Daniel 7
Argumento
Os seis capítulos anteriores deste livro eram históricos; agora entramos com temor e tremor nos seis últimos, que são proféticos. Neles há muitas coisas obscuras e difíceis de entender, cujo sentido não ousamos definir com certeza; há, contudo, muitas coisas claras e proveitosas, das quais confio que Deus nos capacitará a fazer bom uso.
Neste capítulo temos:
I. A visão de Daniel dos quatro animais, vv. 1-8.
II. Sua visão do trono de Deus, de governo e juízo, vv. 9-14.
III. A interpretação dessas visões, dada a Daniel por um anjo que estava próximo, vv. 15-28.
É difícil dizer se essas visões alcançam o fim dos tempos ou se teriam rápido cumprimento; nem os intérpretes mais criteriosos concordam a respeito disso.
Versículos 1 a 8
A Visão dos Quatro Animais. (a.C. 555.)
A data deste capítulo o situa antes de Daniel 5, que se passou no último ano de Belsazar, e de Daniel 6, que se passou no primeiro ano de Dario. Daniel teve essas visões no primeiro ano de Belsazar, quando o cativeiro dos judeus na Babilônia se aproximava do fim.
O nome de Belsazar, no original, está escrito aqui de modo diferente do habitual. Antes era Bel-she-azar — Bel é aquele que acumula riquezas. Aqui, porém, é Bel-eshe-zar — Bel arde pelo fogo do inimigo. Bel era o deus dos caldeus; havia prosperado, mas agora seria consumido.
Temos nestes versículos a visão de Daniel das quatro monarquias que oprimiriam os judeus. Observe:
I. As circunstâncias dessa visão. Daniel havia interpretado o sonho de Nabucodonosor e agora ele próprio é honrado com revelações divinas semelhantes (v. 1): teve visões em sua mente enquanto estava deitado, dormindo. Assim Deus às vezes revelava a si mesmo e sua vontade aos filhos dos homens quando caía sobre eles um sono profundo (Jó 33:15).
Pois, quando estamos mais afastados do mundo e desligados das coisas perceptíveis aos sentidos, estamos mais aptos para a comunhão com Deus. Mas, quando acordou, Daniel escreveu o sonho para seu próprio uso, a fim de não esquecê-lo como um sonho que passa.
Ele contou a essência dos acontecimentos a seus irmãos judeus, para benefício deles, e a entregou por escrito, para que fosse comunicada aos que estavam longe e preservada para os filhos deles, que veriam essas coisas se cumprir.
Os judeus, entendendo mal algumas profecias de Jeremias e Ezequiel, se iludiam com a esperança de que, depois de voltar à própria terra, desfrutariam de tranquilidade completa e ininterrupta. Para que não se enganassem assim nem sofressem em dobro pela decepção quando viessem as calamidades, Deus lhes revela por meio desse profeta que passariam por tribulações.
As promessas de prosperidade se cumpririam nas bênçãos espirituais do reino da graça. Da mesma forma, Cristo disse a seus discípulos que deveriam esperar perseguição, e as promessas em que confiam se cumprirão nas bênçãos eternas do reino da glória.
Daniel escreveu e também falou essas coisas, para indicar que a igreja deveria ser ensinada tanto pelas Escrituras quanto pela pregação dos ministros, pela palavra escrita e pela palavra falada. Em sua pregação, os ministros devem contar a essência dos acontecimentos que estão escritos.
II. A visão em si, que prediz as mudanças de governo naquelas nações sob cuja influência a igreja dos judeus ficaria nas eras seguintes:
- Ele observou os quatro ventos contendendo sobre o grande mar, v. 2. Disputavam qual deles sopraria mais forte e, por fim, sozinho. Isso representa as disputas entre príncipes pelo império e a agitação das nações causada por elas, disputas às quais deviam sua ascensão aquelas poderosas monarquias que Daniel agora contemplaria.
Um único vento, vindo de qualquer ponto do horizonte, se soprar com força, causará grande agitação no mar. Que tumulto, então, há de surgir quando os quatro ventos disputam o domínio!
É por esse domínio que os reis das nações contendem em suas guerras, tão ruidosas e violentas quanto a batalha dos ventos. Enquanto eles disputam quem terá o poder exclusivo de agitar o mar, como o pobre mar é sacudido e revolvido, como são terríveis seus abalos e violentas suas convulsões!
Repare: este mundo é como um mar tempestuoso e agitado, graças aos ventos orgulhosos e ambiciosos que o afligem.
- Viu quatro grandes animais saírem do mar, das águas agitadas nas quais os ambiciosos gostam de pescar. Monarcas e monarquias são representados por animais porque, muitas vezes, é pela fúria e tirania brutais que ascendem e se sustentam.
Esses animais eram diferentes entre si (v. 3), de formas distintas, para indicar as diferentes índoles e características das nações em que o poder estava sediado.
(1.) O primeiro animal era semelhante a um leão, v. 4. Era a monarquia caldeia, feroz e forte, que tornou os reis absolutos. Esse leão tinha asas de águia com as quais se lançava sobre a presa, indicando a extraordinária rapidez com que Nabucodonosor conquistou reinos.
Daniel, porém, logo vê as asas arrancadas e a marcha vitoriosa de seus exércitos completamente detida. Diversos países que lhes pagavam tributo se revoltam e se levantam contra eles. Assim, esse animal monstruoso, o leão alado, é posto de pé como homem e recebe um coração de homem.
Perdeu o coração de leão pelo qual fora famoso (um dos nossos reis ingleses recebeu o nome de Cœur de Lion — Coração de Leão). Perdeu a coragem e tornou-se fraco e desanimado, temendo tudo e não ousando fazer nada. São tomados pelo medo e levados a reconhecer que são apenas homens.
Às vezes a coragem de uma nação diminui de modo espantoso, e ela se torna covarde e efeminada, de modo que aquilo que era a cabeça das nações em uma época ou duas se torna a cauda.
(2.) O segundo animal era semelhante a um urso, v. 5. Era a monarquia persa, menos forte e nobre que a anterior, mas não menos voraz. Esse urso se ergueu de um lado contra o leão e logo o dominou. “Levantou um domínio”, segundo outra leitura. Pérsia e Média, que na imagem de Nabucodonosor eram os dois braços unidos a um mesmo peito, estabelecem agora um governo conjunto.
Esse urso tinha três costelas na boca, entre os dentes: restos das nações que devorara e marcas de sua voracidade. Eram também sinal de que, embora tivesse devorado muito, não podia devorar tudo; algumas costelas ainda lhe ficavam presas nos dentes, pois não conseguia conquistá-las.
Por isso lhe foi dito: “Levanta-te, devora muita carne; deixa de lado os ossos, as costelas que não podem ser conquistadas, e ataca uma presa mais fácil”. Os príncipes incitarão tanto os reis quanto o povo a levar adiante as conquistas e não deixar que nada lhes impeça o caminho.
Repare: conquistas feitas injustamente não passam das conquistas dos animais predadores e são muito piores neste aspecto: os animais não caçam os da própria espécie, como fazem os homens perversos e irracionais.
(3.) O terceiro animal era semelhante a um leopardo, v. 6. Era a monarquia grega, fundada por Alexandre, o Grande: ativa, astuta e cruel como um leopardo. Tinha quatro asas de ave; o leão parece ter tido apenas duas, mas o leopardo tinha quatro, pois, embora Nabucodonosor tenha realizado suas conquistas com grande rapidez, Alexandre o superou muito.
Em seis anos, conquistou todo o império persa e grande parte do restante da Ásia; tornou-se senhor da Síria, do Egito, da Índia e de outras nações. Esse animal tinha quatro cabeças. Depois da morte de Alexandre, suas conquistas foram divididas entre seus quatro principais capitães.
Seleuco Nicátor recebeu a Grande Ásia; Pérdicas e, depois dele, Antígono receberam a Ásia Menor; Cassandro recebeu a Macedônia; e Ptolomeu recebeu o Egito. O domínio foi dado a esse animal; recebeu-o de Deus, de quem somente vem a promoção.
(4.) O quarto animal era mais feroz, temível e danoso que todos os demais, diferente de qualquer um deles; entre os animais predadores não há sequer outro com o qual pudesse ser comparado, v. 7. Os estudiosos não concordam quanto a esse animal sem nome.
Alguns entendem que era o império romano, que, no auge, abrangia dez reinos: Itália, França, Espanha, Alemanha, Bretanha, Sarmácia, Panônia, Ásia, Grécia e Egito. Nesse caso, o pequeno chifre que surgiu após a queda de três dos outros chifres (v. 8) seria o império turco, que se estabeleceu no lugar da Ásia, da Grécia e do Egito.
Outros entendem que esse quarto animal era o reino da Síria, a família dos Selêucidas, muito cruel e opressora para com o povo judeu, como vemos em Josefo e na história dos Macabeus. Nesse aspecto, esse império diferia dos anteriores: nenhum dos poderes precedentes obrigou os judeus a renunciar à religião, mas os reis da Síria o fizeram e os trataram barbaramente.
Seus exércitos e comandantes eram os grandes dentes de ferro com os quais devoravam e despedaçavam o povo de Deus, pisoteando o que restava. Os dez chifres seriam, então, dez reis que governaram sucessivamente a Síria, e o pequeno chifre seria Antíoco Epifânio, o último dos dez, que por um meio ou outro solapou três dos reis e assumiu o governo.
Era homem de grande engenhosidade; por isso se diz que tinha olhos como os de um homem. Era também muito ousado e destemido: tinha uma boca que falava grandes coisas. Voltaremos a encontrá-lo nessas profecias.
Versículos 9 a 13
A Visão dos Quatro Animais. (a.C. 555.)
Quer entendamos que o quarto animal significa o império sírio, o romano ou o primeiro como figura do segundo, é evidente que estes versículos se destinam a consolar e sustentar o povo de Deus diante das perseguições que provavelmente sofreria de ambos e de todos os seus inimigos orgulhosos em cada época.
Pois o texto foi escrito para o ensino daqueles sobre quem chegaram os fins do mundo, para que também eles, pela paciência e pelo consolo desta Escritura, tivessem esperança. Aqui são reveladas três coisas muito animadoras:
I. Há um julgamento futuro, e Deus é o Juiz. Agora os homens têm seu dia; cada aspirante ao poder pensa que deveria ter o seu e luta por ele. Mas aquele que está assentado nos céus ri deles, pois vê que seu próprio dia se aproxima, Salmos 37:13.
“Eu continuei olhando” (v. 9) “até que foram derrubados os tronos”, não apenas os tronos desses animais, mas todo governo, autoridade e poder levantados contra o reino de Deus entre os homens (1 Coríntios 15:24). Tais são os tronos dos reinos do mundo quando comparados com o reino de Deus; os que os veem erguidos só precisam esperar um pouco para vê-los derrubados.
“Eu continuei olhando até que foram postos tronos” (pois também se pode ler assim): o trono de Cristo e o de seu Pai. Um dos rabinos admite que esses tronos são estabelecidos, um para Deus e outro para o Filho de Davi. É o julgamento que aqui se inicia, v. 10. Pois bem:
Isso se destina a proclamar o governo sábio e justo de Deus sobre o mundo por sua providência. Em meio aos abalos e às revoluções dos estados e reinos, dá satisfação inexprimível a todos os homens bons saber que “o Senhor estabeleceu o seu trono nos céus, e o seu reino domina sobre tudo” (Salmos 103:19) e que certamente há um Deus que julga na terra, Salmos 58:11.
Talvez aponte para a destruição que a providência divina trouxe sobre o império da Síria ou o de Roma por terem tiranizado o povo de Deus.
Parece, porém, ter sido destinado principalmente a descrever o juízo final. Embora este não venha imediatamente após o domínio do quarto animal, antes permaneça ainda no futuro, talvez por muitos séculos, o objetivo era que, em todas as épocas, o povo de Deus se animasse em suas aflições pela crença nele e pela expectativa de sua chegada.
Enoque, o sétimo desde Adão, profetizou a respeito dele, Judas 1:14. A boca do inimigo profere grandes coisas, v. 8? Eis coisas muito maiores, pronunciadas pela boca do Senhor. Muitas predições do Novo Testamento sobre o juízo futuro aludem claramente a essa visão, especialmente a visão que São João teve dele, Apocalipse 20:11-12.
(1.) O Juiz é o próprio Ancião de Dias, Deus Pai, cuja presença gloriosa é descrita aqui. É chamado Ancião de Dias porque é Deus de eternidade a eternidade. Entre os homens, entendemos que a sabedoria está com os antigos e que os muitos dias devem falar; não deveria, então, toda carne calar-se diante daquele que é o Ancião de Dias?
A glória do Juiz é expressa por sua veste, branca como a neve, sinal de seu esplendor e pureza em todos os atos de sua justiça; e pelos cabelos de sua cabeça, limpos e brancos como lã pura, para que, com os cabelos brancos de um idoso, pareça venerável.
(2.) O trono é muito temível. É como uma chama de fogo, assustadora para os perversos que serão chamados a comparecer diante dele. O trono se move sobre rodas, ou pelo menos o carro em que ele percorre seus domínios; suas rodas são como fogo ardente para devorar os adversários, pois nosso Deus é fogo consumidor e com ele há chamas eternas, Isaías 33:14.
Isso é desenvolvido no v. 10. Assim como do trono de Deus e do Cordeiro corre, para todos os seus amigos fiéis, um rio puro da água da vida (Apocalipse 22:1), do trono sai, para todos os seus inimigos implacáveis, um rio de fogo, um rio de enxofre (Isaías 30:33), fogo que devorará diante dele. Ele é testemunha veloz, e sua palavra é uma palavra sobre rodas.
(3.) Os que o assistem são numerosos e muito esplêndidos. A Shechinah está sempre acompanhada de anjos; assim ocorre aqui (v. 10): “Milhares de milhares o serviam, e miríades de miríades estavam diante dele”. Ter tais assistentes faz parte de sua glória; muito maior, porém, é a glória de não precisar deles nem poder receber deles benefício algum.
Vejam quão numerosos são os exércitos celestiais (há milhares de anjos) e quão obedientes: estão diante de Deus, prontos a cumprir suas ordens e a atender à primeira indicação de sua vontade.
Serão empregados especialmente como ministros de sua justiça no dia do juízo final, quando vier o Filho do Homem, e com ele todos os santos anjos. Enoque profetizou que o Senhor viria com suas santas miríades.
(4.) O processo é justo e irrepreensível: o julgamento se inicia pública e abertamente, para que todos possam recorrer a ele, e os livros são abertos. Nos tribunais humanos, os procedimentos são escritos e registrados; o registro é apresentado quando a causa vai a julgamento, a inquirição das testemunhas é exibida e as declarações juramentadas são lidas para esclarecer os fatos.
Também se consultam os livros das leis escritas e do direito consuetudinário para determinar qual é a lei. Da mesma forma, no julgamento do grande dia, a justiça da sentença será tão incontestavelmente evidente como se houvesse livros abertos para justificá-la.
II. Os inimigos orgulhosos e cruéis da igreja de Deus certamente prestarão contas e serão derrubados no tempo devido, vv. 11-12. Isso nos é representado aqui:
- Na destruição do quarto animal. A desavença de Deus com esse animal se deve à voz das grandes palavras que seu chifre pronunciava, desafiando o Céu e triunfando sobre tudo que é sagrado. Isso provoca Deus mais do que qualquer outra coisa: que o inimigo se conduza com orgulho, Deuteronômio 32:27.
Por isso Faraó precisa ser humilhado, porque disse: “Quem é o Senhor?” e “Perseguirei, alcançarei”. Enoque predisse que o Senhor viria julgar o mundo para convencer todos os ímpios de suas palavras duras, Judas 1:15.
Repare: palavras grandiosas não passam de palavras vãs, pelas quais os homens deverão prestar contas no grande dia. Vejam o que acontece com esse animal que tanto se vangloria: é morto, seu corpo é destruído e entregue às chamas.
O império sírio foi destruído depois de Antíoco. Ele próprio morreu de uma doença miserável, sua família foi exterminada, seu reino foi arruinado pelos partos e armênios e, por fim, transformado por Pompeu numa província do império romano.
O próprio império romano (se o tomamos pelo quarto animal) entrou em declínio depois que começou a perseguir o cristianismo, definhou e teve seu corpo destruído. Assim perecerão todos os seus inimigos, ó Senhor, e serão mortos diante de você.
- No declínio e enfraquecimento dos outros três animais (v. 12): “Seu domínio lhes foi tirado”, de modo que já não podiam causar à igreja e ao povo de Deus os danos que antes lhes haviam causado. Foi-lhes concedido, contudo, prolongamento da vida por um tempo e uma época, prazo determinado cujos limites não podiam ultrapassar.
O poder dos reinos anteriores foi inteiramente quebrado, mas seus povos permaneceram em condição humilde, fraca e inferior.
Podemos aludir a isso ao descrever os resíduos do pecado no coração das pessoas boas: há nelas corrupções cuja vida se prolonga, de modo que não estão perfeitamente livres do pecado; mas o domínio dessas corrupções lhes foi tirado, para que o pecado não reine em seus corpos mortais.
Deus trata assim os inimigos de sua igreja: às vezes lhes quebra os dentes (Salmos 3:7), sem lhes quebrar o pescoço. Acaba com a perseguição, mas dá aos perseguidores mais tempo de vida, para que tenham prazo de arrependimento. Convém que Deus, ao realizar sua própria obra, escolha seu próprio tempo e caminho.
III. O reino do Messias será estabelecido e mantido no mundo apesar de toda a oposição dos poderes das trevas. Que os pagãos se enfureçam e se agitem quanto quiserem; Deus estabelecerá seu Rei em seu santo monte Sião.
Daniel vê isso em visão e consola a si mesmo e aos amigos com essa perspectiva. É o mesmo que Nabucodonosor anteviu na pedra cortada do monte sem auxílio de mãos, que despedaçou a imagem; mas nesta visão há muito mais do evangelho puro do que naquela.
- O Messias é chamado aqui Filho do Homem: “um como o Filho do Homem”; pois foi feito à semelhança de carne pecaminosa, encontrado na forma de homem. “Vi um como o Filho do Homem”: alguém que corresponde exatamente à ideia formada nos conselhos divinos daquele que, na plenitude do tempo, seria o Mediador entre Deus e os homens.
Ele é semelhante a um filho de homem, mas é de fato o Filho de Deus. Nosso Salvador parece referir-se claramente a essa visão quando diz (João 5:27) que o Pai lhe deu autoridade para executar o juízo porque é o Filho do Homem, e porque é aquele a quem Daniel viu em visão e a quem seriam dados reino e domínio.
- Diz-se que ele vem com as nuvens do céu. Alguns relacionam isso à sua encarnação: ele desceu nas nuvens do céu e veio ao mundo sem ser visto, assim como a glória do Senhor tomou posse do templo numa nuvem. Os impérios do mundo eram animais que saíam do mar; o reino de Cristo, porém, vem do alto: ele é o Senhor do céu.
Penso, antes, que isso se refere à sua ascensão. Quando voltou ao Pai, os olhos dos discípulos o acompanharam até que uma nuvem o recebeu e o ocultou de sua vista, Atos 1:9. Ele fez daquela nuvem seu carro, no qual viajou triunfalmente ao mundo superior. Vem rapidamente, de maneira irresistível e com majestade, pois vem com as nuvens do céu.
- Ele é representado aqui como alguém de grande influência no Céu. Quando a nuvem o ocultou dos olhos dos discípulos, vale perguntar (como os filhos dos profetas fizeram a respeito de Elias num caso semelhante) para onde ela o levou e onde o deixou.
Aqui recebemos, para plena satisfação, a resposta: ele chegou ao Ancião de Dias. Pois subiu ao seu Pai e nosso Pai, ao seu Deus e nosso Deus (João 20:17). Dele procedeu e a ele volta, para ser glorificado com ele e assentar-se à sua direita. Foi com grande alegria que disse: “Agora vou para aquele que me enviou”.
Mas foi bem recebido? Sim, sem dúvida. “Fizeram-no chegar perto dele”: foi introduzido na presença do Pai, acompanhado e adorado por todos os anjos de Deus, Hebreus 1:6. Deus o fez aproximar-se e chegar diante dele como nosso advogado e fiador (Jeremias 30:21), para que, por meio dele, nós pudéssemos ser aproximados.
Essa aproximação solene do Ancião de Dias mostra que o Pai aceitou o sacrifício oferecido por Cristo e a satisfação que ele realizou, agradando-se inteiramente de tudo o que fizera. Ele foi conduzido para perto como nosso sumo sacerdote, que por nós entra além do véu, e como nosso precursor.
- É representado aqui como alguém de grande influência sobre esta terra, v. 14. Quando foi para ser glorificado com o Pai, recebeu poder sobre toda carne, João 17:2, 5.
A perspectiva disso consola Daniel e seus amigos: não apenas se retirará o domínio dos inimigos da igreja (v. 12), mas o cabeça e melhor amigo da igreja receberá o domínio. Diante dele todo joelho se dobrará e toda língua confessará, Filipenses 2:9-10.
A ele são dados glória e reino, por aquele que tem direito incontestável de concedê-los. Alguns pensam que nosso Salvador tinha em mente estas palavras quando nos ensinou a reconhecer, no fim da oração do Senhor: “Pois teu é o reino, o poder e a glória”.
Aqui se prediz que o reino do Redentor exaltado será:
(1.) Um reino universal, a única monarquia universal, por mais que outros tenham alegado sê-lo ou aspirado a isso: todos os povos, nações e línguas o temerão e estarão sob sua jurisdição, seja como súditos voluntários, seja como cativos conquistados, para serem governados por ele ou terem sua vontade submetida à dele. De um modo ou de outro, todos os reinos do mundo se tornarão seus reinos.
(2.) Um reino eterno. Seu domínio não passará a sucessor algum, muito menos a invasor, e seu reino não será destruído. Nem as portas do inferno, nem os poderes e as estratégias infernais prevalecerão contra ele. A igreja continuará militante até o fim dos tempos e triunfante pelas eras sem fim da eternidade.
Versículos 15 a 28
A Visão dos Quatro Animais. (a.C. 555.)
Aqui temos:
I. As profundas impressões que essas visões causaram no profeta. Nelas Deus o honrou e lhe deu satisfação, mas não sem uma grande mistura de dor e perplexidade (v. 15): “Eu, Daniel, fiquei aflito em meu espírito, no meio de meu corpo”.
A palavra usada aqui para corpo significa propriamente bainha ou estojo, pois o corpo não é mais que isso para a alma. A alma é a arma, e é dela que principalmente devemos cuidar. “As visões de minha cabeça me perturbaram” e, novamente (v. 28), “meus pensamentos muito me perturbaram”.
O modo como essas coisas lhe foram reveladas o deixou inteiramente sobrecarregado e exigiu tanto de seus pensamentos que suas forças lhe faltaram; o êxtase em que se encontrava o cansou e enfraqueceu. As próprias coisas reveladas o espantaram e aturdiram, deixando-o confuso, até que aos poucos recuperou o controle de si e contrapôs os consolos da visão aos seus terrores.
II. Seu desejo intenso de compreender o significado delas (v. 16): ele se aproximou de um dos que estavam presentes, um dos anjos que pareciam acompanhar o Filho do Homem em sua glória, e lhe perguntou a verdade (o verdadeiro propósito e significado) de tudo aquilo.
Repare: é muito desejável compreender corretamente e por inteiro o sentido do que vemos e ouvimos da parte de Deus. Os que desejam saber precisam perguntar em oração fiel e fervorosa e empreender uma busca diligente.
III. A chave que lhe foi dada para compreender a visão. O anjo lhe falou, e com tanta clareza que o fez conhecer a interpretação do assunto e, assim, o deixou um pouco mais tranquilo.
Os grandes animais são grandes reis e seus reinos, grandes monarcas e suas monarquias, que surgirão da terra, assim como aqueles animais surgiram do mar, v. 17. São apenas terræfilii — vindos de baixo. Têm o gosto da terra, seus fundamentos estão no pó; são da terra, terrenos, e serão escritos no pó, ao qual voltarão.
Daniel entende razoavelmente bem os três primeiros animais, mas deseja receber mais informações sobre o quarto, porque diferia muito dos demais, era extraordinariamente temível e, além disso, muito danoso: devorava e despedaçava, v. 19.
Talvez tenha sido isso que tanto assustou Daniel, e essa parte das visões o perturbou mais do que todas as outras. Desejava especialmente saber o que era o pequeno chifre, que tinha olhos e uma boca que falava coisas grandiosas e cuja aparência era mais destemida e temível que a dos demais chifres, v. 20.
Isso lhe despertava maior interesse porque era esse chifre que fazia guerra contra os santos e prevalecia sobre eles, v. 21. Enquanto se informa apenas que os filhos dos homens fazem guerra uns contra os outros e prevalecem uns contra os outros, o profeta não demonstra tamanha preocupação (que os cacos de barro da terra contendam entre si e se despedacem uns contra os outros).
Mas, quando fazem guerra contra os santos, quando os preciosos filhos de Sião, comparáveis ao ouro fino, são quebrados como vasos de barro, é hora de perguntar: “Que significa isso? O Senhor rejeitará seu povo? Permitirá que os inimigos o pisoteiem e triunfem sobre ele? Que chifre é esse, que prevalecerá tanto contra os santos?”
O intérprete responde (vv. 23-25) que esse quarto animal é um quarto reino, que devorará toda a terra ou, segundo outra leitura, toda a região. Os dez chifres são dez reis, e o pequeno chifre é outro rei, que subjugará três reis, insultará a Deus, maltratará seu povo e agirá:
(1.) Com grande impiedade para com Deus. Falará palavras grandiosas contra o Altíssimo, desafiando-o e à sua autoridade e justiça.
(2.) Com grande arrogância para com o povo de Deus. Desgastará os santos do Altíssimo: não os eliminará de uma só vez, mas os desgastará por longas opressões e contínuas agruras que lhes imporá, arruinando seus bens e enfraquecendo suas famílias.
O plano de Satanás tem sido desgastar os santos do Altíssimo, para que deles não reste lembrança. Mas a tentativa é vã, pois, enquanto o mundo existir, Deus terá nele uma igreja.
Esse rei pensará em mudar os tempos e as leis, abolir todas as ordenanças e instituições da religião e levar todos a dizer e fazer exatamente o que ele quiser. Pisoteará leis e costumes, humanos e divinos. Diruit, ædificat, mutat quadrata rotundis — Derruba, edifica, transforma o quadrado em redondo, como se quisesse alterar até as próprias ordenanças do céu.
Nessas tentativas ousadas, prosperará e terá êxito por algum tempo: os santos serão entregues em suas mãos por um tempo, tempos e metade de um tempo (isto é, por três anos e meio). É a famosa medida profética de tempo que encontramos no Apocalipse, chamada ora de quarenta e dois meses, ora de 1.260 dias; todas essas formas equivalem à mesma duração.
Ao fim desse período, porém, o tribunal se assentará e lhe tirará o domínio (v. 26), o que Daniel havia descrito (v. 11) como a morte do animal e a destruição de seu corpo. Quanto ao restante do animal, os dez chifres, especialmente o pequeno chifre turbulento, como o chama o senhor Mede (segundo sua leitura do v. 12), tiveram seu domínio tirado.
A pergunta agora é: quem é esse inimigo, cuja ascensão, governo e ruína são preditos? Os intérpretes não concordam. Alguns entendem que o quarto reino é o dos Selêucidas e o pequeno chifre é Antíoco, mostrando o cumprimento de tudo isso na história dos Macabeus. Assim pensam Júnio, Piscator, Polano, Broughton e muitos outros.
Outros entendem que o quarto reino é o dos romanos e o pequeno chifre é Júlio César e os imperadores que o sucederam (segundo Calvino); o anticristo, o reino papal (segundo o senhor Joseph Mede); aquele perverso que, como esse pequeno chifre, será consumido pelo esplendor da segunda vinda de Cristo.
O papa assume um poder para mudar os tempos e as leis, potestas autokratorike — poder absoluto e despótico, como ele o chama. Outros entendem que o pequeno chifre é o império turco; assim Lutero, Vatablo e outros.
Não consigo provar que qualquer dos lados esteja errado. Portanto, como as profecias às vezes têm vários cumprimentos e devemos conceder às Escrituras toda a amplitude de sentido que lhes cabe (aqui como em muitas outras controvérsias), estou disposto a admitir que ambos têm razão.
Esta profecia se refere primeiramente ao império sírio e se destinava a animar os judeus que sofriam sob Antíoco. Assim, poderiam perceber que até aqueles tempos sombrios haviam sido preditos, mas também prever seu desfecho glorioso e a derrocada definitiva dos opressores orgulhosos.
O melhor de tudo é que podiam prever, para não muito depois, o estabelecimento do reino do Messias no mundo. Era costume dos profetas anteriores consolar com essa esperança o povo de Deus em suas aflições.
Mas a profecia tem ainda uma referência ulterior: prediz poder perseguidor e fúria semelhantes contra a religião cristã tanto na Roma pagã quanto, em grau não menor, na Roma papal, como os que Antíoco dirigiu contra os judeus piedosos e sua religião. São João, em suas visões e profecias, que apontam principalmente para Roma, faz clara referência, em muitos detalhes, a essas visões de Daniel.
- É-lhe apresentada uma alegre perspectiva do predomínio do reino de Deus entre os homens e de sua vitória final sobre toda oposição. É digno de nota que isso surge abruptamente no meio das predições sobre a força e a fúria dos inimigos (v. 18 e novamente v. 22), antes de sua interpretação na sequência da visão, vv. 26-27. Isso também se refere:
(1.) Aos dias prósperos da igreja judaica depois que resistiu à tempestade sob Antíoco e ao poder que os Macabeus obtiveram sobre os inimigos.
(2.) Ao estabelecimento do reino do Messias no mundo pela pregação de seu evangelho. Cristo vem a este mundo para exercer juízo, governar por seu Espírito e fazer de todos os seus santos reis e sacerdotes para seu Deus.
(3.) À segunda vinda de Jesus Cristo, quando os santos julgarão o mundo, se assentarão com ele em seu trono e triunfarão sobre a queda completa do reino do diabo. Vejamos o que se prediz aqui:
[1.] O Ancião de Dias virá, v. 22. Deus julgará o mundo por seu Filho, a quem confiou todo o julgamento. Como garantia disso, virá livrar seu povo oprimido e estabelecer seu reino no mundo.
[2.] O tribunal se assentará, v. 26. Deus mostrará que julga na terra e defenderá com sabedoria e justiça a causa justa de seu povo. No grande dia, julgará o mundo com justiça por meio do homem que designou.
[3.] O domínio do inimigo será tirado, v. 26. Todos os inimigos de Cristo serão postos por estrado de seus pés, consumidos e destruídos até o fim. São essas as palavras que o apóstolo usa a respeito do homem do pecado, 2 Tessalonicenses 2:8: ele será consumido pelo espírito da boca de Cristo e destruído pelo esplendor de sua vinda.
[4.] O juízo é dado aos santos do Altíssimo. Os apóstolos recebem a missão de pregar um evangelho pelo qual o mundo será julgado. Todos os santos, por sua fé e obediência, condenam um mundo incrédulo e desobediente; em Cristo, seu cabeça, julgarão o mundo e as doze tribos de Israel, Mateus 19:28.
Vejam que motivo temos para honrar os que temem ao Senhor, por mais insignificantes e desprezíveis que os santos hoje pareçam aos olhos do mundo e por mais desprezo que recebam. São os santos do Altíssimo, próximos e queridos de Deus. Ele os reconhece como seus, e o juízo lhes é dado.
[5.] O ponto em que mais se insiste é que os santos do Altíssimo tomarão o reino e o possuirão para sempre, v. 18. Novamente (v. 22): “Chegou o tempo em que os santos possuíram o reino”. E mais uma vez (v. 27): “O reino e o domínio, e a grandeza do reino debaixo de todo o céu, serão dados ao povo dos santos do Altíssimo”.
Longe de nós concluir daí que o domínio se funda na graça ou que isso autoriza alguém a usurpar o poder real sob pretexto de santidade. Não; o reino de Cristo não é deste mundo. A passagem indica o domínio espiritual dos santos sobre suas próprias paixões e corrupções, as vitórias sobre Satanás e suas tentações e os triunfos dos mártires sobre a morte e seus terrores.
Também promete que o reino do evangelho será estabelecido como reino da graça, cujos privilégios e consolos agora, debaixo dos céus, serão garantia e primeiros frutos do reino da glória nos céus. Quando o império se tornou cristão e os príncipes usaram seu poder para defender e promover o cristianismo, os santos possuíram o reino.
Os santos governam pelo governo do Espírito neles (e esta é a vitória que vence o mundo: sua fé) e por fazerem os reinos deste mundo se tornarem o reino de Cristo. Mas o cumprimento pleno disso será na felicidade eterna dos santos, no reino inabalável que, segundo a promessa divina, esperamos (essa é a grandeza do reino), na coroa de glória que não murcha: esse é o reino eterno.
Vejam a ênfase dada a isso (v. 18): “Os santos possuirão o reino para sempre, sim, para todo o sempre”. A razão é que aquele de quem são santos é o Altíssimo, e o reino dele é eterno, v. 27. Ele é eterno; portanto, o reino deles também será. “Porque eu vivo, vós também vivereis”, João 14:19.
O reino de Deus é o reino deles. Consideram-se exaltados na exaltação dele e não desejam para si honra nem satisfação maior que ver todos os domínios servirem e obedecerem a Deus, como farão, v. 27. Ou serão submetidos a seu cetro de ouro ou serão destruídos por sua vara de ferro.
Ao concluir o assunto, Daniel nos diz que impressões a visão lhe causou: suas forças ficaram tão sobrecarregadas que sua aparência mudou e ele empalideceu. Mas guardou o assunto no coração.
Repare: o coração deve ser o tesouro e depósito das coisas divinas; nele devemos esconder a palavra de Deus, assim como a Virgem Maria guardou as palavras de Cristo, Lucas 2:51. Daniel guardou o assunto no coração não para escondê-lo da igreja, mas para preservá-lo em favor dela, a fim de transmitir plena e fielmente ao povo o que recebera do Senhor.
Repare: os profetas e ministros de Deus precisam guardar em sua mente as coisas divinas e ali assimilá-las bem. Se quisermos ter a palavra de Deus pronta em nossa boca quando surgir ocasião de usá-la, devemos conservá-la sempre no coração.