Matthew Henry

Deuteronômio 21

Argumento

Neste capítulo há provisões: I. Para remover da terra a culpa de sangue quando quem derramou esse sangue fugiu da justiça, vv. 1-9. II. Para preservar a honra de uma jovem cativa, vv. 10-14. III. Para assegurar o direito de um filho primogênito, embora não fosse favorecido, vv. 15-17.

IV. Para conter e punir um filho rebelde, vv. 18-21. V. Para preservar a honra dos corpos humanos, que não devem ficar pendurados em correntes, mas ser sepultados decorosamente, mesmo os corpos dos piores criminosos, v. 22, 23.

Versículos 1 a 9

Assassinato Não Descoberto. (a.C. 1451.)

Algumas leis anteriores haviam zelado pela perseguição vigorosa e eficaz do assassino deliberado, Deuteronômio 19:11, etc. Executá-lo removeria da terra a culpa de sangue.

Se isso não fosse possível, porém, porque o assassino não fora descoberto, não deveriam pensar que a terra estava livre do perigo de contaminação apenas porque não fora por negligência deles que o assassino ficou impune. Não: institui-se aqui uma grande cerimônia para remover a culpa, como expressão do temor e da detestação desse pecado.

I. Supõe-se o caso de alguém ser encontrado abatido, sem que se saiba quem o abateu, v. 1. Às vezes, pela providência de Deus, essas obras ocultas das trevas vêm à luz de maneira extraordinária e, por acontecimentos estranhos, o pecado dos culpados os denuncia, tanto que se tornou provérbio: “O assassinato virá à tona.” Mas nem sempre é assim.

De tempos em tempos, as promessas do diabo de segredo e impunidade neste mundo se cumprem, mas só por algum tempo. Virá o dia em que os assassinatos secretos serão descobertos: “a terra descobrirá o seu sangue”, Isaías 26:21, quando a justiça investigar o caso. E virá a eternidade em que os que escaparam da punição humana estarão sob o justo juízo de Deus.

A impunidade com que tantos assassinatos e outros crimes são cometidos neste mundo torna necessário que haja um dia de juízo, para que Deus exija contas do que passou, Eclesiastes 3:15.

II. Dão-se instruções sobre o que fazer nesse caso. Observe:

  1. Pressupõe-se que se tenha feito uma busca diligente pelo assassino, examinado testemunhas e investigado rigorosamente as circunstâncias, para que, se possível, descobrissem o culpado. Se, apesar de tudo, não fosse possível chegar a uma conclusão nem acusar alguém, então:

(1.) Cuidariam do caso os anciãos da cidade mais próxima, com tribunal de 23 membros. Se houvesse dúvida sobre qual era a mais próxima, o grande Sinédrio enviaria comissários para determinar isso por medição exata, v. 2, 3. Repare: as autoridades públicas devem zelar pelo bem comum.

Também os que têm poder e prestígio nas cidades devem esforçar-se para reparar agravos e corrigir o que estiver errado no campo e nos povoados vizinhos. Os que vivem perto deles devem receber a maior parte de sua boa influência, como ministros de Deus para o bem.

(2.) Os sacerdotes e levitas deveriam ajudar e presidir a cerimônia, v. 5, para dirigir todos os detalhes conforme a lei e, em especial, representar o povo diante de Deus na oração que deveria ser feita nessa triste ocasião, v. 8.

Sendo Deus o Rei de Israel, seus ministros deveriam ser magistrados; por sua palavra, como porta-vozes do tribunal e conhecedores da lei, toda controvérsia deveria ser julgada. Era privilégio de Israel ter guias, supervisores e governantes assim; e seu dever era recorrer a eles em todas as ocasiões, especialmente nas questões sagradas, como esta.

(3.) Deveriam levar uma novilha a um vale áspero e desabitado e ali matá-la, v. 3, 4. Não era sacrifício, pois ela não era levada ao altar, mas um protesto solene de que matariam o assassino dessa maneira se o tivessem nas mãos. A novilha não deveria ter puxado o jugo, para significar, dizem alguns, que o assassino era filho de Belial.

Deveria ser levada a um vale áspero para indicar o horror do ato e que a mácula que o sangue traz sobre uma terra a torna estéril. Os judeus dizem que, depois disso, se o assassino não fosse descoberto, o vale em que a novilha foi morta nunca deveria ser cultivado nem semeado.

(4.) Os anciãos deveriam lavar as mãos com água sobre a novilha morta e declarar não só que não haviam derramado aquele sangue inocente, mas também que não sabiam quem o fizera, v. 6, 7, nem haviam escondido o assassino conscientemente, ajudado em sua fuga ou colaborado de qualquer maneira. Davi alude a esse costume: “Lavarei as minhas mãos na inocência”, Salmos 26:6.

Mas, se Pilatos tinha isso em mente, Mateus 27:24, aplicou-o de maneira lamentável: condenou Cristo sabendo que era inocente e, ainda assim, declarou-se livre da culpa pelo sangue inocente. Protestatio non valet contra factum: protestos não valem quando os fatos os contradizem.

(5.) Os sacerdotes deveriam orar a Deus pelo país e pela nação, para que Deus tivesse misericórdia deles e não trouxesse sobre eles os juízos que a conivência com o pecado do assassinato mereceria.

Podia-se presumir que o assassino fosse ou alguém da cidade deles ou alguém agora abrigado na cidade deles; por isso deveriam orar para que sua presença entre eles não lhes trouxesse dano, Números 16:22.

“Tem misericórdia, ó Senhor, do teu povo Israel”, v. 8. Repare: quando ouvimos falar da perversidade dos ímpios, precisamos clamar fervorosamente a Deus por misericórdia para nossa terra, que geme e treme sob esse peso.

Com nossas orações, devemos esvaziar a medida que outros enchem com seus pecados.

  1. Agora, essa cerimônia solene foi instituída:

(1.) Para dar ocasião a conversas públicas e comuns sobre o assassinato, o que talvez, de uma maneira ou de outra, levasse à descoberta dele.

(2.) Para incutir no povo temor da culpa de sangue, que macula não apenas a consciência de quem o derrama — isso deveria levar todos nós a orar com Davi: “Livra-me da culpa de sangue” —, mas também a terra onde é derramado. O sangue clama ao magistrado por justiça contra o criminoso e, se não for ouvido, clama ao céu por juízo contra a terra.

Se era preciso tanto zelo para livrar a terra da culpa quando o assassino era desconhecido, certamente seria impossível livrá-la se ele fosse conhecido e mesmo assim protegido. Por essa cerimônia, todos aprenderiam a empregar o seu máximo zelo e diligência para prevenir, descobrir e punir o assassinato. Até os marinheiros pagãos temeram a culpa de sangue, Jonas 1:14.

(3.) Para que todos aprendamos a tomar cuidado para não participar dos pecados de outras pessoas e não nos tornarmos cúmplices deles ex post facto, depois do fato, favorecendo o pecado ou o pecador e não testemunhando contra ele no lugar que nos cabe.

Temos comunhão com as obras infrutíferas das trevas se, em vez disso, não as censurarmos e não dermos o nosso testemunho contra elas no lugar que nos cabe.

O arrependimento da igreja de Corinto pelo pecado de um de seus membros produziu tanto zelo, tanta defesa de si mesmos, tanta indignação santa, tanto temor e tanta vingança quanto os que esta cerimônia representava, 2 Coríntios 7:11.

Versículos 10 a 14

O Caso das Mulheres Cativas. (a.C. 1451.)

Por esta lei, consente-se que um soldado se case com a sua cativa, se quiser. Por causa da dureza do coração deles, Moisés lhes deu essa permissão: receava-se que, sem liberdade para se casar com elas, tomassem a liberdade de se macular com elas, e essa perversidade causasse perturbação no acampamento.

Supõe-se que o homem já tivesse uma esposa e tomasse a cativa como esposa secundária, como os judeus as chamavam. Essa concessão aos desejos desordenados dos homens, cujos corações seguiam os olhos, de modo algum concorda com a lei de Cristo, que, portanto, neste e em outros aspectos, supera em muito a lei de Moisés em glória.

O evangelho não tolera que quem tem uma esposa tome outra, pois desde o princípio não foi assim. Proíbe olhar com desejo até mesmo para uma mulher bonita e ordena mortificar e negar todos os desejos irregulares, mesmo que isso seja tão difícil quanto cortar a mão direita.

Assim nossa santa religião, mais do que a dos judeus, promove a honra e sustenta o domínio da alma sobre o corpo, do espírito sobre a carne, em harmonia com a gloriosa revelação que faz da vida e da imortalidade e com a melhor esperança.

Mas, embora se consentisse aos militares essa liberdade, ainda assim tomavam-se precauções para que não abusassem dela, isto é:

I. Que não deveriam abusar de si mesmos agindo com precipitação, por mais desejável que a cativa lhes parecesse: “Se a quiseres por mulher (v. 10, 11), é verdade que não precisas pedir o consentimento dos pais dela, pois ela é tua cativa e está à tua disposição.”

“Mas, 1. Não terás intimidade com ela até te casares com ela.” Essa concessão destinava-se a satisfazer não uma luxúria impura e grosseira, no calor e na fúria de sua rebelião contra a razão e a virtude, mas uma afeição honrosa e generosa por uma pessoa formosa e amável, embora estivesse aflita. Portanto, ele pode tomá-la por esposa, se quiser, mas não deve tratá-la como prostituta.

  1. “Não te casarás com ela de repente, mas a manterás por um mês inteiro em tua casa”, v. 12, 13. Ele deve fazer isso por um destes motivos:

(1.) Para que possa tentar desviar dela a sua afeição; pois deve saber que, embora ao casar-se com ela não faça mal, segundo a lei então vigente, ainda assim ao deixá-la em paz faz muito melhor.

Por isso ela deveria raspar a cabeça, para que ele não se enamorasse de seus cabelos, e deixar as unhas crescerem, como diz a margem, para estragar a beleza da mão. Quicquid amas cupias non placuisse nimis: devemos moderar a afeição pelas coisas que somos tentados a amar em excesso.

Ou melhor, (2.) isso era sinal de que ela renunciava à idolatria e se convertia à religião judaica. Raspar a cabeça, cortar as unhas e trocar de roupa significava abandonar a conduta anterior, corrompida pela ignorância, e tornar-se nova criatura. Ela deveria permanecer na casa dele para aprender o bom conhecimento do Senhor e o culto a ele.

Os judeus dizem que, se ela se recusasse a isso e persistisse obstinadamente na idolatria, ele não deveria casar-se com ela. Repare: os que professam a religião não devem ficar sob jugo desigual com os incrédulos, 2 Coríntios 6:14.

II. Que não deveriam maltratar a pobre cativa:

  1. Ela deveria ter tempo para chorar pelo pai e pela mãe, dos quais fora separada e sem cujo consentimento e bênção agora provavelmente se casará, talvez com um soldado comum de Israel, embora em seu país tivesse nascido e sido criada em posição tão nobre quanto fosse.

Seria muita falta de bondade forçar o casamento antes que a tristeza diminuísse e fosse, em alguma medida, superada, e antes que ela se reconciliasse com a terra do cativeiro ao conhecê-la melhor. Não deveria chorar por seus ídolos, dos quais deveria ter alegria em se afastar; só para os seus parentes próximos e queridos a sua afeição deve ser assim satisfeita.

  1. Se, depois de refletir melhor, o homem que a levara para casa com a intenção de casar-se mudasse de ideia e não quisesse mais fazê-lo, não poderia vendê-la como fazia com os outros prisioneiros. Deveria deixá-la livre para voltar ao próprio país, se assim quisesse, pois ele a havia humilhado e afligido ao despertar suas expectativas e depois frustrá-las, v. 14.

Tendo-a feito de tola, não poderia fazer dela uma presa. Isso mostra como são obrigatórias as leis da justiça e da honra, sobretudo nas declarações de amor, na conquista da afeição e nas promessas de casamento: devem ser consideradas coisas solenes, com algo de sagrado, e, por isso, não devem ser tratadas como brincadeira.

Versículos 15 a 17

O Direito do Primogênito. (a.C. 1451.)

Esta lei impede os homens de deserdar o filho mais velho por mero capricho e sem provocação justa.

I. O caso apresentado, v. 15, ensina muito:

  1. Mostra o grande dano de ter mais de uma esposa, coisa que a lei de Moisés não proibia. Talvez se esperasse que os próprios homens, ao experimentar os grandes inconvenientes que isso causava às famílias, acabassem por abandoná-lo e criassem para si mesmos essa regra.

Observe a hipótese aqui: se um homem tiver duas esposas, há mil chances contra uma de que uma seja amada e a outra odiada, isto é, manifestaria menos amor por ela, como Jacó fez com Lia. Disso não poderiam deixar de surgir contendas, ciúmes, inveja, confusão e toda obra má, criando constante inquietação e aborrecimento para o marido e envolvendo-o tanto em pecado quanto em transtornos.

Olham muito melhor pelo seu próprio conforto e satisfação os que se apegam à lei de Deus do que os que satisfazem os próprios desejos.

  1. Mostra como a Providência costuma favorecer os mais fracos e dar honra maior à parte que dela carecia. Supõe-se aqui que o filho primogênito fosse daquela que era odiada. Foi o que ocorreu na família de Jacó: “Porque o Senhor viu que Lia era odiada”, Gênesis 29:31. O grande chefe da família distribui sabiamente a cada um sua porção de consolo.

Se uma esposa tinha a honra de ser amada, muitas vezes a outra tinha a honra de ser mãe do primogênito.

II. Esta lei continua obrigando os pais: devem dar aos filhos o que lhes é de direito, sem parcialidade. No caso apresentado, o filho mais velho, embora fosse da esposa menos amada, deveria receber o privilégio da primogenitura, isto é, porção dobrada dos bens do pai.

Ele era o princípio da força do pai: nele começava a família a se fortalecer, e sua aljava começava a se encher com as flechas de um valente, Salmos 127:4. Portanto, o direito do primogênito é dele, v. 16, 17.

De fato, Jacó tirou de Rúben a primogenitura e a deu a José, mas porque Rúben a perdera por seu incesto, e não por ser filho da esposa odiada.

Para que o que Jacó fez justamente não servisse de precedente para outros agirem injustamente, determina-se aqui que, ao fazer o testamento ou estabelecer a herança de outra maneira, o pai não prejudique o filho por causa da infelicidade da mãe, que recebeu menos amor do marido; a culpa não era da criança.

Repare: (1.) Os pais não devem fazer outra distinção ao repartir sua afeição entre os filhos além da que veem claramente que Deus faz ao distribuir sua graça entre eles. (2.) Como a providência de Deus faz os herdeiros, o dispor da providência nessa questão deve ser aceito, não contestado.

Nenhum filho deve ser abandonado pelo pai até que pareça claramente ter sido abandonado por Deus, o que é difícil afirmar de qualquer pessoa enquanto estiver viva.

Versículos 18 a 23

A Punição do Filho Rebelde e o Sepultamento dos Criminosos. (a.C. 1451.)

Aqui está: I. Uma lei para punir o filho rebelde. A lei anterior determinava que os pais não privassem os filhos de seus direitos; era apropriado, em seguida, determinar que os filhos não lhes negassem a honra e o dever que lhes deviam, pois a lei divina não é parcial. Observe:

  1. Como o criminoso é descrito. É um filho obstinado e rebelde, v. 18. Não se deveria tratar nenhuma criança pior por ter capacidade limitada ou entendimento lento ou pouco claro, mas por sua vontade própria e obstinação.

Se agir com orgulho e insolência ante os pais, desprezar sua autoridade, fazer pouco caso de suas censuras e advertências, desobedecer às ordens expressas dos pais para o próprio bem, odiar ser corrigido pela disciplina que lhe aplicam, envergonhar a família, entristecer-lhes o coração, dissipar seus bens e ameaçar arruinar seu patrimônio com vida desregrada, esse é um filho obstinado e rebelde.

Em particular, supõe-se que seja glutão ou beberrão, v. 20. Isso indica ou:

(1.) Que esses eram pecados contra os quais os pais o advertiam de modo especial; portanto, nesses casos havia evidência clara de que ele não lhes obedecia. Lemuel recebeu esse encargo de sua mãe, Provérbios 31:4. Repare: na educação dos filhos, deve-se ter grande zelo para reprimir toda inclinação à embriaguez e mantê-los longe das tentações que levam a ela.

Para isso, desde cedo devem aprender a temer e detestar esse pecado bestial e a negar a si mesmos.

Ou então, (2.) o fato de ser glutão e beberrão era a causa de sua insolência e obstinação para com os pais. Repare: nada leva as pessoas com mais certeza e fatalidade a toda espécie de maldade e as endurece nela do que a embriaguez. Quando se entregam à bebida, esquecem a lei, esquecem toda lei, Provérbios 31:5, até mesmo a lei fundamental de honrar os pais.

  1. Como se deve proceder contra esse criminoso:

O próprio pai e a mãe devem acusá-lo, v. 19, 20. Eles próprios não podem matá-lo, mas devem denunciá-lo aos anciãos da cidade, com o coração pesaroso: “Este nosso filho é obstinado e rebelde”.

Repare: os que se entregam ao vício e à maldade e não aceitam correção perdem o direito à afeição natural dos parentes mais próximos; os instrumentos de sua existência tornam-se, com justiça, os instrumentos de sua destruição.

Os filhos que esquecem seu dever devem culpar a si mesmos, e não aos pais, se forem tratados com afeição cada vez menor.

Por mais difícil que seja para pais ternos aceitarem agora a justa punição dos filhos rebeldes, no dia em que se revelar o justo juízo de Deus toda afeição natural será tão completamente absorvida pelo amor divino que eles aceitarão até a condenação desses filhos, pois nela Deus será glorificado para sempre.

  1. A sentença que deve ser executada: os homens da cidade devem apedrejá-lo publicamente até a morte, v. 21.

E assim, (1.) a autoridade paterna foi sustentada, e Deus, nosso Pai comum, mostrou zelo por ela, pois é uma das primeiras e mais antigas correntes que dele procedem, a fonte de todo poder.

(2.) Se executada devidamente, essa lei eliminaria cedo os perversos da terra, Salmos 101:8, e impediria que a gangrena se espalhasse, cortando logo a parte corrupta: quem fosse mau membro da família jamais seria bom membro da comunidade.

(3.) Isso infundiria temor nos filhos e os assustaria para que obedecessem aos pais se de outro modo não fossem levados ao dever e nele mantidos: “Todo o Israel ouvirá”.

Os judeus dizem que os anciãos que o condenassem deveriam enviar uma notificação por escrito a toda a nação: “Neste tribunal, neste dia, apedrejamos fulano por ser filho obstinado e rebelde”.

E às vezes desejei que, assim como todos os nossos tribunais mantêm um registro exato da condenação dos criminosos, in perpetuam rei memoriam — para que a memória nunca se perca —, também houvesse divulgação pública e oficial, impressa para todo o reino, dessas condenações e execuções pelos próprios anciãos, in terrorem — para que todos ouvissem e temessem.

II. Há uma lei sobre o sepultamento dos corpos dos criminosos que fossem pendurados, v. 22.

Entre os judeus não se usava de modo algum enforcar alguém pelo pescoço até morrer, como fazemos. Mas era costume, por ordem dos juízes, pendurar por algum tempo num poste, como espetáculo ao mundo, os cadáveres dos apedrejados por blasfêmia ou outro crime muito abominável.

Isso expressava a ignomínia do crime e incutia maior terror nos outros, para que não só ouvissem e temessem, mas vissem e temessem.

Determina-se aqui que, qualquer que fosse o momento do dia em que fossem pendurados, ao pôr do sol deveriam ser retirados e sepultados, e não deixados ali durante a noite. A lei diz que já bastava a punição daquele homem: que terminasse ali, sem ir além; que o criminoso e seu crime fossem ocultados no túmulo.

  1. Agora, Deus preservaria assim a honra dos corpos humanos e a ternura até para com os piores criminosos. Limita-se o tempo de exposição do corpo morto pelo mesmo motivo que outra lei limita o número de açoites: “para que teu irmão não pareça desprezível aos teus olhos”. Deus reserva para si a punição depois da morte; quanto ao ser humano, nada mais pode fazer.

Talvez valha considerar se é digno entre os cristãos, que esperam a ressurreição do corpo, pendurar criminosos em correntes e exibir as cabeças e os membros esquartejados.

  1. É claro, contudo, que havia nisso algo cerimonial. Segundo a lei de Moisés, tocar num corpo morto maculava; por isso, não se deveria deixar corpos pendurados no país, pois, pela mesma regra, isso macularia a terra.

Mas, 3. Há uma razão dada aqui que diz respeito a Cristo: “Quem é pendurado é maldito de Deus”. Isto é, essa é a maior desonra e descrédito que se pode infligir a alguém e o proclama sob a maldição de Deus, tanto quanto qualquer punição externa poderia fazê-lo.

Os que o vissem pendurado entre o céu e a terra concluiriam que fora abandonado por ambos e não era digno de nenhum deles. Por isso não deveria permanecer ali a noite inteira; isso seria ir longe demais.

O apóstolo, ao mostrar que Cristo nos redimiu da maldição da lei fazendo-se maldição por nós, ilustra o argumento comparando a desonra imposta ao que era pendurado numa árvore com a morte de Cristo, Gálatas 3:13.

Moisés, pelo Espírito, usa a expressão “maldito de Deus” para falar de alguém tratado com a maior ignomínia, a fim de que mais tarde pudesse ser aplicada à morte de Cristo e mostrar que ele sofreu por nós a maldição da lei. Isso engrandece muito o seu amor e dá grande ânimo à nossa fé nele.

Como observa o excelente bispo Patrick, essa passagem se aplica à morte de Cristo não só porque ele levou nossos pecados e foi exposto à vergonha, como aqueles criminosos malditos de Deus, mas também porque, à tarde, foi retirado da árvore maldita e sepultado por especial zelo dos judeus, que tinham esta lei em mente, João 19:31.

Isso indicava que, removida a culpa, a lei fora satisfeita, como quando o criminoso ficava pendurado até o pôr do sol: ela não exigia mais nada.

Então ele deixou de ser maldição, assim como os que lhe pertenciam. E, assim como a terra de Israel ficava pura e limpa quando o corpo morto era sepultado, assim a igreja é lavada e limpa pela satisfação completa que Cristo ofereceu dessa maneira.


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