Matthew Henry

Deuteronômio 12

Argumento

Neste capítulo Moisés chega aos estatutos particulares que devia dar em encargo a Israel, e começa por aqueles que se referem ao culto de Deus, e particularmente por aqueles que explicam o segundo mandamento, a respeito do qual Deus é de modo especial zeloso.

I. Eles devem destruir por completo todas as relíquias e restos da idolatria, vv. 1-3.

II. Eles devem manter-se próximos do tabernáculo, v. 4, 5.

O primeiro preceito tinha por objetivo impedir todo falso culto, o segundo, preservar o culto que Deus tinha instituído. Por esta última lei:

  1. É-lhes ordenado trazer todas as suas ofertas ao altar de Deus, e todas as suas coisas santas ao lugar que ele escolheria, v. 6, 7, 11, 12, 14, 18, 26-28.

  2. É-lhes proibido, em geral, fazer como agora faziam no deserto (vv. 8-11), e como os cananeus tinham feito (vv. 29-32), e, em particular, comer as coisas consagradas nas suas próprias casas (v. 13, 17, 18), ou abandonar o ministério instituído, v. 19.

  3. É-lhes concedido comer carne como alimento comum nas suas próprias casas, desde que não comam o sangue, v. 15, 16, e de novo, vv. 20-26.

Versículos 1 a 4

Relíquias da Idolatria a Serem Destruídas. (a.C. 1451.)

Daquelas grandes verdades originais: Que há um Deus, e que há um só Deus, surgem aquelas grandes leis fundamentais: Que esse Deus deve ser cultuado, e somente ele, e que por isso não devemos ter outro Deus diante dele: este é o primeiro mandamento, e o segundo é uma guarda sobre ele, ou uma sebe em torno dele.

Para impedir uma revolta rumo a falsos deuses, é-nos proibido cultuar o verdadeiro Deus de tal modo e maneira como os falsos deuses eram cultuados, e é-nos ordenado observar as ordenanças instituídas de culto, para que nos apeguemos ao objeto apropriado de culto.

Por esta razão Moisés é muito extenso na sua exposição do segundo mandamento. O que está contido neste capítulo e nos quatro seguintes refere-se, na maior parte, a isso. Estes são estatutos e juízos que devem observar para cumprir (v. 1):

  1. Nos dias do seu descanso e prosperidade, quando fossem senhores de Canaã.

Não devemos pensar que a nossa religião foi instituída apenas para ser o nosso trabalho nos anos da nossa servidão, a nossa ocupação nos lugares da nossa solidão e a nossa consolação na aflição.

Não: quando chegarmos a possuir uma boa terra, devemos continuar a manter o culto de Deus em Canaã assim como num deserto, quando somos adultos assim como quando somos crianças, quando estamos cheios de afazeres assim como quando não temos mais nada a fazer.

  1. Todos os dias, enquanto vocês viverem sobre a terra. Enquanto estamos aqui no nosso estado de provação, devemos continuar na nossa obediência, mesmo até o fim, e nunca deixar o nosso dever, nem nos cansar de fazer o bem. Agora:

I. Aqui eles são encarregados de abolir e extirpar todas aquelas coisas de que os cananeus se serviam no culto aos seus deuses-ídolos, v. 2, 3.

Aqui não há menção de templos de ídolos, o que abona a opinião que alguns têm, de que o tabernáculo que Moisés levantou no deserto foi a primeira habitação que já se fez para usos religiosos, e de que dele os templos tiveram a sua origem.

Mas os lugares que tinham sido usados, e que agora deviam ser arrasados, eram recintos para o seu culto em montes e colinas (como se a altura do terreno desse vantagem à subida das suas devoções), e debaixo de árvores verdes, ou por serem agradáveis ou por serem veneráveis: tudo o que deixa a mente à vontade e reverente, a recolhe e a compõe, era tido como favorável à devoção.

A sombra e o silêncio solenes de um bosque são continuamente admirados por aqueles que têm disposição para a contemplação.

Mas a vantagem que estes retiros davam aos gentios no culto dos seus ídolos era que ocultavam aquelas obras das trevas que não podiam suportar a luz.

E por isso todos deviam ser destruídos, com os altares, colunas e imagens, que tinham sido usados pelos nativos no culto dos seus deuses, de modo que os próprios nomes deles fossem sepultados no esquecimento, e não só não fossem lembrados com respeito, mas não fossem lembrados de modo algum. Assim devem olhar por:

  1. A reputação da sua terra; nunca se diga desta terra santa que ela tinha sido assim contaminada, mas sejam levados embora todos estes montes de esterco, como coisas de que se envergonhavam.

  2. A segurança da sua religião; que nenhum deles permaneça, para que gente profana e irrefletida, sobretudo em eras degeneradas, não se sirva deles no serviço do Deus de Israel. Sejam demolidas estas casas de peste, como coisas de que tinham medo.

Ele começa com isto os estatutos que se referem ao culto divino, porque primeiro deve haver repulsa àquilo que é mau antes que possa haver firme apego àquilo que é bom, Romanos 12:9.

O reino de Deus deve ser erguido, tanto em pessoas quanto em lugares, sobre as ruínas do reino do diabo; pois eles não podem subsistir juntos, nem pode haver qualquer comunhão entre Cristo e Belial.

II. É-lhes ordenado não transferir os ritos e usos dos idólatras para o culto de Deus; não, nem mesmo sob o pretexto de embelezá-lo e aperfeiçoá-lo (v. 4): “Não fareis assim ao Senhor vosso Deus”, isto é, “vós não deveis pensar em lhe fazer honra oferecendo sacrifícios em montes e colinas, erigindo colunas, plantando bosques e levantando imagens.”

“Não, não deveis ceder a uma fantasia extravagante no vosso culto, nem pensar que tudo o que agrada a essa fantasia agradará a Deus: ele está acima de todos os deuses, e não será cultuado como são cultuados os outros deuses.”

Onde os Sacrifícios Devem Ser Oferecidos; Observâncias Cerimoniais; Cautelas Contra Ritos Idólatras. (a.C. 1451.)

Versículos 5 a 32

Não há nenhum preceito particular (que eu me lembre) em toda a lei de Moisés tão amplamente insistido e inculcado como este, pelo qual todos eles estão atados a trazer os seus sacrifícios àquele único altar que foi erguido no átrio do tabernáculo, e ali cumprir todos os rituais da sua religião.

Pois, quanto aos serviços morais, então, sem dúvida, como agora, os homens podiam orar em toda parte, como faziam nas suas sinagogas.

O mandamento de fazer isto, e a proibição do contrário, são aqui repetidos uma e outra vez, como ensinamos às crianças: e contudo temos certeza de que na escritura não há vã repetição; mas toda esta ênfase é posta sobre ele:

  1. Por causa da estranha propensão que havia nos corações do povo à idolatria e à superstição, e do perigo de serem seduzidos pelas muitas tentações de que estariam cercados.

  2. Por causa da grande utilidade que a observância desta designação teria para eles, tanto para impedir a introdução de costumes corruptos no seu culto quanto para preservar entre eles a unidade e o amor fraternal, para que, reunindo-se todos num só lugar, continuassem tanto de um só caminho quanto de um só coração.

  3. Por causa da significação desta designação. Devem manter-se num só lugar, em sinal da sua crença naquelas duas grandes verdades que encontramos juntas (1 Timóteo 2:5): que há um só Deus e um só Mediador entre Deus e o ser humano.

Ele não só servia para manter a noção da unidade da Divindade, mas era uma insinuação a eles (embora não pudessem percebê-lo com clareza) do único caminho de aproximação de Deus e de comunhão com ele, no e pelo Messias.

Reduzamos agora este longo encargo aos seus tópicos adequados.

I. Aqui é prometido que, quando estivessem estabelecidos em Canaã, quando tivessem descanso dos seus inimigos e habitassem em segurança, Deus escolheria um certo lugar, que ele designaria para ser o centro da unidade deles, ao qual deveriam trazer todas as suas ofertas, v. 10, 11. Observe:

  1. Se eles deviam ficar atados a um só lugar, não deviam ser deixados em dúvida a respeito dele, mas deviam saber com certeza qual era esse lugar. Se Cristo tivesse tido a intenção de fazer, sob o evangelho, de algum lugar uma tal sede de poder como Roma alega ser, não teríamos sido deixados tão destituídos de instrução como somos a respeito do lugar designado.

  2. Deus não deixa a eles a escolha do lugar, para que as tribos não se desavenham por causa dele, cada uma contendendo, por sua vantagem secular, para tê-lo entre si; mas reserva a escolha para si, como faz com a designação do Redentor e a instituição das santas ordenanças.

  3. Ele não designa o lugar agora, como tinha designado os montes Gerizim e Ebal, para a pronunciação das bênçãos e maldições (Deuteronômio 11:29), mas reserva o fazê-lo para depois, para que com isso sejam levados a esperar ulteriores orientações do céu, e uma condução divina, depois que Moisés for removido.

Diz-se que o lugar que Deus escolheria seria aquele onde poria seu nome, isto é, que queria que fosse chamado seu. Ali sua honra habitaria, e ele se manifestaria ao seu povo e se daria a conhecer, como os homens fazem por meio dos seus nomes; ali também receberia súplicas, pelas quais seu nome seria tanto louvado quanto invocado.

Devia ser a sua habitação, onde, como Rei de Israel, ele manteria corte, e seria encontrado por todos aqueles que o buscassem reverentemente.

A arca era o sinal da presença de Deus, e onde ela era posta, ali Deus punha o seu nome, e aquela era a sua habitação. Ela continha as tábuas da lei; pois ninguém deve esperar receber favores da mão de Deus senão aqueles que estão dispostos a receber a lei da sua boca.

O lugar que Deus primeiro escolheu para a arca residir foi Siló; e, depois que aquele lugar perdeu as suas honras por causa do pecado, encontramos a arca em Quiriate-Jearim e em outros lugares; mas por fim, no tempo de Davi, ela foi fixada em Jerusalém.

E Deus disse a respeito do templo de Salomão, mais expressamente do que jamais tinha dito a respeito de qualquer outro lugar: Escolhi este lugar para casa de sacrifício, 2 Crônicas 7:12. Compare 2 Crônicas 6:5.

Agora, sob o evangelho, não temos nenhum templo que santifique o ouro, nenhum altar que santifique a dádiva, senão Cristo somente; e, quanto aos lugares de culto, os profetas predisseram que em todo lugar o incenso espiritual seria oferecido, Malaquias 1:11.

E o nosso Salvador declarou que são aceitos como verdadeiros cultuadores aqueles que cultuam a Deus em sinceridade e verdade, sem levar em conta nem este monte nem Jerusalém, João 4:23.

II. É-lhes ordenado trazer todos os seus holocaustos e sacrifícios a este lugar que Deus escolheria (v. 6 e de novo v. 11): “Para lá trareis tudo o que eu vos ordeno”; e (v. 14), “Ali oferecerás os teus holocaustos”; e (v. 27): a carne e o sangue devem ser oferecidos sobre o altar do Senhor, Deus de vocês.

E quanto às suas ofertas pacíficas, aqui chamadas os seus sacrifícios, embora devessem comer a carne, ainda assim o sangue devia ser derramado sobre o altar.

Por isto lhes era ensinado que sacrifícios e ofertas Deus não desejava, nem aceitava, por causa deles mesmos, nem por qualquer valor intrínseco neles, como expressões naturais de homenagem e adoração.

Mas os sacrifícios e as ofertas recebiam eficácia unicamente daquele altar sobre o qual eram oferecidos, porque esse altar prefigurava Cristo; já as orações e os louvores, muito mais necessários e valiosos, deviam ser oferecidos todos os dias pelo povo de Deus, onde quer que estivessem.

Um israelita devoto podia honrar a Deus, e manter comunhão com ele, e obter dele misericórdia, embora não tivesse oportunidade, talvez, durante muitos meses seguidos, de levar um sacrifício ao seu altar.

Mas isto significava a obrigação em que nós, cristãos, estamos de oferecer todos os nossos sacrifícios espirituais a Deus em nome de Jesus Cristo, esperando aceitação somente com base na mediação dele, 1 Pedro 2:5.

III. É-lhes ordenado banquetear-se com as suas coisas consagradas diante do Senhor, com santa alegria. Eles não só devem trazer ao altar os sacrifícios que deviam ser oferecidos a Deus, mas devem trazer ao lugar do altar todas aquelas coisas que a lei lhes designara para comer e beber, para a honra de Deus, em sinal da sua comunhão com ele, v. 6.

Os seus dízimos e as ofertas alçadas da sua mão, isto é, as suas primícias, os seus votos, as suas ofertas voluntárias e os seus primogênitos, todas aquelas coisas que deviam ser usadas religiosamente ou por eles mesmos ou pelos sacerdotes e levitas, devem ser trazidos ao lugar que Deus escolheria; assim como todas as rendas da coroa, de todas as partes do reino, são trazidas ao erário.

E (v. 7): “Ali comereis diante do Senhor, e vos alegrareis em tudo a que puserdes as vossas mãos”; e de novo (v. 12), “Vós vos alegrareis diante do Senhor, vós, e vossos filhos, e vossas filhas”. Observe aqui:

  1. Que o que fazemos no serviço de Deus e para a sua glória redunda em nosso benefício, se não for por culpa nossa própria. Aqueles que sacrificam a Deus são bem-vindos para comer diante dele, e para banquetear-se com os seus sacrifícios: ele ceia conosco, e nós com ele, Apocalipse 3:20.

Se glorificamos a Deus, edificamos a nós mesmos, e cultivamos as nossas próprias mentes, pela graça de Deus, pelo aumento do nosso conhecimento e fé, o avivamento de afeições devotas, e a confirmação de hábitos e resoluções cheios de graça: assim é nutrida a alma.

  1. Que o trabalho para Deus deve ser feito com santa alegria e jovialidade. “Comereis e vos alegrareis”, v. 7, e de novo, v. 12 e v. 18.

(1.) Agora, enquanto estavam diante do Senhor, deviam alegrar-se, v. 12. É a vontade de Deus que o sirvamos com contentamento; ninguém o desagradou mais do que aqueles que cobriram o seu altar de lágrimas. Malaquias 2:13.

Veja que bom Mestre servimos, que fez do nosso dever cantar no nosso trabalho. Até as crianças e os servos devem alegrar-se com eles diante de Deus, para que os serviços da religião sejam um prazer para eles, e não uma tarefa ou labuta.

(2.) Devem levar consigo o grato sabor daquele deleite que encontraram na comunhão com Deus; devem alegrar-se em tudo a que puserem as mãos, v. 7. Parte do consolo que devem levar consigo para as suas ocupações comuns; e, assim fortalecidos na alma, tudo o que fizessem deviam fazê-lo de coração e com jovialidade.

E esta santa e piedosa alegria em Deus e na sua bondade, com a qual devemos alegrar-nos sempre, seria a melhor proteção contra o pecado e o laço das diversões vãs e carnais, e um alívio contra os pesares do mundo.

IV. É-lhes ordenado serem bondosos com os levitas. Banqueteavam-se com alegria? Os levitas devem banquetear-se com eles, e alegrar-se com eles, v. 12, e de novo, v. 18; e uma cautela geral (v. 19), “Atenta para que não abandones o levita enquanto viveres”.

Havia levitas que assistiam ao altar como auxiliares dos sacerdotes, e estes não deviam ser abandonados, isto é, o serviço que prestavam devia ser mantido com constante apego; nenhum outro altar devia ser erguido além daquele que Deus designou; pois isso seria abandonar os levitas.

Mas isto parece ser dito dos levitas que estavam dispersos pelo país para instruir o povo na lei de Deus, e para auxiliá-los nas suas devoções; pois aqui se lhes ordena que deem grande apreço ao levita dentro das suas portas.

É uma grande misericórdia ter levitas perto de nós, dentro das nossas portas, para pedirmos a lei na boca deles e para tê-los em nossas festas como freio que contenha os excessos.

E é dever do povo ser bondoso com os seus ministros que lhes dão boas instruções e lhes propõem bons exemplos. Enquanto vivermos precisaremos do auxílio deles, até chegarmos àquele mundo onde as ordenanças serão superadas; e por isso, enquanto vivermos, não devemos abandonar os levitas.

A razão dada (v. 12) é que o levita não tem parte nem herança com vocês, de modo que não pode enriquecer com a lavoura ou o comércio; que ele, portanto, compartilhe com vocês do consolo das suas riquezas.

Devem dar aos levitas os seus dízimos e ofertas, estabelecidos para eles pela lei, porque não tinham outro sustento.

V. É-lhes consentido comer carne comum, mas não a carne das suas ofertas, nas suas próprias casas, onde quer que habitassem. O que fosse de algum modo dedicado a Deus não deviam comer em casa, v. 13, 17. Mas o que não fosse assim dedicado podiam matar e comer a seu gosto, v. 15.

E esta permissão é de novo repetida, vv. 20-22. Parece que, enquanto estavam no deserto, não comiam a carne de nenhuma daquelas espécies de animais que eram usadas em sacrifício, senão a que era morta à porta do tabernáculo, e parte dela apresentada a Deus como oferta pacífica, Levítico 17:3, 4.

Mas quando chegaram a Canaã, onde deviam viver a grande distância do tabernáculo, podiam matar o que quisessem, para o seu próprio uso, dos seus rebanhos e manadas, sem levar parte ao altar.

Esta concessão é muito expressa, e repetida, para que Satanás não se aproveite daquela lei que proibia o comer dos seus sacrifícios nas suas próprias casas para lhes sugerir, como fez aos nossos primeiros pais, duros pensamentos sobre Deus, como se lhes regateasse: “Poderás comer tudo o que a tua alma desejar.”

Há um apetite natural e regular, que é lícito satisfazer com temperança e sobriedade, não tomando prazer demasiado na satisfação, nem ficando inquieto se ele for contrariado.

Os imundos, que não podiam comer das coisas santas, contudo podiam comer da mesma espécie de carne quando era usada apenas como alimento comum. A distinção entre pessoas puras e impuras era sagrada e destinada a preservar a honra das suas santas festas; por isso, não devia ser introduzida nas refeições ordinárias.

Esta permissão tem uma dupla restrição:

  1. Deviam comer conforme a bênção que Deus lhes tinha dado, v. 15. Repare: viver conforme os recursos de que dispomos e não gastar acima do que temos não é só uma questão de sabedoria, mas também um dever.

Assim como é injusto, por um lado, guardar o que deveria ser gasto, assim é muito mais injusto gastar mais do que temos; pois o que não é nosso é forçosamente de outro, que assim é roubado e defraudado.

E isto, digo, é muito mais injusto, porque é mais fácil depois distribuir o que foi indevidamente poupado, e assim fazer uma espécie de restituição pelo erro, do que repor à esposa, aos filhos e aos credores o que foi gasto indevidamente. Que a sabedoria encontre o meio-termo entre estes dois extremos, e que então a vigilância e a resolução o mantenham.

  1. Não deviam comer sangue (v. 16, e de novo, v. 23): “Somente certifica-te de que não comas o sangue” (v. 24), “Não o comerás”; e (v. 25), “Não o comerás, para que te vá bem”.

Quando não podiam levar o sangue ao altar, para derramá-lo ali diante do Senhor, como pertencente a ele, deviam derramá-lo sobre a terra, como não pertencente a eles, pois era a vida e, por isso, como reconhecimento, pertencia àquele que dá a vida, e, como expiação, pertencia àquele a quem a vida está confiscada.

O bispo Patrick pensa que uma razão por que lhes fosse proibido assim estritamente o comer sangue foi impedir as superstições dos antigos idólatras a respeito do sangue dos seus sacrifícios, no qual pensavam que os seus demônios se deleitavam, e comendo do qual imaginavam ter comunhão com eles.

VI. É-lhes proibido manter ou os seus próprios costumes corruptos no deserto ou os costumes corruptos dos seus predecessores na terra de Canaã.

  1. Não deviam manter aqueles costumes impróprios que tinham adquirido no deserto, e a que se fazia vista grossa em consideração da instabilidade presente da sua condição (v. 8, 9): “Não fareis segundo todas as coisas que fazemos aqui hoje”.

Nunca houve melhor governante do que Moisés, e pensaria alguém que nunca houve melhor oportunidade de manter a boa ordem e a disciplina do que agora entre o povo de Israel, quando estavam acampados tão próximos sob o olhar do seu governante.

E contudo parece que havia muita coisa errada e muitas irregularidades tinham se insinuado entre eles. Nunca devemos esperar ver sociedade alguma perfeitamente pura e justa, como deveria ser, até chegarmos à Canaã celestial.

Tinham sacrifícios e culto religioso, tribunais de justiça e governo civil, e, pelo apedrejamento do homem que ajuntava lenha no dia de sábado, parece que se usava grande rigor em observar as questões mais importantes da lei; mas, como se mudavam com frequência e viviam sempre na incerteza:

(1.) Nenhum deles podia observar as festas solenes e os ritos de limpeza com a exatidão que a lei exigia.

(2.) E aqueles entre eles que estavam dispostos a agir mal tinham oportunidade de fazê-lo sem serem observados, pelas frequentes interrupções que suas mudanças de acampamento causavam na administração da justiça.

Mas (diz Moisés) quando vocês chegarem a Canaã, não farão como fazemos aqui. Repare: quando o povo de Deus está numa condição instável, pode ser tolerado e dispensado aquilo que de modo algum seria consentido em outro tempo.

Casos de necessidade devem ser considerados enquanto a necessidade continua; mas não se deve fazer em Canaã o que se fazia no deserto. Enquanto uma casa está em construção, permite-se que muita sujeira e entulho fiquem junto dela, e tudo isso deve ser retirado quando a casa estiver construída.

Moisés estava agora prestes a partir desta vida e deixar o governo, e era um consolo para ele prever que Israel seria melhor no reinado seguinte do que tinha sido no dele.

  1. Não deviam cultuar o Senhor por nenhum daqueles ritos ou cerimônias de que as nações de Canaã tinham feito uso no serviço dos seus deuses, vv. 29-32.

Não deviam nem sequer inquirir sobre os modos e formas do culto idólatra. Que bem lhes faria conhecer essas profundezas de Satanás? Apocalipse 2:24. O melhor é ser ignorante daquilo por que há perigo de ser infectado.

Não deviam introduzir os costumes dos idólatras:

(1.) Porque seria absurdo tomar por modelo aqueles que Deus havia feito escravos e cativos dos israelitas, exterminando-os e destruindo-os diante deles.

Os cananeus não tinham florescido e prosperado tanto no serviço dos seus deuses a ponto de os israelitas serem convidados a adotar os seus costumes. São de fato miseravelmente embrutecidos aqueles que andarão no caminho dos pecadores, depois de terem visto o fim deles.

(2.) Porque alguns dos costumes deles eram extremamente bárbaros e desumanos, e tais que pisoteavam, não só a luz e a lei da natureza, mas a própria afeição natural, como queimar os seus filhos e as suas filhas no fogo aos seus deuses (v. 31), cuja mera menção basta para tornar essa prática odiosa e nos encher de horror diante dela.

(3.) Porque os costumes idólatras deles eram uma abominação para o Senhor, e a transferência deles para o culto dele tornaria abominação e afronta a ele até aquilo pelo qual deviam dar-lhe honra, e pelo qual esperavam obter o seu favor. O caso é mau de fato quando o próprio sacrifício se tornou abominação, Provérbios 15:8.

Por isso ele conclui (v. 32) com a mesma cautela a respeito do culto de Deus que tinha dado antes a respeito da palavra de Deus (Deuteronômio 4:2):

Não acrescentem a isso invenções de vocês mesmos, sob a alegação de tornar a ordenança ou mais significativa ou mais magnífica, nem diminuam dela sob a alegação de torná-la mais fácil e praticável ou de pôr de lado o que pode ser poupado; cuidem, porém, de fazer tudo aquilo, e somente aquilo, que Deus ordenou.

Podemos então esperar, no nosso culto religioso, obter a aceitação divina quando observamos a designação divina. Deus quer que a sua própria obra seja feita à sua própria maneira.


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