Matthew Henry

Cantares de Salomão 6

Argumento

Neste capítulo, I. As filhas de Jerusalém, movidas pela descrição que a igreja dera de Cristo, perguntam por ele, v. 1.

II. A igreja lhes indica onde podem encontrá-lo, v. 2, 3.

III. Cristo é agora encontrado por aqueles que o procuravam e aplaude muitíssimo a beleza da sua esposa, como alguém extremamente arrebatado por ela (vv. 4-7), preferindo-a a todas as outras (v. 8, 9), recomendando-a ao amor e à estima de todos os vizinhos dela (v. 10) e, por último, reconhecendo as impressões que a beleza dela fizera nele e o grande deleite que tinha nela, vv. 11-13.

Versículos 1 a 3

Indagando por Cristo.

Aqui está:

I. A indagação que as filhas de Jerusalém fizeram a respeito de Cristo, v. 1. Continuam mantendo os seus elevados pensamentos sobre a igreja e a chamam, como antes, a mais bela entre as mulheres, pois a verdadeira santidade é verdadeira beleza.

E agora elevam mais os seus pensamentos a respeito de Cristo: Para onde foi o seu amado, para que possamos procurá-lo com você?

Isso seria somente um elogio indecoroso e inaceitável se o cântico não devesse ser entendido espiritualmente. Pois o amor tem ciúme de um rival, quer monopolizar o amado e não quer que os outros se juntem para procurá-lo.

Mas aqueles que verdadeiramente amam a Cristo desejam que os outros o amem também e sejam unidos a ele. Ou melhor: a maior demonstração de dever e respeito que os filhos da igreja podem mostrar à sua mãe é se juntar a ela na busca de Cristo.

As filhas de Jerusalém, que haviam perguntado (Cantares de Salomão 5:9): “O que é o teu amado mais que outro amado?”, admirando-se de que a esposa estivesse tão apaixonada por ele, agora pensam de outro modo e estão elas mesmas apaixonadas por ele. Pois:

  1. A esposa o havia descrito e lhes mostrado as suas excelências e perfeições. E por isso, embora não o tenham visto, ainda assim, crendo, o amam.

Aqueles que subestimam Cristo fazem isso porque não o conhecem. Quando Deus, pela sua palavra e Espírito, o revela à alma, com aquele raio de luz o fogo do amor por ele será aceso.

  1. A esposa expressara o seu próprio amor por ele, o seu descanso naquele amor, e triunfara nele: “Esse é o meu amado”. E aquela chama no seu peito espalhou faíscas nos delas.

Assim como os desejos pecaminosos, quando irrompem, maculam muitos, assim o zelo piedoso de alguns pode provocar muitos, 2 Coríntios 9:2.

  1. A esposa solicitara a ajuda delas para procurar o seu amado (Cantares de Salomão 5:8). Mas agora elas pedem a dela, pois percebem que agora a nuvem sob a qual estivera começava a se dispersar e o céu a clarear, e, enquanto descrevia o seu amado a elas, ela mesma recuperava o seu conforto nele.

Os cristãos combalidos encontrariam benefício eles mesmos ao falar de Cristo, assim como fariam bem aos outros. Agora, aqui:

(1.) Indagam a respeito dele: “Para onde foi o teu amado? Em que direção devemos conduzir o nosso caminho na busca dele?”

Repare: aqueles que são familiarizados com as excelências de Cristo e o conforto de uma participação nele não podem deixar de indagar por ele e desejar saber onde podem encontrá-lo.

(2.) Oferecem o seu serviço à esposa para acompanhá-la na busca dele: Nós o procuraremos com você. Aqueles que querem encontrar Cristo devem procurá-lo, procurá-lo cedo, procurá-lo diligentemente.

E o melhor é procurar Cristo em conjunto, juntar-se àqueles que o procuram. Devemos buscar a comunhão com Cristo na comunhão com os santos.

Sabemos para onde o nosso amado foi: foi para o céu, para o seu Pai e o nosso Pai. Teve zelo em nos enviar notícia disso, para que pudéssemos saber como nos dirigir a ele, João 20:17.

Devemos pela fé vê-lo ali e pela oração procurá-lo ali, entrar com ousadia no santíssimo, e nisso devemos nos juntar à geração daqueles que o procuram (Salmos 24:6), até a todos que em cada lugar o invocam, 1 Coríntios 1:2. Devemos orar com os outros e em favor deles.

II. A resposta que a esposa deu a essa indagação, v. 2, 3. Agora não se queixa mais, como fizera (Cantares de Salomão 5:6): “Ele se foi, ele se foi”, de não saber onde encontrá-lo ou recear que o perdera para sempre. Não:

  1. Agora sabe muito bem onde ele está (v. 2): “O meu amado não se encontra nas ruas da cidade e na multidão e no ruído que há ali; lá o procurei em vão” (como os seus pais o procuraram entre os seus parentes e conhecidos e não o encontraram).

“Mas ele desceu ao seu jardim, um lugar de privacidade e retiro.”

Quanto mais nos retiramos da pressa do mundo, mais probabilidade temos de ter familiaridade com Cristo, que levou os seus discípulos a um jardim, ali para serem testemunhas das agonias do seu amor.

A igreja de Cristo é um jardim fechado e separado do terreno comum aberto do mundo. É o seu jardim, que plantou como fez com o jardim do Éden, do qual tem zelo e no qual se deleita.

Embora tivesse subido ao paraíso acima, ainda assim desce ao seu jardim na terra. O jardim fica num lugar baixo, mas Cristo condescende em visitá-lo, e é uma condescendência maravilhosa. Deus de fato habitará com o homem na terra?

Aqueles que querem encontrar Cristo podem esperar encontrá-lo no seu jardim, a igreja, pois ali registra o seu nome (Êxodo 20:24).

Devem se aplicar a ele nas ordenanças que instituiu, a palavra, os sacramentos e a oração, nas quais estará conosco sempre, até o fim do mundo.

A esposa aqui se refere ao que Cristo dissera (Cantares de Salomão 5:1): “Vim ao meu jardim”. É como se ela tivesse dito: “Que insensata fui por me inquietar e fatigar procurando-o onde não estava, quando ele mesmo me havia dito onde estava!”

As palavras de direção e conforto frequentemente estão fora de alcance quando temos ocasião de usá-las, até que o bendito Espírito as traz à nossa lembrança, e então nos admiramos de como as ignoramos.

Cristo nos disse que viria ao seu jardim. Para lá, por isso, devemos ir procurá-lo.

Os canteiros e jardins menores nesse maior são as igrejas particulares, as sinagogas de Deus na terra (Salmos 74:8). As especiarias e os lírios são os crentes particulares, a plantação do Senhor, e agradáveis aos seus olhos. Quando Cristo desce à sua igreja, é:

(1.) Para alimentar entre os jardins, para alimentar o seu rebanho, que alimenta não como os outros pastores nos campos abertos, mas no seu jardim, tão bem são providos, Salmos 23:2.

Vem alimentar os seus amigos e recebê-los. Ali você pode não só encontrá-lo, mas encontrar a sua mesa ricamente abastecida e boas-vindas cordiais a ela.

Vem se alimentar, isto é, agradar a si mesmo com os produtos da sua própria graça no seu povo, pois o Senhor tem prazer naqueles que o temem.

Tem muitos jardins, muitas igrejas particulares de tamanhos e formas diferentes. Mas, enquanto são seus, alimenta-se em todos eles, manifesta-se entre eles e está bem satisfeito com eles.

(2.) Para colher lírios, com os quais tem prazer em se entreter e adornar. Apanha os lírios um a um e os recolhe para si mesmo.

E haverá uma colheita geral deles no grande dia, quando enviará os seus anjos para reunir todos os seus lírios, para que seja para sempre glorificado e admirado neles.

  1. Ela está muito confiante na sua própria participação nele (v. 3): “Eu sou do meu amado e o meu amado é meu; a relação é mútua e o nó está atado, que não pode ser desatado, pois ele se alimenta entre os lírios, e a minha comunhão com ele é um sinal certo da minha participação nele.”

Ela dissera isso antes (Cantares de Salomão 2:16). Mas:

(1.) Aqui o repete como aquilo em que resolveu permanecer e no qual tinha prazer e satisfação indizíveis. Gostava demais da sua escolha para mudá-la.

A nossa comunhão com Deus é muito mantida e sustentada pela frequente renovação da nossa aliança com ele e por nos alegrarmos nela.

(2.) Ela tinha ocasião para repeti-lo, pois agira sem bondade para com o seu amado e, por agir assim, ele justamente se retirara dela. Por isso, havia ocasião para se apegar novamente à aliança, que continua firme entre Cristo e os crentes, apesar das suas falhas e das suas expressões de desagrado, Salmos 89:30-35.

“Tenho sido descuidada e faltosa no meu dever, e contudo sou do meu amado”, pois nem toda transgressão na aliança nos lança para fora da aliança.

“Ele justamente escondeu de mim o seu rosto e me negou os seus confortos, e contudo o meu amado é meu”, pois as repreensões e os castigos são não só coerentes com o amor da aliança, mas fluem dele.

(3.) Quando não temos plena certeza do amor de Cristo, devemos viver por uma fiel adesão a ele. “Embora não tenha a consolação palpável que costumava ter, ainda assim me apegarei a isso: Cristo é meu e eu sou dele.”

(4.) Embora ela tivesse dito o mesmo antes, ainda assim agora inverte a ordem e afirma primeiro a participação dele nela: “Sou do meu amado”, inteiramente devotada e dedicada a ele; e então a sua participação nele e na sua graça: “O meu amado é meu, e sou feliz, na verdade feliz nele.”

Se os nossos próprios corações puderem ao menos testemunhar em nosso favor que somos dele, não resta lugar para questionar que ele seja nosso, pois a aliança nunca se rompe do lado dele.

(5.) Agora é o seu conforto, como era então, que ele se alimenta entre os lírios, que se deleita no seu povo e tem comunhão livremente com eles, como fazemos com aqueles com quem nos alimentamos.

E por isso, embora atualmente esteja retirado, “Eu o encontrarei novamente. Ainda louvarei aquele que é a saúde do meu semblante e o meu Deus.”

Versículos 4 a 10

A Confiança da Igreja em Cristo; o Amor de Cristo à Igreja.

Agora devemos supor que Cristo graciosamente retornou à sua esposa, da qual se retirara, retornou para ter comunhão com ela (pois fala com ela e a faz ouvir alegria e contentamento), retornou para favorecê-la, tendo perdoado e esquecido toda a sua falta de bondade, pois fala com ela muito terna e respeitosamente.

I. Ele a declara amável na verdade (v. 4): “Tu és bonita, ó meu amor, como Tirza”, uma cidade na tribo de Manassés, cujo nome significa agradável ou aceitável, sendo a localização, sem dúvida, muito feliz e a construção esmerada e uniforme.

“Tu és formosa como Jerusalém”, uma cidade unida compactamente (Salmos 122:3), que Salomão construíra e embelezara, a alegria de toda a terra. Era uma honra para o mundo (pensassem assim ou não) que houvesse nele tal cidade.

Era a cidade santa, e essa era a sua maior beleza. E a igreja é apropriadamente comparada a ela, pois era figurada e tipificada por ela.

A igreja do evangelho é a Jerusalém de cima (Gálatas 4:26), a Jerusalém celestial (Hebreus 12:22). Nela, Deus tem o seu santuário e está presente de modo especial. Dela recebe o tributo de louvor que sai; é o seu descanso para sempre.

E por isso é formosa como Jerusalém e, sendo assim, é “terrível como um exército com estandartes”. As censuras da igreja, devidamente administradas, impõem reverência às consciências dos homens.

A palavra (as armas da sua guerra) derruba imaginações (2 Coríntios 10:5), e até um incrédulo é convencido e julgado pela solenidade das santas ordenanças, 1 Coríntios 14:24, 25.

Os santos pela fé vencem o mundo (1 João 5:4). Ou melhor: como Jacó, têm poder com Deus e conseguem o intento, Gênesis 32:28.

II. Ele se reconhece apaixonado por ela, v. 5. Embora por um pequeno momento e numa pequena cólera tivesse escondido dela o seu rosto, ainda assim agora a reúne com demonstrações muito surpreendentes de bondade amorosa eterna, Isaías 54:8.

Volte os seus olhos para mim (assim alguns leem), “volta os olhos da fé e do amor para mim, pois me elevaram; olha para mim e sê confortada”.

Quando clamamos a Deus para voltar o olho do seu favor para nós, ele nos chama para voltar o olho da nossa obediência para ele.

Lemos isso como uma estranha expressão de amor: “Desvia de mim os teus olhos, pois não posso suportar o seu brilho; eles me venceram inteiramente, e sou levado a deixar passar tudo o que aconteceu.”

Como Deus disse a Moisés quando intercedia por Israel: Deixe-me sozinho, ou devo ceder, Êxodo 32:10.

Cristo tem por bem tomar emprestadas essas expressões de um amante apaixonado somente para expressar a ternura de um Redentor compassivo e o deleite que tem nos seus redimidos e no trabalho da sua própria graça neles.

III. Ele repete, quase palavra por palavra, parte da descrição que dera da sua beleza (Cantares de Salomão 4:1-3), o seu cabelo, os seus dentes, as suas têmporas (vv. 5-7), não porque não pudesse tê-la descrito em outras palavras e por outras comparações, mas para mostrar que continuava com a mesma estima por ela desde a sua falta de bondade para com ele e as suas retiradas dela, como tinha antes.

Para que ela não pensasse que, embora ele não a rejeitasse inteiramente, ainda assim pensaria pior dela enquanto a conhecesse, ele diz agora o mesmo dela que dissera.

Pois aqueles a quem muito é perdoado amarão mais e, consequentemente, serão mais amados, pois Cristo disse: “Amo aqueles que me amam”.

Ele está satisfeito com o seu povo, apesar das suas fraquezas, quando sinceramente se arrependem delas e retornam ao seu dever, e os elogia como se já tivessem chegado à perfeição.

IV. Ele a prefere a todas as competidoras e vê todas as belezas e perfeições das outras se reunindo e se concentrando nela (v. 8, 9):

“Há, pode ser, sessenta rainhas que, como Ester, pela sua beleza alcançaram o estado e a dignidade reais, e oitenta concubinas que os reis preferiram às suas próprias rainhas, como mais encantadoras.”

“E essas acompanhadas pelas suas damas de honra, virgens sem número que, quando há um baile na corte, aparecem em grande esplendor, com beleza que deslumbra os olhos dos espectadores. Mas a minha pomba, a minha imaculada, é só uma, uma santa.”

  1. Ela excede todas elas. Percorra todo o mundo e veja os convívios dos homens que se consideram sábios e felizes, reinos, cortes, senados, conselhos ou quaisquer corporações que julgue valiosas.

Nenhum deles pode ser comparado à igreja de Cristo; as suas honras e belezas são nada diante das dela. “Quem é como tu, ó Israel?” Deuteronômio 33:29; 4:6, 7.

Há pessoas particulares, como virgens sem número, famosas pelas suas qualidades, pelas belezas do seu trato, linguagem e realizações. Mas a beleza da santidade está além de toda outra beleza:

“A minha pomba, a minha imaculada, é uma, tem aquela beleza única de ser pomba, pomba imaculada e minha, e isso a faz exceder as rainhas e virgens, por mais numerosas que fossem.”

  1. Ela incluiu todas elas. “Os outros reis têm muitas rainhas e concubinas e virgens, com cuja conversa se entretêm, mas a minha pomba, a minha imaculada, é para mim em lugar de todas; nessa única tenho mais do que eles têm em todas as suas.”

Ou: “Embora haja muitas igrejas particulares, algumas de maior dignidade, outras de menor, algumas de existência mais longa, outras mais curta, e muitos crentes particulares, de dons e realizações diferentes, alguns mais eminentes, outros menos, ainda assim todos constituem apenas uma igreja católica.”

“Todos são apenas partes daquele todo, e essa é a minha pomba, a minha imaculada.”

Cristo é o centro da unidade da igreja. Todos os filhos de Deus que estão dispersos são reunidos por ele (João 11:52) e se encontram nele (Efésios 1:10), e todos são as suas pombas.

V. Ele mostra quanto ela era estimada, não só por ele, mas por todos que tinham familiaridade com ela e estavam em relação com ela. Acrescentaria ao seu louvor dizer:

  1. Que era a querida da sua mãe. Tinha em si, desde criança, aquilo que a recomendava à afeição particular dos seus pais.

Como se diz que o próprio Salomão era terno e único aos olhos da sua mãe (Provérbios 4:3), assim ela era a única da sua mãe, tão querida como se fosse filha única.

E, se houvesse muitas mais, ainda assim era a escolhida daquela que a gerou, mais excelente que todos os convívios dos homens que este mundo jamais produziu.

Todos os reinos do mundo e a sua glória são nada, na avaliação de Cristo, comparados com a igreja, que é composta dos excelentes da terra, dos preciosos filhos de Sião, comparáveis a ouro refinado e mais excelentes que os seus vizinhos.

  1. Que era admirada por todos os seus conhecidos, não só pelas filhas, que eram mais jovens que ela, mas até pelas rainhas e concubinas, que poderiam ter motivo para ter ciúme dela como rival.

Todas a abençoavam e lhe desejavam bem, a louvavam e falavam bem dela. As filhas de Jerusalém a chamavam a mais bela entre as mulheres; todas concordavam em lhe dar a preeminência pela beleza, e cada feixe se curvava ao dela. Repare:

(1.) Aqueles que têm qualquer percepção correta das coisas não podem deixar de estar convencidos nas suas consciências (seja o que for que digam) de que os piedosos são pessoas excelentes. Muitos lhes darão a sua boa palavra, e mais a sua boa vontade.

(2.) Jesus Cristo repara no que as pessoas pensam e falam da sua igreja e está bem satisfeito com aqueles que honram os que temem o Senhor. E recebe mal que os desprezem, particularmente quando estão debaixo de uma nuvem, que ofendam qualquer dos seus pequeninos.

VI. Ele apresenta o elogio que lhe foi dado e o faz seu (v. 10): “Quem é aquela que desponta como a manhã?” Isso é aplicável tanto à igreja no mundo quanto à graça no coração:

  1. São amáveis como a luz, a mais bonita de todas as coisas visíveis. Os cristãos são, ou devem ser, as luzes do mundo.

A igreja patriarcal despontava como a manhã quando a promessa do Messias foi primeiramente tornada conhecida e o amanhecer do alto visitou este mundo escuro.

A igreja judaica era bela como a lua. A lei cerimonial era uma luz imperfeita; brilhava por reflexão; mudava como a lua, não fazia o dia, nem o sol da justiça havia ainda nascido.

Mas a igreja cristã é clara como o sol, exibe uma grande luz àqueles que se assentavam nas trevas. Ou podemos aplicar isso ao reino da graça, o reino do evangelho:

(1.) No seu surgimento, desponta como a manhã depois de uma noite escura. É revelador (Jó 38:12, 13) e muito aceitável, desponta agradavelmente como uma manhã clara. Mas é pequeno nos seus começos e mal perceptível no princípio.

(2.) É, no seu melhor, neste mundo, apenas bela como a lua, que brilha com luz emprestada, que tem as suas mudanças e eclipses e as suas manchas também, e, quando cheia, apenas governa à noite. Mas:

(3.) Quando for aperfeiçoado no reino da glória, então será claro como o sol, a igreja vestida com o sol, com Cristo, o sol da justiça, Apocalipse 12:1.

Aqueles que amam a Deus serão então como o sol quando sai na sua força (Juízes 5:31; Mateus 13:43). Brilharão em glória inexprimível, e aquilo que é perfeito então virá. Não haverá trevas, nem manchas, Isaías 30:26.

  1. A beleza da igreja e dos crentes é não só amável, mas imponente como um exército com estandartes. A igreja, neste mundo, é como um exército, como o acampamento de Israel no deserto. O seu estado é militante; está no meio de inimigos e está empenhada num conflito constante com eles.

Os crentes são soldados nesse exército. Esse exército tem os seus estandartes; o evangelho de Cristo é uma insígnia (Isaías 11:12), o amor de Cristo, Cantares de Salomão 2:4.

Esse exército é disposto em ordem de batalha e mantido em ordem e sob disciplina. É terrível para os seus inimigos como Israel no deserto era, Êxodo 15:14.

Quando Balaão viu Israel acampado segundo as suas tribos, pelos seus estandartes, com bandeiras exibidas, disse: “Quão belas são as tuas tendas, ó Jacó!” Números 24:5.

Quando a igreja preserva a sua pureza, assegura a sua honra e vitória. Quando é bela como a lua e clara como o sol, é, na verdade, grande e temível.

Versículo 11

O Amor de Cristo à Igreja.

Tendo Cristo agora retornado à sua esposa, estando a ruptura inteiramente reparada e a desavença desses amantes sendo a renovação do amor, Cristo aqui dá um relato tanto da distância quanto da reconciliação:

I. Que, quando se retirara da sua igreja como esposa e não a confortava, ainda assim, mesmo então, tinha os seus olhos nela como seu jardim, do qual tinha zelo (v. 11):

“Desci ao jardim das nozes, ou nozes-moscadas, para ver os frutos do vale, com satisfação e interesse, para vê-los como meus próprios.”

Quando estava fora de vista, não estava mais longe que o jardim, escondido entre as árvores do jardim num vale baixo e escuro.

Mas então observava como a videira florescia, para que pudesse fazer a ela tudo que fosse necessário para promover o seu florescimento e pudesse se deleitar nela como um homem num jardim frutífero.

Foi ver se as romãs brotavam. Cristo observa os primeiros começos da boa obra da graça na alma e os primeiros brotos de afeições e inclinações devotas ali, e está bem satisfeito com eles, como nós com as flores da primavera.

II. Que contudo não podia por muito tempo se contentar com isso, mas de repente sentiu uma inclinação poderosa e irresistível no seu próprio peito para retornar à sua igreja como esposa, sendo movido pelas lamentações dela por ele e pelo seu desejo definhante por ele (v. 12):

“Antes que percebesse, a minha alma me fez como os carros de Aminadibe; não podia mais me manter à distância; os meus arrependimentos foram acesos juntos, e imediatamente resolvi voar de volta aos braços do meu amor, da minha pomba.”

Assim José se fez estranho aos seus irmãos por algum tempo, para castigá-los pelas suas antigas faltas de bondade e provar a sua disposição presente, até que não podia mais se conter. Mas, antes que percebesse, irrompeu em lágrimas e disse: “Eu sou José”, Gênesis 45:1, 3.

E agora a esposa percebe, como Davi (Salmos 31:22), que, embora dissesse na sua pressa “Estou cortada de diante dos teus olhos”, ainda assim, ao mesmo tempo, ele ouviu a voz das suas súplicas e se tornou como os carros de Aminadibe, que eram notáveis pela sua beleza e rapidez.

“A minha alma me colocou nos carros do meu povo disposto” (assim alguns leem), “os carros da sua fé e esperança e amor, dos seus desejos e orações e expectativas, que enviaram atrás de mim para me buscar de volta, como carros de fogo com cavalos de fogo”. Repare:

  1. O povo de Cristo é e deve ser um povo disposto.

  2. Se continuarem buscando Cristo e ansiando por ele, mesmo quando parece se retirar deles, graciosamente retornará a eles no devido tempo, talvez antes do que pensam e com uma surpresa agradável. Nenhum carro enviado para buscar Cristo retornará vazio.

  3. Todos os retornos graciosos de Cristo ao seu povo se originam dele mesmo. Não são eles, é a sua própria alma que o coloca nos carros do seu povo.

Pois ele é gracioso porque será gracioso e ama o seu Israel porque quis amá-los, não por causa deles, seja isso conhecido a eles.

III. Que ele, tendo retornado a ela, bondosamente cortejou o retorno dela a ele, apesar dos desânimos sob os quais labutava.

Que ela não desespere de obter tanto conforto quanto alguma vez tivera antes que essa distância acontecesse, mas tenha o conforto do retorno do seu amado, v. 13. Aqui:

  1. A igreja é chamada Sulamita, referindo-se ou a Salomão, o noivo em tipo, por cujo nome ela é chamada, em sinal da sua relação com ele e união com ele (assim os crentes são chamados cristãos a partir de Cristo), ou referindo-se a Salém, o lugar do seu nascimento e residência, como a mulher de Suném é chamada sunamita.

O céu é a Salém de onde os santos têm o seu nascimento e onde têm a sua cidadania. Aqueles que pertencem a Cristo e estão destinados ao céu serão chamados sulamitas.

  1. Ela é convidada a retornar, e o convite é reforçado com o maior fervor: “Retorna, retorna”; e novamente: “Retorna, retorna; recupera a paz que perdeste e desperdiçaste; volta à tua antiga compostura e alegria de espírito.”

Repare: os bons cristãos, depois de terem o seu conforto perturbado, às vezes são difíceis de apaziguar e precisam ser insistentemente persuadidos a retornar novamente ao seu descanso.

Assim como os pecadores rebeldes precisam ser chamados vez após vez (“Convertei-vos, convertei-vos, por que morrereis?”), assim os santos inquietos precisam ser chamados vez após vez: Convertam-se, convertam-se, por que definharão? “Por que estás abatida, ó minha alma?”

  1. Tendo retornado, é pedido que mostre o seu rosto: “Para que possamos olhar para ti”. Não vá mais com o seu rosto coberto como uma pranteadora.

Aqueles que fizeram as pazes com Deus levantem os seus rostos sem mancha (Jó 22:26); venham ousadamente ao seu trono da graça.

Cristo está satisfeito com a alegria e a confiança humilde do seu povo e quer que tenham uma aparência agradável.

“Deixe-nos olhar para você, não só eu, mas os santos anjos, que se alegram na consolação dos santos, assim como na conversão dos pecadores; não só eu, mas todas as filhas.”

Cristo e os crentes estão satisfeitos com a beleza da igreja.

  1. É dado um relato curto do que deve ser visto nela. É feita a pergunta: “O que vereis na Sulamita?” E é respondido: “Como se fosse a companhia de dois exércitos”:

(1.) Alguns pensam que ela dá esse relato de si mesma. É tímida para aparecer, não quer ser vista, não tendo, na sua própria avaliação, forma nem formosura.

Ai! Diz ela: “O que vocês verão na Sulamita? Nada digno de olharem, nada senão como se fosse a companhia de dois exércitos realmente empenhados, onde nada se vê senão sangue e matança.”

Os vigias a haviam golpeado e ferido, e ela trazia no seu rosto as marcas daquelas feridas, parecia ter estado lutando.

Ela dissera (Cantares de Salomão 1:6): “Não olheis para mim porque sou negra.” Aqui diz: Não olhem para mim porque estou ensanguentada.

Ou pode denotar a luta constante que há entre a graça e a corrupção nas almas dos crentes. Estão nelas como dois exércitos continuamente em escaramuças, o que a deixa envergonhada de mostrar o seu rosto.

(2.) Outros pensam que o seu amado dá o relato dela:

“Direi a vocês o que verão na Sulamita; verão uma visão tão nobre como a de dois exércitos, ou duas partes do mesmo exército, dispostos em fileiras e colunas; não só como um exército com estandartes, mas como dois exércitos, com uma majestade dupla em relação ao que foi dito antes.”

“Ela é como Maanaim, como os dois exércitos que Jacó viu (Gênesis 32:1, 2), um exército de santos e um exército de anjos ministrando aos santos; a igreja militante, a igreja triunfante.”

Eis dois exércitos; em ambos a igreja aparece bela.


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