Não te inquietes com isso”, diz Salomão. “Dá com toda a prudência de que fores capaz e, então, contenta-te em saber que, mesmo que a pessoa se revele indigna da tua caridade, ainda assim, se deres de coração sincero, não perderás tua recompensa.”
“Seja qual for a direção para onde se encaminhe a caridade, norte ou sul, o benefício dela será teu.” Essa passagem costuma ser aplicada à morte. Por isso, façamos o bem e, como boas árvores, produzamos frutos de justiça, pois logo virá a morte e nos derrubará.
Então seremos destinados a um estado imutável de felicidade ou miséria, conforme o que fizemos no corpo. Como a árvore cai na morte, assim provavelmente permanecerá por toda a eternidade.
- Alguns objetarão que encontraram muitos motivos de desânimo em suas obras de caridade. Receberam descrédito por elas como orgulhosos e farisaicos; têm apenas pouco para dar e serão desprezados se não derem tanto quanto os outros; não sabem se seus filhos virão a precisar do que deram e pensam que seria melhor reservá-lo para eles.
Têm impostos a pagar e aquisições a fazer; não sabem que uso será feito da sua caridade nem como ela será interpretada. A essas e a centenas de objeções semelhantes, ele responde com uma palavra (v. 4): “Quem observa o vento não semeará”, o que significa fazer o bem; e “quem olha para as nuvens não colherá”, o que significa receber o bem.
Se ficarmos exagerando cada pequena dificuldade e imaginando o pior, levantando objeções e supondo agruras e perigos onde não existem, nunca avançaremos, muito menos levaremos nosso trabalho até o fim ou conseguiremos realizar algo com ele.
Se o lavrador deixasse de semear por causa de toda nuvem passageira e de colher por causa de cada rajada de vento, ao fim do ano teria péssimos resultados com seu cultivo.
Os deveres religiosos são tão necessários quanto semear e colher, e nos trarão tanto benefício quanto eles. Os desânimos que encontramos nesses deveres são apenas como ventos e nuvens: não nos causarão prejuízo, e aqueles que se revestem de um pouco de coragem e determinação os desprezarão e vencerão facilmente.
Repare: quem se deixa afastar de deveres grandes e reais por dificuldades pequenas e aparentes nunca realizará coisa alguma na religião, pois sempre surgirá algum vento ou alguma nuvem, pelo menos na imaginação, para desanimá-lo. Ventos e nuvens estão nas mãos de Deus; têm o desígnio de provar-nos, e nosso cristianismo nos obriga a suportar as dificuldades.
- Alguns dirão: “Não vemos de que maneira aquilo que gastamos com caridade nos será restituído. Não percebemos que estamos ficando mais ricos. Por que deveríamos confiar na promessa geral de bênção aos caridosos, se não vemos por que meio esperar sua realização?”
A isso ele responde: “Tu não conheces a obra de Deus, nem convém que a conheças. Podes ter certeza de que ele cumprirá a palavra da sua promessa, embora não te diga como nem por qual caminho; e embora ele aja à sua maneira, segundo os conselhos de sua sabedoria insondável. Ele agirá, e ninguém o impedirá; mas então agirá sem que ninguém o dirija ou lhe prescreva o que fazer.”
“A bênção operará de modo imperceptível, mas irresistível. A obra de Deus certamente concordará com sua palavra, quer a vejamos, quer não.” Ele mostra nossa ignorância da obra de Deus por meio de dois exemplos: (1.) Não conhecemos o caminho do Espírito, ou do vento (segundo alguns); não sabemos de onde vem, para onde vai nem quando mudará de direção.
Entretanto, os marinheiros permanecem prontos à espera dele até que sopre a seu favor. Assim também devemos cumprir nosso dever, esperando o tempo designado para a bênção.
Ou essa passagem pode referir-se à alma humana: sabemos que Deus nos fez e nos deu essas almas, mas não sabemos como elas entraram em nossos corpos, se uniram a eles, lhes deram vida e agem sobre eles. A alma é um mistério para si mesma; não admira, portanto, que a obra de Deus seja um mistério para nós.
(2.) Não sabemos como os ossos são formados no ventre da gestante. Não conseguimos descrever nem a maneira como o corpo se forma nem como recebe uma alma. Sabemos que ambos são obra de Deus e aceitamos sua obra, mas em nenhum dos casos conseguimos acompanhar o processo pelo qual se realiza.
Não duvidamos de que a criança concebida nascerá, embora não saibamos como ela é formada; tampouco precisamos duvidar do cumprimento da promessa, ainda que não percebamos como os acontecimentos caminham para isso.
Podemos confiar em Deus para prover o que nos convém, sem ansiedades que nos perturbem, e para assim recompensar nossa caridade. Afinal, sem qualquer conhecimento ou previsão de nossa parte, nossos corpos foram formados com primor em segredo e nossas almas encontraram o caminho até eles.
Desse modo, o argumento é o mesmo, apresentado com o mesmo propósito que o de nosso Salvador (Mateus 6:25): A vida, a alma vivente que Deus nos deu, é mais do que o alimento; o corpo que Deus nos fez é mais do que a roupa. Portanto, confiemos alegremente que aquele que fez por nós o maior também fará o menor.
- Alguns dizem: “Fomos caridosos, demos muito aos pobres e até agora não vimos retorno algum. Muitos dias se passaram e não reencontramos o que demos.” A isso ele responde (v. 6): “Ainda assim, continua, prossegue e persevera em fazer o bem; não deixes escapar nenhuma oportunidade.”
“Pela manhã, semeia tua semente entre as pessoas necessitadas que aparecerem cedo; à tarde, não retenhas tua mão sob a alegação de estares cansado. Sempre que tiveres oportunidade, faze o bem de uma forma ou de outra ao longo do dia inteiro, como o lavrador que se ocupa da semeadura da manhã até a noite.”
“Na manhã da juventude, dedica-te a fazer o bem; dá do pouco que tens ao começar a vida. E, na tarde da velhice, não cedas à tentação comum aos idosos de serem avarentos. Mesmo então, não retenhas tua mão nem penses em te desculpar das obras de caridade com o propósito de fazer um testamento beneficente. Faze o bem até o fim.”
“Pois não sabes qual obra de caridade e piedade prosperará, tanto para os outros quanto para ti: esta ou aquela. Mas tens motivo para esperar que ambas sejam igualmente boas. Não te canses de fazer o bem, pois no tempo oportuno, no tempo de Deus, que é o melhor, colherás”, Gálatas 6:9.
Isso também se aplica à caridade espiritual, aos nossos esforços piedosos pelo bem das almas alheias. Devemos prosseguir neles, pois, embora por muito tempo tenhamos trabalhado em vão, talvez afinal vejamos seu fruto. Que os ministros, nos dias de sua semeadura, semeiem tanto de manhã quanto de tarde; pois quem pode dizer qual das sementes prosperará?
Versículos 7 a 10
Advertência aos Jovens; Exortação à Piedade desde Cedo.
Aqui há uma advertência tanto aos idosos quanto aos jovens para que pensem na morte e se preparem para ela. Depois de nos ensinar, por meio de muitos preceitos excelentes, a viver bem, o pregador passa agora, perto do fim de seu discurso, a ensinar-nos a morrer bem e a lembrar-nos de nosso fim.
I. Ele se dirige aos idosos, escreve-lhes como a pais, para despertá-los a pensar na morte, vv. 7-8. Aqui há: 1. Um reconhecimento sensato da doçura da vida, que os idosos conhecem por experiência: “Verdadeiramente, doce é a luz”; assim é a luz do sol, e é agradável aos olhos contemplá-la.
A luz foi a primeira coisa criada na formação do grande mundo, assim como o olho é uma das primeiras partes formadas no corpo, o pequeno mundo. É agradável ver a luz; os pagãos ficaram tão encantados com esse prazer que adoraram o sol. É agradável, por meio dela, ver outras coisas, os muitos panoramas aprazíveis que este mundo nos oferece. Assim também é a luz da vida.
Luz representa vida, Jó 3:20, 23. Não se pode negar que a vida é doce. É doce para os maus porque têm sua porção nesta vida; é doce para os bons porque esta vida é o tempo de preparação para uma vida melhor; é doce para todos. A natureza afirma isso, e não há como contestá-la.
Tampouco se pode desejar a morte por ela mesma; deve-se temê-la, salvo como fim dos males presentes ou passagem para um bem futuro.
A vida é doce, por isso precisamos redobrar a vigilância sobre nós mesmos, para não amá-la em excesso. 2. Uma advertência para pensar na morte, mesmo em meio à vida, sobretudo quando a vida é mais doce e estamos mais propensos a esquecer a morte: Se alguém viver muitos anos, lembre-se, contudo, de que virão dias de trevas.
Aqui temos: (1.) Supõe-se o desfrute de um dia de verão: a vida pode prolongar-se por muitos anos e, pela bondade de Deus, ser agradável, de modo que a pessoa se alegre em todos eles. Há pessoas que vivem muitos anos neste mundo, escapam de muitos perigos e recebem muitas misericórdias; por isso, julgam-se seguras de que nenhum bem lhes faltará nem mal algum lhes acontecerá.
Pensam que o cântaro que tantas vezes voltou inteiro e intacto do poço jamais voltará quebrado. Mas quem são aqueles que vivem muitos anos e se alegram em todos eles? Infelizmente, ninguém: temos apenas horas de alegria para meses de tristeza.
Ainda assim, algumas pessoas se alegram em seus anos, em seus muitos anos, mais do que outras. Se essas duas coisas se juntarem, uma condição próspera e um espírito alegre, elas, de fato, poderão ajudar muito a pessoa a alegrar-se em todos os seus anos. Contudo, mesmo a condição mais próspera tem suas amarguras, e até o espírito mais alegre conhece abatimentos.
Pecadores que vivem em festa têm crises de melancolia, e santos alegres têm tristezas piedosas. Portanto, que alguém viva muitos anos e se alegre em todos eles é apenas uma suposição, não um caso real. Mas: (2.) Depois desse dia de verão, somos chamados a esperar uma noite de inverno: ainda assim, que esse idoso vigoroso se lembre dos dias de trevas, pois serão muitos.
Repare: [1.] Virão dias de trevas, os dias em que jazeremos na sepultura. Ali o corpo ficará na escuridão; ali os olhos não veem e o sol não brilha. As trevas da morte se opõem à luz da vida; a sepultura é uma terra de trevas, Jó 10:21. [2.] Esses dias de trevas serão muitos; os dias em que jazeremos sob a terra serão mais numerosos do que aqueles em que vivemos sobre ela.
São muitos, mas não são infinitos; por mais numerosos que sejam, serão contados e terminarão quando os céus já não existirem, Jó 14:12. Assim como o dia mais longo terá sua noite, também a noite mais longa terá sua manhã.
[3.] É bom lembrarmo-nos com frequência desses dias de trevas, para não nos exaltarmos em orgulho, não adormecermos na segurança carnal nem mesmo sermos levados a atitudes indecentes por uma alegria vã.
[4.] Apesar da longa duração da vida e de seus muitos consolos, ainda assim devemos lembrar-nos dos dias de trevas, porque certamente virão; e virão com muito menos terror se tivermos pensado neles antes.
II. Ele se dirige aos jovens e escreve-lhes como a filhos, para despertá-los a pensar na morte (vv. 9-10). Aqui temos:
- Uma concessão irônica às vaidades e aos prazeres da juventude: “Alegra-te, jovem, na tua mocidade!” Alguns entendem isso como o conselho dado ao jovem pelo ateu e pelo epicurista, sugestões venenosas contra as quais Salomão prescreve um poderoso antídoto no fim do versículo.
Mas a passagem ganha mais força se a entendermos, como geralmente se faz, em sentido irônico, semelhante às palavras de Elias aos sacerdotes de Baal (“Clamai alto, porque ele é deus”), às de Micaías a Acabe (“Vai a Ramote-Gileade e prospera”) ou às de Cristo aos discípulos (“Dormi agora”).
“Alegra-te, jovem, na tua mocidade!” “Leva uma vida alegre, entrega-te aos divertimentos e busca teus prazeres.” “Que teu coração te alegre nos dias da tua juventude, com suas fantasias e esperanças tolas; entretém-te com teus sonhos agradáveis.” “Anda nos caminhos do teu coração; faze tudo quanto tiveres vontade de fazer e não hesites diante de nada que possa satisfazer o apetite sensual.”
“Quicquid libet, licet — Faze da tua vontade a tua lei.” “Anda nos caminhos do teu coração e deixa teu coração seguir teus olhos: um coração errante atrás de olhos vagantes.” “Faze o que é agradável aos teus próprios olhos, quer seja agradável aos olhos de Deus, quer não.”
Salomão fala assim ironicamente ao jovem para indicar: (1.) Que é isso que ele faria e que muito deseja ter liberdade para fazer, pois nisso coloca sua felicidade e fixa seu coração. (2.) Que ele deseja que todos à sua volta lhe deem tal conselho e lhe profetizem coisas agradáveis como essas; não suporta conselhos contrários e considera inimigos os que lhe recomendam sobriedade e seriedade.
(3.) Para expor a loucura dele e o grande absurdo de uma vida entregue aos vícios e aos prazeres. A simples descrição desse modo de viver, se as pessoas vissem as coisas por inteiro e as julgassem imparcialmente, basta para mostrar quão contrariamente à razão agem os que assim vivem. A mera exposição do caso basta para decidi-lo, sem necessidade de qualquer razão.
(4.) Para mostrar que, se as pessoas se entregam a esse modo de viver, é justo que Deus as entregue a ele, abandonando-as aos desejos de seu próprio coração, para que sigam seus próprios conselhos, Salmos 81:12.
- Um poderoso freio imposto a essas vaidades e prazeres: “Sabe que por todas essas coisas Deus te trará a juízo. Considera isso devidamente e, então, vive de modo tão luxuoso, se fores capaz e se ousares.” Isso é um kolasterion — um corretivo para a concessão anterior — e recolhe as rédeas que ele havia deixado soltas sobre o pescoço das paixões do jovem.
“Sabe, portanto, com certeza que, se te permitires tal liberdade, isso será tua ruína eterna. Tens de lidar com um Deus que não deixará essas coisas sem punição.” Repare: (1.) Há um juízo por vir. (2.) Cada um de nós será levado a juízo, por mais que agora afastemos de nós esse dia mau.
(3.) Naquele dia, prestaremos contas de toda a nossa alegria carnal e dos prazeres sensuais. (4.) É bom que todos, sobretudo os jovens, saibam e considerem isso, para que, ao darem vazão às paixões da juventude, não acumulem contra si cólera para aquele dia da cólera, a cólera do Cordeiro.
- Uma palavra de advertência e exortação que decorre de tudo isso, v. 10. Que os jovens cuidem de si mesmos e governem bem tanto a alma quanto o corpo, o coração e a carne. (1.) Que zelem para que sua mente não se exalte em orgulho nem se perturbe com ira ou qualquer outra paixão pecaminosa: afaste a tristeza ou a ira do seu coração. A palavra indica qualquer desordem ou perturbação da mente.
Os jovens tendem a não tolerar repreensão nem restrição; irritam-se e afligem-se com tudo o que os humilha ou mortifica, e seu coração orgulhoso se levanta contra tudo o que contraria sua vontade. Estão tão voltados para o que agrada aos sentidos que não suportam nada desagradável; isso entristece seu coração. O orgulho muitas vezes os perturba e lhes tira a paz.
“Afasta isso, bem como o amor ao mundo, e espera pouco das coisas criadas; assim, as decepções não te darão motivo de tristeza e ira.” Alguns entendem que a tristeza aqui se refere à alegria carnal descrita no v. 9, cujo fim será amargura e tristeza. Que os jovens se mantenham distantes de tudo aquilo que, mais tarde, lhes causará tristeza ao recordar.
(2.) Que zelem para que seu corpo não seja maculado pela intemperança, pela impureza ou por qualquer desejo carnal: “Afasta o mal da carne e não permitas que os membros do teu corpo se tornem instrumentos de injustiça.”
“O mal do pecado se tornará o mal do castigo; aquilo a que te apegas por julgá-lo bom para a carne, porque satisfaz seus apetites, mostrará ser mau e prejudicial a ela.” “Portanto, afasta-o de ti; quanto mais longe, melhor.”
III. Para reforçar sua advertência tanto aos idosos quanto aos jovens, o pregador apresenta como razão eficaz aquilo que é a grande razão de seu discurso: a vaidade de todas as coisas presentes, sua incerteza e insuficiência. 1. Ele lembra disso aos idosos (v. 8): “Tudo o que vem é vaidade.”
Sim, e ainda, mesmo que alguém viva muitos anos e se alegre em todos eles, tudo o que já veio e tudo o que ainda virá, por mais que as pessoas prometam a si mesmas nas cenas finais, é vaidade. O que virá não fará os homens mais felizes do que aquilo que já passou. Todos os que vêm ao mundo são vaidade; são-no inteiramente, mesmo em sua melhor condição.
- Ele lembra disso aos jovens: “A infância e a juventude são vaidade.” As inclinações e os atos da infância e da juventude contêm muita futilidade e iniquidade, uma vaidade pecaminosa contra a qual os jovens precisam vigiar e da qual precisam ser curados.
Os prazeres e as vantagens da infância e da juventude não oferecem certeza, satisfação nem duração. Estão passando; essas flores logo murcharão e esses botões cairão. Portanto, que se transformem em bons frutos, que permanecerão e renderão abundante proveito.