Matthew Henry

Apocalipse 6

Argumento

Estando assim o livro dos conselhos divinos nas mãos de Cristo, ele não perde tempo e logo começa a abrir os selos e publicar seu conteúdo. Ainda assim, as profecias continuam muito obscuras e difíceis de entender.

Até aqui, as águas do santuário foram como as da visão de Ezequiel: chegaram apenas aos tornozelos, aos joelhos ou, ao menos, aos lombos; mas agora começam a ser um rio que não se pode atravessar.

As visões que João teve, as epístolas às igrejas e os cânticos de louvor dos dois capítulos anteriores continham coisas obscuras e difíceis de entender; ainda assim, eram mais leite para crianças que alimento sólido para homens fortes.

Agora, porém, devemos lançar-nos às profundezas, e nossa tarefa não é tanto sondá-las como lançar a rede para obter uma pesca. Limitamo-nos a apontar o que parece mais evidente.

As profecias deste livro dividem-se em sete selos abertos, sete trombetas que soam e sete taças derramadas. Supõe-se que a abertura dos sete selos revela os atos da providência relativos à igreja nos três primeiros séculos, desde a ascensão de nosso Senhor e Salvador até o reinado de Constantino.

Isso foi representado num livro enrolado e selado em vários lugares, de modo que, aberto um selo, se pudesse ler até aquele ponto, e assim por diante, até que tudo fosse revelado. Contudo, não nos é dito aqui o que estava escrito no livro, mas o que João viu em figuras enigmáticas e hieroglíficas.

Não nos cabe pretender conhecer “os tempos e as épocas que o Pai pôs sob seu próprio poder”. Neste capítulo são abertos seis dos sete selos e relatadas as visões que os acompanham: o primeiro selo, v. 1, 2; o segundo, v. 3, 4; o terceiro, v. 5, 6; o quarto, v. 7, 8; o quinto, vv. 9-11; o sexto, v. 12, 13, etc.

Versículo 1

A Abertura dos Selos. (95 d.C.)

Aqui: 1. Cristo, o Cordeiro, abre o primeiro selo e dá início à grande obra de revelar e cumprir os propósitos de Deus para com a igreja e o mundo. 2. Um dos ministros da igreja chama o apóstolo, com voz semelhante a um trovão, para que se aproxime e observe o que então apareceu. 3. Temos a própria visão, no v. 2.

(1.) O Senhor Jesus aparece montado num cavalo branco. Em geral, cavalos brancos são evitados na guerra, pois fazem do cavaleiro um alvo para o inimigo. Nosso Senhor e Redentor, porém, tinha certeza da vitória e de um triunfo glorioso; cavalga pelo mundo com grande rapidez no cavalo branco de um evangelho puro, embora desprezado.

(2.) Tinha um arco na mão. As convicções impressas pela palavra de Deus são flechas agudas, que alcançam de longe. Ainda que os ministros da palavra atirem com o arco ao acaso, Deus pode e há de dirigi-lo às juntas da armadura. Este arco, na mão de Cristo, permanece forte e, como o de Jônatas, nunca volta vazio.

(3.) Foi-lhe dada uma coroa, indicando que todos os que recebem o evangelho devem receber Cristo como Rei e ser seus súditos leais e obedientes. Cristo será glorificado pelo êxito do evangelho. Quando Cristo ia para a guerra, poder-se-ia pensar que um capacete seria mais apropriado que uma coroa; mas a coroa lhe é dada como garantia e emblema da vitória.

(4.) Saiu vencendo e para vencer. Enquanto a igreja permanecer em combate, Cristo continuará vencendo. Depois de vencer seus inimigos numa época, encontra outros na época seguinte; os homens continuam a opor-se, e Cristo continua a vencer. Suas vitórias anteriores são garantias das futuras.

Ele vence os inimigos em seu povo: os pecados deles são inimigos deles e de Cristo. Quando Cristo vem com poder à alma, começa a vencer esses inimigos e prossegue vencendo na obra progressiva da santificação, até alcançar para nós uma vitória completa.

Vence também seus inimigos no mundo, os homens ímpios: alguns, trazendo-os aos seus pés; outros, fazendo deles seu estrado. Observe, a partir deste selo aberto: [1.] O avanço vitorioso do evangelho de Cristo no mundo é uma visão gloriosa, digna de ser contemplada; é a visão mais agradável e bem-vinda que um homem bom pode ter neste mundo.

[2.] Quaisquer convulsões e revoluções que ocorram nos Estados e reinos do mundo, o reino de Cristo será estabelecido e ampliado, apesar de toda oposição. [3.] Uma manhã de oportunidade costuma preceder uma noite de calamidade: o evangelho é pregado antes que as pragas sejam derramadas.

[4.] A obra de Cristo não se realiza toda de uma vez. Estamos inclinados a pensar que, quando o evangelho sai, deve levar o mundo inteiro diante de si; mas muitas vezes encontra oposição e avança lentamente. Cristo, porém, realizará sua obra com eficácia, a seu tempo e à sua maneira.

Versículos 3 a 8

A Abertura dos Selos. (95 d.C.)

Os três selos seguintes nos oferecem um quadro triste de grandes juízos devastadores, com que Deus castiga os que rejeitam o evangelho eterno ou fazem mau uso dele.

Alguns os entendem como perseguições sofridas pela igreja de Cristo; outros, como a destruição dos judeus. Parece mais provável, porém, que representem de modo geral os terríveis juízos de Deus, pelos quais ele vinga a causa de sua aliança contra os que a desprezam.

I. Ao abrir-se o segundo selo, a cuja observação João foi chamado, aparece outro cavalo, de cor diferente do anterior: um cavalo vermelho (v. 4). Significa o juízo devastador da guerra. Aquele que montava o cavalo vermelho tinha poder para tirar a paz da terra, fazendo com que seus habitantes se matassem uns aos outros.

Não está claro quem era o cavaleiro: o próprio Cristo, como Senhor dos Exércitos, ou os instrumentos que ele levantou para conduzir a guerra. Mas é certo: 1. Os que não se submeterem ao arco do evangelho devem esperar ser despedaçados pela espada da justiça divina. 2. Jesus Cristo governa e ordena não somente no reino da graça, mas também no da providência.

  1. A espada da guerra é um juízo terrível. Tira da terra a paz, uma das maiores bênçãos, e leva os homens a matar uns aos outros. Homens que deveriam amar e ajudar uns aos outros, em estado de guerra se põem a matar uns aos outros.

II. Ao abrir-se o terceiro selo, que João foi instruído a observar, aparece outro cavalo, diferente do anterior: um cavalo preto, que significa a fome, esse terrível juízo. Aquele que o montava tinha na mão uma balança (v. 5), indicando que os homens teriam de comer o pão pesado, conforme a ameaça: “Entregar-vos-ão o pão por peso” (Levítico 26:26).

O que vem a seguir, no v. 6, sobre a voz que dizia: “Uma medida de trigo por um dinheiro, e três medidas de cevada por um dinheiro, e vê que não danifiques o azeite e o vinho”, levou alguns expositores a pensar que não se tratava de uma visão de fome, mas de fartura.

Mas, se considerarmos o tamanho da medida e o valor do dinheiro na época desta profecia, a objeção desaparecerá. A medida era apenas um quartilho, e o dinheiro valia sete pence e meio de nossa moeda; é uma quantia elevada por um quartilho de trigo.

De todo modo, parece que essa fome, como todas as outras, recaiu com maior severidade sobre os pobres, enquanto o azeite e o vinho, iguarias dos ricos, não foram atingidos. Mas, se o pão, o esteio da vida, for quebrado, as iguarias não poderão substituí-lo. Observe: 1. Quando um povo sente aversão por seu alimento espiritual, Deus pode justamente privá-lo do pão de cada dia.

  1. Raramente um juízo vem sozinho. O juízo da guerra naturalmente traz consigo o da fome; e os que não se humilham sob um juízo devem esperar outro, ainda maior, pois, quando Deus contende, prevalecerá. A fome de pão é um juízo terrível; a fome da palavra é ainda mais terrível, embora os pecadores descuidados não o percebam.

III. Ao abrir-se o quarto selo, que João é ordenado a observar, aparece outro cavalo, de cor pálida. Observe: 1. O nome do cavaleiro: Morte, o rei dos terrores. A peste é a morte em seu império, a morte reinando sobre um lugar ou nação, a morte a cavalo, percorrendo a terra e fazendo novas conquistas a cada hora.

  1. Os acompanhantes ou seguidores desse rei dos terrores: o inferno, estado de miséria eterna para todos os que morrem em seus pecados. Numa destruição tão geral, multidões descem despreparadas ao vale da destruição. É um pensamento terrível, suficiente para fazer o mundo inteiro tremer: a condenação eterna segue imediatamente à morte do pecador impenitente.

Observe: (1.) Há uma ligação natural, bem como judicial, entre um juízo e outro. A guerra é uma calamidade devastadora e traz escassez e fome; a fome, ao privar os homens do sustento adequado e obrigá-los a tomar alimentos nocivos, muitas vezes atrai a peste.

(2.) A aljava de Deus está cheia de flechas; nunca lhe faltam meios para punir um povo perverso. (3.) No livro dos conselhos de Deus, há juízos preparados para os escarnecedores, assim como misericórdia para os pecadores arrependidos.

(4.) No livro das Escrituras, Deus publicou ameaças contra os ímpios, assim como promessas aos justos. É nosso dever observar e crer nas ameaças tanto quanto nas promessas.

IV. Depois da abertura desses selos que anunciam os juízos e de seu relato particular, temos esta observação geral: Deus lhes deu poder sobre a quarta parte da terra, para matar à espada, com fome, com a morte e com as feras da terra (v. 8).

Deu-lhes poder, isto é, àqueles instrumentos de sua ira ou aos próprios juízos. Aquele que segura os ventos na mão tem todas as calamidades públicas sob seu comando; elas só podem vir quando ele as envia e não vão além do que ele permite.

Às três grandes calamidades, guerra, fome e peste, acrescentam-se aqui as feras da terra, outro dos severos juízos de Deus, mencionado em Ezequiel 14:21. É citado por último porque, quando uma nação é despovoada pela espada, pela fome e pela peste, o pequeno remanescente que continua num deserto devastado e uivante atrai as feras para atacá-lo e se torna presa fácil.

Outros entendem que as feras do campo são homens brutais, cruéis e selvagens que, tendo abandonado toda humanidade, se deleitam em servir de instrumentos para a destruição de outros.

Versículos 9 a 17

A Abertura dos Selos. (95 d.C.)

Na parte restante deste capítulo temos a abertura do quinto e do sexto selos.

I. O quinto selo. Não se menciona ninguém que chamasse o apóstolo para observar. Talvez se devesse respeitar a ordem própria da visão, e cada um dos quatro seres viventes já tivesse cumprido antes o dever de advertir.

Ou talvez os acontecimentos revelados aqui estivessem fora do alcance e além do tempo dos ministros da igreja de então; ou esta parte não trouxesse uma nova profecia de acontecimentos futuros, mas antes abrisse uma fonte de apoio e consolação aos que tinham estado e ainda estavam em grande tribulação por causa de Cristo e do evangelho. Observe:

  1. O que o apóstolo viu quando se abriu o quinto selo era uma visão muito comovente (v. 9): “Vi debaixo do altar as almas dos que foram mortos por causa da palavra de Deus e do testemunho que mantinham.” Viu as almas dos mártires. Observe: (1.) Onde os viu: debaixo do altar, ao pé do altar de incenso, no Santo dos Santos; viu-os no céu, aos pés de Cristo.

Daí aprendemos: [1.] Os perseguidores só podem matar o corpo; depois disso, nada mais podem fazer, pois as almas dos perseguidos vivem. [2.] Deus preparou no mundo melhor um bom lugar para os que são fiéis até a morte e já não têm permissão para permanecer na terra.

[3.] Os santos mártires estão muito perto de Cristo no céu e ocupam ali o lugar mais elevado. [4.] Não é a morte deles, mas o sacrifício de Cristo, que lhes dá entrada no céu e recompensa ali. Não lavam suas vestes no próprio sangue, mas no sangue do Cordeiro.

(2.) A causa pela qual sofreram: a palavra de Deus e o testemunho que mantinham; sofreram por crer na palavra de Deus e atestar ou confessar sua verdade. Mantiveram firme essa profissão de fé, sem vacilar, embora morressem por ela. Nobre causa, a melhor pela qual alguém pode entregar a vida: a fé na palavra de Deus e a confissão dessa fé.

  1. Ouviu o clamor deles, um clamor alto que continha uma humilde súplica acerca da longa demora da justiça vingadora contra seus inimigos: “Até quando, ó Senhor, santo e verdadeiro, não julgas e vingas o nosso sangue dos que habitam sobre a terra?” (v. 10).

Observe: (1.) Mesmo os espíritos dos justos aperfeiçoados conservam justa indignação pelo mal sofrido de seus cruéis inimigos. Embora morram em caridade e orem, como Cristo, para que Deus os perdoe, desejam que, pela honra de Deus, de Cristo e do evangelho, e para aterrorizar e convencer outros, Deus vingue justamente o pecado da perseguição, mesmo enquanto perdoa e salva os perseguidores.

(2.) Entregam sua causa àquele a quem pertence a vingança e deixam-na em suas mãos; não procuram vingar-se, mas deixam tudo com Deus. (3.) Haverá alegria no céu quando forem destruídos os inimigos implacáveis de Cristo e do cristianismo, assim como há alegria pela conversão de outros pecadores.

Quando Babilônia cair, dir-se-á: Alegrem-se com a queda dela, ó céu, e vocês, santos apóstolos e profetas, porque Deus os vingou dela (Apocalipse 18:20).

  1. Observou a resposta bondosa que receberam (v. 11), tanto o que lhes foi dado como o que lhes foi dito. (1.) O que lhes foi dado: vestes brancas, vestes de vitória e honra; sua felicidade presente era ampla recompensa por seus sofrimentos passados.

(2.) O que lhes foi dito: que ficassem satisfeitos e tranquilos, pois não demoraria até que se completasse o número de seus companheiros de sofrimento. Essa linguagem se ajusta mais ao estado imperfeito dos santos neste mundo do que à perfeição de seu estado no céu; lá não há impaciência, inquietação nem necessidade de admoestação. Neste mundo, porém, há grande necessidade de paciência.

Observe: [1.] Há um número de cristãos, conhecido por Deus, designados como ovelhas para o matadouro e separados para serem testemunhas de Deus. [2.] Assim como se completa a medida do pecado dos perseguidores, também se completa o número dos servos mártires de Cristo que são perseguidos.

[3.] Quando esse número se completar, Deus executará vingança justa e gloriosa contra seus cruéis perseguidores. Retribuirá tribulação aos que os atribulam e dará aos atribulados repouso pleno e ininterrupto.

II. Temos aqui a abertura do sexto selo (v. 12). Alguns aplicam isso às grandes revoluções do império nos dias de Constantino, quando caiu o paganismo; outros, com grande probabilidade, à destruição de Jerusalém, como emblema do juízo geral e da destruição dos ímpios no fim do mundo.

De fato, os sinais terríveis deste acontecimento são tão semelhantes aos que nosso Salvador mencionou como prenúncio da destruição de Jerusalém que quase não resta dúvida de que ambos os lugares se referem ao mesmo acontecimento, embora alguns pensem que ele já tivesse ocorrido. Veja Mateus 24:29, 30. Observe:

  1. Os acontecimentos terríveis que se aproximavam. Várias ocorrências contribuiriam para tornar aquele dia e aquela dispensação muito apavorantes: (1.) Houve um grande terremoto. Pode ser entendido em sentido político: os próprios fundamentos da igreja e do Estado judeus seriam terrivelmente abalados, embora parecessem tão firmes como a própria terra.

(2.) O sol tornou-se negro como saco de crina, naturalmente, por um eclipse total, ou politicamente, pela queda dos principais governantes da terra. (3.) A lua tornar-se-ia como sangue: os oficiais inferiores ou seus militares estariam todos banhados no próprio sangue.

(4.) As estrelas do céu cairão sobre a terra (v. 13), como quando uma figueira, sacudida por um vento forte, deixa cair seus figos verdes. As estrelas podem representar todos os homens notáveis e influentes entre eles, embora atuassem em esferas inferiores; haveria devastação geral.

(5.) O céu se retiraria como um rolo que se enrola. Isso pode significar que a ordem eclesiástica deles pereceria e seria abolida para sempre. (6.) Toda montanha e ilha serão removidas de seu lugar.

A destruição da nação judaica afetaria e aterrorizaria todas as nações vizinhas, tanto as de posição mais elevada como as que pareciam mais seguras; seria um juízo que espantaria o mundo inteiro. Isso conduz a:

  1. O pavor e o terror que tomariam todas as classes de pessoas naquele dia grandioso e terrível (v. 15). Autoridade, grandeza, riquezas, coragem ou força não seriam capazes de sustentar ninguém. Até os pobres escravos, que se poderia pensar nada terem a temer por nada terem a perder, ficariam todos aterrorizados naquele dia.

Observe: (1.) A intensidade do terror e do assombro: seria tanta que, como homens desesperados e fora de si, pediriam às montanhas que caíssem sobre eles e às colinas que os cobrissem. Ficariam contentes em não serem mais vistos, sim, em deixar de existir.

(2.) A causa de seu terror: o semblante irado daquele que está sentado no trono e a ira do Cordeiro. Observe: [1.] O que desagrada a Cristo também desagrada a Deus; são tão inteiramente um que o que agrada ou desagrada a um também agrada ou desagrada ao outro.

[2.] Embora Deus seja invisível, pode fazer os habitantes deste mundo sentirem seus terríveis olhares de reprovação. [3.] Embora Cristo seja um Cordeiro, pode irar-se, e até enfurecer-se; a ira do Cordeiro é terrivelmente assustadora. Se o próprio Redentor, que aplaca a ira de Deus, se torna nosso inimigo irado, onde encontraremos um amigo que interceda por nós?

Perecem sem remédio os que perecem sob a ira do Redentor. [4.] Assim como os homens têm seu dia de oportunidade e seus tempos de graça, Deus tem seu dia de ira justa. Quando esse dia chegar, nem os pecadores de coração mais intrépido poderão subsistir diante dele.

Todos esses terrores de fato caíram sobre os pecadores da Judeia e de Jerusalém no dia de sua destruição; e cairão, em grau máximo, sobre os pecadores impenitentes no juízo geral do último dia.


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