Matthew Henry

Daniel 3

Argumento

No fim do capítulo anterior, deixamos os companheiros de Daniel, Sadraque, Mesaque e Abede-Nego, em honra e poder, príncipes das províncias, promovidos por sua relação com o Deus de Israel e pelo interesse que tinham nele. Não sei se deveria dizer: seria bom que todos os santos tivessem essa honra. Não: há muitos para quem ela não seria boa; a honra dos santos está reservada para outro mundo.

Mas aqui temos esses mesmos três homens tão sujeitos ao desagrado do rei quanto antes estavam sob o seu favor e, ainda assim, mais verdadeiramente e mais altamente honrados por seu Deus do que lá foram honrados por seu príncipe: tanto pela graça com que ele os capacitou a sofrer em vez de pecar quanto pela libertação milagrosa e gloriosa que operou em favor deles em meio aos seus sofrimentos.

É uma história muito memorável, um exemplo glorioso do poder e da bondade de Deus e um grande incentivo à constância do seu povo em tempos de provação. O apóstolo se refere a ela quando menciona, entre os heróis da fé, os que pela fé “apagaram a violência do fogo”, Hebreus 11:34. Temos aqui:

I. A construção e dedicação de uma imagem de ouro por Nabucodonosor, sua exigência de que todos os seus súditos, de qualquer posição ou condição, se prostrassem e a adorassem, e a obediência geral do seu povo a essa ordem, vv. 1-7.

II. A denúncia contra os príncipes judeus por se recusarem a adorar essa imagem de ouro, vv. 8-12.

III. Sua persistência constante nessa recusa, apesar da fúria e das ameaças do rei, vv. 13-18.

IV. Eles serem lançados na fornalha ardente por causa de sua recusa, vv. 19-23.

V. Sua preservação milagrosa no fogo pelo poder de Deus e o convite do rei para saírem do fogo, pois esse milagre o convenceu do erro que cometera ao lançá-los ali, vv. 24-27.

VI. A honra que o rei deu a Deus em consequência disso e o favor que mostrou àqueles fiéis homens dignos, vv. 28-30.

Versículos 1 a 7

A Imagem de Ouro de Nabucodonosor. (a.C. 587.)

Não temos certeza da data desta história. Sabemos apenas que, se esta imagem que Nabucodonosor dedicou tinha alguma relação com a que ele viu em sonho, é provável que isso tenha acontecido pouco tempo depois. Alguns calculam que tenha sido por volta do sétimo ano de Nabucodonosor, um ano antes do cativeiro de Joaquim, quando Ezequiel foi levado. Observe:

I. Uma imagem de ouro erguida para ser adorada. Babilônia já estava cheia de ídolos, mas nada satisfaria esse príncipe autoritário a não ser que eles tivessem mais um.

É que os que abandonaram o único Deus vivo e começam a estabelecer muitos deuses descobrirão que os deuses que estabelecem são tão insatisfatórios, e seu desejo por eles tão insaciável, que os multiplicarão sem medida, correrão atrás deles sem fim e nunca saberão quando têm o bastante.

Os idólatras gostam de novidades e variedade. Escolhem novos deuses. Os que têm muitos desejarão ter mais. O rei Nabucodonosor, para exercer a prerrogativa de sua coroa de criar o deus que julgasse conveniente, ergueu esta imagem, v. 1. Observe:

  1. Seu valor; era uma imagem de ouro, mas certamente não toda de ouro. Por mais rico que fosse, é provável que ele não pudesse arcar com isso; ela era revestida de ouro. Repare: os adoradores de falsos deuses não costumam se preocupar com despesas ao erguer imagens e adorá-las; esbanjam ouro da bolsa para esse fim (Isaías 46:6), o que envergonha nossa mesquinhez no culto ao Deus verdadeiro.

  2. Seu tamanho enorme; tinha sessenta côvados de altura e seis de largura. Excedia quinze vezes a estatura comum de um homem (pois esta é calculada em apenas quatro côvados, ou seis pés), como se o seu tamanho monstruoso compensasse o fato de não ter vida. Mas por que Nabucodonosor ergueu essa imagem?

Alguns sugerem que foi para se livrar da acusação de ter-se tornado judeu, pois recentemente falara com grande honra do Deus de Israel e promovera alguns de seus adoradores. Ou talvez a tenha erguido como imagem de si mesmo, com a intenção de ser adorado nela. Príncipes orgulhosos gostavam de receber honras divinas; Alexandre fez isso, alegando ser filho de Júpiter Olímpico.

Disseram-lhe que, na imagem que vira em seu sonho, ele era representado pela cabeça de ouro, à qual sucederiam reinos de metal inferior; aqui, porém, ele se apresenta como a imagem inteira, pois a faz toda de ouro. Veja aqui:

(1.) Como as boas impressões que então foram causadas nele se perderam por completo e rapidamente. Ele reconhecera que o Deus de Israel é, de fato, Deus dos deuses e Senhor dos reis; contudo, agora, em desafio à lei expressa desse Deus, ergue uma imagem para ser adorada. Não apenas continua em suas idolatrias anteriores, mas também maquina outras novas.

Repare: convicções fortes muitas vezes não chegam a uma conversão sólida. Muitos, sob uma pontada de remorso, reconheceram o absurdo e o perigo do pecado e, ainda assim, continuaram nele.

(2.) Como aquele mesmo sonho e sua interpretação, que lhe causaram impressões tão boas, agora tiveram efeito inteiramente contrário. Antes, fizeram-no prostrar-se como humilde adorador de Deus; agora, fizeram-no apresentar-se como ousado rival de Deus. Antes, considerava grande coisa ser a cabeça de ouro da imagem e reconhecia que devia isso a Deus.

Mas, como seu orgulho cresceu com sua posição, agora acha isso pouco e, em contradição com o próprio Deus e seu oráculo, quer ser tudo em todos.

II. Uma assembleia geral das autoridades convocada para assistir à solenidade de dedicação dessa imagem, v. 2, 3.

Mensageiros são enviados a todas as partes do reino para reunir os príncipes, duques e senhores, todos os pares do reino, com todos os oficiais civis e militares, os capitães e comandantes das tropas, os juízes, os tesoureiros ou recebedores gerais, os conselheiros, os magistrados e todos os governantes das províncias.

Todos devem comparecer à dedicação dessa imagem, sob pena de sofrer as consequências. Ele convoca os grandes homens para a grande honra do seu ídolo; por isso se menciona, para a glória de Cristo, que os reis lhe trarão presentes. Se ele conseguir fazê-los prestar homenagem à sua imagem de ouro, não duvida que o povo de condição inferior os seguirá naturalmente.

Em obediência à convocação do rei, todos os magistrados e oficiais daquele vasto reino deixam os serviços de suas respectivas regiões e vão à Babilônia para a dedicação dessa imagem de ouro. Muitos fizeram viagens longas e caras por uma missão muito tola; mas, assim como os ídolos são coisas sem entendimento, assim também são os seus adoradores.

III. Uma proclamação feita ordenando que todas as pessoas presentes diante da imagem, ao sinal dado, se prostrassem e a adorassem, sob o nome e título de A imagem de ouro que o rei Nabucodonosor ergueu.

Um mensageiro público anuncia isso em voz alta a essa vasta assembleia de dignitários, com seus numerosos grupos de servos e acompanhantes e, sem dúvida, uma grande multidão de pessoas que não haviam sido convocadas. Que todos tomem conhecimento:

  1. De que o rei ordena rigorosamente a toda espécie de pessoas que se prostrem e adorem a imagem de ouro. Sejam quais forem os outros deuses que adoram em outras ocasiões, agora devem adorar este.

  2. De que todos devem fazer isso exatamente ao mesmo tempo, como sinal de sua comunhão uns com os outros nesse culto idólatra. Para isso, o aviso seria dado por um concerto de música, que também serviria para ornamentar a solenidade e para suavizar e abrandar o ânimo dos que relutavam em ceder, levando-os a obedecer à ordem do rei.

Essa alegria e animação no culto seriam muito agradáveis às mentes carnais e sensuais, que desconhecem o culto espiritual devido a Deus, que é espírito.

IV. A obediência geral da assembleia a essa ordem, v. 7. Ouviram o som dos instrumentos musicais, tanto de sopro quanto tocados com as mãos: a corneta e a flauta, com a harpa, o trombone de vara, o saltério e o dulcímero. Julgaram arrebatadora a melodia deles (e ela era bem apropriada para despertar a devoção que então deviam prestar).

Imediatamente todos, como um só homem, como soldados acostumados a se exercitar ao rufar do tambor, todos os povos, nações e línguas, se prostraram e adoraram a imagem de ouro. Não é de admirar, pois fora proclamado que quem não adorasse essa imagem de ouro seria imediatamente lançado no meio de uma fornalha de fogo ardente, preparada para esse fim, v. 6.

Havia ali os encantos da música para atraí-los à obediência e os terrores da fornalha ardente para amedrontá-los até obedecerem. Cercados assim pela tentação, todos cederam.

Repare: a maioria seguirá o caminho indicado pelos sentidos. Não há nada tão ruim a que o mundo descuidado não seja atraído por um concerto de música ou levado à força por uma fornalha ardente. E é por métodos como esses que o falso culto foi estabelecido e mantido.

Versículos 8 a 18

Os Príncipes Hebreus Acusados; A Coragem dos Príncipes Judeus. (a.C. 587.)

Era estranho que Sadraque, Mesaque e Abede-Nego estivessem presentes nessa assembleia quando, provavelmente, sabiam para que ela fora convocada.

Podemos supor que Daniel estivesse ausente, ou porque seus negócios o chamaram a outro lugar, ou porque recebera licença do rei para se retirar; a menos que suponhamos que ocupava posição tão elevada no favor do rei que ninguém ousava denunciá-lo por sua desobediência.

Mas por que seus companheiros não se mantiveram afastados? Certamente porque obedeceriam às ordens do rei até onde pudessem e estariam prontos para dar testemunho público contra essa idolatria grosseira.

Não achavam suficiente deixar de se curvar diante da imagem; por ocuparem cargos, julgavam-se obrigados a se levantar contra ela, embora fosse a imagem que o rei, seu senhor, erguera e fosse uma imagem de ouro para os que a adorassem. Agora:

I. Certos caldeus levam ao rei uma denúncia contra esses três homens, porque não obedeceram ao decreto do rei, v. 8. Talvez os caldeus que os acusaram fossem alguns daqueles magos ou astrólogos especialmente chamados caldeus (Daniel 2:2, 4), que guardavam rancor dos companheiros de Daniel por causa dele. Pois Daniel os eclipsara, e seus companheiros também o haviam feito.

Eles, por suas orações, haviam alcançado a misericórdia que salvou a vida desses caldeus e, veja como lhes retribuem o bem com o mal! Em troca do amor deles, tornam-se seus adversários. Assim Jeremias esteve diante de Deus para falar bem daqueles que depois cavaram uma cova para lhe tirar a vida, Jeremias 18:20. Não devemos achar estranho encontrar homens tão ingratos.

Ou talvez fossem caldeus que esperavam os cargos aos quais aqueles três haviam sido promovidos e invejavam sua promoção; e quem pode resistir à inveja? Apelam ao próprio rei a respeito do decreto, com todo o respeito devido à sua majestade e com a saudação costumeira: “Ó rei, vive para sempre!”

Pareciam visar apenas à honra do rei e a servir aos interesses dele, quando na verdade o instigavam a fazer aquilo que ameaçaria arruinar a ele e a seu reino. Pedem licença:

  1. Para lembrá-lo da lei que fizera havia pouco: que todas as espécies de pessoas, sem exceção de nação ou língua, deveriam prostrar-se e adorar essa imagem de ouro.

Lembram-no também da pena que, segundo a lei, devia ser aplicada aos que se recusassem: seriam lançados no meio da fornalha de fogo ardente, v. 10, 11. Não se pode negar que essa era a lei; se era uma lei justa ou não, porém, deve ser examinado.

  1. Para informá-lo de que aqueles três homens, Sadraque, Mesaque e Abede-Nego, não se conformaram a esse decreto, v. 12.

É provável que Nabucodonosor não tivesse o propósito específico de enredá-los quando fez a lei; se tivesse, ele próprio os teria vigiado e não precisaria dessa denúncia. Mas os inimigos deles, que procuravam um motivo para acusá-los, aproveitaram a ocasião e se apressaram a denunciá-los.

Para agravar a questão e inflamar ainda mais o rei contra eles:

(1.) Lembram-lhe a dignidade à qual os criminosos haviam sido promovidos. Embora fossem judeus, estrangeiros, cativos, homens de uma nação e religião desprezadas, o rei os colocara sobre os negócios da província da Babilônia. Portanto, seria muita ingratidão e uma insolência intolerável desobedecerem à ordem do rei depois de terem recebido tanto do seu favor.

Além disso, o cargo elevado que ocupavam tornaria a recusa ainda mais escandalosa: seria um mau exemplo e exerceria má influência sobre os outros; por isso, era necessário repreendê-los severamente. Assim, príncipes já bastante irritados contra pessoas inocentes costumam ter à sua volta pessoas demais que fazem tudo o que podem para torná-los piores.

(2.) Sugerem que fizeram isso por malícia, obstinação e desprezo pelo rei e por sua autoridade: “Não fizeram caso de ti, pois não servem aos deuses a que tu serves e aos quais exiges que sirvam, nem adoram a imagem de ouro que ergueste”.

II. Esses três judeus piedosos são levados imediatamente diante do rei, formalmente acusados e interrogados a respeito da denúncia. Nabucodonosor se encolerizou muito e, em sua ira e fúria, ordenou que fossem presos, v. 13.

De quão pouca honra servia a esse poderoso príncipe governar tantas nações quando, ao mesmo tempo, não tinha domínio sobre o próprio espírito! Tantos eram seus súditos e cativos, enquanto ele mesmo era completo escravo de suas paixões grosseiras e levado cativo por elas! Como era incapaz de governar homens dotados de razão, sendo ele mesmo incapaz de se deixar governar pela razão!

Não precisava surpreendê-lo ouvir que aqueles três homens agora não serviam aos seus deuses, pois sabia muito bem que nunca lhes haviam servido e que sua religião, à qual sempre haviam permanecido fiéis, os proibia de fazê-lo. Tampouco tinha motivo para pensar que pretendiam desprezar sua autoridade, pois em todos os casos se haviam mostrado respeitosos e obedientes a ele como seu príncipe.

Mas era especialmente inoportuno, naquele momento em que estava em meio às suas devoções, dedicando sua imagem de ouro, encher-se de tanta ira e fúria e deixar-se perturbar assim. A prudência de um homem, pensaríamos, deveria ao menos ter adiado essa cólera.

A devoção verdadeira acalma o espírito, aquieta-o e torna-o manso; mas a superstição e a devoção a falsos deuses inflamam as paixões dos homens, incutem-lhes ira e fúria e os transformam em brutos.

A cólera de um rei é como o rugido de um leão; assim era a cólera desse rei. Ainda assim, quando ele estava tão inflamado, os três homens foram levados diante dele e se apresentaram com coragem intrépida e constância inabalável.

III. O caso lhes é exposto em poucas palavras, e são chamados a decidir se obedecerão ou não:

  1. O rei perguntou-lhes se era verdade que não haviam adorado a imagem de ouro quando os outros a adoraram, v. 14. “Foi de propósito?”, como alguns leem.

“Vocês o fizeram intencional e deliberadamente, ou foi apenas por descuido que não serviram aos meus deuses?”

“Como! Vocês, a quem alimentei e criei, que foram educados e sustentados às minhas custas, a quem tratei com tanta bondade e por quem fiz tanto, vocês, que tinham tal reputação de sabedoria e, portanto, deviam conhecer melhor seu dever para com o príncipe; como! Vocês não servem aos meus deuses nem adoram a imagem de ouro que ergui?”

Repare: a fidelidade dos servos de Deus a ele muitas vezes causa espanto aos seus inimigos e perseguidores, que estranham que eles não se lancem com os demais no mesmo excesso de devassidão.

  1. Ele estava disposto a conceder-lhes uma nova oportunidade. Se antes deixaram de fazê-lo de propósito, talvez, depois de refletirem, mudem de ideia; por isso, ele lhes repete quais são agora as suas condições, v. 15.

(1.) O rei aceita que a música toque de novo, só por causa deles, a fim de abrandá-los e levá-los a obedecer. Se não taparem os ouvidos, como a víbora surda, mas ouvirem a voz dos encantadores e adorarem a imagem de ouro, tudo bem; sua omissão anterior será perdoada.

Mas (2.) o rei está decidido a lançá-los imediatamente na fornalha ardente, caso persistam em sua recusa, sem lhes dar sequer uma hora de adiamento. A questão se resume a isto: cedam ou queimem. E, porque sabia que eles se apoiavam na confiança em seu Deus para manter a recusa, lançou-lhe um desafio insolente: “E quem é o Deus que os livrará das minhas mãos? Que o faça, se puder”.

Agora ele se esqueceu do que reconhecera antes: que o Deus deles era Deus dos deuses e Senhor dos reis, Daniel 2:47. Homens orgulhosos estão sempre prontos a dizer, como Faraó: “Quem é o SENHOR, para que eu obedeça à sua voz?”; ou, como Nabucodonosor: “Quem é o SENHOR, para que eu tema o seu poder?”

IV. Eles dão uma resposta com a qual todos concordam: continuam firmes na decisão de não adorar a imagem de ouro, vv. 16-18. Temos aqui um exemplo de coragem e grandeza de espírito quase sem paralelo. Chamamos esses três de crianças (e, de fato, eram jovens), mas deveríamos chamá-los de três campeões, os três primeiros entre os homens dignos do reino de Deus na terra.

Não explodiram em ira ou paixão desmedida contra os que adoraram a imagem de ouro; não os insultaram nem os afrontaram. Tampouco se precipitaram imprudentemente para a prova ou saíram do seu caminho para buscar o martírio. Mas, quando foram devidamente chamados à prova de fogo, portaram-se bravamente, com comportamento e coragem dignos de quem sofria por causa tão boa.

O rei não foi mais ousado na maldade ao fazer esse ídolo do que eles foram ousados no bem ao testemunhar contra ele. Mantiveram admiravelmente a calma: não chamaram o rei de tirano nem de idólatra (a causa de Deus não precisa da ira humana). Com serenidade e tranquilidade de espírito exemplares, deram deliberadamente sua resposta, na qual estavam decididos a permanecer. Observe:

  1. Seu gracioso e generoso desprezo pela morte e a nobre despreocupação com que encaram o dilema diante deles: “Ó Nabucodonosor, não estamos preocupados em responder-te sobre este assunto”. Não é por teimosia que se recusam a dar-lhe resposta, nem permanecem calados; dizem-lhe que não estão preocupados com isso.

Não é preciso responder (assim leem alguns); eles estão decididos a não obedecer, e o rei está decidido a matá-los se não obedecerem. A questão, portanto, já está resolvida; por que discuti-la? Mas a melhor leitura é: “Não nos falta uma resposta para ti, nem precisamos procurá-la; viemos preparados”.

(1.) Não precisavam de tempo para refletir sobre o conteúdo da resposta, pois não hesitavam nem um pouco entre obedecer ou não. Era uma questão de vida ou morte, e pensaríamos que poderiam considerar por algum tempo antes de decidir; a vida é desejável e a morte é terrível.

Mas, quando o pecado e o dever envolvidos no caso já haviam sido determinados diretamente pela letra do segundo mandamento, e não havia espaço para duvidar do que era correto, a vida e a morte envolvidas no caso não deviam ser consideradas.

Repare: os que querem evitar o pecado não devem negociar com a tentação. Quando aquilo a que somos atraídos ou impelidos pelo medo é manifestamente mau, a proposta deve ser rejeitada com indignação e aversão, em vez de debatida. Não pare para ponderar, mas diga, como Cristo nos ensinou: “Para trás de mim, Satanás”.

(2.) Não precisavam de tempo para planejar como formular a resposta. Enquanto defendiam a causa de Deus e eram chamados a testemunhar por ela, não duvidavam de que naquela mesma hora lhes seria dado o que dizer, Mateus 10:19. Não planejavam uma resposta evasiva quando se esperava deles uma resposta direta; tampouco dariam a entender que pediam ao rei que não insistisse na questão.

Não há em sua resposta nada que pareça uma saudação formal. Não começam, como seus acusadores: “Ó rei, vive para sempre!” Não há insinuação engenhosa, ad captandam benevolentiam — para colocá-lo de bom humor —, mas tudo é claro e direto: “Ó Nabucodonosor, não estamos preocupados em responder-te”. Repare: quem faz do dever sua principal preocupação não precisa se preocupar com o desfecho.

  1. Sua confiança pela fé em Deus e sua dependência dele, v. 17. Isso lhes permitiu encarar com tamanho desprezo a morte, a morte em toda a sua pompa e em todos os seus terrores: confiaram no Deus vivo e, por essa fé, preferiram sofrer a pecar. Por isso não temeram a cólera do rei, mas perseveraram, pois pela fé tinham os olhos postos naquele que é invisível (Hebreus 11:25, 27):

“Se for assim, se formos levados a esse aperto, se tivermos de ser lançados na fornalha ardente a menos que sirvamos aos teus deuses, sabe então”:

(1.) “Que, embora não adoremos os teus deuses, não somos ateus; há um Deus a quem podemos chamar de nosso e a quem permanecemos fiéis”.

(2.) “Que servimos a esse Deus; dedicamo-nos à sua honra, ocupamo-nos em sua obra e dependemos dele para nos proteger, prover para nós e nos recompensar”.

(3.) “Que estamos inteiramente certos de que esse Deus é capaz de nos livrar da fornalha de fogo ardente. Quer ele queira fazê-lo ou não, estamos certos de que pode impedir que sejamos lançados nela ou tirar-nos de lá”.

Repare: os servos fiéis de Deus descobrirão que ele é um Senhor capaz de sustentá-los em seu serviço e de controlar e sobrepor-se a todos os poderes armados contra eles. “Senhor, se quiseres, podes”.

(4.) “Que temos razão para esperar que ele nos livre”. Em parte porque, diante de tamanha multidão de idólatras, livrá-los seria grande honra para o seu nome; em parte porque Nabucodonosor o desafiara a fazê-lo: “Quem é o Deus que os livrará?”

Deus às vezes se manifesta de modo maravilhoso para calar as blasfêmias do inimigo, assim como para responder às orações do seu povo, Salmos 74:18-22; Deuteronômio 32:27.

“Mas, se ele não nos livrar da fornalha ardente, nos livrará das tuas mãos”. Nabucodonosor só pode atormentar e matar o corpo e, depois disso, nada mais pode fazer; então eles estarão fora do seu alcance, livres das suas mãos.

Repare: bons pensamentos acerca de Deus e a plena certeza de que ele está conosco enquanto estamos com ele nos ajudarão muito a atravessar sofrimentos. Se ele é por nós, não precisamos temer o que o homem pode fazer contra nós; que faça o pior. Deus nos livrará da morte ou na morte.

  1. Sua firme decisão de permanecer fiéis aos seus princípios, qualquer que fosse a consequência (v. 18):

“Mas, se não, ainda que Deus não julgue apropriado livrar-nos da fornalha ardente (embora saibamos que ele pode fazê-lo), se permitir que caiamos em tuas mãos e morramos por tua mão, fica sabendo, ó rei, que não serviremos a esses deuses, embora sejam os teus deuses, nem adoraremos esta imagem de ouro, embora tu mesmo a tenhas erguido”.

Não se envergonham nem têm medo de professar sua religião e de dizer ao rei, em seu rosto, que não o temem nem cederão a ele. Se tivessem consultado a carne e o sangue, muito poderia ter sido dito para levá-los a obedecer, especialmente quando não havia outro meio de evitar a morte, uma morte tão terrível.

(1.) Não lhes era exigido que renegassem o seu próprio Deus ou abandonassem seu culto; nem sequer que reconhecessem, por declaração verbal, que a imagem de ouro era um deus. Bastava prostrar-se diante dela, o que poderiam fazer mantendo secretamente no coração a fidelidade ao Deus de Israel e detestando interiormente aquela idolatria, como Naamã se curvou na casa de Rimom.

(2.) Não precisariam adotar a prática contínua da idolatria. Exigia-se deles um único ato, que estaria concluído em um minuto, e o perigo teria passado; depois, poderiam declarar seu arrependimento.

(3.) O rei que ordenara isso detinha poder absoluto; estavam sujeitos a ele não apenas como súditos, mas como cativos. Se o fizessem, seria exclusivamente por coerção e constrangimento, o que serviria para desculpá-los.

(4.) Ele fora seu benfeitor, educara-os e promovera-os. Por gratidão a ele, deveriam ir tão longe quanto pudessem, mesmo que fosse preciso forçar um ponto, um ponto de consciência.

(5.) Tinham sido expulsos para uma terra estrangeira e, aos que eram expulsos assim, na prática se dizia: “Vão e sirvam a outros deuses”, 1 Samuel 26:19. Dava-se por certo que, em sua disposição, serviriam a outros deuses, e isso fazia parte do julgamento, Deuteronômio 4:28. Poderiam ser desculpados se seguissem a corrente, quando ela era tão forte.

(6.) Não tinham seus reis, seus príncipes, seus pais e, sim, até os seus sacerdotes erguido ídolos no próprio templo de Deus e os adorado ali? Não só se curvaram diante deles, mas ergueram altares, queimaram incenso e lhes ofereceram sacrifícios, até os seus próprios filhos.

Não haviam todas as dez tribos, por muitas gerações, adorado deuses de ouro em Dã e Betel? E deveriam eles ser mais rigorosos que seus pais? Communis error facit jus — o que todos fazem deve estar certo.

(7.) Se obedecessem, salvariam a vida e conservariam seus cargos; assim, estariam em condições de prestar muitos serviços aos seus irmãos na Babilônia, e por muito tempo, pois eram jovens em ascensão.

Mas aquela única palavra de Deus basta para responder a esses argumentos carnais e a muitos outros semelhantes, silenciando-os: “Não te encurvarás diante de nenhuma imagem nem as adorarás”.

Sabem que devem obedecer a Deus antes que aos homens; devem sofrer em vez de pecar e não fazer o mal para que venha o bem. Por isso, nenhuma dessas considerações os move. Decidem morrer em sua integridade em vez de viver em sua iniquidade.

Enquanto seus irmãos que ainda permaneciam em sua terra adoravam imagens por escolha, eles, na Babilônia, não se deixariam levar a isso pela força. Como se fossem bons por antiperistasis, eram ainda mais zelosos contra a idolatria em uma terra idólatra.

Na verdade, consideradas todas as coisas, terem sido guardados de ceder a esse pecado foi um milagre tão grande no reino da graça quanto terem sido salvos da fornalha ardente foi no reino da natureza. Foram eles que antes haviam decidido não se contaminar com a comida do rei; agora, com igual bravura, decidem não se contaminar com seus deuses.

Repare: uma firme fidelidade a Deus e ao dever, com abnegação nas situações menores, nos tornará aptos e nos preparará para o mesmo nas maiores. Nisso devemos ser decididos: nunca, sob pretexto algum, adorar imagens nem dizer “Uma confederação” com os que o fazem.

Os Três Hebreus na Fornalha; Libertação da Fornalha. (a.C. 587.)

Versículos 19 a 27

Nestes versículos temos:

I. Os três servos fiéis de Deus lançados na fornalha ardente.

O próprio Nabucodonosor conhecera e reconhecera tanto do Deus verdadeiro que se pensaria: embora seu orgulho e vaidade o tivessem levado a fazer e erguer essa imagem de ouro para adoração, as palavras desses jovens (que antes ele considerara mais sábios que todos os seus sábios) reavivariam suas convicções e, ao menos, o levariam a dispensá-los. Mas aconteceu justamente o contrário.

  1. Em vez de ser convencido pelo que disseram, exasperou-se e ficou ainda mais furioso, v. 19. Encheu-se de fúria, e a expressão do seu rosto mudou diante daqueles homens. Repare: quanto mais se cede às paixões grosseiras, mais violentas elas se tornam; mudam até a expressão do rosto, para grande vergonha da sabedoria e da razão humanas.

Nessa exaltação, Nabucodonosor trocou a majestade imponente de um príncipe no trono, ou de um juiz no tribunal, pela fúria assustadora de um touro selvagem preso numa rede. Se os homens dominados pela paixão olhassem o próprio rosto num espelho, corariam de sua insensatez e voltariam todo o desagrado contra si mesmos.

  1. Em vez de atenuar-lhes o castigo em consideração à sua posição e aos cargos de honra que ocupavam, ordenou que fosse aumentado. Deviam aquecer a fornalha sete vezes mais do que costumava ser aquecida para outros criminosos; isto é, pôr nela sete vezes mais combustível.

Embora isso não tornasse sua morte mais dolorosa, mas a apressasse, a intenção era mostrar que o rei considerava o crime deles sete vezes mais grave que os crimes dos outros, tornando sua morte mais vergonhosa. Mas Deus extraiu glória para si dessa demonstração insensata da ira do tirano: embora isso não tornasse a morte deles mais dolorosa, tornou sua libertação muito mais ilustre.

  1. Ordenou que fossem amarrados ainda vestidos e lançados no meio da fornalha de fogo ardente, e assim foi feito, v. 20, 21.

Foram amarrados para que não se debatessem nem resistissem; foram amarrados ainda vestidos, por causa da pressa, ou para que fossem consumidos mais lenta e gradualmente. Mas a providência de Deus determinou que isso aumentasse o milagre, pois suas roupas nem sequer ficaram chamuscadas.

Foram amarrados usando suas túnicas ou mantos, suas calças ou pantalonas e seus chapéus ou turbantes, como se, detestando o crime deles, quisessem que suas roupas fossem queimadas junto com eles. Que morte terrível seria essa: ser lançado amarrado no meio de uma fornalha de fogo ardente! v. 23. Pensar nisso faz a carne tremer e o horror apoderar-se de nós.

É espantoso que o tirano tivesse coração tão duro para aplicar tal castigo e que os confessores tivessem coração tão firme para se submeter a ele em vez de pecar contra Deus. Mas o que é isso comparado à segunda morte, àquela fornalha na qual o joio será lançado em feixes, àquele lago que arde eternamente com fogo e enxofre?

Que Nabucodonosor aqueça sua fornalha o máximo que puder: poucos minutos acabarão com o tormento dos que nela forem lançados. O fogo do inferno, porém, tortura e não mata.

A dor dos pecadores condenados é mais aguda, e a fumaça de seu tormento sobe para todo o sempre. Não têm descanso, intervalo nem cessação da dor os que adoraram a besta e sua imagem (Apocalipse 14:10, 11); ao passo que logo terminaria a dor dos que foram lançados nessa fornalha por não adorarem essa besta babilônica e sua imagem.

  1. Foi uma providência notável que os homens, aqueles homens poderosos, que os amarraram e lançaram na fornalha fossem eles mesmos consumidos ou sufocados pela chama, v. 22. A ordem do rei era urgente: deviam executá-los depressa e assegurar que o fizessem de maneira eficaz.

Por isso, decidiram ir até a própria boca da fornalha para lançá-los no meio dela; mas tinham tanta pressa que não se deram tempo de se proteger como convinha. Os acréscimos apócrifos a Daniel dizem que a chama subiu quarenta e nove côvados acima da boca da fornalha. Provavelmente Deus fez que o vento a soprasse diretamente sobre eles com tamanha violência que os sufocou.

Assim Deus defendeu imediatamente a causa de seus servos injustiçados e os vingou de seus perseguidores, a quem castigou não apenas no próprio ato do pecado, mas por meio dele. Esses homens, porém, eram apenas instrumentos da crueldade; aquele que lhes mandou fazê-lo tinha o pecado maior.

Ainda assim, sofreram com justiça por executar um decreto injusto, e é muito provável que o tenham feito com prazer e estivessem contentes por receber tal tarefa. O próprio Nabucodonosor ficou reservado para uma prestação de contas posterior.

Virá um dia em que os tiranos orgulhosos serão punidos não só pelas crueldades que cometeram, mas também por empregar nelas os que os cercam e, assim, expô-los aos juízos de Deus.

II. A libertação desses três servos fiéis de Deus da fornalha. Quando foram lançados amarrados no meio daquele fogo devorador, poderíamos concluir que não ouviríamos mais falar deles, que até seus ossos seriam calcinados. Mas, para nossa surpresa, descobrimos aqui que Sadraque, Mesaque e Abede-Nego ainda estão vivos.

  1. Nabucodonosor os encontra andando no fogo. Ficou espantado e se levantou depressa, v. 24. Talvez a morte dos homens que executaram sua sentença o tenha espantado, como seria natural, pois tinha motivo para pensar que sua vez viria em seguida.

Ou talvez alguma impressão inexplicável sobre sua mente o tenha espantado, fazendo-o levantar-se depressa e ir à fornalha para ver o que acontecera aos que havia lançado nela.

Repare: Deus pode causar espanto àqueles cujo coração mais se endureceu contra ele e contra o seu povo. Aquele que criou a alma pode fazer que sua espada a alcance, até mesmo a do maior tirano.

Espantado, ele chama os conselheiros à sua volta e lhes pergunta: “Não lançamos três homens amarrados no fogo?” Parece que isso foi feito por ordem não só do rei, mas também do conselho. Não ousaram deixar de concordar com ele, que os forçara a isso, para que compartilhassem com ele a culpa e o ódio? “É verdade, ó rei!”, dizem; “ordenamos tal execução, e ela foi realizada”.

“Mas agora”, diz o rei, “olhei para dentro da fornalha e vejo quatro homens soltos andando no meio do fogo”, v. 25.

(1.) Foram soltos de suas amarras. O fogo que nem sequer chamuscou suas roupas queimou as cordas com que estavam amarrados e os libertou. Assim, pela graça de Deus, seu povo tem o coração alargado por aquelas mesmas tribulações com as quais seus inimigos pretendiam restringi-lo e embaraçá-lo.

(2.) Não sofreram dano algum, não se queixaram, não sentiram a menor dor ou desconforto. A chama não os queimou; a fumaça não os sufocou. Estavam vivos e tão bem quanto antes no meio das chamas. Veja como o Deus da natureza pode, quando lhe apraz, controlar as forças da natureza para fazê-las servir aos seus propósitos.

Agora se cumpriu literalmente a graciosa promessa (Isaías 43:2): “Quando andares pelo fogo, não serás queimado, nem a chama se acenderá sobre ti”. Pela fé, apagam a violência do fogo, apagam os dardos inflamados do maligno.

(3.) Andavam no meio do fogo. A fornalha era grande, de modo que tinham espaço para andar; estavam ilesos, de modo que podiam andar; tinham a mente tranquila, de modo que estavam dispostos a andar como num paraíso ou jardim de delícias. Pode um homem andar sobre brasas sem queimar os pés? Provérbios 6:28.

Sim; eles o fizeram com tanto prazer quanto o rei de Tiro andava de um lado para outro no meio de suas pedras de fogo, suas pedras preciosas que brilhavam como fogo, Ezequiel 28:14. Como se viam ilesos, não se esforçavam para sair; deixavam ao Deus que os preservava no fogo a tarefa de tirá-los dali e andavam tranquilamente de um lado para outro no meio dele.

Um dos escritos apócrifos relata extensamente a oração que Azarias, um dos três, fez no fogo (na qual lamenta as calamidades e iniquidades de Israel e suplica o favor de Deus por seu povo) e o cântico de louvor que os três entoaram no meio das chamas. Ambos contêm expressões notáveis de devoção.

Mas temos razão para pensar, com Grócio, que foram compostos por algum judeu de época posterior, não como aquilo que foi usado, mas apenas como aquilo que poderia ter sido usado nessa ocasião. Por isso, com justiça os rejeitamos como parte das Sagradas Escrituras.

(4.) Um quarto foi visto com eles no fogo; sua aparência, no julgamento de Nabucodonosor, era semelhante à do Filho de Deus. Apareceu como pessoa divina, mensageiro do céu, não como servo, mas como filho. Semelhante a um anjo (assim dizem alguns); e os anjos são chamados filhos de Deus, Jó 38:7.

Na narrativa apócrifa dessa história se diz: “O anjo do Senhor desceu à fornalha”; e aqui Nabucodonosor diz (v. 28) que Deus enviou seu anjo e os livrou. Foi um anjo que fechou a boca dos leões quando Daniel estava na cova, Daniel 6:22. Alguns, porém, pensam que era o Filho eterno de Deus, o anjo da aliança, e não um anjo criado.

Ele apareceu muitas vezes em nossa natureza antes de assumi-la em sua encarnação. Nunca sua aparição foi mais oportuna, nem indicou e prenunciou de modo mais apropriado sua grande missão no mundo na plenitude dos tempos, do que agora, quando veio andar com seus escolhidos no fogo para livrá-los dele.

Repare: os que sofrem por Cristo têm sua presença graciosa consigo em seus sofrimentos, até na fornalha ardente, até no vale da sombra da morte; por isso, mesmo ali não precisam temer mal algum.

Com isso, Cristo mostrou que toma como feito contra si o que é feito contra o seu povo: quem os lança na fornalha, na prática, lança a ele também. “Eu sou Jesus, a quem tu persegues”, Isaías 63:9.

  1. Nabucodonosor os chama para fora da fornalha (v. 26). Aproxima-se da boca da fornalha de fogo ardente e manda que saiam e venham até ele. “Saiam, venham” (assim leem alguns). Fala com muita ternura e preocupação, e está pronto para estender-lhes a mão e ajudá-los a sair.

Sua preservação milagrosa o convence de que agiu mal ao lançá-los na fornalha; por isso, não os manda sair às escondidas. De maneira nenhuma; ele próprio virá buscá-los, Atos 16:37.

Observe o título respeitoso que lhes dá. Quando estava dominado pela fúria e pela ira contra eles, é provável que os tenha chamado de rebeldes, traidores e todos os nomes ruins que pudesse inventar. Agora, porém, reconhece-os como servos do Deus Altíssimo, um Deus que se mostra capaz de livrá-los de suas mãos.

Repare: mais cedo ou mais tarde, Deus convencerá até os homens mais orgulhosos de que ele é o Deus Altíssimo, acima deles e forte demais para eles, até nas questões em que agem com orgulho e presunção, Êxodo 18:11. Também lhes mostrará quem são seus servos, que os reconhece como seus e ficará ao lado deles.

Elias orou (1 Reis 18:36): “Que se saiba que tu és Deus e que eu sou teu servo”. Nabucodonosor agora acolhe aqueles que havia abandonado e se mostra solícito demais com eles, ao perceber que são favorecidos pelo Céu. Repare: quando Deus abre os olhos dos perseguidores, eles devem desfazer, até onde puderem, o que fizeram contra os servos de Deus.

Não nos é dito como se retirou o quarto, cuja aparência era semelhante à do Filho de Deus, nem se desapareceu ou ascendeu visivelmente. Quanto aos outros três, porém, somos informados:

(1.) De que saíram do meio do fogo, como Abraão, seu pai, saiu de Ur (isto é, o fogo) dos caldeus. Segundo essa tradição dos judeus, ele fora lançado ali por se recusar a adorar ídolos e dali fora livrado, assim como esses seus três filhos. Quando receberam a ordem para sair, não tentaram a Deus ficando mais tempo; saíram como tições tirados do incêndio.

(2.) De que ficou plenamente evidente, para satisfação de todos os espectadores espantados, que não sofreram o menor dano do fogo, v. 27. Todos os grandes homens se reuniram para examiná-los e constataram que nem sequer um cabelo de sua cabeça estava chamuscado.

Aqui se cumpriu literalmente o que nosso Salvador disse em sentido figurado, para assegurar a seus servos sofredores que não sofreriam dano real (Lucas 21:18): “Não perecerá um cabelo da tua cabeça”. Suas roupas nem sequer mudaram de cor ou ficaram com cheiro de fogo; muito menos seus corpos sofreram a menor queimadura ou bolha. Não, o fogo não teve poder sobre eles.

Os caldeus adoravam o fogo como uma espécie de imagem do sol. Assim, ao refrear o fogo, Deus humilhou não só o rei deles, mas também o seu deus, e mostrou que sua voz divide as chamas de fogo, assim como divide as torrentes de água (Salmos 29:7), quando lhe apraz abrir um caminho para o seu povo pelo meio delas.

Somente o nosso Deus é o fogo consumidor (Hebreus 12:29); outro fogo, se ele apenas disser uma palavra, não consumirá.

Versículos 28 a 30

Nabucodonosor Dá Glória a Deus; Nabucodonosor Honra a Deus. (a.C. 587.)

As observações cuidadosas feitas super visum corporis — ao examinarem seus corpos — pelos príncipes, governadores e todos os grandes homens presentes naquela ocasião pública, que não podiam ser considerados favoráveis aos confessores por parcialidade, muito contribuíram para confirmar esse milagre e engrandecer o poder e a graça de Deus nele.

“É manifesto que um milagre notável foi feito, e não podemos negá-lo”, Atos 4:16. Vejamos agora que efeito isso teve sobre Nabucodonosor.

I. Ele dá glória ao Deus de Israel como um Deus capaz e pronto a proteger seus adoradores (v. 28): “Bendito seja o Deus de Sadraque, Mesaque e Abede-Nego. Que receba honra tanto pela fiel lealdade que seus súditos lhe prestam quanto pela poderosa proteção que lhes concede; nenhuma dessas coisas encontra paralelo em qualquer outra nação e seus deuses”.

O próprio rei o reconhece e adora, e julga apropriado que todos o reconheçam e adorem. Bendito seja o Deus de Sadraque. Repare: Deus pode arrancar o reconhecimento de que ele é bendito até daqueles que estiveram prontos a amaldiçoá-lo na face.

  1. Dá-lhe a glória pelo seu poder: ele foi capaz de proteger seus adoradores contra os inimigos mais poderosos e malignos. “Não há outro Deus que possa livrar dessa maneira” (v. 29); nem mesmo essa imagem de ouro que ele erguera.

Por isso, nenhum outro deus obrigava seus adoradores a permanecer fiéis somente a ele e a sofrer a morte em vez de adorar outro, como fazia o Deus de Israel; pois os demais deuses não podiam prometer sustentá-los nessa decisão como ele podia. Se Deus pode operar libertação que nenhum outro pode, pode exigir obediência que nenhum outro pode exigir.

  1. Dá-lhe a glória pela sua bondade: ele estava pronto a fazê-lo (v. 28). “Enviou seu anjo e livrou seus servos”. Bel não pôde salvar seus adoradores de serem queimados à boca da fornalha; mas o Deus de Israel salvou os seus de serem queimados quando foram lançados no meio dela por se recusarem a adorar qualquer outro deus.

Com isso, Nabucodonosor recebeu uma demonstração clara de que todo o grande sucesso que tivera, e ainda teria, contra o povo de Israel, do qual se vangloriava como se tivesse vencido o Deus de Israel, se devia unicamente ao pecado desse povo.

Se o corpo daquela nação tivesse permanecido fiel ao seu próprio Deus e somente ao culto dele, como aqueles três homens permaneceram, todos teriam sido livrados das mãos de Nabucodonosor, como os três o foram. Essa era uma instrução necessária para ele naquele momento.

II. Ele aplaude a constância desses três homens em sua religião e a descreve para honrá-los, v. 28.

Ele próprio não se deixa convencer a reconhecer o Deus deles como seu Deus e a adorá-lo, porque sabe que, se o fizer, terá de adorá-lo exclusivamente e renunciar a todos os outros. Chama-o Deus de Sadraque, não meu Deus; ainda assim, elogia-os por permanecerem fiéis a ele, sem servir nem adorar qualquer outro deus além do seu.

Repare: há muitos que não são religiosos, mas reconhecem que estão claramente certos os que são religiosos e permanecem firmes em sua religião. Embora eles mesmos não se convençam a abraçá-la, elogiarão os que, depois de abraçá-la, permanecem fiéis a ela.

Se os homens vincularam seu nome ao Deus que exige ser servido exclusivamente, que mantenham seus princípios e sirvam somente a ele, custe o que custar. Tal constância na religião verdadeira redundará em louvor para os homens, até entre os de fora; por outro lado, a inconstância, a traição e a duplicidade são coisas que todos condenam. Ele os elogia por terem feito isso:

  1. Com generoso desprezo pela própria vida, à qual não deram valor em comparação com o favor de Deus e o testemunho da boa consciência. Entregaram seus próprios corpos para serem lançados na fornalha ardente, a fim de não abandonar seu Deus nem o afrontar prestando, uma única vez, a outro a homenagem devida somente a ele.

Repare: receberão louvor, se não dos homens, ao menos de Deus, os que preferem a alma ao corpo e preferem perder a vida a abandonar seu Deus. Quem não considera que vale a pena sofrer pela religião não conhece seu valor.

  1. Fizeram isso contradizendo gloriosamente seu príncipe: “Mudaram a palavra do rei”; isto é, agiram contra ela e, assim, desprezaram tanto seus preceitos quanto suas ameaças e o fizeram arrepender-se e revogar ambos.

Repare: até os próprios reis devem reconhecer que, quando suas ordens contrariam as ordens de Deus, é a ele que se deve obedecer, não a eles.

(3.) Fizeram isso com graciosa confiança em seu Deus. Confiavam que ele estaria ao lado deles naquilo que faziam, que ou os tiraria da fornalha ardente de volta ao seu lugar na terra, ou os conduziria através dela até o seu lugar no céu. Com essa confiança, deixaram de temer a cólera do rei e não fizeram caso da própria vida. Repare: uma fé firme em Deus produzirá uma fidelidade firme a Deus.

Podemos pensar que esse testemunho honroso, prestado assim publicamente pelo próprio rei a esses servos de Deus, exerceria boa influência sobre os demais judeus que eram, ou viriam a ser, cativos na Babilônia.

Seus vizinhos não poderiam, com qualquer convicção, pressioná-los a fazer aquilo por cuja recusa seus irmãos haviam sido tão elogiados pelo próprio rei; nem os próprios judeus poderiam fazê-lo sem vergonha.

Mais ainda, o que Deus fez por esses seus servos ajudaria não só a manter os judeus fiéis à sua religião durante o cativeiro, mas também a curá-los da inclinação à idolatria, propósito para o qual foram enviados ao cativeiro. Quando isso tivesse produzido neles esse efeito bendito, poderiam estar certos de que Deus os livraria daquela fornalha, como agora livrara seus irmãos desta.

III. Ele publica um decreto real que proíbe rigorosamente qualquer pessoa de falar mal do Deus de Israel, v. 29. Temos razão para pensar que tanto os pecados quanto as aflições de Israel deram aos caldeus grande ocasião, embora não uma ocasião justa, para blasfemar contra o Deus de Israel; e é provável que o próprio Nabucodonosor os tivesse incentivado a isso.

Mas agora, embora não seja um convertido verdadeiro nem tenha sido levado a adorá-lo, decide nunca mais falar mal dele nem permitir que outros o façam:

“Quem disser algo errado, algum erro (assim leem alguns), ou melhor, alguma ofensa ou blasfêmia; quem falar com desprezo do Deus de Sadraque, Mesaque e Abede-Nego será contado entre os piores criminosos e tratado de acordo: será despedaçado, como Agague pela espada de Samuel, e sua casa será demolida e transformada em monturo”.

O milagre que o poder desse Deus acabara de operar em defesa de seus adoradores, publicamente, diante dos milhares da Babilônia, justificava suficientemente esse decreto. Ele contribuiria muito para aliviar os judeus no cativeiro: por essa lei, seriam protegidos dos dardos inflamados do insulto e da blasfêmia, que de outro modo os atingiriam sem cessar.

Repare: é grande misericórdia para a igreja e uma boa conquista quando seus inimigos, embora não tenham o coração transformado, têm a boca fechada e a língua presa. Se um príncipe pagão impôs tal restrição aos lábios orgulhosos dos blasfemadores, com muito mais razão deveriam fazê-lo os príncipes cristãos.

Ou melhor, nessa questão, pensaríamos que os homens deveriam ser uma lei para si mesmos. Mesmo os que têm tão pouco amor por Deus que não se importam em falar bem dele ainda assim não encontrariam em seu coração — pois temos certeza de que jamais encontrariam motivo — disposição para falar mal dele.

IV. Ele não apenas revoga a condenação desses três homens, mas os restitui aos seus cargos no governo (“faz que prosperem”, como diz a palavra) e os promove a funções de confiança maiores e mais vantajosas do que ocupavam antes. Promoveu-os na província da Babilônia, para grande honra deles e consolo de seus irmãos cativos ali.

Repare: é sábio da parte dos príncipes promover e empregar homens firmes na religião, pois os que são fiéis a Deus são os mais propensos a ser fiéis a eles; e é provável que lhes vá bem quando os favorecidos de Deus se tornam também favorecidos seus.


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