Daniel 5
Argumento
A destruição do reino da Babilônia havia sido predita muitas vezes e desde muito tempo, quando ainda estava distante. Neste capítulo, temos seu cumprimento e uma predição dela na própria noite em que aconteceu.
Belsazar reinava então na Babilônia. Alguns calculam que havia reinado dezessete anos; outros, apenas três. Temos aqui a história de sua morte e do fim de seu reino.
Devemos saber que, cerca de dois anos antes disso, Ciro, rei da Pérsia e monarca em ascensão, viera contra a Babilônia com um grande exército. Belsazar foi ao seu encontro, combateu-o e foi derrotado por ele numa batalha campal. Ele e suas tropas dispersas se retiraram para a cidade, onde Ciro os sitiou.
Estavam muito seguros porque o rio Eufrates era seu baluarte e tinham provisões para vinte anos na cidade. Mas, no segundo ano do cerco, Ciro a tomou, como se relata aqui. Temos neste capítulo:
I. O banquete desenfreado, idólatra e sacrílego que Belsazar ofereceu, no qual completou a medida de sua iniquidade, vv. 1-4.
II. O alarme que recebeu em meio à sua alegria, por uma escrita feita por uma mão na parede, que nenhum de seus sábios conseguiu ler ou explicar, vv. 5-9.
III. A interpretação dos caracteres misteriosos por Daniel, que finalmente foi trazido à presença do rei, falou-lhe com franqueza e lhe mostrou sua condenação escrita, vv. 10-28.
IV. O cumprimento imediato da interpretação, com a morte do rei e a tomada do reino, v. 30, 31.
Versículos 1 a 9
O Banquete de Belsazar; a Escrita na Parede. (a.C. 538.)
Temos aqui o rei Belsazar muito alegre, mas, de repente, muito abatido e em aperto em meio à sua abundância. Veja como ele afronta a Deus e Deus o aterroriza; espere para ver qual será o resultado desse confronto e se prosperou aquele que endureceu o coração contra Deus.
I. Veja como o rei afrontou a Deus e o desprezou. Fez um grande banquete, ou festa de vinho; provavelmente era alguma solenidade anual em honra de seu aniversário ou do dia da coroação, ou em honra de algum de seus ídolos.
Os historiadores dizem que Ciro, que naquele momento cercava a Babilônia com seu exército, soube dessa festa e, supondo que estariam desprevenidos, somno vinoque sepulti, sepultados no sono e no vinho, aproveitou a ocasião para atacar a cidade e, assim, conquistá-la com mais facilidade.
Nessa ocasião, Belsazar convidou mil de seus senhores para beber com ele. Talvez fossem homens que se haviam distinguido na defesa da cidade contra os sitiantes; ou fossem seu grande conselho de guerra, com quem, depois que tivessem bebido bastante, discutiria o que ainda devia ser feito.
Eles deveriam considerar grande favor o fato de ele beber vinho diante deles, pois aqueles reis orientais se orgulhavam de raramente ser vistos. Bebeu vinho diante deles porque fez esse banquete, como Assuero, para mostrar a honra de sua majestade. Nesse banquete suntuoso:
- Afrontou a providência de Deus e desafiou seus juízos. Sua cidade estava cercada; um inimigo poderoso estava às suas portas; sua vida e seu reino estavam em jogo. Em tudo isso, a mão do Senhor se levantara contra ele e, por esses acontecimentos, o chamava ao choro, ao luto e a vestir-se de pano de saco.
A voz de Deus clamava na cidade, como Jonas a Nínive: “Ainda quarenta dias”, ou menos, “e a Babilônia será destruída”. Por isso, ele deveria ter proclamado um jejum, como o rei de Nínive.
Mas, decidido a andar em oposição a Deus, proclamou um banquete, e eis a alegria e o contentamento, abatendo bois e matando ovelhas, comendo carne e bebendo vinho, como se desafiasse o Todo-poderoso a fazer o pior, Isaías 22:12, 13.
Gastava assim de modo extravagante para mostrar quão pouco temia ser obrigado a se render por falta de provisões. Repare: segurança despreocupada e sensualidade são presságios tristes da ruína que se aproxima. Os que não aceitam ser advertidos pelos juízos de Deus podem esperar ser feridos por eles.
- Afrontou o templo de Deus e desafiou seu santuário, v. 2. Enquanto provava o vinho, mandou trazer os utensílios do templo para que bebessem neles. Ao provar como o vinho era rico e fino, disse: “Ah, é uma pena não termos utensílios santos para beber um vinho tão delicioso como este”.
Isso foi tomado como uma tirada espirituosa e, para dar sequência à brincadeira, mandaram buscar imediatamente os utensílios do templo.
Ou melhor, parece ter havido nisso mais do que uma brincadeira: o ato foi praticado com desprezo malicioso pelo Deus de Israel. O coração de seu povo estava muito ligado àqueles utensílios sagrados, como se vê em Jeremias 27:16, 18. Quando retornaram, seu principal cuidado foi com eles, Esdras 1:7.
Podemos supor que esperavam que sua libertação se aproximasse, pois calculavam que os setenta anos do cativeiro estavam chegando ao fim. Alguns deles talvez tivessem dito palavras nesse sentido: que em breve lhes seriam devolvidos os utensílios do santuário. Em desafio a isso, Belsazar agora proclama que os utensílios lhe pertencem; não os guardará mais, mas os usará entre sua própria prataria.
Repare: é de fato pecaminosa, e completa depressa a medida da iniquidade dos homens, a alegria que profana as coisas sagradas e faz delas motivo de brincadeira. Isso amadureceu a Babilônia para a ruína: nenhum cântico lhes servia senão os cânticos de Sião (Salmos 137:3), nenhum utensílio senão os do santuário.
Saibam os que assim, de modo sacrílego, desviam o que foi dedicado a Deus e à sua honra que ele não será escarnecido.
- Afrontou o próprio Deus e desafiou sua divindade, pois beberam vinho e louvaram os deuses de ouro e de prata, v. 4. Deram às imagens, obras de suas próprias mãos e criaturas de sua própria imaginação, a glória que se deve somente ao Deus verdadeiro e vivo. Louvaram-nas com sacrifícios que lhes ofereciam ou com cânticos em sua honra.
Quando o vinho lhes atordoava a cabeça e alegrava o coração, estavam na disposição mais adequada para louvar os deuses de ouro, prata, madeira e pedra. Seria de pensar que homens em pleno uso dos sentidos, capazes de pensar com clareza e sobriedade, não se entregariam a absurdo tão grosseiro; teriam de estar embriagados antes de poderem estar tão iludidos.
Adoradores bêbados, que não são homens, mas animais, são os mais apropriados para servir divindades de monturo, que não são deuses, mas demônios. “Erraram por causa do vinho”, Isaías 28:7.
Beberam vinho e louvaram seus deuses-ídolos como se esses tivessem preparado seu banquete e lhes dado todas as coisas boas. Ou, enquanto bebiam, louvavam seus deuses brindando à saúde deles. O rei bebia vinho diante dos convidados (v. 1), isto é, iniciava os brindes, primeiro a um deus, depois a outro, até percorrerem todo o rol ou amontoado deles, sem excluir os de madeira e pedra.
Repare: a imoralidade e a impiedade, o vício e a profanação, fortalecem-se e promovem os interesses uns dos outros. A folia da embriaguez servia de introdução à idolatria, e os brindes idólatras serviam de calçadeira para mais embriaguez.
II. Veja como Deus aterrorizou o rei e o encheu de pavor. Belsazar e seus senhores estão em meio à farra, as taças circulam depressa, todos se entregam à alegria, bebendo talvez à derrota de Ciro e de seu exército e soltando gritos de júbilo, confiantes de que o cerco logo seria levantado.
Mas chegara a hora do cumprimento do que havia muito fora dito sobre o rei da Babilônia, quando sua cidade fosse cercada pelos persas e medos, Isaías 21:2-4: “A noite dos meus prazeres ele a transformou em temor para mim”.
A alegria desse baile na corte precisava ser estragada, e sua festa, mergulhada em abatimento, embora o próprio rei presidisse as comemorações. Quando Deus dá a ordem, imediatamente o rei e todos os seus convidados caem na maior confusão, e sua alegria termina em tristeza.
- Surgem dedos de mão humana que escrevem no reboco da parede diante do rosto do rei (v. 5). “O anjo Gabriel”, dizem os rabinos, “guiava esses dedos e escrevia por meio deles”.
“Aquela mão divina”, diz um rabino entre nós, o dr. Lightfoot, “que escreveu as duas tábuas como lei para seu povo escreve agora na parede a condenação de Babel e de Belsazar”.
Nada do que foi enviado para aterrorizá-los fazia barulho ou ameaçava suas vidas: nenhum estrondo de trovão ou clarão de relâmpago, nenhum anjo destruidor com espada desembainhada na mão, apenas uma pena na mão que escrevia na parede, diante do candelabro, onde todos podiam vê-la à luz de sua própria vela.
Repare: a palavra escrita de Deus basta para assustar os pecadores mais orgulhosos e ousados quando ele quer aplicá-la a eles. O rei viu a parte da mão que escrevia, mas não viu a pessoa a quem ela pertencia, o que tornou tudo ainda mais aterrorizante.
Repare: o que vemos de Deus, a parte da mão que escreve no livro das criaturas e no livro das Escrituras (“Eis que essas são partes de seus caminhos”, Jó 26:14), pode nos encher de reverência diante daquilo de Deus que não vemos. Se esse é o dedo de Deus, como será seu braço descoberto? E como será ele próprio?
- O rei é imediatamente tomado de pânico (v. 6): “Sua expressão mudou” (perdia e recuperava a cor); “as articulações de seus lombos se afrouxaram”, de modo que não tinha força neles, mas sentiu uma dor nas costas, como costuma acontecer num grande susto; “seus joelhos batiam um no outro”, de tanto que tremia, como folha de álamo.
Mas o que havia acontecido? Por que estava tão assustado? Ele não entendia o que estava escrito; como poderia saber se não era um feliz presságio de libertação para ele e para seu reino? O problema, porém, eram os pensamentos que o perturbavam.
Sua consciência culpada se levantou contra ele e lhe disse que não tinha motivo para esperar boas notícias do céu, e que a mão de um anjo nada poderia escrever para ele senão terror. Sabendo-se sujeito à justiça de Deus, concluiu de imediato que aquilo era uma ordem de prisão em nome de Deus, uma convocação para comparecer diante dele.
Repare: Deus pode logo despertar os mais despreocupados e fazer tremer o coração do pecador mais valente. Para isso, basta soltar sobre ele seus próprios pensamentos; logo agirão como tiranos e lhe causarão bastante aflição.
- Os sábios da Babilônia são chamados imediatamente para ver o que conseguem entender da escrita na parede, v. 7. O rei gritou bem alto, como alguém apressado e profundamente interessado, para que trouxessem toda a corporação dos magos, a fim de verificar se conseguiam ler a escrita e dar sua interpretação.
Nem o rei nem os seus senhores podiam sequer alegar essa capacidade; estava fora de sua esfera.
O estudo da revelação divina (a que possuíam, ou julgavam possuir) e a comunhão com o mundo dos espíritos eram, entre os pagãos, reservados a uma única profissão, e ninguém mais se ocupava disso. Mas o que o dedo de Deus escreveu para nós é legível para todos; quem quiser pode ler nas Escrituras a mente de Deus.
Para levar esses sábios a empregar toda a sua habilidade na questão e estimular a rivalidade entre eles na tentativa, o rei prometeu as maiores honras da corte a quem lhe desse uma explicação satisfatória da escrita.
Sabia o que esses homens que alegavam ter sabedoria almejavam e o que lhes agradaria; por isso, prometeu um manto escarlate e uma corrente de ouro, coisas gloriosas aos olhos de quem não conhece nada melhor.
Mais ainda, esse homem seria primus par regni, o primeiro ministro de Estado, o terceiro governante do reino, depois do rei e de seu herdeiro aparente.
- O rei vê frustradas as expectativas que tinha deles: nenhum consegue ler a escrita, muito menos interpretá-la (v. 8), o que aumenta sua confusão, v. 9. Ele gosta cada vez menos daquilo e teme que algum mal esteja a caminho. Seus senhores, que haviam partilhado de sua alegria, agora partilham de seus terrores.
Eles também ficaram atônitos e sem saber o que fazer; nem seu número nem o vigor trazido pelo vinho serviram para sustentar-lhes o ânimo.
A razão pela qual os sábios não conseguiam ler a escrita não era que ela estivesse em língua ou caracteres desconhecidos, mas que Deus lhes pôs uma névoa diante dos olhos ou tamanha confusão no espírito que não puderam lê-la, reservando para Daniel a honra de explicar aquela escrita misteriosa.
Repare: o terror de uma consciência despertada e convencida pode aumentar com a total incapacidade de todas as criaturas de lhe trazer alívio ou satisfação.
Versículos 10 a 29
Daniel É Levado à Presença de Belsazar. (a.C. 538.)
Temos aqui: I. A informação dada ao rei pela rainha-mãe a respeito de Daniel e de sua aptidão para ser consultado nesse caso difícil. Supõe-se que essa rainha fosse a viúva de Evil-Merodaque e a famosa Nitócris, mencionada por Heródoto como mulher de extraordinária prudência.
Ela não estava presente ao banquete, como estavam as esposas e concubinas do rei (v. 2); uma noite de festa não convinha à sua idade e gravidade. Mas, quando chegaram aos seus aposentos notícias do susto que o rei e seus senhores haviam levado, ela própria veio ao salão do banquete para recomendar ao rei um médico para sua melancolia.
Pediu-lhe que não desanimasse pela incapacidade de seus sábios de resolver aquele enigma, pois havia em seu reino um homem que mais de uma vez socorrera seu avô em apuros extremos e que, sem dúvida, poderia socorrê-lo, v. 11, 12. Ela mesma não podia assumir a leitura da escrita, mas lhe indicou quem podia: que chamassem Daniel agora, embora devesse ter sido chamado primeiro. Observe:
- O elevado testemunho que ela dá de Daniel: é um homem em quem está o espírito dos deuses santos, que possui algo além do humano, não apenas o espírito do homem, que em todos é a lâmpada do Senhor, mas um espírito divino. Segundo a linguagem de seu país e de sua religião, não poderia fazer elogio maior a ninguém. Fala dele com honra como homem que possuía:
(1.) Uma mente admiravelmente boa: nele se encontravam luz, entendimento e sabedoria semelhantes à sabedoria dos deuses. Ele tinha tal percepção das coisas ocultas e tal conhecimento antecipado das coisas futuras que era evidente sua inspiração divina.
Tinha conhecimento e entendimento superiores aos de todos os demais sábios para interpretar sonhos, explicar enigmas ou sentenças difíceis, desatar nós e resolver dúvidas. Salomão tinha extraordinária perspicácia desse tipo; mas parece que, nessas coisas, Daniel recebia direção divina mais imediata.
Eis aqui alguém maior que o próprio Salomão. Contudo, que era a sabedoria de ambos comparada aos tesouros de sabedoria ocultos em Cristo?
(2.) Um coração admiravelmente bom: encontrou-se nele um espírito excelente, que adornava grandemente sua sabedoria e conhecimento e o habilitava a receber aquele dom. Pois Deus dá ao homem que lhe agrada sabedoria, conhecimento e alegria.
Seu espírito era humilde, santo e voltado para o céu, devoto e cheio de graça, zeloso pela glória de Deus e pelo bem dos homens. Esse era, de fato, um espírito excelente.
- O relato que ela dá do respeito que Nabucodonosor tinha por ele: Daniel desfrutava muito de seu favor e foi promovido por ele. “O rei, teu pai” (isto é, teu avô; mas, mesmo depois de muitas gerações, Nabucodonosor bem poderia ser chamado pai daquela família real, pois foi ele quem a elevou a tamanha grandeza), “o rei, digo, teu pai, o fez chefe dos magos”.
Talvez Belsazar, em seu orgulho, às vezes falasse com menosprezo de Nabucodonosor, de sua política, de seus métodos de governo e dos ministros que empregava, julgando-se mais sábio do que ele. Por isso, sua mãe insiste no ponto.
“O rei, digo, teu pai, a cuja boa administração deves tudo o que tens, declarou-o chefe de todos os sábios da Babilônia e lhe deu autoridade sobre eles. Também o chamou Beltessazar, conforme o nome de seu deus, pensando honrá-lo com isso.” Daniel, porém, usava sempre seu nome judeu (que estava decidido a conservar como sinal de sua fidelidade à religião), de modo que o outro nome caiu em desuso.
Só a rainha viúva ainda se lembrava dele; em geral, chamavam-no Daniel. Repare: é um bom serviço reavivar a memória dos bons serviços prestados por homens dignos que, por modéstia, aceitam que sejam esquecidos.
- A proposta que ela faz a respeito dele: que chamem Daniel, e ele dará a interpretação. Por isso se vê que Daniel estava esquecido na corte. Belsazar não o conhecia; ignorava que tinha tal joia em seu reino. Com o novo rei chegou um novo ministério, e o antigo foi posto de lado.
Repare: há muitos homens valiosos, que poderiam ser muito úteis, por muito tempo enterrados na obscuridade. E alguns que prestaram serviços notáveis vivem para ser deixados de lado e esquecidos. Porém, independentemente do que os homens façam, Deus não é injusto para esquecer os serviços prestados ao seu reino.
Daniel, afastado de seu cargo, vivia em particular e não buscava ocasião de voltar a ser notado. Contudo, morava perto da corte e ao alcance de um chamado, embora a Babilônia estivesse cercada, para estar pronto, se surgisse oportunidade, a prestar algum bom serviço aos filhos de seu povo por meio da influência que tinha entre os poderosos.
A Providência, porém, dispôs que agora, exatamente na queda daquela monarquia, ele fosse levado de volta à corte por intermédio da rainha, para estar ali pronto a receber um cargo no governo seguinte. Assim os justos brilham ao sair da obscuridade, e antes da honra vem a humildade.
II. A apresentação de Daniel ao rei e o pedido para que lesse e explicasse a escrita. Daniel foi levado diante do rei, v. 13. Aproximava-se então dos noventa anos, de modo que a idade, as honras e os cargos que ocupara antes lhe poderiam dar o direito de entrar livremente na presença do rei. Mesmo assim, aceitou ser conduzido por um mestre de cerimônias, como se fosse um estranho. Repare:
O rei pergunta com ar arrogante: “És tu aquele Daniel, dos filhos do cativeiro?” Por ser Daniel judeu e cativo, o rei relutava em lhe dever qualquer coisa, se pudesse evitá-lo.
Conta-lhe o elogio que ouvira a seu respeito (v. 14): que o espírito dos deuses estava nele. Mandara chamá-lo para ver se merecia tão elevado testemunho.
Reconhece que todos os sábios da Babilônia fracassaram: não conseguiram ler a escrita nem dar a interpretação, v. 15.
Promete-lhe a mesma recompensa que lhes havia prometido se conseguisse fazê-lo, v. 16.
Era estranho que os magos, perplexos então e também, mais de uma vez, no tempo de Nabucodonosor, não tentassem salvar a reputação. Se afirmassem com segurança: “Este é o sentido de tal sonho, de tal escrita”, quem poderia provar que estavam errados? Mas Deus dispôs que nada tivessem a dizer, assim como os oráculos pagãos emudeceram quando Cristo nasceu.
III. A interpretação que Daniel deu desses caracteres misteriosos. Longe de aliviar os temores do rei, podemos supor que os aumentou. Daniel já era idoso, ao passo que Belsazar era jovem; por isso, parece falar-lhe com mais liberdade, franqueza e firmeza do que havia feito em situações semelhantes com Nabucodonosor.
Para repreender alguém, sobretudo os poderosos, é preciso sabedoria para considerar todas as circunstâncias, pois são as repreensões da instrução que constituem o caminho da vida. No discurso de Daniel:
- Ele se dispõe a ler a escrita que causara o alarme e a dar sua interpretação, v. 17. Despreza a oferta de recompensa que o rei lhe fizera; não gosta nem que seja mencionada, pois não é dos que adivinham por dinheiro.
Recebeu com satisfação os presentes que Nabucodonosor lhe deu depois, mas desprezava a ideia de negociar por eles ou de ler a escrita para o rei em troca da promessa de determinadas honras. Não: “Guarda teus presentes para ti, pois não serão teus por muito tempo, e dá tua remuneração a outro, a qualquer dos sábios a quem mais desejarias vê-la ganhar. Não dou valor a isso”.
Daniel vê que o reino está em seus últimos momentos; por isso, despreza seus presentes e recompensas. Também nós deveríamos desprezar todos os presentes e recompensas que este mundo pode dar, se víssemos pela fé, como podemos, que seu fim definitivo se aproxima.
Que o mundo dê seus presentes perecíveis a outros; nossos olhos e corações estão voltados para presentes melhores. Cumpramos, porém, nosso dever no mundo, prestemos-lhe todo o verdadeiro serviço que pudermos, leiamos para ele a escrita de Deus por meio da profissão da religião e, por uma conduta coerente, tornemos conhecida sua interpretação.
Então confiemos em Deus quanto aos seus dons e recompensas; comparado a eles, tudo o que o mundo pode dar não passa de refugo e ninharias.
- Ele relata longamente ao rei como Deus tratou seu pai Nabucodonosor, fatos destinados a instruí-lo e adverti-lo, v. 18, 21. Não se trata de floreio nem distração, mas de introdução necessária à interpretação da escrita. Repare: para entendermos corretamente o que Deus está fazendo conosco, é útil rever o que ele fez com outros.
(1.) Descreve a grande dignidade e o poder aos quais a Providência divina elevou Nabucodonosor, v. 18, 19. Ele possuía um reino, majestade, glória e honra talvez maiores do que os de qualquer príncipe pagão anterior a ele.
Pensava ter conquistado sua glória por sua extraordinária habilidade de governar e coragem e atribuía seus êxitos ao próprio talento ativo e empreendedor. Daniel, porém, diz àquele que agora desfrutava do fruto de seu trabalho que foi o Deus Altíssimo, Deus dos deuses e Senhor dos reis (como o próprio Nabucodonosor o chamara), quem lhe deu aquele reino e vasto domínio.
Foi Deus quem lhe deu também a majestade com que conduzia seus assuntos e a glória e honra adquiridas por sua administração próspera. Repare: por maior que seja o grau de prosperidade exterior alcançado por alguém, deve reconhecer que ela foi dada por Deus, não conseguida por esforço próprio.
Nunca se diga: “Minha força e o poder da minha mão me deram esta riqueza, este cargo”. Lembre-se sempre, porém, de que Deus dá aos homens poder para obter riqueza e dá êxito aos seus esforços. Ora, o poder que Deus deu a Nabucodonosor é aqui descrito como muito grande tanto em capacidade quanto em autoridade.
[1.] Sua capacidade era tão grande que ninguém podia resistir a ele. Tamanha era a majestade que Deus lhe deu, tão numerosas as tropas que comandava e tão admirável a habilidade com que as dirigia que, para onde quer que voltasse a espada, prosperava.
Podia capturar e subjugar nações apenas com ameaças, sem desferir um golpe, pois todos os povos tremiam e o temiam e aceitavam negociar a própria vida sob quaisquer condições. Veja o que é a força e o que faz o medo dela. É por meio dela que a parte brutal do mundo, até do mundo humano, tanto governa quanto é governada.
[2.] Sua autoridade era tão absoluta que não podia ser contida. O poder que lhe era permitido, que desceu sobre ele ou que, ao menos, ele assumiu, não encontrava oposição: era absoluto e despótico. Ninguém compartilhava com ele nem a função legislativa nem a executiva.
Ao aplicar castigos, condenava ou absolvia segundo a própria vontade: matava a quem queria e poupava a quem queria, embora ambos fossem igualmente inocentes ou igualmente culpados. O jus vitæ et necis, o poder de vida e morte, estava inteiramente em suas mãos.
Ao conceder recompensas, promovia ou deixava de promover segundo a própria vontade: elevava a quem queria e rebaixava a quem queria, por mero capricho, sem dar satisfação sequer a si mesmo. Tudo se fazia ex mero motu, por seu próprio prazer, e stat pro ratione voluntas, sua vontade valia como razão. Essa era a constituição das monarquias orientais, essa a maneira de agir de seus reis.
(2.) Apresenta-lhe os pecados que Nabucodonosor havia cometido, provocando a Deus contra si. [1.] Tratou com insolência os que estavam sob sua autoridade e se tornou tirânico e opressor.
A descrição de seu poder sugere que abusou dele e que se deixava guiar pelo capricho e pela paixão, não pela razão e pela equidade. Assim, muitas vezes condenou inocentes e absolveu culpados, ambas coisas abomináveis ao Senhor. Destituiu homens de mérito e promoveu homens indignos, para grande prejuízo do público, e por isso prestaria contas ao Deus Altíssimo, que lhe dera o poder.
Repare: é coisa muito difícil e rara que os homens tenham poder absoluto e arbitrário sem fazer mau uso dele. Camden cita um dístico de Giraldo no qual apresenta como exemplo raro o nosso rei Henrique II da Inglaterra, que jamais outro homem tivesse tanto poder e causasse com ele tão pouco dano:
Glorior hoc uno, quod nunquam vidimus unum,
Nec potuisse magis, nec nocuisse minus —
“Dele posso dizer, exultante, que, com igual poder para causar dano, ninguém jamais foi tão inofensivo.”
Mas isso não era tudo. [2.] Tratou com insolência o Deus que estava acima dele e se tornou orgulhoso e arrogante (v. 20): “Seu coração se exaltou”, e aí começaram seu pecado e sua ruína. “Sua mente se endureceu no orgulho”, contra os mandamentos e os juízos de Deus; era obstinado e teimoso, e nem a palavra de Deus nem sua vara lhe deixavam impressão duradoura.
Repare: o orgulho é um pecado que endurece o coração em todos os demais pecados e torna ineficazes os meios de arrependimento e reforma.
(3.) Lembra-lhe os juízos de Deus que vieram sobre Nabucodonosor por seu orgulho e obstinação: como perdeu a razão e, por isso, foi deposto do trono real (v. 20) e expulso do convívio dos homens para viver com os jumentos selvagens, v. 21. Aquele que não quis governar seus súditos pelas regras da razão não conservou razão suficiente para governar a si mesmo.
Repare: é justo que Deus prive da razão os homens quando se tornam irrefletidos e se recusam a usá-la, e que os prive do poder quando se tornam opressores e o usam mal. Ele continuou como animal até conhecer e abraçar o primeiro princípio da religião: que o Deus Altíssimo governa.
É mais pela religião do que pela razão que o homem se distingue dos animais e é elevado acima deles; e para ele é maior honra ser súdito do supremo Criador do que senhor das criaturas inferiores.
Repare: os reis precisam saber, ou serão obrigados a saber, que o Deus Altíssimo governa em seus reinos (isso é um imperium in imperio, um império dentro de outro império, contra o qual não cabe objeção) e que ele põe sobre eles quem quiser. Assim como constitui herdeiros, também constitui príncipes.
- Em nome de Deus, apresenta artigos de acusação contra Belsazar. Antes de ler a condenação escrita pela mão na parede, mostra-lhe seu crime, para que Deus seja justificado ao falar e considerado justo ao julgar. A acusação que lhe faz é:
(1.) Que não se deixou advertir pelos juízos de Deus sobre seu pai (v. 22): “Tu, seu filho, ó Belsazar, não humilhaste o teu coração, embora soubesses de tudo isso”. Repare: é grande ofensa a Deus que nosso coração não se humilhe diante dele para obedecer tanto a seus preceitos quanto ao que sua Providência dispõe, humilhando-se em arrependimento, obediência e paciência.
Mais ainda: Deus espera até dos homens mais poderosos que humilhem o coração diante dele, reconhecendo que, por maiores que sejam, devem prestar-lhe contas. A falta de humildade de nosso coração se torna ainda mais grave quando sabemos o suficiente para humilhá-lo, mas não consideramos nem aproveitamos esse conhecimento.
Isso vale especialmente quando sabemos como outros foram quebrados por não se dobrarem e como caíram por não se inclinarem, e ainda assim continuamos rígidos e inflexíveis. O pecado dos filhos se torna mais grave quando seguem os passos da perversidade dos pais, apesar de terem visto quanto lhes custou e quão danosas foram suas consequências. Sabemos disso tudo e, ainda assim, não nos humilhamos?
(2.) Que afrontou a Deus com mais descaramento do que o próprio Nabucodonosor, como testemunha a farra daquela mesma noite, durante a qual foi tomado de horror (v. 23): “Tu te exaltaste contra o Senhor do céu, te encheste de cólera contra ele e pegaste em armas contra sua coroa e dignidade”.
“Fizeste isso especificamente ao profanar os utensílios de sua casa e usar os objetos de seu santuário como instrumentos de tua iniquidade; e, num ato deliberado de desprezo por ele, louvaste os deuses de prata e ouro, que não veem, não ouvem nem sabem coisa alguma, como se fossem preferíveis ao Deus que vê, ouve e sabe tudo.”
Os pecadores decididos a continuar no pecado ficam satisfeitos com deuses que não veem, não ouvem nem sabem, pois assim podem pecar sem temor. Mas, para sua vergonha, descobrirão que, embora esses sejam os deuses que escolhem, não são os deuses por quem terão de ser julgados. Serão julgados por aquele diante de quem tudo está nu e descoberto.
(3.) Que não cumpriu a finalidade de sua criação e sustento: “O Deus em cuja mão está o teu fôlego e a quem pertencem todos os teus caminhos, não glorificaste”. Essa é uma acusação geral, válida contra todos nós; consideremos como responderemos a ela. Observe:
[1.] Nossa dependência de Deus como criador, preservador, benfeitor, dono e governante: não foi apenas de sua mão que recebemos o fôlego no começo, mas ele ainda o tem em sua mão. É ele quem sustenta nossa vida e, se nos tira o fôlego, morremos. Assim como nossos tempos estão em sua mão, nela está nosso fôlego, que mede nossos tempos.
Nele vivemos, nos movemos e existimos; vivemos por ele, dependemos dele para viver e não podemos viver sem ele. O caminho do homem não está em si mesmo, sob seu próprio comando nem à sua disposição, mas a Deus pertencem todos os nossos caminhos.
Nosso coração está em sua mão, assim como o coração de todos os homens, até dos reis, que parecem agir com mais liberdade do que todos. [2.] Nosso dever para com Deus, em vista dessa dependência: devemos glorificá-lo, dedicar-nos à sua honra e ocupar-nos de seu serviço, cuidar de agradá-lo e fazer do louvor a ele nossa ocupação.
[3.] Nossa falha nesse dever, apesar da dependência: não o fizemos, pois todos pecamos e ficamos aquém da glória de Deus. Essa é a acusação contra Belsazar; não requer prova, pois a evidência notória do fato a confirma, e sua própria consciência não pode deixar de declarar-se culpada. Por isso:
- Ele passa agora a ler a sentença tal como a encontrou escrita na parede: “Então”, diz Daniel, “quando chegaste a tamanho grau de impiedade, pisando assim nas coisas mais sagradas, quando estavas em meio ao teu banquete sacrílego e idólatra, a parte da mão, os dedos que escreviam, foi enviada por ele, por aquele Deus a quem tão ousadamente afrontaste”.
“Ele te suportou por tanto tempo, mas não te suportaria mais; enviou os dedos, e esta escrita, que agora vês, foi traçada”, v. 24. É ele quem agora escreve coisas amargas contra você e faz você possuir suas iniquidades, Jó 13:26.
Repare: assim como o pecado dos pecadores está escrito no livro da onisciência de Deus, também sua condenação está escrita no livro da lei de Deus. Virá o dia em que esses livros serão abertos e os pecadores serão julgados por eles.
Ora, a escrita era Mene, Mene, Tekel, Upharsin, v. 25. É bom que tenhamos anexada uma exposição fidedigna dessas palavras; sem ela pouco entenderíamos, tão concisas são. Seu significado é: “Ele contou, ele pesou e eles dividem”. Os sábios caldeus, por não saberem que há um só Deus, não entenderam quem seria esse “Ele”; por esse motivo, segundo alguns, a escrita os confundiu.
(1.) Mene; a palavra se repete porque a coisa é certa: Mene, mene. Tanto em hebraico quanto em caldeu, significa “Ele contou e terminou”, o que Daniel explica assim (v. 26): “Deus contou os anos e os dias de duração do teu reino”.
“Eles foram contados no conselho de Deus e agora terminaram; expirou o prazo durante o qual o terias em tuas mãos, e agora precisas entregá-lo. Aqui está o fim do teu reino”.
(2.) Tekel; em caldeu, significa “Tu foste pesado”; em hebraico, “Tu és leve demais”, segundo o dr. Lightfoot. Esse rei e suas ações são pesados nas balanças justas e infalíveis da equidade divina. Deus conhece seu verdadeiro caráter tão perfeitamente quanto o ourives conhece o peso do que pesou na balança mais precisa.
Deus não profere julgamento contra ele antes de ponderar suas ações e considerar os méritos de seu caso. “Mas foste achado em falta, indigno de receber tamanha responsabilidade: um homem vão, leve, vazio, sem peso nem importância”.
(3.) Upharsin, que se deveria traduzir “e Pharsin”, ou Peres. Parsin, em hebraico, significa “os persas”; Paresin, em caldeu, significa “dividir”. Daniel une os dois (v. 28): “Teu reino está dividido, arrancado de ti e entregue aos medos e persas, como presa a ser repartida entre eles”.
Ora, isso pode ser aplicado sem esforço à condenação dos pecadores. Mene, Tekel, Peres podem facilmente significar morte, juízo e inferno. Na morte, os dias do pecador são contados e terminam; depois da morte vem o juízo, quando será pesado na balança e achado em falta. Depois do juízo, o pecador será dividido em pedaços e entregue como presa ao diabo e a seus anjos.
Daniel não aconselha nem anima Belsazar a arrepender-se como aconselhara Nabucodonosor, pois percebe que o decreto já foi promulgado e que não lhe será concedido prazo para o arrependimento.
Seria de imaginar que Belsazar se exasperaria contra Daniel e, ao ver seu caso desesperador, se encheria de ira contra ele. Porém, sua própria consciência estava tão convencida da justeza de tudo o que Daniel dissera que nada contestou. Ao contrário, concedeu-lhe a recompensa prometida.
Vestiu-o com o manto escarlate, pôs-lhe a corrente de ouro e o proclamou terceiro governante do reino (v. 29). Agiu assim por querer cumprir sua palavra e porque Daniel não tinha culpa de a interpretação da escrita não ser a que ele desejava.
Repare: muitos demonstram grande respeito aos profetas de Deus sem ter consideração por sua palavra. Daniel não dava valor a esses títulos e insígnias de honra, mas não os recusou, pois eram sinais da boa vontade do príncipe. Temos razão, porém, para pensar que os recebeu com um sorriso, prevendo quão depressa murchariam junto com aquele que os concedera.
Eram como a aboboreira de Jonas, que cresceu numa noite e morreu numa noite; por isso, seria tolice alegrar-se muito com eles.
Daniel Trata Belsazar com Franqueza; Interpretação da Escrita na Parede. (a.C. 538.)
Versículos 30 a 31
Temos aqui: 1. A morte do rei. Tinha muitos motivos para tremer, pois estava prestes a cair nas mãos do rei dos terrores, v. 30. Naquela noite, quando seu coração estava alegre pelo vinho, os sitiantes invadiram a cidade e se dirigiram ao palácio. Encontraram ali o rei e lhe deram um golpe mortal. Não pôde achar lugar tão secreto que o escondesse nem tão forte que o protegesse.
Escritores pagãos falam de Ciro tomando a Babilônia de surpresa, com a ajuda de dois desertores que lhe mostraram o melhor caminho para entrar na cidade. Também fora predito o espanto que isso causaria na corte, Jeremias 51:11, 39. Repare: a morte chega como armadilha aos que têm o coração sobrecarregado pela glutonaria e pela embriaguez.
- A transferência do reino para outras mãos. Da cabeça de ouro passamos agora ao peito e aos braços de prata. Dario, o medo, recebeu o reino em parceria com Ciro, que o conquistara, e com seu consentimento, v. 31. Eram parceiros na guerra e na conquista; por isso, também o foram no domínio, Daniel 6:28.
Sua idade é mencionada: tinha então sessenta e dois anos. Por esse motivo, Ciro, seu sobrinho, concedeu-lhe a precedência. Alguns observam que, tendo ele sessenta e dois anos no último ano do cativeiro, nascera no oitavo ano do cativeiro, quando Jeconias e todos os nobres, etc., foram levados cativos. Veja 2 Reis 24:13-15.
Exatamente no momento em que se desferiu o golpe mais fatal, nasceu um príncipe que, com o passar do tempo, vingaria Jerusalém contra a Babilônia e curaria a ferida então aberta. Tão profundos são os conselhos de Deus a respeito de seu povo, tão bondosos são seus desígnios para com ele.