Matthew Henry

Deuteronômio 17

Argumento

O assunto tratado neste capítulo é: I. A pureza e a perfeição de todos os animais oferecidos em sacrifício, v. 1. II. A punição daqueles que adoravam ídolos, vv. 2-7. III. Os recursos contra decisões dos tribunais inferiores, levados ao grande Sinédrio, vv. 8-13. IV. A escolha de um rei e os deveres que lhe cabem, v. 14, etc.

Versículos 1 a 6

A Punição da Idolatria. (a.C. 1451.)

Aqui está: I. Uma lei para preservar a honra do culto a Deus determinava que nenhuma criatura com defeito fosse oferecida a ele em sacrifício, v. 1.

Já encontramos muitas vezes esta advertência: não sacrificar aquilo que tivesse defeito, que o tornasse desagradável à vista, nem qualquer coisa má — talvez seja melhor traduzir assim a palavra seguinte —, doença ou fraqueza, ainda que não fosse percebida à primeira vista. Isso é abominação para Deus.

Deus é o melhor dos seres; portanto, tudo o que lhe oferecemos deve ser o melhor de sua espécie. Os sacrifícios do Antigo Testamento deviam ser assim especialmente porque eram figuras de Cristo, Cordeiro sem defeito nem mácula, perfeitamente puro de todo pecado e de toda aparência de pecado, 1 Pedro 1:19.

Nos últimos tempos da igreja judaica, depois que o cativeiro em Babilônia a curou da idolatria, ainda assim ela foi acusada de profanar esta lei, oferecendo animais cegos, coxos e doentes, Malaquias 1:8.

II. Havia uma lei para punir os que adorassem falsos deuses. Seduzir outros à idolatria já era crime capital, Deuteronômio 13; aqui, ser seduzido também recebe a mesma pena. Se assim os cegos conduzem os cegos, ambos cairão na cova. Desse modo Deus queria enchê-los de temor por esse pecado, que deviam concluir ser gravíssimo quando tantas leis com pena de morte eram promulgadas contra ele.

Queria também deter os que de outro modo não seriam persuadidos a abandoná-lo; ainda assim, a lei que opera a morte mostrou-se ineficaz. Vejamos:

  1. Qual era o crime visado por esta lei: servir ou adorar outros deuses, v. 3. Especifica-se a forma mais antiga e plausível de idolatria, a adoração do sol, da lua e das estrelas; se isso era tão detestável, muito mais o era adorar pedaços de madeira e pedras, ou imagens de animais desprezíveis e repugnantes. A respeito disso se diz:

(1.) É algo que Deus não ordenou. Ele o proibiu repetidas vezes; mas a expressão também indica que, mesmo que nada mais houvesse contra isso, bastaria: no culto a Deus, sua instituição e ordem devem ser nossa regra e autorização. Deus nunca ordenou que seus adoradores se rebaixassem a prestar homenagem a outras criaturas.

Se Deus lhes tivesse mandado fazê-lo, poderiam queixar-se com razão da afronta e humilhação; contudo, depois de ele ter proibido, por espírito de contradição, eles se impõem essa indignidade.

(2.) É perversidade aos olhos de Deus, v. 2. Ainda que seja ocultada com todo cuidado, ele a vê; ainda que seja habilmente desculpada, ele a odeia. É pecado extremamente grave em si mesmo e a maior afronta que se pode oferecer ao Deus Todo-Poderoso.

(3.) É transgressão da aliança. Deus os tomou como seu povo especial sob a condição de que servissem e adorassem somente a ele como seu Deus. Se dessem a outro a honra devida só a Deus, a aliança ficaria anulada e todo o benefício dela seria perdido. Outros pecados transgrediam o mandamento; este transgredia a aliança. Era adultério espiritual, que rompe o vínculo matrimonial.

(4.) É abominação em Israel, v. 4. A idolatria já era bastante má em qualquer povo, mas era particularmente abominável em Israel, povo tão abençoado com revelações especiais da vontade e do favor do único Deus verdadeiro e vivo.

  1. Como o crime deveria ser julgado. Diante de uma denúncia ou de qualquer motivo de suspeita de que alguém, homem ou mulher, servira a outros deuses:

(1.) Deveria haver investigação, v. 4. Embora o fato não parecesse certo de início, talvez se tornasse evidente após a apuração. Se fosse possível descobrir o crime, ele não deveria ficar sem punição; ainda que não se descobrisse, a própria investigação incutiria temor dele em todo o país.

(2.) Deveriam ser apresentadas provas, v. 6. Por mais grave e perigoso que fosse o crime, ninguém poderia ser punido sem prova suficiente, dada por pelo menos duas testemunhas. Sob o pretexto de honrar a Deus, não deveriam prejudicar um inocente. Já havíamos encontrado esta lei, que exige duas testemunhas num caso de vida ou morte, Números 35:30; ela é citada em Mateus 18:16.

  1. Que sentença deveria ser pronunciada e executada. Uma punição tão grave quanto a morte, uma morte tão terrível quanto o apedrejamento, deveria ser infligida ao idólatra, homem ou mulher; a fragilidade do sexo mais fraco não serviria de desculpa, v. 5. A execução deveria ocorrer à porta da cidade, para que a vergonha do criminoso fosse maior e a advertência a todos os demais, mais pública.

Como nos outros casos, as mãos das testemunhas deveriam ser as primeiras contra o condenado: elas lançariam a primeira pedra, confirmando assim o testemunho e invocando solenemente sobre si a culpa pelo sangue dele, caso a prova fosse falsa. Esse costume talvez ajudasse a dissuadir as pessoas de dar falso testemunho.

As testemunhas eram, na realidade, a causa da morte do malfeitor; por isso se exigia que fossem de fato as primeiras a executá-lo. Em seguida, todo o povo deveria completar a execução, testemunhando assim sua detestação do crime e tirando o mal do meio deles, como em Deuteronômio 13:9.

Versículos 8 a 13

A Autoridade dos Juízes. (a.C. 1451.)

Deveriam ser estabelecidos tribunais de justiça em cada cidade, Deuteronômio 16:18, com autoridade para ouvir e julgar as causas segundo a lei, tanto as que chamamos de causas criminais quanto as disputas entre pessoas. Podemos supor que, em geral, eles encerravam as questões que lhes eram apresentadas e davam sentença definitiva.

Contudo, 1. Supõe-se aqui que, às vezes, pudesse chegar ao tribunal uma causa difícil demais para os juízes inferiores decidirem, pois não se podia esperar que conhecessem as leis tão bem quanto os que presidiam os tribunais superiores.

Assim, para usar a linguagem de nossa lei, teriam de formular um veredito especial e reservar tempo para deliberar antes de julgar.

“Se surgir uma causa difícil demais para ti em juízo” (v. 8). Os juízes não se desonrariam ao reconhecer essa dificuldade. A causa poderia envolver uma disputa entre sangue e sangue: o sangue da vítima, que clamava, e o sangue do acusado de assassinato, cujo sangue se exigia, quando as provas deixassem dúvida se o ato fora intencional ou acidental.

Ou poderia haver disputa entre causa e causa: a alegação — isto é, a petição ou declaração — do autor e a alegação do réu. Ou ainda, entre golpe e golpe, em ações por agressão e lesão corporal. Nesses e em casos semelhantes, embora as provas fossem claras, poderiam surgir dúvidas sobre o sentido da lei e como aplicá-la àquele caso específico.

  1. Depois da morte de Moisés, os casos difíceis que até então eram levados a ele, conforme o conselho de Jetro, deveriam ser submetidos à autoridade suprema, onde quer que estivesse.

Poderia ser um juiz, quando Deus levantasse e capacitasse alguém para esse grande serviço, como Otniel, Débora e Gideão; ou o sumo sacerdote, chamado por Deus para presidir os assuntos públicos por seus dons eminentes, como Eli. Se ninguém fosse especialmente indicado pelo céu para essa honra, seriam os sacerdotes e levitas — ou os sacerdotes, que por definição eram levitas.

Eles não apenas serviam no santuário, mas também se reuniam em conselho para receber recursos dos tribunais inferiores. Era razoável supor que fossem mais bem qualificados por seu conhecimento e experiência e que tivessem a melhor assistência do Espírito divino para resolver as dúvidas, v. 9, 11, 12.

Não se determina que consultem o Urim e o Tumim, pois se supõe que esses deveriam ser consultados apenas em assuntos públicos, relativos ao povo como um todo ou ao príncipe. Nos casos comuns, deveria bastar a sabedoria e a integridade dos que estavam ao leme.

A sentença deles não tinha a autoridade divina de um oráculo, mas, além da certeza moral própria do juízo de homens conhecedores, prudentes e experientes, tinha a vantagem de uma promessa divina, implícita nas palavras “eles te anunciarão a sentença de juízo”, v. 9, e o amparo de uma instituição divina, que os estabelecia como a suprema instância judicial da nação.

  1. A sentença definitiva dada pelo juiz, sacerdote ou grande conselho deveria ser obedecida pelas partes envolvidas, sob pena de morte. “Farás segundo a sentença”, v. 10; “terás cuidado de cumpri-la, sem te desviares dela nem para a direita nem para a esquerda”, v. 11.

Repare: isso honra a Deus e promove o bem-estar de um povo: que a autoridade superior seja respeitada, a devida ordem do governo seja observada, os que foram designados para governar sejam obedecidos e todos se submetam a eles nas questões que estão sob sua competência.

Mesmo que uma das partes se julgasse prejudicada pela sentença — como todos tendem a ser parciais em sua própria causa —, deveria submeter-se e aceitar a decisão, por mais desagradável que fosse, suportando, perdendo ou pagando o que fosse determinado, não apenas para evitar a ira, mas também por causa da consciência.

Porém, se um juiz inferior contrariasse a sentença do tribunal superior e se recusasse a cumprir suas ordens, ou se uma pessoa se recusasse a conformar-se à decisão deles, a insubordinação deveria ser punida com a morte, por menor que fosse o assunto em que se opusesse: “Esse homem morrerá, e todo o povo ouvirá e temerá”, v. 12, 13. Vemos aqui:

(1.) O mal da desobediência. A rebelião e a obstinação, movidas por espírito de contradição e oposição a Deus ou às autoridades sob seu comando, por desprezo e teimosia, são como feitiçaria e idolatria.

Divergir por fraqueza e fragilidade pode ser desculpado e deve ser tolerado; mas fazê-lo deliberadamente, por orgulho e maldade — como explicam as antigas traduções — é pegar em armas contra o governo e afrontá-lo, pois as autoridades existentes foram instituídas por Deus.

(2.) O propósito da punição: que outros ouçam, temam e não façam o mesmo. Alguns seriam sensatos o bastante para concluir, pela gravidade da pena, quão grave era a ofensa, e por isso a detestariam. Outros cuidariam tanto da própria segurança que contrariariam suas vontades e obedeceriam à sentença, em vez de agir contra os próprios interesses e perder a vida por se opor a ela.

Dessa lei o apóstolo conclui quão grande será a punição de que serão considerados dignos os que pisoteiam a autoridade do Filho de Deus, Hebreus 10:28, 29.

Versículos 14 a 20

A Escolha de um Rei. (a.C. 1451.)

Depois das leis para os súditos, vinham apropriadamente as leis para os reis, pois os que governam os outros devem lembrar que eles próprios estão sob autoridade. Aqui há leis:

I. Para os que escolhem o rei, indicando as regras que deveriam seguir na escolha, vv. 14-15. 1. Supõe-se que, com o passar do tempo, o povo desejaria um rei, cuja pompa e poder reais, acreditava-se, fariam a nação parecer grandiosa entre os vizinhos.

Ter um rei não lhes é prometido como bênção nem ordenado como dever — nada poderia ser melhor para eles do que o governo divino ao qual estavam sujeitos —, mas lhes é permitido, caso o desejassem. Se ao menos cuidassem para que os fins do governo fossem alcançados e as leis de Deus devidamente observadas e executadas, não seriam obrigados a uma única forma de governo, mas poderiam ter um rei.

Embora se suponha que o motivo desse desejo fosse irregular — serem como as nações, ao passo que Deus os distinguia delas de tantas maneiras —, ele ainda assim lhes permitiria isso, pois pretendia cumprir seus próprios propósitos por esse meio, fazendo do governo real um tipo do reino do Messias.

  1. São orientados na escolha. Se quisessem um rei sobre si, como Deus previa que aconteceria — embora pareça que a proposta só tenha surgido quase quatrocentos anos depois —, deveriam:

(1.) Pedir conselho a Deus e fazer rei aquele que ele escolhesse. Era uma felicidade terem um oráculo a consultar numa questão tão importante e um Deus que podia escolher por eles, pois conhece infalivelmente quem cada homem é e será. Os reis são representantes de Deus; portanto, convinha que ele os escolhesse.

Deus fora, de modo especial, o Rei de Israel; se colocassem outro rei sobre si, subordinado a Deus, era necessário que ele indicasse a pessoa. Assim, quando o povo desejou um rei, recorreu a Samuel, profeta do Senhor; depois, Davi, Salomão, Jeroboão, Jeú e outros foram escolhidos por meio dos profetas.

O povo é repreendido por não observar essa lei: “Eles estabeleceram reis, mas não por mim”, Oseias 8:4. Em todas as questões, a escolha de Deus, se ao menos pudermos conhecê-la, deve orientar, determinar e prevalecer sobre a nossa.

(2.) Não deveriam escolher um estrangeiro, sob o pretexto de fortalecer suas alianças ou de que o candidato fosse extraordinariamente capaz. Um rei estrangeiro poderia introduzir costumes e práticas estranhos, contrários aos que a lei divina havia estabelecido.

Deveria ser escolhido dentre os irmãos deles, para que fosse um tipo de Cristo, que é osso dos nossos ossos, Hebreus 2:14.

II. Há leis para o príncipe escolhido, a fim de que administre o governo devidamente.

  1. Ele deveria evitar cuidadosamente tudo o que pudesse afastá-lo de Deus e da religião. Riquezas, honras e prazeres são os três grandes obstáculos à piedade — as concupiscências da carne, dos olhos e a soberba da vida —, especialmente para quem ocupa uma posição elevada. Contra eles o rei é advertido:

(1.) Não deveria satisfazer o amor pela honra multiplicando cavalos, v. 16. Quem montava num cavalo, animal majestoso, num país onde geralmente se usavam jumentos e mulas parecia muito importante.

Por isso, embora pudesse ter cavalos para sua própria montaria e para seus carros, não deveria pôr servos a cavalo, Eclesiastes 10:7, nem ter muitos cavalos para seus oficiais e guardas — quando Deus era o Rei deles, seus juízes montavam jumentos, Juízes 5:10; 12:14 —, nem multiplicar cavalos para a guerra, para que não confiasse demais neles, Salmos 20:7; 33:17; Oseias 14:3.

A razão dada contra multiplicá-los é que isso estreitaria as relações com o Egito, que fornecia cavalos a Canaã, 1 Reis 10:28, 29. Não convinha ao Israel de Deus, que fora tirado dali com tão grande poder, voltar para lá. “Não voltareis por aquele caminho”, para não serem contaminados pela idolatria egípcia, à qual eram muito inclinados, Levítico 18:3.

Repare: devemos ter cuidado com relações e convivências que possam nos arrastar ao pecado. Se Israel não devia voltar ao Egito, também não devia negociar com o Egito; Salomão não obteve benefício algum disso.

(2.) Não deveria satisfazer o amor pelos prazeres multiplicando esposas, v. 17, como Salomão fez para sua ruína, 1 Reis 11:1, para que seu coração, apegado a elas, não se afastasse dos negócios nem de tudo o que é sério, especialmente do exercício da piedade e da devoção, ao qual nada se opõe mais do que ceder aos desejos da carne.

(3.) Não deveria satisfazer o amor pelas riquezas multiplicando excessivamente prata e ouro. É-lhe permitido ter um tesouro suficiente e administrá-lo bem, mas:

[1.] Não deveria acumular dinheiro em excesso, a ponto de oprimir o povo elevando a arrecadação — como Salomão parece ter feito, 1 Reis 12:4 —, nem de enganar a si mesmo, confiando nele e pondo nele o coração, Salmos 62:10.

[2.] Não deveria multiplicar riquezas para si próprio. Davi acumulou prata e ouro, mas para o serviço de Deus, 1 Crônicas 29:4, não para si; para o povo, não para sua própria família.

  1. Deveria dedicar-se cuidadosamente à lei de Deus e adotá-la como regra. Ela deveria valer para ele mais do que todas as riquezas, honras e prazeres, mais do que muitos cavalos e muitas esposas, mais do que milhares de peças de ouro e prata.

(1.) Deveria escrever para si uma cópia da lei a partir do original, que estava sob a guarda dos sacerdotes que serviam no santuário, v. 18.

Alguns pensam que deveria copiar somente este livro de Deuteronômio, que é um resumo da lei e cujos preceitos, em sua maioria morais e judiciais, diziam respeito ao rei mais do que as leis cerimoniais de Levítico e Números, que interessavam principalmente aos sacerdotes.

Outros entendem que deveria transcrever os cinco livros de Moisés, chamados de Lei e preservados juntos como fundamento da religião deles. Ora:

[1.] Embora se pudesse supor que o rei tivesse consigo cópias muito boas de seus antepassados, além delas deveria ter uma própria. As deles talvez estivessem gastas pelo uso constante; o rei precisava de uma cópia nova para começar seu reinado.

[2.] Embora tivesse secretários que pudesse encarregar de copiar a Lei e que talvez escrevessem melhor do que ele, deveria fazê-lo com a própria mão, em honra à Lei e para não considerar nenhum ato religioso indigno de si. Isso o habituaria ao trabalho e ao estudo; acima de tudo, obrigá-lo-ia a prestar atenção especial a cada parte da Lei e, ao escrevê-la, imprimi-la na mente.

Repare: é muito útil para cada um de nós anotar o que mais nos toca e edifica nas Escrituras, nos bons livros e nos sermões que ouvimos. Uma pena prudente pode suprir em muito as falhas da memória e abastecer o tesouro do bom pai de família com coisas novas e antigas.

[3.] Deveria fazer isso quando se assentasse no trono do reino, caso ainda não tivesse feito antes. Ao começar a dedicar-se aos negócios, deveria cuidar disso primeiro. Quem se assenta no trono de um reino certamente tem as mãos cheias: os assuntos internos e externos ocupam muito de seu tempo e pensamento. Ainda assim, deveria copiar a Lei.

Que os que se dizem ocupados não pensem que isso os dispensa de fazer da religião sua ocupação; e que os grandes não considerem desonroso copiar para si aquelas grandes coisas da Lei de Deus que ele lhes escreveu, Oseias 8:12.

(2.) Depois de ter uma Bíblia copiada por sua própria mão, não deveria contentar-se em guardá-la no gabinete; deveria lê-la todos os dias da vida, v. 19. Não basta possuir Bíblias: devemos usá-las diariamente, conforme a necessidade e o dever de cada dia. Nossas almas precisam alimentar-se constantemente desse maná; bem digerido, ele lhes será verdadeiro sustento e força.

Assim como o corpo recebe continuamente o benefício do alimento, e não somente quando está comendo, também a alma se beneficia da palavra de Deus se nela meditar de dia e de noite, Salmos 1:2. Devemos perseverar no uso da palavra escrita de Deus enquanto vivermos.

Os discípulos de Cristo nunca se tornam instruídos demais para a Bíblia; sempre precisarão dela até chegarem ao mundo em que o conhecimento e o amor serão aperfeiçoados.

(3.) Escrever e ler seriam inúteis se ele não praticasse o que escreveu e leu, vv. 19-20. A palavra de Deus não foi destinada apenas a ser um assunto interessante de especulação; deve ser a regra que governa nossa conduta. Que ele saiba:

[1.] Que domínio a religião deve exercer sobre ele e que influência deve ter em sua vida. Primeiro, deve enchê-lo de reverência profunda e respeitosa pela majestade e autoridade divinas. Deve aprender — como até os mais instruídos precisam continuar aprendendo — a temer o Senhor, seu Deus. Por mais elevada que seja sua posição, deve lembrar-se de que Deus está acima dele.

Se seus súditos lhe devem temor, ele deve a Deus, seu Rei, temor igual e muito maior.

Segundo, deve levá-lo a observar continuamente a lei de Deus e a obedecer-lhe conscienciosamente, como efeito desse temor. Deve guardar todas as palavras da Lei — custos utriusque tabulae, o guardião das duas tábuas —, cuidando não apenas para que os outros as cumpram, mas também cumprindo-as como humilde servo do Deus do céu e bom exemplo para os que estão abaixo dele.

Terceiro, deve mantê-lo humilde. Por mais elevado que esteja, que mantenha o espírito humilde; que o temor de seu Deus o impeça de desprezar seus irmãos. Que seu coração não se exalte acima deles, levando-o a tratá-los com arrogância ou desdém e a pisoteá-los.

Que não se julgue melhor do que eles por ser maior e ter aparência mais imponente; mas que se lembre de que é ministro de Deus para o bem deles (major singulis, mas minor universis — maior que cada indivíduo, mas menor que todos reunidos).

Quarto, a religião deve evitar que se desvie para a direita ou para a esquerda — há erros em ambas as direções — e mantê-lo fiel a Deus e ao dever em todas as coisas.

[2.] Que vantagem a religião lhe traria. Os que temem a Deus e guardam seus mandamentos certamente se sairão melhor neste mundo. O maior monarca do mundo pode receber mais benefício da religião do que de toda a riqueza e poder de sua monarquia. Ela beneficiará, primeiro, sua própria pessoa: prolongará seus dias no reino.

Na história dos reis de Judá, em geral, os melhores reinados foram também os mais longos, exceto quando Deus os encurtou para punir o povo, como no caso de Josias. Segundo, beneficiará sua família: seus filhos também prosperarão. Transmita a religião à posteridade, e Deus transmitirá uma bênção a ela.


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