Atos 26
Argumento
Deixamos Paulo perante o tribunal, e Festo, Agripa, Berenice e todos os homens importantes de Cesareia estavam sentados no banco dos juízes ou ao redor dele, esperando ouvir o que ele tinha a dizer em sua defesa. Agora neste capítulo temos:
I. O relato que ele dá de si mesmo em resposta às calúnias dos judeus. E neste relato:
Seu discurso humilde ao rei Agripa e o elogio que lhe fez, vv. 1-3.
O relato de sua origem e educação, de sua profissão como fariseu e de sua adesão contínua àquilo que era então o principal artigo de seu credo, em distinção dos saduceus: a “ressurreição dos mortos”, embora desde então tivesse se afastado dele nos ritos, vv. 3-8.
O relato de seu zelo contra a religião cristã e os que a professavam no início de sua vida, vv. 9-11.
O relato de sua conversão milagrosa à fé em Cristo, vv. 12-16.
O relato da comissão que recebeu do céu para pregar o evangelho aos gentios, v. 17, 18.
O relato de seus procedimentos em cumprimento dessa comissão, o que causou tão grande ofensa aos judeus, vv. 19-21.
O relato da doutrina que tomou como sua tarefa pregar aos gentios, que estava tão longe de destruir a lei e os profetas que mostrava o cumprimento de ambos, v. 22, 23.
II. As observações feitas sobre sua defesa:
Festo pensou nunca ter ouvido alguém falar de maneira tão louca e o menosprezou como enlouquecido, v. 24. Em resposta, Paulo nega a acusação e apela ao rei Agripa, vv. 25-27.
Tratado de modo mais direto e particular, o rei Agripa pensa nunca ter ouvido alguém falar de maneira mais racional e convincente. Reconhece que é quase seu convertido (v. 28), e Paulo deseja de coração que ele o seja, v. 29.
Todos concordaram que era um homem inocente, que devia ser posto em liberdade e que era uma pena ter sido provocado a pôr uma tranca em sua própria porta ao apelar a César, vv. 30-32.
Versículos 1 a 11
A Quinta Defesa de Paulo.
Agripa era a pessoa mais honrada da assembleia, tendo-lhe sido conferido o título de rei, embora, de outro modo, tivesse somente o poder dos outros governadores sob o imperador. Embora não fosse superior a Festo aqui, ainda assim era mais antigo.
Por isso, depois que Festo apresentou a causa, Agripa, falando em nome do tribunal, indica a Paulo que lhe é dada licença para falar em sua própria defesa, v. 1.
Paulo permaneceu calado até que lhe fosse consentida essa liberdade, pois os mais prontos a falar não são os que estão mais preparados para falar e falam melhor. Os judeus não quiseram consentir nesse favor, ou não sem dificuldade; mas Agripa o dá livremente.
E a causa de Paulo era tão boa que tudo o que ele desejava era poder falar em sua própria defesa; não precisava de advogado nem de um Tértulo que falasse por ele. Registra-se seu gesto: estendeu a mão, como alguém que não estava nem um pouco perturbado, mas tinha plena liberdade e domínio de si mesmo.
O gesto indica também que falava com seriedade e esperava a atenção de todos enquanto se defendia. Observe: não insistiu em ter apelado a César como desculpa para permanecer calado. Não disse: “Não serei mais interrogado até chegar ao próprio imperador”.
Mas abraçou alegremente a oportunidade de honrar a causa pela qual sofria. Se devemos estar prontos a dar uma razão da esperança que há em nós a todo aquele que nos perguntar, quanto mais àqueles que exercem autoridade, 1 Pedro 3:15. Agora nesta primeira parte do discurso:
I. Paulo dirigiu-se a Agripa com respeito muito particular, v. 2, 3. Respondeu alegremente perante Félix porque sabia que este julgava aquela nação havia muitos anos, Atos 24:10. Mas sua opinião sobre Agripa vai além disso. Observe:
Acusado pelos judeus e responsabilizado por muitas coisas vis, alegra-se por ter oportunidade de se justificar. Está longe de imaginar que ser apóstolo o isentava da jurisdição das autoridades civis. A magistratura é uma ordenança de Deus da qual todos nos beneficiamos; por isso, todos devemos sujeitar-nos a ela.
Já que é obrigado a defender-se, alegra-se por fazê-lo perante o rei Agripa. Sendo ele mesmo prosélito da religião judaica, Agripa entendia todos os assuntos relacionados a ela melhor que os outros governadores romanos: “Sei que és conhecedor de todos os costumes e questões que há entre os judeus”.
Agripa, ao que parece, era instruído e conhecia especialmente o saber judaico. Dominava os costumes da religião judaica e sabia sua natureza, inclusive que o desígnio não era que fossem universais ou perpétuos. Conhecia também as questões surgidas a respeito deles, sobre as quais os próprios judeus não eram todos da mesma opinião.
Conhecia bem as escrituras do Antigo Testamento e podia, portanto, julgar melhor que outros a controvérsia entre Paulo e os judeus sobre Jesus ser o Messias. É um ânimo para um pregador falar a pessoas inteligentes, capazes de discernir coisas diferentes. Quando Paulo diz: “Julgai vós o que digo”, ainda assim fala como a homens sábios, 1 Coríntios 10:15.
- Pede, por isso, que Agripa o ouça pacientemente, makrothymos — com longanimidade. Paulo tem o desígnio de um longo discurso e pede que Agripa o ouça até o fim e não se canse; tem o desígnio de um discurso claro e pede que o ouça com brandura e não fique irado.
Paulo tinha algum motivo para temer que, assim como Agripa, sendo judeu, conhecia bem os costumes judaicos e, por isso, era juiz mais competente de sua causa, assim estivesse em certa medida azedado pelo fermento judaico e, por isso, tivesse preconceito contra Paulo como apóstolo dos gentios. Por isso diz isto para adoçá-lo: “Rogo-te que me ouças pacientemente”.
Certamente o mínimo que podemos esperar ao pregar a fé em Cristo é ser ouvidos com paciência.
II. Paulo declara que, embora fosse odiado e marcado como apóstata, ainda assim continuava aderindo a todo o bem em que primeiro fora educado e instruído. Sua religião sempre se edificava sobre a promessa de Deus feita aos pais, e continuamente se edificava sobre ela:
- Veja aqui qual era sua religião na juventude: sua maneira de viver era bem conhecida, v. 4, 5. De fato, não nascera entre sua própria nação, mas fora criado entre eles em Jerusalém. Embora nos últimos anos tivesse tido comunhão com os gentios, o que ofendera muito os judeus, ainda assim, ao começar sua vida no mundo, conhecia intimamente a nação judaica e estava inteiramente em seus interesses.
Sua educação não fora estrangeira nem obscura: dera-se entre seu próprio povo em Jerusalém, onde floresciam a religião e o saber. Todos os judeus sabiam disso, todos os que podiam lembrar-se de tanto tempo, pois Paulo se destacara desde cedo.
Os que o conheciam desde o começo podiam testemunhar em seu favor que era fariseu. Não apenas seguia a religião judaica e observava todas as suas ordenanças, mas pertencia à seita mais rigorosa dela: era muito meticuloso e exato ao observar ele mesmo suas instituições e muito rígido e crítico ao impô-las aos outros.
Não era apenas chamado fariseu; vivia como fariseu. Todos os que o conheciam sabiam muito bem que nenhum fariseu seguia com mais rigor as regras de sua ordem. Ou melhor, era dos melhores fariseus, pois fora instruído aos pés de Gamaliel, eminente rabino da escola ou casa de Hilel, muito mais respeitada em matéria de religião que a escola ou casa de Samai.
Agora, se Paulo era fariseu e vivia como fariseu:
(1.) Então era instruído, homem de saber, e não um artesão ignorante e sem letras. Os fariseus conheciam a lei e estavam bem versados nela e em suas interpretações tradicionais. Era um descrédito para os outros apóstolos não terem tido educação acadêmica, mas terem sido criados como pescadores, Atos 4:13.
Por isso, para que os judeus incrédulos ficassem sem desculpa, aqui é levantado um apóstolo que se sentara aos pés de seus mais eminentes mestres.
(2.) Então era moralista, homem de virtude, e não um libertino ou um jovem dissoluto e devasso. Se vivia como fariseu, não era bêbado nem fornicador. Por ser um fariseu jovem, podemos esperar que não fosse extorsionário nem tivesse ainda aprendido as artes com que os velhos fariseus astutos e cobiçosos devoravam as casas das viúvas pobres.
Mas, quanto à justiça que há na lei, era irrepreensível. Não se podia acusá-lo de nenhum exemplo de vício aberto e profanidade. Portanto, ninguém podia supor que tivesse abandonado sua religião por desconhecê-la, pois era instruído; nem por falta de amor a ela ou aversão a seus deveres, pois era virtuoso e não se inclinava à imoralidade.
(3.) Então era ortodoxo, são na fé, e não um deísta ou cético, ou um homem de princípios corruptos que levassem à incredulidade. Era fariseu, em oposição a um saduceu. Aceitava os livros do Antigo Testamento que eles rejeitavam e cria num mundo de espíritos, na imortalidade da alma, na ressurreição do corpo e nas recompensas e castigos da vida futura, tudo negado pelos saduceus.
Não podiam dizer que deixara a religião por falta de um princípio ou da devida consideração pela revelação divina. Não: sempre tinha veneração pela antiga promessa de Deus aos pais e nela firmara sua esperança.
Agora, embora Paulo soubesse muito bem que tudo isso não o justificaria perante Deus nem faria uma justiça para ele, ainda assim sabia que favorecia sua reputação entre os judeus e constituía uma razão ad hominem — tal que Agripa sentiria — de que não era o homem que diziam ser.
Embora considerasse tudo isso perda para ganhar a Cristo, ainda assim o mencionava quando pudesse servir para honrar Cristo. Sabia muito bem que, durante todo aquele tempo, desconhecera a natureza espiritual da lei divina e a religião do coração e que jamais entraria no céu se sua justiça não excedesse aquela.
Ainda assim, reflete com alguma satisfação sobre não ter sido, antes de sua conversão, um homem ateu, profano e vicioso; segundo a luz que tinha, vivera com toda boa consciência diante de Deus.
- Veja aqui qual é sua religião. De fato, não tem tal zelo pela lei cerimonial como tinha em sua juventude. Considera que o grande sacrifício prefigurado pelos sacrifícios e ofertas prescritos por ela os substitui. Não faz questão de consciência das contaminações cerimoniais nem das purificações delas e entende que o sacerdócio levítico é honrosamente absorvido no sacerdócio de Cristo.
Mas, quanto aos princípios principais de sua religião, é tão zeloso quanto antes, e ainda mais, e está decidido a viver e morrer por eles.
(1.) Sua religião se fundamenta na promessa que Deus fez aos pais. Fundamenta-se na revelação divina, que recebe e crê, e sobre a qual arrisca sua alma; fundamenta-se na graça divina, e essa graça manifestada e transmitida pela promessa.
A promessa de Deus é o guia e o fundamento de sua religião. A promessa feita aos pais era mais antiga que a lei cerimonial, aquela aliança confirmada anteriormente por Deus em Cristo, que a lei, surgida somente quatrocentos e trinta anos depois, não podia anular, Gálatas 3:17.
Cristo e o céu são as duas grandes doutrinas do evangelho: Deus nos deu a vida eterna, e essa vida está em seu Filho. Agora ambas constituem o conteúdo da promessa feita aos pais.
Ela pode remontar à promessa feita ao pai Adão a respeito da descendência da mulher e às revelações sobre a vida futura nas quais os primeiros patriarcas exerceram a fé e por ela foram salvos. Refere-se, porém, sobretudo à promessa feita ao pai Abraão: em sua descendência seriam abençoadas todas as famílias da terra, e Deus seria Deus dele e de sua descendência depois dele.
A primeira parte se refere a Cristo; a segunda, ao céu. Pois, se Deus não lhes tivesse preparado uma cidade, teria tido vergonha de chamar a si mesmo seu Deus, Hebreus 11:16.
(2.) Sua religião consiste nas esperanças dessa promessa. Não a coloca, como eles, em alimentos e bebidas e na observância de ordenanças carnais, das quais Deus muitas vezes mostrou fazer pouco caso. Coloca-a na dependência confiante da graça divina na aliança e da promessa, a grande carta pela qual a igreja foi primeiro incorporada.
[1.] Tinha esperança em Cristo como a descendência prometida. Esperava ser abençoado nele, receber a bênção de Deus e ser na verdade abençoado.
[2.] Tinha esperanças do céu. É esse o sentido expresso, como parece pela comparação com Atos 24:15: “Haverá ressurreição dos mortos.” Paulo não confiava na carne, mas em Cristo. Não esperava grandes coisas neste mundo; esperava no outro coisas maiores que qualquer uma que este mundo possa alegar. Tinha os olhos postos na vida futura.
(3.) Nisso concordava com todos os judeus piedosos. Sua fé não era só segundo as escrituras, mas segundo o testemunho da igreja, que a sustentava. Embora o transformassem em alvo, não era singular:
“As nossas doze tribos, o corpo da igreja judaica, servem a Deus com fervor dia e noite e esperam alcançar essa promessa, isto é, o bem prometido.”
O povo de Israel é chamado de doze tribos porque assim eram no princípio; e, embora não se leia sobre o retorno das dez tribos como um corpo, ainda assim temos motivo para pensar que muitas pessoas de cada tribo, em maior ou menor número, regressaram à sua própria terra.
Talvez, pouco a pouco, tenha voltado a maior parte dos que foram levados cativos. Cristo fala das doze tribos, Mateus 19:28. Ana pertencia à tribo de Aser, Lucas 2:36. Tiago dirige sua epístola às doze tribos dispersas, Tiago 1:1.
“As nossas doze tribos, que compõem o corpo de nossa nação, à qual eu e outros pertencemos. Agora todos os israelitas professam crer nessa promessa, tanto na de Cristo quanto na do céu, e esperam receber seus benefícios. Todos esperam um Messias que virá; nós, cristãos, esperamos naquele que já veio. Assim, todos concordamos em nos apoiar na mesma promessa.”
“Eles aguardam a ressurreição dos mortos e a vida do mundo vindouro, e é isso que eu aguardo. Por que me considerariam defensor de algo perigoso e contrário à doutrina, ou apóstata da fé e do culto da igreja judaica, se concordo com eles neste artigo fundamental?”
“Espero chegar, por fim, ao mesmo céu ao qual eles esperam chegar; e, se esperamos nos encontrar tão felizes em nosso fim, por que brigar tão tristemente pelo caminho?”
Ou melhor, a igreja judaica não apenas esperava alcançar a promessa. Na esperança dela, servia a Deus com fervor dia e noite. O serviço do templo consistia num curso contínuo de deveres religiosos, de manhã e à tarde, de dia e de noite, do começo do ano ao fim dele.
Era mantido pelos sacerdotes e levitas e pelos chamados homens de estação, que ali compareciam continuamente para pôr suas mãos sobre os sacrifícios públicos como representantes de todas as doze tribos. Mantinha-se esse serviço pela profissão de fé na promessa da vida eterna e pela esperança de recebê-la.
Paulo serve a Deus com fervor dia e noite no evangelho de seu Filho; as doze tribos o fazem por meio de seus representantes na lei de Moisés. Mas ele e elas o fazem na esperança da mesma promessa: “Portanto, não devem considerar-me desertor de sua igreja enquanto eu permanecer firme na mesma promessa em que eles permanecem”.
Com muito mais razão, os cristãos que esperam no mesmo Jesus e pelo mesmo céu, embora difiram nas formas e cerimônias do culto, devem esperar o melhor uns dos outros e viver juntos em santo amor.
Ou talvez se trate de pessoas específicas que permaneceram em comunhão com a igreja judaica e eram muito devotas a seu modo. Serviam a Deus com grande intensidade e dedicação da mente, perseverando nisso noite e dia, como Ana, que não se afastava do templo, mas servia a Deus — é a mesma palavra usada aqui — com jejuns e orações noite e dia, Lucas 2:37.
“Desse modo esperam alcançar a promessa, e eu espero que o façam.” Repare: só podem esperar a vida eterna com bom fundamento os que servem a Deus de modo diligente e constante; e a perspectiva dessa vida eterna deve levar-nos à diligência e à constância em todos os exercícios religiosos.
Devemos continuar nosso trabalho com os olhos voltados para o céu. E devemos julgar com caridade os que servem a Deus com fervor dia e noite, mesmo que não o façam à nossa maneira.
(4.) Era por isso que sofria agora: por pregar a doutrina que eles mesmos, se ao menos se entendessem corretamente, deveriam reconhecer: “Sou julgado pela esperança da promessa feita aos pais”. Paulo se apegava à promessa contra a lei cerimonial; seus perseguidores, à lei cerimonial contra a promessa.
“É por causa dessa esperança, rei Agripa, que sou acusado pelos judeus: faço aquilo a que me considero obrigado pela esperança dessa promessa.” É comum os homens odiarem e perseguirem o poder daquela religião nos outros, de cuja forma, ainda assim, se orgulham.
A esperança de Paulo era também consentida por eles mesmos (Atos 24:15); ainda assim, enfureciam-se contra ele por agir de acordo com ela. Mas era motivo de honra que, ao sofrer como cristão, sofresse pela esperança de Israel, Atos 28:20.
(5.) Era essa esperança que desejava persuadir todos os ouvintes a abraçar de coração (v. 8): “Por que seria considerado inacreditável entre vós que Deus ressuscite os mortos?” Isso parece entrar um tanto abruptamente; mas é provável que Paulo tenha dito muito mais do que se registra aqui.
E que tenha explicado que a promessa feita aos pais era a promessa da ressurreição e da vida eterna, e tenha provado que estava no caminho certo ao buscar sua esperança daquela felicidade, porque cria em Cristo, que havia ressuscitado dos mortos, o que era penhor e garantia daquela ressurreição que os pais esperavam.
Por isso Paulo deseja ardentemente conhecer o poder da ressurreição de Cristo para, por meio dela, alcançar a ressurreição dos mortos; veja Filipenses 3:10, 11.
Muitos de seus ouvintes, talvez a maioria, eram gentios; Festo particularmente. Podemos supor que, ao ouvi-lo falar tanto da ressurreição de Cristo quanto da ressurreição dos mortos que as doze tribos esperavam, zombaram, como os atenienses.
Começaram a sorrir diante disso e cochicharam uns aos outros que coisa absurda era, o que levou Paulo a arrazoar assim com eles: O quê? É considerado inacreditável por vocês que Deus ressuscite os mortos? Assim se pode ler. Diz o Senhor dos Exércitos, Zacarias 8:6: Se é maravilhoso aos olhos de vocês, deveria ser maravilhoso aos meus olhos?
Se está acima do poder da natureza, ainda assim não está além do poder do Deus da natureza. Repare: não há motivo para considerar minimamente inacreditável que Deus ressuscite os mortos. Não somos obrigados a crer em coisa alguma inacreditável, em coisa alguma que implique uma contradição.
Há motivos de credibilidade suficientes para nos levar através de todas as doutrinas da religião cristã, particularmente dessa da ressurreição dos mortos. Deus não possui poder infinito e todo-poderoso, para o qual nada é impossível? No princípio, não fez o mundo do nada com uma só palavra?
Não formou nossos corpos, formou-os do barro, e soprou em nós o fôlego de vida no princípio? E o mesmo poder não pode formá-los de novo de seu próprio barro e dar-lhes vida outra vez? Não vemos na natureza uma espécie de ressurreição a cada primavera? Se o sol tem força para levantar plantas mortas, deveria nos parecer inacreditável que Deus ressuscite corpos mortos?
III. Paulo reconhece que, enquanto permaneceu fariseu, era um inimigo amargo dos cristãos e do cristianismo. Acreditava que devia sê-lo e continuou assim até o momento em que Cristo operou nele aquela maravilhosa mudança. Menciona esse fato:
- Para mostrar que tornar-se cristão e pregador não era o produto e o resultado de nenhuma disposição ou inclinação anterior nesse sentido, ou de nenhum avanço gradual de pensamento em favor da doutrina cristã. Não arrazoou até chegar ao cristianismo por uma cadeia de razões.
Mas foi levado ao mais alto grau de certeza dele, imediatamente do mais alto grau de preconceito contra ele. Por isso parecia que foi feito cristão e pregador por um poder sobrenatural. Sua conversão tão milagrosa foi, portanto, uma prova convincente da verdade do cristianismo não só para ele, mas também para os outros.
- Talvez tenha o desígnio de oferecer uma desculpa aos seus perseguidores semelhante à que Cristo ofereceu aos seus quando disse: “Não sabem o que fazem”. O próprio Paulo pensara que fazia o que devia ao perseguir os discípulos de Cristo e, em sua caridade, pensa que sofriam sob semelhante engano. Observe:
(1.) Como era tolo em sua opinião (v. 9): pensava consigo mesmo que devia fazer muitas coisas, tudo o que estivesse a seu alcance, contra o nome de Jesus de Nazaré, contra sua doutrina, sua honra, seu interesse. Esse nome não causava prejuízo; como, porém, não correspondia à ideia que Paulo tinha do reino do Messias, estava disposto a fazer contra ele tudo o que podia.
Pensava prestar um bom serviço a Deus ao perseguir os que invocavam o nome de Jesus Cristo. Repare: é possível que pessoas estejam seguras de estar certas, mas ainda assim estejam evidentemente erradas e que pensem cumprir o dever enquanto persistem deliberadamente no mais grave pecado.
Os que odiavam e expulsavam seus irmãos diziam: “Seja glorificado o Senhor”, Isaías 66:5. Sob a aparência e o pretexto da religião, as vilanias mais bárbaras e desumanas têm sido não apenas justificadas, mas também santificadas e exaltadas, João 16:2.
(2.) Como era raivoso em sua prática, v. 10, 11. Não há no mundo princípio mais violento que uma consciência mal informada. Quando Paulo julgava ser seu dever fazer tudo o que pudesse contra o nome de Cristo, não poupava esforço nem despesa.
Relata o que fez nesse sentido e ressalta a gravidade de seus atos como alguém na verdade penitente: eu era blasfemo, perseguidor, 1 Timóteo 1:13.
[1.] Encheu as prisões de cristãos como se fossem os piores criminosos. Tinha o desígnio de, com isso, não apenas amedrontá-los, mas torná-los odiosos ao povo. Ele era o diabo que lançou alguns deles na prisão (Apocalipse 2:10): detinha-os para que fossem processados.
“Encerrei muitos dos santos na prisão” (Atos 26:10), tanto homens quanto mulheres, Atos 8:3.
[2.] Fez de si mesmo instrumento dos principais sacerdotes. Deles recebeu autoridade, como oficial subalterno, para executar suas leis e muito se orgulhava de exercer autoridade com tal finalidade.
[3.] Foi excessivamente solícito em votar, sem que lhe pedissem, pela morte de cristãos, especialmente de Estêvão, com cuja morte Saulo anuiu (Atos 8:1). Assim, tornou-se particeps criminis — participante do crime.
Talvez, por seu grande zelo, embora jovem, tenha sido feito membro do Sinédrio e ali tenha votado pela condenação dos cristãos à morte. Ou, depois de condenados, justificou o que foi feito e o elogiou, tornando-se culpado ex post facto — depois de cometido o ato —, como se houvesse participado como juiz ou jurado.
[4.] Submeteu-os a castigos menores nas sinagogas, onde eram açoitados como transgressores das regras da sinagoga. Teve parte no castigo de muitos. Ou melhor, ao que parece, por sua ação, as mesmas pessoas foram castigadas repetidas vezes, como ele próprio o foi cinco vezes, 2 Coríntios 11:24.
[5.] Não se limitou a castigá-los por sua religião. Orgulhando-se de triunfar sobre as consciências dos homens, forçou-os, pondo-os sob tortura, a abjurar sua religião: “Compeli-os a blasfemar de Cristo e a dizer que ele era enganador e que eles haviam sido enganados por ele; compeli-os a negar seu Mestre e a renunciar aos deveres para com ele”.
Nada pesará mais sobre os perseguidores do que forçar as consciências dos homens, por mais que hoje se vangloriem dos adeptos obtidos por suas violências.
[6.] Seu furor contra os cristãos e o cristianismo cresceu a ponto de Jerusalém tornar-se palco pequeno demais para ele. Mas, estando excessivamente louco contra eles, perseguiu-os até em cidades estrangeiras.
Estava louco contra eles ao ver quanto tinham a dizer em sua própria defesa apesar de tudo o que fazia contra eles, e ao ver que se multiplicavam tanto mais por serem afligidos. Estava excessivamente louco; a corrente de sua raiva não admitia margens nem limites.
Mas era um terror para si mesmo tanto quanto para eles, tamanha sua vexação dentro de si por não conseguir seu intento, assim como sua indignação contra eles. Os perseguidores são homens enlouquecidos, alguns em grau extremo.
Paulo estava louco ao ver que as pessoas de outras cidades não eram tão desmedidas contra os cristãos. Por isso se intrometia onde não tinha negócios e perseguia os cristãos até em cidades estrangeiras. Não há princípio mais inquieto que a malícia, sobretudo aquela que alega agir por consciência.
Esse era o caráter e a maneira de viver de Paulo no começo de sua vida. Não se podia, portanto, presumir que fosse cristão por educação ou costume, ou que houvesse sido atraído pela esperança de um cargo: todas as objeções externas imagináveis se opunham a que se tornasse cristão.
Versículos 12 a 23
A Quinta Defesa de Paulo.
Todos os que creem num Deus e têm reverência por sua soberania devem reconhecer que os que falam e agem por sua direção e com autorização dele não devem ser combatidos, pois isso é combater contra Deus.
Agora Paulo, por uma narrativa clara e fiel dos fatos, demonstra a esta augusta assembleia que teve um chamado direto do céu para pregar o evangelho de Cristo ao mundo gentílico, o que exasperava os judeus contra ele. Aqui mostra:
I. Que foi feito cristão por um poder divino, apesar de todos os seus preconceitos contra aquele caminho. Foi levado a ele de repente pela mão do céu; não compelido a confessar Cristo pela força exterior, como havia compelido outros a blasfemá-lo, mas por uma energia divina e espiritual, por uma revelação de Cristo do alto, tanto a ele quanto nele.
Isso quando estava no pleno curso de seu pecado, indo a Damasco para suprimir o cristianismo, perseguindo os cristãos ali, tão ardente quanto sempre na causa, sem que sua raiva perseguidora estivesse minimamente gasta ou cansada.
Nem foi atraído a abandoná-la pelo fracasso de seus amigos, pois tinha então autoridade e comissão dos principais sacerdotes para perseguir o cristianismo tão amplas quanto jamais tivera, quando foi obrigado por um poder superior a abandonar aquilo e aceitar outra comissão para pregar em favor do cristianismo.
Duas coisas produzem essa mudança surpreendente: uma visão do céu e uma voz do céu, que lhe transmitiram o conhecimento de Cristo pelos dois sentidos pelos quais se aprende, a visão e a audição.
- Viu uma visão celestial, cujas circunstâncias eram tais que não podia ser um engano, deceptio visus, mas era, sem dúvida, uma aparição divina:
(1.) Viu uma grande luz, uma luz do céu, que não podia ser produzida por nenhuma arte, pois não era de noite, mas ao meio-dia. Não era numa casa onde poderiam ter lhe pregado peças, mas no caminho, ao ar livre.
Era uma luz acima do brilho do sol, que o superava em brilho e o eclipsava (Isaías 24:23); isso não podia ser produto da própria imaginação de Paulo, pois brilhou ao redor dos que viajavam com ele. Todos percebiam que estavam cercados por aquela inundação de luz, que fazia o próprio sol ser, aos olhos deles, uma luz menor.
A força e o poder dessa luz apareceram em seus efeitos. Todos caíram por terra ao vê-la, tamanha foi a consternação em que os lançou; essa luz era relâmpago em sua força, mas ainda assim não passou como um relâmpago: continuou a brilhar ao redor deles.
Nos tempos do Antigo Testamento, Deus geralmente se manifestava na densa escuridão e fazia dela seu pavilhão, 2 Crônicas 6:1. Falou a Abraão numa grande escuridão (Gênesis 15:12), pois aquela era uma dispensação de escuridão; mas agora que a vida e a imortalidade foram trazidas à luz pelo evangelho, Cristo apareceu numa grande luz.
Na criação da graça, como na do mundo, a primeira coisa criada é a luz, 2 Coríntios 4:6.
(2.) O próprio Cristo lhe apareceu (v. 16): “Eu te apareci para este propósito.” Cristo estava nessa luz, embora os que viajavam com Paulo vissem somente a luz, sem ver Cristo na luz. Não é qualquer conhecimento que servirá para nos fazer cristãos, mas deve ser o conhecimento de Cristo.
- Ouviu uma voz celestial, articulada, falando com ele. Aqui se diz que era na língua hebraica, coisa em que não se reparara antes, sua língua nativa, a língua de sua religião.
Era para lhe indicar que, embora devesse ser enviado entre os gentios, ainda assim não devia esquecer que era hebreu nem fazer-se estranho à língua hebraica. No que Cristo lhe disse, podemos observar:
(1.) Que o chamou por seu nome e o repetiu, “Saulo, Saulo”, o que o surpreenderia e assustaria, tanto mais porque agora estava num lugar estranho, onde pensava que ninguém o conhecia.
(2.) Que o convenceu do pecado, daquele grande pecado que estava agora cometendo, o pecado de perseguir os cristãos, e lhe mostrou o absurdo disso.
(3.) Que tomou interesse nos sofrimentos de seus seguidores: você me persegue (v. 14); e novamente, é Jesus a quem você persegue, v. 15. Pouco pensava Paulo, quando pisoteava os que considerava os fardos e as manchas desta terra, que insultava alguém que era tanto a glória do céu.
(4.) Que o conteve por sua resistência deliberada àqueles convencimentos: “É duro para ti dar coices contra os aguilhões”, ou ferrões, como um novilho desacostumado ao jugo. Talvez o espírito de Paulo começasse inicialmente a se levantar, mas lhe é dito que isso é por sua conta e risco; então cede.
Ou foi dito como cautela: “Toma cuidado para não resistires a esses convencimentos, pois têm o desígnio de afetar-te, em lugar de afrontar-te.”
(5.) Que, à sua indagação, Cristo se fez conhecido a ele. Paulo perguntou (v. 15): “Quem és tu, Senhor? Deixa-me saber quem é que fala comigo do céu, para que lhe responda conforme isso?”
E disse: “Eu sou Jesus; aquele a quem desprezaste, odiaste e aviltaste. Trago esse nome que tornaste tão odioso, e cuja menção tornaste criminosa.”
Paulo pensava que Jesus estava sepultado na terra e que, embora furtado de seu próprio sepulcro, ainda assim fora posto em algum outro. A todos os judeus era ensinado dizer isso; por isso, fica espantado ao ouvi-lo falar do céu, ao vê-lo cercado de toda essa glória, ele a quem havia carregado de toda ignomínia possível.
Isso o convenceu de que a doutrina de Jesus era divina e celestial, e não só não devia ser combatida, mas devia ser abraçada cordialmente. Que Jesus é o Messias, pois não só ressuscitou dos mortos, mas recebeu de Deus Pai honra e glória.
Isso basta para fazê-lo cristão imediatamente, deixar o convívio dos perseguidores, contra os quais o Senhor do céu assim aparece, e juntar-se ao convívio dos perseguidos, em favor dos quais o Senhor do céu assim aparece.
II. Que foi feito ministro por autoridade divina. Que o mesmo Jesus que lhe apareceu naquela luz gloriosa lhe ordenou que fosse pregar o evangelho aos gentios. Não correu sem ser enviado, nem foi enviado por homens como ele mesmo, mas por aquele a quem o Pai enviou, João 20:21.
O que se diz de ele ser apóstolo é ligado aqui imediatamente ao que lhe foi dito no caminho, mas parece, por Atos 9:15; 22:15, 17, etc., que lhe foi dito depois. Contudo, põe as duas coisas juntas por brevidade: “Levanta-te e põe-te sobre teus pés.”
Os que Cristo, pela luz de seu evangelho, lança abaixo em humilhação pelo pecado descobrirão que isso visa a que se levantem e se ponham sobre seus pés em graça, força e conforto espirituais.
Se Cristo rasgou, é para que cure; se lançou abaixo, é para que levante. Então levante-se e sacuda a poeira de si (Isaías 52:2), ajude a si mesmo, e Cristo o ajudará. Ele deve se levantar, pois Cristo o ajudará.
Ele deve se levantar, pois Cristo tem trabalho para ele fazer, tem uma missão, uma missão muito grande, para lhe dar: “Eu te apareci para fazer-te ministro.” É Cristo quem forma seus próprios ministros; tanto suas qualificações quanto suas comissões vêm dele.
Paulo agradece a Cristo Jesus, que o pôs no ministério, 1 Timóteo 1:12. Cristo lhe apareceu para fazê-lo ministro. De uma forma ou outra, Cristo se manifestará a todos os que faz seus ministros, pois como podem pregá-lo os que não o conhecem? E como podem conhecê-lo aqueles a quem não se faz conhecido por seu espírito? Observe:
O ofício para o qual Paulo é designado: é feito ministro para servir a Cristo e agir em favor dele como testemunha, para dar provas em sua causa e atestar a verdade de sua doutrina. Deve testemunhar o evangelho da graça de Deus; Cristo lhe apareceu para que ele pudesse se apresentar em favor de Cristo diante dos homens.
A matéria do testemunho de Paulo: deve dar um relato ao mundo:
(1.) Das coisas que havia visto agora, nesse momento. Deve contar às pessoas que Cristo se manifestou a ele no caminho e o que lhe disse. Viu essas coisas para publicá-las e aproveitou todas as ocasiões para publicá-las, como aqui e antes, Atos 22.
(2.) Daquelas coisas nas quais lhe apareceria. Cristo estabeleceu agora uma relação com Paulo que tinha o desígnio de manter depois e, por ora, apenas lhe disse que tornaria a ouvir dele mais tarde. Paulo, a princípio, tinha apenas noções confusas do evangelho, até que Cristo lhe apareceu e lhe deu instruções mais completas.
O evangelho que pregava recebeu de Cristo sem mediação (Gálatas 1:12); mas o recebeu gradualmente, algumas coisas numa ocasião e outras em outra, conforme havia ocasião. Cristo apareceu frequentemente a Paulo, provavelmente com mais frequência do que se registra, e continuou a ensiná-lo, para que Paulo continuasse a transmitir conhecimento ao povo.
- A proteção espiritual sob a qual foi posto enquanto era assim empregado como testemunha de Cristo: todos os poderes das trevas não podiam conseguir seu intento contra ele até que terminasse seu testemunho (v. 17), livrando você do povo dos judeus e dos gentios.
Repare: as testemunhas de Cristo estão sob seu zelo especial e, embora possam cair nas mãos dos inimigos, ainda assim ele zelará por livrá-las de suas mãos e sabe como fazê-lo.
Cristo havia mostrado a Paulo nessa ocasião que grandes coisas devia sofrer (Atos 9:16); ainda assim, diz-lhe aqui que o livrará do povo. Repare: grandes sofrimentos são conciliáveis com a promessa de livramento do povo de Deus, pois não é prometido que serão guardados da aflição, mas guardados através dela.
Às vezes Deus os entrega nas mãos de seus perseguidores para que tenha a honra de livrá-los de suas mãos.
- A comissão especial que lhe foi dada para ir para junto dos gentios e a missão para a qual é enviado a eles. Passaram alguns anos depois da conversão de Paulo antes de ser enviado aos gentios ou, pelo que parece, saber algo sobre o desígnio de que cumprisse aquele propósito (veja Atos 22:21); mas, por fim, lhe é ordenado dirigir seu curso para lá:
(1.) Há grande trabalho a ser feito entre os gentios, e Paulo deve ser instrumento para fazê-lo. Duas coisas devem ser feitas, que seu caso exige que sejam feitas:
[1.] Um mundo que se assenta em trevas deve ser iluminado. Os que ainda ignoram as coisas que pertencem à sua paz eterna devem ser levados a conhecê-las, a conhecer Deus como seu fim e Cristo como seu caminho, os que ainda nada sabem de nenhum dos dois. É enviado para abrir-lhes os olhos e para convertê-los das trevas à luz.
Sua pregação não só lhes fará conhecidas aquelas coisas de que antes não haviam ouvido, mas será o veículo daquela graça e poder divinos pelos quais seus entendimentos serão iluminados para receber aquelas coisas e lhes dar boas-vindas.
Assim lhes abrirá os olhos, que antes estavam fechados contra a luz, e estarão dispostos a entender a si mesmos, seu próprio caso e interesse. Cristo abre o coração abrindo os olhos; não conduz os homens vendados, mas lhes dá a ver seu próprio caminho.
É enviado não só para abrir seus olhos no presente, mas para mantê-los abertos, para convertê-los das trevas à luz. Isto é, de seguir guias falsos e cegos, seus oráculos, adivinhações e usos supersticiosos, recebidos por tradição de seus pais, e as noções e ideias corrompidas que tinham de seus deuses, para seguir uma revelação divina de certeza e verdade inquestionáveis.
Isso era convertê-los das trevas à luz, dos caminhos das trevas aos caminhos sobre os quais brilha a luz. O grande desígnio do evangelho é instruir os ignorantes e retificar os enganos dos que estão em erro, para que as coisas sejam postas e vistas numa luz verdadeira.
[2.] Um mundo que jaz na maldade, no maligno, deve ser santificado e reformado. Não lhes basta ter seus olhos abertos; devem ter seus corações renovados. Não basta serem convertidos das trevas à luz; devem ser convertidos do poder de Satanás a Deus, o que acontecerá naturalmente, pois Satanás governa pelo poder das trevas, e Deus pela evidência convincente da luz.
Os pecadores estão sob o poder de Satanás; os idólatras estavam de modo especial: prestavam sua homenagem aos demônios. Todos os pecadores estão sob a influência de suas tentações, entregam-se cativos a ele, estão a seu comando.
A graça que converte os tira do domínio de Satanás e os traz à sujeição a Deus, para conformarem-se às regras de sua palavra e cumprirem os ditames e direções de seu Espírito; transporta-os do reino das trevas para o reino de seu querido Filho.
Quando as disposições de graça são fortes na alma, como haviam sido as disposições corrompidas e pecaminosas, ela é então convertida do poder de Satanás a Deus.
(2.) O desígnio desse trabalho é trazer grande felicidade aos gentios: que recebam perdão dos pecados e herança entre os que são santificados. São convertidos das trevas do pecado à luz da santidade, da escravidão de Satanás ao serviço de Deus, para que eles ganhem por ele, em lugar de Deus ganhar por eles:
[1.] Que sejam restituídos ao seu favor, que pelo pecado perderam e do qual se lançaram fora: “Para que recebam perdão dos pecados.” São livrados do domínio do pecado para que sejam salvos daquela morte que é o salário do pecado.
Não para que mereçam o perdão como uma dívida de recompensa, mas para que o recebam como dádiva gratuita, para que sejam qualificados a receber seu conforto. São persuadidos a depor suas armas e voltar à sua lealdade, para que tenham o benefício do ato de anistia e possam invocá-lo para suspender o juízo a ser dado contra eles.
[2.] Que sejam felizes na fruição dele; não só para que tenham seus pecados perdoados, mas para que tenham herança entre os que são santificados pela fé que está em mim. Repare:
Primeiro, o Céu é uma herança, que descende a todos os filhos de Deus, pois, se filhos, então herdeiros. Para que tenham kleron, um quinhão, assim se poderia ler, aludindo às heranças de Canaã, que eram designadas por sorteio; isso também é ato de Deus, seu dispor é do Senhor.
Para que tenham um direito, assim alguns leem; não por mérito, mas puramente por graça.
Segundo, todos os que são eficazmente convertidos do pecado a Deus são não só perdoados, mas promovidos. Não só têm revogada sua perda de direitos por condenação, mas lhes são dadas uma carta de honra e uma concessão de rica herança. E o perdão dos pecados abre caminho para essa herança, tirando do caminho o que, sozinho, impedia.
Terceiro, todos os que serão salvos depois são santificados agora. Os que têm a herança celestial devem tê-la dessa maneira, devem ser preparados e feitos aptos para ela. Ninguém pode ser feliz sem ser santo, nem ninguém será santo no céu sem primeiro ser santo na terra.
Quarto, não precisamos de mais nada para ser felizes do que ter nosso quinhão entre os que são santificados, ter a mesma sorte deles. Isso é ter nosso quinhão entre os escolhidos, pois são escolhidos para salvação pela santificação. Os que são santificados serão glorificados.
Por isso, lancemos agora nosso quinhão entre eles, entrando na comunhão dos santos, e estejamos dispostos a tomar nosso quinhão com eles e partilhar com eles suas aflições. Nosso quinhão com eles na herança compensará abundantemente essas aflições, por mais dolorosas que sejam.
Quinto, somos santificados e salvos pela fé em Cristo. Alguns ligam isso à palavra imediatamente anterior: santificados pela fé, pois a fé purifica o coração e aplica à alma aquelas promessas preciosas e sujeita a alma à influência daquela graça pela qual participamos de uma natureza divina.
Outros ligam isso ao recebimento tanto do perdão quanto da herança; é pela fé que se aceita a concessão. Tudo dá no mesmo, pois pela fé somos justificados, santificados e glorificados. Pela fé, te eis eme, aquela fé que está em mim; é expressa enfaticamente.
Aquela fé que não só recebe a revelação divina em geral, mas que, de modo particular, se prende a Jesus Cristo e à sua mediação, pela qual confiamos em Cristo como o Senhor nossa justiça e nos entregamos a ele como o Senhor nosso governante. Por isso recebemos a remissão dos pecados, a dádiva do Espírito Santo e a vida eterna.
III. Que havia cumprido seu ministério, conforme sua comissão, com auxílio divino e sob direção e proteção divinas. Deus, que o chamou para ser apóstolo, reconheceu-o em seu trabalho apostólico e o levou adiante com crescente alcance e êxito:
- Deus lhe deu um coração para cumprir o chamado (v. 19): “Não fui desobediente à visão celestial”, pois qualquer um diria que devia ser obediente a ela. As visões celestiais têm poder de comando sobre os conselhos terrenos, e é por nossa conta e risco que lhes somos desobedientes.
Ainda assim, se Paulo tivesse conferenciado com carne e sangue e tivesse sido levado por seu interesse secular, teria feito como Jonas: ido a qualquer lugar em lugar de cumprir essa missão. Mas Deus lhe abriu o ouvido, e não foi rebelde. Aceitou a comissão e, tendo recebido com ela suas instruções, aplicou-se a agir conforme elas.
- Deus o capacitou a realizar muito trabalho, embora nele lutasse com muita dificuldade, v. 20. Aplicou-se à pregação do evangelho com todo vigor:
(1.) Começou em Damasco, onde foi convertido, pois resolveu não perder tempo algum, Atos 9:20.
(2.) Quando chegou a Jerusalém, onde recebeu sua educação, ali testemunhou em favor de Cristo, onde havia se colocado mais furiosamente contra ele, Atos 9:29.
(3.) Pregou por todas as regiões da Judeia, nas cidades e aldeias do campo, como Cristo havia feito. Fez a primeira oferta do evangelho aos judeus, como Cristo havia designado, e não os deixou até que voluntariamente tivessem afastado de si o evangelho.
E empenhou-se pelo bem de suas almas, trabalhando mais abundantemente que qualquer dos apóstolos, ou melhor, talvez que todos juntos.
- Sua pregação era inteiramente prática. Não procurava encher a cabeça das pessoas de noções vazias, não as divertia com especulações sutis nem as punha umas contra as outras com questões de disputa duvidosa, mas lhes mostrava, declarava, demonstrava que deviam:
(1.) Arrepender-se de seus pecados, entristecer-se por eles e confessá-los e entrar em aliança contra eles. Deviam refletir sobre si mesmos, como a palavra metanoein propriamente significa; deviam mudar sua mente e mudar seu caminho e desfazer o que haviam feito de errado.
(2.) Voltar-se para Deus. Não só devem conceber antipatia pelo pecado, mas devem se conformar a Deus. Não só devem se voltar do que é mau, mas voltar-se para o que é bom; devem se voltar para Deus em amor e afeição e retornar a Deus em dever e obediência, e voltar e retornar do mundo e da carne.
Isso é requerido de toda a raça humana revoltada e degenerada, tanto judeus quanto gentios: epistrephein epi ton Theon, retornar a Deus, ao próprio Deus. Voltar-se para ele como nosso bem principal e nosso fim mais alto, como nosso governante e quinhão, voltar nosso olho para ele, voltar nosso coração para ele e voltar nossos pés para seus testemunhos.
(3.) Fazer obras dignas de arrependimento. Era isso o que João pregava, ele que foi o primeiro pregador do evangelho, Mateus 3:8. Os que professam arrependimento devem praticá-lo, devem viver uma vida de arrependimento, devem em tudo se portar como convém a penitentes.
Não basta falar palavras penitentes, mas devemos fazer obras concordantes com essas palavras. Assim como a fé verdadeira, assim o arrependimento verdadeiro produzirá obras. Agora, que defeito se poderia encontrar numa pregação como essa? Não tinha uma tendência direta a reformar o mundo, reparar seus agravos e reavivar a religião natural?
- A única desavença dos judeus com ele era esta: fazia tudo o que podia para persuadir as pessoas a serem religiosas e levá-las a Deus, levando-as a Cristo (v. 21). Foi por esses motivos, e nenhum outro, que “os judeus me agarraram no templo e tentaram matar-me”; e que qualquer um julgue se eram crimes dignos de morte ou de amarras.
Sofreu mal não só por ele mesmo agir bem, mas por fazer bem a outros. Tentaram matá-lo; era sua vida preciosa que caçavam e odiavam, porque era uma vida útil. Agarraram-no no templo adorando a Deus, e ali o atacaram, como se quanto melhor o lugar, melhor a ação.
- Não tinha auxílio senão do céu. Sustentado e levado adiante por ele, prosseguiu nesse grande trabalho (v. 22): “Tendo, portanto, obtido auxílio de Deus, continuo até este dia; hesteka, tenho permanecido, minha vida tem sido preservada e meu trabalho continuado.”
“Tenho mantido minha posição e não tenho sido desalojado; tenho permanecido no que disse e não tenho tido medo nem vergonha de persistir nisso.”
Agora já fazia mais de vinte anos desde a conversão de Paulo, e durante todo esse tempo havia estado muito ocupado pregando o evangelho em meio a perigos. O que o sustentava? Nenhuma força de suas próprias resoluções, mas ter obtido auxílio de Deus.
Pois, por isso, porque o trabalho era tão grande e ele tinha tanta oposição, não poderia ter prosseguido nele de outro modo, senão pelo auxílio obtido de Deus. Repare: os que são empregados em trabalho para Deus obterão auxílio de Deus, pois não deixará de dar as assistências necessárias a seus servos.
Nossa continuidade até este dia deve ser atribuída ao auxílio obtido de Deus. Teríamos afundado se não nos tivesse sustentado, teríamos nos afastado se não nos tivesse levado adiante; isso deve ser reconhecido com gratidão para seu louvor.
Paulo menciona, como evidência de que tinha sua comissão de Deus, que dele tinha capacidade para executá-la. Os pregadores do evangelho nunca poderiam ter feito, sofrido e prosperado como fizeram se não tivessem tido auxílio direto do céu, o qual não teriam tido se não fosse a causa de Deus que agora defendiam.
- Não pregava doutrina alguma senão a que concordava com as escrituras do Antigo Testamento. Testemunhava tanto aos pequenos quanto aos grandes, aos jovens e velhos, ricos e pobres, instruídos e não instruídos, obscuros e ilustres, pois todos tinham interesse nisso.
Era evidência da graça condescendente do evangelho que fosse testemunhado aos mais humildes e que os pobres fossem bem-vindos ao seu conhecimento; e evidência de sua verdade e poder incontestáveis que não tivesse medo nem vergonha de se mostrar aos maiores.
Os inimigos de Paulo objetavam contra ele que pregava algo mais do que os homens se arrependerem, voltarem-se para Deus e fazerem obras dignas de arrependimento. De fato, essas coisas eram apenas o que os profetas do Antigo Testamento haviam pregado.
Mas, além delas, havia pregado Cristo, sua morte e sua ressurreição; era por isso que tinham desavença com ele, como parece por Atos 25:19, que afirmava estar Jesus vivo:
“E assim fiz”, diz Paulo, “e assim faço; mas nisso também não digo outra coisa senão o que Moisés e os profetas disseram que deveria acontecer. Que maior honra lhes pode ser feita do que mostrar que aquilo que predisseram se cumpriu, e também na ocasião designada: que aquilo que disseram que deveria acontecer aconteceu, e no tempo que prefixaram?”
Três coisas profetizaram, e Paulo pregou:
(1.) Que Cristo deveria sofrer, que o Messias deveria ser um sofredor, pathetos. Não só homem e capaz de sofrer, mas que, como Messias, fosse designado para sofrimentos; que sua morte ignominiosa fosse não só compatível com seu empreendimento, mas conforme a ele.
A cruz de Cristo era pedra de tropeço para os judeus, e a pregação dela por Paulo era a grande coisa que os exasperava. Mas Paulo sustenta que, ao pregar isso, pregava o cumprimento das predições do Antigo Testamento; por isso, não só não deviam se ofender com o que pregava, mas deviam abraçá-lo e subscrevê-lo.
(2.) Que deveria ser o primeiro a ressuscitar dos mortos. Não o primeiro no tempo, mas o primeiro em influência: seria o chefe da ressurreição, o cabeça, ou o principal, protos ex anastaseos, no mesmo sentido em que é chamado de primeiro gerado dentre os mortos (Apocalipse 1:5) e primogênito dentre os mortos, Colossenses 1:18.
Abriu o ventre da sepultura, como se diz que os primogênitos fazem, e abriu caminho para nossa ressurreição. Diz-se que ele constitui as primícias dos que dormiram (1 Coríntios 15:20), pois santificou a colheita.
Foi o primeiro que ressuscitou dos mortos para não morrer mais. Para mostrar que a ressurreição de todos os crentes é em virtude da sua, justamente quando ressuscitou, muitos corpos mortos de santos ressuscitaram e entraram na cidade santa, Mateus 27:52, 53.
(3.) Que deveria mostrar luz ao povo e aos gentios, ao povo dos judeus em primeiro lugar, pois seria a glória de seu povo Israel. A eles mostrou luz por si mesmo e depois aos gentios pelo ministério de seus apóstolos, pois seria luz para iluminar os que se assentavam em trevas.
Nisso Paulo se refere à sua comissão (v. 18): “Para convertê-los das trevas à luz.” Ressuscitou dos mortos de propósito para mostrar luz ao povo, dar uma prova convincente da verdade de sua doutrina e enviá-la com tanto maior poder, tanto entre judeus quanto entre gentios.
Isso também foi predito pelos profetas do Antigo Testamento, que os gentios seriam levados ao conhecimento de Deus pelo Messias; e que havia em tudo isso com que os judeus pudessem justamente se desagradar?
Versículos 24 a 31
A Quinta Defesa de Paulo.
Temos motivo para pensar que Paulo tinha muito mais a dizer em defesa do evangelho que pregava, para honra desse evangelho e para recomendá-lo à boa opinião desse nobre auditório; acabara de tocar naquilo que era a vida da causa, a morte e ressurreição de Jesus Cristo, e aqui está no seu elemento; agora se inflama mais que antes, sua boca se abre para eles, seu coração se amplia.
Levem-no apenas a esse assunto, permitam-lhe prosseguir, e nunca saberá quando concluir; pois o poder da morte de Cristo e a comunhão dos seus sofrimentos são para ele assuntos inesgotáveis.
Era, então, mil vezes lamentável que fosse interrompido, como aqui, e que, tendo recebido permissão para falar por si mesmo (v. 1), não lhe fosse concedido dizer tudo o que tinha por desígnio. Mas era uma agrura frequentemente imposta a ele, e também é uma frustração para nós, que lemos seu discurso com tanto prazer.
Mas não há remédio; o tribunal pensa que é hora de prosseguir para apresentar o seu julgamento sobre o caso dele.
I. Festo, o governador romano, é de opinião que o pobre homem está louco e que Bedlam é o lugar mais adequado para ele.
Está convencido de que não é criminoso, nem homem mau que deva ser punido, mas o considera lunático, perturbado, que deve ser compadecido, mas ao mesmo tempo não deve ser ouvido, nem considerada uma palavra que diga.
E assim pensa ter descoberto um expediente para se desculpar tanto de condenar Paulo como preso quanto de crer nele como pregador; pois, se não é compos mentis, em seu juízo, não deve nem ser condenado nem ser acreditado. Ora, observe aqui:
- O que Festo disse dele (v. 24): Falou em alta voz, não o sussurrou aos que estavam sentados ao seu lado; se assim fosse, seria mais desculpável.
Mas (sem consultar Agripa, a cujo julgamento parecera prestar profunda deferência, Atos 25:26) falou em voz alta, para obrigar Paulo a interromper seu discurso e desviar os ouvintes de lhe dar atenção: “Paulo, estás fora de ti, falas como um louco, como alguém com o cérebro inflamado, que não sabe o que diz.”
Contudo, não supõe que uma consciência culpada tivesse perturbado sua razão, nem que seus sofrimentos e a fúria dos seus inimigos contra ele lhe tivessem causado algum abalo; mas dá ao seu delírio a interpretação mais benevolente possível: Muito saber tornou você louco, você rachou o seu cérebro estudando.
Diz isso não tanto com ira quanto com zombaria e desprezo. Não entendeu o que Paulo disse; estava acima da sua capacidade, tudo era um enigma para ele, e por isso atribui tudo a uma imaginação inflamada. Si non vis intelligi, debes negligi, se você não quer ser compreendido, deve ser negligenciado.
(1.) Reconhece Paulo como estudioso e homem de saber, porque podia tão prontamente remeter ao que Moisés e os profetas escreveram, livros que desconhecia; e até isso é voltado para seu descrédito.
Os apóstolos, que eram pescadores, foram desprezados por não terem saber; Paulo, que era homem de universidade e fora criado como fariseu, é desprezado por ter saber demais, mais do que lhe fazia bem. Assim os inimigos dos ministros de Cristo sempre terão uma coisa ou outra para repreendê-los.
(2.) Lança descrédito sobre ele como louco. Os profetas do Antigo Testamento eram assim estigmatizados, para predispor as pessoas contra eles dando-lhes um nome ruim: “Por que veio este louco a ti?”, disseram os capitães a respeito do profeta, 2 Reis 9:11; Oseias 9:7.
João Batista e Cristo eram apresentados como tendo um demônio, como estando loucos. É provável que Paulo agora falasse com mais vida e fervor que no começo do seu discurso, e usasse mais gestos que expressavam seu zelo, e por isso Festo lhe atribuiu esse caráter odioso, em que talvez ninguém mais da companhia tivesse pensado.
Não é uma insinuação tão inofensiva quanto alguns fazem parecer dizer dos que são mais zelosos na religião que os outros que estão loucos.
- Como Paulo se livrou dessa imputação odiosa, sob a qual não é certo se estivera antes; ao que parece, os falsos apóstolos haviam dito isso dele, pois diz (2 Coríntios 5:13) que, se estamos fora de nós, como dizem que estamos, é para Deus; mas nunca fora acusado disso diante do governador romano, e por isso deve dizer algo sobre isso:
(1.) Nega a acusação com o devido respeito, de fato, ao governador, mas com justiça para consigo, afirmando que não havia nem fundamento nem aparência de verdade para ela (v. 25):
“Não estou louco, nobilíssimo Festo, nem jamais estive, nem coisa alguma semelhante; o uso da minha razão, graças a Deus, me foi conservado todos os meus dias, e neste momento não divago, mas falo palavras de verdade e sobriedade, e sei o que digo.”
Observe: Embora Festo desse a Paulo esse tratamento vil e desdenhoso, impróprio a um cavalheiro, muito menos a um juiz, contudo, Paulo está tão longe de se ressentir dele e se irritar com ele que lhe dá todo respeito possível, dirige-lhe seu título de honra, nobilíssimo Festo.
Isso é para nos ensinar a não retribuir vitupério por vitupério, nem um caráter odioso por outro, mas falar civilmente com os que falam levianamente de nós. Convém-nos, em todas as ocasiões, falar palavras de verdade e sobriedade, e então podemos desprezar as censuras injustas dos homens.
(2.) Apela a Agripa a respeito do que falou (v. 26): “Pois o rei tem conhecimento destas coisas”, a respeito de Cristo, da sua morte e ressurreição, e das profecias do Antigo Testamento que tiveram nisso seu cumprimento.
Por isso falava livremente diante dele, que sabia que não eram fantasias, mas fatos, sabia algo deles e, por isso, estaria disposto a saber mais: “Pois estou persuadido de que nenhuma destas coisas lhe está oculta”; não, nem mesmo o que relatara a respeito da sua própria conversão e da comissão que recebera para pregar o evangelho.
Agripa não podia deixar de ter ouvido falar disso, tendo por tanto tempo convivido entre os judeus. “Esta coisa não foi feita num canto”; todo o país falava disso; e qualquer dos judeus presentes poderia ter testemunhado em seu favor que haviam ouvido isso muitas vezes de outros.
E, por isso, era desarrazoado censurá-lo como perturbado por relatá-lo, muito mais por falar da morte e ressurreição de Cristo, de que tão universalmente se falava.
Pedro diz a Cornélio e seus amigos (Atos 10:37) que vocês conhecem aquela palavra que foi publicada por toda a Judeia a respeito de Cristo; e, por isso, Agripa não poderia desconhecê-la, e era uma vergonha para Festo que assim fosse.
II. Agripa está tão longe de considerá-lo louco que pensa nunca ter ouvido um homem raciocinar com mais força, nem falar mais a propósito:
- Paulo se dirige diretamente à consciência de Agripa. Alguns pensam que Festo se desagradou de Paulo porque mantinha os olhos em Agripa e lhe dirigia seu discurso todo o tempo, e que por isso lhe fez aquela interrupção, v. 24.
Mas, se isso o afrontou, Paulo não faz caso; falará aos que o entendem e em quem provavelmente conseguirá inculcar alguma coisa, e por isso continua a se dirigir a Agripa.
E, porque mencionara Moisés e os profetas como confirmando o evangelho que pregava, remete Agripa a eles (v. 27): “Rei Agripa, crês nos profetas? Recebes as escrituras do Antigo Testamento como revelação divina, e as admites como anunciando boas coisas vindouras?”
Não espera resposta, mas, por cortesia a Agripa, toma por certo: “Sei que crês”; pois todos sabiam que Agripa professava a religião dos judeus, como seus pais, e por isso tanto conhecia os escritos dos profetas quanto lhes dava crédito.
Repare: É bom tratar com os que conhecem as escrituras e creem nelas; pois neles se tem algum ponto de apoio.
- Agripa reconhece que havia muito de razão no que Paulo disse (v. 28): “Quase me persuades a ser cristão.” Alguns entendem isso como dito ironicamente e o leem assim: Você me persuadiria em tão pouco tempo a ser cristão?
Mas, tomando-o assim, é um reconhecimento de que Paulo falou muito a propósito, e de que, o que quer que os outros pensassem disso, à sua mente vinha um poder convincente com o que ele dizia: “Paulo, és apressado demais, não podes pensar em me fazer convertido de repente.”
Outros o tomam como dito seriamente e como confissão de que estava, de certo modo, ou quase, convencido de que Cristo era o Messias; pois não podia deixar de reconhecer, e muitas vezes pensara dentro de si, que as profecias do Antigo Testamento tinham tido seu cumprimento nele.
E agora que isso lhe é apresentado tão solenemente está pronto para ceder ao convencimento, começa a dar sinais de negociação e a pensar em se render.
Está tão perto de ser persuadido a crer em Cristo quanto Félix, ao tremer, esteve de abandonar seus pecados; vê muitas razões para o cristianismo; reconhece que suas provas são fortes e tais que não pode responder; as objeções contra ele são insignificantes, e tais que não pode insistir nelas sem vergonha.
De modo que, se não fosse por suas obrigações para com a lei cerimonial e seu respeito pela religião dos seus pais e do seu país, ou sua consideração pela sua dignidade como rei e seus interesses terrenos, se tornaria cristão imediatamente.
Repare: Muitos são quase persuadidos a ser religiosos sem serem completamente persuadidos; estão sob fortes convencimentos do seu dever e da excelência dos caminhos de Deus, mas contudo alguns incentivos externos se sobrepõem a eles e não seguem seus convencimentos.
- Paulo, não lhe sendo consentido tempo para prosseguir com seu argumento, conclui com um elogio, ou antes, um desejo piedoso de que todos os seus ouvintes fossem cristãos; e esse desejo convertido em oração: euxaimen an to Theo, oro a Deus por isso (v. 29).
Era o desejo do seu coração e sua oração a Deus em favor de todos eles, para que fossem salvos, Romanos 10:1. “Que não só tu, mas todos os que me ouvem hoje” (pois tem o mesmo desígnio bondoso para todos eles) “fossem tanto quase quanto inteiramente tais como eu sou, exceto estas amarras.” Com isso:
(1.) Declara sua resolução de se apegar à sua religião, como aquilo em que estava inteiramente satisfeito e por que estava decidido a viver e morrer. Ao desejar que todos fossem como ele, na prática declara contra jamais ser como eles, fossem judeus ou gentios, por mais que isso servisse à sua vantagem mundana.
Adere à instrução que Deus deu ao profeta (Jeremias 15:19): “Tornem eles para ti, mas não tornes tu para eles.”
(2.) Indica sua satisfação não só na verdade, mas no benefício e vantagem do cristianismo; tinha nele tanto conforto no presente e estava tão certo de que terminaria em sua felicidade eterna que não poderia desejar coisa melhor ao melhor amigo que tinha no mundo do que desejar-lhe ser tal como ele, um discípulo fiel e zeloso de Jesus Cristo.
“Seja meu inimigo como o ímpio”, diz Jó, Jó 27:7. “Seja meu amigo como o cristão”, diz Paulo.
(3.) Indica seu pesar e preocupação de que Agripa não passasse de ser quase tal como ele, quase cristão, e não inteiramente um; pois deseja que ele e os demais possam ser não só quase (que bem faria isso?), mas inteiramente tais como ele, cristãos sinceros e completos.
(4.) Indica que era do interesse, e seria da felicidade indizível, de cada um deles tornar-se verdadeiro cristão; que há graça suficiente em Cristo para todos, por mais numerosos que sejam, suficiente para cada um, por mais ávidos que sejam.
(5.) Indica a boa vontade de coração que tinha para com todos eles; lhes deseja:
[1.] Tão bem quanto desejava à sua própria alma, para que pudessem ser tão felizes em Cristo quanto ele.
[2.] Melhor do que agora estava quanto à sua condição externa, pois excetua estas amarras; deseja que todos possam ser cristãos consolados como ele, mas não cristãos perseguidos como ele; que possam provar tanto quanto ele das vantagens que acompanhavam a religião, mas não tanto das suas cruzes.
Haviam feito pouco caso da sua prisão e não tinham preocupação por ele. Félix o deteve em amarras para satisfazer os judeus. Ora, isso teria tentado muitos a desejá-los todos nas suas amarras, para que soubessem o que era estar confinado como ele, e então saberiam melhor como se compadecer dele.
Mas estava tão longe disso que, quando os desejava em amarras a Cristo, desejava que nunca estivessem em amarras por Cristo. Nada poderia ser dito com mais ternura nem com melhor graça.
III. Todos concordam que Paulo é homem inocente e que lhe é feita injustiça no processo contra ele:
- O tribunal se dispersou com alguma precipitação (v. 30): Quando disse aquela palavra atenciosa (v. 29), que comoveu todos, o rei temia que, se lhe fosse concedido prosseguir, dissesse algo ainda mais comovente, que pudesse influenciar alguns a se mostrar mais a seu favor do que era conveniente, e talvez os persuadisse a se tornar cristãos.
O próprio rei sentiu seu próprio coração começar a ceder e não ousou confiar em si mesmo para ouvir mais, mas, como Félix, dispensou Paulo por essa vez.
Deveriam, por justiça, ter perguntado ao preso se tinha algo mais a dizer em sua defesa; mas pensavam que dissera o suficiente, e por isso o rei se levantou, e o governador, e Berenice, e os que estavam sentados com eles.
Concluíam que o caso era claro, e com isso se contentavam, quando Paulo tinha mais a dizer que o teria tornado mais claro.
- Todos concordaram numa opinião da inocência de Paulo, v. 31. O tribunal se retirou para deliberar sobre o assunto, para conhecer a opinião uns dos outros a respeito, e conversaram entre si, todos com o mesmo sentido: “Este homem nada faz digno de amarras”; não é um homem perigoso que seja prudente confinar.
Depois disso, Nero fez uma lei para matar os que professavam a religião cristã, mas até então não havia lei dessa espécie entre os romanos e, por isso, nenhuma transgressão.
E esse julgamento deles é testemunho contra aquela lei perversa que Nero fez pouco depois disso, de que Paulo, o cristão mais ativo e zeloso que já existiu, foi julgado, mesmo pelos que não eram amigos do seu caminho, como não tendo feito nada digno de morte ou de amarras.
Assim foi manifestado na consciência daqueles que contudo não queriam receber sua doutrina; e os clamores dos judeus de cabeça quente, que gritavam: Fora com ele, não é apropriado que viva, foram envergonhados pelas deliberações moderadas desse tribunal.
- Agripa deu seu julgamento de que poderia ter sido posto em liberdade se ele próprio não tivesse apelado a César (v. 32), mas por esse apelo pusera uma barra na sua própria porta.
Alguns pensam que, pela lei romana, isso era verdade: que, quando um preso apelava ao tribunal supremo, os tribunais inferiores não podiam mais absolvê-lo que condená-lo; e supomos que a lei fosse assim se os acusadores discutissem a questão no apelo e anuíssem a ele.
Mas não se vê que, no caso de Paulo, os acusadores fizeram isso; foi forçado a fazê-lo para se proteger da fúria deles, quando viu que o governador não tinha o zelo que devia por sua proteção.
E, por isso, outros pensam que Agripa e Festo, indispostos a desagradar os judeus pondo-o em liberdade, fizeram isso servir de desculpa para continuarem a mantê-lo sob custódia, quando eles próprios sabiam que poderiam ter justificado a sua soltura.
Agripa, que foi apenas quase persuadido a ser cristão, não se mostra melhor do que se não tivesse sido persuadido de modo algum. E agora não posso dizer:
(1.) Se Paulo se arrependeu de ter apelado a César e desejava não tê-lo feito, culpando-se por isso como algo precipitado, agora que via ser essa a única coisa que impedia sua soltura.
Talvez tivesse motivo para refletir nisso com pesar e se acusar de imprudência e impaciência, e de alguma desconfiança da proteção divina. Teria sido melhor apelar a Deus que a César.
Confirma o que Salomão diz (Eclesiastes 6:12): “Quem sabe o que é bom para o homem nesta vida?” O que pensamos ser para nosso bem-estar muitas vezes se mostra uma armadilha; tais criaturas de visão curta somos, e tão imprudentes ao nos apoiarmos, como fazemos, no nosso próprio entendimento.
Ou:
(2.) Se, apesar disso, estava satisfeito com o que fizera e tranquilo ao refletir nisso. Seu apelo a César era lícito e o que convinha a um cidadão romano, e ajudaria a dar importância à sua causa.
E, como ao fazê-lo lhe parecia, no estado em que o caso então se encontrava, ser o melhor, embora depois parecesse diferente, não se irritava consigo mesmo com nenhuma autocensura sobre o assunto, mas cria que havia uma providência nisso e que no fim teria um bom desfecho.
E, além disso, numa visão lhe foi dito que deveria dar testemunho de Cristo em Roma, Atos 23:11. E lhe é indiferente se vai para lá preso ou em liberdade; sabe que o conselho do Senhor permanecerá e diz: “Que permaneça.” Seja feita a vontade do Senhor.