Matthew Henry

Daniel 9

Argumento

Neste capítulo temos: I. A oração de Daniel pela restauração dos judeus que estavam no cativeiro. Nela, ele confessa o pecado e reconhece a justiça de Deus nas calamidades deles, mas invoca as promessas de misericórdia que Deus ainda lhes reservava, vv. 1-19.

II. A resposta imediata que um anjo lhe trouxe à oração. Nela, 1. Daniel recebe a garantia de que os judeus logo seriam libertados do cativeiro, vv. 20-23. E 2. É informado sobre a redenção do mundo por Jesus Cristo, da qual aquela libertação era figura: qual seria sua natureza e quando se realizaria, vv. 24-27.

É a profecia mais clara e luminosa acerca do Messias em todo o Antigo Testamento.

Versículos 1 a 3

A Confissão e a Oração de Daniel. (a.C. 538.)

Deixamos Daniel, no fim do capítulo anterior, ocupado com os negócios do rei. Aqui, porém, o encontramos ocupado com algo melhor do que qualquer negócio que um rei pudesse lhe confiar: falando com Deus e ouvindo-o. Não apenas por si mesmo, mas pela igreja, da qual era porta-voz diante de Deus e para cujo proveito lhe foram confiados os oráculos divinos acerca dos dias do Messias. Observe:

  1. Quando Daniel teve essa comunhão com Deus (v. 1): no primeiro ano de Dario, o medo, que acabara de se tornar rei dos caldeus, após a Babilônia ser conquistada por ele e por Ciro, seu sobrinho ou neto. Nesse ano terminaram os setenta anos do cativeiro dos judeus, mas o decreto de libertação ainda não fora expedido.

Assim, parece que Daniel dirigiu essa oração a Deus naquele ano e, provavelmente, antes de ser lançado na cova dos leões. Talvez um forte motivo para ele se manter tão fiel ao dever de orar, mesmo que isso lhe custasse a vida, fosse ter experimentado tão recentemente o benefício e o consolo da oração.

  1. O que deu ocasião à sua oração a Deus (v. 2): ele entendeu pelos livros que setenta anos era o prazo fixado para durarem as desolações de Jerusalém. O livro pelo qual soube disso foi o das profecias de Jeremias. Ali encontrou a predição expressa (Jeremias 29:10): “Depois de se cumprirem setenta anos na Babilônia, eu vos visitarei e cumprirei para convosco a minha boa palavra”.

Por isso, os anos devem ser contados desde o primeiro cativeiro, no terceiro ano de Jeoaquim. Daniel tinha bom motivo para se lembrar dessa data, pois foi naquele cativeiro que ele próprio foi levado embora (Daniel 1:1).

Também se dizia (Jeremias 25:11): “Toda esta terra será uma desolação por setenta anos” (chorbath), a mesma palavra que Daniel usa aqui para as desolações de Jerusalém. Isso mostra que ele tinha essa profecia diante de si quando escreveu.

Embora Daniel fosse um grande profeta e conhecesse bem as visões de Deus, estudava diligentemente as Escrituras e não considerava indigno de si consultar as profecias de Jeremias. Era um grande estadista e primeiro-ministro de um dos maiores monarcas da terra; ainda assim, encontrava disposição e tempo para dedicar-se à palavra de Deus.

Os maiores e melhores homens do mundo não devem pensar que estão acima da Bíblia.

  1. Com quanta seriedade e solenidade se dirigiu a Deus. Quando percebeu que os setenta anos estavam prestes a terminar — pois as datas das profecias de Ezequiel mostram que calculavam exatamente os anos do cativeiro —, voltou o rosto para buscar a Deus em oração.

Repare: as promessas de Deus têm por fim estimular e animar nossas orações, não substituí-las. Quando vemos aproximar-se o dia do cumprimento delas, devemos invocá-las diante de Deus com ainda mais fervor e apresentá-las em súplica.

Foi o que Daniel fez. Orava três vezes por dia e, sem dúvida, em cada oração mencionava as desolações de Jerusalém. Ainda assim, não achou que isso bastasse. Mesmo em meio a seus afazeres, separou tempo para uma súplica extraordinária ao céu em favor de Jerusalém.

Deus dissera a Ezequiel que, ainda que Daniel, entre outros, estivesse diante dele, sua intercessão não conseguiria impedir o juízo (Ezequiel 14:14). Daniel espera, porém, que agora, terminada a guerra (Isaías 40:2), sua oração seja ouvida para a remoção do juízo.

Quando amanhece o dia da libertação, é tempo de o povo de Deus que ora pôr-se em movimento. Espera-se e exige-se dele algo extraordinário, além de seu sacrifício diário.

Daniel buscou a Deus com oração e súplicas, temendo que os pecados do povo o levassem a adiar a libertação além do tempo previsto. Ou melhor, orou para que o povo fosse preparado pela graça de Deus para a libertação que a providência divina estava prestes a realizar em seu favor. Observe agora:

(1.) A intensidade de sua mente nessa oração: “Voltei o rosto ao Senhor Deus para buscá-lo”. Isso indica a firmeza de seus pensamentos, a solidez de sua fé e o fervor de suas afeições devotas nesse dever.

Ao orar, devemos pôr Deus diante de nós e colocar-nos como em sua presença; a ele devemos dirigir nossa oração e erguer os olhos. Provavelmente, como sinal de que voltava o rosto para Deus, Daniel também o voltou para Jerusalém, como de costume, para sensibilizar ainda mais o próprio coração diante das desolações dela.

(2.) A mortificação de seu corpo nessa oração. Como sinal de profunda humilhação diante de Deus por seus pecados e pelos pecados do povo, e da consciência de sua indignidade, Daniel jejuou, vestiu pano de saco e deitou-se nas cinzas enquanto orava.

Assim, procurava sensibilizar-se mais pelas desolações de Jerusalém, cuja restauração pedia, e tomar consciência de que se dedicava agora a uma obra extraordinária.

Versículos 4 a 19

A Confissão e a Oração de Daniel; A Oração de Daniel por Seu Povo. (a.C. 538.)

Temos aqui a oração de Daniel a Deus, como seu Deus, e a confissão que ele uniu a essa oração: “Orei e fiz a minha confissão”. Repare: em toda oração devemos fazer confissão, não só dos pecados que cometemos (o que comumente chamamos de confissão), mas também de nossa fé em Deus e de nossa dependência dele, de nossa tristeza pelo pecado e de nossas resoluções contra ele.

Essa confissão deve ser nossa: deve expressar nossas próprias convicções e aquilo a que nós mesmos damos sincera adesão.

Percorramos as diversas partes dessa oração, que temos motivo para crer ter sido apresentada por Daniel com muito mais amplitude do que se registra aqui, pois estes são apenas os seus pontos principais.

I. Aqui está sua humilde, séria e reverente invocação a Deus:

  1. Como Deus a ser temido, diante de quem é nosso dever estar sempre em reverência: “Ó Senhor! Deus grande e temível, que podes enfrentar os maiores e mais terríveis inimigos da igreja”.

  2. Como Deus em quem se deve confiar e de quem é nosso dever depender: que guarda a aliança e a misericórdia para com os que o amam e, como prova desse amor, guardam seus mandamentos. Se cumprirmos nossa parte do trato, ele não deixará de cumprir a dele.

Ele será tão fiel à palavra dada a seu povo quanto prometeu, pois guarda a aliança com eles, e nem um só jota de sua promessa cairá por terra. Ou melhor, fará ainda mais do que sua palavra, pois lhes guarda misericórdia, algo além do que constava da aliança.

Era apropriado que Daniel tivesse os olhos voltados para a misericórdia de Deus ao apresentar-lhe as misérias do povo, e para a aliança de Deus ao requerer o cumprimento de uma promessa. Repare: em oração, devemos contemplar juntas tanto a grandeza quanto a bondade de Deus, sua majestade e sua misericórdia.

II. Aqui está uma confissão penitente do pecado, causa de todas as calamidades sob as quais seu povo gemia havia tantos anos, v. 5, 6. Ao buscarmos de Deus misericórdias nacionais, devemos humilhar-nos diante dele pelos pecados nacionais.

São esses os pecados que Daniel lamenta aqui. Podemos observar a variedade de palavras que usa para mostrar a grandeza das provocações do povo, pois cabe aos penitentes lançar o peso da culpa sobre si mesmos: “Pecamos” em muitas ocasiões específicas; ou melhor, “cometemos iniquidade”; fizemos do pecado um comércio; “procedemos perversamente”, com coração endurecido e pescoço obstinado.

Nisso nos rebelamos: pegamos em armas contra o Rei dos reis, sua coroa e sua dignidade. Duas coisas agravavam os pecados do povo:

  1. Que haviam violado as leis expressas que Deus lhes dera por Moisés: “Desviamo-nos dos teus preceitos e dos teus juízos e não nos conformamos a eles. E [v. 10] não obedecemos à voz do Senhor, nosso Deus”.

Aquilo que define a natureza do pecado, ser transgressão da lei, também revela suficientemente sua malignidade. Se o pecado se manifesta como pecado, não pode ser mostrado como algo pior; sua pecaminosidade é o que o torna mais detestável, Romanos 7:13.

Deus pôs diante de nós suas leis de modo claro e completo, como o modelo que devemos copiar; contudo, não andamos nelas, mas nos desviamos ou voltamos atrás.

  1. Que haviam desprezado as justas advertências que Deus lhes dera por meio dos profetas. Deus os enviara ao povo em todas as épocas, levantando-se cedo para enviá-los (v. 6): “Não demos ouvidos aos teus servos, os profetas, que nos lembraram tuas leis e as sanções delas. Embora falassem em teu nome, não lhes demos atenção”.

“Embora transmitissem fielmente sua mensagem, dirigida sem distinção a todas as ordens e classes de pessoas, a nossos reis e príncipes, a quem tiveram coragem e confiança para falar, a nossos pais e a todo o povo da terra, a quem tiveram condescendência e compaixão para falar, ainda assim não lhes demos ouvidos, nem os escutamos, nem lhes demos atenção, nem obedecemos a eles.”

Zombar dos mensageiros de Deus e desprezar suas palavras foram os pecados que completaram a medida de Jerusalém, 2 Crônicas 36:16. Essa confissão de pecado se repete e recebe muita ênfase aqui. Os penitentes devem acusar e censurar a si mesmos repetidas vezes, até sentirem o coração inteiramente quebrantado.

“Todo Israel transgrediu a tua lei”, v. 11. Trata-se de Israel, o povo que professa pertencer a Deus, que tinha mais conhecimento e de quem se esperava mais; Israel, o povo peculiar de Deus, cercado por seus favores.

Não foi uma pessoa aqui e outra ali: foi todo Israel, a maioria deles, o corpo do povo, que transgrediu ao desviar-se e sair do caminho, para não ouvir a voz de Deus e assim não lhe obedecer.

É essa desobediência que todos os verdadeiros penitentes imputam a si mesmos com maior sensibilidade (v. 14): “Não obedecemos à sua voz”; e (v. 15): “Pecamos, procedemos perversamente”. Aqueles que desejam alcançar misericórdia devem confessar assim seus pecados.

III. Aqui está o reconhecimento humilde da justiça de Deus em todos os juízos que vieram sobre eles. Os verdadeiros penitentes sempre justificam Deus dessa maneira, para que ele seja reconhecido justo quando julga e o pecador leve toda a culpa.

  1. Daniel reconhece que foi o pecado que os lançou em todas essas aflições. Israel está disperso pelos países ao redor e, por isso, enfraquecido, empobrecido e exposto. A mão de Deus os espalhou de um lado para outro: alguns para perto, onde são conhecidos e, portanto, sentem maior vergonha; outros para longe, onde não são conhecidos e, por isso, estão mais abandonados.

É “por causa da transgressão com que transgrediram” (v. 7). Misturaram-se às nações para ser corrompidos por elas; agora Deus os mistura às nações para ser despojados por elas.

  1. Daniel reconhece nisso a justiça de Deus: Deus não lhes fez injustiça em nada do que lhes trouxe, mas os tratou conforme mereciam (v. 7): “Ó Senhor! A ti pertence a justiça; não temos falta alguma a apontar em tua providência nem objeção alguma a fazer contra teus juízos”.

“Pois [v. 14] o Senhor, nosso Deus, é justo em todas as obras que faz, até nas graves calamidades em que nos encontramos agora; não obedecemos às palavras de sua boca e, por isso, sentimos justamente o peso de sua mão.” Isso parece ter sido tomado de Lamentações 1:18.

  1. Ele observa o cumprimento das Escrituras naquilo que lhes sobreveio. Deus os afligiu em sua própria fidelidade, pois tudo ocorreu conforme a palavra que havia dito. “A maldição foi derramada sobre nós, e o juramento”: isto é, a maldição ratificada por juramento na lei de Moisés, v. 11.

Isso justifica ainda mais a Deus nas aflições deles: apenas aplicou a pena da lei, da qual os havia avisado com clareza. Para preservar a honra da veracidade de Deus e impedir que seu governo caísse em desprezo, era necessário que as ameaças de sua palavra se cumprissem. Caso contrário, pareceriam simples espantalhos; ou melhor, nem sequer pareceriam temíveis.

Por isso, ele confirmou as palavras que havia pronunciado contra nós, porque quebramos suas leis, e contra nossos juízes que nos julgavam, porque não puniram a transgressão das leis de Deus como exigia seu cargo.

Deus lhes disse muitas vezes que, se não executassem a justiça e não fossem motivo de terror para os malfeitores, ele próprio teria de assumir essa tarefa e a assumiria. Agora confirmou o que dissera, trazendo sobre nós um grande mal do qual os próprios príncipes e juízes participaram intensamente.

Repare: para aproveitarmos os juízos da mão de Deus, ajuda muito observar como eles correspondem exatamente aos juízos de sua boca.

  1. Daniel ressalta a gravidade das calamidades em que estavam, para que não parecessem fazer pouco caso delas por estarem havia tanto tempo acostumados a elas e, assim, perdessem o benefício da disciplina do Senhor por desprezá-la.

“Não nos queixamos de algumas das aflições comuns da vida, mas de algo que traz marcas especiais do desagrado divino; pois debaixo de todo o céu não se fez coisa alguma como a que foi feita a Jerusalém”, v. 12. É a lamentação de Jeremias em nome da igreja: “Houve jamais dor como a minha dor?” Isso pressupõe outra pergunta semelhante: “Houve jamais pecado como o meu pecado?”

  1. Ele atribui vergonha à nação inteira, desde o mais alto até o mais humilde. Se disserem amém à oração dele, como convinha a quem desejasse participar de seus benefícios, todos deverão pôr a mão sobre a boca e a boca no pó: “A nós pertence a confusão de rosto, como hoje [v. 7]; estamos sob a vergonha do castigo de nossa iniquidade, pois a vergonha nos é devida”.

Se Israel tivesse conservado seu caráter e continuado um povo santo, estaria elevado acima de todas as nações em louvor, nome e honra (Deuteronômio 26:19). Mas, agora que pecaram e procederam perversamente, cabem-lhes a confusão e a desonra: aos homens de Judá e aos habitantes de Jerusalém, tanto os do campo quanto os da cidade, pois todos são igualmente culpados diante de Deus.

A confusão cabe a todo Israel: tanto às duas tribos que estão perto, junto aos rios da Babilônia, quanto às dez tribos que estão longe, na terra da Assíria.

“A confusão não cabe apenas ao povo comum de nossa terra, mas também a nossos reis, nossos príncipes e nossos pais [v. 8], que deveriam ter dado exemplo melhor e usado sua autoridade e influência para conter a ameaçadora torrente de vício e profanação.”

  1. Ele atribui a permanência do juízo à resistência do povo à correção recebida (v. 13, 14): “Todo este mal veio sobre nós e há muito tempo pesa sobre nós; contudo, não fizemos nossa oração perante o Senhor, nosso Deus, não da maneira correta, como deveríamos ter feito, com coração humilde, abatido, penitente e obediente”.

“Fomos feridos, mas não voltamos para aquele que nos feriu. Não suplicamos diante da face do Senhor, nosso Deus” — assim diz a palavra —; “não cuidamos de fazer as pazes com Deus nem de nos reconciliar com ele”.

Daniel deu a seus irmãos um bom exemplo de oração contínua, mas entristecia-se ao ver quão poucos seguiam esse exemplo. Esperava-se que, na aflição, buscassem a Deus prontamente; porém, não o buscaram para se desviar de suas iniquidades e compreender sua verdade.

O propósito das aflições é levar as pessoas a se desviar de suas iniquidades e a compreender a verdade de Deus. Assim Eliú as havia explicado em Jó 36:10: por elas Deus abre os ouvidos das pessoas à instrução e ordena que se afastem da iniquidade.

Se as pessoas fossem levadas a compreender corretamente a verdade de Deus e a sujeitar-se a seu poder e sua autoridade, abandonariam o erro de seus caminhos. O primeiro passo para isso é fazer nossa oração perante o Senhor, nosso Deus, para que a aflição seja santificada antes de ser removida e a graça de Deus acompanhe a providência de Deus, fazendo-a cumprir seu propósito.

Aqueles que, em sua aflição, não fazem oração a Deus nem clamam quando ele os prende provavelmente não se desviarão da iniquidade nem compreenderão sua verdade.

“Portanto, porque não aproveitamos a aflição, o Senhor vigiou sobre o mal, como o juiz cuida para que a execução se cumpra conforme a sentença. Porque não fomos derretidos, ele nos manteve continuamente na fornalha e vigiou sobre ela para tornar o calor ainda mais intenso.” Pois, quando Deus julga, prevalecerá e será reconhecido justo em todos os seus procedimentos.

IV. Aqui está um apelo cheio de fé à misericórdia de Deus, aos antigos sinais de seu favor para com Israel e ao interesse de sua própria glória no bem do povo:

  1. É consolo para eles, e não pequeno, que Deus sempre esteve pronto a perdoar o pecado (v. 9): ao Senhor, nosso Deus, pertencem as misericórdias e o perdão. Isso remete à proclamação de seu nome em Êxodo 34:6, 7: o Senhor Deus, bondoso e misericordioso, que perdoa a iniquidade.

Repare: para os pobres pecadores, é muito animador lembrar que as misericórdias pertencem a Deus, assim como os convence e humilha lembrar que a justiça lhe pertence. Aqueles que lhe dão a glória por sua justiça podem receber para si o consolo de suas misericórdias, Salmos 62:12.

Há misericórdias abundantes em Deus e não apenas perdão, mas perdões; ele é Deus de perdões (Neemias 9:17, margem). Ele multiplica o perdão, Isaías 55:7. Embora tenhamos nos rebelado contra ele, ainda assim há misericórdia junto dele, misericórdia perdoadora, mesmo para os rebeldes.

  1. Também lhes dá sustento lembrar que Deus, no passado, glorificou a si mesmo ao livrá-los do Egito. Até ali Daniel recua para animar sua fé (v. 15): “Trouxeste outrora teu povo do Egito com mão poderosa; não o trarás agora da Babilônia com essa mesma mão poderosa? Naquela ocasião eles foram formados como povo; não serão agora reformados e formados de novo?”

“São pecadores e indignos agora; não eram assim naquele tempo? Seus opressores são poderosos e arrogantes agora; não o eram também naquele tempo? E não disse Deus que o livramento deles da Babilônia ultrapassará até o do Egito?” Jeremias 16:14, 15.

A força desse apelo está nisto: “Alcançaste renome, fizeste para ti um nome” — assim diz o texto — “como no dia de hoje, até este dia, ao nos trazer do Egito; perderás o crédito disso ao nos deixar perecer na Babilônia?”

“Alcançaste renome por aquele livramento que tantas vezes lembramos; não alcançarás agora renome por este, pelo qual tantas vezes oramos e pelo qual esperamos durante tanto tempo?”

V. Aqui está uma comovente queixa do descrédito em que se encontrava o povo de Deus e das ruínas em que jazia seu santuário. Ambos contribuíam muito para a desonra de Deus e para diminuir aquele nome e renome que ele havia alcançado ao tirá-los do Egito:

  1. O povo santo de Deus era desprezado. Por seus pecados e pelas iniquidades de seus pais, profanaram sua coroa e tornaram-se desprezíveis. Embora sejam o povo de Deus por nome e profissão de fé e, por isso, verdadeiramente grandes e honrados, tornaram-se motivo de desprezo para todos os que os cercam. Os vizinhos zombam deles e triunfam sobre sua desonra.

Repare: o pecado é descrédito para qualquer povo, mas especialmente para o povo de Deus, sobre o qual recaem mais olhares e que tem mais honra a perder do que os demais povos.

  1. O lugar santo de Deus estava desolado. Jerusalém, a cidade santa, era motivo de desprezo (v. 16) enquanto jazia em ruínas; causava espanto e assobios a todos os que passavam. O santuário, a casa santa, estava desolado (v. 17); os altares haviam sido demolidos, e todos os edifícios reduzidos a cinzas.

Repare: as desolações do santuário causam dor a todos os santos, que consideram todos os seus consolos neste mundo sepultados nas ruínas dele.

VI. Aqui está um pedido insistente a Deus para restituir aos pobres judeus cativos o que antes desfrutavam. A petição é muito urgente, pois Deus nos permite lutar com ele em oração: “Ó Senhor! Eu te suplico [v. 16]: se alguma vez fizeres algo por mim, faze isto; é o desejo e a oração de meu coração”.

“Agora, pois, ó nosso Deus!” “Ouve a oração de teu servo e sua súplica” (v. 17), “e concede uma resposta de paz.” Quais são, então, suas petições? Quais são seus pedidos?

  1. Que Deus afastasse deles sua cólera. É isso que todos os santos mais temem e rogam que seja evitado: “Ó, desvie-se a tua ira de tua Jerusalém, teu santo monte!”, v. 16. Daniel não ora pelo fim do cativeiro deles — que o Senhor lhes faça o que parecer bom aos seus olhos —, mas, em primeiro lugar, pelo afastamento da cólera de Deus. Remova-se a causa, e o efeito cessará.

  2. Que ele fizesse brilhar sobre eles a luz de seu rosto (v. 17): “Faze brilhar teu rosto sobre teu santuário desolado; volta a nós com tua misericórdia e mostra que estás reconciliado conosco. Então tudo estará bem”.

Repare: o brilho do rosto de Deus sobre as desolações do santuário é tudo para sua restauração; é sobre esse alicerce que ele deve ser reconstruído.

Se, portanto, seus amigos quiserem começar a obra pelo lado certo, devem primeiro buscar com fervor o favor de Deus em oração e recomendar seu santuário desolado ao sorriso divino. “Faze brilhar teu rosto, e seremos salvos”, Salmos 80:3.

  1. Que ele perdoasse os pecados deles e então apressasse seu livramento (v. 19): “Ó Senhor! Ouve; ó Senhor! Perdoa”. “Para que a misericórdia pedida seja concedida como misericórdia, remove o pecado que ameaça colocar-se entre nós e ela”.

“Ó Senhor! Escuta e age; não apenas escuta e fala, mas escuta e age. Faz por nós o que ninguém mais pode fazer, e faze-o depressa: não demores, ó meu Deus!” Agora que via aproximar-se o dia determinado, Daniel podia orar com fé para que Deus se apressasse em ajudá-los e não demorasse. Davi orava muitas vezes: “Apressa-te, ó Deus, em ajudar-me”.

VII. Aqui estão vários apelos e razões para reforçar as petições. Deus nos permite não só orar, mas também apresentar-lhe nossas razões. Isso não é para movê-lo — ele próprio sabe o que fará —, mas para mover a nós mesmos, estimular nosso fervor e animar nossa fé.

  1. Eles rejeitam depender de qualquer justiça própria. Não alegam merecer da mão de Deus coisa alguma além da cólera e da maldição (v. 18): “Não apresentamos diante de ti nossas súplicas esperando ser atendidos por causa de nossa justiça, como se fôssemos dignos de receber teu favor por algum bem que haja em nós ou que tenhamos feito, ou como se pudéssemos exigir algo como dívida”.

“Não podemos insistir em nossa própria justificação, não, nem mesmo se fôssemos mais justos do que somos. Ou melhor, ainda que nada soubéssemos de errado em nós mesmos, não seríamos justificados por isso nem tentaríamos responder em nossa defesa; faríamos súplica a nosso Juiz.”

Moisés dissera a Israel muito antes que nada do que Deus fizesse por eles seria por causa da justiça deles, Deuteronômio 9:4, 5. E Ezequiel lhes dissera recentemente que o retorno da Babilônia não seria por causa deles, Ezequiel 36:22, 32.

Repare: sempre que nos achegamos a Deus em busca de misericórdia, devemos deixar de lado toda presunção acerca de nossa justiça e toda confiança nela.

  1. Buscam ânimo para orar somente em Deus, pois sabem que os motivos de sua misericórdia vêm dele mesmo. Por isso, devemos tomar dele todos os nossos apelos por misericórdia e, assim, honrá-lo quando lhe suplicamos graça e misericórdia:

(1.) “Faz isso por causa de ti mesmo [v. 19], para cumprir teu próprio conselho, realizar tua própria promessa e manifestar tua própria glória.” Repare: Deus fará sua própria obra não apenas de sua própria maneira e no tempo que determinar, mas por causa de si mesmo; devemos aceitá-lo assim.

(2.) “Faz isso por causa do Senhor, isto é, por causa de Cristo, o Senhor”, por causa do Messias prometido, que é o Senhor — é assim que a maioria e os melhores de nossos intérpretes cristãos entendem essas palavras. É por causa de Adonai, nome pelo qual Davi chamou o Messias (Salmos 110:1).

Pede-se misericórdia em favor da igreja por causa do Filho do homem (Salmos 80:17) e por causa da Palavra de Deus; ele é Senhor de todos. É por causa dele, e da satisfação que realizou, que Deus faz seu rosto brilhar sobre os pecadores quando se arrependem e voltam para ele.

Portanto, esse deve ser nosso apelo em todas as orações: devemos fazer menção de sua justiça, e somente da sua, Salmos 71:16. Olhe para o rosto do ungido. Ele próprio nos orientou a pedir em seu nome.

(3.) “Faz isso segundo toda a tua justiça” (v. 16), “isto é, defende-nos de nossos perseguidores e opressores segundo tua justiça.” “Embora nós mesmos sejamos injustos diante de Deus, em relação a eles temos uma causa justa, cuja defesa deixamos nas mãos do Deus justo.”

Ou melhor, a justiça de Deus significa aqui sua fidelidade à promessa. Deus havia executado a ameaça segundo sua justiça, v. 11. “Agora, Senhor, não agirás segundo toda a tua justiça? Não serás tão fiel às tuas promessas quanto foste às tuas ameaças, cumprindo também aquelas?”

(4.) “Faz isso por causa de tuas grandes misericórdias [v. 18], para mostrar que és um Deus misericordioso.” Chamamos de misericórdias as coisas boas que pedimos a Deus porque as esperamos exclusivamente de sua misericórdia.

Como a miséria é o objeto próprio da misericórdia, o profeta apresenta diante de Deus a condição deplorável da igreja, como que para despertar sua compaixão: “Abre os olhos e contempla nossas desolações, especialmente as desolações do santuário. Ó, olha com compaixão para esta situação digna de compaixão!”

Repare: as desolações da igreja devem ser apresentadas a Deus em oração e, então, deixadas com ele.

(5.) “Faz isso por causa da relação que temos contigo.” “O santuário desolado é teu santuário” (v. 17), “dedicado à tua honra, empregado em teu serviço e lugar de tua morada.” “Jerusalém é tua cidade e teu santo monte” (v. 16); “é a cidade chamada pelo teu nome”, v. 18.

Era a cidade que Deus escolhera dentre todas as tribos de Israel para ali colocar seu nome. “O povo que se tornou motivo de desprezo é teu povo; teu nome sofre com o desprezo lançado sobre eles” (v. 16).

“Eles são chamados pelo teu nome” (v. 19). “Senhor, eles te pertencem e, portanto, os interesses deles dizem respeito a ti.” “Não cuidarás dos teus, dos membros de tua casa?” “São teus; salva-os”, Salmos 119:94.

A Oração de Daniel Respondida; A Resposta à Oração de Daniel; A Vinda do Messias; A Destruição de Jerusalém Predita. (a.C. 538.)

Versículos 20 a 27

Temos aqui a resposta enviada imediatamente à oração de Daniel, uma resposta muito memorável, pois contém a mais ilustre predição de Cristo e da graça do evangelho existente em todo o Antigo Testamento. Se João Batista era a estrela da manhã, esta era a alvorada do Sol da justiça, a aurora vinda do alto. Aqui está:

I. O momento em que a resposta foi dada:

  1. Foi enquanto Daniel orava. Ele observou isso e lhe deu grande ênfase: “Enquanto eu ainda falava” (v. 20), sim, “enquanto eu ainda falava em oração” (v. 21), antes de se levantar de seus joelhos e quando ainda pretendia dizer mais coisas.

(1.) Menciona os dois assuntos principais em que insistia na oração e sobre os quais talvez pretendesse falar mais extensamente.

[1.] Confessava o pecado e o lamentava: “tanto o meu pecado como o pecado do meu povo Israel”. Daniel era homem muito grande e bom; ainda assim, encontrava pecados próprios para confessar diante de Deus e estava disposto a confessá-los. Pois não há homem justo na terra que faça o bem e não peque, nem que peque e não se arrependa.

São João se inclui entre os que enganam a si mesmos se afirmam não ter pecado e que, portanto, confessam seus pecados, 1 João 1:8. Os homens bons encontram alívio para a consciência ao apresentar diante do Senhor suas queixas contra si mesmos: isso é confessar o pecado.

Daniel também confessou o pecado de seu povo e o lamentou. Os que se importam sinceramente com a glória de Deus, o bem da igreja e a alma dos homens lamentarão os pecados dos outros, assim como os próprios.

[2.] Suplicava diante do Senhor, seu Deus, apresentando a oração como intercessor por Israel. Nessa oração, sua preocupação era com o santo monte de seu Deus, o monte Sião. A desolação do santuário lhe pesava mais no coração do que a da cidade e da terra.

A reparação do santuário e o restabelecimento do culto público ao Deus de Israel eram, no livramento pelo qual se preparava, seus objetivos, mais do que a restauração dos interesses civis do povo. Pois bem:

(2.) Enquanto Daniel assim se ocupava:

[1.] Recebeu a concessão da misericórdia pela qual orava. Repare: Deus está muito pronto a ouvir a oração e a dar uma resposta de paz. Cumpriu-se então o que Deus dissera em Isaías 65:24: “Enquanto ainda estiverem falando, eu ouvirei”.

Daniel tornou-se muito fervoroso na oração, e seus sentimentos eram muito intensos, v. 18, 19. Enquanto falava com tanto fervor e ardor, o anjo veio trazer-lhe uma resposta bondosa. Deus se agrada de devoções vivas.

Hoje não podemos esperar que Deus nos envie respostas às orações por meio de anjos. Mas, se oramos com fervor por algo que Deus prometeu, podemos, pela fé, receber a promessa como resposta imediata à oração; pois aquele que prometeu é fiel.

[2.] Recebeu a revelação de uma redenção muito maior e mais gloriosa, que Deus realizaria para sua igreja nos últimos dias. Repare: os que desejam conhecer Cristo e sua graça precisam dedicar-se muito à oração.

  1. Foi por volta da hora da oblação da tarde, v. 21. O altar estava em ruínas e nenhuma oblação era oferecida sobre ele. Ao que parece, porém, os judeus piedosos no cativeiro se lembravam todos os dias da hora em que ela deveria ser oferecida e, naquele momento, estavam prontos a chorar ao recordá-la.

Desejavam e esperavam que sua oração subisse diante de Deus como incenso e que o erguer de suas mãos, com o coração erguido junto com elas, fosse aceito aos olhos dele como o sacrifício da tarde, Salmos 141:2.

A oblação da tarde era figura do grande sacrifício que Cristo ofereceria na tarde da história do mundo. Foi pela eficácia desse sacrifício que a oração de Daniel foi aceita quando ele orou por causa do Senhor; e também por causa dele lhe foi feita essa gloriosa revelação do amor redentor. O Cordeiro abriu os selos pela eficácia de seu próprio sangue.

II. O mensageiro por meio de quem a resposta foi enviada. Ela não foi dada a Daniel num sonho nem por uma voz do céu. Para lhe conferir maior certeza e solenidade, um anjo foi enviado de propósito, aparecendo em forma humana, para entregar-lhe a resposta. Observe:

  1. Quem era esse anjo ou mensageiro: o homem Gabriel. Se Miguel, o arcanjo, não é outro senão Jesus Cristo, como muitos supõem, Gabriel é o único anjo criado nomeado nas Escrituras. Gabriel significa o poderoso de Deus; pois os anjos são grandes em poder e força, 2 Pedro 2:11.

“Era aquele que eu tinha visto na visão ao princípio.” Daniel ouviu seu nome e assim o aprendeu (Daniel 8:16). Embora então tivesse tremido com sua aproximação, observou-o com tanta atenção que agora o reconheceu: sabia ser o mesmo que vira no princípio. Como já o conhecia um pouco melhor, não ficou agora tão aterrorizado ao vê-lo como antes.

Quando esse anjo disse a Zacarias: “Eu sou Gabriel” (Lucas 1:19), pretendia fazê-lo lembrar do anúncio que fizera a Daniel sobre a vinda do Messias quando ela ainda estava distante. Isso confirmaria a fé de Zacarias no anúncio que estava prestes a lhe fazer de que essa vinda estava às portas.

  1. As instruções que esse mensageiro recebeu do Pai das luzes, a quem Daniel orava (v. 23): “No princípio das tuas súplicas saiu a palavra”, a ordem, da parte de Deus. Os anjos no céu foram informados desse conselho divino, que desejavam investigar; Gabriel recebeu a ordem de ir imediatamente levar a notícia a Daniel.

Isso mostra que não foi algo que Daniel disse que moveu Deus, pois a resposta foi dada quando ele começava a orar. Mas Deus se agradou de sua atitude séria e solene diante desse dever e, como sinal disso, enviou-lhe essa mensagem bondosa.

Ou talvez tenha sido no princípio das súplicas de Daniel que saiu a palavra, ou ordem, de Ciro para restaurar e edificar Jerusalém, a saída mencionada no v. 25: “Isso aconteceu hoje mesmo; a proclamação da liberdade dos judeus foi assinada esta manhã, justamente quando você orava por ela”.

Agora, ao fim daquele dia de jejum, Daniel foi informado, assim como, ao fim do dia da expiação, a trombeta do jubileu soava para proclamar a liberdade.

  1. A pressa com que entregou a mensagem: “Foi mandado voar rapidamente”, v. 21. Os anjos são mensageiros alados, rápidos em seus movimentos, que não demoram a cumprir as ordens recebidas; correm e voltam como um relâmpago, Ezequiel 1:14.

Ao que parece, porém, às vezes agem com mais rapidez que em outras ocasiões e levam a mensagem mais depressa. Aqui o anjo foi mandado voar rapidamente: recebeu tanto a ordem quanto a capacidade para fazê-lo. Os anjos cumprem sua tarefa em obediência à ordem divina e em dependência da força divina.

Embora se destaquem pela sabedoria, voam mais depressa ou mais devagar conforme Deus ordena; e, embora se destaquem pelo poder, voam apenas porque Deus os faz voar. Para nós, os próprios anjos são o que Deus os faz ser: são seus ministros e fazem sua vontade, Salmos 103:21.

  1. Os prefácios ou introduções à sua mensagem:

(1.) Tocou em Daniel (v. 21), como fizera antes (Daniel 8:18). Não para despertá-lo do sono, como naquela ocasião, mas para dar-lhe um sinal de que interrompesse a oração e atentasse à resposta que tinha a lhe dar.

Repare: para mantermos comunhão com Deus, precisamos estar não apenas dispostos a falar com ele, mas igualmente dispostos a ouvir o que ele tem a nos dizer. Depois de orar, devemos levantar os olhos, aguardar a resposta às orações e assumir nosso posto de vigilância.

(2.) Falou com Daniel (v. 22) de modo familiar, como um amigo fala com outro, para que o temor não o dominasse. Informou-o da missão para a qual viera: fora enviado do céu de propósito com uma mensagem bondosa. “Vim para te mostrar” (v. 23), para contar algo que você ainda não sabia.

Já lhe mostrara as aflições da igreja sob Antíoco e o fim delas (Daniel 8:19); agora tinha coisas maiores a lhe mostrar, pois quem é fiel no pouco receberá a confiança de mais. “Na verdade, agora saí para te dar habilidade e entendimento” (v. 22), não apenas para mostrar-lhe essas coisas, mas para fazê-lo compreendê-las.

(3.) Assegurou-lhe que era favorecido pelo Céu; de outro modo não receberia essa informação, e devia considerá-la um favor: “Vim para te mostrar, pois és muito amado”. Daniel era um homem de desejos, agradável a Deus e objeto de seu favor.

Repare: embora Deus ame todos os seus filhos, alguns, mais do que os demais, são muito amados. Cristo tinha um discípulo que se reclinava junto ao seu peito; esse discípulo amado foi o encarregado das visões proféticas do Novo Testamento, assim como Daniel recebeu as do Antigo.

Pois que sinal maior do favor divino pode haver para alguém do que os segredos do Senhor estarem com ele? Abraão é amigo de Deus; por isso: “Ocultarei de Abraão o que estou para fazer?”, Gênesis 18:17. Repare: podem considerar-se muito amados por Deus aqueles a quem e em quem ele revela seu Filho.

Alguns observam que o título dado pelo anjo Gabriel à Virgem Maria é muito semelhante ao que dá aqui a Daniel, como se pretendesse fazê-la recordar-se dele: “Tu que és muito favorecida”, assim como Daniel era “muito amado”.

(4.) Exige que Daniel preste séria atenção à revelação que está prestes a receber: “Entende, pois, a palavra e considera a visão”, v. 23. Isso indica que a revelação merecia sua atenção mais do que todas as visões com que antes fora favorecido.

Repare: quem deseja compreender as coisas de Deus precisa considerá-las, aplicar-lhes a mente, meditar nelas e comparar coisas espirituais com espirituais. Falta de reflexão é o motivo de estarmos tão às escuras e errarmos tanto quanto à vontade revelada de Deus. Essa visão exige e merece ser considerada.

III. A mensagem em si. Foi entregue com grande solenidade, recebida sem dúvida com muita atenção e registrada com grande exatidão. Mas, como costuma acontecer nas profecias, contém coisas obscuras e difíceis de entender.

Daniel compreendera, pelo livro do profeta Jeremias, que os setenta anos do cativeiro estavam terminando. Agora recebe a honrosa tarefa de anunciar à igreja outra libertação, mais gloriosa, da qual aquela era apenas sombra, ao fim de outros setenta períodos, não de anos, mas de semanas de anos.

Ele orara a respeito daquela profecia e recebeu esta em resposta. Havia orado por seu povo e pela cidade santa, para que o povo fosse libertado e a cidade reconstruída; Deus, porém, lhe responde muito além do que poderia pedir ou pensar. Deus não apenas concede os desejos dos que o temem, mas os supera, Salmos 21:4.

  1. Os tempos aqui determinados são um tanto difíceis de entender. Em geral, são setenta semanas, isto é, setenta vezes sete anos, totalizando exatamente 490 anos. Os grandes acontecimentos que ainda virão sobre o povo de Israel e a cidade de Jerusalém caberão nesse período.

(1.) Esses anos são descritos em semanas:

[1.] Em conformidade com o estilo profético, quase sempre difícil e diferente do modo comum de falar, para que as coisas preditas não fossem óbvias demais.

[2.] Para honrar a divisão do tempo em semanas, feita exclusivamente por causa do dia de sábado, e indicar que ela seria permanente.

[3.] Em referência aos setenta anos do cativeiro: assim como ficaram tanto tempo afastados da posse da própria terra, agora, restaurados a ela, permaneceriam em sua posse por um tempo sete vezes maior. Deus se deleita muito mais em mostrar misericórdia do que em punir.

A terra desfrutara seus sábados, em sentido triste, por setenta anos, Levítico 26:34. Agora, porém, o povo do Senhor desfrutará seus sábados, em sentido consolador, por sete vezes setenta anos; haverá nesse período setenta anos sabáticos, que somam dez jubileus.

Há proporções assim nos atos da Providência, para que vejamos e admiremos a sabedoria daquele que determinou os tempos anteriormente designados.

(2.) As dificuldades referentes a essas setenta semanas dizem respeito:

[1.] À época em que começam e a partir da qual devem ser contadas. Sua data inicial é aqui a saída da ordem para restaurar e edificar Jerusalém, v. 25. Inclino-me mais a entender que se trata do decreto de Ciro mencionado em Esdras 1:1, pois por ele o povo foi restaurado.

Embora ali não se mencione expressamente a edificação de Jerusalém, ela está implícita na construção do templo e fora predita como obra de Ciro, Isaías 44:28: “Ele dirá a Jerusalém: Serás edificada”.

Tanto na profecia quanto na história, esse era o decreto mais conhecido para edificar Jerusalém. Além disso, ao que parece, a saída da ordem (que tanto pode indicar a ordem de Deus a respeito disso quanto a de Ciro) é a mesma saída mencionada no v. 23, no início das súplicas de Daniel. É muito apropriado que as setenta semanas comecem imediatamente após o fim dos setenta anos.

A única objeção é que, por esse cálculo, a monarquia persa, desde a tomada da Babilônia por Ciro até a conquista de Dario por Alexandre, teria durado apenas 130 anos. Pelo relato detalhado dos reinados dos imperadores persas, porém, calcula-se que durou 230 anos; assim contam Tucídides, Xenofonte e outros.

Os que situam o início no primeiro decreto rejeitam esses cálculos dos historiadores pagãos como incertos e indignos de confiança. Outros, procurando conciliá-los, começam a contar os 490 anos não a partir do decreto de Ciro (Esdras 1:1), mas do segundo decreto para a edificação de Jerusalém, emitido por Dario Noto mais de cem anos depois e mencionado em Esdras 6.

Outros ainda escolhem o sétimo ano de Artaxerxes Mnemon, que enviou Esdras com uma comissão, Esdras 7:8-12. O erudito senhor Poole, em sua Synopsis latina, reuniu vasto e muito elaborado conjunto de argumentos a favor e contra os diferentes pontos de partida dessas semanas, com o qual os estudiosos podem se ocupar.

[2.] Ao término delas; também quanto a isso os intérpretes discordam. Alguns fazem as semanas terminar na morte de Cristo e entendem que as palavras dessa célebre profecia autorizam a concluir que, da hora em que Gabriel falou a Daniel, na oblação da tarde, à hora da morte de Cristo, também perto da tarde, transcorreram exatamente 490 anos. Estou bastante disposto a aceitar essa opinião.

Outros, porém, entendem que elas terminam três anos e meio após a morte de Cristo, quando os judeus rejeitaram o evangelho e os apóstolos se voltaram para os gentios. Fundamentam-se em que se diz que, no meio da semana (isto é, da última das setenta semanas), ele fará cessar o sacrifício e a oblação.

Mas os que fazem as semanas terminar precisamente na morte de Cristo leem o texto assim: “Ele fortalecerá a aliança com muitos; os últimos sete anos, ou a última semana, sim, a metade desses sete anos, ou metade dessa semana” (a segunda metade, os três anos e meio que Cristo passou em seu ministério público) “porão fim ao sacrifício e à oblação”.

Outros fazem esses 490 anos terminar na destruição de Jerusalém, cerca de trinta e sete anos depois da morte de Cristo, porque se diz que as setenta semanas foram determinadas sobre o povo judeu e a cidade santa, e aqui se fala muito da destruição da cidade e do santuário.

[3.] À divisão em sete semanas, sessenta e duas semanas e uma semana. A razão dessa divisão é tão difícil de explicar quanto qualquer outro ponto. Nas primeiras sete semanas, ou quarenta e nove anos, o templo e a cidade foram edificados.

Na última semana isolada, Cristo pregou seu evangelho, pelo qual a ordem judaica foi desfeita e se lançaram os fundamentos da cidade e do templo do evangelho, que seriam edificados sobre as ruínas dos anteriores.

(3.) Apesar de toda a incerteza que temos quanto à fixação exata dessas datas, há clareza e certeza suficientes para os dois grandes propósitos de sua determinação.

[1.] Serviu para suscitar e sustentar a expectativa dos crentes. Aos patriarcas haviam sido feitas promessas gerais da vinda do Messias; os profetas anteriores muitas vezes falaram dele como alguém que viria, mas nunca antes se havia fixado a época de sua vinda.

Embora houvesse tanta dúvida quanto à data inicial desse cálculo que não se pudesse determinar o ano exato, à luz dessa profecia eles receberam orientação sobre a época em que deveriam esperá-lo. E vemos, de fato, que, quando Cristo veio, esperavam-no amplamente como a consolação de Israel, e esperavam por meio dele a redenção em Jerusalém, Lucas 2:25, 38.

Por esse motivo alguns pensavam que o reino de Deus apareceria imediatamente (Lucas 19:11), e há quem entenda que foi isso que levou a Jerusalém uma reunião de pessoas maior do que a habitual, Atos 2:5.

[2.] Ainda serve para refutar e calar as expectativas dos incrédulos que não reconhecem Jesus como aquele que devia vir e continuam esperando outro. Essa predição deveria calá-los e os condenará.

Pois, seja qual for a ordem para edificar Jerusalém a partir da qual contemos as setenta semanas, é certo que elas terminaram há mais de 1.500 anos. Assim, os judeus que não reconhecem a vinda do Messias não têm desculpa alguma, pois já ultrapassaram de longe até seu cálculo mais tardio para essa vinda.

Por essa profecia, porém, somos confirmados na crença de que o Messias veio, de que nosso Jesus é ele e de que veio exatamente no tempo predeterminado, uma época digna de memória eterna.

  1. Os acontecimentos aqui preditos são mais claros e fáceis de entender, ao menos para nós agora. Observe o que se prediz:

(1.) A respeito do breve retorno dos judeus à própria terra e de seu restabelecimento nela, assunto pelo qual Daniel orava principalmente naquele momento, mas que recebe apenas uma breve menção na resposta à sua oração. Sirva de consolo aos judeus piedosos que sairá uma ordem para restaurar e edificar Jerusalém, v. 25.

A ordem não será inútil. Embora os tempos sejam muito difíceis e essa boa obra encontre grande oposição, prosseguirá e por fim será concluída. A rua será reconstruída, tão ampla e bela quanto antes, e também os muros, mesmo em tempos difíceis.

Repare: enquanto estivermos neste mundo, devemos esperar tempos difíceis por um motivo ou outro. Até quando vivemos tempos alegres, devemos alegrar-nos com tremor; são apenas um clarão, um breve intervalo luminoso de paz e prosperidade. As nuvens voltarão depois da chuva.

Quando os judeus forem restaurados triunfalmente à sua terra, ainda ali terão de esperar tempos difíceis e preparar-se para eles. Nosso consolo, porém, é que Deus levará adiante sua obra, edificará sua Jerusalém, a embelezará e fortalecerá mesmo em tempos difíceis.

Na verdade, pela graça de Deus, as dificuldades do tempo podem contribuir para o avanço da igreja: quanto mais afligida, mais se multiplica.

(2.) A respeito do Messias e de sua obra. Os judeus de mentalidade carnal esperavam um Messias que os libertasse do jugo romano e lhes desse poder e riqueza terrenos. Aqui, porém, foram informados de que o Messias viria com outro propósito, inteiramente espiritual, pelo qual deveria ser ainda mais bem-vindo.

[1.] Cristo veio para tirar o pecado e aboli-lo. O pecado criou uma contenda entre Deus e o homem, afastou os homens de Deus e provocou Deus contra os homens. Desonrou a Deus e trouxe miséria à humanidade; era o grande causador de danos. Quem quisesse prestar verdadeiro serviço a Deus e verdadeira bondade ao homem precisaria destruí-lo.

Cristo assume essa tarefa e, para isso, foi manifestado: para destruir as obras do diabo. O texto não diz que ele daria fim às suas transgressões e aos seus pecados, mas à transgressão e ao pecado em geral. Pois ele é a propiciação não apenas pelos nossos pecados, de nós que somos judeus, mas pelos pecados do mundo inteiro. Ele veio:

Primeiro, para dar fim à transgressão, contê-la, segundo alguns, quebrar seu poder, esmagar a cabeça daquela serpente que causara tantos danos, remover o domínio usurpado desse tirano e estabelecer um reino de santidade e amor no coração dos homens sobre as ruínas do reino de Satanás. Assim, onde o pecado e a morte reinavam, a justiça e a vida reinariam por meio da graça.

Quando morreu, disse: “Está consumado”; o pecado recebeu então seu golpe mortal, como no caso de Sansão: “Morra eu com os filisteus”. Animamque in vulnere ponit — Ele desfere o golpe e morre.

Em segundo lugar, veio acabar com o pecado, aboli-lo para que não se levante no juízo contra nós, obter seu perdão para que não nos arruíne, selar os pecados (como diz a leitura marginal) para que não apareçam nem irrompam contra nós a fim de nos acusar e condenar. Da mesma forma, quando Cristo lançou o diabo no abismo, pôs um selo sobre ele, Apocalipse 20:3.

Quando o pecado é perdoado, procura-se por ele e não é encontrado, como algo que foi selado.

Em terceiro lugar, veio fazer expiação pela iniquidade, como por um sacrifício: satisfazer a justiça de Deus e, assim, fazer a paz e unir Deus e o homem. Não apenas como árbitro ou mediador que leva as partes em conflito a entenderem-se, mas como nosso fiador ou responsável por nós. Ele não é só o pacificador, mas a própria paz. Ele é a expiação.

[2.] Veio trazer uma justiça eterna. Deus poderia, com justiça, acabar com o pecado acabando com o pecador. Cristo, porém, encontrou outro caminho: deu fim ao pecado de modo a salvar o pecador dele, provendo-lhe uma justiça.

Todos somos culpados diante de Deus e seremos condenados como culpados se não tivermos uma justiça com a qual nos apresentar diante dele. Se tivéssemos permanecido firmes, nossa inocência seria nossa justiça; mas, tendo caído, precisamos de outra coisa para alegar. Cristo nos forneceu esse fundamento.

O mérito de seu sacrifício é nossa justiça; com ele respondemos a todas as exigências da lei: Cristo morreu, ou melhor, ressuscitou. Assim Cristo é o Senhor, justiça nossa, pois Deus o fez justiça para nós, a fim de que nele nos tornemos justiça de Deus.

Pela fé aplicamos isso a nós mesmos e o alegamos diante de Deus, e nossa fé nos é imputada como justiça, Romanos 4:3, 5. Essa justiça é eterna, pois Cristo, nossa justiça e príncipe da nossa paz, é o Pai eterno.

Ela existia desde a eternidade nos desígnios divinos e terá consequências por toda a eternidade. Sua aplicação se deu desde o princípio, pois Cristo é o Cordeiro morto desde a fundação do mundo; e continuará até o fim, pois ele pode salvar completamente. Tem eficácia eterna (Hebreus 10:12); é a rocha que nos acompanha até Canaã.

[3.] Veio selar a visão e a profecia, todas as visões proféticas do Antigo Testamento referentes ao Messias. Selou-as, isto é, cumpriu-as, correspondendo a elas em cada detalhe. Tudo o que estava escrito na lei, nos profetas e nos salmos a respeito do Messias se cumpriu nele. Assim confirmou a veracidade delas e a de sua própria missão.

Selou-as também no sentido de pôr fim àquele modo de Deus revelar seu pensamento e sua vontade, adotando outro caminho ao completar o cânon das Escrituras no Novo Testamento, palavra profética mais segura do que a comunicada por visões, 2 Pedro 1:19; Hebreus 1:1.

[4.] Veio ungir o Santíssimo, isto é, a si mesmo, o Santo, que foi ungido (designado para sua obra e capacitado para ela) pelo Espírito Santo, o óleo de alegria que recebeu sem medida e acima de seus companheiros.

Ou veio ungir a igreja do evangelho, seu templo espiritual ou lugar santo, para santificá-la, purificá-la e reservá-la para si (Efésios 5:26). Ou veio consagrar para nós, pelo próprio sangue, um caminho novo e vivo ao lugar santíssimo (Hebreus 10:20), assim como o santuário era ungido, Êxodo 30:25, etc.

Ele é chamado Messias (v. 25, 26), que significa Cristo, o Ungido (João 1:41), porque recebeu a unção tanto para si quanto para todos os que lhe pertencem.

[5.] Para tudo isso, o Messias precisa ser cortado, morrer de maneira violenta e assim ser arrancado da terra dos viventes, como fora predito, Isaías 53:8. Por isso, quando Paulo prega a morte de Cristo, afirma não pregar nada além do que os profetas disseram que aconteceria, Atos 26:22, 23. Assim era necessário que Cristo sofresse.

Ele precisa ser cortado, mas não por si mesmo: não por algum pecado próprio, mas, como profetizou Caifás, precisa morrer pelo povo, em nosso lugar e para o nosso bem. Tampouco por alguma vantagem própria: a glória que adquiriu para si não era maior que a glória que já possuía, João 17:4, 5. Não; foi para expiar nossos pecados e adquirir vida para nós que ele foi cortado.

[6.] Precisa confirmar a aliança com muitos. Introduzirá uma nova aliança entre Deus e os homens, aliança da graça, pois se tornara impossível sermos salvos por uma aliança de inocência.

Confirmará essa aliança por sua doutrina e seus milagres, por sua morte e ressurreição, pelas ordenanças do batismo e da ceia do Senhor, que são os selos do Novo Testamento. Assim nos assegura de que Deus está disposto a nos aceitar segundo as condições do evangelho. Sua morte deu validade a seu testamento e nos permitiu reivindicar o que nele nos foi legado.

Confirmou-a com muitos, com as pessoas comuns: os pobres receberam o evangelho, enquanto governantes e fariseus não creram nele. Ou confirmou-a com muitos no mundo gentílico. O Novo Testamento não ficou restrito à igreja judaica, como o Antigo, mas foi confiado a todas as nações. Cristo deu a vida em resgate por muitos.

[7.] Precisa fazer cessar o sacrifício e a oblação. Ao oferecer a si mesmo como sacrifício de uma vez por todas, dará fim a todos os sacrifícios levíticos, substituindo-os e deixando-os de lado; quando chega a realidade, as sombras desaparecem.

Faz cessar todas as ofertas pacíficas ao estabelecer a paz pelo sangue de sua cruz e, por ele, confirmar a aliança de paz e reconciliação. Por meio da pregação de seu evangelho ao mundo, confiada aos apóstolos, levou os homens a deixar de esperar remissão pelo sangue de touros e bodes. Assim fez cessar o sacrifício e a oblação.

Em sua epístola aos Hebreus, o apóstolo mostra que agora temos sacerdócio, altar e sacrifício melhores do que os que havia sob a lei, como motivo para permanecermos firmes em nossa confissão de fé.

(3.) A respeito da destruição final de Jerusalém, da igreja e da nação judaicas. Ela vem imediatamente depois do Messias ser cortado, não apenas por ser a justa punição dos que o mataram, pecado que completou a medida de sua iniquidade e trouxe ruína sobre eles, mas também porque, nas circunstâncias de então, era necessária para cumprir um dos grandes propósitos da morte de Cristo.

Ele morreu para remover a lei cerimonial, abolir inteiramente essa lei de mandamentos e cancelar sua obrigação. Mas os judeus não se deixavam persuadir a abandoná-la. Continuavam a observá-la com mais zelo que nunca e não queriam sequer ouvir falar em deixá-la.

Apedrejaram Estêvão (o primeiro mártir cristão) por dizer que Jesus mudaria os costumes transmitidos por Moisés (Atos 6:14). Assim, não havia como abolir a ordem mosaica senão destruindo o templo, a cidade santa, o sacerdócio levítico e toda aquela nação que se apegava irremediavelmente a essas instituições.

Isso se realizou em menos de quarenta anos depois da morte de Cristo, numa desolação que até hoje não pôde ser reparada. É essa destruição que aqui se prediz extensamente, para que os judeus que voltassem do cativeiro não se envaidecessem demais com a reconstrução da cidade e do templo.

Com o passar do tempo, ambos seriam destruídos definitivamente, não apenas por setenta anos, como agora. Em vez disso, deveriam alegrar-se na esperança da vinda do Messias e do estabelecimento no mundo de seu reino espiritual, que jamais seria destruído. Pois bem:

[1.] Prediz-se que o povo do príncipe que virá será instrumento dessa destruição: os exércitos romanos, pertencentes a uma monarquia ainda futura (Cristo é o príncipe que virá, e ele os emprega nesse serviço; são seus exércitos, Mateus 22:7). Ou os gentios, agora estrangeiros, mas que se tornarão o povo do Messias, destruirão os judeus.

[2.] A destruição virá por meio de uma guerra, cujo fim será essa desolação determinada. A teimosia dos judeus tornou suas guerras com os romanos muito longas e sangrentas; por fim, resultaram na completa destruição daquele povo.

[3.] A cidade e o santuário serão destruídos e inteiramente devastados de modo especial. Tito, o general romano, gostaria muito de ter preservado o templo, mas seus soldados estavam tão enfurecidos contra os judeus que ele não pôde impedi-los de queimá-lo até os alicerces. Assim se cumpriu a profecia.

[4.] Toda resistência a essa destruição será inútil: “Seu fim será como uma inundação”. Será um dilúvio de destruição, como o que varreu o mundo antigo, ao qual ninguém conseguirá resistir.

[5.] Por meio disso, o sacrifício e a oblação cessarão. Forçosamente cessariam quando a família dos sacerdotes fosse tão inteiramente exterminada e suas genealogias tão confundidas que, segundo se diz, ninguém no mundo poderia provar ser descendente de Arão.

[6.] Haverá uma difusão de abominações, uma corrupção geral da nação judaica e o aumento da iniquidade entre seus membros, razão pela qual a nação será devastada, 1 Tessalonicenses 2:16.

Ou, antes, entende-se isso como referência aos exércitos romanos, abomináveis aos judeus (que não os suportavam), que se espalharam por toda a nação e por meio dos quais ela foi devastada. Pois são estas as palavras a que Cristo se refere, Mateus 24:15: “Quando virdes a abominação da desolação, de que falou Daniel, estar no lugar santo, então fujam os que estiverem na Judeia”.

Isso é explicado em Lucas 21:20: “Quando virdes Jerusalém cercada de exércitos, então fugi”.

[7.] A desolação será total e definitiva: “Ele a tornará desolada até a consumação”, isto é, a tornará completamente desolada. É uma desolação determinada e se cumprirá até o limite. Quando a terra for devastada, ao que parece, ainda há algo determinado que será derramado sobre a desolada (v. 27).

Que seria isso senão o espírito de sonolência (Romanos 11:8, 25), a cegueira que veio sobre Israel até que entre a plenitude dos gentios? Então todo o Israel será salvo.


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