Matthew Henry

Atos 23

Argumento

O fim do capítulo anterior deixou Paulo no tribunal do sumo sacerdote, para onde o comandante transferira sua causa das mãos da multidão, se em benefício dele ou não, não sei. E, embora seus inimigos ajam ali contra ele com menos alarde, ainda assim agem com mais sutileza. Temos aqui:

I. A declaração de Paulo sobre sua própria integridade e seu respeito civil pelo sumo sacerdote, embora de repente lhe tivesse falado com veemência, e com justiça, vv. 1-5.

II. O expediente prudente de Paulo para se livrar deles, pondo fariseus e saduceus em conflito uns com os outros, vv. 6-9.

III. A intervenção oportuna do governador para resgatá-lo também das mãos deles, v. 10.

IV. A aparição mais consoladora de Cristo a Paulo, para animá-lo diante das dificuldades que tinha à frente e dizer-lhe o que deveria esperar, v. 11.

V. A conspiração sanguinária de alguns judeus desesperados para matar Paulo e o envolvimento dos principais sacerdotes e dos anciãos como auxiliares e cúmplices deles, vv. 12-15.

VI. A revelação dessa conspiração a Paulo, e por ele ao comandante, que percebeu tamanha malícia inveterada deles contra Paulo que teve motivos suficientes para acreditar que era verdade, vv. 16-22.

VII. O zelo do comandante pela segurança de Paulo, com o qual impediu a execução do desígnio. Enviou-o imediatamente sob forte escolta de Jerusalém a Cesareia, que agora era a residência de Félix, o governador romano, e ali Paulo chegou em segurança, vv. 23-35.

Versículos 1 a 5

A Segunda Defesa de Paulo.

Quando Paulo era levado, como tantas vezes acontecia (corpus cum causa, a pessoa e a causa juntas), diante de magistrados e conselhos pagãos, ele e sua causa eram desprezados por não serem de modo algum compreendidos.

Talvez pensasse que, se fosse levado diante do Sinédrio em Jerusalém, poderia tratar com eles com algum proveito; contudo, não vemos que exerça influência alguma sobre eles. Temos aqui:

I. A declaração de Paulo sobre sua própria integridade. Não nos é dito se o sumo sacerdote lhe fez alguma pergunta ou se o comandante apresentou seu caso ao tribunal. Mas Paulo compareceu ali:

  1. Com boa coragem. Não ficou nem um pouco intimidado ao ser levado diante de assembleia tão respeitável, pela qual em sua juventude concebera tamanha veneração. Tampouco temeu que lhe pedissem contas das cartas que lhe deram para Damasco, a fim de perseguir os cristãos ali, embora, pelo que sabemos, aquela fosse a primeira vez que os via desde então. Antes, fitou atentamente o conselho.

Quando Estêvão foi levado diante deles, pensaram intimidá-lo com o olhar, mas não puderam, tamanha era sua santa confiança; olharam fixamente para ele, e seu rosto era como o de um anjo, Atos 6:15. Agora que Paulo foi levado diante deles, pensou intimidá-los com o olhar, mas não pôde, tamanha era a ímpia insolência deles.

Contudo, cumpriu-se nele o que Deus prometera a Ezequiel (Ezequiel 3:8, 9): “Fiz forte o teu rosto contra os rostos deles; não os temas nem te assustes com os seus olhares”.

  1. Com boa consciência, e isso lhe dava boa coragem.

Hic murus aheneus esto, Nil conscire sibi

“Que esta seja tua defesa, firme como bronze: conservar sempre a consciência de tua inocência.”

Ele disse: “Homens e irmãos, tenho vivido com toda boa consciência diante de Deus até este dia.” “Por mais que me censurem, meu coração não me censura, mas testemunha em meu favor.”

(1.) Sempre fora um homem inclinado à religião. Nunca vivera desenfreadamente, mas sempre distinguira o bem moral do mal. Mesmo em seu estado não regenerado, era irrepreensível quanto à justiça que havia na lei. Não era homem irrefletido, que nunca considerava o que fazia, nem calculista, que não se importava com o que fazia, contanto que alcançasse seus próprios fins.

(2.) Mesmo quando perseguiu a igreja de Deus, pensava que devia fazê-lo e que, ao fazê-lo, prestava serviço a Deus. Embora sua consciência estivesse mal informada, ainda assim agia conforme seus ditames. Veja Atos 26:9.

(3.) Parece, antes, falar do tempo desde sua conversão, desde que deixou o serviço do sumo sacerdote e, por isso, caiu no desagrado deles. Não diz: “Desde o começo até este dia”, mas: “Durante todo o tempo em que me consideraram desertor, apóstata e inimigo de sua igreja, até este dia, tenho vivido com toda boa consciência diante de Deus”.

“O que quer que pensem de mim, em tudo me apresentei aprovado diante de Deus e vivi honestamente”, Hebreus 13:18. Não visava a nada além de agradar a Deus e cumprir seu dever naquilo que tanto os enfurecia contra ele. Em tudo o que fez para estabelecer o reino de Cristo, inclusive entre os gentios, agiu conscienciosamente. Veja aqui o caráter de um homem honesto:

[1.] Põe Deus diante de si e vive como à sua vista, sob seus olhos e com os olhos voltados para ele. Ande diante de mim e seja íntegro.

[2.] Age com consciência no que diz e faz e, embora possa estar equivocado em algumas coisas, ainda assim, segundo o melhor de seu conhecimento, se abstém do que é mau e se apega ao que é bom.

[3.] É consciencioso em tudo; e os que não o são assim não são na verdade conscienciosos de modo algum. É assim em toda a sua conduta: “Tenho vivido com toda boa consciência; toda a minha conduta esteve sob a direção e o domínio da consciência”.

[4.] Continua assim e persevera nisso: “Tenho vivido assim até este dia”. Quaisquer que sejam as mudanças pelas quais passe, continua o mesmo, rigorosamente consciencioso.

E os que assim vivem com toda boa consciência diante de Deus podem, como Paulo aqui, erguer o rosto sem mancha. Se seu coração não os condena, podem ter confiança tanto diante de Deus quanto dos homens, como Jó, quando ainda se apegava à sua integridade, e como o próprio Paulo, cuja alegria era o testemunho de sua consciência.

II. A violência de que Ananias, o sumo sacerdote, foi culpado: ordenou aos que estavam perto, aos oficiais que serviam no tribunal, que lhe batessem na boca (v. 2), que lhe dessem um golpe nos dentes, ou com a mão ou com uma vara.

Nosso Senhor Jesus recebeu tratamento igualmente insultuoso nesse tribunal, por um dos servos (João 18:22), conforme fora predito, Miquéias 5:1: “Ferirão o juiz de Israel na face”. Mas aqui houve uma ordem do tribunal para fazê-lo e, provavelmente, ela foi cumprida:

  1. O sumo sacerdote ficou profundamente ofendido com Paulo. Alguns pensam que foi porque ele olhou para o conselho com tanta ousadia e atenção, como se quisesse intimidá-los com o olhar. Outros, porque não se dirigiu particularmente ao presidente com algum título de honra e respeito, mas falou livre e familiarmente a todos, como homens e irmãos.

Sua declaração de integridade bastava para provocar alguém decidido a desacreditá-lo e torná-lo odioso. Como não podia acusá-lo de nenhum crime, achou crime suficiente que ele afirmasse sua própria inocência.

  1. Enfurecido, ordenou que o golpeassem para desonrá-lo, e que o golpeassem na boca, como se tivesse ofendido com os lábios e como sinal de que lhe impunha silêncio. Recorreu a esse método grosseiro e bárbaro quando não pôde responder à sabedoria e ao espírito com que Paulo falava.

Assim Zedequias golpeou Micaías (1 Reis 22:24) e Pasur golpeou Jeremias (Jeremias 20:2) quando falavam em nome do Senhor. Portanto, se vemos tais indignidades serem praticadas contra homens bons, ou melhor, se as praticam contra nós por fazer e dizer o bem, não devemos considerá-lo estranho.

Cristo dará os beijos de sua boca (Cantares de Salomão 1:2) aos que, por causa dele, recebem golpes na boca.

E embora se pudesse esperar que, como diz Salomão, todo homem beijasse os lábios de quem dá a resposta certa (Provérbios 24:26), ainda assim muitas vezes vemos o contrário.

III. A declaração da cólera de Deus contra o sumo sacerdote por essa maldade no lugar do juízo (Eclesiastes 3:16). Concorda com o que vem a seguir, v. 17, com que Salomão se consolava: “Eu disse no meu coração: Deus julgará o justo e o ímpio”. “Deus te ferirá, parede caiada”, v. 3.

Paulo não disse isso em nenhum ardor ou paixão pecaminosa, mas com santo zelo contra o abuso de poder do sumo sacerdote e com algo de espírito profético, sem espírito algum de vingança:

  1. Dá-lhe o caráter que merece: “Parede caiada”, isto é, hipócrita; parede de barro, entulho, sujeira e refugo por baixo, mas revestida de reboco ou caiada. É, na prática, a mesma comparação que Cristo faz ao comparar os fariseus a sepulcros caiados, Mateus 23:27. Os que rebocavam com argamassa fraca não deixavam de cobrir a si mesmos com algo que os fazia parecer não só limpos, mas vistosos.

  2. Lê-lhe sua justa condenação: “Deus te ferirá, trará sobre ti seus juízos severos, especialmente os espirituais”. Grócio pensa que isso se cumpriu pouco depois, quando ele foi removido do ofício de sumo sacerdote, por morte ou deposição, pois encontra outro nesse ofício pouco tempo depois.

Provavelmente foi ferido por algum golpe súbito da vingança divina. A mão de Jeroboão secou quando se estendeu contra um profeta.

  1. Apresenta um bom motivo para essa condenação: “Pois te assentas ali como presidente do supremo tribunal da igreja, alegando julgar-me segundo a lei, declarar-me culpado e condenar-me pela lei, e contudo ordenas que me batam antes que algum crime seja provado contra mim, o que é contrário à lei?”

Ninguém deve ser açoitado a menos que mereça ser açoitado, Deuteronômio 25:2. Impedir um homem de apresentar sua defesa e condená-lo sem ouvi-lo contraria toda lei, humana e divina, natural e positiva. Quando Paulo foi golpeado pela multidão, pôde pedir ao Pai que lhes perdoasse, pois não sabiam o que faziam. Mas isso é indesculpável num sumo sacerdote designado para julgar segundo a lei.

IV. A ofensa causada por essa palavra ousada de Paulo (v. 4): os que estavam perto disseram: “Vituperas o sumo sacerdote de Deus?” É provável que os que censuraram Paulo pelo que disse fossem judeus crentes, zelosos pela lei e, consequentemente, pela honra do sumo sacerdote. Por isso, não gostaram que Paulo o censurasse assim e o repreenderam. Veja aqui:

  1. Como era difícil a posição de Paulo: seus inimigos o maltratavam e seus amigos, longe de apoiá-lo e tomar sua defesa, estavam prontos a censurar seu modo de agir.

  2. Como até os próprios discípulos de Cristo tendem a valorizar demais a pompa e o poder exteriores. Como o templo fora o templo de Deus e era uma construção magnífica, havia entre os seguidores de Cristo quem não suportasse ouvir algo que ameaçasse sua destruição.

Assim também, porque o sumo sacerdote fora o sumo sacerdote de Deus e era homem de posição, embora fosse inimigo inveterado do cristianismo, ainda assim esses se indignaram com Paulo por lhe dar o que merecia.

V. A explicação que Paulo deu para o que havia dito, porque descobriu que aquilo era pedra de tropeço para seus irmãos fracos e poderia levá-los a nutrir preconceito contra ele em outras questões.

Esses cristãos judeus, embora fracos, ainda assim eram irmãos, como ele os chama aqui. Por consideração a isso, está quase pronto a retirar suas palavras, pois, diz ele, “quem se escandaliza, e eu não me abraso?”, 2 Coríntios 11:29.

Sua firme resolução era restringir-se no uso de sua liberdade cristã antes de ofender um irmão fraco. A fim de não fazer isso, não comeria carne enquanto o mundo durasse, 1 Coríntios 8:13. Aqui também, embora tivesse tomado a liberdade de dizer ao sumo sacerdote o que ele merecia ouvir, ainda assim, ao perceber que causara ofensa, exclamou: Peccavi, “Errei”.

Desejou não tê-lo feito. E, embora não pedisse perdão ao sumo sacerdote nem se justificasse diante dele, ainda assim pediu perdão aos que se ofenderam, porque aquele não era momento de instruí-los melhor nem de dizer o que poderia dizer em sua própria defesa:

  1. Explica-se dizendo que não considerou, ao falar, a quem se dirigia (v. 5): “Não sabia, irmãos, que ele era o sumo sacerdote”, ouk edein. “Naquele momento, não pensei na dignidade de seu cargo; do contrário, teria falado com mais respeito a ele.”

Não vejo como se possa pensar, com alguma probabilidade, que Paulo não soubesse que ele era o sumo sacerdote. Paulo passara sete dias no templo durante a festa e não poderia deixar de vê-lo. Além disso, ao dizer que ele se assentava para julgá-lo segundo a lei, mostrou que sabia quem era. Mas, diz Paulo, “não considerei isso”.

O doutor Whitby dá a seguinte interpretação: o impulso profético que estava sobre Paulo e o movia interiormente a dizer o que disse não lhe concedeu notar que aquele era o sumo sacerdote, para que essa lei não o impedisse de seguir o impulso. Mas os judeus reconheciam que os profetas podiam falar dos governantes com uma liberdade que os demais não tinham, como em Isaías 1:10, 23.

Ou, conforme as interpretações de Grócio e Lightfoot que Whitby cita, Paulo não tenta justificar-se nem um pouco pelo que dissera, mas, antes, defender suas palavras: “Reconheço que o sumo sacerdote de Deus não deve ser vituperado, mas não reconheço este Ananias como sumo sacerdote. É um usurpador; chegou ao cargo por suborno e corrupção”.

“E os rabinos judeus dizem que quem assim procede não é juiz nem deve ser honrado como tal.” Contudo:

  1. Cuida para que suas palavras não sejam tomadas como precedente que enfraqueça, nem um pouco, a obrigação daquela lei: pois está escrito, e continua sendo uma lei em pleno vigor: não fale mal do governante do seu povo.

É para o bem público que a honra da magistratura seja sustentada e não sofra pelos erros daqueles a quem ela é confiada. Por isso, deve-se observar o decoro ao falar tanto a respeito dos príncipes e juízes quanto com eles. Mesmo no tempo de Jó não se considerava apropriado dizer a um rei: “Tu és perverso”, ou aos príncipes: “Vós sois ímpios”, Jó 34:18.

Mesmo quando fazemos o bem e sofremos por isso, devemos suportá-lo com paciência, 1 Pedro 2:20. Isso não quer dizer que os poderosos não possam ouvir falar de seus erros ou que pessoas apropriadas não possam queixar-se de injustiças públicas de maneira decorosa.

Mas é preciso ter um cuidado especial com a honra e a reputação dos que exercem autoridade, mais que com as das demais pessoas, porque a lei de Deus exige que se lhes preste reverência especial como representantes de Deus. É perigoso dar qualquer apoio aos que desprezam as autoridades e insultam as dignidades, Judas 1:8. “Não amaldiçoes o rei, nem mesmo em teu pensamento”, Eclesiastes 10:20.

Versículos 6 a 11

A Segunda Defesa de Paulo.

Muitas são as tribulações dos justos, mas de algum modo o Senhor os livra de todas elas. Paulo reconheceu ter experimentado a verdade disso nas perseguições que sofrera entre os gentios (veja 2 Timóteo 3:11): “De todas elas o Senhor me livrou”.

E agora descobre que aquele que o livrou o livra e o livrará. Aquele que no capítulo anterior o livrou do tumulto do povo aqui o livra do tumulto dos anciãos.

I. Sua própria prudência e engenho lhe são de alguma ajuda e contribuem muito para sua fuga. A maior honra de Paulo, e aquela de que mais se prezava, era ser cristão e apóstolo de Cristo.

E todas as suas demais honras ele desprezava e considerava nada em comparação com essa, contando-as apenas como esterco para ganhar a Cristo. Ainda assim, às vezes teve ocasião de fazer uso de suas outras honras, e elas lhe prestaram serviço.

Sua cidadania romana o salvou, no capítulo anterior, de ser açoitado pelo comandante como um vagabundo. E aqui, o fato de ser fariseu o salvou de ser condenado pelo Sinédrio como apóstata da fé e do culto do Deus de Israel.

É perfeitamente compatível com nossa disposição de sofrer por Cristo usar todos os meios lícitos, ou melhor: e também expedientes, tanto para evitar o sofrimento quanto para dele nos livrarmos.

A sagacidade honesta que Paulo usou aqui para sua própria preservação foi dividir seus juízes e pô-los em conflito uns com os outros a respeito dele; e, ao inflamar uma parte deles ainda mais contra si, angariar o apoio da parte contrária.

  1. O grande conselho era composto de saduceus e fariseus, e Paulo percebeu isso. Conhecia o caráter de muitos deles desde que vivera entre eles e viu entre eles alguns que sabia serem saduceus e outros que sabia serem fariseus (v. 6). “Uma parte era de saduceus e a outra de fariseus”, e talvez em números quase iguais.

Eles divergiam muito uns dos outros e, mesmo assim, em geral se entendiam bem o suficiente para conduzir juntos os negócios do conselho:

(1.) Os fariseus eram fanáticos, zelosos pelas cerimônias, não só pelas que Deus designara, mas também pelas impostas pela tradição dos anciãos. Defendiam com firmeza a autoridade da igreja e a imposição da obediência às suas determinações, o que causou muitas desavenças entre eles e nosso Senhor Jesus.

Ao mesmo tempo, porém, eram muito ortodoxos na fé da igreja judaica quanto ao mundo dos espíritos, à ressurreição dos mortos e à vida do mundo vindouro.

(2.) Os saduceus eram deístas, não eram amigos das escrituras nem da revelação divina. Admitiam os livros de Moisés como boa história e boa lei, mas tinham pouca consideração pelos outros livros do Antigo Testamento; veja Mateus 22:23. O relato aqui dado desses saduceus é:

[1.] Que negavam a ressurreição, não só o retorno do corpo à vida, mas também um estado futuro de recompensas e punições. Não tinham esperança de felicidade eterna, temor de miséria eterna nem expectativa de coisa alguma do outro lado da morte. E era com base nesses princípios que diziam que era inútil servir a Deus e chamavam os soberbos de felizes, Malaquias 3:14, 15.

[2.] Que negavam a existência de anjos e espíritos e não admitiam nenhum ser senão matéria. Pensavam que o próprio Deus era corpóreo e tinha partes e membros como nós. Ao lerem sobre anjos no Antigo Testamento, supunham que fossem mensageiros que Deus criava e enviava a seus encargos quando necessário, ou impressões na imaginação daqueles a quem eram enviados, e não seres reais.

Seriam isto, aquilo ou qualquer outra coisa, menos o que de fato eram. Quanto às almas dos homens, consideravam-nas nada além da constituição dos humores do corpo ou dos espíritos animais. Negavam, porém, que existissem separadas do corpo e que houvesse alguma diferença entre a alma de um homem e a de um animal.

Esses, sem dúvida, alegavam ser livres-pensadores, mas na realidade pensavam da maneira mais mesquinha, absurda e servil possível. É estranho como homens de princípios tão corruptos e perversos pudessem alcançar um cargo e ter assento no grande Sinédrio. Muitos deles, porém, eram pessoas de posição e posses, e se conformavam à ordem pública estabelecida; assim entraram e permaneceram ali.

Em geral, contudo, eram estigmatizados como hereges, classificados com os epicureus, alvo de orações contrárias e excluídos da vida eterna. Witsius pensa que a oração que os judeus modernos usam contra os cristãos foi destinada por Gamaliel, seu autor, contra os saduceus, e que era a eles que se referiam com sua maldição habitual: “Apodreça o nome dos ímpios”.

Mas quão degenerado era o caráter, e quão miserável o estado, da igreja judaica, quando homens tão profanos estavam entre seus governantes!

  1. Nessa questão em que fariseus e saduceus divergiam, Paulo declarou abertamente estar do lado dos fariseus contra os saduceus (v. 6). Gritou para que todos o ouvissem: “Sou fariseu, fui criado como fariseu; ou melhor, na prática nasci fariseu, pois era filho de fariseu; meu pai o foi antes de mim”.

“E até este ponto continuo sendo fariseu: espero pela ressurreição dos mortos. E posso dizer na verdade que, se a questão fosse compreendida corretamente, se constataria que é por isso que agora sou interrogado.”

Quando Cristo estava na terra, os fariseus foram os que mais se opuseram a ele, porque ele testemunhava contra as tradições deles e suas interpretações corruptas da lei. Depois da ascensão, porém, os saduceus foram os que mais se opuseram aos seus apóstolos, porque eles pregavam por meio de Jesus a ressurreição dos mortos, Atos 4:1, 2.

E diz-se que os da seita dos saduceus se encheram de indignação contra eles (Atos 5:17), porque pregavam aquela vida e imortalidade que o evangelho trouxe à luz. Aqui, então:

(1.) Paulo reconhece ser fariseu na medida em que os fariseus estavam certos. Embora se opusesse ao farisaísmo em sua oposição ao cristianismo e a todas as tradições postas em disputa com a lei de Deus ou em contradição ao evangelho de Cristo, contudo, apegava-se a ele em sua oposição ao saduceísmo.

Nunca devemos ter em menor conta alguma verdade de Deus nem hesitar mais em reconhecê-la por ser sustentada por homens corruptos em outros aspectos. Se os fariseus esperam a ressurreição dos mortos, Paulo os acompanhará nessa esperança e será um deles, queiram ou não.

(2.) Podia dizer na verdade que, sendo perseguido como cristão, era por essa questão que estava sendo interrogado. Talvez soubesse que os saduceus, embora não tivessem tanto prestígio entre o povo quanto os fariseus, haviam incitado secretamente a multidão contra ele sob a alegação de que pregara aos gentios, mas na verdade porque pregara a esperança da ressurreição.

De qualquer modo, sendo interrogado por ser cristão, podia dizer na verdade que o interrogavam pela esperança da ressurreição dos mortos, como depois alegou em Atos 24:15; 26:6, 7.

Embora pregasse contra as tradições dos anciãos, como seu Mestre fizera, e nisso se opusesse aos fariseus, contudo, prezava-se mais por pregar a ressurreição dos mortos e um estado futuro, pontos em que concordava com os fariseus.

  1. Isso causou uma divisão no conselho. É provável que o sumo sacerdote estivesse do lado dos saduceus, como estivera em Atos 5:17 e como demonstrou por sua fúria contra Paulo (v. 2), o que alarmou ainda mais os fariseus.

Mas assim foi: “Surgiu uma dissensão entre fariseus e saduceus” (v. 7), pois as palavras de Paulo tornaram os saduceus mais ardorosos e os fariseus mais frios em persegui-lo. De modo que “a multidão ficou dividida”; eschisthe, houve um cisma, uma desavença entre eles. E o fio de seu zelo começou a voltar-se de Paulo para uns contra os outros.

Nem podiam prosseguir agindo contra ele enquanto não concordassem entre si, nem persegui-lo por romper a unidade da igreja quando havia tão pouca unidade do espírito entre eles. Todo o clamor fora contra Paulo; agora surgiu um grande clamor de uns contra os outros, v. 9.

Um espírito feroz e furioso dominava de tal modo todas as classes de judeus naquele tempo que tudo era feito com clamor e barulho. E os grandes princípios de sua religião eram defendidos de maneira tão tumultuosa que pouco proveito recebiam disso, pois a cólera do homem não produz a justiça de Deus. Os contraditores podem ser convencidos por um raciocínio justo, mas nunca por um grande clamor.

  1. Em consequência, os fariseus, quem poderia imaginar?, tomaram o partido de Paulo (v. 9). Contenderam, diemachonto, lutaram, dizendo: “Não encontramos mal algum neste homem”. Ele se conduzira com decoro e reverência no templo e participara do culto da igreja. Embora o tivesse feito só ocasionalmente, ainda assim isso mostrava que não era tão inimigo dela como diziam.

Falara muito bem em sua própria defesa, apresentara um bom relato de si e agora se declarara ortodoxo nos grandes princípios da religião, além de regular e consciencioso em sua conduta. E, portanto, não podem ver que tenha feito algo digno de morte ou amarras.

Ou melhor: vão além: se um espírito ou um anjo lhe falou a respeito de Jesus e o levou a pregar como prega, embora possam não estar convencidos a ponto de acreditar nele, contudo, devem ser alertados para não se opor a ele, para que não sejam encontrados lutando contra Deus. Assim argumentara Gamaliel, ele mesmo fariseu, Atos 5:39. Aqui, então:

(1.) Podemos observar, para honra do evangelho, que até por seus adversários foi dado testemunho a seu favor; e confissões não só de sua inocência, mas também de sua excelência, foram por vezes arrancadas pelo poder da verdade até dos que o perseguiam.

Pilatos não encontrou culpa em Cristo, embora o tenha levado à morte; nem Festo encontrou culpa em Paulo, embora o detivesse em amarras. Os fariseus aqui admitiram a possibilidade de que Paulo tivesse recebido do céu, por meio de um anjo, uma comissão para fazer o que fazia.

Mesmo assim, parece que, como anciãos, depois se uniram ao sumo sacerdote para persegui-lo, Atos 24:1. Pecaram contra o conhecimento que não só tinham, mas que às vezes reconheciam, como Cristo dissera a respeito deles: “Tanto viram como odiaram tanto a mim como a meu Pai”, João 15:24.

(2.) Esperamos, contudo, que pelo menos alguns deles tenham passado a formar uma opinião melhor de Paulo e lhe tenham sido favoráveis, depois de receberem um relato tão satisfatório tanto de sua conduta com toda boa consciência quanto de sua fé acerca do outro mundo.

Nesse caso, observe-se, para honra deles, que seu zelo pelas tradições dos anciãos, das quais Paulo se afastara, foi tão absorvido pelo zelo pelas grandes e fundamentais doutrinas da religião, às quais Paulo continuava a aderir, que, se ele se unir sinceramente a eles contra os saduceus e mantiver a esperança da ressurreição dos mortos, não julgarão mau que tenha abandonado a lei cerimonial.

Mas esperam caridosamente que ele ande segundo a luz que Deus lhe deu por algum anjo ou espírito, e estão tão longe de persegui-lo que estão prontos a ampará-lo e protegê-lo.

Os fariseus perseguidores da igreja de Roma não têm esse espírito. Pois, por mais sincero e zeloso que um homem seja por todos os artigos da fé cristã, contudo, se não submeter o pescoço ao jugo da autoridade da igreja deles, encontram nele mal suficiente para persegui-lo até a morte.

II. O zelo e a atuação do comandante lhe são ainda mais úteis. Pois, mesmo depois de lançar esse osso de disputa entre fariseus e saduceus, pondo-os em luta e obtendo dos fariseus um testemunho favorável, ele não está mais perto de escapar.

Corre o risco de ser despedaçado por eles: os fariseus puxam para que seja posto em liberdade, e os saduceus, para que seja morto ou entregue ao povo, como Daniel à cova dos leões.

Assim, o comandante é obrigado a vir com seus soldados e resgatá-lo, como fizera em Atos 21:32; 22:24.

  1. Veja aqui o perigo de Paulo. Entre amigos e inimigos, por pouco não foi despedaçado, uns o abraçando até a morte, os outros, esmagando-o até a morte. A tais violências estão sujeitos os que se destacam e se tornam conhecidos, como Paulo, tão amado por alguns e tão difamado por outros.

  2. Seu livramento: o comandante mandou seus soldados descerem dos postos mais altos e tirarem Paulo à força do meio deles, daquele recinto do templo onde havia ordenado que o conselho se reunisse, e levá-lo à fortaleza, ou torre de Antônia. Via que não conseguiria deles coisa alguma para compreender os méritos da causa de Paulo.

III. As consolações divinas lhe foram mais úteis que tudo. O comandante o livrara das mãos de homens cruéis, mas continuava a mantê-lo sob custódia, e Paulo não sabia qual seria o desfecho. A fortaleza era, de fato, uma proteção para ele, mas também uma prisão. Assim como agora o preservava de uma morte tão grande, poderia estar reservando-o para outra ainda maior.

Não vemos que algum dos apóstolos ou anciãos de Jerusalém tenha ido visitá-lo; ou não tiveram coragem ou não lhes permitiram entrar. Talvez, na noite seguinte, Paulo estivesse cheio de pensamentos e preocupações sobre o que seria dele e como suas tribulações presentes poderiam servir a algum bom propósito.

Então o Senhor Jesus lhe fez uma visita bondosa e, embora fosse meia-noite, contudo, muito oportuna (v. 11). “O Senhor ficou ao lado dele”, veio até junto de seu leito, talvez apenas uma cama de palha, para mostrar-lhe que estava realmente com ele durante todo o dia, tão certamente quanto estava visivelmente com ele à noite.

Repare: Quem quer que esteja contra nós, não precisamos temer se o Senhor estiver ao nosso lado. Se ele assumir nossa proteção, poderemos desafiar os que buscam nossa ruína. O Senhor está com os que sustentam minha alma, e então nada pode acabar mal.

  1. Cristo lhe manda ter ânimo: “Tem bom ânimo, Paulo; não desanimes. Não deixes que o que aconteceu te entristeça nem que o que ainda possa estar diante de ti te assuste.” Repare: É vontade de Cristo que seus servos fiéis estejam sempre alegres.

Talvez Paulo, ao refletir, começasse a duvidar de si mesmo, se havia agido bem no que dissera ao conselho no dia anterior. Mas Cristo, por sua palavra, lhe assegura que Deus aprovou sua conduta. Ou talvez o incomodasse que seus amigos não o tivessem visitado; mas a própria visita de Cristo falava, embora ele não tivesse dito: “Tem bom ânimo, Paulo”.

  1. É uma razão estranha a que Cristo usa para animá-lo: “Assim como deste testemunho de mim em Jerusalém, assim deves dar testemunho também em Roma”. Poderíamos pensar que esse consolo era fraco: “Assim como passaste por muitas tribulações por mim, assim deves passar por muitas outras”. Ainda assim, destinava-se a animá-lo, pois com isso lhe é dado entender:

(1.) Que vinha servindo a Cristo como testemunha dele em tudo o que até então suportara. Não era por alguma culpa que recebia golpes, nem era a perseguição que antes fizera à igreja que agora lhe era lembrada, por mais que ele próprio pudesse lembrá-la contra si; mas continuava em sua obra.

(2.) Que ainda não terminara seu testemunho nem, por estar preso, fora posto de lado como inútil; apenas estava reservado para serviço ulterior. Nada desanimava Paulo tanto quanto pensar que seria impedido de servir a Cristo e fazer bem às almas: “Não temas”, diz Cristo, “não terminei contigo”.

(3.) Paulo parece ter tido um desejo especial, e inocente, de ir a Roma pregar o evangelho ali, embora já tivesse sido pregado e já houvesse uma igreja estabelecida naquela cidade. Por ser cidadão romano, ansiava por uma viagem até lá e tivera esse desígnio (Atos 19:21): Depois de ter estado em Jerusalém, devo também ver Roma.

Algum tempo antes, escrevera aos romanos que ansiava por vê-los, Romanos 1:11. Agora estava prestes a concluir que a prisão frustrara seus planos e que nunca veria Roma. Mas Cristo lhe diz que até esse desejo seria atendido, pois ele o desejava para honrar a Cristo e fazer o bem.

Versículos 12 a 35

Uma Conspiração contra Paulo; Paulo Enviado a Félix.

Temos aqui a história de uma trama contra a vida de Paulo: como foi armada, como foi descoberta e como foi frustrada.

I. Como essa trama foi armada:

Descobriram que nada podiam ganhar pelo tumulto popular ou pelo processo legal, e por isso recorrem ao método bárbaro do assassinato; o atacarão de repente e o apunhalarão, se ao menos conseguirem tê-lo ao seu alcance.

Tão inquieta é a sua malícia contra esse homem bom que, quando um desígnio fracassa, moverão outra pedra. Ora, observe aqui:

  1. Quem eram os que formaram essa conspiração. Eram certos judeus que tinham o mais alto grau de indignação contra ele por ser o apóstolo dos gentios, v. 12. E eram mais de quarenta os que estavam nesse desígnio, v. 13. Senhor, como se multiplicam os que me perturbam!

  2. Quando a conspiração foi formada: “Quando se fez dia.” Satanás havia enchido os seus corações durante a noite para propô-la, e, assim que se fez dia, se reuniram para levá-la adiante.

Isso corresponde ao relato que o profeta dá de alguns que praticam o mal nas suas camas e, quando a manhã clareia, o executam, e estão sob um ai por isso, Miquéias 2:1.

Durante a noite Cristo apareceu a Paulo para protegê-lo, e, quando se fez dia, aqui estavam quarenta homens aparecendo contra ele para destruí-lo; não se levantaram tão cedo que Cristo não se tivesse levantado antes deles. “Deus a ajudará, e isso bem cedo”, Salmos 46:5.

  1. O que era a conspiração. Esses homens se uniram num pacto; talvez o chamassem de pacto santo; se comprometeram a apoiar uns aos outros, e cada um, conforme o seu poder, a ajudar e auxiliar no assassinato de Paulo.

Era estranho que tantos pudessem se reunir tão depressa, e isso em Jerusalém, que haviam perdido tão completamente todo senso de humanidade e honra a ponto de se empenhar num desígnio tão sanguinário.

Bem se poderia renovar a queixa do profeta sobre Jerusalém (Isaías 1:21): A justiça habitou nela, mas agora assassinos.

Que ideia monstruosa esses homens deveriam ter formado de Paulo antes de serem capazes de formar tão monstruoso desígnio contra ele!

Precisavam ser levados a crer que era o pior dos homens, inimigo de Deus e da religião, e a maldição e praga da sua geração, quando na realidade o seu caráter era o inverso de tudo isso! Que leis da verdade e da justiça são tão sagradas, tão fortes, que a malícia e o fanatismo não violarão!

  1. Como a tornaram firme, segundo pensavam, para que nenhum deles recuasse ao reconsiderar, pela consciência do horror do ato: Comprometeram-se sob um anátema, invocando sobre si mesmos, suas almas, corpos e famílias, as mais pesadas maldições, se não matassem Paulo, e tão depressa que não comeriam nem beberiam até fazê-lo.

Que emaranhado de maldade há aqui! Ter o desígnio de matar um homem inocente, bom, útil, um homem que não lhes causara prejuízo, mas estava disposto a lhes fazer todo o bem que pudesse, era andar no caminho de Caim, e provava que eram do seu pai, o diabo, que foi homicida desde o princípio.

Contudo, como se isso fosse pequena coisa:

(1.) Comprometeram-se a isso. Inclinar-se a fazer o mal e ter a intenção de fazê-lo é ruim; mas comprometer-se a fazê-lo é muito pior. Isso é entrar em aliança com o diabo; é jurar lealdade ao príncipe das trevas; é não deixar lugar para arrependimento; ou melhor: é desafiá-lo.

(2.) Comprometeram uns aos outros a isso e fizeram tudo o que podiam, não só para assegurar a condenação das suas próprias almas, mas das almas daqueles que atraíram à associação.

(3.) Mostraram grande desprezo pela providência de Deus e presunção a respeito dela, ao se comprometerem a fazer tal coisa dentro de um prazo tão curto quanto o que poderiam continuar em jejum, sem qualquer condição ou reserva para o dispor de uma Providência que se sobrepõe a tudo.

Quando dizemos: Amanhã faremos isto ou aquilo, por mais lícito e bom que seja, como não sabemos o que será no dia seguinte, devemos acrescentar: “Se o Senhor quiser.”

Mas com que cara poderiam inserir uma condição para a permissão da providência de Deus, quando sabiam que o que estavam fazendo era diretamente contra as proibições da palavra de Deus?

(4.) Mostraram grande desprezo pelas suas próprias almas e corpos; pelas suas próprias almas, ao invocar uma maldição sobre elas se não prosseguissem nessa empresa desesperada (em que terrível dilema se lançaram! Deus certamente os encontra com a sua maldição se prosseguirem nela, e desejam que o faça se não prosseguirem!).

E também pelos seus próprios corpos (pois pecadores obstinados são os destruidores de ambos), ao se impedirem de receber os meios necessários de sustento da vida até realizarem uma coisa que nunca poderiam fazer licitamente, e talvez não pudessem fazer de modo algum.

Tal linguagem do inferno falam aqueles que desejam que Deus os condene e o diabo os leve, se não fizerem isto ou aquilo. Assim como amam a maldição, assim ela virá sobre eles.

Alguns pensam que o sentido dessa maldição era que ou matariam Paulo, como um Acã, uma coisa amaldiçoada, um perturbador do acampamento, ou, se não o fizessem, se tornariam amaldiçoados diante de Deus no lugar dele.

(5.) Mostraram desejo muito ardente de realizar esse assunto e impaciência até que fosse feito; não só como os inimigos de Davi, que se enfureciam contra ele e juravam contra ele (Salmos 102:8), mas como os servos de Jó contra o seu inimigo: Ah, se tivéssemos desta carne! Não podemos nos satisfazer, Jó 31:31.

Diz-se que os perseguidores devoram o povo de Deus como comem pão; isso lhes dá tanta satisfação quanto o alimento dá a alguém faminto, Salmos 14:4.

  1. Que método adotaram para realizá-la. Não há como chegar perto de Paulo na fortaleza. Está ali sob a proteção particular do governo e está aprisionado, não, como outros, para que não cause prejuízo, mas para que não lhe causem prejuízo.

E, por isso, a maquinação é que os principais sacerdotes e anciãos devem pedir ao governador da fortaleza que deixe Paulo ir a eles, à sala do conselho, para um exame ulterior (têm algumas perguntas para lhe fazer ou algo para lhe dizer).

E então, na sua passagem da fortaleza ao conselho, poriam fim a todas as disputas sobre Paulo matando-o; assim foi armada a trama, v. 14, 15.

Tendo passado o dia inteiro comprometendo uns aos outros nessa maldade, perto do anoitecer vão aos principais membros do grande Sinédrio.

E, embora pudessem ter ocultado o seu desígnio vil e contudo pudessem tê-los levado, sob alguma outra alegação, a mandar buscar Paulo, estão tão certos da sua aprovação dessa perversidade que não têm vergonha nem medo de reconhecer-lhes que se comprometeram sob uma grande maldição.

Sem primeiro consultar os sacerdotes sobre se poderiam fazê-lo licitamente, se comprometeram a não comer nada no dia seguinte até terem matado Paulo. Têm o desígnio de tomar o desjejum na manhã seguinte com o sangue dele.

Não duvidam de que os principais sacerdotes não só os apoiarão no desígnio, mas lhes darão ajuda e serão seus instrumentos para lhes obter oportunidade de matar Paulo.

Ou melhor: também mentirão em favor deles, alegando ao comandante que investigariam algo mais perfeitamente a respeito de Paulo, quando não tinham tal intenção. Que opinião vil, que opinião má tinham dos seus sacerdotes, para poder recorrer a eles numa missão como essa!

E contudo, por mais vil que fosse a proposta que lhes foi feita (pelo que se vê), os sacerdotes e anciãos anuíram a ela e, à primeira palavra, sem hesitar nisso nem um pouco, prometeram satisfazê-los.

Em vez de censurá-los, como deveriam, pela sua conspiração perversa, os fortaleceram nela, porque era contra Paulo, a quem odiavam; e assim se fizeram participantes do crime tanto quanto se houvessem sido os primeiros na conspiração.

II. Como a trama foi descoberta:

Não encontramos que os conspiradores, embora fizessem um juramento de fidelidade, fizessem um juramento de segredo, ou porque pensavam que não era necessário (cada um guardaria o seu próprio conselho), ou porque pensavam que poderiam realizá-la, embora vazasse e fosse conhecida; mas a Providência assim ordenou que fosse trazida à luz, e de modo a ser eficazmente reduzida a nada. Veja aqui:

  1. Como foi descoberta a Paulo, v. 16. Havia um jovem parente de Paulo, filho da sua irmã, cuja mãe provavelmente morava em Jerusalém; e de algum modo, não nos é dito como, ouviu falar da emboscada deles, ou os ouviu falando dela entre si, ou recebeu informações de alguns que estavam na trama.

E entrou na fortaleza, provavelmente como costumava fazer, para assistir ao seu tio e lhe levar o que lhe faltava, o que lhe dava livre acesso a ele, e contou a Paulo o que ouvira.

Repare: Deus tem muitos meios de trazer à luz as obras ocultas das trevas; embora os que as maquinam cavem fundo para escondê-las do Senhor, ele pode fazer uma ave do céu levar a voz (Eclesiastes 10:20), ou as próprias línguas dos conspiradores traí-los.

  1. Como foi descoberta ao comandante pelo jovem que a contou a Paulo. Essa parte da história é relatada muito particularmente, talvez porque o escritor fosse testemunha ocular da condução prudente e bem-sucedida desse assunto, e a lembrasse com muito prazer:

(1.) Paulo havia conquistado boa influência sobre os oficiais que serviam, pela sua conduta prudente e pacífica.

Podia chamar um dos centuriões, embora um centurião fosse alguém revestido de autoridade, que tinha soldados sob si, e estivesse acostumado a chamar, não a ser chamado, e ele estava pronto para vir ao seu chamado (v. 17); e pediu que apresentasse esse jovem ao comandante para dar informação de algo que dizia respeito à honra do governo.

(2.) O centurião muito prontamente o satisfez, v. 18. Não enviou um soldado comum com ele, mas foi pessoalmente para dar confiança ao jovem, recomendar a sua missão ao comandante e mostrar o seu respeito por Paulo.

“Paulo, o preso” (esse era agora o seu título), “me chamou e me pediu que trouxesse este jovem a ti; não sei de que se trata o assunto dele, mas tem algo para te dizer.”

Repare: É verdadeira caridade para com os pobres presos agir em favor deles, assim como lhes dar. Estava doente e na prisão, e vocês cumpriram uma missão em meu favor, será tão aceito na prestação de contas quanto: Estava doente e na prisão, e vocês vieram a mim para me visitar, ou me enviaram uma lembrança.

Os que têm conhecidos e influência devem estar prontos para usá-los para ajudar aqueles que estão em angústia. Esse centurião ajudou a salvar a vida de Paulo por esse gesto de civilidade, que deveria nos levar a estar prontos para fazer o mesmo quando houver ocasião.

“Abre a tua boca em favor do mudo”, Provérbios 31:8. Os que não podem dar um bom presente aos presos de Deus podem contudo falar uma boa palavra em favor deles.

(3.) O comandante recebeu a informação com muita condescendência e ternura, v. 19. Tomou o jovem pela mão, como um amigo ou pai, para animá-lo, a fim de que não ficasse constrangido, mas pudesse ter certeza de uma audiência favorável.

A atenção dada a essa circunstância deveria animar os grandes homens a se tornarem de fácil acesso aos mais humildes, em qualquer missão que lhes dê oportunidade de fazer o bem, a se rebaixarem aos de condição humilde.

Essa familiaridade a que esse tribuno ou coronel romano admitiu o sobrinho de Paulo está aqui registrada para sua honra. Ninguém pense que se deprecia pela sua humildade ou caridade.

Foi com ele à parte, em particular, para que ninguém ouvisse o seu assunto, e lhe perguntou: “Que tens para me dizer? Dize-me em que posso ser útil a Paulo.”

É provável que o comandante fosse mais atencioso nesse caso porque percebia que havia incorrido numa penalidade legal ao amarrar Paulo contra o seu privilégio como cidadão romano, e estava agora disposto a compensar isso.

(4.) O jovem expôs a sua missão ao comandante muito pronta e decorosamente (v. 20, 21).

“Os judeus” (não diz quem, para não lançar odiosamente descrédito sobre os principais sacerdotes e anciãos; e sua ocupação era salvar a vida do seu tio, não acusar os seus inimigos) “concordaram em te pedir que faças descer Paulo amanhã ao conselho, presumindo que, por ser tão curta a distância, o enviarás sem escolta.”

“Mas não cedas a eles, temos motivo para crer que não cederás quando souberes a verdade; pois há mais de quarenta homens dentre eles de emboscada contra ele, que juraram causar-lhe a morte, e agora estão prontos, esperando uma promessa de ti, mas felizmente me adiantei a eles.”

(5.) O comandante despediu o jovem com uma ordem de segredo: “Cuida para que a ninguém digas que me mostraste estas coisas”, v. 22.

Os favores dos grandes homens nem sempre devem ser alardeados; e não aptos para ser empregados em ocupações. Se fosse conhecido que o comandante recebeu essa informação, talvez tramassem e imaginassem a morte de Paulo de algum outro modo; “por isso, mantém isso em segredo”.

III. Como a trama foi frustrada:

O comandante, descobrindo quão implacável e inveterada era a malícia dos judeus contra Paulo, quão inquietos eram nos seus desígnios de lhe fazer dano e quão perto estava de ele próprio se tornar cúmplice disso como autoridade, resolve enviá-lo com toda a rapidez para fora do alcance deles.

Recebeu a informação com horror e indignação pela vileza e sede de sangue desses judeus; e parecia temer que, se detivesse Paulo na sua fortaleza ali, sob uma escolta por mais forte que fosse, encontrassem algum modo de atingir o seu fim, apesar disso, ou vencendo os guardas ou queimando a fortaleza.

E, acontecesse o que acontecesse, se possível protegeria Paulo, porque considerava que não merecia tal tratamento.

Que triste observação é que os principais sacerdotes judeus, quando souberam dessa trama de assassinato, a apoiassem e ajudassem nela, ao passo que um comandante romano, puramente por um senso natural de justiça e humanidade, ao conhecê-la, se empenha em frustrá-la e se dá a muito trabalho para fazê-lo eficazmente!

  1. Ordena que um destacamento considerável das forças romanas sob o seu comando se prepare para ir a Cesareia com toda a rapidez e levar Paulo ali a Félix, o governador, onde ele poderia mais prontamente esperar que lhe fosse feita justiça do que pelo grande Sinédrio em Jerusalém.

Não vejo por que o comandante não poderia, sem qualquer infidelidade ao dever do seu posto, ter posto Paulo em liberdade e lhe permitido cuidar da sua própria segurança, pois nunca fora legalmente confiado à sua custódia como criminoso.

Ele próprio reconhece que nada lhe era imputado digno de amarras (v. 29), e deveria ter tido pela liberdade dele a mesma ternura que tinha pela sua vida; mas temia que isso inflamasse os judeus demais contra ele.

Ou talvez, descobrindo que Paulo era um homem muito extraordinário, se orgulhasse de tê-lo como seu preso e sob a sua proteção; e o grande aparato com que o enviou indica isso. Dois centuriões, ou capitães de centenas, são empregados nessa ocupação, v. 23, 24.

Devem preparar duzentos soldados, provavelmente os que estavam sob o seu próprio comando, para ir a Cesareia; e, com estes, setenta cavaleiros e mais duzentos lanceiros, que alguns pensam serem os guardas do comandante.

Não é certo se eram cavaleiros ou soldados de infantaria, muito provavelmente de infantaria, como piqueiros para a proteção da cavalaria. Veja como justamente Deus submeteu a nação judaica ao jugo romano, quando tal contingente do exército romano era necessário para impedi-los das perversidades mais execráveis!

Não era necessária toda essa força, nenhuma parte dela era necessária, para impedir que Paulo fosse resgatado pelos seus amigos; dez vezes essa força não o teria impedido de ser resgatado por um anjo, se Deus tivesse tido por bem operar o seu livramento dessa maneira, como algumas vezes fizera. Mas:

(1.) O comandante tinha com isso o desígnio de expor os judeus como um povo obstinado e tumultuoso, que não seria mantido nos limites do dever e do decoro pelos ministros comuns da justiça, mas precisava ser intimidado por um cortejo como esse; e, ouvindo quantos estavam na conspiração contra Paulo, pensou que menos não serviria para frustrar a tentativa deles.

(2.) Deus tinha com isso o desígnio de animar Paulo; pois, assim acompanhado, não só era mantido em segurança nas mãos dos seus amigos, mas fora das mãos dos seus inimigos.

Contudo, Paulo não desejava tal escolta, assim como Esdras não a desejava (Esdras 8:22), e pelo mesmo motivo, porque confiava na plena suficiência de Deus; isso se devia, porém, ao próprio zelo do governador.

Mas ele também recebeu importância; assim as suas amarras em Cristo se tornaram manifestas por todo o país (Filipenses 1:13); e, tendo sido antes posta sobre elas tão grande honra pela sua predição, era bastante apropriado que fossem assim honrosamente acompanhadas.

Era para que os irmãos no Senhor se tornassem mais confiantes pelas suas amarras, ao vê-lo antes guardado como patriota do seu país que vigiado como peste do seu país, e tão grande pregador feito tão grande preso.

Quando os seus inimigos o odeiam, e receio que os seus amigos o negligenciem, então um tribuno romano o protege e cuidadosamente providencia:

[1.] Para o seu conforto: Mandem preparar animais, para que possam colocar Paulo sobre eles.

Se os seus perseguidores judeus houvessem ordenado a sua transferência por habeas corpus a Cesareia, o teriam feito correr a pé, ou o teriam arrastado até lá numa carroça ou num trenó, ou o teriam posto montado atrás de um dos soldados de cavalaria.

Mas o comandante o trata como homem de boa condição, embora fosse seu preso, e lhe ordena um bom cavalo para montar, sem qualquer medo de que cavalgasse para fugir.

Ou melhor: sendo a ordem que preparassem não um animal, mas animais, para que Paulo montasse, devemos ou supor que lhe foi concedida tamanha pompa que tivesse um cavalo conduzido à mão, ou mais, para que, se não gostasse de um, pudesse passar a outro.

Ou (como alguns expositores conjecturam) que lhe foram designados animais para os seus amigos e companheiros, tantos quantos quisessem acompanhá-lo, para distraí-lo na sua viagem e servi-lo.

[2.] Para a sua segurança. Recebem do seu comandante supremo uma ordem rigorosa de levá-lo em segurança a Félix, o governador, a quem é confiado, e que era supremo em todos os assuntos civis entre os judeus, como esse comandante era nos assuntos militares.

Os historiadores romanos falam muito desse Félix como homem de linhagem humilde, mas que pelos seus expedientes se elevou a governador da Judeia; no exercício desse cargo, Tácito, História 5, diz dele:

Per omnem sævitiam ac libidinem jus regium servili ingenio exercuit, usou o poder régio com espírito servil e em ligação com todas as variedades de crueldade e luxúria.

Ao julgamento de um homem como esse é entregue o pobre Paulo; e contudo melhor assim que nas mãos de Ananias, o sumo sacerdote! Ora, um preso, assim à espera do seu livramento pelo curso da lei, deve ser protegido assim como um príncipe.

  1. O comandante ordena, para a maior segurança de Paulo, que seja levado à terceira hora da noite, que alguns entendem como três horas depois do pôr do sol, para que, sendo agora depois da festa de Pentecostes (isto é, no meio do verão), pudessem marchar no frescor da noite.

Outros entendem como três horas depois da meia-noite, na terceira vigília, por volta das três da manhã, para que tivessem o dia diante de si e pudessem sair de Jerusalém antes que os inimigos de Paulo se movessem, e assim pudessem impedir qualquer tumulto popular e deixá-los rugir quando se levantassem, como um leão frustrado da sua presa.

  1. Escreve uma carta a Félix, o governador dessa província, pela qual se desincumbe de qualquer zelo ulterior por Paulo e deixa todo o assunto com Félix. Essa carta está aqui inserida totidem verbis, palavra por palavra, v. 25.

É provável que Lucas, o historiador, tivesse consigo uma cópia dela, tendo acompanhado Paulo nessa transferência. Ora, nessa epístola podemos observar:

(1.) Os elogios que dirige ao governador, v. 26. É o excelentíssimo governador Félix, sendo-lhe esse título dado naturalmente: sua excelência, etc. Envia-lhe saudações, lhe deseja toda saúde e prosperidade; que se alegre, que se alegre sempre.

(2.) O relato justo e imparcial que lhe dá do caso de Paulo:

[1.] Que era alguém contra quem os judeus tinham ressentimento: Haviam-no prendido e o teriam matado; e talvez Félix conhecesse tão bem o temperamento dos judeus que não o considerasse muito pior por isso, v. 27.

[2.] Que o havia protegido por ser romano: “Quando estavam para matá-lo, vim com um exército, um corpo considerável de homens, e o resgatei”; essa ação em favor de um cidadão de Roma o recomendaria ao governador romano.

[3.] Que não podia entender o mérito da sua causa, nem o que o tornava tão odioso aos judeus e exposto à sua má vontade. Adotou o método apropriado para saber: o levou ao conselho deles (v. 28), para ser examinado ali, esperando que, ou pelas queixas deles ou pela sua própria confissão, aprendesse algo do fundamento de todo esse clamor.

Mas descobriu que era acusado de questões da lei deles (v. 29), a respeito da esperança da ressurreição dos mortos, v. 6.

Esse comandante era homem de bom senso e honra, e tinha em si bons princípios de justiça e humanidade; e contudo veja como fala levianamente de outro mundo e das grandes coisas daquele mundo, como se fosse uma questão aquilo que é de certeza indubitável, e em que ambos os lados concordavam, exceto os saduceus.

E como se fosse uma questão apenas da lei deles aquilo que tem a máxima importância para toda a humanidade! Ou talvez se refira antes à questão sobre os seus ritos que sobre as suas doutrinas, e a desavença que percebeu que tinham com Paulo fosse por ele diminuir o crédito e a obrigação da sua lei cerimonial.

Considerava essa uma coisa que não valia a pena mencionar. Os romanos consentiam no exercício da própria religião pelas nações que conquistavam e nunca se ofereciam para impor-lhes a sua; contudo, como conservadores da paz pública, não permitiam que, sob o pretexto da sua religião, maltratassem os seus vizinhos.

[4.] Que até esse ponto entendia que nada lhe era imputado digno de morte ou de amarras, muito menos provado ou demonstrado contra ele.

Os judeus haviam, pela sua maldade, se tornado odiosos ao mundo, haviam contaminado a sua própria honra e profanado a sua própria coroa, haviam trazido desonra sobre a sua igreja, sua lei e seu santo lugar, e então clamam contra Paulo como tendo diminuído a reputação deles; e isso era crime digno de morte ou amarras?

(3.) Sua entrega do caso de Paulo a Félix (v. 30): “Quando me foi dito que os judeus armavam emboscada contra o homem para matá-lo, sem qualquer processo legal contra ele, o enviei imediatamente a ti, que és a pessoa mais apropriada para ouvir a causa e dar julgamento sobre ela.”

“E que os seus acusadores o sigam, se quiserem, e digam diante de ti o que têm contra ele, pois, tendo sido formado soldado, nunca alegarei ser juiz; e assim adeus.”

  1. Paulo foi, de acordo com isso, conduzido a Cesareia; os soldados o tiraram em segurança de Jerusalém à noite e deixaram os conspiradores considerarem se comeriam e beberiam ou não antes de terem matado Paulo.

E, se não se arrependessem da maldade do seu juramento naquilo que era contra Paulo, tinham agora tempo livre para se arrepender da precipitação dele naquilo que era contra eles mesmos; se algum deles morreu de fome por sua própria vontade, em consequência do seu juramento e do desgosto pela sua frustração, morreu sem ser lamentado.

Paulo foi conduzido a Antipátride, que ficava a dezessete milhas de Jerusalém e cerca da metade do caminho para Cesareia, v. 31.

Dali os duzentos soldados de infantaria e os duzentos lanceiros voltaram a Jerusalém, aos seus alojamentos na fortaleza; pois, tendo conduzido Paulo para fora do perigo, não era necessária uma escolta tão forte, mas os cavaleiros poderiam bastar para levá-lo a Cesareia, e o fariam com mais rapidez.

Fizeram isso não só para poupar o seu próprio trabalho, mas as despesas do seu senhor; e é exemplo aos servos não só agir obedientemente segundo as ordens dos seus senhores, mas agir prudentemente, de modo que seja mais favorável aos interesses dos seus senhores.

  1. Foi entregue nas mãos de Félix como seu preso, v. 33. Os oficiais apresentaram a carta, e Paulo com ela, a Félix, e assim se desincumbiram do que lhes fora confiado.

Paulo nunca havia procurado relações ou convívio com grandes homens, mas com os discípulos, aonde quer que fosse; contudo, a Providência se sobrepõe aos seus sofrimentos de modo a dar-lhe por eles oportunidade de testemunhar de Cristo diante de grandes homens.

E assim Cristo havia predito a respeito dos seus discípulos que seriam levados perante governantes e reis por sua causa, para testemunho contra eles, Marcos 13:9. O governador perguntou de que província do império o preso era originalmente e lhe foi dito que era natural da Cilícia, v. 34; e:

(1.) Promete-lhe julgamento rápido (v. 35): “Eu te ouvirei quando os teus acusadores chegarem, e terei ouvidos abertos para ambos os lados, como convém a um juiz.”

(2.) Ordenou que fosse posto sob custódia, para ser mantido preso no pretório de Herodes, em algum aposento pertencente àquele palácio que recebera o nome de Herodes, o Grande, que o construíra.

Ali teve oportunidade de conhecer os grandes homens que frequentavam a corte do governador e, sem dúvida, aproveitou as relações que conseguiu ali para os melhores propósitos.


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