Apocalipse 7
Argumento
Os acontecimentos deste capítulo vêm depois da abertura dos seis selos, que prenunciaram grandes calamidades no mundo, e antes do toque das sete trombetas, que anunciaram grandes corrupções surgindo na igreja. Entre eles está este capítulo consolador, que assegura as graças e consolações do povo de Deus em tempos de calamidade geral.
Temos aqui: I. O relato da contenção dos ventos, vv. 1-3. II. A selagem dos servos de Deus, vv. 4-8. III. Os cânticos dos anjos e dos santos nessa ocasião, vv. 9-12. IV. A descrição da honra e felicidade dos que serviram fielmente a Cristo e sofreram por ele, v. 13 etc.
Versículos 1 a 12
A Visão do Céu. (95 d.C.)
Temos aqui: I. O relato da contenção dos ventos.
Supomos que esses ventos representem os erros e as corrupções da religião, que causariam muitos problemas e males à igreja de Deus. Às vezes o Espírito Santo é comparado ao vento; aqui os espíritos do erro são comparados aos quatro ventos, contrários uns aos outros, mas causando muito dano à igreja, jardim e vinha de Deus, quebrando os ramos e crestando os frutos de sua plantação.
O diabo é chamado príncipe da potestade do ar; por meio de um grande vento, derrubou a casa do filho mais velho de Jó. Os erros são como o vento, pelo qual os instáveis são abalados e levados de um lado para outro (Efésios 4:14). Observe: 1. São chamados ventos da terra porque sopram somente nestas regiões inferiores, perto da terra; o céu está sempre claro e livre deles.
- São contidos pelo ministério dos anjos, que estão nos quatro cantos da terra. Isso indica que o espírito do erro não pode sair até que Deus o permita e que os anjos servem ao bem da igreja ao conterem seus inimigos. 3. Essa contenção duraria somente por um tempo, até que os servos de Deus fossem selados na testa.
Deus cuida de modo especial de seus próprios servos e se preocupa com eles em tempos de tentação e corrupção; tem um meio de protegê-los da contaminação geral. Primeiro os estabelece e depois os prova; tem em suas próprias mãos o tempo de suas provações.
II. O relato da selagem dos servos de Deus. Observe: 1. A quem foi confiada essa tarefa: a um anjo, outro anjo. Enquanto alguns anjos eram empregados para conter Satanás e seus agentes, outro anjo foi encarregado de marcar e distinguir os servos fiéis de Deus.
Como foram distinguidos: o selo de Deus foi posto na testa deles, um selo conhecido por ele e tão claro como se aparecesse na testa dos servos. Por essa marca foram separados para receber misericórdia e segurança nos piores tempos.
O número dos selados. Observe: (1.) Um relato particular dos selados das doze tribos de Israel: doze mil de cada tribo, totalizando cento e quarenta e quatro mil. Nesta lista, a tribo de Dã é omitida, talvez porque seus membros fossem muito inclinados à idolatria; e a ordem das tribos foi alterada, talvez segundo tivessem sido mais ou menos fiéis a Deus.
Alguns entendem que eram um número escolhido de judeus reservados para receber misericórdia na destruição de Jerusalém; outros pensam que aquele tempo já havia passado e, portanto, a passagem deve ser aplicada de modo mais geral ao remanescente escolhido de Deus no mundo.
Se a destruição de Jerusalém ainda não havia ocorrido, e creio ser difícil provar que já ocorrera, parece mais apropriado entender que se trata do remanescente daquele povo, que Deus reservou segundo a eleição da graça; aqui, porém, temos um número definido usado por um indefinido.
(2.) Um relato geral dos salvos dentre as outras nações (v. 9): “Uma grande multidão, que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas.” Embora não se diga que foram selados, ainda assim Deus os escolheu dentre todas as nações, trouxe-os à sua igreja e ali ficaram de pé diante do trono.
Observe: [1.] Deus terá uma colheita de almas entre os gentios maior do que teve entre os judeus. São mais os filhos da desamparada que os da casada.
[2.] O Senhor conhece os que lhe pertencem e os guardará em segurança nos tempos de tentação perigosa. [3.] Embora a igreja de Deus seja um pequeno rebanho em comparação com o mundo ímpio, ainda assim não é uma comunidade desprezível, mas realmente numerosa e destinada a crescer ainda mais.
III. Temos os cânticos dos santos e dos anjos nessa ocasião (vv. 9-12). Observe:
- Os louvores oferecidos pelos santos, ao que me parece, pelos crentes gentios, em gratidão pelo cuidado de Deus ao reservar tão grande remanescente dos judeus e salvá-los da infidelidade e da destruição.
A igreja judaica orou pelos gentios antes de sua conversão; as igrejas gentílicas têm razão para agradecer a Deus por sua misericórdia especial para com tantos judeus, quando os demais foram eliminados. Observe: (1.) A posição desses santos que louvavam: estavam diante do trono e diante do Cordeiro, diante do Criador e do Mediador.
Nos atos de culto religioso, aproximamo-nos de Deus e devemos considerar que estamos em sua presença especial; devemos chegar a Deus por meio de Cristo. O trono de Deus seria inacessível aos pecadores se não houvesse um Mediador.
(2.) Sua vestimenta: estavam vestidos de roupas brancas e tinham palmas nas mãos. Trajavam as vestes de justificação, santidade e vitória; traziam palmas nas mãos, como costumavam aparecer os vencedores em seus triunfos. Assim aparecerão por fim os servos fiéis de Deus, depois de combaterem o bom combate da fé e terminarem sua carreira.
(3.) Seu serviço: clamavam em alta voz, dizendo: “Salvação ao nosso Deus, que está assentado no trono, e ao Cordeiro.” Isso pode ser entendido como hosana, desejando o bem aos interesses de Deus e de Cristo na igreja e no mundo, ou como aleluia, atribuindo a Deus e ao Cordeiro o louvor pela grande salvação.
O Pai e o Filho são unidos nesses louvores: o Pai planejou a salvação, o Filho a comprou, e os que dela desfrutam devem e hão de bendizer o Senhor e o Cordeiro. Farão isso publicamente e com fervor apropriado.
- Temos o cântico dos anjos (vv. 11-12). Observe: (1.) Seu lugar: estavam diante do trono de Deus, servindo-o, e ao redor dos santos, prontos para servi-los. (2.) Sua posição era muito humilde e expressava a maior reverência: “Caíram sobre os seus rostos diante do trono e adoraram a Deus.”
Vejam as mais excelentes de todas as criaturas, que nunca pecaram e estão continuamente diante de Deus: não apenas cobrem o rosto, mas caem com o rosto em terra diante do Senhor! Quanta humildade e profunda reverência convêm, então, a nós, criaturas vis e frágeis, quando entramos na presença de Deus!
Devemos prostrar-nos diante dele; em todas as nossas súplicas a Deus, deve haver tanto uma disposição reverente de espírito como uma conduta humilde. (3.) Seus louvores: concordaram com os louvores dos santos e disseram “Amém”. No céu há perfeita harmonia entre anjos e santos.
Depois acrescentaram louvores próprios, dizendo: “Bênção, e glória, e sabedoria, e ação de graças, e honra, e poder, e força sejam ao nosso Deus para todo o sempre. Amém.”
[1.] Reconhecem os gloriosos atributos de Deus: sua sabedoria, seu poder e sua força. [2.] Declaram que, por essas perfeições divinas, ele deve ser bendito, louvado e glorificado por toda a eternidade; e confirmam isso com seu “Amém”.
Vemos qual é a obra do céu; devemos começar a realizá-la agora, afinar o coração para ela, ocupar-nos muito nela e ansiar por aquele mundo em que nossos louvores, assim como nossa felicidade, serão aperfeiçoados.
Versículos 13 a 17
Honra e Felicidade dos Santos. (95 d.C.)
Temos aqui uma descrição da honra e felicidade dos que serviram fielmente ao Senhor Jesus Cristo e sofreram por ele. Observe:
I. Um dos anciãos faz uma pergunta, não para obter informação para si, mas para instruir João. Os ministros podem aprender do povo, especialmente de cristãos idosos e experientes; o menor santo no céu sabe mais que o maior apóstolo no mundo.
A pergunta tem duas partes: 1. “Quem são estes vestidos de vestes brancas?” 2. “De onde vieram?” Parece ter sido feita por admiração, como em Cantares de Salomão 3:6: “Quem é esta que vem do deserto!” Os cristãos fiéis merecem nossa atenção e nosso respeito; devemos observar os retos.
II. O apóstolo dá a resposta, reconhecendo implicitamente sua própria ignorância e pedindo informação a esse ancião: “Tu sabes.” Os que desejam adquirir conhecimento não devem envergonhar-se de reconhecer sua ignorância nem de pedir instrução a quem pode dá-la.
III. É dado ao apóstolo o relato daquele nobre exército de mártires, que estava diante do trono de Deus com vestes brancas e palmas da vitória nas mãos. Observe:
- O estado humilde e desolado em que estiveram antes. Passaram por grande tribulação; foram perseguidos pelos homens, tentados por Satanás e, às vezes, afligidos no próprio espírito. Sofreram o saque de seus bens, a prisão e até a própria morte.
O caminho para o céu passa por muitas tribulações; mas nenhuma tribulação, por maior que seja, nos separará do amor de Deus. Quando bem suportada, a tribulação torna o céu mais acolhedor e glorioso.
O meio pelo qual foram preparados para a grande honra e felicidade que agora desfrutam: “Lavaram as suas vestes e as branquearam no sangue do Cordeiro” (v. 14). Não é o sangue dos próprios mártires, mas o sangue do Cordeiro que pode lavar o pecado e tornar a alma pura e limpa aos olhos de Deus. Qualquer outro sangue mancha; somente este torna brancas e limpas as vestes dos santos.
A bem-aventurança a que agora chegaram, preparados desse modo. (1.) São felizes em sua posição, pois estão diante do trono de Deus dia e noite, e Deus habita entre eles. Estão naquela presença em que há plenitude de alegria.
(2.) São felizes em seu serviço, pois servem continuamente a Deus sem fraqueza, sonolência ou cansaço. O céu é um estado de serviço, embora não de sofrimento; é um estado de repouso, mas não de ociosidade; é um repouso agradável e cheio de louvor.
(3.) São felizes por estarem livres de todos os inconvenientes desta vida presente. [1.] De toda necessidade e de toda sensação de necessidade: não têm mais fome nem sede; todas as suas necessidades são supridas, e todo o desconforto que delas resultava foi removido.
[2.] De toda doença e dor: jamais serão abrasados pelo calor do sol.
(4.) São felizes no amor e na direção do Senhor Jesus: ele os apascentará, ele os conduzirá às fontes das águas vivas e lhes dará posse de tudo o que é agradável e refrescante para suas almas. Por isso, nunca mais terão fome nem sede.
(5.) São felizes por terem sido libertos de toda tristeza e de tudo o que a causa: “Deus enxugará de seus olhos todas as lágrimas.” Antes, tiveram tristezas e derramaram muitas lágrimas por causa do pecado e da aflição; mas o próprio Deus, com sua própria mão terna e graciosa, enxugará essas lágrimas, e nunca mais voltarão.
E não desejariam ter passado sem elas quando Deus vier enxugá-las. Ele os trata como um pai afetuoso que encontra em lágrimas o filho amado: consola-o, enxuga-lhe os olhos e transforma sua tristeza em alegria.
Isso deve moderar a tristeza do cristão em sua condição presente e sustentá-lo em todas as suas aflições, pois os que semeiam em lágrimas colherão com alegria; os que agora saem chorando, levando a preciosa semente, certamente voltarão com júbilo, trazendo consigo os seus molhos.