Atos 5
Argumento
Neste capítulo temos:
I. O pecado e o castigo de Ananias e Safira, que, por mentirem ao Espírito Santo, caíram mortos à palavra de Pedro, vv. 1-11.
II. O estado florescente da igreja, no poder que acompanhava a pregação do evangelho, vv. 12-16.
III. A prisão dos apóstolos e sua libertação milagrosa, com novas ordens de continuar pregando o evangelho. Assim fizeram, para grande irritação dos seus perseguidores, vv. 17-26.
IV. A acusação formal contra os apóstolos perante o grande Sinédrio e a defesa que fizeram de si mesmos quanto ao que haviam feito, vv. 27-33.
V. O conselho de Gamaliel a respeito dos apóstolos, de que não os perseguissem, mas os deixassem em paz para ver o que aconteceria, e a concordância dos membros do Sinédrio, por ora, com esse conselho, ao dispensarem os apóstolos depois de apenas açoitá-los, vv. 34-40.
VI. O alegre progresso dos apóstolos na sua obra, apesar da proibição que lhes fora imposta e da afronta que haviam sofrido, v. 41, 42.
Versículos 1 a 11
O Caso de Ananias e Safira.
O capítulo começa com um melancólico “mas”, que interrompe a perspectiva agradável e aprazível que tínhamos nos capítulos anteriores. Assim como cada pessoa, cada igreja, mesmo em seu melhor estado, tem o seu “mas”:
- Os discípulos eram muito santos e voltados para o céu, e todos pareciam extremamente bons. Mas havia hipócritas entre eles, cujos corações não eram retos diante de Deus. Quando foram batizados e assumiram a aparência de piedade, negaram o poder da piedade e não passaram daí.
Há uma mistura de maus e bons nos melhores convívios deste lado do céu. O joio crescerá entre o trigo até a colheita.
Era motivo de louvor aos discípulos terem alcançado a perfeição que Cristo recomendou ao jovem rico: venderam o que tinham e deram aos pobres. Mas até aquilo que era considerado a maior prova e evidência de sinceridade revelou-se um manto e disfarce para a hipocrisia.
Os sinais e maravilhas que os apóstolos realizaram até então foram milagres de misericórdia. Mas agora vem um milagre de juízo, e temos um exemplo de severidade após os exemplos de bondade, para que Deus seja tanto amado quanto temido. Observe aqui:
I. O pecado de Ananias e de Safira, sua esposa. É bom ver marido e mulher unidos no que é bom; mas serem cúmplices no mal é serem como Adão e Eva, quando concordaram em comer o fruto proibido e foram um só na desobediência. Ora, o pecado deles foi:
- Que ambicionavam ser considerados discípulos eminentes e da primeira categoria, quando, na verdade, não eram discípulos autênticos. Queriam passar por algumas das árvores mais frutíferas da vinha de Cristo, quando, na verdade, a raiz da questão não se encontrava neles.
Venderam uma propriedade e levaram o dinheiro aos pés dos apóstolos, como Barnabé fizera, para não parecerem inferiores aos mais destacados dos crentes. Mas queriam ser aplaudidos e exaltados, e ficar em posição ainda mais favorável para obter um cargo na igreja, que talvez pensassem que em breve brilharia com pompa e grandeza seculares.
Repare: É possível que os hipócritas renunciem a si mesmos em uma coisa, mas, nesse caso, é para servir a si mesmos em outra. Podem abrir mão de uma vantagem secular num caso, na perspectiva de tirar proveito de outra coisa.
Ananias e Safira queriam assumir uma profissão de cristianismo e, com ela, ostentar uma bela aparência na carne. Assim zombariam de Deus e enganariam os outros, embora soubessem que não conseguiriam levar até o fim a profissão cristã.
Foi digno de louvor, e até aí correto, aquele jovem rico não querer alegar que seguiria Cristo quando sabia que, se chegasse o momento decisivo, não conseguiria cumprir as suas condições; mas ele se retirou triste.
Ananias e Safira alegaram que conseguiriam cumprir as condições, para receberem o crédito de serem discípulos, quando, na verdade, não conseguiam. Assim, trouxeram descrédito ao discipulado.
Repare: Muitas vezes é fatal que as pessoas avancem na profissão de fé além do que o seu princípio interior lhes permite.
- Que cobiçavam as riquezas do mundo e desconfiavam de Deus e da sua providência. Venderam a sua terra e talvez, num ímpeto de zelo, tivessem então o desígnio apenas de dedicar todo o valor da venda a fins piedosos, fazendo um voto, ou pelo menos formando o firme propósito de fazê-lo.
Mas, quando receberam o dinheiro, faltou-lhes coragem e retiveram parte do preço (v. 2), porque amavam o dinheiro. Julgaram ser demais abrir mão dele de uma vez e confiar o valor às mãos dos apóstolos; e porque não sabiam se eles próprios não viriam a precisar dele.
Embora agora todas as coisas fossem comuns, ainda assim isso não duraria muito. O que fariam em tempo de necessidade se não deixassem nada a que pudessem recorrer? Não conseguiram confiar na palavra de Deus de que seriam providos; pensaram que seriam mais prudentes que os demais e guardaram uma reserva para os dias difíceis.
Assim, pensaram servir tanto a Deus quanto a Mamom: a Deus, levando parte do dinheiro aos pés dos apóstolos, e a Mamom, guardando a outra parte nos próprios bolsos. Era como se não houvesse em Deus suficiência plena para lhes repor tudo, a menos que conservassem algo nas suas próprias mãos como caução.
Seus corações estavam divididos, e por isso foram considerados culpados, Oseias 10:2. Hesitavam entre dois: se fossem mundanos até o fim, não teriam vendido a propriedade; se fossem cristãos até o fim, não teriam retido parte do preço.
- Que pensavam enganar os apóstolos e fazê-los crer que tinham levado todo o valor da venda, quando, na verdade, era apenas uma parte. Chegaram com tanta segurança e com uma demonstração de piedade e devoção tão grande quanto a de qualquer outro, e depositaram o dinheiro aos pés dos apóstolos como se fosse tudo o que tinham.
Fingiram diante de Deus e do seu Espírito, de Cristo, da sua igreja e dos seus ministros. Esse foi o pecado deles.
II. A acusação formal contra Ananias, que resultou tanto na sua condenação quanto na execução da sentença por esse pecado.
Quando levou o dinheiro e esperava ser elogiado e animado, como os demais, Pedro o chamou a prestar contas. Sem investigar nem ouvir testemunhas, acusou-o categoricamente do crime, ressaltou sua gravidade e fez pesar sobre ele a culpa, mostrando-lhe o pecado em suas verdadeiras cores, v. 3, 4.
O Espírito de Deus em Pedro não só revelou o fato sem que ninguém o informasse (talvez ninguém no mundo soubesse dele além do próprio homem e de sua esposa), mas também discerniu no coração de Ananias o princípio da incredulidade dominante que estava na raiz do ato. Por isso agiu contra ele tão subitamente.
Se fosse um pecado de debilidade, cometido ao ser surpreendido por uma tentação, Pedro teria chamado Ananias à parte, mandado que voltasse para casa, buscasse o restante do dinheiro e se arrependesse da sua insensatez ao tentar aplicar-lhes esse embuste.
Mas sabia que o coração de Ananias estava inteiramente decidido a praticar esse mal; por isso não lhe deu prazo para se arrepender. Mostrou-lhe aqui:
- A origem do seu pecado: Satanás encheu o seu coração. Não apenas lhe sugeriu o ato e pôs a ideia em sua cabeça, mas o impeliu a realizá-lo com determinação.
Tudo o que contraria o bom Espírito procede do espírito mau, e Satanás enche os corações em que o amor ao mundo reina e predomina. Alguns pensam que Ananias fora um dos que tinham recebido o Espírito Santo e estavam cheios dos seus dons. Mas, tendo provocado o Espírito a retirar-se dele, agora Satanás lhe encheu o coração.
Assim, quando o Espírito do Senhor se afastou de Saul, um espírito mau da parte de Deus o perturbou. Satanás é um espírito mentiroso: assim foi na boca dos profetas de Acabe e na boca de Ananias; desse modo mostrou que lhe enchera o coração.
- O próprio pecado: ele mentiu ao Espírito Santo, pecado de natureza tão hedionda que não poderia tê-lo cometido se Satanás não lhe tivesse enchido o coração:
(1.) A expressão que traduzimos por “mentir ao Espírito Santo”, pseusasthai se to pneuma to hagion, alguns leem como “desmentir o Espírito Santo”, o que pode ser entendido de duas maneiras:
[1.] Que ele desmentiu o Espírito Santo em si mesmo. Assim entende o Dr. Lightfoot, que supõe não ser Ananias um crente comum, mas um ministro, alguém que recebera o dom do Espírito Santo com os cento e vinte (pois é mencionado logo depois de Barnabé). Ainda assim, ousou, por sua dissimulação, desmentir esse dom e envergonhá-lo.
Ou então: os que venderam suas propriedades e depositaram o dinheiro aos pés dos apóstolos fizeram isso por um impulso especial do Espírito Santo, que os capacitou para um ato tão grande e generoso. Ananias alegou ter sido movido pelo Espírito Santo a fazer o que fez, como os outros.
Sua vileza, porém, mostrou que não estava sob a influência do bom Espírito de modo algum; pois, se a obra fosse dele, teria sido perfeita.
[2.] Que ele desmentiu o Espírito Santo nos apóstolos, aos quais levou o dinheiro. Representou falsamente o Espírito que os movia, seja por suspeitar que não distribuiriam com fidelidade o que lhes fora confiado (sugestão vil, como se traíssem a confiança neles depositada), seja por ter certeza de que não descobririam a fraude.
Desmentiu o Espírito Santo ao querer, com o que fez, dar a entender que os dotados dos dons do Espírito Santo poderiam ser iludidos tão facilmente quanto os demais homens. Foi como Geazi, cujo senhor o declarou culpado do seu erro com aquelas palavras: “Não foi contigo o meu coração?”, 2 Reis 5:26.
À casa de Israel e de Judá, quando agiram com grande perfídia, como Ananias aqui, atribui-se o fato de terem desmentido o Senhor, dizendo: “Não é ele”, Jeremias 5:11, 12.
Ananias pensava, portanto, que os apóstolos eram inteiramente iguais a ele. Isso era desmentir o Espírito Santo neles, como se neles ele não discernisse espíritos, embora tivessem em si todos os dons do Espírito que aos demais eram distribuídos separadamente. Veja 1 Coríntios 12:8-11.
Aqueles que alegam inspiração do Espírito ao impor à igreja as próprias fantasias, seja em opiniões, seja em práticas, dizendo que são movidos do alto quando na verdade são levados pelo seu orgulho, pela sua cobiça ou pela sua afetação de domínio, desmentem o Espírito Santo.
(2.) Mas nós lemos “mentir ao Espírito Santo”, leitura apoiada pelo v. 4: “Não mentiste aos homens, mas a Deus”:
[1.] Ananias contou uma mentira, uma mentira deliberada e com o propósito de enganar. Disse a Pedro que vendera uma propriedade (casa ou terras) e que aquele era o valor da venda.
Talvez tenha usado palavras com duplo sentido e algumas expressões ambíguas, pensando assim atenuar um pouco o caso e escapar à culpa de uma mentira descarada. Ou talvez não tenha dito nada; mas dava no mesmo: agiu como os que levaram todo o preço e quis que pensassem que fizera o mesmo.
Esperava o elogio que aqueles receberam e o mesmo privilégio e acesso ao fundo comum. Portanto, implicitamente afirmava que levara o preço inteiro, como eles. E isso era mentira, pois retivera uma parte.
Repare: Muitos são levados a mentir grosseiramente pelo orgulho dominante e pela afetação dos aplausos dos homens, sobretudo nas obras de caridade para com os pobres.
Assim, para que não sejamos encontrados alardeando uma dádiva falsa, recebida ou oferecida por nós (Provérbios 25:14), não devemos nos gabar nem mesmo de uma dádiva verdadeira. Esse é o sentido da advertência do nosso Salvador quanto às obras de caridade: “Não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita”.
Aqueles que se gabam de boas obras que nunca fizeram, ou prometem boas obras que nunca cumprem, ou fazem as boas obras que praticam parecerem maiores ou melhores do que são, incorrem na culpa da mentira de Ananias. Todos nós devemos temer até mesmo a ideia disso.
[2.] Contou essa mentira ao Espírito Santo. Não era tanto aos apóstolos quanto ao Espírito Santo neles que o dinheiro era levado e que se dizia o que foi dito, v. 4: “Não mentiste aos homens” (não somente aos homens, nem principalmente a eles, embora os apóstolos sejam apenas homens), mas você mentiu a Deus.
Disso se conclui com razão que o Espírito Santo é Deus, pois quem mente ao Espírito Santo mente a Deus.
“Diz-se que os que mentiram aos apóstolos, movidos pelo Espírito de Deus e agindo por ele, mentiram a Deus, porque os apóstolos agiam pelo poder e pela autoridade de Deus. Daí se segue”, como bem observa o Dr. Whitby, “que o poder e a autoridade do Espírito devem ser o poder e a autoridade de Deus”.
E, como ele prossegue em seu argumento: “Diz-se que Ananias mentiu a Deus porque mentiu àquele Espírito nos apóstolos, que os capacitava a discernir os segredos do coração e das ações dos homens. Como essa é uma propriedade exclusiva de Deus, quem mente a ele deve, portanto, mentir a Deus, pois mente àquele que possui uma propriedade incomunicável de Deus e, consequentemente, a essência divina.”
- As circunstâncias que agravaram o pecado (v. 4): “Enquanto permanecia, não era tua própria? E, depois de vendida, não estava em teu próprio poder?” Isso pode ser entendido de duas maneiras:
(1.) “Não estavas sujeito a nenhuma tentação para reter parte do preço. Antes de ser vendida, a propriedade era tua, não estava hipotecada nem onerada, nem de qualquer modo comprometida por dívidas. Depois de vendida, estava em teu poder dispor do dinheiro como quisesses; assim, podias ter levado o todo tão bem quanto uma parte.”
“Não tinhas dívidas a pagar e talvez nem filhos para sustentar. Portanto, nenhuma razão particular te impelia a reter parte do preço. Transgrediste sem motivo.”
Ou, (2.) “Não tinhas nenhuma necessidade de vender a tua terra, nem de levar qualquer parte do dinheiro aos pés dos apóstolos. Poderias ter conservado o dinheiro, se quisesses, e também a terra, sem jamais alegar esse grau de perfeição.”
O apóstolo dá esta regra para a caridade: as pessoas não devem ser pressionadas, nem isso deve ser imposto como por necessidade, porque “Deus ama quem dá com alegria” (2 Coríntios 9:7). Filemom deve fazer uma boa obra “não como que por necessidade, mas de boa vontade”, Filemom 1:14.
Assim como é melhor não fazer voto do que fazer e não cumprir, teria sido melhor para Ananias não vender a terra de modo algum do que reter parte do preço dessa forma. Melhor não alegar que faria a boa obra do que fazê-la pela metade.
“Depois de vendida, estava em teu poder; mas deixou de estar quando foi prometida em voto. Então abriste a boca ao Senhor e não podias voltar atrás.” Assim, quando entregamos nosso coração a Deus, não se admite que o dividamos.
Satanás, como a mãe a quem a criança não pertencia, aceitaria metade; Deus, porém, quer tudo ou nada.
- Toda essa culpa, assim agravada, é atribuída a Ananias: “Por que concebeste isso em teu coração?” Observe: Embora Satanás lhe tenha enchido o coração para fazer aquilo, ainda assim diz-se que ele o concebeu no seu próprio coração. Isso mostra que não podemos atenuar nossos pecados atribuindo a culpa deles ao diabo: ele tenta, mas não pode obrigar.
São os nossos próprios desejos que nos arrastam e atraem. O mal, seja ele qual for, dito ou praticado, foi concebido pelo pecador no próprio coração; por isso, se você escarnecer, você sozinho arcará com isso.
O encerramento da acusação é muito solene, mas inteiramente justo: “Não mentiste aos homens, mas a Deus”. Quanta ênfase o profeta dá ao pecado de Acaz: não apenas cansar os homens, mas também cansar o meu Deus! Isaías 7:13.
E Moisés, ao pecado de Israel: “As vossas murmurações não são contra nós, mas contra o Senhor!”, Êxodo 16:8. Assim também aqui: “Poderias ter-nos iludido, pois somos homens como tu. Mas não te enganes: de Deus não se zomba.” Se pensamos aplicar um embuste a Deus, no fim se provará que aplicamos um embuste fatal às nossas próprias almas.
III. A morte e o sepultamento de Ananias, v. 5, 6:
- Morreu ali mesmo. Ao ouvir essas palavras, Ananias ficou sem fala, no mesmo sentido em que ficou sem fala o homem acusado de entrar na festa de casamento sem veste nupcial: não tinha nada a dizer em sua defesa. Mas não foi só isso. Foi de fato ferido e ficou sem fala, pois foi ferido de morte: “Caiu e expirou”.
Não está claro se Pedro tencionava e esperava que isso se seguisse ao que lhe dissera. É provável que sim, pois a Safira, sua esposa, anunciou expressamente a morte, v. 9. Alguns pensam que um anjo o feriu e que morreu como Herodes, Atos 12:23.
Ou a própria consciência o feriu com tamanho horror e espanto ao perceber sua culpa que sucumbiu e morreu sob o peso dela. Talvez, ao ser declarado culpado de mentir ao Espírito Santo, tenha se lembrado de que a blasfêmia contra o Espírito Santo não tem perdão; isso lhe atingiu o coração como um punhal.
Veja o poder da palavra de Deus na boca dos apóstolos. Assim como para uns ela era cheiro de vida para vida, para outros era cheiro de morte para morte. Assim como há aqueles que o evangelho justifica, há também aqueles que ele condena.
Esse castigo de Ananias pode parecer severo, mas sabemos que foi justo:
(1.) Destinava-se a preservar a honra do Espírito Santo, derramado tão recentemente sobre os apóstolos para o estabelecimento do reino do evangelho. Ananias fez grande afronta ao Espírito Santo, como se pudesse iludi-lo.
Isso tendia diretamente a invalidar o testemunho dos apóstolos. Se não podiam descobrir essa fraude pelo Espírito, como poderiam, por ele, descobrir as coisas profundas de Deus que deviam revelar aos filhos dos homens? Era necessário, portanto, sustentar a credibilidade dos dons e poderes dos apóstolos, embora fosse a esse custo.
(2.) Destinava-se a dissuadir outros de semelhante presunção, agora no começo desta dispensação. Mais tarde Simão, o Mago, não foi castigado dessa maneira, nem Elimas. Mas Ananias foi feito exemplo logo de início.
Ao lado das provas palpáveis de como é consolador receber o Espírito, haveria também provas palpáveis de como é perigoso resistir ao Espírito e ultrajá-lo.
Quão severamente se castigaram a adoração do bezerro de ouro e a coleta de lenha no sábado, quando as leis do segundo e do quarto mandamentos acabavam de ser dadas! Assim também a oferta de fogo estranho por Nadabe e Abiú e a rebelião de Corá e seus companheiros, quando o fogo do céu acabava de ser dado e a autoridade de Moisés e Arão acabava de ser estabelecida.
O fato de isso ocorrer pelo ministério de Pedro, que pouco tempo antes negara seu Mestre com uma mentira, indica que não se tratava de ressentimento por uma ofensa feita a ele mesmo. Nesse caso, Pedro, que também errara, teria tido caridade para com aqueles que ofenderam.
E, como se arrependera e fora perdoado, teria perdoado a afronta e procurado levar o ofensor ao arrependimento. Mas foi um ato do Espírito de Deus em Pedro: a indignidade foi feita ao Espírito, e por ele o castigo foi aplicado.
- Foi sepultado imediatamente, pois esse era o costume dos judeus (v. 6). Os jovens, provavelmente designados na igreja para a tarefa de sepultar os mortos, como entre os romanos os libitinarii e os polinctores, ou os jovens que acompanhavam os apóstolos e os serviam, envolveram o corpo em panos funerários.
Levaram-no para fora da cidade e o sepultaram com decoro, embora tivesse morrido em pecado e por um golpe direto da vingança divina.
IV. O acerto de contas com Safira, esposa de Ananias, que talvez tenha sido a primeira na transgressão e levado o marido a comer esse fruto proibido. Ela entrou no lugar onde estavam os apóstolos, aparentemente o pórtico de Salomão, pois ali os encontramos (v. 12), parte do templo onde Cristo costumava andar, João 10:23.
Entrou cerca de três horas depois, esperando participar dos agradecimentos da comunidade por sua chegada e por ter anuído à venda da terra, da qual talvez tivesse direito ao dote de viúva ou à terça parte. Não sabia, porém, o que havia acontecido.
É estranho que ninguém tenha corrido para lhe contar da morte súbita do seu marido, para que não fosse até lá. Talvez alguém o tenha feito, mas ela não estivesse em casa. Assim, quando veio apresentar-se aos apóstolos como benfeitora do fundo comum, encontrou um castigo em vez de uma bênção.
- Ficou comprovado, por uma pergunta que Pedro lhe fez (v. 8), que participara do pecado do marido: “Dize-me: vendestes a terra por tanto?”, mencionando a quantia que Ananias trouxera e depositara aos pés dos apóstolos.
“Foi só isso que recebestes pela venda da terra? Não recebestes nada mais por ela?” “Não”, respondeu ela, “não recebemos mais; essa quantia foi tudo o que recebemos, até o último ceitil.”
Ananias e a esposa combinaram contar a mesma história. Como a venda fora particular e, de comum acordo, guardada em segredo entre eles, ninguém podia desmenti-los. Por isso pensaram poder manter a mentira sem risco e fazê-la parecer digna de crédito.
É triste ver pessoas ligadas entre si, que deveriam estimular-se mutuamente para o bem, endurecerem-se umas às outras para o mal.
- Foi proferida contra ela a sentença de que partilharia a condenação do marido, v. 9:
(1.) Seu pecado é exposto: “Como combinastes tentar o Espírito do Senhor?” Antes de proferir a sentença, Pedro a faz conhecer suas abominações e lhe mostra a maldade do pecado. Observe:
[1.] Que tentaram o Espírito do Senhor. Assim Israel tentou Deus no deserto, ao perguntar se o Senhor estava ou não entre eles, depois de ter visto tantas provas milagrosas do seu poder. Questionaram não só sua presença, mas também seu governo, ao dizerem: “Pode Deus fornecer uma mesa?”
Assim também aqui: “Pode o Espírito nos apóstolos descobrir essa fraude? Podem discernir que isso é apenas parte do preço quando lhes dizemos que é o todo?” Pode ele julgar através desta nuvem escura? Jó 22:13.
Viram que os apóstolos tinham o dom de línguas, mas teriam também o dom de discernir espíritos? Aqueles que presumem estar seguros e impunes no pecado tentam o Espírito de Deus. Tentam Deus como se ele fosse inteiramente semelhante a eles mesmos.
[2.] Que concordaram em fazê-lo juntos, transformando o vínculo da sua relação (que, por instituição divina, é um vínculo sagrado) num vínculo de iniquidade. É difícil dizer o que é pior entre cônjuges e outros parentes: a discordância no bem ou a concórdia no mal.
Isso parece indicar que seu acordo para praticar o mal era uma tentação ulterior ao Espírito, como se, depois de se comprometerem a guardar segredo um para o outro nesse assunto, nem o próprio Espírito do Senhor pudesse descobri-los.
Assim, cavaram fundo para ocultar seu conselho do Senhor, mas foram levados a saber que isso é inútil. “Como foi que vocês ficaram tão insensatos? Que estranha estupidez se apoderou de vocês a ponto de ousarem pôr à prova algo que está além de qualquer dúvida?”
“Como vocês, cristãos batizados, não compreendem melhor a si mesmos? Como ousaram correr um risco tão grande?”
(2.) Sua condenação é anunciada: “Eis que os pés dos que sepultaram teu marido estão à porta” (talvez Pedro os tenha ouvido chegar, ou soubesse que não demorariam), “e te levarão para fora”.
Assim como Adão e Eva, que concordaram em comer o fruto proibido, foram expulsos juntos do paraíso, Ananias e Safira, que concordaram em tentar o Espírito do Senhor, foram juntos expulsos do mundo.
- A sentença executou-se por si mesma. Não foi necessário nenhum carrasco: a palavra de Pedro vinha acompanhada de um poder de matar, assim como, às vezes, vinha acompanhada de um poder de curar. Pois o Deus em cujo nome falava mata e dá vida; da sua boca (e Pedro agora era sua boca) saem tanto o mal quanto o bem (v. 10): “Então ela caiu imediatamente aos seus pés”.
Com alguns pecadores Deus age depressa; com outros, é longânimo. Sem dúvida há boas razões para essa diferença, mas ele não precisa prestar-nos contas delas.
Só então ela ouviu que o marido morrera. A notícia da morte, junto com a revelação do seu pecado e a sentença de morte proferida contra ela, atingiu-a como um raio e levou-a como um vendaval.
Há muitos casos de morte súbita que não devem ser vistos como castigo por algum pecado grave, como neste caso. Não devemos pensar que todos os que morrem de repente sejam mais pecadores que os demais. Talvez seja um favor concedido a eles terem uma passagem rápida; de todo modo, é um aviso a todos para estarem sempre preparados. Aqui, porém, é claro que se tratou de um juízo.
Alguns levantam a questão do destino eterno de Ananias e Safira e se inclinam a pensar que a destruição da carne ocorreu para que o espírito fosse salvo no dia do Senhor Jesus. Eu concordaria com essa opinião caridosa se lhes tivesse sido concedido algum tempo para se arrepender, como foi concedido ao coríntio incestuoso. Mas as coisas secretas não nos pertencem.
Diz-se que ela caiu aos pés de Pedro. Ali, onde deveria ter depositado todo o preço e não o fez, ela própria foi depositada, como que para compensar a falta.
Os jovens encarregados dos funerais, ao entrar, encontraram-na morta. Não se diz que “a envolveram”, como fizeram com Ananias, mas que “a levaram para fora” como estava e a sepultaram junto do marido.
Provavelmente se colocou uma inscrição sobre seus túmulos, indicando que ambos eram monumentos conjuntos da cólera divina contra os que mentem ao Espírito Santo.
Alguns perguntam se os apóstolos conservaram o dinheiro que Ananias e Safira trouxeram e a respeito do qual mentiram. Inclino-me a pensar que sim. Não tinham a superstição daqueles que diziam não lhes ser lícito pôr o dinheiro no tesouro, pois para os puros todas as coisas são puras.
O que trouxeram não estava contaminado para aqueles a quem o trouxeram; mas o que retiveram estava contaminado para eles próprios. Fez-se uso dos incensários dos rebeldes de Corá.
V. A impressão que isso causou no povo. Ela é mencionada no meio da narrativa (v. 5): “Grande temor veio sobre todos os que ouviram essas coisas”, os que ouviram o que Pedro disse e viram o que aconteceu; ou os que ouviram o relato, pois sem dúvida toda a cidade falava disso.
E, novamente (v. 11): “Grande temor veio sobre toda a igreja e sobre tantos quantos ouviram essas coisas”:
Os que se haviam unido à igreja foram tomados de reverência por Deus e pelos seus juízos, e de maior veneração por esta dispensação do Espírito sob a qual agora viviam. Isso não esfriou nem refreou a sua santa alegria, mas lhes ensinou a levá-la a sério e a alegrar-se com tremor. Depois disso, todos os que depositaram dinheiro aos pés dos apóstolos temeram reter qualquer parte do preço.
Todos os que ouviram o ocorrido ficaram consternados e prontos a perguntar quem poderia permanecer diante deste santo Senhor Deus e do seu Espírito nos apóstolos, como em 1 Samuel 6:20.
Versículos 12 a 16
O Progresso do Evangelho.
Temos aqui um relato do progresso do evangelho, apesar deste terrível juízo infligido a dois hipócritas.
I. Aqui está um relato geral dos milagres que os apóstolos realizaram (v. 12): “Pelas mãos dos apóstolos eram realizados muitos sinais e maravilhas entre o povo”, muitos milagres de misericórdia por um de juízo.
Agora o poder do evangelho retornou ao seu canal próprio, que é o da misericórdia e graça. Deus havia saído do seu lugar para castigar, mas agora retorna ao seu lugar, ao seu propiciatório novamente. Os milagres que realizaram provaram a sua missão divina.
Não eram poucos, mas muitos, de diversos tipos e frequentemente repetidos. Eram sinais e maravilhas, maravilhas tais que eram reconhecidamente sinais de uma presença e poder divinos.
Não foram feitos num canto, mas entre o povo, que tinha liberdade para investigá-los e, se houvesse neles qualquer fraude ou conluio, os teria descoberto.
II. Aqui nos é contado quais eram os efeitos destes milagres que os apóstolos realizaram:
- Por isso a igreja era mantida unida e confirmada na sua adesão tanto aos apóstolos quanto uns aos outros: Os da igreja estavam todos de comum acordo no pórtico de Salomão:
(1.) Reuniam-se no templo, no espaço aberto chamado pórtico de Salomão. Era estranho que os governantes do templo lhes permitissem manter ali a sua reunião.
Mas Deus inclinou os seus corações a tolerá-los ali por algum tempo, para a propagação mais conveniente do evangelho. E aqueles que concediam permissão a compradores e vendedores não poderiam, por vergonha, proibir ali tais pregadores e curadores.
Todos se reuniam em culto público. A instituição de assembleias religiosas era observada na igreja já tão cedo; elas não devem de modo algum ser abandonadas nem deixadas de lado, pois nelas se mantém a profissão de religião.
(2.) Estavam ali de comum acordo, unânimes na sua doutrina, culto e disciplina. E não havia descontentamento nem murmuração acerca da morte de Ananias e Safira, como houve contra Moisés e Arão acerca da morte de Corá e da sua companhia: “Matastes o povo do Senhor”, Números 16:41.
A separação dos hipócritas, por juízos que fazem distinção, deve fazer os sinceros aderirem tanto mais estreitamente uns aos outros e ao ministério do evangelho.
- Isso granjeou aos apóstolos, que eram os ministros principais no reino de Cristo, um respeito muito grande:
(1.) Os outros ministros mantinham distância: Dos restantes da sua companhia, nenhum ousava juntar-se a eles como seu igual ou associado com eles.
Embora outros deles fossem dotados do Espírito Santo e falassem em línguas, ainda assim nenhum deles neste momento fazia sinais e maravilhas como os apóstolos faziam. E por isso reconheciam a sua superioridade e em tudo cediam a eles.
(2.) Todo o povo os engrandecia e os tinha em grande veneração, falava deles com respeito e os apresentava como os favoritos do Céu e bênçãos indizíveis para esta terra.
Embora os principais sacerdotes os aviltassem e fizessem tudo o que podiam para torná-los desprezíveis, isso não impedia o povo de engrandecê-los, pois viam o fato numa luz verdadeira. Observe: Os apóstolos estavam longe de engrandecer a si mesmos.
Transmitiam a glória de tudo o que faziam muito cuidadosa e fielmente a Cristo, e contudo o povo os engrandecia. Pois aqueles que se humilham serão exaltados, e os que honram somente a Deus serão honrados.
- A igreja aumentou em número (v. 14): “Crentes eram acrescentados em maior número ao Senhor” e, sem dúvida, se uniam à igreja quando viam que Deus estava verdadeiramente nela, até multidões tanto de homens quanto de mulheres.
Estavam tão longe de ser dissuadidos pelo exemplo feito de Ananias e Safira que eram antes convidados por ele a um convívio que mantinha disciplina tão rigorosa. Observe:
(1.) Os crentes são acrescentados ao Senhor Jesus, unidos a ele, e assim unidos ao seu corpo místico, do qual nada pode nos separar e nos desligar, senão aquilo que nos separa e nos desliga de Cristo.
Muitos foram trazidos ao Senhor, e contudo há lugar para que outros sejam acrescentados a ele, acrescentados ao número daqueles que estão unidos a ele. E acréscimos continuarão a ser feitos até que o mistério de Deus seja terminado e o número dos eleitos completado.
(2.) Repara-se na conversão de mulheres assim como de homens. Reparava-se mais nela do que geralmente se reparava na igreja judaica, na qual elas nem recebiam o sinal da circuncisão nem eram obrigadas a comparecer às festas solenes. E o pátio das mulheres era um dos pátios exteriores do templo.
Mas, assim como entre os que seguiram Cristo enquanto estava na terra, assim entre os que creram nele depois que foi para o céu, reparava-se muito nas mulheres boas.
- Os apóstolos tinham abundância de pacientes e granjearam abundância de reputação tanto para si mesmos quanto para a sua doutrina pela cura de todos eles, v. 15, 16.
Tantos sinais e maravilhas eram realizados pelos apóstolos que todo tipo de pessoas requeria o benefício deles, tanto na cidade quanto no campo, e o recebia:
(1.) Na cidade: Levavam os seus enfermos para as ruas, pois é provável que os sacerdotes não lhes permitissem levá-los ao templo, ao pórtico de Salomão, e os apóstolos não tinham tempo livre para ir às casas de todos eles.
E os colocavam em camas e divãs (porque eram tão fracos que não podiam nem ir nem ficar de pé), para que ao menos a sombra de Pedro, ao passar, cobrisse alguns deles, embora não pudesse alcançar todos.
E, ao que parece, teve o efeito desejado, como o toque da mulher na orla da roupa de Cristo teve. E nisto, entre outras coisas, aquela palavra de Cristo foi cumprida: Vocês farão obras maiores do que estas.
Deus expressa o seu zelo pelo seu povo ao ser a sua sombra à sua mão direita. E as influências benignas de Cristo como rei são comparadas à sombra de uma grande rocha.
Pedro se coloca entre eles e o sol e assim os cura. Afasta-os da dependência da suficiência da criatura, por ser insuficiente, para que esperem ajuda somente daquele Espírito de graça de quem ele estava cheio.
E, se tais milagres eram realizados pela sombra de Pedro, temos motivo para pensar que também o eram pela dos outros apóstolos, como pelos lenços do corpo de Paulo (Atos 19:12). Em ambos os casos, sem dúvida, os apóstolos tinham a intenção real de curar desse modo.
De modo que é absurdo inferir daí um poder de cura nas relíquias dos santos que estão mortos e se foram. Não lemos de ninguém curado pelas relíquias do próprio Cristo depois que se foi, como certamente leríamos se tivesse havido tal coisa.
(2.) Nas cidades do campo: Multidões vinham a Jerusalém das cidades ao redor, trazendo pessoas enfermas, afligidas no corpo, e aqueles atormentados por espíritos impuros, perturbados na mente. E eram curados todos eles. Corpos adoentados e mentes adoentadas eram postos em ordem.
Assim foi dada oportunidade aos apóstolos tanto para convencer os juízos das pessoas, por estes milagres, da origem celestial da doutrina que pregavam, quanto também para conquistar as afeições das pessoas tanto para eles quanto para ela, dando-lhes uma amostra da sua tendência benéfica ao bem-estar deste mundo inferior.
Os Apóstolos Presos; Os Apóstolos Libertados por um Anjo; A Frustração do Conselho.
Versículos 17 a 25
Nunca uma boa obra prosseguiu com alguma esperança de sucesso sem encontrar oposição. Aqueles que estão empenhados em fazer dano não podem ser reconciliados com aqueles que fazem do bem a sua ocupação.
Satanás, o destruidor da humanidade, sempre foi e será adversário dos benfeitores da humanidade. E teria sido estranho se os apóstolos tivessem prosseguido assim ensinando e curando sem encontrar impedimento algum.
Nestes versículos temos a malícia do inferno e a graça do céu lutando em torno deles, uma para afastá-los dessa boa obra, a outra para animá-los nela:
I. Os sacerdotes estavam enfurecidos contra eles e os encerraram na prisão, v. 17, 18. Observe:
- Quem eram os seus inimigos e perseguidores.
O sumo sacerdote era o líder, Anás ou Caifás, que via a sua riqueza e dignidade, o seu poder e tirania, isto é, o seu tudo, em jogo, e inevitavelmente perdido se a doutrina espiritual e celestial de Cristo ganhasse terreno e prevalecesse entre o povo.
Os mais diligentes em se juntar ao sumo sacerdote nisso eram a seita dos saduceus, que tinham uma inimizade particular contra o evangelho de Cristo, porque ele confirmava e estabelecia a doutrina do mundo invisível, da ressurreição dos mortos e do estado futuro, que negavam.
Não é estranho que homens sem religião sejam fanáticos na sua oposição à religião verdadeira e pura.
- Como estavam dispostos para com eles: mal dispostos e exasperados ao último grau.
Quando ouviam e viam como as pessoas afluíam aos apóstolos e quão importantes eles haviam se tornado, levantaram-se num acesso de ira, como homens que não podiam mais suportar isso e estavam resolvidos a fazer frente a isso.
Estavam cheios de indignação contra os apóstolos por pregarem a doutrina de Cristo e curarem os enfermos. Contra o povo por ouvi-los e trazer-lhes os enfermos para serem curados.
E contra si mesmos e o seu próprio partido por terem permitido que esse assunto chegasse tão longe e não o terem esmagado no início. Assim os inimigos de Cristo e do seu evangelho são um tormento para si mesmos. A inveja abate o tolo.
- Como procederam contra eles (v. 18): Lançaram as suas mãos sobre eles, talvez as suas próprias mãos (tão baixo a sua malícia os fez se rebaixar), ou, antes, as mãos dos seus oficiais, e os puseram na prisão comum, entre os piores malfeitores. Com isso tinham o desígnio:
(1.) De lhes impor uma restrição. Embora não pudessem acusá-los de qualquer crime digno de morte ou de amarras, ainda assim, enquanto os tinham na prisão, impediam-nos de prosseguir na sua obra e consideravam ter obtido uma boa vantagem. Tão cedo os embaixadores de Cristo estavam em amarras.
(2.) De lhes impor um terror e assim afastá-los da sua obra. Na última vez que os tiveram diante de si, somente os ameaçaram (Atos 4:21). Mas agora, achando que isso não servia, os prenderam para que tivessem medo deles.
(3.) De lhes impor uma desonra, e por isso escolheram encerrá-los na prisão comum para que, assim aviltados, o povo não os engrandecesse como havia feito. Satanás levou muito adiante o seu desígnio contra o evangelho fazendo os seus pregadores e os que o professam parecerem desprezíveis.
II. Deus enviou o seu anjo para soltá-los da prisão e renovar o seu encargo de pregar o evangelho.
Os poderes das trevas lutam contra eles, mas o Pai das luzes luta em favor deles e envia um anjo de luz para defender a sua causa. O Senhor nunca abandonará as suas testemunhas, os seus defensores, mas certamente ficará ao lado deles e os sustentará:
- Os apóstolos são libertados, legitimamente libertados, da prisão (v. 19).
O anjo do Senhor, de noite, apesar de todas as fechaduras e barras que os prendiam, abriu as portas da prisão. E, apesar de toda a vigilância e resolução dos guardas que estavam do lado de fora, diante das portas, trouxe para fora os prisioneiros (veja v. 23).
Deu-lhes autoridade para sair sem incorrer em crime e os conduziu através de toda oposição. Essa libertação não é relatada com tantos detalhes quanto a de Pedro (Atos 12:7, etc.). Mas o milagre aqui foi o mesmo.
Repare: Não há prisão tão escura, tão forte, que Deus não possa tanto visitar nela o seu povo quanto, se lhe agradar, tirá-los dela. A libertação dos apóstolos da prisão por um anjo se assemelhava à ressurreição de Cristo e à sua libertação da prisão do túmulo, e ajudaria a confirmar a pregação dos apóstolos sobre ela.
- Recebem ordem, e ordem legítima, de prosseguir na sua obra, ficando assim livres da proibição que o sumo sacerdote lhes havia imposto.
O anjo lhes ordenou: “Ide, ficai de pé e falai no templo ao povo todas as palavras desta vida”, v. 20. Quando foram milagrosamente postos em liberdade, não deviam pensar que era para poderem salvar as suas vidas escapando das mãos dos seus inimigos.
Não: Era para que pudessem prosseguir na sua obra com tanto mais ousadia. Recuperações de enfermidades e solturas de tribulações nos são concedidas, e devem ser consideradas por nós como concedidas, não para que desfrutemos dos consolos da nossa vida, mas para que Deus seja honrado com os serviços da nossa vida.
“Que a minha alma viva, e ela te louvará”, Salmos 119:175. “Tira a minha alma da prisão” (como os apóstolos aqui), “para que eu louve o teu nome”, Salmos 142:7. Veja Isaías 38:22. Ora, nessa ordem que lhes foi dada, observe:
(1.) Onde devem pregar: “Falai no templo”.
Alguém pensaria que, embora não pudessem abandonar a sua obra, ainda assim teria sido prudente prosseguir nela num lugar mais privado, onde daria menos motivo de ofensa aos sacerdotes do que no templo, e assim os exporia menos.
Não: “Falai no templo, pois este é o lugar onde o povo se reúne, esta é a casa do vosso Pai e ainda não deve ser deixada inteiramente desolada.” Não cabe aos pregadores do evangelho de Cristo retirarem-se para cantos enquanto puderem ter qualquer oportunidade de pregar na grande congregação.
(2.) A quem devem pregar: “Falai ao povo; não aos príncipes e governantes, pois não darão ouvidos; mas ao povo, que está disposto e desejoso de aprender, e cujas almas são tão preciosas para Cristo, e devem sê-lo para vós, quanto as almas dos maiores. Falai ao povo, a todos em geral, pois todos têm interesse nisso.”
(3.) Como devem pregar: “Ide, ficai de pé e falai”, o que indica não só que devem falar publicamente, levantar-se e falar para que todos possam ouvir, mas também que devem falar ousada e resolutamente: “Ficai de pé e falai”. Isto é: “Falai como aqueles que resolvem sustentar o que dizem, viver e morrer por isso.”
(4.) O que devem falar: “Todas as palavras desta vida”.
Desta vida de que vocês têm falado entre si, referindo-se talvez aos colóquios acerca do céu que tinham entre si para seu próprio ânimo e o ânimo uns dos outros na prisão: “Ide e pregai o mesmo ao mundo, para que outros sejam consolados com os mesmos consolos com que vós mesmos sois consolados por Deus.”
Ou: “Desta vida que os saduceus negam e por isso vos perseguem; pregai-a, embora saibais que é ela que lhes causa indignação.” Ou: “Desta vida, enfaticamente; esta vida celestial, divina, em comparação com a qual a presente vida terrena não merece esse nome.”
Ou: “Estas palavras de vida, precisamente as mesmas que pregastes, estas palavras que o Espírito Santo põe em vossa boca.”
Repare: As palavras do evangelho são palavras de vida, palavras vivificantes. São espírito e são vida. Palavras pelas quais podemos ser salvos, o que é o mesmo que isso aqui, Atos 11:14.
O evangelho é a palavra desta vida, pois nos assegura os privilégios do nosso caminho assim como os do nosso lar, e as promessas da vida que agora é assim como da que virá.
E contudo até a vida espiritual e eterna são trazidas tanto à luz no evangelho que podem ser chamadas esta vida. Pois a palavra está perto de vocês. Repare: O evangelho trata de assuntos de vida e morte, e os ministros devem pregá-lo e o povo ouvi-lo de acordo com isso.
Devem falar todas as palavras desta vida e não ocultar nenhuma por medo de ofender ou na esperança de se insinuarem no favor dos seus governantes. As testemunhas de Cristo estão sob juramento de falar a verdade inteira.
III. Prosseguiram na sua obra (v. 21). Quando ouviram isso, quando ouviram que era a vontade de Deus que continuassem a pregar no templo, retornaram ao pórtico de Salomão, v. 12:
- Foi uma grande satisfação para eles ter essas novas ordens.
Talvez começassem a questionar se, caso tivessem a sua liberdade, deveriam pregar tão publicamente no templo como haviam feito, porque lhes havia sido dito que, quando fossem perseguidos numa cidade, fugissem para outra.
Mas, agora que o anjo lhes ordenou ir pregar no templo, o seu caminho era claro, e se aventuraram sem qualquer dificuldade, entraram no templo e não temeram a face do homem.
Repare: Se ao menos pudermos estar satisfeitos acerca do nosso dever, a nossa ocupação é nos ater a isso, e então podemos alegremente confiar a Deus a nossa segurança.
(2.) Dispuseram-se imediatamente a executar as ordens, sem disputa ou demora.
Entraram no templo de manhã cedo (assim que as portas foram abertas e o povo começou a se reunir ali), e lhes ensinaram o evangelho do reino. E não temeram de modo algum o que o homem poderia lhes fazer.
O caso aqui era extraordinário. O tesouro inteiro do evangelho está depositado nas suas mãos. Se estiverem calados agora, as fontes ficam fechadas e a obra inteira cai por terra e é levada a cessar.
Esse não é o caso de ministros comuns, que por isso não são obrigados por esse exemplo a se lançarem na boca do perigo. E contudo, quando Deus dá oportunidade de fazer o bem, embora estejamos sob a restrição e o terror dos poderes humanos, devemos antes nos aventurar muito do que deixar passar tal oportunidade.
IV. O sumo sacerdote e o seu partido prosseguiram no seu processo, v. 21. Supondo que tinham os apóstolos bastante seguros, convocaram o conselho, um conselho grande e extraordinário, pois convocaram todo o senado dos filhos de Israel. Veja aqui:
- Como estavam preparados e cheios de expectativa para esmagar o evangelho de Cristo e os seus pregadores, pois convocaram toda a força.
Na última vez que tiveram os apóstolos sob custódia, convocaram-nos somente diante de um comitê daqueles que eram parentes do sumo sacerdote, que eram obrigados a agir cautelosamente.
Mas agora, para prosseguirem mais longe e com mais segurança, convocaram pasan ten gerousian, todos os anciãos, isto é (diz o Dr. Lightfoot), todos os três tribunais ou bancadas de juízes em Jerusalém.
Não só o grande Sinédrio, composto de setenta anciãos, mas os outros dois tribunais que foram erigidos, um na porta do pátio exterior do templo, o outro na porta interior ou formosa, compostos de vinte e três juízes cada. De modo que, se houvesse um comparecimento completo, aqui estavam cento e dezesseis juízes.
Assim Deus o ordenou, para que a confusão dos inimigos e o testemunho dos apóstolos contra eles fossem mais públicos, e para que ouvissem o evangelho aqueles que só o ouviriam da boca dos réus.
Contudo, o sumo sacerdote não pretendia assim, nem assim pensava o seu coração. Mas estava no seu coração reunir todas as suas forças contra os apóstolos e, por uma anuência universal, eliminá-los todos de uma vez.
- Como foram frustrados e tiveram as suas faces cheias de vergonha.
Aquele que está sentado no céu ri deles, e assim podemos nós também, ao ver quão solenemente o tribunal é instalado. E podemos supor que o sumo sacerdote lhes faça um discurso solene, expondo a razão da reunião:
Uma facção muito perigosa surgira havia pouco em Jerusalém pela pregação da doutrina de Jesus. Era necessário suprimi-la rápida e eficazmente para preservar a sua igreja (que nunca estivera em tanto perigo quanto agora).
Agora estava em suas mãos fazê-lo, pois ele tinha os líderes da facção na prisão comum, para que se procedesse contra eles com a máxima severidade, se ao menos todos concordassem.
Um oficial é, para isso, enviado imediatamente para trazer os prisioneiros ao banco dos réus. Mas vejam como são frustrados:
(1.) Os oficiais vêm e lhes dizem que não podem ser encontrados na prisão, v. 22, 23. Na última vez estavam disponíveis quando foram chamados, Atos 4:7.
Mas agora haviam ido embora, e o relato que os oficiais fazem é: “As portas da prisão na verdade encontramos fechadas com toda a segurança” (nada havia sido feito para enfraquecê-las).
“Os guardas não haviam faltado ao seu dever; encontramo-los de pé do lado de fora, diante das portas, sem saberem de nada que indicasse que os prisioneiros não estivessem todos seguros. Mas, quando entramos, não encontramos ninguém lá dentro, isto é, nenhum dos homens que fomos enviados buscar.”
É provável que tenham encontrado os prisioneiros comuns ali. Por que caminho o anjo os tirou, se por algum caminho dos fundos ou abrindo a porta e fechando-a firmemente novamente (os guardas dormindo o tempo todo), não nos é dito. Contudo, fosse como fosse, haviam ido embora.
O Senhor sabe, embora nós não, como libertar os piedosos da tentação e como soltar aqueles que estão em amarras por causa do seu nome. E o fará, como aqui, quando precisar deles.
Agora pensem como o tribunal parecia confuso quando os oficiais voltaram com essa resposta à ordem que haviam recebido (v. 24).
Quando o sumo sacerdote, o capitão do templo e os principais sacerdotes ouviram essas coisas, estavam todos num impasse e olhavam uns para os outros, duvidando do que essa coisa seria.
Estavam extremamente perplexos, sem saber o que fazer. Nunca em toda a vida tinham sido tão frustrados em algo de que estavam tão seguros.
Isso ocasionou diversas especulações, alguns sugerindo que foram conjurados para fora da prisão e escaparam por artes mágicas. Outros, que os guardas lhes haviam pregado peças, sabendo quantos amigos esses prisioneiros tinham, que eram tão queridos pelo povo.
Alguns temiam que, tendo feito uma fuga tão maravilhosa, seriam mais seguidos. Outros, que, embora talvez os tivessem assustado para fora de Jerusalém, ouviriam falar deles novamente em alguma parte ou outra do território, onde fariam ainda mais dano.
E isso ficaria ainda mais fora do seu poder de deter a propagação da infecção. E agora começam a temer que, em vez de curar o mal, o tornaram pior. Repare: Aqueles que pensam afligir e embaraçar a causa de Cristo muitas vezes afligem e embaraçam a si mesmos.
(2.) A sua dúvida é, em parte, esclarecida. E contudo a sua irritação aumenta por outro mensageiro, que lhes traz notícia de que os seus prisioneiros estão pregando no templo (v. 25).
“Eis que os homens que vocês puseram na prisão e mandaram trazer perante o tribunal estão agora aqui perto de vocês, de pé no templo, debaixo do seu nariz e em desafio a vocês, ensinando o povo.”
Prisioneiros que escaparam da prisão geralmente se escondem por medo de serem recapturados. Mas esses prisioneiros, que aqui fizeram a sua fuga, ousam mostrar a sua face até onde os seus perseguidores têm a maior influência.
Ora, isso os confundiu mais que qualquer coisa. Malfeitores comuns podem ter habilidade suficiente para escapar da prisão. Mas são incomuns os que têm coragem suficiente para admitir a fuga depois de realizá-la.
A Captura dos Apóstolos; O Interrogatório dos Apóstolos; O Conselho de Gamaliel.
Versículos 26 a 42
Não nos é contado o que os apóstolos pregaram ao povo. Sem dúvida estava de acordo com a orientação do anjo, as palavras desta vida. Mas temos aqui um relato do que se passou entre eles e o conselho. Pois nos seus sofrimentos apareceu mais poder e energia divinos do que até na sua pregação. Ora, aqui temos:
I. A captura dos apóstolos uma segunda vez.
Podemos pensar, se Deus tinha esse desígnio: “Por que foram resgatados da sua primeira prisão?” Mas o desígnio disso era humilhar o orgulho e conter a fúria dos seus perseguidores.
E agora ele mostraria que foram dispensados não porque temessem um julgamento, pois estavam prontos a se entregar e comparecer diante dos maiores dos seus inimigos:
- Trouxeram-nos sem violência, com todo o respeito e ternura que poderia haver. Não os arrancaram do púlpito, nem os amarraram, nem os arrastaram, mas os abordaram respeitosamente.
E alguém pensaria que tinham motivo para fazê-lo, por reverência ao templo, aquele lugar santo, e por medo dos apóstolos, para que estes não os ferissem, como fizeram a Ananias, ou invocassem fogo do céu sobre eles, como Elias fez.
Mas tudo o que restringia a sua violência era o seu medo do povo, que tinha tamanha veneração pelos apóstolos que teria apedrejado os oficiais se lhes tivessem feito qualquer abuso.
- Contudo, trouxeram-nos àqueles que sabiam ser violentos contra eles e estar resolvidos a tomar medidas violentas contra eles (v. 27). Trouxeram-nos para pô-los perante o conselho, como delinquentes. Assim os poderes que deveriam ter sido um terror para obras más e seus praticantes se tornaram assim para os bons.
II. O seu interrogatório.
Tendo sido trazidos perante essa augusta assembleia, o sumo sacerdote, como a boca do tribunal, lhes contou o que o tribunal tinha para lhes imputar como acusação, v. 28:
- Que haviam desobedecido às ordens da autoridade e não quiseram submeter-se às imposições e proibições que lhes foram dadas (v. 28).
Não ordenamos e mandamos rigorosamente a vocês, em virtude da nossa autoridade, sob pena do nosso mais alto desagrado, que não ensinassem nesse nome? Mas vocês desobedeceram às nossas ordens e prosseguiram pregando não só sem a nossa licença, mas contra a nossa ordem expressa.
Assim aqueles que anulam os mandamentos de Deus comumente são muito rigorosos em impor os seus próprios mandamentos e insistir no seu próprio poder: Não ordenamos a vocês? Sim: Ordenaram.
Mas não lhes disse Pedro, ao mesmo tempo, que a autoridade de Deus era superior à deles, e que as suas ordens deviam tomar o lugar das deles? E haviam esquecido isso.
- Que haviam espalhado doutrina falsa entre o povo, ou pelo menos uma doutrina singular, que não era consentida pela igreja judaica, nem concordava com o que era exposto da cadeira de Moisés.
Vocês encheram Jerusalém com a sua doutrina e nisso perturbaram a paz pública e desviaram o povo do estabelecimento público. Alguns entendem isso como uma palavra altiva e escarnecedora.
Esta sua doutrina tola e irrefletida, em que não vale a pena reparar, vocês fizeram tamanho barulho com ela que até Jerusalém, a cidade grande e santa, ficou cheia dela, e é toda a conversa da cidade.
Estão irados de que homens que consideram desprezíveis se tornem assim importantes.
- Que tinham um desígnio malicioso contra o governo e visavam incitar o povo contra ele, representando-o como perverso e tirânico, e como tendo se tornado com razão odioso tanto a Deus quanto ao homem: Vocês pretendem trazer sobre nós o sangue desse homem, a sua culpa diante de Deus, a sua vergonha diante dos homens.
Assim os acusam não só de contumácia e desprezo do tribunal, mas de sedição e facção, e de uma trama tanto para pôr o povo contra eles, por terem perseguido até a morte não só um homem tão inocente, mas tão bom e grande como esse Jesus, quanto também para pôr os romanos contra eles, por terem atraído os romanos a isso.
Veja aqui como aqueles que com grande presunção fazem uma coisa má, contudo não podem suportar ouvir falar dela depois, nem que lhes seja imputada. Quando estavam no calor da perseguição, podiam gritar com bastante ousadia: “O seu sangue esteja sobre nós e sobre os nossos filhos”. Que levemos a culpa para sempre.
Mas agora que têm tempo para um pensamento mais frio consideram uma grande afronta que o seu sangue seja posto à sua porta. Assim são declarados culpados e condenados pelas suas próprias consciências e temem ficar sob aquela culpa em que não recearam envolver-se.
III. A sua resposta à acusação apresentada contra eles.
Pedro e os outros apóstolos falaram todos com o mesmo teor. Ou interrogados separadamente ou respondendo conjuntamente, falaram conforme um só e mesmo Espírito lhes dava expressão, dependendo da promessa que o seu Mestre lhes havia feito de que, quando fossem levados perante conselhos, lhes seria dado naquela mesma hora o que deveriam falar, e coragem para falá-lo:
- Justificaram-se na sua desobediência às ordens do grande Sinédrio, grande como era (v. 29): “Devemos obedecer a Deus antes que aos homens”.
Não apelam para o poder que tinham de operar milagres (isso falava suficientemente em favor deles, e por isso humildemente se recusam a mencioná-lo eles mesmos), mas recorrem a uma máxima universalmente reconhecida, que até a consciência natural subscreve e que se aplica ao seu caso.
Deus lhes havia ordenado ensinar no nome de Cristo, e por isso deviam fazê-lo, embora os principais sacerdotes os proibissem.
Repare: Aqueles governantes se colocam em oposição a Deus e têm muito pelo que responder que castigam os homens por lhes desobedecerem naquilo que é o seu dever para com Deus.
- Justificaram-se em fazer o que podiam para encher Jerusalém com a doutrina de Cristo. Embora, ao exaltá-lo na pregação, de fato desacreditassem aqueles que maliciosamente o depreciaram, e, se nisso trazem o seu sangue sobre eles, podem agradecer a si mesmos.
É-lhes imputado como crime que pregavam Cristo e o seu evangelho. Ora, dizem eles, contaremos a vocês quem é esse Cristo e o que é o seu evangelho, e então julguem vocês se não devemos pregá-lo.
Ou melhor: E aproveitaremos essa oportunidade para pregá-lo a vocês, ou quer ouçam ou quer deixem de ouvir:
(1.) Aos principais sacerdotes são ditas na sua face as indignidades que fizeram a esse Jesus: Vocês o abateram e o penduraram numa árvore, não podem negá-lo.
Os apóstolos, em vez de apresentar uma desculpa ou pedir-lhes perdão por trazer sobre eles a culpa do sangue desse homem, repetem a acusação e a sustentam: Foram vocês que o abateram. Foi o seu ato e feito.
Repare: A indisposição das pessoas para ouvir falar das suas faltas não é um bom motivo para que não lhes sejam fielmente ditas. É uma desculpa comum para não censurar o pecado que os tempos não o suportarão.
Mas aqueles cujo ofício é censurar não devem ser intimidados por isso. Os tempos devem suportá-lo e o suportarão. Gritem alto e não poupem; gritem alto e não temam.
(2.) Também lhes é dito que honras Deus concedeu a esse Jesus, e então que julguem quem estava certo, os perseguidores da sua doutrina ou os seus pregadores.
Ele chama Deus o Deus dos nossos pais, não só nossos, mas de vocês, para mostrar que ao pregar Cristo não pregavam um deus novo nem atraíam o povo para vir adorar outros deuses.
Nem estabeleceram uma instituição contrária à de Moisés e dos profetas, mas aderiram ao Deus dos pais judeus. E aquele nome de Cristo que pregavam correspondia às promessas feitas aos pais, à aliança que Deus celebrou com eles e aos tipos e figuras da lei que lhes deu.
O Deus de Abraão, Isaque e Jacó é o Deus e Pai do nosso Senhor Jesus Cristo. Veja que honra lhe fez:
[1.] Ele o levantou. Qualificou-o para o seu grande empreendimento e chamou-o a ele. Parece referir-se à promessa que Deus fez por Moisés: “Um profeta vos levantará o Senhor vosso Deus”. Deus o levantou da obscuridade e o tornou grande.
Ou pode significar ressuscitá-lo da sepultura. Vocês o mataram, mas Deus o restituiu à vida, de modo que Deus e vocês estão manifestamente disputando acerca desse Jesus. E de que lado devemos ficar?
[2.] Ele o exaltou com a sua mão direita, hypsose, elevou-o. Vocês o carregaram de desonra, mas Deus o coroou de honra. E não devemos honrar aquele que Deus honra?
Deus o exaltou, te dexia autou, com a sua mão direita, isto é, pelo seu poder exercido. Diz-se que Cristo vive pelo poder de Deus. Ou à sua mão direita, para sentar-se ali, descansar ali, governar ali.
Investiu-o da mais alta autoridade, e por isso devemos ensinar no seu nome, pois Deus lhe deu um nome acima de todo nome.
[3.] Designou-o para ser um príncipe e Salvador, e por isso devemos pregar no seu nome e publicar as leis do seu governo como ele é um príncipe, e as ofertas da sua graça como ele é um Salvador.
Observe: Não há como ter Cristo por nosso Salvador a menos que estejamos dispostos a tomá-lo por nosso príncipe. Não podemos esperar ser redimidos e curados por ele a menos que nos entreguemos para sermos governados por ele.
Os juízes de antigamente eram salvadores. O governar de Cristo visa o seu salvar, e a fé toma um Cristo inteiro, que veio não para nos salvar nos nossos pecados, mas para nos salvar dos nossos pecados.
[4.] Ele é designado, como príncipe e Salvador, para dar arrependimento a Israel e remissão dos pecados.
Por isso devem pregar no seu nome ao povo de Israel, pois os seus favores eram destinados primariamente e principalmente a eles. E ninguém que na verdade amasse o seu país poderia ser contra isso.
Por que os governantes e anciãos de Israel se oporiam a alguém que veio com uma bênção para Israel nada menor que o arrependimento e o perdão?
Se tivesse sido exaltado para dar libertação a Israel do jugo romano e domínio sobre as nações vizinhas, os principais sacerdotes o teriam acolhido de todo o seu coração.
Mas o arrependimento e a remissão dos pecados são bênçãos que eles nem valorizam nem veem precisar, e por isso de modo algum podem admitir a sua doutrina. Observe aqui:
Primeiro: Arrependimento e remissão vão juntos. Onde quer que o arrependimento seja operado, a remissão é sem falta concedida, e o favor é dado a todos aqueles a quem é dada a qualificação para ele.
Por outro lado, nenhuma remissão sem arrependimento. Ninguém é libertado da culpa e castigo do pecado senão aqueles que são libertados do poder e domínio do pecado, que são desviados dele e voltados contra ele.
Segundo: É Jesus Cristo que dá, e é autorizado a dar, tanto arrependimento quanto remissão. Tudo o que é exigido na aliança do evangelho é prometido.
Somos designados para nos arrepender? Cristo é designado para dar arrependimento, pelo seu Espírito operando com a palavra, para despertar a consciência, operar contrição pelo pecado e uma mudança eficaz no coração e na vida.
O novo coração é a sua obra, e o espírito quebrantado um sacrifício da sua provisão. E, quando ele dá arrependimento, se não desse remissão, abandonaria a obra das suas próprias mãos.
Veja como é necessário que nos arrependamos e que recorramos a Cristo pela fé para que a sua graça opere arrependimento em nós.
[5.] Tudo isso é bem atestado. Primeiro, pelos próprios apóstolos:
Estão prontos a testificar sob juramento, se exigido, que o viram vivo depois da sua ressurreição e o viram ascender ao céu. E também que experimentaram o poder da sua graça sobre os seus corações, levantando-os àquilo que estava muito acima das suas capacidades naturais.
Somos as suas testemunhas, designadas por ele para publicar isso ao mundo. E, se estivéssemos calados, como vocês desejariam, trairíamos um depósito e seríamos infiéis a ele. Quando uma causa está sendo julgada, as testemunhas, dentre todos os homens, não devem ser silenciadas, pois o desfecho da causa depende do seu testemunho.
Segundo, pelo Espírito de Deus. Somos testemunhas competentes, cujo testemunho é suficiente perante qualquer tribunal humano. Mas isso não é tudo. O Espírito Santo é testemunha, uma testemunha do céu.
Pois Deus deu os dons e graças do Espírito àqueles que obedecem a Cristo. Por isso devemos pregar nesse nome, porque para esse fim o Espírito Santo nos é dado, cujas operações não podemos sufocar.
Repare: A dádiva do Espírito Santo aos crentes obedientes, não só para levá-los à obediência da fé, mas para torná-los eminentemente úteis nela, é uma prova muito forte da verdade do cristianismo.
Deus deu o Espírito Santo pelo seu Filho e no seu nome (João 14:26), e em resposta à sua oração (João 14:16). Ou melhor: Foi Cristo que o enviou do Pai (João 15:26; 16:7), e isso prova a glória à qual o Pai o exaltou.
O fato de a grande obra do Espírito ser não só justificar Cristo (1 Timóteo 3:16), mas glorificá-lo, e de todos os seus dons tenderem diretamente a exaltar o seu nome prova que a sua doutrina é divina. Caso contrário, não seria assim levada adiante pelo poder divino.
E, por último, a dádiva do Espírito Santo àqueles que obedecem a Cristo, tanto para o seu auxílio na sua obediência quanto como uma recompensa presente pela sua obediência, é uma evidência clara de que é a vontade de Deus que Cristo seja obedecido.
Julguem então se devemos obedecer a vocês em oposição a ele.
IV. A impressão que a defesa dos apóstolos de si mesmos causou no tribunal.
Foi contrária ao que alguém teria esperado de homens que alegavam ter razão, erudição e santidade. Certamente raciocínio tão justo não poderia deixar de inocentar os prisioneiros e converter os juízes. Não: Em vez de ceder a ele, enfureceram-se contra ele e ficaram cheios:
- De indignação pelo que os apóstolos disseram. Foram cortados até o coração, irados ao ver o seu próprio pecado posto em ordem diante deles. Inteiramente loucos ao descobrir que o evangelho de Cristo tinha tanto a dizer em favor de si mesmo, e consequentemente provavelmente ganharia terreno.
Quando um sermão com esse teor foi pregado ao povo, foram picados até o coração, em remorso e tristeza piedosa, Atos 2:37. Estes aqui foram cortados até o coração com fúria e indignação.
Assim o mesmo evangelho é para alguns um aroma de vida para vida, para outros de morte para morte. Os inimigos do evangelho não só se privam dos seus consolos, mas se enchem de terrores e são os seus próprios atormentadores.
- De malícia contra os próprios apóstolos. Já que veem que não podem deter a sua boca de outro modo senão detendo o seu fôlego, tomam conselho para abatê-los, esperando que assim façam a obra cessar.
Enquanto os apóstolos prosseguiam no serviço de Cristo, com santa segurança e serenidade de mente, perfeitamente compostos, e num doce desfrute de si mesmos, os seus perseguidores prosseguiam na sua oposição a Cristo, com constante perplexidade e perturbação de mente e irritação para si mesmos.
V. O conselho grave que Gamaliel, um homem de destaque no conselho, deu nessa ocasião, cujo intuito era moderar a fúria desses fanáticos e conter a violência do processo.
Diz-se aqui que esse Gamaliel era fariseu pela sua profissão e seita, e por ofício um doutor da lei, alguém que estudava as escrituras do Antigo Testamento, dava preleções sobre os autores sagrados e educava alunos no conhecimento deles.
Paulo foi educado aos seus pés (Atos 22:3), e a tradição diz que assim foram Estêvão e Barnabé. Alguns dizem que era filho daquele Simeão que tomou Cristo nos seus braços quando foi apresentado no templo, e neto do famoso Hillel.
Diz-se aqui que tinha reputação entre todo o povo pela sua sabedoria e conduta, aparecendo por essa passagem que era um homem moderado, e não inclinado a participar de medidas furiosas.
Homens de temperança e caridade são com razão tidos em reputação por conter os incendiários que de outro modo poriam o mundo em chamas. Ora, observe aqui:
- A precaução necessária que dá ao conselho com referência ao caso diante deles.
Ordenou que pusessem os apóstolos para fora por um pouco de tempo, para falar mais livremente e ser mais livremente respondido (convinha que os prisioneiros se retirassem quando o seu caso estava para ser debatido).
E então lembrou à assembleia a importância desse assunto, que no seu calor não eram capazes de considerar como deviam: Vocês, homens de Israel, diz ele, tomem cuidado consigo mesmos, considerem o que fazem ou pretendem fazer quanto a esses homens, v. 35.
Não é um caso comum, e por isso não deve ser apressadamente determinado. Chama-os homens de Israel para reforçar essa precaução.
Vocês são homens, que devem ser governados pela razão. Não sejam então como o cavalo e a mula, que não têm entendimento. Vocês são homens de Israel, que devem ser governados pela revelação. Não sejam então como estrangeiros e pagãos, que não têm consideração por Deus e pela sua palavra.
Tomem cuidado consigo mesmos agora que estão irados com esses homens, para que não se intrometam para o seu próprio prejuízo. Repare: É melhor que os perseguidores do povo de Deus olhem por si mesmos, para que não caiam no poço que cavam.
Precisamos ser cautelosos quanto a quem damos tribulação, para que não sejamos encontrados tornando tristes os corações dos justos.
- Os casos que cita para abrir caminho para a sua opinião.
Dá dois exemplos de homens facciosos e sediciosos (como queriam que os apóstolos fossem considerados), cujas tentativas deram em nada por si mesmas.
Disso infere que, se esses homens fossem de fato como os representavam, a causa afundaria com o seu próprio peso e a Providência os tornaria insensatos e os derrotaria, e então não precisavam persegui-los:
(1.) Havia um Teudas, que fez enorme barulho por algum tempo, como alguém enviado por Deus, gabando-se de ser alguém, algum grande homem (assim é a palavra), ou um mestre ou um príncipe, com uma comissão divina para efetuar alguma grande revolução na igreja ou no Estado. E ele observa aqui (v. 36) acerca dele:
[1.] Até onde conseguiu o intento: Um número de homens, cerca de quatrocentos ao todo, juntou-se a ele, que não sabiam o que fazer consigo mesmos ou esperavam melhorar a sua condição. E então pareciam um corpo temível.
[2.] Quão cedo todas as suas alegações foram destruídas: Quando foi abatido (provavelmente na guerra), não era necessário mais alvoroço. Todos, tantos quantos lhe obedeciam, foram dispersos e se derreteram como neve diante do sol.
Agora comparem aquele caso com este. Vocês abateram Jesus, o líder dessa facção; vocês o eliminaram. Ora, se era, como dizem que era, um impostor e alguém que alega, a sua morte, como a de Teudas, será a morte da sua causa e a dispersão final dos seus seguidores.
Do que foi podemos inferir o que será num caso semelhante. O ferir do pastor será a dispersão das ovelhas. E, se o Deus da paz não tivesse trazido novamente dos mortos aquele grande Pastor, a dispersão das ovelhas na sua morte teria sido total e final.
(2.) O caso foi o mesmo com Judas da Galileia, v. 37. Observe:
[1.] A tentativa que fez.
Diz-se que foi depois disso, o que alguns leem além disso, ou Deixe-me mencionar, depois disso, supondo que a insurreição de Judas fosse muito antes da de Teudas.
Pois foi no tempo do recenseamento, isto é, aquele no nascimento do nosso Salvador (Lucas 2:1), e a de Teudas, de quem Josefo fala, que se amotinou, no tempo de Cúspio Fado. Mas isso foi nos dias de Cláudio César, alguns anos depois que Gamaliel falou isso, e por isso não poderia ser o mesmo.
Não é fácil determinar particularmente quando esses acontecimentos ocorreram, nem se esse recenseamento era o mesmo que no nascimento do nosso Salvador ou um de data posterior.
Alguns pensam que esse Judas da Galileia era o mesmo que Judas Gaulonites, de quem Josefo fala, outros não. É provável que fossem casos que haviam recentemente acontecido e estavam frescos na memória.
Esse Judas desviou muito povo atrás de si, que deu crédito às suas alegações. Mas:
[2.] Aqui está a derrota da sua tentativa, e isso sem qualquer intervenção do grande Sinédrio ou qualquer decreto deles contra ele (não precisava disso). Ele também pereceu, e todos, até mesmo tantos quantos lhe obedeciam ou eram persuadidos por ele, foram dispersos.
Muitos insensatamente jogaram fora as suas vidas e trouxeram outros às mesmas armadilhas, por zelo pelas suas liberdades nos dias do recenseamento. Teria sido melhor que se contentassem, quando a Providência assim determinara, em servir ao rei da Babilônia.
- A sua opinião sobre o assunto inteiro:
(1.) Que não deveriam perseguir os apóstolos (v. 38): Agora digo a vocês, ta nyn, por ora, como o assunto agora está, o meu conselho é: Abstenham-se desses homens.
Não os castiguem pelo que fizeram nem os restrinjam para o futuro. Tolerem-nos; deixem-nos tomar o seu caminho; que a nossa mão não esteja sobre eles.
É incerto se falou isso por sagacidade, por medo de ofender ou o povo ou os romanos e fazer dano ulterior. Os apóstolos não tentaram coisa alguma pela força exterior. As armas da sua guerra não eram carnais. E, por isso, por que se usaria qualquer força exterior contra eles?
Ou se estava sob quaisquer convencimentos presentes, ao menos da probabilidade da verdade da doutrina cristã, e pensava que merecia melhor tratamento, pelo menos um julgamento justo.
Ou se era somente a linguagem de um espírito brando e quieto, que era contra a perseguição por causa da consciência. Ou se Deus pôs essa palavra na sua boca além da sua própria intenção, para a libertação dos apóstolos nesse tempo.
Estamos certos de que havia nisso uma Providência que se sobrepunha, para que os servos de Cristo não só escapassem, mas escapassem honrosamente.
(2.) Que deveriam remeter esse assunto à Providência: Aguardem o desfecho e vejam a que chegará. Se for dos homens, dará em nada por si mesmo. Se de Deus, permanecerá, apesar de todos os seus poderes e sagacidades.
Aquilo que é manifestamente perverso e imoral deve ser suprimido, caso contrário o magistrado carrega a espada em vão. Mas aquilo que tem aparência de bem e é duvidoso se é de Deus ou dos homens é melhor deixar em paz e deixar tomar o seu destino, não usar qualquer força externa para suprimi-lo.
Cristo governa pelo poder da verdade, não da espada. O que Cristo perguntou acerca do batismo de João, “Era do céu ou dos homens?”, era uma pergunta apropriada a fazer acerca da doutrina e batismo dos apóstolos, que seguiam Cristo, como o de João Batista o precedeu.
Ora, tendo reconhecido acerca do primeiro que não podiam dizer se era do céu ou dos homens, não deveriam ser confiantes demais acerca do segundo. Mas, entendam como quiserem, é um motivo para que não sejam perseguidos:
[1.] Se esse conselho e essa obra, essa formação de um convívio e incorporação dele no nome de Jesus, forem dos homens, darão em nada.
Se forem o conselho e obra de homens insensatos e desmiolados que não sabem o que fazem, deixem-nos em paz por algum tempo. E eles correrão até perder o fôlego, e a sua insensatez será manifesta diante de todos os homens, e se tornarão ridículos.
Se forem o conselho e obra de homens sagazes e cheios de desígnios, que sob a aparência de religião estabelecem um interesse secular, deixem-nos em paz por algum tempo. E lançarão fora a máscara, e a sua velhacaria será manifesta a todos os homens, e se tornarão odiosos. A Providência nunca apoiará isso.
Dará em nada em pouco tempo. E, se assim for, a sua perseguição e oposição a isso são muito desnecessárias. Não há ocasião para se darem tanta tribulação e trazerem tal ódio sobre si mesmos, para matar aquilo que, se lhe derem um pouco de tempo, morrerá por si mesmo.
O uso desnecessário do poder é um abuso dele. Mas:
[2.] Se se provar (e homens tão sábios quanto vocês já se enganaram) que esse conselho e essa obra são de Deus, que esses pregadores têm as suas comissões e instruções dele, que são tão verdadeiramente os seus mensageiros ao mundo quanto eram os profetas do Antigo Testamento, então o que pensam de persegui-los?
Dessa sua tentativa (v. 33) de abatê-los? Vocês devem concluir que é:
Primeiro: Uma tentativa infrutífera contra eles. Se for de Deus, vocês não podem derrubá-la. Pois não há sabedoria nem conselho contra o Senhor. Aquele que está sentado no céu ri de vocês.
Pode ser o consolo de todos que sinceramente estão do lado de Deus, que têm um olho simples para a sua vontade como sua regra e a sua glória como seu fim, que tudo o que é de Deus não pode ser derrubado total e finalmente, embora possa ser muito vigorosamente oposto. Pode ser atacado, mas não pode ser derrotado.
Segundo: Uma tentativa perigosa para vocês mesmos. Por favor, deixem isso em paz, para que não sejam por acaso encontrados até lutando contra Deus. E não preciso lhes dizer quem sairá pior nessa disputa.
Ai daquele que contende com o seu Criador. Pois não só será vencido como inimigo impotente, mas severamente chamado a prestar contas como rebelde e traidor contra o seu príncipe legítimo.
Aqueles que odeiam e abusam do povo fiel de Deus, que restringem e silenciam os seus ministros fiéis, lutam contra Deus, pois ele considera feito contra si mesmo o que é feito contra eles. Quem os toca, toca a menina do seu olho.
Bem, esse era o conselho de Gamaliel. Desejamos que fosse devidamente considerado por aqueles que perseguem por causa da consciência, pois era um bom pensamento, e natural o bastante, embora estejamos incertos sobre que espécie de homem ele era.
A tradição dos escritores judeus é que, apesar de tudo isso, viveu e morreu inimigo inveterado de Cristo e do seu evangelho. E, embora (agora ao menos) não fosse a favor de perseguir os seguidores de Cristo, ainda assim era o homem que compôs aquela oração que os judeus usam até hoje para a extirpação dos cristãos e do cristianismo.
Ao contrário, a tradição dos papistas é que se tornou cristão e um notável patrono do cristianismo e seguidor de Paulo, que antes se sentara aos seus pés. Se tivesse sido assim, é muito provável que teríamos ouvido falar dele em algum lugar nos Atos ou nas Epístolas.
VI. A determinação do conselho sobre o assunto inteiro, v. 40:
Até esse ponto concordaram com Gamaliel, que abandonaram o desígnio de matar os apóstolos. Viram muita razão no que Gamaliel disse. E, por ora, isso deu alguma contenção à sua fúria, e um restante da sua cólera foi restringido por isso.
Contudo, não puderam deixar de dar alguma vazão à sua fúria (tão furiosa era), contrariamente aos convencimentos dos seus juízos e consciências. Pois, embora tivessem sido aconselhados a deixá-los em paz, ainda assim:
(1.) Bateram neles, açoitaram-nos como malfeitores, despiram-nos e os chicotearam, como costumavam fazer nas sinagogas, e repara-se (v. 41) na sua ignomínia.
Assim pensavam fazê-los se envergonhar de pregar, e o povo se envergonhar de ouvi-los, como Pilatos açoitou o nosso Salvador para expô-lo, quando contudo declarou que não achava falta alguma nele.
(2.) Ordenaram que não falassem mais no nome de Jesus, para que, se não pudessem achar outra falta na sua pregação, tivessem esse fundamento para desacreditá-la: que era contra a lei e não só sem as permissões, mas contra a ordem expressa dos seus superiores.
VII. A maravilhosa coragem e constância dos apóstolos no meio de todas essas injúrias e indignidades feitas a eles.
Quando foram dispensados, saíram do conselho, e não encontramos uma palavra que dissessem como crítica ao tribunal e ao tratamento injusto que lhes foi dado.
Quando foram vituperados, não vituperaram de volta. E, quando sofreram, não ameaçaram. Mas confiaram a sua causa àquele a quem Gamaliel a havia remetido, precisamente a um Deus que julga justamente.
Toda a sua ocupação era preservar a posse das suas próprias almas e dar plena prova do seu ministério, apesar da oposição que lhes era feita. E ambas essas coisas fizeram de modo admirável:
- Suportaram os seus sofrimentos com uma alegria invencível (v. 41).
Quando saíram, talvez com as marcas das chicotadas dadas nos seus braços e mãos aparecendo, vaiados pelos servos e pela ralé, pode ser, ou dada notícia pública do castigo infame que haviam sofrido, em vez de se envergonhar de Cristo e da sua relação com ele, alegraram-se de terem sido considerados dignos de sofrer vergonha pelo seu nome.
Eram homens, e homens de reputação, que nunca haviam feito coisa alguma para se tornarem vis, e por isso não podiam deixar de ter uma percepção da vergonha que sofreram. Isso, ao que parece, lhes era mais doloroso que a dor aguda, como usualmente é para mentes francas.
Mas consideravam que era pelo nome de Cristo que eram assim maltratados, porque lhe pertenciam e serviam à sua causa, e os seus sofrimentos seriam levados a contribuir para a promoção ulterior do seu nome. E por isso:
(1.) Consideravam-no uma honra, viam que foram considerados dignos de sofrer vergonha, katexiothesan atimasthenai, que foram honrados para serem desonrados por Cristo. O descrédito por Cristo é um verdadeiro cargo, pois nos torna conformes ao seu modelo e úteis à sua causa.
(2.) Alegravam-se nisso, lembrando o que o seu Mestre lhes havia dito quando começaram (Mateus 5:11, 12): “Quando os homens vos vituperarem e vos perseguirem, regozijai-vos e alegrai-vos excessivamente”.
Alegravam-se não só embora sofressem vergonha (as suas tribulações não diminuíam a sua alegria), mas por sofrerem vergonha. As suas tribulações aumentavam a sua alegria e acrescentavam a ela.
Se sofremos o mal por fazer o bem, desde que o soframos bem e como devemos, devemos nos alegrar naquela graça que nos capacita a fazê-lo assim.
- Prosseguiram na sua obra com diligência infatigável (v. 42). Foram castigados por pregar e receberam ordem de não pregar, e contudo não cessaram de ensinar e pregar. Não omitiram nenhuma oportunidade nem diminuíram coisa alguma do seu zelo ou prontidão. Observe:
(1.) Quando pregavam: diariamente. Não só em dias de sábado ou em dias do Senhor, mas todo dia, tão regularmente quanto o dia vinha, sem interromper qualquer dia, como o seu Mestre fez (Mateus 26:55; Lucas 19:47), não temendo que ou se matassem ou enfastiassem os seus ouvintes.
(2.) Onde pregavam: tanto publicamente no templo quanto privadamente em cada casa. Em assembleias mistas, às quais todos acorriam, e nas assembleias selecionadas de cristãos para ordenanças especiais.
Não pensavam que uma ou outra os dispensaria da outra, pois a palavra deve ser pregada a tempo e fora de tempo.
Embora no templo estivessem mais expostos e sob o olho dos seus inimigos, ainda assim não se limitavam aos seus pequenos oratórios nas suas próprias casas, mas se aventuravam no posto de perigo.
E, embora tivessem a liberdade do templo, um lugar consagrado, ainda assim não tinham dificuldade em pregar em casas, em cada casa, até na mais pobre cabana.
Visitavam as famílias daqueles que estavam sob o seu encargo e lhes davam instruções particulares conforme exigia o seu caso, até às crianças e aos servos.
(3.) Qual era o assunto da sua pregação: Pregavam Jesus Cristo. Pregavam acerca dele. E isso não era tudo, exaltavam-no na pregação, propunham-no àqueles que os ouviam para ser o seu príncipe e Salvador.
Não pregavam a si mesmos, mas Cristo, como amigos fiéis do noivo, fazendo da promoção da sua causa a sua ocupação.
Essa era a pregação que mais motivo de ofensa dava aos sacerdotes, que estavam dispostos a que pregassem qualquer coisa menos Cristo. Mas não quiseram alterar o seu assunto para agradá-los.
Deve ser a ocupação constante dos ministros do evangelho pregar Cristo; Cristo, e este crucificado; Cristo, e este glorificado; nada além disso senão o que pode ser reduzido a isso.