Matthew Henry

Atos 10

Argumento

A história deste capítulo dá uma guinada muito nova e notável aos Atos dos Apóstolos. Até aqui, tanto em Jerusalém quanto em todos os outros lugares aonde chegaram os ministros de Cristo, eles pregaram o evangelho apenas aos judeus ou aos gregos circuncidados e convertidos à religião judaica.

Mas agora: “Eis que nos voltamos aos gentios”. E para eles se abre aqui a porta da fé: boas notícias, de fato, para nós, pecadores entre os gentios. O apóstolo Pedro é o primeiro a ser empregado para admitir gentios incircuncisos na igreja cristã; e Cornélio, centurião ou coronel romano, é o primeiro a ser admitido desse modo com sua família e seus amigos.

Agora aqui nos é contado:

I. Como Cornélio recebeu instruções por meio de uma visão para chamar Pedro e o chamou conforme a instrução, vv. 1-8.

II. Como Pedro recebeu instruções por meio de uma visão para ir até Cornélio, embora Cornélio fosse gentio, sem hesitar por causa disso, e foi conforme a instrução, vv. 9-23.

III. O encontro feliz entre Pedro e Cornélio em Cesareia, vv. 24-33.

IV. O sermão que Pedro pregou na casa de Cornélio a ele e a seus amigos, vv. 34-43.

V. O batismo de Cornélio e de seus amigos primeiro com o Espírito Santo e depois com água, vv. 44-48.

Versículos 1 a 8

O Caso de Cornélio.

Levar o evangelho aos gentios e tornar concidadãos dos santos e membros da família de Deus aqueles que antes eram estranhos e estrangeiros foram tal mistério e tal surpresa até para os próprios apóstolos (Efésios 3:3, 6).

Por isso devemos observar com cuidado todas as circunstâncias do começo dessa grande obra, dessa parte do mistério da piedade: Cristo foi “pregado aos gentios” e “crido no mundo”, 1 Timóteo 3:16.

Não é improvável que alguns gentios antes disso pudessem ter entrado numa sinagoga dos judeus e ouvido a pregação do evangelho, mas até então ele nunca fora pregado deliberadamente aos gentios nem algum deles fora batizado. Cornélio foi o primeiro. Aqui temos:

I. Um relato de quem era Cornélio e de como era esse primogênito dos gentios para Cristo. Aqui nos é dito que era um homem importante e um homem bom, duas características que raramente se encontram juntas, mas nele se encontravam. Quando se unem, cada uma dá brilho à outra: a bondade torna a grandeza, na verdade, valiosa, e a grandeza torna a bondade muito mais útil.

  1. Cornélio era oficial do exército, v. 1. Estava então aquartelado em Cesareia, cidade forte, reconstruída e fortificada havia pouco por Herodes, o Grande, e chamada Cesareia em honra de César Augusto.

Situava-se à beira-mar, lugar muito conveniente para manter a comunicação entre Roma e suas conquistas naquela região. O governador romano, ou procônsul, costumava residir ali, Atos 23:23, 24; 25:6.

Ali havia uma companhia, coorte ou regimento do exército romano, provavelmente a guarda pessoal do governador. Recebe aqui o nome de companhia italiana porque, para maior garantia de sua lealdade, seus membros eram todos romanos ou italianos de nascimento.

Cornélio exercia comando nessa parte do exército. Seu nome, Cornélio, era muito usado entre os romanos, inclusive em algumas das famílias mais antigas e nobres. Era oficial de posição e proeminência consideráveis: um centurião. Lemos sobre outro dessa patente no tempo de nosso Salvador, muito elogiado por ele, Mateus 8:10.

Quando se tem de escolher um gentio para ser o primeiro a receber o evangelho, não se escolhe um filósofo gentio, muito menos um sacerdote gentio, pois são fanáticos por suas ideias e por seu culto e têm preconceito contra o evangelho de Cristo. Escolhe-se, porém, um soldado gentio, homem de pensamento mais livre.

Quem, na verdade, pensa com liberdade não pode deixar de receber e acolher a doutrina cristã quando ela lhe é apresentada de modo justo. Pescadores, homens sem instrução e ignorantes, foram os primeiros judeus convertidos, mas entre os gentios não foi assim.

Pois o mundo saberá que o evangelho possui qualidades capazes de recomendá-lo a homens de saber refinado e educação liberal, como temos motivo para pensar que esse centurião era.

Soldados e oficiais do exército não devem alegar que sua ocupação os livra das restrições a que alguns outros se sujeitam e lhes oferece ocasião de viver com mais liberdade, de modo que se possa desculpá-los se não forem religiosos. Pois aqui havia um oficial do exército que abraçou o cristianismo e, ainda assim, nem foi destituído do cargo nem abandonou ele próprio o cargo.

E, por fim, foi humilhante para os judeus não apenas a entrada dos gentios na igreja, mas o fato de o primeiro admitido ser um oficial do exército romano, que para eles era a abominação da desolação.

  1. Era religioso conforme a medida da luz que possuía. A descrição que recebe no v. 2 é muito boa. Não era idólatra, não adorava falsos deuses nem imagens, nem consentia em se entregar a qualquer daquelas imoralidades às quais a maior parte do mundo gentio fora entregue para puni-los por sua idolatria.

(1.) Tinha em si um princípio de consideração pelo Deus verdadeiro e vivo. Era homem devoto e temente a Deus. Cria em um só Deus, Criador do céu e da terra, reverenciava sua glória e sua autoridade e temia ofendê-lo pelo pecado. E, embora fosse soldado, tremer diante de Deus não diminuía a reputação de sua coragem.

(2.) Mantinha a religião em sua família. Temia a Deus com toda a sua casa. Não admitia idólatras sob seu teto, mas zelava para que não apenas ele, e sim todos os seus, servissem ao Senhor. Todo homem bom fará o que puder para que os que o rodeiam também sejam bons.

(3.) Era muito caridoso: dava muitas esmolas ao povo, ao povo judeu, apesar das particularidades da religião deles. Embora gentio, estava disposto a contribuir para socorrer quem realmente precisava de caridade, sem perguntar a que religião pertencia.

(4.) Orava muito: “Orava sempre a Deus”. Mantinha horários regulares de oração e os observava com constância. Repare: onde quer que o temor de Deus governe o coração, manifestar-se-á tanto em obras de caridade quanto em obras de piedade, e nenhuma delas nos desobriga da outra.

II. As ordens que lhe foram dadas do céu, por intermédio de um anjo, para chamar Pedro até ele. Jamais o teria feito se não tivesse recebido essa orientação. Observe:

  1. Como e de que modo recebeu essas ordens. Teve uma visão em que um anjo lhe transmitiu as instruções. Era por volta da hora nona, às três da tarde, horário que entre nós se dedica à ocupação e à conversa.

Naquele tempo, porém, como era a hora de oferecer no templo o sacrifício da tarde, as pessoas devotas a reservavam para a oração. Isso indicava que todas as nossas orações devem ser apresentadas por meio da eficácia do grande sacrifício. Cornélio estava então orando, como ele próprio nos conta, v. 30. Aqui se diz:

(1.) Que um anjo de Deus entrou em sua presença. Pelo brilho de seu rosto e pela maneira como entrou, Cornélio percebeu que era mais que um homem e, portanto, nada menos que um anjo, um mensageiro expresso do céu.

(2.) Que o viu claramente com os olhos do corpo, não em sonho apresentado à imaginação, mas numa visão apresentada à vista. Para sua maior certeza, a visão trazia consigo sua própria evidência.

(3.) Que o anjo o chamou pelo nome, Cornélio, para indicar a atenção particular que Deus lhe dispensava.

(4.) Que isso o deixou, naquele momento, um tanto perturbado (v. 4): “Ao olhar para ele, teve medo”. Os homens mais sábios e melhores têm sido tomados de medo diante da aparição de qualquer mensageiro extraordinário do céu, e com razão: o ser humano pecador sabe que não tem motivo para esperar nenhuma boa notícia de lá.

Por isso Cornélio exclama: “Que é, Senhor? Qual é o problema?” Fala como quem teme que haja algo errado e deseja livrar-se do medo ao saber a verdade; ou como quem deseja conhecer a vontade de Deus e está pronto a obedecer-lhe, como Josué: “Que diz o meu Senhor a seu servo?” E Samuel: “Fala, porque o teu servo ouve”.

  1. Qual era a mensagem que lhe foi transmitida:

(1.) Recebe a certeza de que Deus o aceita por andar conforme a luz que possuía (v. 4): “As tuas orações e as tuas esmolas subiram para memória diante de Deus”. Observe: orações e esmolas devem caminhar juntas.

Devemos acompanhar nossas orações de esmolas, pois o jejum escolhido por Deus é repartir a alma com o faminto, Isaías 58:6, 7. Não basta orar para que o que possuímos seja santificado para nós; devemos dar esmolas do que temos. E então, eis que tudo nos será limpo, Lucas 11:41.

E devemos acompanhar nossas esmolas de nossas orações para que Deus as aceite graciosamente e elas sejam abençoadas em favor daqueles a quem são dadas. Cornélio orava e dava esmolas não como os fariseus, para ser visto pelas pessoas, mas com sinceridade, como a Deus. E aqui lhe dizem que essas coisas subiram para memória diante de Deus.

Estavam registradas no céu, no livro de memórias ali escrito para todos os que temem a Deus, e serão lembradas em seu favor: “Tuas orações serão atendidas, e tuas esmolas, recompensadas”.

Diz-se que os sacrifícios prescritos pela lei eram para memória. Veja Levítico 2:9, 16; 5:12; 6:15. E orações e esmolas são nossas ofertas espirituais, das quais Deus tem por bem tomar conhecimento e às quais dá atenção.

Cornélio cria na revelação divina comunicada aos judeus e se submetia a ela naquilo que dizia respeito aos gentios. Essa revelação não apenas orientava e aproveitava a luz e a lei da natureza, mas prometia a vinda de um Messias.

O que fazia, Cornélio fazia nessa fé e nela era aceito por Deus. Pois os gentios a quem a lei de Moisés chegou não eram obrigados a tornar-se judeus circuncidados, como os que recebem o evangelho de Cristo devem tornar-se cristãos batizados.

(2.) Recebe a ordem de buscar uma revelação ulterior da graça divina, dada havia pouco ao mundo, v. 5, 6. Deve enviar pessoas sem demora a Jope para perguntar por certo Simão Pedro. Ele está hospedado na casa de outro Simão, curtidor de couro, à beira-mar. Se for chamado, virá e dirá a Cornélio o que lhe cabe fazer, em resposta à pergunta: “Que é, Senhor?”

Há aqui dois fatos muito surpreendentes, dignos de nossa consideração:

[1.] Cornélio ora e dá esmolas no temor de Deus; ele próprio é religioso e mantém a religião na sua família, tudo isso de modo a ser aceito por Deus. Ainda assim, há algo mais que deve fazer: deve abraçar a religião cristã, agora que Deus a estabeleceu entre os seres humanos.

Não se trata de dizer que poderá fazê-lo se quiser, como aproveitamento e satisfação para si. Mas deve fazê-lo: isso é indispensável para que seja aceito por Deus de agora em diante, embora até então tenha sido aceito nos seus serviços.

Quem cria na promessa do Messias deve agora crer no cumprimento dessa promessa. Deus deu acerca de seu Filho um testemunho ulterior ao que fora dado nas profecias do Antigo Testamento; por isso exige que o recebamos quando nos é apresentado.

Agora nem nossas orações nem nossas esmolas podem subir para memória diante de Deus se não crermos em Jesus Cristo, pois crer nele é a coisa adicional que devemos fazer. Seu mandamento é que creiamos.

Orações e esmolas são aceitas daqueles que creem que o Senhor é Deus e não têm oportunidade de saber mais. Mas, de quem ouviu pregar que Jesus é o Cristo, exige-se, para que a pessoa, suas orações e suas esmolas sejam aceitas, que creia nisso e dependa somente dele para ser aceito.

[2.] Cornélio tem agora um anjo do céu falando com ele. Ainda assim, não deve receber desse anjo o evangelho de Cristo nem ouvir dele o que deve fazer. Tudo o que o anjo lhe diz é: “Manda chamar Pedro, e ele te dirá”.

Assim como a primeira observação honra enormemente o evangelho, esta honra o ministério do evangelho. Essa graça de “pregar entre os gentios as riquezas insondáveis de Cristo” não foi concedida ao mais elevado dos anjos, mas àqueles que eram menores que o menor de todos os santos (Efésios 3:8).

Para que a excelência do poder pudesse ser de Deus e fosse sustentada a dignidade de uma instituição de Cristo. Pois “aos anjos não sujeitou o mundo vindouro” (Hebreus 2:5), mas ao Filho do homem como soberano e aos filhos dos homens como seus agentes e ministros de Estado.

Os terrores deles não nos farão temer, nem sua mão pesará sobre nós, como a desse anjo pesava sobre Cornélio. E, assim como era uma honra para o apóstolo pregar o que um anjo não podia, assim era uma honra ulterior que um anjo tivesse sido enviado de propósito do céu para ordenar que o chamassem.

Reunir um ministro fiel e um povo disposto é obra digna de um anjo; por isso os maiores dentre os homens devem alegrar-se em ser empregados nela.

III. Sua obediência imediata às ordens, v. 7, 8. Enviou pessoas a Jope com toda a pressa para trazer Pedro até ele. Se o assunto dissesse respeito apenas a ele, teria ido a Jope até Pedro. Mas tinha família, parentes e amigos (v. 24), uma pequena congregação que não poderia acompanhá-lo a Jope; por isso mandou chamar Pedro. Observe:

  1. Quando enviou: assim que o anjo que falara com ele partiu. Sem discussão nem demora, obedeceu à visão celestial. Pelo que o anjo dissera, entendeu que lhe seria prescrito algum trabalho ulterior e ansiava por que lhe fosse comunicado. Apressou-se, sem tardar, a cumprir a ordem. Em qualquer assunto que diga respeito às nossas almas, é bom não perder tempo.

  2. Quem enviou: dois dos servos da sua casa, todos tementes a Deus, e um soldado devoto, um dos que o acompanhavam continuamente. Observe: um centurião devoto tinha soldados devotos.

Um pouco de devoção costuma ser muito entre os soldados, mas haveria mais devoção entre eles se ao menos houvesse mais entre os comandantes. Os oficiais do exército exercem grande poder sobre os soldados, como vemos no caso do centurião (Mateus 8:9).

Por isso têm grande oportunidade de promover a religião ou, pelo menos, de conter o vício e a profanação entre os subordinados, se ao menos aproveitarem essa oportunidade. Observe: quando esse centurião teve de escolher soldados para acompanhá-lo pessoalmente e permanecer sempre perto dele, escolheu os devotos.

Serão preferidos e apoiados, para animar outros a ser assim. Seguiu a regra de Davi (Salmos 101:6): meu olho estará sobre os fiéis da terra, para que habitem comigo.

  1. Que instruções lhes deu (v. 8): contou-lhes todas essas coisas, relatou a visão que tivera e as ordens recebidas para chamar Pedro. A visita de Pedro lhes dizia respeito, pois também eles tinham almas a salvar.

Por isso não lhes disse apenas onde encontrar Pedro, o que poderia ter julgado suficiente, já que “o servo não sabe o que faz seu Senhor”. Mas lhes disse com que encargo Pedro viria, para que insistissem com ele.

Versículos 9 a 18

A Visão de Pedro.

Cornélio recebera ordens expressas do céu para chamar Pedro, de quem, de outro modo, não teria ouvido falar, ou ao menos não teria feito caso. Mas aqui está outra dificuldade no caminho de reuni-los: a questão é se Pedro irá a Cornélio quando for chamado.

Não como se julgasse indigno de si atender a um aceno, ou como se tivesse medo de pregar sua doutrina a um homem culto como Cornélio. Mas o entrave está num ponto de consciência. Cornélio é homem muito digno e tem muitas qualidades boas, mas é gentio, não é circuncidado.

E, porque Deus, em sua lei, proibira seu povo de se associar às nações idólatras, não mantinham companhia com ninguém senão os da sua própria religião, por mais merecedores que fossem. Levaram isso tão longe que faziam até do toque involuntário num gentio uma causa de contaminação cerimonial, João 18:28.

Pedro não havia superado essa noção mesquinha e fanática dos seus compatriotas, e por isso terá receio de ir a Cornélio. Ora, para remover essa dificuldade, tem aqui uma visão, para prepará-lo a receber a mensagem que Cornélio lhe enviou, como Ananias teve uma para prepará-lo a ir a Paulo.

As escrituras do Antigo Testamento haviam falado claramente da entrada dos gentios na igreja. Cristo dera indicações claras disso ao ordenar-lhes que ensinassem todas as nações.

Ainda assim, até o próprio Pedro, que conhecia tanto a intenção do seu Mestre, não pôde entender isso até que aqui se revelou por visão que os gentios seriam coerdeiros, Efésios 3:6. Ora, observe aqui:

I. As circunstâncias dessa visão:

  1. Ocorreu quando os mensageiros enviados por Cornélio estavam perto da cidade, v. 9. Pedro nada sabia da aproximação deles, e eles nada sabiam da oração dele. Mas aquele que conhecia tanto a ele quanto a eles preparava as coisas para o encontro e facilitava o fim da negociação deles.

Para todos os propósitos de Deus há um tempo, um tempo apropriado. Muitas vezes ele tem por bem trazer à mente dos seus ministros coisas em que não haviam pensado, justamente quando têm ocasião de usá-las.

  1. Ocorreu quando Pedro subiu ao terraço da casa para orar, por volta do meio-dia:

(1.) Pedro orava muito, muito em secreto, embora tivesse em mãos grande quantidade de trabalho público.

(2.) Orava por volta da sexta hora, segundo o exemplo de Davi, que não só de manhã e à tarde, mas ao meio-dia, se dirigia a Deus pela oração, Salmos 55:17. De manhã até a noite consideraríamos tempo longo demais para ficar sem alimento. Ainda assim, quem pensa que é tempo longo demais para ficar sem oração?

(3.) Orava no terraço da casa. Para lá se retirava para ter privacidade, onde não poderia ouvir nem ser ouvido e assim poderia evitar tanto distração quanto ostentação.

Lá, sobre o telhado da casa, tinha plena visão dos céus, o que poderia ajudar sua piedosa adoração ao Deus a quem orava. Lá tinha também plena visão da cidade e do campo, o que poderia ajudar sua piedosa compaixão pelo povo em favor de quem orava.

(4.) Teve essa visão imediatamente depois de orar, como resposta à sua oração pela propagação do evangelho e porque a ascensão do coração a Deus na oração é excelente preparação para receber as revelações da graça e do favor divinos.

  1. Ocorreu quando ficou com muita fome e esperava seu almoço (v. 10). Provavelmente não havia comido antes naquele dia, embora, sem dúvida, tivesse orado antes. Agora desejava comer, ethele geusasthai, desejava provar, o que indica sua grande moderação e temperança no comer.

Quando estava com muita fome, ainda assim se contentaria com pouco, com uma prova, e não se lançaria sobre o despojo. Ora, essa fome era entrada apropriada para a visão sobre alimentos, como a fome de Cristo no deserto foi para a tentação de Satanás de transformar pedras em pão.

II. A própria visão, não tão clara quanto a de Cornélio, mas mais figurada e enigmática, para causar impressão mais profunda:

  1. Caiu num transe ou êxtase, não de terror, mas de contemplação. Foi tão inteiramente absorvido por ela que não só não prestava atenção às coisas externas, mas não tinha percepção delas.

Perdeu-se completamente para este mundo, e assim teve a mente inteiramente livre para a comunhão com as coisas divinas, como Adão na inocência, quando caiu sobre ele o sono profundo.

Quanto mais nos libertamos do mundo, mais nos aproximamos do céu. Se Pedro estava então no corpo ou fora do corpo, ele próprio não poderia dizer, muito menos nós, 2 Coríntios 12:2, 3. Veja Gênesis 15:12; Atos 22:17.

  1. Viu o céu aberto, para ter certeza de que sua autoridade para ir a Cornélio era de fato do céu; que era luz divina que mudava suas opiniões e poder divino que lhe dava sua comissão. A abertura dos céus significava a abertura de um mistério que estivera oculto, Romanos 16:25.

  2. Viu um grande lençol cheio de toda espécie de criaturas vivas, que desceu do céu e lhe foi baixado à terra, isto é, ao telhado da casa onde estava. Aqui havia não só animais da terra, mas aves do ar, que poderiam ter voado para longe, postas aos seus pés; e não só animais mansos, mas selvagens.

Aqui não havia peixes do mar, pois nenhum deles era particularmente impuro, mas se consentia em comer tudo o que tivesse barbatanas e escamas. Alguns fazem esse lençol assim cheio representar a igreja de Cristo.

Desce do céu, do céu aberto não só para baixá-lo (Apocalipse 21:2), mas para receber as almas que dele sobem. Está atado nos quatro cantos para receber, de todas as partes do mundo, os dispostos a serem acrescentados a ele e para reter e guardar seguros os admitidos nele, para que não caiam para fora.

Nele encontramos alguns de todos os países, nações e línguas, sem distinção de grego ou judeu, nem desvantagem alguma imposta ao bárbaro ou cita, Colossenses 3:11. A rede do evangelho encerra todos, tanto maus quanto bons, os que antes eram limpos e impuros.

Ou pode ser aplicado à generosidade da divina Providência, que, antes das proibições da lei cerimonial, dera ao homem liberdade de usar todas as criaturas, à qual agora somos restaurados pelo cancelamento dessa lei.

Por essa visão, nos é ensinado a ver que todos os benefícios e serviços que recebemos das criaturas inferiores descem até nós do céu. São dádivas de Deus, que as fez, que as fez próprias para nós e então deu ao homem direito a elas e domínio sobre elas.

Senhor, o que é o homem para ser assim engrandecido! Salmos 8:4-8. Como ver essas criaturas assim baixadas do céu até nós deveria dobrar nosso conforto nelas e nossas obrigações de servir a Deus no uso delas!

  1. Recebeu ordem, por voz do céu, de usar essa abundância e variedade que Deus lhe enviara (v. 13): “Levanta-te, Pedro, mata e come; sem fazer diferença entre limpo e impuro, toma o que mais desejas”.

A distinção entre alimentos feita pela lei tinha como intenção pôr diferença entre judeu e gentio, para que lhes fosse difícil almoçar e cear com um gentio, pois lhes seria posto diante o que não se lhes consentia comer.

Agora, tirar essa proibição era clara concessão para ter comunhão com os gentios e ser livres e familiares com eles. Agora poderiam alimentar-se como eles se alimentavam e, por isso, comer com eles e partilhar a mesa com eles.

  1. Apegou-se aos seus princípios e não quis de modo algum ouvir a proposta, embora estivesse com fome (v. 14): “De modo nenhum, Senhor”. Embora a fome atravesse muros de pedra, as leis de Deus devem ser para nós cerca mais forte que muros de pedra, não atravessada tão facilmente.

Aderirá às leis de Deus, embora receba ordem contrária por voz do céu, sem saber de início se “mata e come” era mandamento para provar se aderiria à palavra mais segura, à lei escrita. Se assim fosse, sua resposta teria sido muito boa: “De modo nenhum, Senhor”.

Não se deve negociar com as tentações de comer fruto proibido, mas rejeitá-las categoricamente. Devemos nos assustar com a ideia disso: “De modo nenhum, Senhor”. O motivo que dá é: “Pois nunca comi coisa alguma comum ou impura; até agora mantive minha integridade nesse assunto, e continuamente a manterei”.

Se Deus, por sua graça, nos preservou do pecado grosseiro até este dia, devemos usar isso como razão conosco mesmos para nos abster de toda aparência de mal.

Os judeus piedosos eram tão rigorosos nisso que os sete irmãos, aqueles gloriosos mártires sob Antíoco, escolhem antes ser torturados até a morte da maneira mais cruel que jamais houve do que comer carne de porco, pois era proibida pela lei.

Não é de admirar, então, que Pedro diga com tanto prazer que sua consciência poderia testemunhar em seu favor que nunca satisfizera seu apetite com alimento proibido algum.

  1. Deus, por uma segunda voz do céu, proclamou a revogação da lei nesse caso (v. 15): “O que Deus limpou, não chames tu comum”. Aquele que fez a lei poderia mudá-la quando quisesse e devolver o assunto ao seu primeiro estado.

Deus, por motivos adequados à dispensação do Antigo Testamento, impusera aos judeus a restrição de comer certos alimentos, ao que, enquanto durou aquela dispensação, eram obrigados a se submeter em consciência.

Mas agora, por motivos adequados à dispensação do Novo Testamento, tirou essa restrição e deixou o assunto livre. Limpou o que antes era contaminado para nós. Devemos usar a liberdade com que Cristo nos libertou e permanecer firmes nela, sem chamar de comum ou impuro o que Deus agora declarou limpo.

Repare: Devemos acolher como grande misericórdia que, pelo evangelho de Cristo, somos libertos da distinção de alimentos feita pela lei de Moisés e que agora toda criatura de Deus é boa, e nada deve ser recusado.

Não tanto porque assim ganhamos o uso da carne de porco, lebres, coelhos e outros alimentos agradáveis e saudáveis para nossos corpos, mas principalmente porque a consciência é assim liberta de um jugo em coisas dessa natureza, para podermos servir a Deus sem medo.

Embora o evangelho tenha feito deveres que não o eram pela lei da natureza, ainda assim não fez, como a lei de Moisés, pecados que não o eram. Os que mandam abster-se de certas espécies de alimento em certas épocas do ano e põem nisso a religião chamam comum o que Deus limpou. Nesse erro, mais que em qualquer verdade, são os sucessores de Pedro.

  1. Isso foi feito três vezes, v. 16. O lençol foi erguido um pouco e baixado novamente pela segunda vez e assim pela terceira, com o mesmo chamado para matar e comer e o mesmo motivo: não devemos chamar comum o que Deus limpou.

Mas não é certo se a recusa de Pedro foi repetida pela segunda e terceira vez. Certamente não foi, quando sua objeção recebeu na primeira vez uma resposta tão satisfatória.

A triplicação da visão de Pedro, como a duplicação do sonho de Faraó, era para mostrar que a coisa era certa e comprometê-lo a reparar tanto mais nela. As instruções que nos são dadas nas coisas de Deus, ou pelo ouvido na pregação da palavra ou pelos olhos nos sacramentos, precisam ser repetidas frequentemente.

Preceito deve estar sobre preceito, e linha sobre linha. Mas, por fim, o recipiente foi recebido no céu.

Os que fazem esse recipiente representar a igreja, incluindo tanto judeus quanto gentios, como este incluía tanto criaturas limpas quanto impuras, fazem isso significar muito apropriadamente a admissão dos gentios crentes na igreja e também no céu, na Jerusalém de cima.

Cristo abriu o reino do céu a todos os crentes, e lá encontraremos, além dos selados de todas as tribos de Israel, uma companhia incontável de todas as nações (Apocalipse 7:9). Mas são os que Deus limpou.

III. A providência que explicou essa visão muito oportunamente e deu a Pedro entender sua intenção, v. 17, 18:

  1. Pedro não soube naquele momento o que Cristo fez (João 13:7). Tinha dúvida em seu íntimo sobre o que significaria essa visão que havia visto. Não tinha motivo para duvidar da verdade dela, de que era visão celestial; toda a sua dúvida era sobre o significado dela.

Repare: Cristo se revela ao seu povo gradualmente, e não de uma só vez. Deixa-os em dúvida por algum tempo, para ruminar uma coisa e debatê-la de um lado para o outro em suas próprias mentes, antes de esclarecê-la para eles.

  1. Ainda assim, foi levado a saber imediatamente. Pois os homens enviados por Cornélio haviam acabado de chegar à casa e estavam à porta, perguntando se Pedro estava hospedado lá. O propósito da visita deles mostrará qual era o significado dessa visão.

Repare: Deus sabe quais serviços estão diante de nós e, por isso, como nos preparar. Conhecemos então melhor o significado do que nos ensinou quando descobrimos que ocasião temos de usá-lo.

Pedro Instruído a Ir a Cornélio; Pedro Vai a Cornélio; Encontro entre Pedro e Cornélio.

Versículos 19 a 33

Temos aqui o encontro entre Pedro, o apóstolo, e Cornélio, o centurião. Embora Paulo fosse destinado a ser o apóstolo dos gentios e a recolher a colheita entre eles, e Pedro a ser o apóstolo da circuncisão, ainda assim se determina que Pedro quebre o gelo e colha as primícias dos gentios.

Assim os judeus crentes, que conservavam fermento demais da antiga má vontade para com os gentios, poderiam reconciliar-se melhor com a admissão deles na igreja, quando fossem introduzidos primeiro pelo seu próprio apóstolo.

Pedro apresenta isso contra os que queriam impor a circuncisão aos convertidos gentios (Atos 15:7): “Vós sabeis que Deus fez escolha entre nós para que os gentios, pela minha boca, ouvissem a palavra do evangelho”. Ora, aqui:

I. Pedro recebe orientação do Espírito para acompanhar os mensageiros de Cornélio (v. 19, 20), e essa é a exposição da visão. Agora o enigma é decifrado: enquanto Pedro pensava na visão, meditava nela, e então ela lhe foi explicada.

Repare: Os que desejam aprender as coisas de Deus precisam pensar nessas coisas; os que desejam entender as escrituras precisam meditar nelas dia e noite.

Ele estava sem saber o que pensar dela, e então recebeu a explicação. Isso nos anima, quando não sabemos o que fazer, a erguer nossos olhos a Deus em busca de orientação. Observe:

  1. De onde recebeu a orientação. O Espírito lhe disse o que deveria fazer. Isso não lhe foi dito por um anjo, mas dito dentro dele pelo Espírito, como que sussurrando secretamente ao seu ouvido, como Deus falou a Samuel (1 Samuel 9:15).

Ou foi impresso poderosamente na sua mente, de modo que soube ser um sopro divino ou inspiração, segundo a promessa, João 16:13.

  1. Qual era a orientação:

(1.) Antes que qualquer dos servos pudesse subir para lhe dizer, é informado de que três homens lá embaixo querem falar com ele (v. 19). Precisa levantar-se das suas meditações, deixar de pensar na visão e descer até eles, v. 20.

Os que exploram o significado das palavras de Deus e das visões do Todo-Poderoso não devem estar sempre estudando atentamente, não, nem sempre orando. Devem às vezes olhar para fora, olhar ao seu redor, e poderão encontrar algo que lhes seja útil nas suas investigações, pois a escritura se cumpre todos os dias.

(2.) Recebe ordem de acompanhar os mensageiros até Cornélio, embora este fosse gentio, sem duvidar de nada. Precisa não só ir, mas ir alegremente, sem relutância ou hesitação, nem qualquer escrúpulo quanto à legitimidade disso.

Sem duvidar se poderia ir, não, nem se deveria ir, pois era seu dever: “Vai com eles, pois eu os enviei; e te sustentarei ao acompanhá-los, por mais que possas ser censurado por isso”.

Repare: Quando vemos claramente nosso chamado para algum serviço, não devemos permitir que dúvidas e escrúpulos a respeito dele nos deixem perplexos, por causa de antigos preconceitos ou convicções arraigadas, ou do medo da censura dos homens.

Cada um esteja plenamente convencido na sua própria mente e prove sua própria obra.

II. Recebe tanto os mensageiros quanto sua mensagem: desceu até eles, v. 21. Longe de se desviar do caminho ou recusar-se a falar com eles, como alguém que os evitasse, ou de fazê-los esperar, como alguém que se desse ares de grandeza, foi pessoalmente até eles e lhes disse ser a pessoa que procuravam:

  1. Recebe favoravelmente sua mensagem. Com muita abertura e condescendência, pergunta qual é o assunto deles, o que têm a lhe dizer: “Qual é a causa por que viestes?” E eles lhe dizem o motivo da sua missão (v. 22):

“Cornélio, oficial do exército romano, cavalheiro muito honesto, que tem mais religião que a maioria dos seus vizinhos, que teme a Deus acima de muitos (Neemias 7:2), embora ele próprio não seja judeu, tem se conduzido tão bem que tem boa reputação entre todo o povo dos judeus.”

“Todos darão bom testemunho dele como homem consciencioso, sóbrio e caridoso, de modo que não será descrédito para ti seres visto na sua companhia. Foi avisado por Deus”, echrematisthe, “recebeu um oráculo de Deus, enviado a ele por um anjo”.

E os oráculos vivos da lei de Moisés foram dados pela disposição dos anjos.

“Por esse oráculo recebeu ordem de mandar chamar-te à sua casa, onde te espera e está pronto para dar-te boas-vindas, e de ouvir palavras de ti. Não sabem quais palavras, mas são tais que poderá ouvi-las de ti, e de nenhum outro tão bem.”

A fé vem pelo ouvir. Quando Pedro repete isso, nos informa mais plenamente: são “palavras pelas quais tu e toda a tua casa sereis salvos”, Atos 11:14.

“Vai até ele, pois um anjo lhe ordenou mandar chamar-te. Vai até ele, pois está pronto para ouvir e receber as palavras salvadoras que tens a lhe trazer.”

  1. Hospedou bondosamente os mensageiros (v. 23): “Chamou-os para dentro e os hospedou”. Não lhes ordenou que fossem renovar as forças e repousar numa hospedaria às próprias custas, mas ele próprio custeou sua hospedagem nos seus próprios aposentos.

Seriam bem-vindos para participar do que estava sendo preparado para ele (v. 10). Pouco imaginava que companhia teria quando encomendou seu almoço, mas Deus a previu.

Repare: Convém aos cristãos e aos ministros ser hospitaleiros e estar prontos, conforme sua capacidade e conforme houver ocasião, para hospedar estrangeiros.

Pedro os hospedou, embora fossem gentios, para mostrar quão prontamente acatava o desígnio da visão ao comer com gentios, pois logo os levou a comer com ele.

Embora dois deles fossem servos e o outro um soldado comum, ainda assim Pedro não considerou indigno de si recebê-los na sua casa.

Provavelmente o fez para poder ter alguma conversa com eles sobre Cornélio e sua família. Pois os apóstolos, embora tivessem instruções do Espírito, ainda assim se valiam de outras informações, conforme tivessem ocasião.

III. Foi com eles até Cornélio, a quem encontrou pronto para recebê-lo e hospedá-lo:

  1. Pedro, quando foi com eles, foi acompanhado por certos irmãos de Jope, onde então estava, v. 23. Seis deles o acompanharam, como encontramos em Atos 11:12.

Ou Pedro desejou sua companhia para que fossem testemunhas de como procedia cautelosamente com respeito aos gentios e do bom fundamento sobre o qual ia, e por isso os convidou (Atos 11:12), ou eles ofereceram seu serviço para acompanhá-lo e desejaram ter a honra e a felicidade de ser seus companheiros de viagem.

Esse era um modo pelo qual os primeiros cristãos mostravam muito seu respeito aos seus ministros. Acompanhavam-nos nas suas viagens, para dar-lhes apoio, ser sua guarda e, conforme houvesse ocasião, servi-los.

Tinham também a perspectiva ulterior não só de prestar-lhes serviço, mas de ser edificados por ter comunhão com eles. É uma pena que aqueles que têm habilidade e vontade de fazer bem aos outros pelo seu discurso fiquem sem oportunidade para isso por viajarem sozinhos.

  1. Cornélio, quando estava pronto para recebê-lo, havia reunido alguns amigos de Cesareia. Parece que de Jope a Cesareia havia mais de um dia de viagem, quase dois. Pois foi no dia seguinte à partida que entraram em Cesareia (v. 24), e na tarde daquele dia, v. 30.

É provável que viajassem a pé; os apóstolos geralmente o faziam. Ora, quando entraram na casa de Cornélio, Pedro encontrou:

(1.) Que era esperado, e isso lhe dava ânimo. Cornélio os aguardava, e valia a pena aguardar tal hóspede. Não posso censurá-lo se aguardava com alguma impaciência, ansiando por saber qual era aquela coisa poderosa que um anjo lhe ordenara esperar ouvir de Pedro.

(2.) Que era esperado por muitos, e isso lhe dava ânimo ulterior. Assim como Pedro trouxera alguns consigo para participar do dom espiritual que agora tinha para distribuir, assim Cornélio havia reunido não só sua própria família, mas parentes e amigos próximos.

Eles participariam com ele das instruções celestiais que esperava de Pedro, o que daria a Pedro oportunidade maior de fazer o bem.

Repare: Não devemos desejar comer sozinhos nossos bocados espirituais, Jó 31:17. Convidar nossos parentes e amigos a participar conosco de exercícios religiosos, a ir conosco ouvir um sermão, deve ser tanto oferecido quanto recebido como gesto de bondade e respeito para com eles.

O que Cornélio deveria fazer, pensava que seus parentes e amigos também deveriam fazer. Por isso, que viessem ouvi-lo diretamente, para que não lhes fosse surpresa vê-lo mudar em consequência disso.

IV. Aqui está o primeiro encontro entre Pedro e Cornélio, no qual temos:

  1. O profundo e de fato indevido respeito e honra que Cornélio prestou a Pedro (v. 25). Encontrou-o quando entrava e, em vez de tomá-lo nos braços e abraçá-lo como amigo, o que teria sido muito agradável a Pedro, caiu aos seus pés e o adorou.

Alguns pensam que o fez como a um príncipe e grande homem, segundo o costume dos países orientais; outros pensam que o fez como a uma divindade encarnada, ou como se o tomasse pelo próprio Messias.

Adorar um homem era de fato culpável. Mas, considerando sua ignorância presente, era desculpável. Ou melhor: e era evidência de algo nele que merecia muito elogio, e isso era uma grande veneração pelas coisas divinas e celestiais.

Não é de admirar que, até receber melhor informação, tomasse pelo Messias e por isso adorasse aquele que um anjo do céu lhe ordenara mandar chamar.

Mas adorar seu alegado sucessor, que é não só homem, mas homem pecador, o próprio homem do pecado, é inteiramente indesculpável. É absurdo tal que seria inacreditável se não nos tivesse sido dito anteriormente que o mundo inteiro adoraria a besta, Apocalipse 13:4.

  1. A modesta e de fato justa e piedosa recusa de Pedro dessa honra que lhe era prestada (v. 26). Levantou-o nos seus braços, com suas próprias mãos, embora tivesse havido um tempo em que mal imaginava que algum dia ou receberia tanto respeito de um gentio incircunciso ou lhe mostraria tanta afeição.

Disse-lhe que se levantasse, pois ele próprio também era homem e, por isso, não deveria ser adorado assim.

Os bons anjos das igrejas, como os bons anjos do céu, não suportam que lhes seja mostrada a menor parcela daquela honra devida somente a Deus. “Olha, não o faças”, diz o anjo a João (Apocalipse 19:10; 22:9), e de modo semelhante o apóstolo a Cornélio.

Quanto zelo Paulo tinha para que nenhum homem pensasse dele acima do que via nele! 2 Coríntios 12:6. Os servos fiéis de Cristo poderiam suportar melhor ser desprezados do que ser divinizados.

Pedro não acolheu a suposição de que esse grande respeito por ele, embora excessivo, pudesse contribuir para o sucesso da sua pregação e, por isso, se ele quiser ser enganado, que seja enganado.

Não: que saiba que Pedro é homem, que o tesouro está em vasos de barro, para que valorize o tesouro por causa do próprio tesouro.

V. O relato que Pedro e Cornélio dão um ao outro e à companhia da mão do Céu em reuni-los: enquanto falava com ele, synomilon auto, entrou, v. 27.

Pedro entrou, falando familiarmente com Cornélio, procurando, pela liberdade de sua comunhão com ele, remover algo daquele temor que parecia ter dele.

Quando entrou, encontrou muitos que haviam se reunido, mais do que esperava. Isso acrescentava solenidade, assim como oportunidade de fazer o bem, a esse serviço. Ora:

  1. Pedro declara a orientação que Deus lhe deu para ir até aqueles gentios, v. 28, 29. Sabiam que os judeus nunca haviam consentido nisso, mas sempre o tinham considerado coisa ilícita, athemiton, uma abominação, que um homem judeu, judeu nativo como eu sou, mantenha companhia ou vá até alguém de outra nação, um estrangeiro, um gentio incircunciso.

Não era assim pela lei de Deus, mas pelo decreto dos seus sábios, que consideravam não menos obrigatório.

Não lhes proibiam ter comunhão ou negociar com gentios na rua ou na loja, ou na bolsa, mas comer com eles. Até no tempo de José, egípcios e hebreus não podiam comer juntos, Gênesis 43:32.

Os três jovens não quiseram macular-se com o alimento do rei, Daniel 1:8. Não podiam entrar na casa de um gentio, pois a consideravam cerimonialmente contaminada.

Assim desdenhosamente os judeus olhavam os gentios, que não ficavam atrás deles no desprezo, como aparece por muitas passagens dos poetas latinos.

Mas agora, diz Pedro, Deus me mostrou por uma visão que eu não deveria chamar homem algum de comum ou impuro, nem recusar-me a ter comunhão com qualquer homem por causa do seu país.

Pedro, que ensinara seus novos convertidos a salvar-se da geração perversa de homens maus (Atos 2:40), agora recebe ele próprio ensino para juntar-se à geração bem-disposta de gentios devotos.

As distinções cerimoniais foram abolidas, para que se desse mais atenção às morais. Pedro julgou necessário informar-lhes como havia mudado de opinião nesse assunto, e que fora por revelação divina, para não ser repreendido por isso como alguém que tivesse agido levianamente.

Tendo Deus assim derrubado a parede de separação:

(1.) Assegura-lhes sua prontidão para prestar-lhes todos os bons serviços que pudesse. Quando se mantinha a distância, não era por qualquer aversão pessoal a eles, mas apenas porque lhe faltava licença do céu.

Tendo agora recebido permissão, estava ao serviço deles: por isso fui até vocês sem contradizer, assim que fui chamado, pronto para pregar a vocês o mesmo evangelho que preguei aos judeus.

Os discípulos de Cristo não podiam deixar de ter alguma noção da pregação do evangelho aos gentios. Mas imaginavam que devia ser apenas aos gentios primeiramente convertidos à religião judaica, erro que Pedro reconhece não ter sido corrigido.

(2.) Pergunta em que poderia servi-los: Pergunto, por isso, com que intenção mandaram chamar-me? O que esperam de mim, ou que assunto têm comigo?

Repare: Os que desejam a ajuda dos ministros de Deus devem olhar bem para que nisso proponham a si mesmos fins corretos e o façam com boa intenção.

  1. Cornélio declara as orientações que Deus lhe deu para mandar chamar Pedro, e que foi puramente em obediência a essas orientações que o chamou.

Então nossos objetivos estão corretos ao mandar chamar quem ministra o evangelho e acompanhar esse ministério, quando o fizemos em consideração à designação divina que institui essa ordenança e exige que façamos uso dela. Ora:

(1.) Cornélio dá um relato da aparição do anjo a ele e da ordem de mandar chamar Pedro. Não como alguém que se gloriasse nisso, mas como algo que autorizava sua expectativa de uma mensagem do céu por Pedro:

[1.] Conta em que ocupação essa visão o encontrou (v. 30): “Há quatro dias eu jejuava até esta hora”, esta hora do dia que agora é quando Pedro veio, por volta do meio da tarde.

Por isso parece que o jejum religioso, para maior seriedade e solenidade na oração, era usado por pessoas devotas que não eram judias. O rei de Nínive proclamou um jejum, Jonas 3:5.

Alguns dão outro sentido a essas palavras: Desde quatro dias atrás tenho jejuado até esta hora, como se não tivesse comido alimento algum, ou ao menos refeição alguma, desde aquele tempo até agora.

Mas isso vem como introdução à história da visão, e por isso o primeiro deve ser o significado. Estava à nona hora orando na sua casa, não na sinagoga, mas em casa. Quero que os homens orem onde quer que morem.

Orar na sua casa indica que não era oração secreta no seu aposento privado, mas num cômodo mais público da sua casa, com sua família ao redor. Talvez depois da oração se tenha retirado e tido essa visão.

Observe: À nona hora do dia, três horas da tarde, a maioria das pessoas estava viajando ou negociando, trabalhando nos campos, visitando seus amigos, entregando-se ao prazer ou tirando um cochilo depois do almoço.

Contudo, então Cornélio estava nas suas devoções, o que mostra quanto fazia da religião sua ocupação. E foi então que recebeu essa mensagem do céu. Os que desejam ouvir de Deus com consolo precisam falar muito com ele.

[2.] Descreve o mensageiro que lhe trouxe essa mensagem do céu: “Um homem estava diante de mim com roupa brilhante”, como a de Cristo quando foi transfigurado, e a dos dois anjos que apareceram na ressurreição de Cristo (Lucas 24:4) e na sua ascensão (Atos 1:10), mostrando sua relação com o mundo da luz.

[3.] Repete a mensagem que lhe foi enviada (v. 31, 32), exatamente como a tivemos, vv. 4-6. Só aqui se diz: “Tua oração foi ouvida”. Não nos é dito qual foi sua oração.

Mas, se essa mensagem foi resposta a ela, e parece que foi, podemos supor que, encontrando a deficiência da luz natural, e que ela o deixava sem saber como obter o perdão do seu pecado e o favor de Deus, orou para que Deus lhe desse revelações ulteriores de si mesmo e do caminho da salvação.

“Bem”, diz o anjo, “manda chamar Pedro, e ele te dará tal revelação”.

(2.) Declara sua própria prontidão e a dos seus amigos para receber a mensagem que Pedro tinha para expor (v. 33): por isso imediatamente mandei chamar você, como fui orientado, e você fez bem em vir até nós, embora sejamos gentios.

Repare: Os ministros fiéis fazem bem em ir até pessoas dispostas e desejosas de receber instrução deles; em ir quando são chamados. É uma ação tão boa quanto qualquer que possam fazer.

Bem, Pedro veio para fazer sua parte; mas eles farão a deles? Sim: “Tu estás aqui preparado para falar, e nós estamos aqui preparados para ouvir”, 1 Samuel 3:9, 10. Observe:

[1.] Sua aplicação religiosa à palavra: “Estamos todos aqui presentes diante de Deus; estamos aqui de modo religioso, estamos aqui como adoradores”. Assim se colocam numa disposição de espírito séria e solene:

“Por isso, porque vieste até nós com tal autorização, para tal missão, porque temos nas mãos um preço como nunca tivemos antes e talvez nunca tornemos a ter, estamos prontos agora, neste tempo de adoração, aqui neste lugar de adoração”, embora fosse numa casa particular.

“Estamos presentes”, paresmen, “estamos ocupados com o assunto e prontos para vir quando chamados”. Se desejamos a presença especial de Deus numa ordenança, precisamos estar ali com uma presença especial, uma presença na ordenança: Aqui estou.

“Estamos todos presentes, todos os que foram convidados; nós e todos os que nos pertencem; nós e tudo o que há dentro de nós.” O homem inteiro precisa estar presente; não o corpo aqui, e o coração, com os olhos do insensato, nos confins da terra.

Mas o que faz disso de fato uma aplicação religiosa é: “Estamos presentes diante de Deus”. Nas santas ordenanças nos apresentamos ao Senhor e precisamos estar como diante dele, como aqueles que veem seu olhar sobre nós.

[2.] A intenção dessa aplicação: estamos presentes para ouvir todas as coisas que Deus ordenou a você e lhe deu como encargo expor a nós. Observe:

Primeiro, Pedro estava ali para pregar todas as coisas que Deus lhe havia ordenado. Pois, assim como tinha ampla comissão para pregar o evangelho, assim tinha instruções completas sobre o que pregar.

Segundo, Estavam prontos para ouvir, não o que ele quisesse dizer, mas o que Deus lhe ordenara dizer. As verdades de Cristo não foram comunicadas aos apóstolos para serem publicadas ou abafadas conforme julgassem conveniente, mas confiadas a eles para serem publicadas ao mundo.

“Estamos prontos para ouvir tudo, para vir no início do serviço e ficar até o fim, e estar atentos continuamente; caso contrário, como podemos ouvir tudo?”

“Desejamos ouvir tudo o que foste comissionado a pregar, por mais desagradável que seja à carne e ao sangue, e por mais contrário que seja às nossas antigas noções ou aos nossos interesses seculares presentes.”

“Estamos prontos para ouvir tudo, e por isso que nada proveitoso para nós seja retido.”

Versículos 34 a 43

Pedro Prega na Casa de Cornélio.

Temos aqui o sermão de Pedro a Cornélio e seus amigos, isto é, uma síntese ou resumo dele, pois temos motivos para pensar que, com muitas outras palavras, Pedro testemunhou e exortou nesse sentido. A expressão “abriu a boca e falou” (v. 34) indica que se expressou com muita solenidade e gravidade, mas com liberdade e abundância.

“Ó coríntios, a nossa boca está aberta para vós”, diz Paulo, 2 Coríntios 6:11. “Encontrar-nos-eis prontos a comunicar, se ao menos vos encontrarmos dispostos a perguntar.” Até então, a boca dos apóstolos estivera fechada aos gentios incircuncisos: nada tinham a lhes dizer. Agora, porém, Deus lhes deu, como fizera com Ezequiel, a abertura da boca.

Esse excelente sermão de Pedro se ajusta admiravelmente às circunstâncias daqueles a quem foi pregado, pois era um sermão novo.

I. Porque eram gentios aqueles a quem pregava. Pedro mostra que, apesar disso, tinham participação no evangelho de Cristo que ele anunciava e direito aos seus benefícios em igualdade com os judeus. Era necessário esclarecer isso; do contrário, como poderia Pedro pregar, ou eles ouvir, com consolo?

Por isso estabelece como princípio indiscutível que Deus não faz acepção de pessoas, ou, conforme a expressão hebraica, não favorece ninguém ao julgar. Isso é proibido aos magistrados (Deuteronômio 1:17; 16:19; Provérbios 24:23), que são censurados quando o fazem, Salmos 82:2.

Também se diz frequentemente que Deus não faz acepção de pessoas, Deuteronômio 10:17; 2 Crônicas 19:7; Jó 34:19; Romanos 2:11; Colossenses 3:25; 1 Pedro 1:17. Ele não julga em favor de alguém por alguma vantagem exterior sem relação com os méritos da causa.

Deus nunca distorce o juízo por considerações pessoais nem apoia um perverso numa ação perversa por causa de sua beleza, estatura, país, ascendência, parentes, riqueza ou honra no mundo.

Como benfeitor, Deus concede favores arbitrariamente e por soberania (Deuteronômio 7:7, 8; 9:5, 6; Mateus 20:10); como juiz, porém, não profere sentenças desse modo. Em toda nação e sob qualquer denominação, aquele que teme a Deus e pratica a justiça lhe é aceito, v. 35. A situação é claramente esta:

  1. Deus nunca justificou e salvou, nem jamais justificará e salvará um judeu perverso que viveu e morreu sem arrependimento, embora fosse descendente de Abraão, hebreu de hebreus, e possuísse toda a honra e as vantagens ligadas à circuncisão.

Deus retribui e retribuirá indignação e cólera, tribulação e angústia a toda pessoa que pratica o mal, e ao judeu primeiro. Seus privilégios e sua profissão de fé, em vez de protegê-lo do juízo de Deus, apenas agravarão sua culpa e condenação. Veja Romanos 2:3, 8, 9, 17.

Embora Deus tenha favorecido os judeus mais que outras nações com as dignidades de membros da igreja visível, ainda assim não aceitará por isso quaisquer indivíduos que possuem essa dignidade mas se entregam a imoralidades contrárias à sua profissão de fé, especialmente à perseguição, que era então, mais que qualquer outro, o pecado nacional dos judeus.

  1. Deus nunca rejeitou ou recusou, nem jamais rejeitará ou recusará um gentio honesto que, embora não possua os privilégios e as vantagens dos judeus, ainda assim, como Cornélio, teme a Deus e o adora e pratica a justiça, isto é, age com justiça e caridade para com todos. Vive conforme a luz que tem, tanto com devoção sincera quanto com conduta ordenada.

Seja qual for sua nação, por mais distante que esteja da descendência de Abraão, por mais desprezada que seja, ou melhor: por pior que seja sua reputação, nada disso o prejudicará. Deus julga as pessoas por seu coração, não por seu país nem sua ascendência. Onde encontra alguém íntegro, mostra-se um Deus íntegro, Salmos 18:25.

Observe: temer a Deus e praticar a justiça devem caminhar juntos. Assim como a justiça para com as pessoas é parte da verdadeira religião, a religião para com Deus é parte da justiça universal. Piedade e honestidade devem andar juntas; nenhuma delas desculpa a falta da outra. Mas onde ambas predominam, não há dúvida de que a pessoa será aceita por Deus.

Isso não significa que alguém, desde a queda, possa obter o favor de Deus de outra forma que não pela mediação de Jesus Cristo e pela graça de Deus nele. Mas aqueles que não o conhecem e, portanto, não podem voltar-se explicitamente a ele ainda podem receber graça de Deus por causa dele para temer a Deus e praticar a justiça.

Onde Deus concede essa graça, como concedeu a Cornélio, aceitará por meio de Cristo a obra de suas próprias mãos. Agora:

(1.) Isso sempre foi verdade, antes de Pedro perceber: Deus não faz acepção de pessoas. Desde o princípio, essa era a regra fixa do juízo: se você fizer o bem, não será aceito? E, se não fizer o bem, o pecado e sua punição estarão à porta, Gênesis 4:7.

No grande dia, Deus não perguntará a que país as pessoas pertenciam, mas o que eram, o que fizeram e qual foi sua atitude para com ele e para com seus próximos.

Se a grande diferença entre judeus e gentios não trazia vantagem nem desvantagem ao caráter pessoal de ninguém, muito menos o fará qualquer diferença menor de opiniões e práticas que possa existir entre os próprios cristãos, como as referentes a alimentos e dias, Romanos 14.

É certo que o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, paz e alegria no Espírito Santo. Quem serve a Cristo nessas coisas é aceito por Deus e deve ser aprovado pelas pessoas. Ousaremos rejeitar aqueles que Deus não rejeita?

(2.) Agora, porém, isso se tornou mais claro do que antes. Essa grande verdade havia sido obscurecida pela aliança de distinção exclusiva feita com Israel e pelos sinais de distinção postos sobre eles. A lei cerimonial era uma parede divisória entre os judeus e as demais nações.

É verdade que, por meio dela, Deus favoreceu aquela nação (Romanos 3:1, 2; 9:4). Daí indivíduos entre eles estavam prontos a concluir que sua aceitação por Deus estava garantida, embora vivessem como quisessem, e que nenhum gentio poderia jamais ser aceito por Deus.

Deus havia dito muitas coisas pelos profetas para prevenir e corrigir esse engano. Agora, por fim, o corrige de modo eficaz ao abolir a aliança de distinção exclusiva e revogar a lei cerimonial, abrindo assim a questão e colocando tanto judeus quanto gentios no mesmo nível diante de Deus.

Pedro percebe isso ao comparar a visão que tivera com a de Cornélio. Agora, em Cristo Jesus, está claro que nem a circuncisão tem valor algum nem a incircuncisão, Gálatas 5:6; Colossenses 3:11.

II. Porque eram gentios que habitavam dentro dos limites da terra de Israel, Pedro lhes recorda aquilo que não podiam deixar de saber a respeito da vida e da doutrina, da pregação e dos milagres, da morte e dos sofrimentos de nosso Senhor Jesus. A notícia dessas coisas se espalhara por todos os cantos daquela nação, v. 37, etc.

O trabalho dos ministros se torna mais fácil quando tratam com pessoas que já conhecem algo das coisas de Deus, às quais eles podem recorrer e sobre as quais podem edificar.

  1. Conheciam, em geral, a palavra, isto é, o evangelho que Deus enviou aos filhos de Israel: “Essa palavra, digo, vós conheceis”, v. 37. Embora os gentios não fossem admitidos a ouvi-la, pois Cristo e seus discípulos só foram enviados às ovelhas perdidas da casa de Israel, não podiam deixar de ouvir falar dela. Era o assunto de toda a cidade e do campo.

Os evangelhos nos contam muitas vezes como a fama de Cristo se espalhou por toda Canaã enquanto ele estava na terra, assim como, mais tarde, a fama de seu evangelho se espalhou pelo mundo, Romanos 10:18. Aquela palavra, aquela palavra divina, aquela palavra de poder e graça, vocês a conhecem.

(1.) Qual era o conteúdo dessa palavra. Por meio dela, Deus anunciou as boas notícias de paz em Jesus Cristo; assim se deve ler, euangelizomenos eirenev. O próprio Deus proclama a paz, embora pudesse com justiça ter proclamado a guerra.

Faz saber ao mundo dos seres humanos que está disposto a ter paz com eles por meio de Jesus Cristo; nele, reconciliava o mundo consigo mesmo.

(2.) A quem foi enviada: primeiro aos filhos de Israel. A eles se fez a primeira oferta. Todos os seus vizinhos souberam disso e estavam prontos a invejar-lhes as vantagens do evangelho mais do que jamais lhes haviam invejado as da lei. Então se disse entre as nações: “Grandes coisas fez o Senhor por eles”, Salmos 126:2.

  1. Conheciam os vários fatos relacionados à palavra do evangelho enviada a Israel:

(1.) Conheciam o batismo de arrependimento que João pregava como introdução a essa palavra, e com o qual o evangelho começou, Marcos 1:1. Sabiam que homem extraordinário João era, como sua pregação tendia diretamente a preparar o caminho do Senhor, quantas pessoas afluíam ao seu batismo, qual era sua influência e o que fazia.

(2.) Sabiam que, logo depois do batismo de João, o evangelho de Cristo, essa palavra de paz, foi anunciado por toda a Judeia, começando pela Galileia. Os doze apóstolos, os setenta discípulos e nosso próprio Mestre anunciaram essas boas notícias por toda a terra.

De modo que podemos supor que não havia cidade nem aldeia em toda a terra de Canaã onde o evangelho não tivesse sido pregado.

(3.) Sabiam que Jesus de Nazaré, quando esteve aqui na terra, andava fazendo o bem. Sabiam quanto beneficiara aquela nação, tanto a alma quanto o corpo das pessoas, como fazia do bem a todos sua ocupação e nunca prejudicava ninguém.

Não era ocioso, mas estava sempre agindo; não era egoísta, mas fazia o bem. Não se limitava a um lugar nem esperava que as pessoas viessem pedir-lhe ajuda: ia até elas, percorria muitos lugares e, aonde chegava, fazia o bem.

Assim mostrou que fora enviado por Deus, que é bom e faz o bem, e faz o bem porque é bom e, por fazer o bem, não deixou o mundo sem testemunho de si, Atos 14:17. Nisso nos deixou exemplo de dedicação incansável a servir a Deus e à nossa geração.

Pois viemos ao mundo para fazer nele todo o bem que pudermos e, à semelhança de Cristo, devemos continuamente permanecer nessa tarefa e nela abundar.

(4.) Sabiam, mais especificamente, que ele curava todos os oprimidos pelo diabo e os ajudava a sair de sob seu poder opressor. Isso mostrava não apenas que fora enviado por Deus, pois era bondade para com as pessoas, mas também que fora enviado para destruir as obras do diabo, sobre o qual obtivera assim muitas vitórias.

(5.) Sabiam que os judeus o levaram à morte; abateram-no, pendurando-o num madeiro. Quando Pedro pregou aos judeus, disse: “a quem vós abatestes”. Agora, pregando aos gentios, diz: “a quem eles abateram”, aqueles a quem Jesus fizera e tinha o desígnio de fazer tanto bem.

Tudo isso os gentios sabiam. Mas, para que não julgassem que era apenas um relato, ampliado além da verdade, como os relatos costumam ser, Pedro o confirmou em seu próprio nome e no dos demais apóstolos (v. 39): somos testemunhas, testemunhas oculares, de tudo o que ele fez, e testemunhas pelo ouvido da doutrina que pregou tanto na terra dos judeus quanto em Jerusalém, na cidade e no campo.

  1. Por tudo isso, sabiam ou podiam saber que Jesus havia recebido do céu uma comissão para pregar e agir como fizera. Pedro insiste continuamente nisso em seu discurso e aproveita toda oportunidade para lhes indicar essa verdade. Saibam:

(1.) Que esse Jesus é Senhor de todos. A afirmação aparece entre parênteses, mas é a principal proposição que se pretende provar: Jesus Cristo, por meio de quem se faz a paz entre Deus e o ser humano, é Senhor de todos.

Não só como Deus sobre todos, bendito para sempre, mas como Mediador, todo o poder tanto no céu quanto na terra foi posto na sua mão, e todo o juízo lhe foi confiado.

É Senhor dos anjos, todos eles seus humildes servos; Senhor dos poderes das trevas, pois triunfou sobre eles; rei das nações, com poder sobre toda carne; e rei dos santos, pois todos os filhos de Deus são seus alunos, súditos e soldados.

(2.) Que Deus o ungiu com o Espírito Santo e com poder. Pela unção divina recebeu tanto autoridade quanto capacidade para fazer o que fez; daí seu título de Cristo, o Messias, o Ungido. O Espírito Santo desceu sobre ele em seu batismo, e ele estava cheio de poder tanto para pregar quanto para realizar milagres, selo de uma missão divina.

(3.) Que Deus estava com ele, v. 38. Suas obras eram feitas em Deus. Deus não apenas o enviou, mas permaneceu com ele o tempo todo, confirmou-o, sustentou-o e o levou adiante em todos os seus serviços e sofrimentos. Repare: Deus acompanhará os que unge; ele próprio estará com aqueles a quem deu seu Espírito.

III. Como não tinham informações mais seguras a respeito de Jesus, Pedro lhes anuncia sua ressurreição dentre os mortos e as provas dela, para que não pensassem que a morte havia sido seu fim. Provavelmente tinham ouvido em Cesareia algum comentário de que ele ressuscitara.

Esse comentário, porém, logo foi abafado pela sugestão vil dos judeus de que os discípulos haviam vindo à noite e roubado seu corpo. Por isso Pedro insiste na ressurreição como o principal apoio da palavra que anuncia a paz por meio de Jesus Cristo.

  1. O poder pelo qual ressuscitou é incontestavelmente divino (v. 40): “Deus o ressuscitou ao terceiro dia”. Isso não apenas refutou todas as calúnias e acusações que as pessoas lançaram sobre ele, mas comprovou de maneira eficaz que Deus aceitou a satisfação que ofereceu pelo pecado humano mediante o sangue da sua cruz. Ele não fugiu da prisão; recebeu uma soltura legal. Deus o ressuscitou.

  2. As provas de sua ressurreição eram incontestavelmente claras, pois Deus o mostrou abertamente. Deus deu que fosse manifestado, edoken auton emphane genesthai, que fosse visto de modo evidente e reconhecível, de modo que não restasse dúvida de que era ele, e não outra pessoa.

Foi uma manifestação que constituía demonstração da verdade de sua ressurreição. Não o mostrou publicamente, de fato, pois não foi aberto nesse sentido, mas o mostrou de modo evidente. Não o mostrou a todo o povo que presenciara sua morte.

Por terem resistido a todas as provas de sua missão divina dadas em seus milagres, perderam o privilégio de testemunhar pessoalmente essa grande prova. Os que logo inventaram e divulgaram a mentira de que ele havia sido roubado foram, com justiça, entregues a fortes ilusões para crer nela.

Não lhes foi permitido ser desenganados por uma aparição diante de todo o povo. Por isso será ainda maior a bem-aventurança daqueles que não viram e, contudo, creram.

Nec ille se in vulgus edixit, ne impii errore, liberarentur; ut et fides non præmio mediocri destinato difficultate constaret: ele não se mostrou ao povo em geral, para que os ímpios entre eles não fossem logo libertados do engano e para que a fé, destinada a recompensa tão grande, fosse exercida com alguma dificuldade. Tertuliano, Apologia, cap. 11.

Mas, embora todo o povo não o tivesse visto, ainda assim um número suficiente de pessoas o viu para atestar a verdade de sua ressurreição. A declaração da última vontade e do testamento de alguém não precisa ocorrer diante de todo o povo; basta fazê-la perante um número adequado de testemunhas dignas de crédito. Assim, a ressurreição de Cristo foi provada diante de testemunhas suficientes.

(1.) Não se tornaram testemunhas por acaso: Deus as escolhera de antemão para isso. Como preparação, haviam sido educadas pelo Senhor Jesus e tido comunhão íntima com ele; por já o conhecerem tão bem, podiam ter maior certeza de que era ele.

(2.) Não o viram apenas de modo súbito e passageiro; tiveram muita comunhão livre com ele. Comeram e beberam com ele depois que ressuscitou dos mortos. Isso implica que o viram comer e beber, como aconteceu quando jantaram com ele à beira do mar de Tiberíades e quando os dois discípulos cearam com ele em Emaús.

Isso provava que ele tinha um corpo verdadeiro e real. Mas não era só isso: viram-no sem qualquer terror nem consternação que pudesse torná-los testemunhas incapazes. Viram-no tão frequentemente e ele teve comunhão com eles com tanta familiaridade que comeram e beberam com ele.

Como prova da visão clara que os nobres de Israel tiveram da glória de Deus (Êxodo 24:11), diz-se que “viram a Deus, e comeram e beberam”.

IV. Pedro conclui, deduzindo de tudo isso que todos devem crer em Jesus. Foi enviado para dizer a Cornélio o que deveria fazer, e é isto: suas orações e esmolas eram boas, mas faltava-lhe uma coisa; precisava crer em Cristo. Observe:

  1. Por que deve crer nele. A fé se refere a um testemunho, e a fé cristã se edifica sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, sobre o testemunho que eles deram.

(1.) Pelos apóstolos. Pedro fala em nome dos demais, como porta-voz, afirmando que Deus lhes ordenou e os encarregou de pregar ao povo e dar testemunho de Cristo. Assim, seu testemunho não era apenas digno de crédito, mas tinha autoridade e podia servir de base segura.

Seu testemunho é o testemunho de Deus; são suas testemunhas para o mundo. Não o apresentam apenas como notícia, mas o atestam como fato registrado pelo qual as pessoas serão julgadas.

(2.) Pelos profetas do Antigo Testamento. Seu testemunho antecipado, não só dos sofrimentos de Cristo mas também do desígnio e da intenção deles, confirma fortemente o testemunho apostólico a respeito desses sofrimentos (v. 43): “A ele todos os profetas dão testemunho”.

Temos motivos para pensar que Cornélio e seus amigos conheciam os escritos dos profetas. Da boca dessas duas nuvens de testemunhas, que concordam tão exatamente, essa palavra fica estabelecida.

  1. O que devem crer a respeito de Cristo:

(1.) Que todos somos responsáveis perante ele como nosso juiz. Os apóstolos receberam a ordem de atestar ao mundo que Jesus foi designado por Deus para julgar vivos e mortos, v. 42.

Ele recebeu poder para estabelecer as condições da salvação, a regra pela qual seremos julgados, e para dar leis tanto a vivos quanto a mortos, tanto a judeus quanto a gentios. Foi designado para determinar no grande dia a condição eterna de todos os seres humanos, tanto dos que forem encontrados vivos quanto dos que ressuscitarem dos mortos.

Deus nos deu certeza disso ao ressuscitá-lo dos mortos (Atos 17:31). Por isso é de grande interesse para todos nós crer nisso, buscar seu favor e fazer dele nosso amigo.

(2.) Que, se crermos nele, todos seremos justificados por ele como nossa justiça, v. 43. Ao falar da morte de Cristo, os profetas testemunharam que, por meio do nome dele, por causa dele e em consideração ao seu mérito, todo aquele que nele crê, judeu ou gentio, receberá remissão dos pecados.

É disso que mais precisamos; sem isso estaremos perdidos. É o que a consciência convencida mais procura. Os judeus carnais esperavam obtê-lo dos sacrifícios e das purificações cerimoniais, sim, e ainda os pagãos, de suas expiações, mas todos em vão.

A remissão só se obtém por meio do nome de Cristo e somente por aqueles que creem nesse nome. Os que creem podem ter certeza dela: seus pecados serão perdoados e não haverá condenação para eles.

A remissão dos pecados lança o fundamento de todos os outros favores e bênçãos ao retirar do caminho aquilo que os impede. Se o pecado for perdoado, tudo estará bem e terminará bem para sempre.

Versículos 44 a 48

O Efeito do Sermão de Pedro.

Temos aqui o resultado e o efeito do sermão de Pedro a Cornélio e seus amigos. Não trabalhou em vão entre eles, mas todos foram trazidos para o lar, para Cristo. Aqui temos:

I. Deus reconhecendo como sua a palavra de Pedro ao conferir o Espírito Santo a seus ouvintes e imediatamente ao ouvi-la (v. 44): Pedro ainda dizia essas palavras quando, talvez tendo o desígnio de dizer mais, foi felizmente suplantado por sinais visíveis de que o Espírito Santo havia caído sobre todos os que ouviam a palavra, até com seus dons e poderes milagrosos.

Caiu como, no início, caíra sobre os apóstolos; assim Pedro afirma em Atos 11:15. Por isso alguns pensam que houve um vento forte e impetuoso e línguas repartidas como naquela ocasião. Observe:

  1. Quando o Espírito Santo caiu sobre eles: enquanto Pedro pregava. Assim Deus deu testemunho do que ele dizia e acompanhou sua palavra com poder divino. Assim os sinais de apóstolo foram realizados entre eles, 2 Coríntios 12:12.

Embora Pedro não pudesse conceder o Espírito Santo, ainda assim, como o Espírito foi concedido junto com a palavra de Pedro, ficou claro que Deus o havia enviado. Sobre outros, o Espírito Santo caiu depois do batismo, para confirmá-los; sobre esses gentios, antes do batismo.

Da mesma maneira, Abraão foi justificado pela fé quando ainda não era circuncidado, para mostrar que Deus não está preso a um método nem se limita aos sinais externos. O Espírito Santo desceu sobre pessoas que não eram circuncidadas nem batizadas, pois é o Espírito quem dá vida; a carne não serve para nada.

  1. Como ficou evidente que o Espírito Santo havia caído sobre eles (v. 46): falavam línguas que jamais haviam aprendido, talvez o hebraico, a língua sagrada. Os pregadores receberam capacidade para falar as línguas comuns a fim de comunicar a doutrina de Cristo aos ouvintes.

Do mesmo modo, provavelmente aos ouvintes foi ensinada imediatamente a língua sagrada para examinar no original as provas que os pregadores tiravam do Antigo Testamento.

Ou então sua capacidade de falar línguas indicava que todos estavam destinados ao ministério. Por essa primeira descida do Espírito sobre eles foram capacitados a pregar o evangelho a outros, que eles próprios acabavam de receber.

Observe, porém: quando falavam línguas, engrandeciam a Deus. Falavam de Cristo e dos benefícios da redenção sobre os quais Pedro vinha pregando para a glória de Deus. Foi o que fizeram aqueles sobre os quais o Espírito Santo descera pela primeira vez, Atos 2:11.

Repare: qualquer que seja o dom que tenhamos recebido, devemos honrar a Deus com ele, especialmente com o dom da fala e todos os seus aproveitamentos.

  1. Que impressão isso causou nos judeus crentes presentes (v. 45): os crentes da circuncisão ficaram espantados, aqueles seis que vieram com Pedro. Ficaram extremamente surpresos e talvez um tanto inquietos, pois o dom do Espírito Santo foi derramado também sobre os gentios, o qual julgavam ter sido reservado à sua própria nação.

Se tivessem compreendido as escrituras do Antigo Testamento, que apontavam para isso, não teriam ficado tão espantados. Mas, por nossas ideias erradas sobre as coisas, criamos dificuldades para nós mesmos nos métodos da providência e da graça divinas.

II. Pedro reconhece a obra de Deus ao batizar aqueles sobre os quais o Espírito Santo havia caído. Observe:

  1. Embora tivessem recebido o Espírito Santo, ainda assim era necessário que fossem batizados. Embora Deus não esteja preso às ordenanças instituídas, nós estamos. E nenhum dom extraordinário nos coloca acima delas; antes, tanto mais nos obriga a nos conformarmos a elas.

Alguns hoje teriam argumentado: “Estes são batizados com o Espírito Santo e, por isso, que necessidade têm de ser batizados com água? Isso está abaixo deles”. Não: não está abaixo deles enquanto o batismo com água for uma ordenança de Cristo, a porta de entrada na igreja visível e um selo da nova aliança.

  1. Embora fossem gentios, ainda assim, tendo recebido o Espírito Santo, podiam ser admitidos ao batismo (v. 47). Pode alguém, por mais rígido que seja como judeu, impedir o uso da água para que não sejam batizados os que receberam o Espírito Santo como nós? A razão é conclusiva: podemos negar o sinal aos que receberam aquilo que ele representa?

Não têm claramente direito aos selos da aliança aqueles a quem Deus concedeu a graça da aliança? Certamente os que receberam o Espírito como nós devem também receber o batismo como nós. Pois nos convém seguir as indicações de Deus e admitir à nossa comunhão aqueles que ele admitiu à comunhão consigo.

Deus prometeu derramar seu Espírito sobre a descendência dos fiéis, sobre sua prole. E quem então poderá impedir o uso da água para que não sejam batizados os que receberam a promessa do Espírito Santo como nós?

Agora fica claro por que o Espírito lhes foi dado antes do batismo: de outro modo, Pedro não conseguiria convencer a si mesmo a batizá-los, assim como não teria conseguido pregar-lhes sem a ordem recebida na visão. Pelo menos, não poderia escapar à censura dos crentes da circuncisão.

Assim, um passo incomum da graça divina sucede a outro para trazer os gentios à igreja. Como é bom para nós que a graça de um Deus bondoso seja muito mais ampla que a caridade de alguns homens bons!

  1. Pedro não os batizou pessoalmente, mas ordenou que fossem batizados, v. 48. É provável que alguns dos irmãos que vieram com ele tenham feito isso por ordem dele e que ele tenha se recusado pelo mesmo motivo que Paulo: para que os batizados por ele não pensassem melhor de si mesmos por isso, nem parecesse que os havia batizado em seu próprio nome, 1 Coríntios 1:15.

Os apóstolos receberam a comissão de ir e fazer discípulos de todas as nações por meio do batismo. Mas era à oração e ao ministério da palavra que deviam dedicar-se. E Paulo diz que fora enviado não para batizar, mas para pregar, obra mais nobre e excelente.

Por isso, a tarefa de batizar era normalmente entregue a ministros de posição inferior. Estes agiam por ordem dos apóstolos, de modo que se podia dizer que os próprios apóstolos batizavam. Qui per alterum facit, per seipsum facere dicitur: o que um homem faz por outro pode-se dizer que faz por si mesmo.

III. Eles reconhecem tanto a palavra de Pedro quanto a obra de Deus ao desejar obter proveito ulterior de seu ministério: pediram-lhe que ficasse alguns dias. Não podiam pressioná-lo a residir entre eles continuamente: sabiam que tinha trabalho a fazer em outros lugares e que, por ora, era esperado em Jerusalém.

Não queriam, porém, que partisse de imediato. Pediram com insistência que ficasse algum tempo entre eles para que os instruísse ulteriormente nas coisas referentes ao reino de Deus. Repare:

  1. Os que têm algum conhecimento de Cristo não podem deixar de desejar mais.

  2. Mesmo aqueles que receberam o Espírito Santo precisam reconhecer que necessitam do ministério da palavra.


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