Daniel 2
Argumento
Foi dito (Daniel 1:17) que Daniel tinha entendimento em sonhos; e aqui temos uma demonstração precoce e notável disso, que logo o tornou famoso na corte da Babilônia, assim como José, pelo mesmo meio, se tornou famoso na corte do Egito.
Este capítulo é uma história, mas é a história de uma profecia, por meio de um sonho e de sua interpretação.
O sonho de Faraó e a interpretação que José lhe deu diziam respeito apenas aos anos de fartura e fome e ao interesse do Israel de Deus neles; mas o sonho de Nabucodonosor aqui, e a interpretação que Daniel lhe deu, apontam para coisas muito mais elevadas: as quatro monarquias, os interesses de Israel nelas e o reino do Messias, que seria estabelecido no mundo sobre as ruínas delas.
Neste capítulo temos:
I. A grande perplexidade em que Nabucodonosor foi lançado por um sonho que havia esquecido e sua ordem aos magos para que lhe dissessem qual tinha sido o sonho, algo que eles não podiam alegar ser capazes de fazer, vv. 1-11.
II. As ordens dadas para destruir todos os sábios da Babilônia, entre eles Daniel e seus companheiros, vv. 12-15.
III. A revelação desse segredo a Daniel em resposta à oração e as ações de graças que ele então ofereceu a Deus, vv. 16-23.
IV. Sua admissão à presença do rei e a revelação que lhe fez tanto do sonho quanto de sua interpretação, vv. 24-45.
V. A grande honra que Nabucodonosor concedeu a Daniel em recompensa por esse serviço e os cargos concedidos a seus companheiros junto com ele, vv. 46-49.
Versículos 1 a 13
O Sonho Esquecido de Nabucodonosor. (a.C. 603.)
Encontramos uma grande dificuldade na data desta história: diz-se que ocorreu no segundo ano do reinado de Nabucodonosor, v. 1. Ora, Daniel foi levado à Babilônia no primeiro ano dele e, ao que parece, passou três anos sob tutores e governadores antes de ser apresentado ao rei, Daniel 1:5. Como, então, isso poderia ter acontecido no segundo ano?
Talvez, embora três anos tivessem sido destinados à educação dos outros jovens, Daniel estivesse tão adiantado que foi chamado ao serviço quando havia passado apenas um ano na escola e, assim, no segundo ano se tornou tão importante. Alguns entendem que era o segundo ano depois que começou a reinar sozinho, mas o quinto ou sexto desde que começou a reinar em parceria com seu pai.
Alguns leem assim: e no segundo ano (o segundo depois que Daniel e seus companheiros compareceram perante o rei) do reino de Nabucodonosor, ou do seu reinado, isso aconteceu. Assim como José, no segundo ano depois de demonstrar sua habilidade com sonhos, revelou e explicou o de Faraó, Daniel, no segundo ano depois de se tornar mestre nessa arte, prestou este serviço.
Eu preferiria de longe entender o texto de alguma dessas maneiras a supor, como fazem alguns, que era o segundo ano depois que ele conquistara o Egito, o trigésimo sexto de seu reinado. Pois, pelo que encontramos em Ezequiel, parece que Daniel era famoso por sua sabedoria e pela eficácia de suas orações muito antes disso.
Portanto, este episódio, ou história, que mostra como ele se tornou tão notável em ambas as coisas, precisa ser situado no início do reinado de Nabucodonosor. Agora podemos observar:
I. A perplexidade em que Nabucodonosor se encontrava por causa de um sonho que tivera, mas havia esquecido (v. 1): ele sonhou sonhos, isto é, um sonho composto de diversas partes distintas, ou que lhe ocupou a cabeça tanto quanto se fossem muitos sonhos. Salomão fala de uma multidão de sonhos, estranhamente desconexos, nos quais há diversas vaidades, Eclesiastes 5:7.
O sonho de Nabucodonosor, em si, não tinha nada que não pudesse encontrar paralelo em muitos sonhos comuns, nos quais frequentemente se apresentam aos homens coisas tão estranhas quanto as aqui mencionadas. Mas havia algo na impressão que o sonho lhe causou que trazia consigo uma prova incontestável de sua origem divina e de seu significado profético.
Repare: os maiores homens não estão livres dos cuidados e inquietações da mente que lhes perturbam o repouso durante a noite; antes, estão mais expostos a eles, enquanto o sono do trabalhador é doce e profundo, e o do homem sóbrio e moderado é livre de sonhos confusos.
A abundância dos ricos não os deixa dormir por causa das preocupações, e os excessos dos glutões e bêbados não os deixam dormir tranquilamente por causa dos sonhos.
Mas o que se registra aqui não vinha de causas naturais. Nabucodonosor perturbava o Israel de Deus, mas aqui Deus o perturbou; pois aquele que fez a alma pode fazer sua espada chegar até ela. Ele tinha guardas ao seu redor, mas estes não podiam impedir que a inquietação atingisse seu espírito.
Não conhecemos o desassossego de muitos que vivem com grande pompa e, ao que se pensaria, também com prazer. Olhamos para dentro de suas casas e somos tentados a invejá-los; mas, se pudéssemos olhar para dentro de seus corações, antes sentiríamos pena deles.
Todos os tesouros e todos os prazeres dos filhos dos homens, sobre os quais esse poderoso monarca tinha domínio, não lhe puderam obter um pouco de repouso quando, por causa da perturbação de sua mente, seu sono o abandonou. Mas Deus dá sono aos seus amados, que voltam a ele como seu descanso.
II. A prova a que submeteu seus magos e astrólogos, para ver se podiam dizer qual era o sonho que havia esquecido. Foram chamados imediatamente para mostrar ao rei os seus sonhos, v. 2. Há muitas coisas das quais conservamos as impressões, mas perdemos as imagens; embora não possamos dizer do que se tratava, sabemos como fomos afetados. Assim se deu com esse rei.
O sonho lhe escapara da mente, e de modo algum conseguia recordá-lo, mas estava certo de que o reconheceria se o ouvisse novamente. Deus assim determinou para que Daniel recebesse maior honra e, nele, o Deus de Daniel. Repare: Deus às vezes cumpre seus propósitos tanto fazendo coisas sair da mente dos homens quanto colocando coisas nela.
Os magos provavelmente se orgulharam de ser chamados ao quarto do rei, para lhe dar uma amostra de seu ofício, sem duvidar de que isso lhes traria honra. Ele lhes diz que tivera um sonho, v. 3. Eles lhe falam em língua siríaca, que então era a mesma que a caldeia, embora hoje sejam muito diferentes.
Daí em diante Daniel usa essa língua, ou dialeto do hebraico, pelo mesmo motivo pelo qual as palavras de Jeremias 10:11 estão nessa língua: destinavam-se a convencer os caldeus da insensatez de sua idolatria e a conduzi-los ao conhecimento e à adoração do Deus verdadeiro e vivo, objetivo para o qual as histórias destes capítulos tendem diretamente.
Mas Daniel 8 e os capítulos seguintes, destinados ao consolo dos judeus, foram escritos na língua própria deles. Em sua resposta, os magos saudaram o rei com votos de felicidade, pediram que lhes contasse o sonho e se comprometeram, com toda a segurança possível, a interpretá-lo, v. 4.
O rei, porém, insistiu em que lhe dissessem o próprio sonho, pois o havia esquecido e não podia contá-lo a eles. Se não conseguissem fazê-lo, todos seriam mortos como enganadores (v. 5), despedaçados, e suas casas seriam transformadas em monturos. Se conseguissem, seriam recompensados e elevados a cargos, v. 6.
Eles sabiam, como Balaão sabia a respeito de Balaque, que o rei podia promovê-los a grandes honras e dar-lhes aquele salário da injustiça que, como Balaão, tanto amavam. Sem dúvida, portanto, fariam o máximo para agradar ao rei; se não o fizessem, não seria por falta de boa vontade, mas por falta de poder.
A Providência dispôs assim para que os magos da Babilônia fossem agora tão confundidos e envergonhados quanto os magos do Egito haviam sido antigamente. Por mais que seu povo fosse difamado e desprezado tanto no Egito quanto na Babilônia, seus oráculos seriam magnificados e honrados em ambos os lugares, ao serem silenciados os que se punham em disputa com eles.
Os magos, tendo a razão do seu lado, insistem que o rei lhes conte o sonho; então, se não lhe disserem a interpretação, a culpa será deles, v. 7. Mas o poder arbitrário é surdo à razão. O rei se enfurece, dirige-lhes palavras duras e, sem nenhuma aparência de motivo, suspeita que poderiam contar-lhe o sonho, mas não queriam.
Em vez de censurá-los por sua incapacidade e pela insuficiência de sua arte, como poderia justamente ter feito, acusa-os de conspirar para afrontá-lo: “Preparastes palavras mentirosas e corruptas para falar diante de mim”. Quão descabida e absurda é essa acusação!
Se eles se tivessem comprometido a dizer qual era o sonho e o tivessem iludido com uma farsa, ele poderia acusá-los de palavras mentirosas e corruptas. Mas dizer isso quando confessavam honestamente apenas sua própria fraqueza mostra quanto são irracionais as paixões a que se dá livre curso.
Mostra também como os grandes homens tendem a pensar que é sua prerrogativa seguir seus caprichos em desafio à razão, à equidade e a tudo quanto ambas ditam. Quando os magos lhe rogaram que lhes contasse o sonho, embora o pedido fosse inteiramente razoável e justo, ele lhes disse que apenas o enrolavam para ganhar tempo (v. 8), até que a situação mudasse (v. 9).
Ou esperavam que o desejo do rei de conhecer o sonho passasse e que ele se tornasse indiferente a saber ou não, embora agora estivesse tão obstinado nisso; ou que ele tivesse esquecido tão completamente o sonho (cujas sombras restantes lhe escapavam rapidamente enquanto tentava agarrá-las) que pudessem contar-lhe o que quisessem e fazê-lo crer que aquele era o sonho.
Quando aquilo que estava desaparecendo tivesse sumido por completo de sua mente, como aconteceria em pouco tempo, ele não poderia desmenti-los. Por isso, sem demora, tinham de lhe contar o sonho. Em vão alegam:
- Que não há homem na terra capaz de recuperar o sonho do rei, v. 10. Existem regras estabelecidas para descobrir o significado de um sonho; se elas funcionam ou não, essa é a questão. Mas nunca se propôs regra alguma para descobrir qual tinha sido o sonho; eles não podem trabalhar sem ter algo sobre o que trabalhar.
Reconhecem que os deuses podem, de fato, declarar ao homem o seu pensamento (Amós 4:13), pois Deus conhece os nossos pensamentos de longe (Salmos 139:2): o que serão antes que os pensemos, o que são quando não lhes damos atenção e o que foram depois que os esquecemos.
Mas aqueles que podem fazer isso são deuses que não habitam com a carne (v. 11), e somente eles podem fazê-lo.
Quanto aos homens, sua morada é com a carne; os mais sábios e os maiores dentre eles estão encobertos por um véu de carne que obstrui e confunde por completo todo o conhecimento que têm dos espíritos, bem como dos poderes e operações destes. Os deuses, porém, sendo eles próprios espírito puro, sabem o que há no homem.
Vejam aqui uma prova da ignorância desses magos: falam de muitos deuses, quando há apenas um, e pode haver apenas um, que é infinito. Vejam, contudo, o que sabem daquilo que até a luz da natureza ensina e as obras da natureza comprovam: existe um Deus que é Espírito e conhece perfeitamente os espíritos dos homens e todos os seus pensamentos, algo que nenhum homem é capaz de fazer.
Essa confissão da onisciência divina é arrancada desses idólatras para honra de Deus e condenação deles próprios. Embora soubessem que há um Deus no céu, a quem todos os corações estão abertos, todos os desejos são conhecidos e de quem nenhum segredo está oculto, ofereciam orações e louvores a ídolos mudos, que têm olhos e não veem, ouvidos e não ouvem.
- Que não há rei na terra que esperasse ou exigisse semelhante coisa, v. 10. Isso indica que eram reis, senhores e potentados, e não gente comum, aqueles com quem os magos mais lidavam e a cujo serviço se dedicavam, enquanto os oráculos de Deus e o evangelho de Cristo são dispensados aos pobres.
Reis e potentados muitas vezes exigiram coisas irracionais de seus súditos, mas eles pensam que nenhum jamais exigiu algo tão irracional quanto isso e, portanto, esperam que sua majestade imperial não insista na exigência. Mas tudo é em vão: quando a paixão ocupa o trono, a razão é pisada. “Ele se irou e muito se enfureceu”, v. 12.
Repare: é muito comum que aqueles que não querem ser convencidos pela razão sejam provocados e exasperados por ela e levem adiante com fúria aquilo que não podem sustentar pela equidade.
III. A condenação imposta a todos os magos da Babilônia. Há um só decreto para todos eles (v. 9); todos são condenados, sem exceção nem distinção. O decreto foi promulgado: cada um deles devia ser morto (v. 13), sem excluir Daniel e seus companheiros, embora nada soubessem do assunto. Vejam aqui:
Como costumam ser injustos os procedimentos do poder arbitrário. Nabucodonosor aparece aqui como um tirano em suas verdadeiras cores, decretando a morte quando não consegue dizer algo sensato e tratando como traidores homens cuja única falta é querer servi-lo sem poder fazê-lo.
Qual costuma ser a justa punição dos impostores. Por mais injusto que Nabucodonosor fosse nessa sentença, no que dizia respeito aos líderes da impostura, Deus era justo. Os que iludiam os homens, alegando fazer o que não podiam, são agora condenados à morte por não conseguir fazer o que não alegavam poder fazer.
Versículos 14 a 23
O Sonho Revelado a Daniel; As Ações de Graças de Daniel. (a.C. 603.)
Quando o rei mandou chamar seus sábios para que lhe contassem o sonho e sua interpretação (v. 2), Daniel, ao que parece, não foi convocado a comparecer entre eles.
Embora o rei tivesse ficado muito satisfeito com ele quando o examinou e o considerasse dez vezes mais sábio que os demais sábios, esqueceu-se dele justamente quando mais precisava dele; e não surpreende, pois tudo foi feito às pressas, sem reflexão calma e deliberada.
Mas a Providência assim o dispôs, para que a perplexidade dos magos chamasse mais atenção e, assim, maior glória coubesse ao Deus de Daniel. Embora Daniel não tivesse recebido a honra de ser consultado com os demais sábios, contrariando toda lei e justiça, uma sentença indiscriminada o condenou com eles. Até receber aviso para se preparar para a execução, ele nada sabia do assunto.
Quão miserável é a condição dos que vivem sob um governo arbitrário, como o de Nabucodonosor! Quão felizes somos nós, cujas vidas estão sob a proteção da lei e dos procedimentos da justiça, e não ficam assim à mercê de um príncipe irritadiço e caprichoso!
Já vimos, em Ezequiel, que Daniel era famoso tanto pela prudência quanto pela oração; como príncipe, tinha poder diante de Deus e dos homens. Pela oração, tinha poder diante de Deus; pela prudência, tinha poder diante dos homens, e em ambas prevalecia. Assim encontrou favor e boa reputação diante de ambos; e nestes versículos temos um exemplo notável das duas coisas.
I. Daniel, pela prudência, sabia lidar com os homens e prevaleceu com eles. Quando Arioque, capitão da guarda encarregado de matar todos os sábios da Babilônia, todo o colégio deles, prendeu Daniel (pois a espada da tirania, como a da guerra, devora a uns e a outros), ele “respondeu com conselho e sabedoria” (v. 14).
Não se deixou dominar pela cólera nem censurou o rei como injusto e bárbaro; muito menos maquinou alguma resistência. Em vez disso, perguntou com brandura: “Por que é tão apressado o decreto?”, v. 15.
Os outros sábios haviam insistido em que seria absolutamente impossível satisfazer a exigência do rei, o que só o tornara mais furioso; Daniel, porém, se dispôs a dar-lhe toda a satisfação desejada, desde que lhe fosse concedido um pouco de tempo, v. 16.
O rei, percebendo agora seu erro em não ter mandado chamar Daniel mais cedo e começando a se lembrar do caráter dele, logo se deixou persuadir a suspender a sentença e pôr Daniel à prova.
Repare: o meio mais promissor de desviar a ira, até a ira de um rei, que é como mensageiro da morte, é uma resposta branda, é aquela submissão que apazigua grandes ofensas. Assim, embora onde está a palavra de um rei haja poder, até essa palavra pode ser repelida, e isso de modo a ser revogada.
É assim que alguns leem aqui (v. 14): Então Daniel respondeu e sustou, por intermédio de Arioque, o chefe dos oficiais do rei, o conselho e o decreto.
II. Daniel sabia ter comunhão com Deus pela oração e encontrou favor diante dele, tanto na súplica quanto nas ações de graças, que são as duas partes principais da oração. Observe:
- Sua humilde súplica por esta misericórdia: que Deus lhe revelasse qual era o sonho do rei e sua interpretação. Tendo conseguido tempo, ele não foi consultar os demais sábios para saber se havia alguma coisa em sua arte ou em seus livros que pudesse ser útil nesse assunto.
Foi, antes, para sua casa, para estar a sós com Deus, pois somente dele, que é o Pai das luzes, esperava esse grande dom. Observe:
(1.) Ele não apenas orou pessoalmente por essa descoberta, mas também convocou seus companheiros a orar por ela. Comunicou o assunto àqueles que haviam sido seus amigos íntimos e associados todo esse tempo, pedindo-lhes que suplicassem a misericórdia de Deus quanto a esse segredo, vv. 17-18.
Embora Daniel provavelmente fosse mais velho e os superasse em todos os aspectos, chamou-os a participar com ele dessa questão. Vis unita fortior — A união das forças produz uma força maior. Veja Ester 4:16.
Repare: amigos que oram são amigos valiosos. É bom ter intimidade e vínculo com aqueles que têm comunhão com Deus e acesso ao trono da graça. Convém até aos maiores e melhores homens pedir a ajuda das orações de outras pessoas em favor deles. São Paulo muitas vezes roga aos amigos que orem por ele. Assim devemos mostrar que damos valor aos nossos amigos, à oração e às orações deles.
(2.) Ele foi específico nessa oração, mas tinha os olhos postos na misericórdia geral de Deus e dependia dela: pedissem “as misericórdias do Deus do céu acerca deste segredo”, v. 18. Na oração, devemos olhar para Deus como o Deus do céu: um Deus acima de nós, que tem domínio sobre nós, a quem devemos adoração e lealdade; um Deus poderoso, capaz de fazer todas as coisas.
Nosso Salvador nos ensinou a orar a Deus como nosso Pai no céu. E, seja qual for o bem pelo qual oremos, devemos depender das misericórdias de Deus para recebê-lo e desejar ter parte nelas. Não podemos esperar nada como recompensa pelos nossos méritos, mas tudo como dádiva das misericórdias divinas.
Eles pediram misericórdia quanto a esse segredo. Repare: tudo o que é assunto de nossa preocupação deve ser assunto de nossa oração; devemos pedir misericórdia a Deus quanto a esta e àquela coisa que nos causa inquietação e temor. Deus nos permite falar com ele humilde e livremente e, na oração, expor em detalhe nossas carências e nossos fardos.
As coisas secretas pertencem ao Senhor, nosso Deus; portanto, se precisarmos de alguma misericórdia referente a um segredo, é a ele que devemos recorrer. Embora não possamos orar com fé por milagres, podemos orar com fé àquele que tem todos os corações em sua mão e que, em sua providência, faz maravilhas sem milagres.
Podemos pedir-lhe que revele aquilo que está fora de nossa vista e nos conceda aquilo que está fora de nosso alcance, na medida em que isso seja para sua glória e nosso bem, crendo que nada lhe está oculto, nada lhe é difícil.
(3.) O argumento que apresentaram a Deus era o perigo iminente em que se encontravam. Pediram misericórdia nessa questão para que Daniel e seus companheiros não perecessem com o restante dos sábios da Babilônia, para que os justos não fossem destruídos com os ímpios.
Repare: quando a vida de homens bons e úteis está em perigo, é tempo de rogar com fervor a Deus que tenha misericórdia deles, como se fez por Pedro na prisão, Atos 12:5.
(4.) A misericórdia pela qual Daniel e seus companheiros oraram lhes foi concedida. O segredo foi revelado a Daniel numa visão noturna, v. 19. Alguns pensam que, enquanto dormia, ele teve o mesmo sonho que Nabucodonosor tivera.
Parece, antes, que, estando acordado, perseverando fervorosamente na oração e vigiando nela, o próprio sonho e sua interpretação lhe foram comunicados pelo ministério de um anjo, para sua plena satisfação.
Repare: a oração fervorosa e eficaz dos justos pode muito. Há mistérios e segredos nos quais a oração nos permite penetrar; com essa chave se abrem os tesouros do céu, pois Cristo disse: batam assim, e lhes será aberto.
- Suas agradecidas ações de graças por essa misericórdia, depois de recebê-la: então Daniel bendisse o Deus do céu, v. 19. Não esperou até contar o sonho ao rei e ver se este reconheceria que era mesmo o seu; estava certo de que era e de que havia alcançado seu objetivo. Por isso, transformou imediatamente suas orações em louvores.
Assim como orara com plena certeza de que Deus faria isso por ele, deu graças com plena certeza de que Deus já o havia feito; e, nas duas coisas, tinha os olhos voltados para Deus como o Deus do céu. Sua oração não foi registrada, mas suas ações de graças foram. Observe:
(1.) A honra que dá a Deus nessas ações de graças, o que procura fazer com grande variedade e abundância de expressões: “Bendito seja o nome de Deus para todo o sempre”. Há em Deus algo eterno que deve ser bendito e louvado; nele isso é imutável e eterno.
E ele deve ser bendito para todo o sempre; assim como o objeto do louvor é a perfeição eterna de Deus, a atividade de louvá-lo continuará para sempre.
[1.] Ele dá a Deus a glória pelo que Deus é em si mesmo: “A sabedoria e a força são dele”; sabedoria e coragem, segundo alguns. Tudo o que convém fazer, ele fará; tudo o que quiser fazer, pode fazer, ousa fazer e certamente fará da melhor maneira, pois possui sabedoria infinita para planejar e conceber e poder infinito para executar e realizar.
Com ele estão a força e a sabedoria, que nos homens muitas vezes se acham separadas.
[2.] Ele dá a Deus a glória pelo que Deus é para o mundo dos homens. Deus exerce influência e ação universais sobre todos os filhos dos homens, sobre todos os seus atos e assuntos.
Os tempos mudam? Muda a situação dos acontecimentos? Tudo está sujeito à mudança? É Deus quem muda os tempos, as estações e a aparência de ambos. Nenhuma mudança acontece por acaso, mas segundo a vontade e o conselho de Deus.
Os que eram reis são removidos e depostos? Abdicam? São postos de lado? É Deus quem remove reis. Os pobres são levantados do pó para se assentarem entre os príncipes? É Deus quem estabelece reis. Fazer e desfazer reis é uma flor da coroa daquele que é a fonte de todo poder, Rei dos reis e Senhor dos senhores.
Há homens que superam os outros em sabedoria, filósofos e estadistas que pensam acima do comum, homens contemplativos e penetrantes? É Deus quem dá sabedoria aos sábios, reconheçam-no eles ou não. Não a têm por si mesmos; ele dá conhecimento aos que possuem entendimento.
Isso é um bom motivo para não nos orgulharmos de nosso conhecimento, para servirmos e honrarmos a Deus com ele e para fazermos do conhecimento de Deus a nossa ocupação.
[3.] Ele dá a Deus a glória por esta descoberta particular. Louva-o, primeiro, porque podia dar a conhecer tal segredo (v. 22): “Ele revela as coisas profundas e secretas”, ocultas aos olhos de todos os viventes. Foi ele quem revelou ao homem o que é a verdadeira sabedoria quando ninguém mais podia fazê-lo (Jó 28:27-28); é ele quem revela as coisas futuras a seus servos e profetas.
Ele próprio discerne e distingue perfeitamente o que é ocultado com o maior cuidado e empenho, pois trará a juízo toda coisa secreta; a verdade ficará evidente no grande dia. Ele sabe o que há nas trevas e o que se faz nelas, pois as trevas não lhe encobrem nada, Salmos 139:11-12.
“A luz habita com ele”, e ele habita na luz (1 Timóteo 6:16); contudo, no que diz respeito a nós, faz das trevas o seu pavilhão. Alguns entendem por isso a luz da profecia e da revelação divina, que habita com Deus e dele procede; pois ele é o Pai das luzes, de todas as luzes: todas têm nele sua morada.
Em segundo lugar, louva-o por ter-lhe proporcionado essa descoberta. Aqui contempla Deus como o Deus de seus pais; pois, embora os judeus estivessem agora cativos na Babilônia, eram amados por causa dos pais. Louva a Deus, fonte da sabedoria e da força, pela sabedoria e pela força que lhe dera: sabedoria para conhecer esse grande segredo e força para suportar a revelação.
Repare: toda sabedoria e força que possuímos devem ser reconhecidas como dádivas de Deus. “Tu me fizeste saber”, v. 23. Aquilo que foi ocultado dos célebres caldeus, que tinham por profissão interpretar sonhos, é revelado a Daniel, judeu cativo, uma criança, muito mais novo que eles.
Deus quis, assim, conferir honra ao Espírito de profecia justamente quando lançava desprezo sobre o espírito de adivinhação. Daniel foi tão grato a Deus por lhe revelar aquilo que salvava sua vida e a dos companheiros? Temos muito mais motivos para agradecer a Deus por nos revelar a grande salvação da alma: a nós, e não ao mundo; a nós, e não aos sábios e entendidos.
(2.) O respeito que demonstra por seus companheiros nessas ações de graças. Embora essa descoberta tenha sido obtida principalmente por suas orações e tenha sido feita a ele, reconhece que seus companheiros participaram tanto da súplica (“o que te pedimos”) quanto do benefício: “Tu nos fizeste saber o negócio do rei”.
Ou estavam presentes quando a descoberta foi comunicada a Daniel, ou ele a contou assim que a recebeu (heureka, heureka — achei, achei!), para que aqueles que o tinham ajudado com suas orações pudessem ajudá-lo com seus louvores.
Ao incluí-los, ele dá exemplo de humildade e modéstia, que convêm aos que são admitidos à comunhão com Deus. Assim São Paulo às vezes inclui Silvano, Timóteo ou algum outro ministro consigo nas saudações iniciais de muitas de suas epístolas.
Repare: devemos estar dispostos a repartir com nossos irmãos a honra que Deus nos concede.
Versículos 24 a 30
O Sonho de Nabucodonosor. (a.C. 603.)
Temos aqui a introdução ao relato de Daniel sobre o sonho e sua interpretação.
I. Ele tratou imediatamente de obter a revogação da sentença contra os sábios da Babilônia, v. 24. Foi depressa até Arioque para lhe dizer que a ordem que recebera já estava sem efeito: “Não destruas os sábios da Babilônia”.
Embora talvez houvesse entre eles alguns que, como magos, merecessem morrer segundo a lei de Deus, aquilo pelo qual estavam condenados não era crime merecedor de morte nem de prisão. Portanto, não os deixem morrer e ser destruídos injustamente; deixem-nos viver e ser justamente envergonhados, pois haviam ficado perplexos e incapazes de fazer aquilo que um profeta do Senhor conseguia fazer.
Repare: visto que Deus mostra bondade comum aos maus e aos bons, também nós devemos fazê-lo e estar prontos a salvar a vida até de homens maus, Mateus 5:45. Um homem bom é um bem comum. A Paulo, no navio, Deus deu a vida de todos os que navegavam com ele; foram salvos por causa dele.
A Daniel se devia a preservação de todos os sábios, que, apesar disso, não corresponderam ao benefício que receberam, Daniel 3:8.
II. Ele se ofereceu, com grande confiança, para ir ao rei e contar-lhe o sonho e sua interpretação, e foi admitido conforme pedira, vv. 24-25. Arioque o levou apressadamente ao rei, esperando conquistar as boas graças deste ao apresentar Daniel. Alegou que o havia procurado para interpretar o sonho do rei, quando na verdade o procurara para executar nele a sentença real.
Mas o ofício dos cortesãos é satisfazer o príncipe de todas as maneiras e tornar bem-aceitos os próprios serviços.
III. Aproveitou a ocasião para, tanto quanto possível, envergonhar os magos e honrar a Deus. O rei reconheceu que era uma iniciativa ousada e duvidou de que Daniel pudesse cumpri-la (v. 26): “És capaz de me dar a conhecer o sonho?” Como! Uma criança nesse conhecimento, um rapaz tão novo como você, se encarregará daquilo que os mais velhos perderam a esperança de fazer?
Quanto menos provável parecia ao rei que Daniel o conseguisse, mais Deus era glorificado ao capacitá-lo a isso.
Repare: ao transmitir a revelação divina aos filhos dos homens, Deus costuma servir-se das coisas e pessoas fracas e loucas do mundo, e daquelas que eram desprezadas e consideradas sem esperança, para confundir os sábios e poderosos, a fim de que a excelência do poder seja dele, 1 Coríntios 1:27-28.
Daniel aproveita a ocasião:
- Para desiludir o rei quanto aos magos e adivinhos, dos quais esperara tanto (v. 27): “Este segredo eles não podem mostrar ao rei; está fora do poder deles; as regras de sua arte não alcançam isso. Portanto, o rei não deve irar-se com eles por não fazerem o que não podem; antes, deve desprezá-los e rejeitá-los, porque não podem fazê-lo”.
Broughton traduz de forma geral: “Este segredo nenhum sábio, astrólogo, encantador ou examinador de entranhas pode mostrar ao rei; portanto, o rei não deve mais consultá-los”.
Repare: a experiência que temos da incapacidade de todas as criaturas para nos satisfazer deve diminuir nossa estima por elas e reduzir o que esperamos delas. Elas veem suas pretensões frustradas; nós vemos frustradas as esperanças que nelas depositamos.
Até aqui chegam, e não mais longe. Digamos-lhes, portanto, como Jó a seus amigos: “Agora vocês não são nada; todos vocês são consoladores miseráveis”.
- Para conduzi-lo ao conhecimento do único Deus vivo e verdadeiro, o Deus a quem Daniel adorava: “Embora eles não possam descobrir o segredo, o rei não deve perder a esperança de vê-lo descoberto, pois há um Deus no céu que revela segredos”, v. 28.
Repare: a insuficiência das criaturas deve nos levar à suficiência plena do Criador. Há um Deus no céu, e é bom para nós que haja, capaz de fazer por nós e de nos dar a conhecer aquilo que ninguém na terra pode, em especial a história secreta da obra da redenção e os desígnios secretos do amor de Deus para conosco nela, o mistério oculto desde séculos e gerações.
A revelação divina nos socorre onde a razão humana nos deixa completamente sem resposta e dá a conhecer esse mistério não apenas aos reis, mas também aos pobres deste mundo. Nenhum filósofo ou político dos pagãos, com todos os seus oráculos e artes divinatórias, jamais poderia alegar que nos tivesse lançado alguma luz sobre ele, Romanos 16:25-26.
IV. Confirmou ao rei sua opinião de que o sonho cuja lembrança tanto se empenhava em recuperar realmente merecia ser investigado: tinha grande valor e vasta importância.
Não era um sonho comum, o passatempo vão de uma imaginação brincalhona e exuberante, que não valeria a pena recordar ou contar de novo, mas uma revelação divina, um raio de luz lançado em sua mente do mundo superior, referente aos grandes assuntos e às revoluções deste mundo inferior.
Nele, Deus deu a conhecer ao rei o que aconteceria nos últimos dias (v. 28), isto é, nos tempos futuros, alcançando até o estabelecimento do reino de Cristo no mundo, que se daria nos últimos dias, Hebreus 1:2. E, outra vez (v. 29): “Os pensamentos que te vieram à mente não eram repetições do que já acontecera, como costumam ser nossos sonhos”:
Omnia quæ sensu volvuntur vota diurno
Tempore sopito reddit amica quies —
Os sentimentos que alimentamos ao longo do dia
Muitas vezes se misturam ao agradável sono da noite.
Claudiano.
“Mas eram predições do que aconteceria no futuro, que aquele que revela segredos te dá a conhecer. Portanto, tens razão em acolher a indicação e investigá-la desse modo”.
Repare: as coisas que acontecerão no futuro são coisas secretas que somente Deus pode revelar. E o que ele revelou sobre elas, especialmente quanto aos últimos dias de todos, ao fim dos tempos, deve ser investigado e considerado com muita seriedade e diligência por cada um de nós.
Alguns pensam que os pensamentos que, segundo se diz, vieram à mente do rei em sua cama a respeito do que aconteceria no futuro eram pensamentos que ele tivera quando estava acordado.
Pouco antes de adormecer e sonhar esse sonho, meditava consigo mesmo sobre qual seria o resultado de sua grandeza crescente, no que seu reino se transformaria futuramente; assim, o sonho foi resposta a esses pensamentos.
Deus prepara desse modo os homens para as revelações que pretende fazer.
V. Declara solenemente que não podia alegar ter merecido de Deus o favor dessa revelação nem tê-la obtido por alguma perspicácia própria (v. 30): “Quanto a mim, este segredo não foi descoberto por mim, mas me foi revelado, e não por alguma sabedoria que eu tenha mais do que qualquer vivente, que me qualificasse para receber tal revelação”.
Repare: convém àqueles que Deus favoreceu e honrou grandemente ser muito humildes e modestos aos próprios olhos, deixando de lado toda opinião de sua sabedoria e dignidade. Assim, somente Deus receberá todo o louvor pelo bem que são, têm e fazem, e tudo será atribuído à gratuidade de sua boa vontade para com eles e à plenitude de sua boa obra neles.
O segredo lhe foi dado a conhecer não por causa dele próprio, mas:
- Por causa de seu povo: por causa dos que darão a conhecer a interpretação ao rei, isto é, por causa de seus irmãos e companheiros na tribulação. Estes, por suas orações, haviam ajudado Daniel a obter a revelação e, por isso, podia-se dizer que dariam a conhecer a interpretação.
Assim, suas vidas seriam poupadas, receberiam o favor do rei e seriam elevados a cargos, e todo o povo judeu teria melhor sorte no cativeiro por causa deles. Repare: os homens humildes estarão sempre prontos a pensar que aquilo que Deus faz por eles e por meio deles é mais por causa dos outros do que deles próprios.
- Por causa de seu príncipe; e alguns leem a oração anterior nesse sentido: “Não por alguma sabedoria minha, mas para que o rei conheça a interpretação e para que conheças os pensamentos do teu coração, para que recebas resposta sobre aquilo em que antes meditavas e, por meio dela, orientação sobre como te conduzir para com a igreja de Deus”.
Deus revelou isso a Daniel para que ele o desse a conhecer ao rei. Os profetas recebem para poder dar: as revelações que lhes são feitas não devem ficar guardadas com eles, mas ser comunicadas às pessoas a quem dizem respeito.
Versículos 31 a 45
A Interpretação do Sonho de Nabucodonosor. (a.C. 603.)
Daniel dá aqui plena satisfação a Nabucodonosor quanto ao sonho e sua interpretação. Aquele grande príncipe fora bondoso para com esse pobre profeta, sustentando-o e educando-o. Daniel fora criado às custas do rei e elevado a uma posição na corte; assim, a terra de seu cativeiro se tornara muito mais fácil de suportar para ele do que para os demais irmãos.
Agora o rei é abundantemente recompensado por todas as despesas que teve com Daniel. Por ter recebido esse profeta, embora não em nome de profeta, recebeu recompensa de profeta: uma recompensa que só um profeta podia dar e pela qual aquele príncipe rico e poderoso agora se alegrava de ficar-lhe devendo. Aqui está:
I. O próprio sonho, v. 31, 45. Talvez Nabucodonosor admirasse estátuas e tivesse o palácio e os jardins adornados com elas. De qualquer modo, adorava imagens; e eis que, num sonho, uma grande imagem lhe é apresentada. Isso podia sugerir-lhe o que eram aquelas imagens nas quais gastava tanto e às quais prestava tanto respeito: meros sonhos.
As criaturas da fantasia poderiam igualmente agradar à fantasia. Pelo poder da imaginação, ele podia fechar os olhos, representar para si as formas que quisesse e embelezá-las a seu gosto, sem as despesas nem o trabalho da escultura.
Era a imagem de um homem ereto: estava diante dele como um homem vivo. Como as monarquias que a imagem deveria representar eram admiráveis aos olhos de seus amigos, seu brilho era extraordinário; e, como eram temíveis para seus inimigos e causavam medo a todos ao redor, diz-se que a forma da imagem era terrível. Tanto as feições do rosto quanto a postura do corpo a faziam assim.
Mas o mais notável nessa imagem eram os diferentes metais de que era composta: cabeça de ouro (o metal mais rico e durável), peito e braços de prata (o seguinte em valor), ventre e flancos (ou coxas) de bronze, pernas de ferro (metais cada vez menos nobres) e, por fim, pés em parte de ferro e em parte de barro.
Vejam como são as coisas deste mundo: quanto mais avançamos nelas, menos valiosas parecem. Na vida do homem, a juventude é uma cabeça de ouro, mas se torna cada vez menos digna de nossa estima; a velhice é metade barro, e então o homem está quase morto. O mesmo ocorre com o mundo: as eras posteriores degeneram.
A primeira era da igreja cristã, assim como a da Reforma, foi uma cabeça de ouro; mas vivemos numa era de ferro e barro. Alguns aludem a isso ao descrever o hipócrita, cuja prática não corresponde ao conhecimento. Tem cabeça de ouro, mas pés de ferro e barro: conhece seu dever, mas não o cumpre.
Alguns observam que, nas visões de Daniel, as monarquias foram representadas por quatro animais (Daniel 7). Isso porque ele considerava que a sabedoria vinda de baixo, pela qual elas se tornaram terrenas e sensuais, e o poder tirânico tinham mais de besta do que de homem; assim, a visão correspondia à sua ideia da realidade.
Mas, para Nabucodonosor, príncipe pagão, elas foram representadas pela imagem vistosa e pomposa de um homem, pois ele admirava os reinos deste mundo e sua glória. A visão lhe agradou tanto que ficou ansioso para vê-la novamente.
Mas o que aconteceu com essa imagem? A parte seguinte do sonho a mostra reduzida a cinzas e a nada. Ele viu uma pedra cortada da pedreira por um poder invisível, sem auxílio de mãos; ela caiu sobre os pés de ferro e barro da imagem e os despedaçou. Então, naturalmente, a imagem teve de cair.
Assim, o ouro, a prata, o bronze e o ferro foram todos despedaçados juntos e moídos tão finamente que se tornaram como a palha das eiras no verão, sem que se encontrasse o menor vestígio deles. A pedra cortada do monte, porém, tornou-se ela própria um grande monte e encheu a terra.
Vejam como Deus pode produzir grandes efeitos por causas fracas e improváveis; quando lhe agrada, o pequeno se tornará mil. Talvez a destruição dessa imagem de ouro, prata, bronze e ferro se destinasse a significar a abolição da idolatria do mundo no tempo devido.
Os ídolos dos pagãos são prata e ouro, como essa imagem, e desaparecerão da terra e de debaixo destes céus, Jeremias 10:11; Isaías 2:18. E qualquer poder que destrua a idolatria está no caminho certo para engrandecer-se e exaltar-se, como essa pedra, que, depois de despedaçar a imagem, se tornou um grande monte.
II. A interpretação desse sonho. Vejamos agora o que significa. Veio de Deus; convém, portanto, que recebamos dele a explicação. Ao que parece, Daniel tinha seus companheiros consigo e fala por eles e por si mesmo quando diz: “Diremos a interpretação”, v. 36. Pois bem:
- Essa imagem representava os reinos da terra que sucessivamente dominariam as nações e influenciariam os assuntos da igreja judaica. As quatro monarquias não eram representadas por quatro estátuas distintas, mas por uma só imagem, pois todas tinham o mesmo espírito e caráter e todas, em maior ou menor grau, se opunham à igreja.
Era o mesmo poder, apenas sediado em quatro nações diferentes: as duas primeiras ficavam a leste da Judeia; as duas últimas, a oeste.
(1.) A cabeça de ouro significava a monarquia caldeia, então existente (vv. 37-38): “Tu, ó rei, és” (ou, antes, “serás”) “rei de reis”, monarca universal a quem muitos reis e reinos pagariam tributo; ou: “Tu és o mais elevado dos reis da terra neste tempo” (assim como um servo dos servos é o mais humilde dos servos); você supera em brilho todos os outros reis.
Mas que ele não atribuísse sua elevação à própria sagacidade política nem à própria coragem. Não: é o Deus do céu quem lhe deu “reino, poder, força e glória”: um reino que exerce grande autoridade, permanece firme e brilha intensamente, agindo por um exército poderoso com autoridade arbitrária.
Repare: os maiores príncipes não têm poder algum senão o que lhes é dado do alto. A extensão de seu domínio é exposta (v. 38): onde quer que habitem os filhos dos homens, em todas as nações daquela parte do mundo, ele governava a todos, tanto a eles quanto a tudo que lhes pertencia, inclusive todo o seu gado.
Não apenas os animais de que eram donos, mas também os feræ naturæ — selvagens, os animais do campo e as aves do céu. Era senhor de todos os bosques, florestas e campos de caça, e ninguém tinha permissão para caçar animais terrestres nem aves sem seu consentimento.
Assim, “tu és a cabeça de ouro: tu, teu filho e o filho de teu filho, por setenta anos”. Compare isso com Jeremias 25:9, 11, especialmente Jeremias 27:5-7. Havia outros reinos poderosos no mundo naquela época, como o dos citas; mas era o reino da Babilônia que dominava os judeus e que deu início ao governo que continuou na sucessão aqui descrita até o tempo de Cristo.
É chamado cabeça por sua sabedoria, eminência e poder absoluto; cabeça de ouro por sua riqueza (Isaías 14:4): era uma cidade dourada. Alguns fazem essa monarquia começar em Nimrode e, assim, incluem nela todos os reis assírios, cerca de cinquenta monarcas ao todo, calculando que durou mais de 1.600 anos.
Mas não fora por tanto tempo uma monarquia de extensão e poder tão vastos como os aqui descritos, nem algo semelhante. Por isso outros incluem nessa cabeça de ouro apenas Nabucodonosor, Evil-Merodaque e Belsazar; eles tiveram um trono elevado e glorioso e talvez exerceram poder mais despótico que qualquer dos reis anteriores.
Nabucodonosor reinou quarenta e cinco anos corridos; Evil-Merodaque, vinte e três; e Belsazar, três. Babilônia era sua metrópole, e Daniel esteve ali com eles durante os setenta anos.
(2.) O peito e os braços de prata significavam a monarquia dos medos e persas, sobre a qual nada mais se diz ao rei senão: “Levantar-se-á outro reino, inferior ao teu” (v. 39), não tão rico, poderoso nem vitorioso.
Esse reino foi fundado por Dario, o medo, e Ciro, o persa, aliados um ao outro; por isso é representado por dois braços que se encontram no peito. O próprio Ciro era persa pelo pai e medo pela mãe. Alguns calculam que essa segunda monarquia durou 130 anos; outros, 204. O primeiro cálculo concorda melhor com a cronologia das Escrituras.
(3.) O ventre e as coxas de bronze significavam a monarquia dos gregos, fundada por Alexandre, que conquistou Dario Codomano, o último dos imperadores persas. Esse é o terceiro reino, de bronze, inferior em riqueza e extensão de domínio à monarquia persa.
Contudo, em Alexandre, pelo poder da espada, dominará toda a terra; pois Alexandre se vangloriou de ter conquistado o mundo e depois se sentou e chorou por não ter outro mundo para conquistar.
(4.) As pernas e os pés de ferro significavam a monarquia romana. Alguns entendem que isso significa a última parte da monarquia grega: os dois impérios da Síria e do Egito, o primeiro governado pela família dos Selêucidas, descendentes de Seleuco, e o segundo pela dos Lágidas, descendentes de Ptolomeu Lago.
Para esses intérpretes, tais impérios são as duas pernas e os pés da imagem; Grócio, Júnio e Broughton seguem essa interpretação.
Mas a opinião mais aceita é que se trata da monarquia romana, pois foi no tempo dessa monarquia, quando estava no auge, que o reino de Cristo foi estabelecido no mundo pela pregação do evangelho eterno. O reino romano era forte como o ferro (v. 40), como demonstra o êxito desse reino contra todos os que o enfrentaram durante muitos séculos.
Esse reino despedaçou o império grego e depois destruiu por completo a nação dos judeus. Perto do fim da monarquia romana, ela ficou muito fraca e se ramificou em dez reinos, que eram como os dedos daqueles pés. Alguns eram fracos como o barro; outros, fortes como o ferro, v. 42.
Tentou-se uni-los e consolidá-los para fortalecer o império, mas em vão: “Não se ligarão um ao outro”, v. 43. Esse império dividiu por muito tempo o governo entre o senado e o povo, os nobres e os plebeus, mas eles nunca se fundiram completamente.
Houve guerras civis entre Mário e Sila, César e Pompeu, cujas facções eram como ferro e barro. Alguns relacionam isso à época de declínio daquele império, quando, para fortalecê-lo contra as invasões dos povos bárbaros, os ramos da família real se uniram por casamentos. Mas essa política não teve o efeito desejado quando chegou o dia da queda do império.
- A pedra cortada sem auxílio de mãos representava o reino de Jesus Cristo, que seria estabelecido no mundo no tempo do império romano e sobre as ruínas do reino de Satanás nos reinos do mundo. Essa é a pedra cortada do monte sem auxílio de mãos, pois o reino não seria levantado nem sustentado pelo poder ou pela sagacidade política dos homens.
Nenhuma mão visível atuaria em seu estabelecimento; isso seria feito invisivelmente pelo Espírito do Senhor dos Exércitos. Essa era a pedra que os construtores rejeitaram, por não ter sido cortada pelas mãos deles, mas agora se tornou a pedra principal da esquina.
(1.) A igreja do evangelho é um reino do qual Cristo é o único e soberano monarca. Nela ele governa por sua palavra e seu Espírito, dá-lhe proteção e lei e recebe dela homenagem e tributo. É um reino que não é deste mundo e, contudo, nele está estabelecido: o reino de Deus entre os homens.
(2.) O Deus do céu estabeleceria esse reino, daria autoridade a Cristo para executar juízo, o colocaria como Rei em seu santo monte Sião e levaria um povo disposto a obedecer-lhe. Por ser estabelecido pelo Deus do céu, é frequentemente chamado no Novo Testamento de reino dos céus, pois sua origem vem do alto e sua tendência é ascendente.
(3.) Seria estabelecido nos dias desses reis, os reis da quarta monarquia, da qual se faz menção particular (Lucas 2:1): Cristo nasceu quando, por decreto do imperador de Roma, todo o mundo foi recenseado, sinal claro de que aquele império se tornara tão universal quanto jamais fora qualquer império terreno.
Enquanto esses reis disputam entre si e, em todas as lutas, cada parte espera conseguir alguma vantagem para si, Deus fará sua própria obra e cumprirá seus próprios desígnios. Todos esses reis são inimigos do reino de Cristo e, mesmo assim, ele será estabelecido apesar deles.
(4.) É um reino que não conhece decadência, não corre perigo de destruição e não admite sucessão nem revolução. Nunca será destruído por força estrangeira invasora, como tantos outros reinos; fogo e espada não o podem arruinar. Os poderes unidos da terra e do inferno não podem privar os súditos de seu príncipe nem o príncipe de seus súditos.
Esse reino tampouco será deixado a outro povo, como acontece com os reinos da terra. Assim como Cristo é um monarca sem sucessor (pois ele próprio reinará para sempre), seu reino é uma monarquia sem revolução.
O reino de Deus foi, de fato, tirado dos judeus e dado aos gentios (Mateus 21:43), mas continuou sendo o cristianismo que governava, o reino do Messias. A igreja cristã continua sendo a mesma; está firmada sobre uma rocha, muito combatida, mas as portas do inferno jamais prevalecerão contra ela.
(5.) É um reino que vencerá toda oposição. Despedaçará e consumirá todos aqueles reinos, assim como a pedra cortada do monte sem auxílio de mãos despedaçou a imagem, vv. 44-45. O reino de Cristo desgastará todos os outros reinos, sobreviverá a eles e florescerá quando tiverem sucumbido ao próprio peso e sido tão arruinados que seu lugar já não os reconheça.
Todos os reinos que se levantarem contra o reino de Cristo serão quebrados com vara de ferro, como vaso de oleiro, Salmos 2:9. E, nos reinos que se submeterem ao reino de Cristo, a tirania, a idolatria e tudo o que os envergonha serão quebrados à medida que o evangelho de Cristo avançar.
Virá o dia em que Jesus Cristo terá abolido todo governo, principado e poder e posto todos os inimigos por estrado de seus pés; então, e só então, esta profecia terá pleno cumprimento, 1 Coríntios 15:24-25.
Nosso Salvador parece referir-se a isso (Mateus 21:44) quando, falando de si como a pedra desprezada pelos construtores judeus, diz: “Sobre quem esta pedra cair, ela o reduzirá a pó”.
(6.) Será um reino eterno. Aqueles reinos da terra que haviam despedaçado tudo ao redor acabaram, por sua vez, igualmente despedaçados; mas o reino de Cristo despedaçará os outros reinos e ele próprio permanecerá para sempre.
Seu trono será como os dias do céu; sua descendência, seus súditos, serão como as estrelas do céu, não apenas incontáveis, mas também imutáveis. O aumento do governo e da paz de Cristo não terá fim. O Senhor reinará para sempre: não apenas até o fim dos tempos, mas quando o tempo e os dias já não existirem, e Deus for tudo em todos por toda a eternidade.
III. Tendo interpretado assim o sonho, para satisfação de Nabucodonosor, que não o interrompeu, pois a interpretação era tão completa que ele não tinha pergunta a fazer e tão clara que não tinha objeção a levantar, Daniel conclui com uma afirmação solene:
- Da origem divina desse sonho: “O grande Deus” (assim o chama para expressar seus elevados pensamentos acerca dele e suscitar pensamentos semelhantes na mente desse grande rei) “fez saber ao rei o que há de acontecer no futuro”, coisa que os deuses dos magos não conseguiram fazer.
Assim se confirmou plenamente o grande argumento que Isaías havia apresentado muito antes contra os idólatras, especialmente os da Babilônia: desafiou os deuses que adoravam a mostrar “as coisas que hão de vir depois, para que saibamos que sois deuses” (Isaías 41:23). Com isso, provou que o Deus de Israel é o Deus verdadeiro, pois “anuncia o fim desde o princípio”, Isaías 46:10.
- Da certeza indubitável das coisas anunciadas por esse sonho. Aquele que as dá a conhecer é o mesmo que as planejou e determinou e que, por sua providência, as realizará. Temos certeza de que seu conselho permanecerá e não pode ser alterado; portanto, “o sonho é certo, e fiel a sua interpretação”.
Repare: podemos confiar em tudo o que Deus deu a conhecer.
Versículos 46 a 49
Nabucodonosor Honra Daniel. (a.C. 603.)
Seria de esperar que Nabucodonosor, enquanto procurava tornar eterno seu próprio reino, se enfurecesse com Daniel por anunciar a queda dele e que outro reino, de natureza diferente, seria o reino eterno. Mas, em vez de se ressentir disso como uma afronta, recebeu a mensagem como oráculo. Aqui se diz como expressou a impressão que ela lhe causou.
- Estava prestes a considerar Daniel um pequeno deus. Embora visse que ele era homem, a revelação maravilhosa que fizera tanto de seus pensamentos secretos, ao contar-lhe o sonho, quanto das coisas futuras, ao contar-lhe a interpretação, levou-o a concluir que certamente havia nele uma divindade digna de adoração. Por isso, prostrou-se com o rosto em terra e adorou Daniel, v. 46.
Era costume daquele país honrar os reis prostrando-se diante deles, pois têm em si algo de poder divino (“Eu disse: sois deuses”).
Assim, esse rei, que muitas vezes recebera tal reverência de outros, prestou-a agora a Daniel. Supunha que este possuía um conhecimento divino, que tanto o impressionou e maravilhou que não conseguiu conter-se: esqueceu-se de que Daniel era homem e de que ele próprio era rei.
Assim Deus engrandeceu a revelação divina e a tornou honrosa, arrancando de um potentado orgulhoso tamanha reverência por um simples vislumbre dela. O rei adorou Daniel e ordenou que lhe oferecessem uma oblação e queimassem incenso.
Nisso não se pode justificá-lo, embora se possa desculpá-lo em certa medida, quando Cornélio também se dispôs a adorar Pedro, e João, o anjo, embora tanto Cornélio quanto João soubessem que não deviam fazê-lo. Mas, ainda que isso não seja mencionado aqui, temos motivo para pensar que Daniel recusou as honras que o rei lhe prestava.
Teria dito, como Pedro a Cornélio: “Levanta-te, eu também sou homem”, ou, como o anjo a São João: “Olha, não faças isso”. Pois não se diz que a oblação tenha sido oferecida a Daniel, embora o rei o tivesse ordenado; ou, antes, dito, pois esse é o termo. Disse precipitadamente: “Seja-lhe oferecida uma oblação”.
Que Daniel lhe disse alguma coisa que lhe voltou os olhos e os pensamentos para outra direção é sugerido pelo que vem em seguida (v. 47): “O rei respondeu a Daniel”. Repare: é possível que alguns expressem grande honra pelos ministros da palavra de Deus e, ainda assim, não tenham verdadeiro amor pela palavra. Herodes temia João e o ouvia de boa vontade, mas continuou em seus pecados, Marcos 6:20.
- Reconheceu prontamente que o Deus de Daniel é o grande Deus, o Deus verdadeiro, o único Deus vivo e verdadeiro. Se Daniel não permite ser adorado, o rei adorará a Deus, como Daniel provavelmente lhe orientou, confessando (v. 47): “Em verdade, vosso Deus é Deus dos deuses”, um Deus sem igual, acima de todos os deuses em dignidade e sobre todos eles em domínio.
Ele é Senhor dos reis, de quem recebem seu poder e a quem devem prestar contas. É também aquele que descobre e revela segredos: vê e pode revelar o que há de mais secreto; e aquilo que revelou era segredo que ninguém senão ele poderia revelar, 1 Coríntios 2:10.
- Elevou Daniel a um cargo e o fez um homem importante, v. 48. Deus já o fizera realmente grande quando o admitiu à comunhão consigo, maior do que Nabucodonosor podia fazê-lo; mas, porque Deus o engrandecera, o rei também o engrandeceu.
A riqueza torna os homens grandes? O rei lhe deu muitos e grandes presentes; Daniel não tinha motivo para recusá-los, pois todos lhe davam maior capacidade de fazer o bem a seus irmãos no cativeiro. Eram retribuições em reconhecimento pelos bons serviços que prestara; ele não os buscou nem negociou por eles, como Balaão fez com as recompensas da adivinhação.
O poder torna um homem grande? O rei o fez governador de toda a província da Babilônia, que sem dúvida tinha grande influência sobre as outras províncias. Fez dele também chanceler da universidade, chefe dos governadores de todos os sábios da Babilônia, para instruir aqueles a quem tanto superara.
Como eles não conseguiram fazer o que o rei lhes havia mandado, seriam obrigados a fazer o que Daniel lhes mandasse. Assim convém que o insensato seja servo do sábio de coração. Vendo que Daniel podia revelar esse segredo (v. 47), o rei o elevou desse modo.
Repare: é sabedoria dos príncipes elevar e empregar aqueles que recebem a revelação divina e muito se ocupam com ela, demonstrando, como Daniel aqui, conhecer bem o reino dos céus.
José, assim como Daniel, foi elevado na corte do rei do Egito por interpretar-lhe os sonhos; o rei o chamou Zafenate-Paneia — revelador de segredos —, como o rei da Babilônia aqui chama Daniel. Assim, os preâmbulos de suas patentes de honra são iguais: por causa dos bons serviços que prestaram à coroa ao revelar segredos, e em consideração a eles.
- Elevou os companheiros de Daniel por causa dele e a seu pedido especial, v. 49. O próprio Daniel se assentava à porta do rei, como presidente do conselho, juiz principal ou primeiro-ministro do Estado, ou talvez camareiro da casa real. Mas usou sua influência em favor dos amigos, como convinha a um homem bom, e obteve cargos no governo para Sadraque, Mesaque e Abede-Nego.
Aqueles que o ajudaram com suas orações participariam com ele de suas honras; tão grato estava até por esse serviço. A elevação dos companheiros daria a Daniel grande apoio e auxílio em seu cargo e trabalho.
Esses judeus piedosos, assim elevados na Babilônia, tinham grande oportunidade de servir aos seus irmãos no cativeiro e prestar-lhes muitos bons serviços, o que sem dúvida estavam prontos a fazer. Assim, às vezes, antes de conduzir seu povo a uma aflição, Deus prepara essa aflição para que ela lhes seja suportável.