Matthew Henry

Atos 8

Argumento

Neste capítulo temos um relato das perseguições aos cristãos e da propagação do cristianismo por meio delas. Era estranho, mas muito verdadeiro, que os discípulos de Cristo se multiplicavam tanto mais quanto mais eram afligidos.

I. Aqui está a igreja em sofrimento: por ocasião da execução de Estêvão, levantou-se uma tempestade muito violenta, que obrigou muitos a sair de Jerusalém, vv. 1-3.

II. Aqui está a igreja se espalhando pelo ministério de Filipe e de outros dispersos naquela ocasião. Temos aqui:

  1. O evangelho levado a Samaria, ali pregado (v. 4, 5) e recebido (vv. 6-8), até por Simão, o Mago (vv. 9-13); o dom do Espírito Santo conferido a alguns samaritanos crentes pela imposição das mãos de Pedro e João (vv. 14-17); e a severa repreensão de Pedro a Simão, o Mago, por oferecer dinheiro em troca do poder de conceder esse dom, vv. 18-25.

  2. O evangelho enviado à Etiópia pelo eunuco, pessoa de posição naquele país. Ele volta de Jerusalém para casa em seu carro, vv. 26-28. Filipe é enviado a ele e, no carro, lhe prega Cristo (vv. 29-35), batiza-o após sua profissão da fé cristã (vv. 36-38) e depois o deixa, v. 39, 40.

Assim, por caminhos e métodos diferentes, o evangelho se espalhou entre as nações e, de uma maneira ou de outra, porventura não ouviram todos?

Versículos 1 a 3

A Perseguição à Igreja.

Nestes versículos temos:

I. Algo mais sobre Estêvão e sua morte: como as pessoas reagiram a ela, de modos diversos, como geralmente acontece nesses casos, conforme as diferentes opiniões que têm dos fatos. Ao despedir-se dos seus discípulos, Cristo lhes dissera (João 16:20): “Vós chorareis e lamentareis, mas o mundo se alegrará”. Assim, aqui vemos:

  1. A morte de Estêvão celebrada por uma pessoa. Sem dúvida foi celebrada por muitas, mas por uma em particular: Saulo, depois chamado Paulo. Ele anuía à sua morte, syneudokon: anuía com prazer, como significa a palavra; ficou satisfeito com ela.

Alimentou os olhos com aquele espetáculo sangrento, esperando que detivesse o crescimento do cristianismo. Temos motivo para pensar que Paulo mandou Lucas incluir esse fato, para sua própria vergonha e para a glória da graça gratuita.

Assim, reconhece-se culpado pelo sangue de Estêvão e agrava a culpa ao admitir que não o fez com pesar e relutância, mas com prazer e plena satisfação, como os que não apenas fazem tais coisas, mas sentem prazer nos que as fazem.

  1. A morte de Estêvão lamentada por outros (v. 2): homens devotos. Alguns entendem que eram os chamados propriamente assim, os prosélitos, dos quais o próprio Estêvão provavelmente era um. Ou a expressão pode ter sentido mais amplo: alguns membros da igreja, mais devotos e zelosos que os demais, foram recolher os pobres restos esmagados e despedaçados.

Deram-lhes sepultura decorosa, provavelmente no campo de sangue, comprado algum tempo antes para sepultar estrangeiros. Sepultaram-no solenemente e fizeram grande lamentação por ele.

Embora a morte de Estêvão lhe trouxesse grande benefício pessoal e prestasse grande serviço à igreja, ainda assim lamentaram-na como perda geral. Era tão bem qualificado para o serviço e tão provável que fosse útil tanto como diácono quanto como debatedor. É mau sinal quando a retirada de homens assim não é levada ao coração.

Aqueles homens devotos prestaram a Estêvão suas últimas homenagens:

(1.) Para mostrar que não se envergonhavam da causa pela qual sofrera nem temiam a cólera dos inimigos dela. Pois, embora os inimigos agora triunfem, a causa é justa e, no fim, será vitoriosa.

(2.) Para mostrar o grande valor e estima que tinham por esse fiel servo de Jesus Cristo, este primeiro mártir do evangelho. Sua memória sempre lhes será preciosa, apesar da ignomínia da sua morte. Procuram honrar aquele a quem Deus honrara.

(3.) Para testemunhar sua fé e esperança na ressurreição dos mortos e na vida do mundo vindouro.

II. Um relato da perseguição à igreja iniciada com o martírio de Estêvão. A fúria dos judeus contra ele avançara com tanta violência e atingira tal intensidade que não poderia parar nem se esgotar depressa. Os sanguinários são muitas vezes chamados nas escrituras de sedentos de sangue: pois, depois de prová-lo, anseiam por mais.

Seria de esperar que as orações e as consolações de Estêvão ao morrer os tivessem vencido e derretido até formarem uma opinião melhor dos cristãos e do cristianismo. Parece, porém, que não foi assim: a perseguição continua.

Pois ficaram mais exasperados ao ver que nada conseguiam e, como se esperassem ser mais fortes que o próprio Deus, resolvem dar sequência ao golpe. E talvez, porque nenhum deles caíra morto ali mesmo por ter apedrejado Estêvão, seus corações estivessem ainda mais plenamente decididos a praticar o mal.

Talvez os discípulos também se sentissem com mais ousadia para debater com eles, como Estêvão fizera, ao verem quão triunfalmente ele completara sua carreira. Isso os provocaria ainda mais. Observe:

  1. Contra quem se levantou a perseguição: contra a igreja em Jerusalém, que mal é plantada e já é perseguida, assim como Cristo muitas vezes indicara que tribulação e perseguição surgiriam por causa da palavra.

E Cristo predissera em particular que Jerusalém logo se tornaria quente demais para seus seguidores, pois aquela cidade era famosa por matar os profetas e apedrejar os enviados a ela, Mateus 23:37.

Parece que muitos foram mortos nessa perseguição, pois Paulo reconhece que naquele tempo perseguiu este caminho até a morte (Atos 22:4) e que, quando eram mortos, deu seu voto contra eles (Atos 26:10).

  1. Quem nela atuou intensamente: ninguém foi tão zeloso nem tão ativo quanto Saulo, jovem fariseu, v. 3. Quanto a Saulo, mencionado duas vezes antes e agora outra vez como perseguidor notório, arrasava a igreja. Fazia tudo o que podia para devastá-la e arruiná-la; não se importava com os danos causados aos discípulos de Cristo nem sabia quando parar.

Visava nada menos que exterminar o Israel do evangelho, para que seu nome deixasse de ser lembrado, Salmos 83:4. Era o instrumento mais adequado que os principais sacerdotes poderiam encontrar para servir aos seus propósitos: delator-chefe contra os discípulos, mensageiro do grande Sinédrio encarregado de procurar reuniões e prender todos os suspeitos de favorecer aquele caminho.

Saulo recebera formação erudita e era homem de boa posição, e, ainda assim, não considerava indigno de si ser empregado no trabalho mais vil dessa espécie:

(1.) Entrava em todas as casas, sem criar dificuldade para arrombar portas de dia ou de noite, com uma força que o acompanhava para esse propósito. Entrava em toda casa onde os cristãos costumavam reunir-se, ou onde vivia algum cristão, ou onde se pensava que vivesse. Ninguém podia estar seguro na própria casa, embora ela fosse sua fortaleza.

(2.) Levava à força, com o maior desprezo e crueldade, tanto homens quanto mulheres, arrastando-os pelas ruas, sem consideração pela delicadeza do sexo mais fraco. Descia ao ponto de reparar até nos mais humildes que haviam sido levedados pelo evangelho, tamanho era seu fanatismo.

(3.) Lançava-os na prisão para que fossem julgados e mortos, a menos que renunciassem a Cristo. E encontramos que obrigou alguns a blasfemar, Atos 26:11.

  1. Qual foi o efeito dessa perseguição: “Todos foram dispersos” (v. 1), não todos os crentes, mas todos os pregadores, seus alvos principais, contra os quais haviam sido expedidos mandados de prisão.

Lembrando-se da regra do nosso Mestre, quando perseguirem vocês numa cidade, fujam para outra, dispersaram-se de comum acordo pelas regiões da Judeia e de Samaria. Não foi tanto por medo dos sofrimentos: Judeia e Samaria não ficavam tão longe de Jerusalém que o poder dos seus perseguidores não pudesse logo alcançá-los se aparecessem publicamente ali, como estavam decididos a fazer.

Mas dispersaram-se por considerarem a perseguição uma indicação da Providência para isso. Sua obra em Jerusalém estava razoavelmente bem feita, e agora era hora de pensar nas necessidades de outros lugares.

Pois seu Mestre lhes dissera que deviam ser suas testemunhas primeiro em Jerusalém, depois em toda a Judeia e em Samaria e, por fim, até os confins da terra (Atos 1:8). E observam esse método. Embora a perseguição não deva nos afastar da nossa obra, ainda assim pode enviar-nos, como indicação da Providência, a trabalhar em outro lugar.

Todos os pregadores foram dispersos, exceto os apóstolos. Provavelmente o Espírito os orientou a permanecer mais algum tempo em Jerusalém. A providência especial de Deus os abrigou da tempestade, e sua graça especial os capacitou a enfrentá-la.

Permaneceram em Jerusalém para estar prontos a ir aonde sua ajuda fosse mais necessária aos outros pregadores, enviados para quebrar o gelo. Assim Cristo ordenou que seus discípulos fossem aos lugares aonde ele próprio tinha como desígnio ir, Lucas 10:1.

Os apóstolos ficaram juntos em Jerusalém por mais tempo do que se esperaria, considerando a ordem e a comissão que receberam de ir ao mundo inteiro e fazer discípulos de todas as nações. Veja Atos 15:6; Gálatas 1:17. Mas aquilo que foi feito pelos evangelistas que enviaram foi considerado feito pelos apóstolos.

Versículos 4 a 13

A Propagação do Evangelho; o Êxito de Filipe.

O enigma de Sansão é decifrado outra vez: do comedor sai alimento e do forte, doçura. A perseguição destinada a extirpar a igreja tornou-se, pela providência de Deus que se sobrepõe a tudo, ocasião para sua expansão.

Cristo dissera: “Vim lançar fogo sobre a terra.” E eles pensaram que, ao dispersar os que haviam sido acesos por esse fogo, conseguiriam apagá-lo. Mas, em vez disso, apenas ajudaram a espalhá-lo.

I. Aqui temos um relato geral do que todos fizeram, v. 4: “Foram por toda parte pregando a palavra.” Não saíram para se esconder por medo de sofrer, não, nem para se exibir com orgulho por seus sofrimentos. Mas percorreram diversos lugares para espalhar o conhecimento de Cristo em cada região para a qual foram dispersos.

Foram por toda parte, pelo caminho dos gentios e às cidades dos samaritanos, aos quais antes tinham sido proibidos de ir, Mateus 10:5. Não permaneceram unidos num só corpo, embora isso pudesse ter sido uma força para eles. Mas dispersaram-se por todas as regiões, não para descansar, mas para procurar trabalho.

Saíram evangelizando o mundo e pregando a palavra do evangelho. Era ela que os enchia e com a qual procuravam encher toda a região: os que eram pregadores, com sua pregação; os demais, em seu convívio cotidiano.

Estavam agora num território onde não eram estranhos, pois Cristo e seus discípulos haviam tido muita comunhão nas regiões da Judeia. Assim, tinham ali um fundamento sobre o qual construir. E seria necessário fazer o povo saber no que resultara a doutrina pregada por Jesus naquele lugar algum tempo antes e que ela não se perdera nem fora esquecida, como talvez os tivessem levado a crer.

II. Um relato particular do que Filipe fez. Mais tarde, ouviremos falar do progresso e do êxito dos outros, Atos 11:19, mas agora devemos acompanhar os passos de Filipe. Não se trata do apóstolo Filipe, e sim do diácono Filipe, escolhido e ordenado para servir às mesas.

Depois de exercer bem o ofício de diácono, alcançou para si boa posição e grande ousadia na fé, 1 Timóteo 3:13. Estêvão foi elevado à condição de mártir; Filipe, à de evangelista. Ao assumir esta última, passou a ter de se dedicar à palavra e à oração e, sem dúvida, foi dispensado do ofício de diácono.

Pois como poderia servir às mesas em Jerusalém, obrigação daquele ofício, enquanto pregava em Samaria? E é provável que outros dois tenham sido escolhidos para substituir Estêvão e Filipe. Agora observe:

  1. O êxito extraordinário de Filipe em sua pregação e a recepção que encontrou:

(1.) O lugar escolhido foi a cidade de Samaria, a principal cidade e capital daquela região. Ficava onde antes se erguera a antiga cidade de Samaria, cuja construção lemos em 1 Reis 16:24, e agora se chamava Sebaste.

Alguns pensam que era a mesma cidade de Siquém, ou Sicar, a cidade de Samaria em que Cristo esteve, João 4:5. Muitos habitantes dali creram nele naquela ocasião, embora não tivesse feito entre eles nenhum milagre, João 4:39, 41. E agora, três anos depois, Filipe prossegue o trabalho então iniciado.

Os judeus não mantinham relações com os samaritanos, mas Cristo enviou seu evangelho para abater todas as inimizades, especialmente entre judeus e samaritanos, fazendo deles um só povo em sua igreja.

(2.) A doutrina que pregava era Cristo, pois havia resolvido não saber de nenhuma outra coisa. Pregava Cristo aos samaritanos; proclamava-lhes Cristo, como indica a palavra original, assim como um rei, ao receber a coroa, é proclamado por todos os seus domínios.

Os samaritanos esperavam a vinda do Messias, como mostra João 4:25. Agora Filipe lhes anuncia que ele veio e que os samaritanos são bem-vindos a ele. O trabalho dos ministros é pregar Cristo: Cristo, e ele crucificado; Cristo, e ele glorificado.

(3.) As provas que apresentou para confirmar sua doutrina foram milagres, v. 6. Para convencê-los de que sua comissão vinha do céu, de modo que não apenas poderiam confiar no que dizia, mas tinham o dever de aceitá-lo, Filipe lhes mostrou o selo manifesto do céu aposto à sua mensagem. O Deus da verdade jamais colocaria tal selo numa mentira.

Os milagres eram inegáveis: ouviram e viram os milagres que ele realizou. Ouviram as palavras de ordem que pronunciou e viram imediatamente seus efeitos espantosos: ele falou, e aconteceu. A natureza dos milagres correspondia à intenção de sua comissão e lhe dava clareza e brilho.

[1.] Fora enviado para quebrar o poder de Satanás. Como sinal disso, espíritos imundos, intimados em nome do Senhor Jesus a sair, deixaram muitos dos que estavam possuídos por eles, v. 7.

À medida que o evangelho prevalece, Satanás é obrigado a abrir mão de seu domínio sobre as pessoas e da influência que exerce nelas. Então, os que estavam perturbados enquanto ele os dominava recuperam o domínio de si e a lucidez.

Onde quer que o evangelho seja recebido e encontre a submissão que lhe é devida, os espíritos maus são expulsos. Em particular, são expulsos os espíritos imundos: todas as inclinações aos desejos da carne, que guerreiam contra a alma. Deus nos chamou da impureza para a santidade, 1 Tessalonicenses 4:7.

Isso foi representado pela expulsão desses espíritos imundos do corpo das pessoas. Como se diz aqui, saíam gritando em alta voz, sinal de que saíam com grande relutância, muito contra a própria vontade, mas eram forçados a reconhecer-se vencidos por um poder superior, Marcos 1:26; Marcos 3:11; Marcos 9:26.

[2.] Fora enviado para curar a mente das pessoas, sarar um mundo enfermo e pô-lo em bom estado de saúde. Como sinal disso, muitos paralíticos e coxos foram curados.

Essas enfermidades são especificadas por estarem entre as mais difíceis de curar pelos meios naturais, de modo que a cura milagrosa se destacasse ainda mais. Também eram as que melhor retratavam a doença do pecado e a impotência moral que aflige a alma humana para servir a Deus.

A graça de Deus no evangelho destina-se a curar os espiritualmente coxos e paralíticos, incapazes de ajudar a si mesmos, Romanos 5:6.

(4.) A acolhida que a doutrina de Filipe, assim comprovada, recebeu em Samaria, v. 6: “O povo, de comum acordo, dava atenção às coisas que Filipe falava.” Foram levados a isso pelos milagres, que serviram primeiro para ganhar sua atenção e, assim, pouco a pouco, sua concordância.

Começa a haver esperança para as pessoas quando passam a reparar no que lhes é dito a respeito de sua alma e da eternidade. Isso acontece quando passam a prestar atenção à palavra de Deus, com prazer em ouvi-la, desejo de compreendê-la e lembrá-la, e a consideram algo que lhes diz respeito.

O povo comum dava atenção a Filipe, oi ochloi: uma multidão deles, não apenas um ou outro, mas todos de comum acordo. Tinham a mesma opinião: a doutrina do evangelho merecia ser investigada e ouvida sem parcialidade.

(5.) A satisfação que tinham em acompanhar e ouvir a pregação de Filipe e o êxito dela entre muitos, v. 8: “Havia grande alegria naquela cidade.” Pois, v. 12, em sua maioria, tanto homens quanto mulheres creram em Filipe e foram batizados na fé de Cristo. Observe:

[1.] Filipe pregou as coisas referentes ao reino de Deus: sua constituição, suas leis e ordenanças, suas liberdades e privilégios, e as obrigações de todos nós de ser súditos leais desse reino. Pregou também o nome de Jesus Cristo como rei do reino, o nome que está acima de todo nome.

Pregou esse nome com todo o seu poder e influência de autoridade, tudo aquilo por meio do qual Jesus se deu a conhecer.

[2.] As pessoas não só prestaram atenção ao que Filipe dizia, mas por fim creram. Ficaram plenamente convencidas de que a mensagem vinha de Deus, não dos homens, e se entregaram à orientação e ao governo dela.

Quanto ao monte no qual até então tinham adorado a Deus e ao qual atribuíam tanta importância religiosa, agora se desprenderam dele com a mesma intensidade com que antes se apegavam a ele. Tornaram-se os verdadeiros adoradores, que adoram o Pai em espírito e em verdade, no nome de Cristo, o verdadeiro templo, João 4:20-23.

[3.] Quando creram, foram batizados sem hesitação, embora fossem samaritanos, e sem demora. Professaram publicamente a fé cristã, prometeram perseverar nela e, então, pela lavagem com água, foram solenemente admitidos à comunhão da igreja cristã e reconhecidos como irmãos pelos discípulos.

Somente homens podiam ser admitidos à igreja judaica pela circuncisão. Mas, para mostrar que em Jesus Cristo não há homem nem mulher, Gálatas 3:28, e que ambos são igualmente bem-vindos a ele, a ordenança de iniciação é tal que as mulheres também podem recebê-la. Elas são contadas entre o Israel espiritual de Deus, embora não entre o Israel segundo a carne, Números 1:2.

Daí se conclui facilmente que as mulheres devem ser admitidas à ceia do Senhor, embora não pareça que houvesse alguma delas entre as pessoas a quem ela foi administrada pela primeira vez.

[4.] Isso causou grande alegria. Cada um se alegrou por si mesmo, como o homem da parábola que encontrou o tesouro escondido no campo. E todos se alegraram pelo benefício que sua cidade recebeu e por ele ter vindo sem oposição, o que dificilmente teria acontecido se Samaria estivesse sob a jurisdição dos principais sacerdotes.

Repare: a chegada do evangelho a qualquer lugar é motivo justo de alegria, de grande alegria, para aquele lugar. Por isso, a propagação do evangelho pelo mundo é frequentemente anunciada no Antigo Testamento como a difusão da alegria entre as nações: “Alegrem-se as nações e cantem de júbilo”, Salmos 67:4; 1 Tessalonicenses 1:6.

O evangelho de Cristo não torna as pessoas melancólicas, mas as enche de alegria quando é recebido como deve ser, pois são boas notícias de grande alegria para todo o povo, Lucas 2:10.

  1. O que havia de particular naquela cidade de Samaria que tornou o êxito do evangelho ali ainda mais extraordinário que de costume:

(1.) Que Simão, o Mago, havia atuado ali e conquistado grande influência entre o povo. Ainda assim, eles creram nas coisas que Filipe lhes dizia. Desaprender o que é mau muitas vezes se mostra tarefa mais árdua do que aprender o que é bom.

Esses samaritanos não eram idólatras como os gentios nem tinham preconceito contra o evangelho por causa das tradições recebidas dos pais. Contudo, pouco antes haviam sido atraídos para seguir Simão, um feiticeiro, pois é isso que significa Magus. Ele fizera grande alarde entre eles e os enfeitiçara de maneira extraordinária. Somos informados:

[1.] Quão forte era a ilusão de Satanás pela qual foram levados a seguir os interesses desse grande enganador. Simão já estava naquela cidade havia algum tempo, ou melhor, havia muito tempo, praticando feitiçarias.

Talvez tivesse ido para lá por instigação do diabo logo depois da visita de nosso Salvador, para desfazer o que Jesus ali havia feito. Era sempre assim que Satanás procurava esmagar uma boa obra em seu broto e início, 2 Coríntios 11:3; 1 Tessalonicenses 3:5. Pois bem:

Primeiro, Simão reivindicava para si certa grandeza: anunciava que era alguém importante e queria que todos acreditassem nisso e o respeitassem de acordo. Quanto ao restante, podiam fazer o que lhes aprouvesse.

Não tinha nenhum desígnio de reformar a vida deles ou aperfeiçoar seu culto e devoção. Queria apenas fazê-los crer que era tis megas, alguma pessoa divina. Justino Mártir diz que queria ser adorado como proton theon, o deus supremo.

Ele se apresentava como o Filho de Deus, o Messias, segundo alguns pensam; ou como anjo ou profeta. Talvez o próprio Simão não soubesse bem que título de honra alegar para si. Queria, porém, ser considerado alguém importante. O orgulho, a ambição e a afetação de grandeza sempre causaram muitos danos tanto ao mundo quanto à igreja.

Segundo, o povo lhe atribuía tudo o que ele queria:

  1. Todos lhe davam atenção, do menor ao maior: tanto jovens quanto idosos, tanto pobres quanto ricos, tanto governantes quanto governados. Tinham-no em consideração, v. 10, 11, talvez ainda mais porque já se completara o tempo determinado para a vinda do Messias. Isso havia despertado a expectativa geral de que apareceria alguém importante por aqueles dias.

Provavelmente Simão era natural da região. Por isso o acolhiam de modo ainda mais entusiasmado, pois, ao honrá-lo, podiam refletir essa honra sobre si mesmos.

  1. Diziam a seu respeito: “Este homem é o grande poder de Deus”, ou “o poder de Deus, aquele grande poder”, como se poderia ler: o poder que criou o mundo.

Veja como as pessoas ignorantes e irrefletidas confundem o que é feito pelo poder de Satanás como se fosse feito pelo poder de Deus. Assim, no mundo gentio, demônios passam por divindades. No reino anticristão, todo o mundo se maravilha diante de uma besta à qual o dragão dá poder e que abre a boca em blasfêmias contra Deus, Apocalipse 13:2-5.

  1. Foram levados a isso pelas feitiçarias de Simão: ele enfeitiçou o povo de Samaria, v. 9, e o enfeitiçou com feitiçarias, v. 11. Isso significa uma de duas coisas:

(1.) Por suas artes mágicas, enfeitiçou a mente das pessoas, ao menos de algumas que atraíram as demais. Com a permissão de Deus, Satanás encheu-lhes o coração para seguirem Simão. “Ó insensatos gálatas”, diz Paulo, “quem vos enfeitiçou?”, Gálatas 3:1.

Diz-se que essas pessoas foram enfeitiçadas por Simão porque estavam extraordinariamente iludidas a ponto de crer numa mentira.

Ou, (2.) por suas artes mágicas, fez muitos sinais e prodígios mentirosos que pareciam milagres, mas de fato não eram. Eram como os sinais dos magos do Egito e os do homem do pecado, 2 Tessalonicenses 2:9.

Enquanto não conheciam coisa melhor, eram influenciados pelas feitiçarias de Simão. Ao conhecerem, porém, os verdadeiros milagres de Filipe, viram claramente que uns eram reais e os outros, uma fraude, e que a diferença entre eles era tão grande quanto entre a vara de Arão e as dos magos. “Que é a palha para o trigo?”, Jeremias 23:28.

Assim, apesar da influência que Simão, o Mago, exercera sobre eles e da resistência comum das pessoas a reconhecer e abandonar o próprio erro, os samaritanos, ao verem a diferença entre Simão e Filipe, deixaram o primeiro. Já não davam atenção a ele, mas a Filipe. E assim vocês veem:

[2.] Quão forte é o poder da graça Divina, pela qual foram conduzidos a Cristo, que é a própria verdade e, por assim dizer, o grande desenganador. Pela ação dessa graça junto com a palavra, os que haviam sido levados cativos por Satanás passaram a obedecer a Cristo.

Onde Satanás, como um homem forte e armado, guardava o palácio e julgava estar seguro, Cristo, mais forte que ele, expulsou-o e repartiu os despojos. Levou cativo o cativeiro e fez troféus de sua vitória aqueles sobre quem o diabo antes triunfava.

Não percamos a esperança nem quanto aos piores, pois até os que Simão, o Mago, enfeitiçara foram levados a crer.

(2.) Há aqui algo ainda mais extraordinário: o próprio Simão, o Mago, tornou-se convertido à fé em Cristo, ao menos na aparência e na profissão, por algum tempo. “Está também Saulo entre os profetas?” Sim, v. 13: “O próprio Simão também creu.”

Simão se convenceu de que Filipe pregava a verdadeira doutrina porque a viu confirmada por milagres autênticos. Podia avaliá-los melhor do que outros porque tinha consciência do truque por trás dos milagres que ele próprio alegava realizar.

[1.] O convencimento daquele momento chegou ao ponto de ele ser batizado e, como os demais crentes, admitido à igreja pelo batismo. E não temos motivo para pensar que Filipe tenha errado ao batizá-lo, não, nem ao fazê-lo depressa.

Embora Simão tivesse sido muito perverso, feiticeiro e alguém que alegava merecer honras divinas, ainda assim foi batizado depois de professar solenemente arrependimento pelo pecado e fé em Jesus Cristo.

Pois, assim como a grande maldade anterior à conversão não priva os verdadeiros arrependidos dos benefícios da graça de Deus, também não deve impedir de participar da comunhão da igreja aqueles que professam o arrependimento.

Os pródigos, quando voltam, devem ser recebidos em casa com alegria, embora não possamos ter certeza de que não voltarão a agir como pródigos. Ou melhor: embora Simão fosse então apenas um hipócrita e estivesse de fato, durante todo aquele tempo, no fel da amargura e no laço da iniquidade, ainda assim Filipe o batizou.

Se tivesse sido posto à prova por algum tempo, logo se teria descoberto quem ele era. Pois conhecer o coração é prerrogativa de Deus. A igreja e seus ministros devem julgar com caridade enquanto houver espaço para isso.

É uma máxima do direito: Donec contrarium patet, semper præsumitur meliori parti: devemos esperar o melhor enquanto pudermos. Outra máxima da disciplina da igreja diz: De secretis non judicat ecclesia: só Deus julga os segredos do coração.

[2.] O convencimento daquele momento durou o bastante para que Simão permanecesse com Filipe. Embora mais tarde tenha apostatado do cristianismo, ainda assim não o fez depressa. Procurou a companhia de Filipe, e agora aquele que se dizia alguém importante se contentava em sentar-se aos pés de um pregador do evangelho.

Até homens maus, muito maus, às vezes podem estar numa boa disposição, muito boa. E aqueles cujo coração continuamente se volta para a sua cobiça talvez não só compareçam perante Deus como seu povo comparece, mas também permaneçam com eles.

[3.] O convencimento daquele momento foi produzido e sustentado pelos milagres. Simão ficou maravilhado ao ver-se tão superado nos sinais e milagres. Muitos se maravilham com as provas das verdades divinas sem jamais experimentar o poder delas.

Versículos 14 a 25

O Relato de Simão, o Mago.

Deus havia reconhecido maravilhosamente Filipe como seu em sua obra de evangelista em Samaria, mas ele não podia fazer mais do que um evangelista. Alguns poderes particulares estavam reservados aos apóstolos, para manter a dignidade do seu ofício, e aqui temos o relato do que dois deles fizeram ali: Pedro e João.

Os doze permaneceram juntos em Jerusalém (v. 1), e até lá lhes chegaram as boas notícias de que Samaria havia recebido a palavra de Deus (v. 14), de que uma grande colheita de almas havia sido reunida, e provavelmente ainda seria reunida, para Cristo naquele lugar.

A palavra de Deus não apenas lhes foi pregada, mas também foi recebida por eles. Acolheram-na, admitiram sua luz e se submeteram ao seu poder: quando os apóstolos ouviram isso, enviaram-lhes Pedro e João. Se Pedro tivesse sido, como alguns dizem que foi, o príncipe dos apóstolos, teria enviado alguns deles ou, se tivesse visto motivo, teria ido por conta própria.

Mas ele estava tão longe disso que se submeteu a uma ordem do grupo e, como servo do corpo, foi aonde o enviaram. Dois apóstolos foram enviados, os dois mais eminentes, a Samaria: 1. Para animar Filipe, ajudá-lo e fortalecer suas mãos.

Os ministros que ocupam posição mais elevada e se destacam em dons e graças devem maquinar como podem ser úteis aos que atuam numa esfera inferior e contribuir para seu consolo e sua utilidade. 2. Para dar continuidade à boa obra iniciada entre o povo e, com as graças celestiais que os haviam enriquecido, conferir-lhes dons espirituais. Ora, observe:

I. Como fizeram avançar e fizeram progredir aqueles dentre eles que eram sinceros. Diz-se (v. 16) que o Espírito Santo ainda não havia descido sobre nenhum deles com os poderes extraordinários transmitidos pela descida do Espírito no dia de Pentecostes.

Nenhum deles havia recebido o dom de línguas, que parece ter sido então o efeito direto mais comum do derramamento do Espírito. Veja Atos 10:45, 46. Isso era tanto um sinal eminente para os que não criam quanto de excelente proveito para os que criam.

Esses e outros dons semelhantes eles não tinham; apenas haviam sido batizados em nome do Senhor Jesus e, assim, se comprometido com ele e obtido participação nele, o que era necessário para a salvação. Nisso tinham alegria e satisfação (v. 8), embora não pudessem falar em línguas.

Os que de fato se entregaram a Cristo e experimentaram as influências e operações santificadoras do Espírito da graça têm grandes motivos para agradecer e nenhum para se queixar, embora não tenham os dons que servem de ornamento e os fariam resplandecer.

Mas o desígnio é que prossigam até a perfeição da presente dispensação, para maior honra do evangelho. Temos motivos para pensar que o próprio Filipe havia recebido esses dons do Espírito Santo, mas não tinha poder para conferi-los. Os apóstolos precisavam vir para fazer isso.

E não o fizeram a todos os batizados, mas a alguns deles e, ao que parece, àqueles destinados a algum ofício na igreja ou, pelo menos, a ser membros eminentes e ativos dela. E a alguns deram um dom do Espírito Santo; a outros, outro. Veja 1 Coríntios 12:4, 8; 14:26. Para isso:

  1. Os apóstolos oraram por eles, v. 15. O Espírito é dado não apenas a nós mesmos (Lucas 11:13), mas também a outros, em resposta à oração: “Porei dentro de vós o meu Espírito” (Ezequiel 36:27), mas “por isto serei buscado”, Ezequiel 36:37.

Podemos tirar ânimo desse exemplo para orar a Deus que dê as graças renovadoras do Espírito Santo àqueles cujo bem-estar espiritual nos preocupa: nossos filhos, nossos amigos, nossos ministros. Devemos orar, e orar fervorosamente, para que recebam o Espírito Santo, pois isso inclui todas as bênçãos.

  1. Impuseram-lhes as mãos, para indicar que suas orações haviam sido atendidas e que o dom do Espírito Santo lhes havia sido conferido; pois, ao empregar esse sinal, eles receberam o Espírito Santo e falaram em línguas.

Antigamente, a imposição de mãos era usada na bênção por aqueles que abençoavam com autoridade. Assim os apóstolos abençoaram esses novos convertidos, ordenaram alguns como ministros e confirmaram outros em seu cristianismo.

Hoje nós não podemos, nem ninguém pode, dar assim o Espírito Santo mediante a imposição de mãos; mas isso pode nos indicar que devemos empregar nossos esforços em favor daqueles por quem oramos.

II. Como descobriram e rejeitaram aquele que era hipócrita entre eles: Simão, o Mago. Pois sabiam separar o precioso do vil. Ora, observe aqui:

  1. A proposta perversa que Simão fez, pela qual se descobriu sua hipocrisia (v. 18, 19): Quando viu que, pela imposição das mãos dos apóstolos, o Espírito Santo era dado (o que deveria ter confirmado sua fé na doutrina de Cristo e aumentado sua veneração pelos apóstolos), passou a ver o cristianismo como nada além de uma forma elevada de feitiçaria.

Achou-se capaz de igualar-se aos apóstolos e, por isso, ofereceu-lhes dinheiro, dizendo: “Dai-me também esse poder”. Ele não deseja que lhe imponham as mãos para que ele próprio receba o Espírito Santo (pois não previa que pudesse ganhar alguma coisa com isso), mas que lhe transmitam o poder de conceder o dom a outros.

Ambicionava a honra de um apóstolo, mas não tinha preocupação alguma em possuir o espírito e a disposição de um cristão. Desejava mais obter honra para si do que fazer o bem a outros. Ora, ao apresentar essa proposta:

(1.) Insultou gravemente os apóstolos, como se fossem homens mercenários, dispostos a fazer qualquer coisa por dinheiro, e como se o amassem tanto quanto ele. Eles, porém, haviam deixado o que possuíam por Cristo; tão longe estavam de procurar acumular mais.

(2.) Insultou gravemente o cristianismo, como se os milagres realizados para comprová-lo fossem praticados mediante artes mágicas, apenas de natureza diferente daquelas que ele próprio havia praticado antes. (3.) Mostrou que, como Balaão, visava às recompensas da adivinhação, pois não teria oferecido dinheiro por esse poder se não esperasse ganhar dinheiro com ele.

(4.) Mostrou que tinha uma opinião muito elevada de si mesmo e que seu coração nunca havia sido humilhado na verdade. Um miserável como ele fora antes do batismo deveria ter pedido, como o filho pródigo, para ser feito como um dos empregados.

Mas, tão logo é admitido na família, nada menos que o lugar de um dos administradores da casa lhe serve; quer que lhe confiem um poder que nem o próprio Filipe tinha, mas apenas os apóstolos.

  1. A justa rejeição da proposta e a censura cortante que Pedro lhe dirigiu por causa dela, vv. 20-23:

(1.) Pedro lhe mostra seu crime (v. 20): “Pensaste que o dom de Deus pode ser comprado com dinheiro”. Com isso:

[1.] Ele havia atribuído valor excessivo à riqueza deste mundo, como se fosse equivalente a qualquer coisa e como se, porque, conforme diz Salomão, ela atende a tudo o que diz respeito à vida presente, também atendesse a tudo o que diz respeito à outra vida e pudesse comprar o perdão dos pecados, o dom do Espírito Santo e a vida eterna.

[2.] Havia dado pouco valor ao dom do Espírito Santo, pondo-o no mesmo nível dos dons comuns da natureza e da providência. Pensou que o poder de um apóstolo poderia ser obtido mediante boa remuneração tão facilmente quanto o conselho de um médico ou advogado; esse era o maior ultraje que se podia fazer ao Espírito da graça.

Toda a compra e venda de perdões e indulgências na igreja de Roma nasce desse mesmo pensamento perverso: o de que o dom de Deus pode ser comprado com dinheiro, quando a oferta da graça divina diz tão expressamente: “Sem dinheiro e sem preço”.

(2.) Pedro lhe mostra seu caráter, que se deduz de seu crime. Não podemos inferir, de tudo o que um homem diz ou faz de errado, que seja hipócrita na profissão de fé que faz; mas a falta de Simão era um erro tão fundamental que não podia, de modo algum, coexistir com um estado de graça.

Sua oferta de dinheiro (obtido, além disso, pela feitiçaria) era prova incontestável de que ainda estava sob o poder de uma mente mundana e carnal, e ainda era o homem natural que não recebe as coisas do Espírito de Deus, nem as pode conhecer. Por isso, Pedro lhe diz claramente:

[1.] Que seu coração não era reto diante de Deus, v. 21. “Embora professes crer e estejas batizado, ainda assim não és sincero.” Somos o que nossos corações são. Se eles não forem retos, nós estamos errados; e os nossos corações estão abertos diante de Deus, que os conhece, os julga e por eles nos julga.

Nossos corações são aquilo que são diante de Deus, que não pode ser enganado. E, se não forem retos aos olhos dele, quaisquer que sejam nossas alegações, nossa religião é vã e de nada nos valerá. Nossa grande preocupação é mostrar-nos íntegros diante dele; do contrário, aplicamos um embuste a nós mesmos para nossa própria ruína.

Alguns relacionam isso especificamente à proposta que ele fez: o que pediu lhe foi negado porque, ao pedi-lo, seu coração não é reto diante de Deus. Ele não visa à glória de Deus nem à honra de Cristo nisso, mas obter vantagem para si; ele pede e não recebe porque pede mal, para gastar em seus desejos e continuamente ser considerado alguém importante.

[2.] Que está em fel de amargura e em laço de iniquidade: Percebo que você está assim, v. 23. Essa é uma maneira franca de tratar o assunto, e a franqueza é o melhor modo quando lidamos com almas e eternidade. Simão havia conquistado grande nome entre o povo e, ultimamente, até bom nome entre o povo de Deus; contudo, Pedro lhe atribui aqui um caráter sombrio.

Repare: é possível que alguém continue sob o poder do pecado e, ainda assim, assuma uma forma de piedade. Percebo isso, diz Pedro. Não foi tanto pelo espírito de discernimento de que Pedro era dotado que ele percebeu isso, mas pelo fato de Simão ter revelado seu caráter na proposta que fez.

Repare: muitas vezes os disfarces dos hipócritas logo são descobertos; a natureza do lobo se manifesta apesar da cobertura da pele de ovelha. Ora, o caráter que aqui se atribui a Simão é realmente o caráter de todos os perversos.

Primeiro, estão em fel de amargura: são odiosos a Deus, como nos é odioso aquilo que é amargo como o fel. O pecado é coisa abominável, que o Senhor odeia, e os pecadores se tornam abomináveis para ele por causa do pecado; são viciosos em sua própria natureza.

O pecado que habita neles é raiz de amargura, que produz fel e absinto, Deuteronômio 29:18. Suas faculdades estão corrompidas, e sua mente está amargurada contra todo bem, Hebreus 12:15. Isso também indica as consequências perniciosas do pecado: o fim é amargo como o absinto.

Segundo, estão em laço de iniquidade: sujeitos ao juízo de Deus pela culpa do pecado e presos sob o domínio de Satanás pelo poder do pecado; levados cativos por ele segundo a sua vontade. É uma servidão dolorosa, como a do Egito, que torna amarga a vida.

(3.) Ele lhe anuncia sua condenação em duas coisas:

[1.] Perecerá com sua riqueza mundana, à qual atribuiu valor excessivo: “Teu dinheiro pereça contigo”. Primeiro, com isso Pedro rejeita sua oferta com o máximo desdém e indignação: “Pensas que podes subornar-nos para que traiamos a confiança recebida e ponhamos o poder que nos foi confiado em mãos tão indignas?”

“Afasta-te, e leva também o teu dinheiro; não queremos nada com nenhum dos dois. Vai-te para trás de mim, Satanás.” Quando somos tentados a fazer o mal por dinheiro, devemos enxergar quanto o dinheiro é perecível e desprezar sua influência. É próprio do homem reto sacudir as mãos para não segurar nem tocar em subornos, Isaías 33:15.

Segundo, ele o avisa do perigo de destruição completa se persistir nessa disposição: “Teu dinheiro perecerá; tu o perderás e perderás tudo o que podes comprar com ele. Como os alimentos são para o ventre e o ventre para os alimentos (1 Coríntios 6:13), assim os bens são para o dinheiro e o dinheiro para os bens; mas Deus destruirá tanto este quanto aqueles: perecem com o uso.”

“Mas isso não é o pior: tu perecerás com ele, e ele contigo.”

“Agravará tua ruína e será um pesado fardo para tua alma que perece o fato de teres possuído dinheiro que poderia ter sido bem empregado (Lucas 16:9). Poderia ter sido depositado aos pés dos apóstolos como caridade e teria sido aceito; mas foi posto em suas mãos como suborno e rejeitado. Filho, lembra-te disso.”

[2.] Ficará privado das bênçãos espirituais às quais deu pouco valor (v. 21): “Não tens parte nem sorte neste assunto; nada tens a ver com os dons do Espírito Santo.”

“Não os compreendes, estás excluído deles e puseste uma tranca à tua própria porta. Não podes receber tu mesmo o Espírito Santo nem o poder de conferir o Espírito Santo a outros.”

“Pois teu coração não é reto diante de Deus, se pensas que o cristianismo é um negócio do qual se vive neste mundo; portanto, não tens parte nem sorte na vida eterna do outro mundo que o evangelho oferece.”

Repare, primeiro: há muitos que professam a religião cristã e, ainda assim, não têm parte nem sorte nesse assunto; não têm parte em Cristo (João 13:8) nem sorte na Canaã celestial. Segundo: são aqueles cujos corações não são retos diante de Deus, não são animados por um espírito reto, guiados por uma regra reta nem dirigidos ao fim correto.

(4.) Apesar disso, ele lhe dá um bom conselho, v. 22. Embora estivesse irado com ele, ainda assim não o abandonou; e, embora quisesse que visse como era muito má sua situação, ainda assim não queria que a julgasse desesperadora: ainda agora há esperança em Israel. Observe:

[1.] O que o aconselha a fazer: deve praticar suas primeiras obras. Primeiro, deve arrepender-se: reconhecer seu erro e retratar-se dele, mudar sua mente e seu caminho, humilhar-se e envergonhar-se do que fez. Seu arrependimento deve ser específico: “Arrepende-te disso, reconhece tua culpa nisso e entristece-te por isso.”

Deve atribuir grande peso a essa culpa; não deve atenuá-la chamando-a de equívoco ou zelo mal orientado, mas agravá-la chamando-a de perversidade, sua perversidade, fruto de sua própria corrupção. Os que disseram e fizeram o que era errado devem, tanto quanto puderem, desdizer e desfazer tudo pelo arrependimento.

Segundo, deve orar a Deus, pedir que Deus lhe conceda arrependimento e, após o arrependimento, perdão. Os penitentes devem orar, o que pressupõe desejo por Deus e confiança em Cristo.

Simão, o Mago, por maior homem que se julgue, não será cortejado para entrar na comunhão dos apóstolos (por mais que alguns considerassem isso um motivo de prestígio para eles) sob condições diferentes das impostas a outros pecadores: arrependimento e oração.

[2.] O ânimo que Pedro lhe dá para fazer isso: “Se porventura te seja perdoado o pensamento do teu coração”, esse pensamento perverso. Repare, primeiro: pode haver muita perversidade no pensamento do coração, em suas noções falsas, afeições corrompidas e planos perversos. É preciso arrepender-se de tudo isso, ou estaremos perdidos.

Segundo, o pensamento do coração, por mais perverso que seja, será perdoado mediante nosso arrependimento e não será lançado em nossa conta. Quando Pedro diz aqui “porventura”, a dúvida é quanto à sinceridade do arrependimento de Simão, não quanto ao seu perdão, caso ele se arrependa sinceramente.

Se de fato o pensamento do seu coração puder ser perdoado, assim pode ser lido. Ou isso indica que a gravidade de seu pecado podia, com justiça, tornar o perdão duvidoso, embora a promessa do evangelho tivesse eliminado a dúvida caso ele na verdade se arrependesse. É como naquela passagem (Lamentações 3:29): “Se porventura houver esperança”.

[3.] O pedido de Simão para que orem por ele, v. 24. Ele ficou sobressaltado e confuso com as palavras de Pedro, ao ver recebido com tanta indignação o que julgava que acolheriam de braços abertos. Então exclama: “Rogai vós ao Senhor por mim, para que nada do que dissestes venha sobre mim”.

Havia aqui, primeiro, algo bom: a censura que lhe foi dada o afetou, e a descrição de seu caráter o aterrorizou, o suficiente para fazer tremer o coração mais obstinado. Por isso pediu que os apóstolos orassem por ele, desejando ter participação nas orações daqueles que, segundo cria, tinham grande acesso ao céu.

Segundo, faltava alguma coisa. Pediu que orassem por ele, mas não orou por si mesmo, como deveria ter feito. Ao lhes pedir orações, estava mais preocupado em evitar os juízos aos quais se tornara sujeito do que em mortificar suas corrupções e ter seu coração endireitado diante de Deus pela graça divina.

Era como Faraó, que pediu a Moisés que rogasse ao Senhor por ele para afastar somente aquela morte, não para afastar aquele pecado, a dureza do coração, Êxodo 8:8; 10:17.

Alguns pensam que Pedro havia anunciado contra ele certos juízos, como contra Ananias e Safira, os quais, por causa dessa submissão e da intercessão do apóstolo, foram evitados. Ou, pelo que se relata, Simão podia inferir que algum sinal da cólera de Deus cairia sobre ele; por isso o temeu e pediu que fosse afastado.

Por fim, temos o retorno dos apóstolos a Jerusalém, quando terminaram a tarefa para a qual tinham vindo, pois ainda não deviam dispersar-se. Mas, embora tivessem vindo para realizar aquela obra peculiar a eles como apóstolos, ainda assim aproveitaram a oportunidade para dedicar-se à obra comum a todos os ministros do evangelho.

  1. Ali, na cidade de Samaria, eram pregadores: deram testemunho da palavra do Senhor, atestaram solenemente a verdade do evangelho e confirmaram o que os outros ministros pregavam. Não alegaram trazer-lhes coisa nova, embora fossem apóstolos, mas deram testemunho da palavra do Senhor como a haviam recebido.

  2. No caminho de volta, eram pregadores itinerantes: ao passarem por muitas aldeias dos samaritanos, pregaram o evangelho. Embora as congregações dali não fossem tão importantes quanto as das cidades, ou em número ou em posição, ainda assim suas almas eram igualmente preciosas, e os apóstolos não consideraram indigno de si pregar-lhes o evangelho.

Deus tem consideração pelos habitantes de suas aldeias em Israel (Juízes 5:11), e assim devemos nós ter.

Versículos 26 a 40

Filipe e o Etíope.

Temos aqui a história da conversão de um eunuco etíope à fé de Cristo. Temos motivo para pensar que por ele o conhecimento de Cristo foi enviado ao país onde vivia, cumprindo-se aquela passagem: “A Etiópia em breve estenderá suas mãos”, uma das primeiras entre as nações, “a Deus”, Salmos 68:31.

I. Filipe, o evangelista, é dirigido à estrada onde encontraria esse etíope, v. 26. Quando as igrejas em Samaria foram estabilizadas e lhes foram designados ministros, os apóstolos voltaram a Jerusalém. Mas Filipe permanece, esperando ser empregado em desbravar terreno novo no país. E aqui temos:

  1. A orientação que lhe foi dada por um anjo, provavelmente num sonho ou numa visão noturna, sobre o rumo a tomar: “Levanta-te e vai para o sul”. Embora os anjos não fossem empregados para pregar o evangelho, eram frequentemente empregados em levar mensagens aos ministros para conselho e ânimo, como em Atos 5:19.

Agora não podemos esperar tais guias em nosso caminho. Mas, sem dúvida, há uma providência especial de Deus que se ocupa das mudanças e da estabilidade dos ministros. De um modo ou de outro, ele dirigirá os que sinceramente desejam segui-lo ao caminho em que os reconhecerá como seus: ele os guiará com seu olho.

Filipe deve ir para o sul, à estrada que leva de Jerusalém a Gaza, através do deserto ou região erma de Judá. Nunca teria pensado em ir para lá, a um deserto, a uma estrada comum através do deserto. Pouca probabilidade de encontrar trabalho lá!

Ainda assim, para lá é enviado, segundo a parábola do nosso Salvador que prediz o chamado dos gentios: vão aos caminhos e às cercas, Mateus 22:9. Às vezes Deus abre aos seus ministros uma porta de oportunidade em lugares muito improváveis.

  1. Sua obediência a essa orientação (v. 27): “Levantou-se e foi”, sem objetar, nem sequer perguntar: “Que ocupação tenho lá?” Ou: “Que probabilidade há de fazer o bem lá?” Saiu sem saber para onde ia ou quem encontraria.

II. É dado um relato desse eunuco (v. 27), de quem era e do que era, a quem esse favor distintivo foi concedido:

  1. Era estrangeiro, um homem da Etiópia. Havia duas Etiópias, uma na Arábia, mas essa ficava a leste de Canaã. Ao que parece, esta era a Etiópia na África, ao sul, além do Egito, muito distante de Jerusalém.

Pois em Cristo os que estavam longe foram aproximados, segundo a promessa de que os confins da terra veriam a grande salvação.

Os etíopes eram considerados os mais humildes e desprezíveis entre as nações, mouros negros, como se a natureza os tivesse estigmatizado. Ainda assim, o evangelho lhes é enviado, e a graça divina olha para eles, embora sejam negros, embora o sol tenha olhado para eles.

  1. Era pessoa de posição, grande homem em seu próprio país, eunuco não no corpo, mas no cargo: camareiro-mor ou administrador da casa.

E, ou pela dignidade do seu posto ou pelo seu caráter pessoal, que impunha respeito, era homem de grande autoridade e exercia enorme influência sob Candace, rainha dos etíopes. Provavelmente ela era sucessora da rainha de Sabá, chamada rainha do sul.

Aquele país era governado por rainhas, para as quais Candace era nome comum, como Faraó para os reis do Egito. Tinha a seu cargo todo o tesouro dela; tão grande confiança ela depositava nele. Não muitos poderosos, não muitos nobres são chamados; mas alguns são.

  1. Era prosélito da religião judaica, pois veio a Jerusalém para adorar. Alguns pensam que era prosélito da justiça, circuncidado, que guardava as festas. Outros, que era apenas prosélito da porta, um gentio que, porém, havia renunciado à idolatria e ocasionalmente adorava o Deus de Israel no pátio dos gentios.

Mas, se assim fosse, então Pedro não teria sido o primeiro a pregar o evangelho aos gentios, como diz que foi. Alguns pensam que havia vestígios do conhecimento do verdadeiro Deus nesse país desde o tempo da rainha de Sabá. E provavelmente o antepassado desse eunuco era um dos acompanhantes dela, que transmitiu à sua posteridade o que aprendeu em Jerusalém.

III. Filipe e o eunuco são reunidos numa íntima comunhão. Agora Filipe conhecerá o significado de ser enviado a um deserto, pois lá encontra um carro que servirá de sinagoga e um homem cuja conversão será, na prática, pelo que sabe, a conversão de uma nação inteira:

  1. Filipe recebe ordem de juntar-se a esse viajante que vai de Jerusalém para casa, em direção a Gaza, julgando ter cumprido toda a ocupação da sua viagem, quando a grande ocupação que a providência de Deus, que se sobrepõe a tudo, tinha como desígnio nela estava ainda por fazer.

Estivera em Jerusalém, onde os apóstolos pregavam a fé cristã e multidões a professavam. Ainda assim, lá não havia reparado nela nem feito perguntas a seu respeito; ou melhor: ao que parece, a havia desdenhado e lhe virado as costas. Ainda assim, a graça de Deus o persegue, alcança-o no deserto e lá o vence.

Assim, Deus é frequentemente encontrado pelos que não o buscavam, Isaías 65:1. Filipe recebe essa ordem não por um anjo, como antes, mas pelo Espírito que lhe sussurra ao ouvido (v. 29): “Aproxima-te e junta-te a este carro”; chegue tão perto que esse cavalheiro possa reparar em você.

Devemos estudar como fazer o bem aos que encontramos em nossa companhia pela estrada: assim os lábios do justo podem alimentar muitos. Não devemos ser tão retraídos com todos os desconhecidos como alguns afetam ser. Daqueles de quem não sabemos nada mais, sabemos isto: têm almas.

  1. Encontra-o lendo sua Bíblia, sentado no seu carro (v. 28). Correu até ele e o ouviu ler. Lia em voz alta, em benefício dos que estavam com ele, v. 30.

Não só aliviava o tédio da viagem, mas remia o tempo pela leitura, não de filosofia, história ou política, muito menos de um romance ou peça teatral, mas das Escrituras, do livro de Isaías. Cristo leu nesse livro (Lucas 4:17), e aqui o eunuco, o que deveria recomendá-lo particularmente à nossa leitura.

Talvez o eunuco estivesse então relendo aquelas porções das Escrituras que ouvira ler e explicar em Jerusalém, para que pudesse recordar o que ouvira. Repare:

(1.) É dever de cada um de nós ter muita comunhão com as santas Escrituras.

(2.) Pessoas de posição devem abundar mais que outras nos exercícios de piedade, pois seu exemplo influenciará muitos, e têm mais domínio sobre seu tempo.

(3.) É sabedoria para homens ocupados remir tempo para os deveres santos. O tempo é precioso, e a melhor administração do mundo é recolher os fragmentos de tempo, para que nenhum se perca, preenchendo cada minuto com algo que produza bom proveito.

(4.) Ao voltarmos do culto público, devemos usar meios em particular para manter as boas afeições ali acesas e preservar as boas impressões ali feitas, 1 Crônicas 29:18.

(5.) Os diligentes em explorar as Escrituras estão em bom caminho para progredir em conhecimento, pois àquele que tem será dado.

  1. Faz-lhe uma pergunta justa: “Entendes o que lês?” Não para desacreditá-lo, mas com o desígnio de lhe oferecer seu serviço. Repare: É de grande interesse para nós entender o que lemos e ouvimos da palavra de Deus, especialmente o que lemos e ouvimos a respeito de Cristo.

Por isso devemos frequentemente perguntar a nós mesmos se entendemos ou não: “Entendestes todas estas coisas?”, Mateus 13:51. E vocês as entenderam corretamente? Não podemos tirar proveito das Escrituras sem entendê-las em alguma medida, 1 Coríntios 14:16, 17. E, bendito seja Deus, o que é necessário à salvação é fácil de entender.

  1. O eunuco, sentindo sua necessidade de auxílio, deseja a companhia de Filipe (v. 31): Como posso entender, diz ele, sem que alguém me guie? Por isso, por favor, suba e sente-se comigo:

(1.) Fala como alguém que tinha uma opinião muito baixa de si mesmo, da sua própria capacidade e dos conhecimentos que havia adquirido.

Estava tão longe de considerar uma afronta que lhe perguntassem se entendia o que lia, embora Filipe fosse desconhecido, estivesse a pé e provavelmente tivesse aparência modesta, que recebe a pergunta com bondade e dá uma resposta muito modesta: “Como posso?”

Muitos homens de menor importância teriam considerado aquilo uma afronta, chamado Filipe de sujeito impertinente e mandado que cuidasse da própria ocupação: o que ele tinha com isso?

Temos motivo para pensar que era homem inteligente e tão familiarizado com o significado das Escrituras quanto a maioria. Ainda assim, confessa modestamente sua fraqueza. Repare: Os que desejam aprender devem ver sua necessidade de receber ensino.

O profeta deve primeiro reconhecer que não sabe o que são essas coisas, e então o anjo lhe dirá, Zacarias 4:13.

(2.) Fala como alguém muito desejoso de receber ensino, de ter alguém que o guie. Observe: Lia as Escrituras, embora houvesse nelas muitas coisas que não entendia.

Embora haja nas Escrituras muitas coisas obscuras e árduas de entender, ou melhor: frequentemente mal compreendidas, ainda assim não devemos por isso deixá-las de lado. Mas devemos estudá-las por causa das coisas fáceis, o caminho mais provável para chegarmos gradualmente a entender as difíceis. Pois o conhecimento e a graça crescem gradualmente.

(3.) Convidou Filipe a subir e sentar-se com ele. Não como Jeú levou Jonadabe para seu carro, para vir ver seu zelo pelo Senhor dos Exércitos (2 Reis 10:16), mas antes: Venha, veja minha ignorância e me instrua.

De bom grado dará a Filipe a honra de recebê-lo consigo no carro, se Filipe lhe fizer o favor de explicar uma porção das Escrituras. Repare: Para entendermos corretamente as Escrituras, é necessário termos alguém que nos guie: alguns bons livros e alguns bons homens, mas, acima de tudo, o Espírito da graça, para nos conduzir a toda a verdade.

IV. A porção das Escrituras que o eunuco recitou, com algumas indicações do discurso de Filipe sobre ela. Os pregadores do evangelho tinham um ótimo ponto de apoio para alcançar os familiarizados com as Escrituras do Antigo Testamento e que as recebiam, especialmente ao encontrá-los ocupados de fato em estudá-las, como o eunuco aqui:

  1. O capítulo que lia era o quinquagésimo terceiro de Isaías, do qual dois versículos são citados aqui (v. 32, 33), parte do sétimo e oitavo versículos. São apresentados segundo a versão dos Setenta, que em algumas coisas difere do hebraico original.

Grócio pensa que o eunuco o lia em hebraico, mas que Lucas toma a tradução dos Setenta por ser mais adequada à língua em que escreveu. E supõe que o eunuco havia aprendido, com os muitos judeus que estavam na Etiópia, tanto sua religião quanto sua língua.

Mas, considerando que a versão dos Setenta foi feita no Egito, país vizinho à Etiópia, situado entre ela e Jerusalém, penso antes que essa tradução era a mais familiar para ele. Parece, por Isaías 20:4, que havia muita comunicação entre essas duas nações: Egito e Etiópia.

A maior diferença em relação ao hebraico é que o que no original está como “Foi levado da prisão e do juízo”, aqui se lê como: “Em sua humilhação seu juízo foi tirado”. Foi arrastado com a maior violência e precipitação de um tribunal a outro.

Ou: “Da força e do juízo foi levado”. Isto é, foi pela fúria do povo, por seus clamores contínuos e pelo juízo de Pilatos em consequência disso que foi levado.

Apareceu tão humilde e desprezível aos olhos deles que lhe negaram a justiça comum. Contra todas as regras da equidade, a cujo benefício todo homem tem direito, declararam-no inocente e, ainda assim, o condenaram à morte.

Nada criminoso se pode provar contra ele, mas ele está por baixo, e abaixo com ele! Assim, em sua humilhação, seu juízo foi tirado. Portanto, o sentido é muito semelhante ao do hebraico. De modo que esses versículos predisseram a respeito do Messias:

(1.) Que morreria, seria levado ao matadouro, como ovelhas oferecidas em sacrifício; que sua vida seria tirada do meio dos homens, tirada da terra.

Com quão pouco motivo, então, a morte de Cristo foi pedra de tropeço para os judeus incrédulos, quando foi tão claramente predita por seus próprios profetas e tão necessária à realização do seu empreendimento! Então cessa a ofensa da cruz.

(2.) Que morreria injustamente, morreria por violência, seria arrancado da sua vida, e seu juízo seria tirado: nenhuma justiça lhe seria feita, pois deve ser cortado, mas não por si mesmo.

(3.) Que morreria pacientemente. Como um cordeiro mudo diante do tosquiador, ou melhor: também diante do açougueiro, assim não abriu sua boca. Nunca houve tal exemplo de paciência como nosso Senhor Jesus em seus sofrimentos: quando foi acusado, quando foi maltratado, ficou em silêncio, não vituperou em resposta, não ameaçou.

(4.) Que, ainda assim, viveria para sempre, por eras que não podem ser contadas, pois assim entendo aquelas palavras: “Quem declarará sua geração?” A palavra hebraica propriamente significa a duração de uma vida, Eclesiastes 1:4.

Ora, quem pode conceber ou expressar por quanto tempo continuará, apesar disso? Pois sua vida é tirada apenas da terra; no céu viverá por eras sem fim e incontáveis, como segue em Isaías 53:10: “Prolongará seus dias”.

  1. A pergunta do eunuco sobre isso é: “De quem o profeta diz isto?”, v. 34. Não deseja que Filipe lhe faça algumas observações críticas sobre as palavras e frases e os modos de expressão da língua, mas que o familiarize com o sentido geral e o desígnio da profecia.

Que lhe forneça uma chave, no uso da qual, comparando uma coisa com outra, possa ser levado ao significado da passagem em particular. As profecias geralmente tinham em si alguma obscuridade, até serem explicadas por seu cumprimento, como esta agora foi.

Faz uma pergunta importante e muito ponderada: O profeta diz isso de si mesmo, na expectativa de ser tratado, ser maltratado, como foram os outros profetas? Ou diz isso de algum outro homem, em sua própria época ou em alguma época futura?

Embora os judeus modernos não consintam em que se fale do Messias, ainda assim seus antigos doutores o interpretaram assim. E talvez o eunuco soubesse disso e ele próprio entendesse em parte dessa maneira. Apenas propôs essa pergunta para iniciar um discurso com Filipe, pois o caminho para progredir no aprendizado é consultar os instruídos.

Assim como devem buscar a lei na boca dos sacerdotes (Malaquias 2:7), assim devem buscar o evangelho na boca dos ministros de Cristo, especialmente aquela parte do tesouro que está escondida no campo do Antigo Testamento. O caminho para receber boas instruções é fazer boas perguntas.

  1. Filipe aproveita essa boa ocasião que lhe foi dada para lhe abrir o grande mistério do evangelho a respeito de Jesus Cristo, e dele crucificado. Começou por essa passagem, tomou-a por seu texto, como Cristo tomou outra passagem da mesma profecia (Lucas 4:21), e lhe pregou Jesus, v. 35.

Esse é todo o relato que nos é dado do sermão de Filipe, pois era, na prática, o mesmo que os sermões de Pedro, que tivemos antes. A ocupação dos ministros do evangelho é pregar Jesus, e essa pregação provavelmente fará o bem.

É provável que Filipe então tivesse necessidade de seu dom de línguas, para poder pregar Cristo a esse etíope na língua do seu próprio país.

E temos aqui um exemplo de falar das coisas de Deus e de falar delas com bom propósito, não só quando nos sentamos em casa, mas quando andamos pelo caminho, segundo aquela regra, Deuteronômio 6:7.

V. O eunuco é batizado em nome de Cristo, vv. 36-38. É provável que tivesse ouvido em Jerusalém a doutrina de Cristo, de modo que ela não lhe era inteiramente nova. Mas, se tivesse ouvido, o que isso poderia fazer para essa rápida conquista do seu coração para Cristo?

Foi uma poderosa operação do Espírito, com a pregação de Filipe e por meio dela, que conseguiu o intento. Ora, temos aqui:

  1. A modesta proposta com que o eunuco se apresentou para o batismo (v. 36). Enquanto seguiam seu caminho, discorrendo sobre Cristo, o eunuco fazendo mais perguntas e Filipe respondendo-as para sua satisfação, chegaram a certa água: um poço, rio ou lago. Vê-la fez o eunuco pensar em ser batizado.

Assim, Deus, por indicações da providência que parecem casuais, às vezes faz seu povo lembrar-se do seu dever, em que, de outro modo, talvez não tivesse pensado.

O eunuco não sabia quão pouco tempo Filipe poderia estar com ele, nem onde depois poderia procurar por ele. Não podia esperar que viajasse com ele até sua próxima parada. Por isso, se Filipe julgar apropriado, aproveitará a conveniência presente que se oferece de ser batizado.

Veja, aqui está água, que talvez não encontremos novamente por um bom tempo; o que me impede de ser batizado? Você pode mostrar algum motivo por que eu não deva ser admitido como discípulo e seguidor de Cristo pelo batismo? Observe:

(1.) Não exige o batismo, não diz: “Aqui está água e aqui estou eu, decidido a ser batizado”. Pois, se Filipe tiver algo a apresentar em contrário, está disposto a abrir mão disso por enquanto.

Se Filipe o julgar inapto para o batismo, ou se houver algo na instituição da ordenança que não admita uma administração tão rápida, não insistirá nela. O zelo mais pronto deve se submeter à ordem e à regra. Mas:

(2.) Ele o deseja e, a menos que Filipe possa mostrar motivo para não o fazer, o deseja agora e não está disposto a adiá-lo. Repare: Na solene dedicação e consagração de nós mesmos a Deus, é bom apressar-se e não demorar, pois o tempo presente é o melhor tempo, Salmos 119:60.

Os que receberam o que o batismo significa não devem adiar o recebimento do sinal. O eunuco temia que as boas afeições então operando nele esfriassem e diminuíssem; por isso estava disposto a imediatamente prender sua alma ao Senhor com as amarras batismais, para poder levar o assunto a um desfecho.

  1. A justa declaração que Filipe lhe fez dos termos em que poderia ter o privilégio do batismo (v. 37): “Se crês de todo o teu coração, podes; isto é, se crês nesta doutrina que te preguei a respeito de Jesus, se recebes o testemunho que Deus deu a seu respeito e pões o teu selo de que é verdadeiro”.

Deve crer de todo o seu coração, pois com o coração o homem crê, não só com a cabeça, por um assentimento às verdades do evangelho no entendimento, mas com o coração, por uma anuência da vontade aos termos do evangelho.

Se de fato você crê de todo o seu coração, por isso está unido a Cristo; e, se dá provas e evidências de que o faz, pode, pelo batismo, ser unido à igreja.

  1. A confissão de fé que o eunuco fez para ser batizado. É muito curta, mas abrangente, muito apropriada ao propósito e suficiente: “Creio que Jesus Cristo é o Filho de Deus”. Antes era adorador do verdadeiro Deus, de modo que tudo o que agora precisava fazer era receber Cristo Jesus, o Senhor:

(1.) Crê que Jesus é o Cristo, o verdadeiro Messias prometido, o Ungido.

(2.) Que Cristo é Jesus: um Salvador, o único Salvador do seu povo dos seus pecados. E:

(3.) Que esse Jesus Cristo é o Filho de Deus, que tem natureza divina, pois o Filho é da mesma natureza que o Pai; e que, sendo o Filho de Deus, é o herdeiro de todas as coisas.

Essa é a principal doutrina peculiar do cristianismo, e todos os que creem nisso de todo o seu coração e o confessam, eles e sua descendência devem ser batizados.

  1. Seu batismo em consequência disso. O eunuco ordenou ao seu cocheiro que parasse, mandou o carro parar. Foi o melhor lugar de parada para descanso que encontrou em qualquer das suas viagens.

Ambos desceram à água, pois, estando em viagem, não tinham consigo recipientes convenientes com que retirar água, e por isso deviam descer a ela. Não que tirassem suas roupas e entrassem nus na água; mas, descalços segundo o costume, talvez tenham entrado na água até os tornozelos ou até a metade da perna.

E Filipe aspergiu água sobre ele, segundo a profecia que esse eunuco provavelmente acabara de ler. Pois ficava apenas alguns versículos antes daqueles em que Filipe o encontrou e era muito apropriada ao seu caso (Isaías 52:15): assim aspergirá muitas nações; reis e grandes homens fecharão suas bocas diante dele, se submeterão a ele e nele aquiescerão.

Pois o que antes não lhes tinha sido contado eles verão, e o que não tinham ouvido eles considerarão. Observe: Embora Filipe tivesse sido enganado muito recentemente por Simão, o Mago, e o tivesse admitido ao batismo, embora depois se mostrasse não ser verdadeiro convertido, ainda assim não teve escrúpulo por isso em batizar imediatamente o eunuco mediante sua profissão de fé.

Não o submeteu a uma prova mais longa que a habitual. Se alguns hipócritas entram aos montes na igreja, que depois se mostram dor e escândalo para nós, ainda assim não devemos por isso tornar a porta de admissão mais estreita do que Cristo a fez. Eles responderão por sua apostasia, e não nós.

VI. Filipe e o eunuco são separados imediatamente. Isso é tão surpreendente quanto as outras partes da história. Teríamos esperado que o eunuco ou permanecesse com Filipe ou o levasse consigo ao seu próprio país.

Havendo tantos ministros naquelas partes, Filipe poderia ser dispensado, e valeria a pena. Mas Deus determinou de outro modo.

Assim que subiram da água, antes que o eunuco entrasse novamente no seu carro, “O Espírito do Senhor arrebatou Filipe” (v. 39). E não lhe deu tempo de fazer uma exortação ao eunuco, como era habitual depois do batismo. É provável que um pretendesse fazê-la e o outro a esperasse.

Mas sua partida súbita foi suficiente para compensar a falta dessa exortação. Pois parece ter sido milagrosa: ele foi arrebatado ao ar diante dos olhos do eunuco e assim levado para fora da sua vista. A realização desse milagre em Filipe confirmou sua doutrina tanto quanto a realização de um milagre por ele teria confirmado.

Foi arrebatado, e o eunuco não o viu mais. Mas, tendo perdido seu ministro, voltou ao uso da sua Bíblia. Ora, aqui nos é dito:

  1. Como o eunuco ficou: “Seguiu seu caminho alegrando-se”. Prosseguiu sua viagem. A ocupação o chamava para casa, e devia apressar-se para lá.

Pois isso em nada era incompatível com seu cristianismo, que não põe santidade nem perfeição em os homens serem eremitas ou reclusos, mas é uma religião que os homens podem e devem levar consigo para os assuntos desta vida.

Mas seguiu alegrando-se. Estava tão longe de refletir com qualquer pesar sobre essa súbita revolução e mudança, ou antes, avanço em sua religião, que suas reflexões posteriores o confirmaram abundantemente nela. Seguiu alegrando-se com alegria inexprimível e cheia de glória; nunca em toda a sua vida estivera mais satisfeito. Alegrou-se:

(1.) Que ele próprio estava unido a Cristo e tinha parte nele. E:

(2.) Que tinha essas boas notícias para levar aos seus compatriotas e a perspectiva de levá-los também à comunhão com Cristo, por força da sua influência entre eles. Pois voltou não só cristão, mas ministro.

Algumas cópias leem esse versículo assim: “E, quando subiram da água, o Espírito Santo caiu sobre o eunuco”, sem a cerimônia da imposição das mãos do apóstolo, “mas o anjo do Senhor arrebatou Filipe”.

  1. Como Filipe foi conduzido (v. 40): “Foi encontrado em Azoto”, ou Asdode, antes cidade dos filisteus. Lá o anjo ou Espírito do Senhor o deixou, a cerca de trinta milhas de Gaza, para onde o eunuco ia e onde o Dr. Lightfoot pensa que embarcou, seguindo por mar ao seu próprio país.

Mas Filipe, onde quer que estivesse, não ficaria ocioso. Passando, pregou em todas as cidades até chegar a Cesareia, e ali se estabeleceu e, pelo que parece, teve sua residência principal desde então; pois em Cesareia o encontramos numa casa sua própria, Atos 21:8.

Aquele que havia sido fiel em trabalhar para Cristo como itinerante finalmente ganha estabilidade.


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