Atos 27
Argumento
Este capítulo inteiro é ocupado pelo relato da viagem de Paulo rumo a Roma, quando foi enviado para lá preso pelo governador Festo, mediante seu recurso a César:
I. O começo da viagem foi bastante bom, calmo e próspero, vv. 1-8.
II. Paulo lhes deu aviso de uma tempestade que se aproximava, mas não conseguiu seu intento de fazê-los parar, vv. 9-11.
III. Ao prosseguirem sua viagem, encontraram muito tempo tempestuoso, que os reduziu a tal extremo que não contavam com nada senão naufragar, vv. 12-20.
IV. Paulo lhes assegurou que, embora não quisessem ser aconselhados por ele para impedir que entrassem nesse perigo, ainda assim, pela boa providência de Deus, seriam conduzidos com segurança através dele, e nenhum deles se perderia, vv. 21-26.
V. Por fim, à meia-noite, foram lançados sobre uma ilha que se revelou Malta; então estavam no máximo perigo imaginável, mas foram ajudados pelo conselho de Paulo a manter os marinheiros no navio e animados por seus consolos a comer seu alimento e ter bom ânimo com isso, vv. 27-36.
VI. Sua salvação por um triz, quando chegaram à praia, quando o navio naufragou, mas todas as pessoas foram maravilhosamente preservadas, vv. 37-44.
Versículos 1 a 11
A Viagem de Paulo Rumo a Roma.
Não fica evidente quanto tempo depois do colóquio de Paulo com Agripa ele foi enviado a Roma, conforme seu recurso a César; mas é provável que tenham aproveitado a primeira oportunidade de que puderam ter notícia para fazê-lo. Enquanto isso, Paulo está entre seus amigos em Cesareia: eles são consolos para ele, e ele, uma bênção para eles. Mas aqui nos é contado:
I. Como Paulo foi embarcado para a Itália: uma viagem longa, mas não há remédio. Apelou a César, e a César deve ir: “Foi determinado que navegássemos para a Itália”, pois devem ir a Roma por mar; teria sido um enorme desvio ir por terra.
Por isso, quando se prediz a conquista romana da nação judaica, diz-se: “Virão navios de Quitim”, isto é, da Itália, “e afligirão a Héber”, isto é, os hebreus, Números 24:24. Foi determinado pelo conselho de Deus, antes de ser determinado pelo conselho de Festo, que Paulo fosse a Roma; pois, fosse qual fosse a intenção do homem, Deus tinha trabalho para ele fazer lá. Agora aqui nos é contado:
À custódia de quem foi entregue: a um centurião chamado Júlio, da coorte de Augusto, assim como Cornélio pertencia à coorte, ou legião, italiana, Atos 10:1. Tinha soldados sob suas ordens que guardavam Paulo para impedir sua fuga e também para protegê-lo, para que nenhum dano lhe fosse feito.
Em que navio embarcou: subiram a bordo de um navio de Adramítio (v. 2), porto marítimo da África de onde esse navio trazia mercadorias africanas. Ao que parece, fazia uma viagem costeira para a Síria, onde essas mercadorias encontravam um bom mercado.
Que companhia tinha nessa viagem. Havia alguns prisioneiros que foram entregues à custódia do mesmo centurião. Provavelmente também tinham apelado a César ou eram transferidos a Roma por algum outro motivo: para serem julgados ali ou interrogados como testemunhas contra alguns presos ali.
Talvez fossem criminosos notórios, como Barrabás, que, por isso, se ordenou que fossem levados perante o próprio imperador.
Paulo foi ligado a estes, como Cristo entre os ladrões crucificados com ele, e foi obrigado a tomar seu quinhão com eles nessa viagem. E encontramos neste capítulo (v. 42) que por causa deles Paulo quase foi morto, mas por causa dele eles foram preservados. Repare: não é novidade que o inocente seja contado entre os transgressores.
Mas alguns amigos também o acompanhavam, especialmente Lucas, autor deste livro, pois se inclui no relato do começo ao fim: navegamos para a Itália e “partimos”, v. 2. Aristarco, tessalonicense, é mencionado especificamente como estando agora em sua companhia.
O doutor Lightfoot pensa que Trófimo, de Éfeso, partiu com Paulo, mas que este o deixou doente em Mileto (2 Timóteo 4:20) ao passar pelas costas da Ásia mencionadas aqui (v. 2), e que ali também deixou Timóteo.
Era um consolo para Paulo ter o convívio de alguns de seus amigos nessa viagem enfadonha, com quem pudesse conversar livremente, embora tivesse tanta companhia dissoluta e profana ao redor.
Os que fazem longas viagens marítimas em geral se veem obrigados, por assim dizer, a peregrinar em Meseque e Quedar e precisam de sabedoria para fazer o bem à má companhia em que se encontram e torná-la melhor, ou, ao menos, para nunca se tornarem piores por causa dela.
II. Que rumo seguiram e em que lugares aportaram, que são registrados particularmente para confirmar a verdade da história aos que viviam naquele tempo e podiam, por seu próprio conhecimento, dizer que haviam estado em tal e tal lugar:
- Aportaram em Sidom, não muito longe do ponto de embarque, e chegaram ali no dia seguinte. E o que é observável aqui é que Júlio, o centurião, foi extraordinariamente cortês com Paulo.
É provável que conhecesse sua causa e fosse um dos comandantes ou homens importantes que o ouviram defender sua própria causa perante Agripa (Atos 25:23), e estivesse convencido de sua inocência e da injúria que lhe fora feita; por isso, embora Paulo lhe fosse entregue como preso, tratou-o como amigo, como estudioso, como cavalheiro e como homem que tinha influência no céu.
Deu-lhe liberdade, enquanto os negócios do navio retinham o navio em Sidom, para ir para junto de seus amigos ali, para revigorar-se; e isso lhe seria um grande revigoramento. Nisso, Júlio oferece exemplo às autoridades: ser respeitosas para com os que acham dignos de seu respeito e usar seu poder para fazer uma distinção. Um José, um Paulo não devem ser tratados como presos comuns.
Deus anima os que sofrem por ele a confiar nele, pois pode pôr no coração daqueles de quem menos esperam o desejo de ajudá-los. Pode fazer que sejam alvo de compaixão, ou melhor, fazer que sejam apreciados e valorizados, mesmo aos olhos daqueles que os levam cativos, Salmos 106:46.
E é também um exemplo da fidelidade de Paulo. Não procurou fugir, o que poderia ter feito facilmente. Mas, estando fora sob sua palavra de honra, volta fielmente à sua prisão. Se o centurião é tão cortês a ponto de aceitar sua palavra, ele é tão justo e honesto a ponto de cumprir sua palavra.
- Dali navegaram ao abrigo de Chipre, v. 4. Com vento favorável, teriam seguido diretamente e deixado Chipre à direita. Mas, como o vento não os favorecia, foram obrigados a navegar obliquamente com vento lateral e, assim, de certo modo contornaram a ilha, deixando-a à esquerda.
Os marinheiros precisam fazer o que podem quando não podem fazer o que gostariam e aproveitar o vento da melhor maneira, venha de onde vier. Assim também devemos fazer todos nós na travessia do oceano deste mundo. Quando os ventos são contrários, ainda assim, precisamos avançar tão bem quanto pudermos.
- Num porto chamado Mirra, trocaram de navio; provavelmente aquele em que estavam não tinha negócios mais adiante. Embarcaram num navio de Alexandria com destino à Itália, v. 5, 6.
Alexandria era então a principal cidade do Egito, e havia grande comércio entre aquela cidade e a Itália. De lá transportavam cereais para Roma e reexportavam para todas as partes do Mediterrâneo, e especialmente para a Itália, as mercadorias das Índias Orientais e da Pérsia que recebiam pelo mar Vermelho.
Os navios de Alexandria recebiam um favor especial nos portos italianos: não eram obrigados a arriar as velas quando chegavam, como os demais navios.
- Com muita dificuldade chegaram a Bons Portos, porto da ilha de Creta, v. 7, 8. Navegaram lentamente por muitos dias, por estarem em calmaria ou terem o vento contra eles. Demoraram muito a alcançar o cabo de Cnido, porto da Cária, e foram obrigados a navegar ao abrigo de Creta, como antes haviam feito com Chipre.
Enfrentaram grande dificuldade ao passar por Salmona, promontório na costa oriental de Creta. Embora a viagem até então não fosse tempestuosa, ainda assim era muito enfadonha.
Há muitos que não são levados para trás em seus negócios por providências adversas, mas ainda assim navegam lentamente e não avançam por providências favoráveis.
E muitos bons cristãos também se queixam de que, nas questões de suas almas, não ganham terreno em seu caminho do céu, mas têm muita dificuldade para manter sua posição; movem-se com muitas paradas e pausas e permanecem muito tempo à espera de vento.
Observe: o lugar a que chegaram chamava-se Bons Portos. Os viajantes dizem que ainda hoje é conhecido pelo mesmo nome, e que corresponde ao nome pela agradabilidade de sua situação e vista. Contudo:
(1.) Não era o porto para o qual viajavam. Era um bom porto, mas não era o porto deles. Por mais agradáveis que sejam nossas circunstâncias neste mundo, devemos lembrar que não estamos em casa e, por isso, devemos nos levantar e partir, pois, embora seja um bom porto, não é o porto desejado, Salmos 107:30.
(2.) Não era um porto apropriado para passar o inverno, como se diz no v. 12. Tinha uma bela vista, mas ficava exposto ao mau tempo. Repare: nem todo bom porto é seguro; ou melhor, pode haver maior perigo onde há maior prazer.
III. Que conselho Paulo lhes deu sobre a parte de sua viagem que tinham diante de si: era contentar-se em passar o inverno onde estavam e não pensar em partir até uma época melhor do ano:
- Agora era uma época ruim para navegar. Haviam perdido muito tempo lutando contra ventos contrários. A navegação agora era perigosa porque o jejum já havia passado: o célebre jejum anual dos judeus, o Dia da Expiação, no décimo dia do sétimo mês, um dia para afligir a alma com jejum. Era por volta do dia 20 de nosso setembro.
Esse jejum anual era observado com grande devoção. É estranho, porém, que em toda a história das Escrituras não haja outra menção de sua observância, a menos que seja essa, na qual serve apenas para indicar a época do ano.
A época de São Miguel é considerada pelos marinheiros época do ano tão ruim para estar no mar quanto qualquer outra; queixam-se de suas rajadas de São Miguel. Era essa a época agora para esses viajantes angustiados. A colheita passara, o verão terminara: haviam perdido não só tempo, mas a oportunidade.
- Paulo lhes lembrou esse fato e lhes deu aviso de seu perigo (v. 10): “Percebo” — ou por aviso de Deus ou ao observar a resolução obstinada de prosseguir viagem apesar dos riscos da estação — “que esta viagem será com prejuízo e estrago. Vós, que tendes bens a bordo, provavelmente os perdereis, e será um milagre de misericórdia se nossas vidas nos forem dadas por presa.”
Havia homens bons no navio, e um número muito maior de maus. Em questões dessa natureza, porém, todas as coisas acontecem igualmente a todos, e há um só desfecho para o justo e o ímpio. Se ambos estão no mesmo navio, ambos estão no mesmo perigo.
- Não quiseram seguir o conselho de Paulo, v. 11. Pensaram que era impertinente ao intervir numa questão dessa natureza, ele que não entendia de navegação.
O centurião a quem coube decidir, embora fosse ele mesmo passageiro, ainda assim, sendo homem de autoridade, toma sobre si o poder de se sobrepor, embora talvez não tivesse estado no mar mais vezes que Paulo nem conhecesse melhor aquelas águas.
Pois Paulo havia plantado o evangelho em Creta (Tito 1:5) e conhecia suficientemente as diversas partes da ilha.
Mas o centurião deu mais atenção à opinião do piloto e do proprietário do navio do que à de Paulo, pois todo homem deve receber crédito em sua própria profissão, normalmente. Mas, em assuntos do mar, um homem como Paulo, tão íntimo do Céu, merecia mais atenção que os marinheiros mais renomados.
Repare: não sabem a que perigos se expõem os que preferem ser guiados pela prudência humana à revelação divina. O centurião foi muito cortês com Paulo (v. 3), mas ainda assim não quis ser governado por seu conselho. Repare: muitos mostrarão respeito aos ministros bons sem aceitar seu conselho, Ezequiel 33:31.
Versículos 12 a 20
A Viagem de Paulo Rumo a Roma.
Nestes versículos temos:
I. O navio novamente indo ao mar e prosseguindo sua viagem, a princípio com um vento promissor. Observe:
- O que os induziu a deixar Bons Portos: foi pensarem que o porto não era apropriado para passar o inverno. Era bastante agradável no verão, mas no inverno ficavam expostos ao frio.
Ou talvez fosse inconveniente por algum outro motivo; talvez as provisões fossem escassas e caras ali. E correram para um dano para evitar um inconveniente, como frequentemente fazemos.
Alguns da tripulação do navio, ou do conselho convocado para aconselhar nessa questão, eram favoráveis a ficar ali, em lugar de aventurar-se ao mar agora que o tempo estava tão incerto: é melhor estar seguro num porto inconveniente do que se perder num mar tempestuoso.
Mas perderam na votação quando a questão foi posta a votos, e a maior parte aconselhou partir dali também. Ainda assim, não visavam ir longe, mas somente a outro porto da mesma ilha, aqui chamado Fênice. Alguns pensam que recebeu esse nome porque os fenícios, os mercadores de Tiro e Sidom, o frequentavam muito.
Aqui se descreve que fica na direção do sudoeste e do noroeste. Provavelmente o porto ficava entre dois promontórios, ou saliências de terra no mar, um dos quais apontava para o noroeste e o outro para o sudoeste, pelos quais era protegido dos ventos orientais.
Assim, a sabedoria do Criador proveu alívio e segurança para os que descem ao mar em navios e fazem negócios em grandes águas. Em vão a natureza teria provido para nós as águas para navegar se não tivesse igualmente provido para nós portos naturais onde nos abrigarmos.
- Que ânimo tiveram a princípio para prosseguir sua viagem. Partiram com vento favorável (v. 13); o vento sul soprava suavemente, pelo qual conseguiriam seu intento. Assim, navegaram perto da costa de Creta e não tinham medo de correr contra rochas ou bancos de areia, porque o vento soprava tão brandamente.
Os que vão ao mar com um vento tão favorável quanto se queira não sabem que tempestades ainda podem encontrar; por isso, não devem dar-se por seguros nem ter como certo que alcançaram seu propósito, quando tantos acidentes podem acontecer para contrariar seu propósito.
“Não se gabe o que cinge a armadura como se a tivesse despido.”
II. O navio numa tempestade imediatamente, uma tempestade terrível. Olharam para as causas secundárias e tomaram suas medidas pelas indicações favoráveis que davam. Imaginaram que, porque o vento sul agora soprava suavemente, sempre sopraria assim.
Confiando nisso, aventuraram-se ao mar, mas logo foram levados a perceber sua insensatez em dar mais crédito a um vento sorridente do que à palavra de Deus na boca de Paulo, pela qual lhes fora dado aviso claro de uma tempestade. Observe:
- Qual era seu perigo e sua angústia:
(1.) Levantou-se contra eles um vento tempestuoso, que não só lhes era contrário e lhes batia diretamente no rosto, de modo que não podiam avançar, mas era um vento violento, que levantava as ondas, como aquele enviado em perseguição a Jonas, embora Paulo estivesse seguindo Deus e prosseguindo em seu dever, sem fugir de Deus e de seu dever como Jonas.
Os marinheiros chamavam esse vento Euroclidom, um vento nordeste, que talvez se observasse naqueles mares ser particularmente perturbador e perigoso. Era uma espécie de redemoinho, pois se diz que o navio foi apanhado por ele, v. 15.
Foi Deus que ordenou que esse vento se levantasse, com o desígnio de trazer, por ele, glória para si mesmo e reputação para Paulo. Os ventos tempestuosos, trazidos de seus tesouros (Salmos 135:7), cumprem sua palavra, Salmos 148:8.
(2.) O navio era excessivamente sacudido (v. 18); era chutado como uma bola de futebol de uma onda para outra.
Seus passageiros, como é elegantemente descrito em Salmos 107:26, 27, “Sobem aos céus, descem novamente às profundezas, cambaleiam para lá e para cá, vacilam como um bêbado e não sabem mais o que fazer”.
O navio não podia de modo algum resistir ao vento, não podia fazer seu caminho em oposição ao vento; por isso, recolheram suas velas, que numa tempestade assim os poriam em perigo em lugar de lhes prestar qualquer serviço, e deixaram o navio à deriva: em lugar de ir aonde queria, ia aonde era impelido pelas ondas impetuosas.
Non quo voluit, sed quo rapit impetus undæ. Ovídio, Trist..
É provável que estivessem muito perto do porto de Fênice quando essa tempestade surgiu e pensassem que logo estariam num porto tranquilo. Deleitavam-se com a ideia disso e de passar ali o inverno; eis que, de repente, estão nessa angústia.
Por isso, regozijemo-nos sempre com tremor e nunca esperemos segurança perfeita nem segurança perpétua até chegarmos ao céu.
(3.) Não viram sol nem estrelas durante muitos dias. Isso tornava a tempestade mais terrível: estavam todos no escuro. O uso da pedra magnética para orientar os marinheiros ainda não havia sido descoberto, de modo que não tinham guia algum quando não podiam ver sol nem estrelas; isso tornava o caso mais perigoso.
Assim, às vezes, é melancólica a condição do povo de Deus no que diz respeito ao espiritual. Andam em trevas e não têm luz. Nem sol nem estrelas aparecem; não podem permanecer, ou melhor, não podem se prender a nada que dê conforto ou ânimo. Assim pode ser com eles e, ainda assim, a luz é semeada para eles.
(4.) Tiveram abundância de tempo invernal: “Não pequena tempestade”, cheimon ouk oligos, chuva fria, neve e todos os rigores daquela época do ano, de modo que estavam prestes a perecer de frio; tudo isso continuou durante muitos dias.
Veja que agruras frequentemente enfrentam os que passam muito tempo no mar, além dos perigos de vida que correm. Ainda assim, para obter lucro, há continuamente os que não fazem caso de tudo isso.
E é um exemplo da Providência divina que disponha alguns a esse emprego, apesar das dificuldades que o acompanham, para manter o comércio entre as nações e particularmente as ilhas dos gentios; e Zebulom pode se regozijar em suas saídas tão cordialmente quanto Issacar em suas tendas.
Talvez Cristo, por isso, tenha escolhido ministros entre os homens do mar, porque estavam habituados a suportar dificuldades.
- Que meios usaram para seu próprio alívio: recorreram a todos os pobres expedientes, pois não posso chamá-los de algo melhor, aos quais os marinheiros em angústia recorrem:
(1.) Quando não podiam avançar contra o vento, deixaram o navio correr à deriva, descobrindo que não servia a propósito algum empregar ou o remo ou a vela. Quando lutar é infrutífero, ceder é sabedoria.
(2.) Ainda assim, fizeram o que podiam para evitar o perigo presente. Havia uma pequena ilha chamada Clauda; quando estavam perto dela, embora não pudessem prosseguir sua viagem, zelaram para impedir seu naufrágio.
Por isso, ordenaram seus assuntos de modo que não corressem contra a ilha, mas navegassem tranquilamente sob seu abrigo, v. 16.
(3.) Quando receavam que dificilmente salvariam o navio, ocuparam-se em salvar o bote, o que fizeram com muita dificuldade. Tiveram muito trabalho para conseguir o bote (v. 16), mas, por fim, o içaram, v. 17. Poderia servir em qualquer emergência; por isso, fizeram grande esforço para trazê-lo para junto deles no navio.
(4.) Usaram meios bastante apropriados naqueles tempos, quando a arte da navegação estava muito aquém da perfeição a que agora chegou: passaram cordas por baixo do navio, v. 17. Amarraram o navio por baixo de seu fundo com cabos fortes, para evitar que se rompesse no extremo da tempestade.
(5.) Por medo de cair nos bancos de areia, arriaram as velas e então deixaram o navio ir como quisesse. É estranho como um navio sobreviverá no mar, como eles dizem, mesmo em tempo muito tempestuoso, se ao menos tiver espaço no mar; quando os marinheiros não conseguem alcançar a praia, é de seu interesse ficar tão longe dela quanto puderem.
(6.) No dia seguinte, aliviaram o navio de sua carga, lançaram os bens e mercadorias ao mar, como fizeram os marinheiros de Jonas, Jonas 1:5, dispostos antes a ficar pobres sem eles do que perecer com eles. “Pele por pele, e tudo o que um homem tem dará por sua vida.”
Veja o que é a riqueza deste mundo: por mais que seja cortejada como bênção, pode chegar a ocasião em que será um fardo, não só pesado demais para ser transportado em segurança por si mesmo, mas pesado o bastante para afundar aquele que o possui.
As riquezas frequentemente são guardadas por seus donos para seu prejuízo (Eclesiastes 5:13) e abandonadas para seu bem.
Mas veja a insensatez dos filhos deste mundo. Podem ser assim pródigos com seus bens quando se trata de salvar suas vidas; ainda assim, quão econômicos são com eles nas obras de piedade e caridade e ao sofrer por Cristo, embora lhes seja dito pela própria Verdade eterna que serão recompensadas mais de mil vezes na ressurreição dos justos!
Agiam segundo um princípio de fé os que aceitaram alegremente a espoliação de seus bens, sabendo em si mesmos que tinham no céu substância melhor e mais duradoura, Hebreus 10:34.
Qualquer homem prefere perder os bens num naufrágio a perder a vida; muitos, porém, preferem naufragar quanto à fé e à boa consciência a perder os bens.
(7.) No terceiro dia, lançaram fora os aparelhos do navio, seus utensílios, Armamenta, como alguns traduzem, como se fosse um navio de guerra. Entre nós, é comum lançar os canhões ao mar no extremo de uma tempestade; mas que artilharia pesada tinham então, da qual fosse necessário aliviar o navio, não sei.
Questiono se não era então um erro comum entre os marinheiros lançar assim tudo ao mar, até aquilo que seria de grande utilidade numa tempestade e de nenhum grande peso.
- O desespero ao qual, por fim, foram levados (v. 20): “Toda esperança de que fôssemos salvos foi então tirada.” A tempestade continuava, e não viam sinais de que abrandasse; temos conhecido tempo muito tempestuoso que continua durante algumas semanas.
Os meios que haviam usado eram ineficazes, de modo que não sabiam mais o que fazer; tal era a consternação em que essa perspectiva melancólica os lançava que não tinham ânimo nem para comer nem para beber.
Tinham provisões suficientes a bordo (v. 38), mas estavam sob tamanha servidão, pelo medo da morte, que não conseguiam sequer aceitar o alimento que os manteria vivos. Por que Paulo não apaziguou essa tempestade pelo poder de Cristo e em seu nome? Por que não disse aos ventos e às ondas: “Paz, aquieta-te”, como seu Mestre fizera?
Certamente foi porque os apóstolos operavam milagres para confirmar sua doutrina, em lugar de atender a uma necessidade deles mesmos ou de seus amigos.
Versículos 21 a 44
A Viagem de Paulo Rumo a Roma.
Temos aqui o desfecho da aflição de Paulo e de seus companheiros de viagem: escaparam com vida, e isso foi tudo; e foi por causa de Paulo. É-nos dito aqui (v. 37) quantos estavam a bordo: marinheiros, mercadores, soldados, presos e outros passageiros, ao todo duzentas e setenta e seis almas.
Registra-se isso para que, ao lermos a história, nos interessemos mais por eles: eram um número tão considerável, cujas vidas agora corriam o mais extremo perigo, e havia entre eles um Paulo que valia mais que todos os demais. Deixamo-los em desespero, dando-se por perdidos.
Não nos é dito se cada um clamou ao seu deus, como fizeram os marinheiros de Jonas; seria bom que essa louvável prática numa tempestade não tivesse caído de moda e se tornado objeto de zombaria.
Contudo, Paulo entre esses marinheiros não era, como Jonas entre os seus, a causa da tempestade, mas o consolador na tempestade, e dava tanto crédito à profissão de apóstolo quanto Jonas era uma mancha no caráter de profeta. Temos aqui, portanto:
I. O ânimo que Paulo lhes deu, assegurando-lhes, em nome de Deus, que a vida de todos seria salva, mesmo quando, segundo as aparências humanas, toda esperança de serem salvos havia sido tirada.
Paulo primeiro os resgatou do desespero, para que não morressem dele nem nele se deixassem morrer de fome; então estavam em bom caminho para serem resgatados da aflição. Depois de longa abstinência, como se estivessem resolvidos a não comer até saberem se viveriam ou morreriam, Paulo se pôs de pé no meio deles.
Durante a aflição até esse momento, Paulo se ocultara entre eles, fora um dentre a multidão e ajudara os demais a lançar fora os apetrechos (v. 19); mas agora se distinguiu e, embora preso, se encarregou de ser seu conselheiro e consolador.
- Censura-os por não terem seguido seu conselho, que era permanecer onde estavam, no ancoradouro de Laseia (v. 8): “Devíeis ter-me ouvido e não ter partido de Creta, onde poderíamos ter-nos arranjado para passar o inverno suficientemente bem; então não teríamos ganho este prejuízo e esta perda, isto é, teríamos escapado deles”.
Pode-se na verdade dizer que o prejuízo e a perda no mundo, se forem santificados para nós, são ganho; pois, se nos desmamam das coisas presentes e nos despertam a pensar num estado futuro, na verdade ganhamos com eles.
Observe: não ouviram Paulo quando os advertiu do perigo; contudo, se apenas reconhecerem sua insensatez e se arrependerem dela, ele lhes falará consolo e alívio agora que estão em perigo. Tão compassivo é Deus para com os que estão na miséria, embora nela se lancem por sua própria irreflexão; ou melhor: por sua própria obstinação e desprezo da advertência.
Paulo, antes de administrar consolo, primeiro quer torná-los conscientes de seu pecado em não ouvi-lo, repreendendo-os por sua temeridade. Provavelmente, quando lhes fala de ganharem prejuízo e perda, alude àquilo que prometiam a si mesmos ao prosseguirem na viagem: ganhariam tanto tempo, alcançariam este e aquele objetivo.
“Mas”, diz ele, “nada ganhastes senão prejuízo e perda; como respondereis por isso?” Aquilo de que são culpados é terem partido de Creta, onde estavam seguros.
Repare: a maioria das pessoas se lança em dificuldades porque não sabe quando está em boa situação; ganha prejuízo e perda ao procurar melhorar de condição contra o conselho recebido.
- Assegura-lhes que, embora perdessem o navio, ainda assim nenhum deles perderia a vida: “Vedes vossa insensatez em não vos deixardes dirigir por mim”. Ele não diz: “Agora, portanto, esperai sofrer as consequências; a vós mesmos podeis agradecer se todos vos perderdes; aqueles que não querem ser aconselhados não podem ser ajudados”.
Não: “Contudo, agora há esperança em Israel quanto a isso; vosso caso é triste, mas não desesperado; agora vos exorto a ter bom ânimo”.
Assim dizemos aos pecadores convencidos de seu pecado e de sua insensatez, que começam a ver e lamentar seu erro: “Devíeis ter-nos ouvido e não ter tido nada a ver com o pecado; contudo, agora vos exortamos a ter bom ânimo. Embora não quisésseis seguir nosso conselho quando dissemos: Não presumais, segui-o agora, quando dizemos: Não desespereis”.
Tinham desistido da causa e não empregariam meios ulteriores, porque toda esperança de serem salvos havia sido tirada. Agora Paulo os anima a ainda se empenharem em trabalhar por sua própria segurança, dizendo-lhes que, se retomassem o vigor, assegurariam a vida.
Dá-lhes essa certeza quando foram levados ao último extremo; pois agora lhes seria duplamente bem-vindo ouvir que nenhuma vida se perderia, quando estavam prestes a concluir que inevitavelmente todos se perderiam. Ele lhes diz:
(1.) Que precisam contar com a perda do navio. Os que tinham interesses nele e nas mercadorias eram provavelmente a maior parte dos que defendiam prosseguir a viagem e correr o risco, apesar da advertência de Paulo; e são obrigados a pagar por sua temeridade. Seu navio naufragará.
Muitos navios imponentes, fortes, ricos e magníficos se perdem nas águas poderosas em pouco tempo; pois vaidade de vaidades, tudo é vaidade e aflição de espírito. Mas:
(2.) Nenhuma vida se perderá. Isso seria boa notícia para os que estavam prestes a morrer de medo de morrer e cujas consciências culpadas lhes tornavam a morte muito terrível.
- Diz-lhes que fundamento tinha para essa certeza: não é uma brincadeira com eles para animá-los, nem uma conjectura humana. Ele tem uma revelação divina a esse respeito e está tão certo disso quanto de que Deus é verdadeiro, plenamente convencido de que tem a palavra dele para isso.
Um anjo do Senhor lhe apareceu à noite e disse que, por sua causa, todos seriam preservados (vv. 23-25). Isso duplicaria a misericórdia de sua preservação: a teriam não só por providência, mas por promessa e como um favor particular a Paulo. Observe aqui:
(1.) A solene declaração que Paulo faz de sua relação com Deus, o Deus de quem recebera essa informação favorável: é aquele “de quem sou e a quem sirvo”. Considera Deus:
[1.] Seu legítimo proprietário, que tem sobre ele um direito soberano e incontestável e domínio sobre ele: “De quem sou”. Porque Deus nos fez, e não nós mesmos, não somos de nós mesmos, mas dele.
Somos dele por criação, pois nos fez; por preservação, pois nos sustenta; por redenção, pois nos comprou. Somos mais dele do que de nós mesmos.
[2.] Seu soberano governante e senhor, que, tendo-lhe dado existência, tem direito de lhe dar lei: “A quem sirvo”. Porque somos dele, somos obrigados a servi-lo, a dedicar-nos à sua honra e a ocupar-nos em sua obra.
É a Cristo que Paulo aqui tem em vista: ele é Deus, e os anjos são dele e cumprem suas ordens. Paulo muitas vezes se chama servo de Jesus Cristo; é dele e a ele serve, tanto como cristão quanto como apóstolo.
Não diz: “De quem somos e a quem servimos”, pois a maioria dos presentes era estranha a Deus, mas: “De quem sou e a quem sirvo, seja o que for que outros façam; ou melhor: a quem agora estou efetivamente servindo, indo a Roma, não, como vós, por negócios mundanos, mas para comparecer como testemunha de Cristo”.
Diz isso à companhia para que, vendo o alívio vir do seu Deus, de quem era e a quem servia, fossem assim atraídos a tomá-lo por seu Deus e também a servi-lo. Pela mesma razão Jonas disse aos seus marinheiros: “Temo ao Senhor, o Deus dos céus, que fez o mar e a terra seca”, Jonas 1:9.
(2.) O relato que faz da visão que teve: “Esta noite esteve junto de mim um anjo de Deus”, um mensageiro divino que anteriormente costumava trazer-lhe mensagens do céu. Esteve junto dele, apareceu-lhe visivelmente, provavelmente quando estava acordado em seu leito.
Embora estivesse “longe, sobre o mar” (Salmos 65:5), nas extremidades do mar (Salmos 139:9), isso não podia interromper sua comunhão com Deus nem privá-lo do benefício de visitas divinas.
Dali pode dirigir uma oração a Deus, e para lá Deus pode dirigir-lhe um anjo. Ele mesmo não sabe onde está; contudo, o anjo de Deus sabe onde encontrá-lo. O navio é agitado por ventos e ondas, impelido de um lado para outro com a maior violência; contudo, o anjo encontra um caminho para entrar nele.
Nem tempestades nem tormentas podem impedir as comunicações do favor de Deus ao seu povo, pois ele é “socorro bem presente”, um socorro ao alcance, mesmo quando o mar ruge e se agita, Salmos 46:1, 3.
Podemos supor que Paulo, sendo preso, não tinha seu próprio camarote no navio, muito menos um leito no camarote do capitão, mas foi posto no porão. Qualquer lugar escuro ou sujo era considerado suficientemente bom para ele, em comum com os demais presos; contudo, ali o anjo de Deus esteve junto dele.
A condição humilde e a pobreza não afastam ninguém de Deus e de seu favor. Jacó, quando não tem outro travesseiro senão uma pedra, nem outras cortinas senão as nuvens, ainda assim tem uma visão de anjos. Paulo teve essa visão apenas na última noite.
Ao próprio Paulo já fora assegurado, por uma visão anterior, que iria a Roma (Atos 23:11), de onde poderia inferir que ele próprio estaria seguro; mas tem esta nova visão para assegurar-lhe a segurança dos que estão com ele.
(3.) Os ânimos que lhe foram dados na visão, v. 24:
[1.] É-lhe proibido temer. Embora todos ao redor estejam sem saber o que fazer e perdidos em desespero, contudo: “Não temas, Paulo”. Não temam o temor deles nem se amedrontem, Isaías 8:12.
Temam os pecadores em Sião, mas não temam os santos; não, nem no mar, numa tempestade. Pois o Senhor dos Exércitos está com eles, e seu lugar de defesa serão as fortalezas das rochas, Isaías 33:14-16.
[2.] É-lhe assegurado que, quanto a ele, chegará salvo a Roma: “Importa que sejas apresentado a César”. Assim como a fúria dos inimigos mais poderosos, também a fúria do mar mais tempestuoso não pode prevalecer contra as testemunhas de Deus até que tenham concluído seu testemunho.
Paulo precisa ser preservado neste perigo, pois está reservado para serviço ulterior. Isto é consolador para os fiéis servos de Deus em apertos e dificuldades: enquanto Deus tiver alguma obra para eles fazerem, suas vidas serão prolongadas.
[3.] Que, por sua causa, todos os que estavam com ele no navio também seriam livrados de perecer nesta tempestade: “Deus te deu todos os que navegam contigo”.
O anjo incumbido de lhe trazer essa mensagem poderia tê-lo separado dessa tripulação miserável, e também os que eram seus amigos, e levá-los salvos à costa; poderia ter deixado os demais perecerem, porque não quiseram seguir o conselho de Paulo.
Mas Deus prefere, preservando-os todos por sua causa, mostrar quão grandes bênçãos os homens bons são para o mundo a mostrar, livrando só a ele, como os homens bons se distinguem do mundo.
“Deus te deu todos os que navegam contigo”, isto é, poupa-os em resposta às suas orações, ou por sua causa. Às vezes os homens bons não livram nem filhos nem filhas, mas somente suas próprias almas, Ezequiel 14:18. Mas Paulo aqui livra toda a tripulação de um navio, quase trezentas almas.
Repare: Deus muitas vezes poupa pessoas ímpias por causa dos piedosos, como Zoar por causa de Ló, e como Sodoma poderia ter sido poupada, se nela houvesse dez pessoas justas. As pessoas boas são odiadas e perseguidas no mundo como se não fossem dignas de nele viver; contudo, na realidade, é por causa delas que o mundo subsiste.
Se Paulo se tivesse metido desnecessariamente em má companhia, poderia justamente ter perecido com eles; mas, tendo Deus o chamado para ela, são preservados com ele.
E dá-se a entender que era um grande favor a Paulo, e ele assim o considerava, que outros fossem salvos por sua causa: são dados a ele. Não há satisfação maior para um homem bom do que saber que é uma bênção pública.
- Consola-os com os mesmos consolos com que ele próprio foi consolado (v. 25): “Portanto, senhores, tende bom ânimo; vereis que até isto terminará bem; pois creio em Deus e dependo de sua palavra, que será exatamente como me foi dito”.
Não exigiria deles que dessem crédito àquilo a que ele mesmo não dava crédito; portanto, declara solenemente que ele próprio crê nisso, e essa crença o tranquiliza: “Não duvido de que será como me foi dito”. Assim, não vacila diante da promessa de Deus por incredulidade.
Deus falou, e não o cumprirá? Sem dúvida pode, sem dúvida fará; pois não é homem para mentir. E será como Deus disse? Então tenham bom ânimo, tenham boa coragem.
Deus é sempre fiel; portanto, sejam sempre alegres todos os que têm parte em sua promessa. Se, para Deus, dizer e fazer não são duas coisas, então, para nós, crer e desfrutar tampouco deveriam ser duas coisas.
- Dá-lhes um sinal, dizendo-lhes particularmente em que resultaria esta viagem tempestuosa (v. 26): “Precisamos ser lançados em certa ilha, e isso tanto quebrará o navio como salvará os passageiros; assim a predição se cumprirá em ambos os aspectos”.
O piloto abandonara seu posto, o navio fora deixado a correr ao acaso; não sabiam em que latitude estavam, muito menos como dirigir seu rumo. Contudo, a Providência se encarrega de levá-los a uma ilha que lhes será um refúgio.
Quando a igreja de Deus, como este navio, é agitada por tempestades e não consolada, quando não há quem a guie dentre todos os seus filhos, ainda assim Deus pode levá-la salva à costa, e o fará.
II. Sua chegada, por fim, a uma ancoragem junto a uma costa desconhecida, vv. 27-29:
- Tinham passado duas semanas inteiras na tempestade, esperando continuamente a morte. Na décima quarta noite, e não antes, chegaram perto de terra.
Naquela noite eram impelidos de um lado para outro em Ádria, não no golfo Adriático em que fica Veneza, mas no mar Adriático, uma parte do Mediterrâneo que compreende tanto o mar Siciliano como o Jônico e se estende à costa africana. Nesse mar eram agitados e não sabiam em que lugar estavam.
- Por volta da meia-noite os marinheiros perceberam que se aproximavam de alguma costa; isso confirmou o que Paulo lhes dissera: que precisavam ser lançados em alguma ilha.
Para verificar se era assim ou não, sondaram, a fim de encontrar a profundidade da água, pois ela seria mais rasa à medida que se aproximassem da costa. Na primeira sondagem encontraram vinte braças de água, e na seguinte quinze braças; isso demonstrava que estavam perto de alguma costa.
Deus sabiamente estabeleceu esse aviso natural para os marinheiros no escuro, para que possam ser cautelosos.
- Atentaram para o aviso e, temendo rochas perto da costa, lançaram âncora e desejaram o dia. Não ousavam avançar por medo das rochas e, contudo, não queriam voltar por esperança de abrigo; esperariam a manhã e a desejavam de coração. Quem pode culpá-los, quando a situação chegou a um ponto crítico?
Quando tinham luz, não havia terra à vista; agora que havia terra perto deles, não tinham luz para vê-la. Não é de admirar, portanto, que desejassem o dia.
Quando os que temem a Deus andam em trevas e não têm luz, ainda assim não digam que o Senhor os abandonou ou que seu Deus se esqueceu deles. Façam, porém, como esses marinheiros: lancem âncora e desejem o dia, certos de que o dia amanhecerá.
A esperança é uma âncora da alma, segura e firme, que entra no que está além do véu. Segurem-se firmemente nela; não pensem em tornar a sair ao mar, mas permaneçam com Cristo e esperem até romper o dia e fugirem as sombras.
III. A frustração da tentativa dos marinheiros de abandonar o navio. Aqui um novo perigo foi acrescentado à sua aflição, do qual escaparam por pouco. Observe:
- O desígnio traiçoeiro dos marinheiros: deixar o navio que afundava. Embora isso fosse um ato de sabedoria em outros, naqueles a quem fora confiado o zelo pelo navio era a fraude mais vil que poderia haver (v. 30).
Estavam prestes a fugir do navio, não concluindo outra coisa senão que, quando desse na costa, precisaria despedaçar-se completamente. Tendo o comando do bote, o projeto era entrarem todos nele, salvarem-se assim e deixarem todos os demais perecerem.
Para encobrir esse vil desígnio, alegaram que lançariam âncoras pela proa ou as levariam mais longe; para isso baixaram o bote, que haviam recolhido (v. 16, 17), e estavam entrando nele. Tinham combinado entre si que, uma vez dentro dele, seguiriam diretamente para a costa.
Os marinheiros traiçoeiros são como o pastor traiçoeiro que foge ao ver o perigo aproximar-se, quando mais se necessita de sua ajuda, João 10:12. Tão verdadeiro é aquilo de Salomão: a confiança num homem infiel no tempo da angústia é como um dente quebrado ou um pé desconjuntado. Deixemos, portanto, de confiar no homem.
Paulo, em nome de Deus, lhes assegurara que chegariam salvos à terra; eles, porém, preferem confiar em seu próprio refúgio de mentiras a confiar na palavra e na verdade de Deus.
- Paulo descobre isso e protesta contra isso, v. 31. Todos os viram preparando-se para entrar no bote, mas foram enganados pela alegação que fizeram. Só Paulo percebeu o que havia por trás disso e o comunicou ao centurião e aos soldados, dizendo-lhes claramente: “Se estes não permanecerem no navio, não podereis ser salvos”.
A habilidade de um marinheiro se vê numa tempestade; quando o navio está em aflição, esse é o momento apropriado para ele se empenhar. Agora a maior dificuldade de todas estava diante deles; portanto, os marinheiros eram agora mais necessários do que jamais tinham sido.
De fato, não foi por habilidade alguma deles que foram trazidos à terra, pois isso excedia completamente sua habilidade; mas agora que estão perto de terra, precisam empregar sua arte para levar o navio até ela. Quando Deus fez por nós aquilo que não podíamos fazer, precisamos então, em sua força, ajudar a nós mesmos.
Paulo fala humanamente quando diz: “Não podereis ser salvos se estes não permanecerem no navio”; e em nada enfraquece as certezas que lhes dera divinamente de que seriam infalivelmente salvos.
Deus, que designou o fim, que fossem salvos, designou os meios, que fossem salvos pela ajuda desses marinheiros; embora, se eles tivessem partido, sem dúvida Deus teria cumprido sua palavra de alguma outra maneira. Paulo fala como um homem prudente, não como um profeta, quando diz: “Estes são necessários à vossa preservação”.
O dever é nosso; os desfechos são de Deus. Não confiamos em Deus, mas o tentamos, quando dizemos: “Colocamo-nos sob sua proteção”, e não empregamos meios apropriados, tais como estão em nosso poder, para nossa própria preservação.
- Sua frustração eficaz pelos soldados, v. 32. Não era hora de ficar discutindo o caso com os marinheiros; portanto, não fizeram mais cerimônia, mas cortaram as cordas do bote. Embora pudesse, de outro modo, servi-los em sua presente aflição, preferiram deixá-lo cair e perdê-lo a permitir que lhes prestasse esse desserviço.
Agora os marinheiros, forçados a permanecer no navio, querendo ou não, são igualmente forçados a trabalhar pela segurança do navio tão arduamente quanto podiam; pois, se os demais perecerem, precisam perecer com eles.
IV. A nova vida que Paulo infundiu na companhia, convidando-os alegremente a tomar algum alimento e pelas repetidas certezas que lhes deu de que todos teriam suas vidas dadas por despojo.
Felizes os que tinham alguém como Paulo em sua companhia, que não só mantinha correspondência com o Céu, mas tinha um espírito cordial e vivaz com os que o rodeavam, aguçando o semblante de seu amigo, como o ferro aguça o ferro. Tal amigo na aflição, quando por fora há combates e por dentro temores, é de fato um amigo.
“O unguento e o perfume alegram o coração; assim a doçura do amigo de um homem pelo conselho cordial”, Provérbios 27:9. Assim foi aqui o conselho de Paulo aos seus companheiros na tribulação.
O dia estava chegando: os que desejam o dia esperem um pouco, e terão o que desejam. O amanhecer os reanimou um pouco, e então Paulo os reuniu:
- Altercou com eles por negligenciarem a si mesmos, por terem cedido tanto ao medo e ao desespero a ponto de esquecer ou não dar atenção à sua comida: “Este é o décimo quarto dia em que tendes esperado e continuado em jejum, sem tomar nada”; e isso não está bem, v. 33.
Não que todos eles, ou algum deles, tivessem continuado catorze dias sem alimento algum; mas, durante todo esse tempo, não haviam tido uma refeição regular, como costumavam ter. Comiam muito pouco, quase nada.
Ou: “Tendes continuado em jejum, isto é, ficastes sem estômago para comer; não tivestes apetite algum pela comida, nem sabor nela, por causa do medo e do desespero predominantes”. Um estado muito desconsolado é assim expresso (Salmos 102:4): “Esqueço-me de comer o meu pão”.
É pecado fazer o corpo morrer de fome e negar-lhe seu sustento necessário. É de fato um homem desnaturado aquele que odeia sua própria carne e não a alimenta nem a acaricia. E é um mal penoso debaixo do sol ter suficientes coisas boas desta vida e não ter poder para usá-las, Eclesiastes 6:2.
Se isso provém da tristeza do mundo e de algum medo ou inquietação desordenados, tão longe está de desculpá-lo que é outro pecado: é descontentamento, é desconfiança de Deus, é tudo errado.
Que insensatez é morrer de medo de morrer! Mas assim a tristeza do mundo opera a morte, ao passo que a alegria em Deus é vida e paz nas maiores aflições e perigos.
- Procura atraí-los à comida (v. 34): “Portanto, rogo-vos que tomeis algum alimento. Temos diante de nós uma luta árdua; precisamos chegar à costa como pudermos. Se nossos corpos estiverem fracos pelo jejum, não seremos capazes de ajudar a nós mesmos”.
O anjo ordenou a Elias: “Levanta-te e come”, pois, de outro modo, acharia a jornada grande demais para ele, 1 Reis 19:7. Assim Paulo quer que essas pessoas comam, ou, de outro modo, as ondas serão fortes demais para elas.
“Rogo-vos”, parakalo, “exorto-vos: se vos deixardes dirigir por mim, tomai algum alimento. Embora não tenhais apetite, embora tenhais jejuado a ponto de ficar sem estômago para comer, deixai, contudo, que a razão vos leve a isso; pois isto é para vossa saúde, ou antes para vossa preservação, ou segurança, neste momento”.
“É para vossa salvação; sem alimento não podeis ter forças para vos arranjardes a fim de salvar a vida”. Assim como aquele que não trabalhar não coma, também aquele que tem intenção de trabalhar precisa comer.
Cristãos fracos e trêmulos, que cedem a dúvidas e temores acerca de seu estado espiritual, continuam em jejum da ceia do Senhor e em jejum das consolações divinas; depois se queixam de não poder prosseguir em seu trabalho e combate espirituais. E isso se deve a eles mesmos.
Se se alimentassem e banqueteassem como deveriam com a provisão que Cristo fez em favor deles, seriam fortalecidos, e isso seria para a saúde e a salvação de suas almas.
- Assegura-lhes sua preservação: “Não cairá um cabelo da cabeça de nenhum de vós”. É uma expressão proverbial que denota preservação completa de qualquer dano. É usada em 1 Reis 1:51; Lucas 21:18.
“Não podeis comer por medo de morrer; digo-vos que estais certos de viver; portanto, comei. Chegareis à costa molhados e com frio, mas com fôlego e membros íntegros; os cabelos molhados, mas nenhum cabelo perdido”.
- Ele próprio lhes pôs a mesa, pois nenhum deles tinha disposição para fazê-lo, tão desalentados estavam todos. Quando assim falou, tomou pão, foi buscá-lo nos depósitos do navio, aos quais todos podiam ter acesso seguro quando nenhum deles tinha apetite.
Não estavam reduzidos a rações escassas, como às vezes estão os marinheiros quando o mau tempo os mantém no mar mais tempo do que esperavam; tinham abundância. Mas de que lhes servia isso, quando não tinham estômago para comer?
Temos motivo para agradecer a Deus por termos não só comida para nosso apetite, mas apetite para nossa comida; por nossa alma não abominar nem mesmo comida delicada (Jó 33:20), por doença ou tristeza.
- Ele era o capelão do navio, e tinham motivo para orgulhar-se de seu capelão. Deu graças a Deus na presença de todos. Temos motivo para pensar que muitas vezes orara com Lucas e Aristarco e quaisquer outros dentre eles que fossem cristãos, que oravam juntos diariamente.
Mas não é certo se antes disso havia orado com toda a companhia indistintamente. Agora deu graças a Deus na presença de todos, por estarem vivos e terem sido preservados até então e por terem uma promessa de que suas vidas seriam preservadas no perigo iminente agora diante deles.
Deu graças pela provisão que tinham e pediu uma bênção sobre ela. Precisamos dar graças em tudo; e precisamos particularmente ter os olhos em Deus ao receber nossa comida, pois ela nos é santificada pela palavra de Deus e pela oração, e deve ser recebida com ações de graças.
Assim a maldição é tirada dela, e obtemos um direito a ela pela aliança e uma bênção sobre ela pela aliança, 1 Timóteo 4:3-5. Não é só de pão que o homem vive, mas da palavra de Deus, que precisa ser acompanhada de oração.
Deu graças na presença de todos, não só para mostrar que servia a um Senhor de quem não se envergonhava, mas para convidá-los também ao seu serviço.
Se suplicarmos uma bênção sobre nossa comida e dermos graças por ela de maneira correta, não só manteremos nós mesmos uma confortável comunhão com Deus, mas daremos crédito à nossa profissão e a recomendaremos à boa opinião de outros.
- Deu-lhes um bom exemplo: quando deu graças, partiu o pão (era bolacha de mar) e começou a comer. Quer eles se animassem ou não, ele se animaria.
Se ficassem amuados e, como crianças obstinadas, recusassem a comida porque nem tudo era como desejavam, ele comeria seu alimento e seria grato. Os que ensinam outros são indesculpáveis se eles mesmos não fazem como ensinam; e a maneira mais eficaz de pregar é pelo exemplo.
- Isso teve uma feliz influência sobre todos eles (v. 36): “Então todos tiveram bom ânimo”. Então ousaram crer na mensagem que Deus lhes enviou por Paulo, quando perceberam claramente que o próprio Paulo cria nela, ele que corria o mesmo perigo comum que eles.
Assim Deus envia boas notícias ao mundo de seres humanos que perece, por aqueles que são dentre eles e estão no mesmo perigo comum que eles. Também são pecadores e precisam ser salvos, se alguma vez forem salvos, da mesma maneira em que persuadem outros a aventurar-se; pois é uma salvação comum da qual trazem as notícias.
E é um ânimo para as pessoas entregarem-se a Cristo como seu Salvador quando aqueles que as convidam a fazê-lo mostram que eles mesmos o fazem.
É aqui, nesta ocasião, que se registra o número das pessoas, do qual já tomamos nota: eram ao todo duzentas e setenta e seis almas. Veja quantos podem ser influenciados pelo bom exemplo de um só.
Todos comeram; ou melhor: todos comeram o suficiente (v. 38); ficaram saciados de alimento, ou cheios dele; fizeram uma refeição substancial. Isso explica o sentido de seu jejum anterior por catorze dias: não que não comessem durante todo esse tempo, mas nunca haviam tido o suficiente durante todo esse tempo, como tiveram agora.
- Mais uma vez aliviaram o navio, para que escapasse tanto melhor no choque que agora teria. Antes tinham lançado ao mar as mercadorias e os apetrechos; agora, o trigo, os alimentos e as provisões que tinham. Melhor que afundassem a comida do que ela os afundasse.
Veja que bom motivo nosso Salvador tinha para chamar nossa comida corporal de alimento que perece. Nós mesmos podemos estar na necessidade de lançar fora, para salvar nossa vida, aquilo que recolhemos e armazenamos para o sustento de nossa vida.
É provável que o navio estivesse sobrecarregado com a multidão dos passageiros (pois isso vem logo depois do relato de seu número), e que isso os obrigasse tão frequentemente a aliviar o navio.
V. Sua chegada à costa e o despedaçamento do navio nessa tentativa. Era por volta do amanhecer quando comeram seu alimento; quando era pleno dia, começaram a olhar ao redor. Aqui nos é dito:
- Que não sabiam onde estavam; não podiam dizer à costa de que país se encontravam agora, se era Europa, Ásia ou África, pois cada uma tinha costas banhadas pelo mar Adriático.
É provável que esses marinheiros muitas vezes tivessem navegado por esse caminho e pensassem conhecer perfeitamente cada país de que se aproximavam; contudo, aqui estavam sem saber. Não se glorie, então, o sábio em sua sabedoria, pois ela talvez lhe falhe tão grosseiramente até em sua própria profissão.
- Observaram uma enseada com praia plana, na qual esperavam encalhar o navio, v. 39. Embora não soubessem que país era, nem se os habitantes eram amigos ou inimigos, civilizados ou bárbaros, determinaram lançar-se à sua misericórdia; era terra seca, que seria muito bem-vinda aos que estavam havia tanto tempo no mar.
É lamentável que não tivessem recebido alguma ajuda da costa: um piloto que lhes fosse enviado, que conhecesse a costa e pudesse conduzir seu navio para dentro, ou outro navio, um segundo, para levar alguns dos homens a bordo.
Os que vivem à beira-mar muitas vezes têm oportunidade de socorrer os que estão em aflição no mar e de salvar vidas preciosas; devem fazer o máximo para isso, com toda prontidão e alegria.
Pois é um grande pecado, e muito provocador a Deus, deixar de livrar os que são levados à morte e estão prontos para ser abatidos; e não servirá de desculpa dizer: “Eis que não o sabíamos”, quando ou sabíamos, ou poderíamos e deveríamos tê-lo sabido, Provérbios 24:11, 12.
Disseram-me que há alguns, e também em nossa própria nação, que, quando da costa veem um navio em aflição e perdido, por fogos enganosos ou de outra maneira, deliberadamente os conduzem ao perigo, para que se percam as vidas e eles tenham o saque do navio.
Mal se pode crer que alguém da espécie humana possa ser tão ímpio, tão barbaramente desumano, e possa ter tanto do diabo em si. Se houver tais pessoas, saibam, na verdade, que terão juízo sem misericórdia os que não mostraram misericórdia.
- Seguiram diretamente para a costa, com vento e maré (v. 40): recolheram as âncoras, as quatro âncoras que haviam lançado da popa, v. 29.
Alguns pensam que se deram ao trabalho de içá-las, esperando que ainda lhes servissem na costa; outros, que o fizeram com tal precipitação que foram forçados a cortar os cabos e deixá-las. O original admite ambas as interpretações.
Então se entregaram ao mar, estando o vento favorável para levá-los ao porto, e soltaram as amarras dos lemes. Elas haviam sido presas durante a tempestade para maior estabilidade do navio; agora, porém, que entravam no porto, foram soltas para que o piloto pudesse governar com maior liberdade.
Então içaram a vela grande ao vento e dirigiram-se à costa. As palavras originais aqui usadas para as amarras dos lemes e a vela grande dão muito trabalho aos críticos para adaptá-las aos termos modernos.
Mas não precisam causar dificuldade a nós, que nos contentamos em saber que, quando viram a costa, correram para ela tão depressa quanto podiam, e talvez se apressaram mais do que avançaram.
E não deveria uma pobre alma, que há muito luta com ventos e tempestades neste mundo, ansiar por entrar no porto seguro e tranquilo do descanso eterno? Não deveria livrar-se de tudo aquilo que a prende a esta terra e restringe a expansão de suas afeições piedosas e devotas em direção ao céu?
E não deveria içar a vela grande da fé ao vento do Espírito, e assim, com desejos ansiosos, dirigir-se à costa?
- Entre eles conseguiram encalhar o navio num banco ou leito de areia, ao que parece, ou num istmo, ou faixa de terra banhada pelo mar de ambos os lados; por isso se diz que dois mares se encontram nela. Ali a proa ficou firmemente presa.
Então, quando o navio já não tinha liberdade para mover-se, como tem um navio quando está ancorado, mas permanecia imóvel, a popa logo seria naturalmente quebrada pela violência das ondas.
Se os marinheiros não fizeram sua parte, irados por terem sido frustrados em seu desígnio de escapar, e por isso deliberadamente encalharam o navio, ou se podemos supor que fizeram o máximo para salvá-lo, mas Deus, em sua providência, se sobrepôs para cumprir a palavra de Paulo de que o navio precisava perder-se (v. 22), não posso dizer.
Mas disto estamos certos: Deus confirmará a palavra de seus servos e cumprirá o conselho de seus mensageiros, Isaías 44:26. O navio, que extraordinariamente resistira à tempestade no vasto oceano, onde tinha espaço para oscilar, é despedaçado quando fica firmemente preso.
Assim, se o coração se fixa no mundo, em amor e afeição e apego a ele, está perdido. As tentações de Satanás batem contra ele, e ele se foi; mas, enquanto se mantém acima do mundo, embora seja agitado por seus cuidados e tumultos, há esperança para ele.
Tinham a costa à vista e, contudo, sofreram naufrágio no porto, para ensinar-nos a nunca nos sentirmos seguros.
VI. Um perigo particular em que Paulo e os demais presos estavam, além de sua participação na calamidade comum, e seu livramento dele:
- Neste momento crítico, quando cada homem estava em dúvida quanto à própria vida, os soldados aconselharam matar os presos confiados à sua custódia, pelos quais precisavam prestar contas, para que nenhum deles saísse a nado e escapasse, v. 42.
Não havia grande perigo disso, pois não poderiam escapar para longe, fracos e cansados como estavam; e, sob os olhos de tantos soldados encarregados deles, não era provável que o tentassem.
E, se isso acontecesse, embora pudessem estar sujeitos à lei por não impedirem uma fuga, ainda assim, num caso como este, a equidade certamente os livraria. Mas era uma proposta grosseira e bárbara, e tanto pior por assim esbanjarem a vida de outras pessoas quando, sem um milagre de misericórdia, precisariam perder a própria.
- O centurião, por causa de Paulo, rejeitou imediatamente essa proposta. Paulo, que era seu preso, encontrara favor junto dele, como José junto ao capitão da guarda.
Júlio, embora tivesse desprezado o conselho de Paulo (v. 11), depois viu muitos motivos para respeitá-lo; portanto, querendo salvar Paulo, impediu a execução desse projeto sanguinário. E, in favorem vitæ, por consideração à sua vida, impediu-os de cumprir seu propósito.
Não parece que algum deles fosse malfeitor declarado culpado, mas apenas suspeito e aguardando julgamento. E, num caso como este, é melhor que dez culpados escapem do que um inocente seja abatido.
Assim como Deus salvara todos no navio por causa de Paulo, aqui o centurião salva todos os presos por causa dele. Um homem bom é um bem que se difunde tanto.
VII. A salvação da vida de todas as pessoas no navio, pela maravilhosa providência de Deus. Quando o navio se quebrou debaixo deles, certamente não havia senão um passo entre eles e a morte; contudo, a misericórdia infinita se interpôs, e esse passo não foi dado:
- Alguns foram salvos nadando: o centurião ordenou aos seus soldados, em primeiro lugar, a tantos deles quantos soubessem nadar, que chegassem primeiro à terra e estivessem prontos para receber os presos e impedir sua fuga.
Os romanos treinavam seus jovens, entre outros exercícios, na natação; e ela muitas vezes lhes foi útil nas guerras. Júlio César era um famoso nadador.
Pode ser muito útil aos que lidam muito com o mar; mas, de outro modo, talvez mais vidas tenham sido perdidas nadando por diversão e aprendendo a nadar do que tenham sido salvas nadando por necessidade.
- Os demais, com grande esforço, chegaram à costa, alguns sobre tábuas que tinham soltas consigo no navio, e outros sobre os pedaços quebrados do navio. Cada um se arranjava o melhor que podia por si e por seus amigos, e tanto mais ativamente porque lhes fora assegurado que seu trabalho não seria em vão.
Mas assim aconteceu que, pela boa providência de Deus, nenhum deles se perdeu, nenhum deles foi levado para longe por acidente; todos, porém, escaparam salvos para a terra.
Veja aqui um exemplo da providência especial de Deus na preservação da vida das pessoas, particularmente no livramento de muitos dos perigos nas águas: prestes a afundar e, contudo, impedidos de afundar, de o abismo os engolir e de as torrentes os submergirem; a tempestade transformada em bonança.
Foram resgatados do mar temido e levados ao porto desejado. “Oxalá os homens louvassem ao Senhor por sua bondade!”, Salmos 107:30, 31.
Aqui houve um exemplo do cumprimento de uma palavra particular de promessa que Deus dera: todas as pessoas neste navio seriam salvas por causa de Paulo.
Embora haja grande dificuldade no caminho da salvação prometida, ela se cumprirá sem falta; e até os destroços do navio podem fornecer meios para salvar as vidas. Quando tudo parece perdido, tudo se mostra seguro, embora seja sobre tábuas e pedaços quebrados do navio.