Matthew Henry

Apocalipse 5

Argumento

No capítulo anterior, a cena profética foi aberta diante dos olhos e ouvidos do apóstolo; ele viu Deus, Criador e governador do mundo, o grande Rei da igreja. Viu Deus no trono de glória e governo, rodeado por seus santos e recebendo sua adoração.

Agora os conselhos e decretos de Deus são apresentados ao apóstolo como num livro, que Deus segurava na mão direita. Esse livro é representado: I. Selado na mão de Deus, vv. 1-9. II. Tomado na mão de Cristo, o Redentor, para ser deslacrado e aberto, v. 6 até o fim.

Versículos 1 a 5

O Livro Selado. (95 d.C.)

Até aqui, o apóstolo havia visto somente o grande Deus, governador de todas as coisas. Agora:

I. Ele é favorecido com uma visão do modelo e dos métodos do governo de Deus, todos registrados num livro que ele segura na mão. Devemos agora considerar esse livro fechado e selado na mão de Deus. Observe:

  1. Os desígnios e métodos da providência divina para com a igreja e o mundo estão determinados e estabelecidos; resolvidos e acordados, como algo escrito num livro. O grande plano foi traçado, cada parte ajustada, tudo determinado, decretado e registrado.

O original e primeiro esboço desse livro é o livro dos decretos de Deus, guardado em seu próprio arquivo, em sua mente eterna. Mas há uma transcrição daquilo que era necessário conhecer no livro das Escrituras em geral, especialmente na parte profética, e, em particular, nesta profecia.

  1. Deus segura esse livro na mão direita para declarar sua autoridade e sua prontidão e resolução de executar todo o seu conteúdo, todos os conselhos e propósitos nele registrados.

  2. Este livro na mão de Deus está fechado e selado; ninguém o conhece além dele mesmo, até que permita que seja aberto. Desde o princípio do mundo, suas obras são conhecidas por Deus, e somente por ele; é sua glória, porém, ocultar a questão como lhe apraz. Os tempos, as épocas e seus grandes acontecimentos ele conservou em suas próprias mãos e sob seu poder.

  3. O livro está selado com sete selos. Isso nos mostra o segredo impenetrável com que os conselhos de Deus são guardados, inacessíveis ao olhar e ao entendimento das criaturas; também nos indica as sete partes distintas desse livro dos conselhos de Deus.

Cada parte parece ter seu próprio selo e, quando aberta, revela os acontecimentos que lhe correspondem. Essas sete partes não são deslacradas e abertas de uma só vez, mas sucessivamente: uma cena da providência introduz e explica a seguinte, até que se complete no mundo todo o mistério do conselho e do governo de Deus.

II. Ele ouviu um anúncio a respeito desse livro selado. 1. O mensageiro era um anjo forte; não que haja anjos fracos entre os que estão no céu, embora haja muitos entre os anjos das igrejas.

Esse anjo parece surgir não somente como mensageiro, mas como campeão, desafiando qualquer criatura, ou todas elas, a provar a força de sua sabedoria para abrir os conselhos de Deus. Como campeão, clamou em alta voz, para que toda criatura pudesse ouvi-lo.

  1. O clamor, ou desafio, anunciava: “Quem é digno de abrir o livro e de desatar os seus selos?” (v. 2). “Se alguma criatura se julga capaz de explicar ou executar os conselhos de Deus, que se apresente e tente fazê-lo.”

  2. Ninguém no céu ou na terra pôde aceitar o desafio e assumir a tarefa. Ninguém no céu, nem mesmo os gloriosos e santos anjos que estão diante do trono de Deus e são ministros de sua providência; com toda a sua sabedoria, não conseguem sondar os decretos de Deus.

Ninguém na terra, nenhum homem, por mais sábio ou bom que seja; nenhum mágico ou adivinho; nenhum profeta de Deus, salvo até onde Deus lhe revele sua vontade. Ninguém debaixo da terra, nenhum anjo caído, nenhum espírito de pessoa falecida, mesmo que voltasse ao nosso mundo, pode abrir esse livro.

O próprio Satanás, com toda a sua astúcia, não pode fazê-lo. As criaturas não podem abri-lo nem olhá-lo; não podem lê-lo. Somente Deus pode fazê-lo.

III. Ele sentiu grande preocupação com essa questão: o apóstolo chorou muito; ficou profundamente desapontado. Pelo que vira naquele que estava sentado no trono, desejava ardentemente ver e conhecer mais da mente e da vontade de Deus. Quando esse desejo não foi logo satisfeito, encheu-o de tristeza e lhe arrancou muitas lágrimas.

Observe: 1. Os que mais viram Deus neste mundo são os que mais desejam vê-lo ainda mais; e os que viram sua glória desejam conhecer sua vontade. 2. Homens bons podem ser excessivamente ávidos e apressados para sondar os mistérios do governo divino. 3. Desejos assim, quando não são logo atendidos, transformam-se em pesar e tristeza. A esperança adiada faz adoecer o coração.

IV. O apóstolo foi consolado e encorajado a esperar que o livro selado ainda seria aberto. Observe: 1. Quem deu a João a indicação: um dos anciãos. Deus o havia revelado à sua igreja. Se os anjos não se recusam a aprender da igreja, os ministros não devem desprezá-la. Deus pode fazer seu povo instruir e informar seus mestres quando lhe aprouver.

  1. Quem faria isso: o Senhor Jesus Cristo, chamado Leão da tribo de Judá segundo sua natureza humana, numa alusão à profecia de Jacó (Gênesis 49:10), e Raiz de Davi segundo sua natureza divina, embora fosse ramo de Davi segundo a carne.

Aquele que é uma pessoa intermediária, Deus e homem, e exerce o ofício de Mediador entre Deus e os homens, é apto e digno de abrir e executar todos os conselhos de Deus para com os homens. Ele o faz em seu estado e ofício mediatorial, como Raiz de Davi e descendente de Judá, e como Rei e cabeça do Israel de Deus; e o fará para consolação e alegria de todo o seu povo.

Versículos 6 a 14

O Livro Selado. (95 d.C.)

Aqui: I. O apóstolo vê o livro nas mãos do Senhor Jesus Cristo, para que ele o deslacrasse e abrisse. Cristo é descrito: 1. Por seu lugar e posição: “No meio do trono, dos quatro animais e dos anciãos.” Estava no mesmo trono que o Pai e mais perto dele que os anciãos ou ministros das igrejas.

Cristo, como homem e Mediador, está subordinado a Deus Pai, mas mais perto dele que todas as criaturas; pois nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade. Os ministros estão entre Deus e o povo; Cristo está como Mediador entre Deus e ambos, ministros e povo.

  1. Pela forma em que apareceu. Antes fora chamado leão; aqui aparece como cordeiro imolado. É leão para vencer Satanás e cordeiro para satisfazer a justiça de Deus. Traz as marcas de seus sofrimentos, para mostrar que intercedeu no céu em virtude de sua satisfação.

Aparece como cordeiro com sete chifres e sete olhos: tem poder perfeito para executar toda a vontade de Deus e sabedoria perfeita para compreendê-la e cumpri-la do modo mais eficaz. Tem os sete Espíritos de Deus: recebeu o Espírito Santo sem medida, em toda a perfeição de luz, vida e poder, pelos quais pode ensinar e governar todas as partes da terra.

  1. É descrito por sua ação e obra: “Veio e tomou o livro da destra do que estava assentado no trono” (v. 7). Não o fez pela força nem por fraude, mas prevaleceu para fazê-lo, como diz o v. 5: prevaleceu por seu mérito e dignidade; fez isso com autoridade e por determinação do Pai.

Deus pôs, com toda a vontade e justiça, o livro de seus conselhos eternos nas mãos de Cristo, e Cristo o tomou nas mãos de bom grado e com alegria, pois se deleita em revelar e cumprir a vontade de seu Pai.

II. O apóstolo observa a alegria e as ações de graças universais que encheram o céu e a terra diante desse acontecimento. Assim que Cristo recebeu esse livro das mãos do Pai, recebeu os aplausos e a adoração dos anjos e dos homens, sim, de toda criatura.

De fato, é motivo de alegria para o mundo inteiro ver que Deus não trata os homens mediante poder absoluto e justiça estrita, mas por graça e misericórdia, por meio do Redentor. Ele governa o mundo não somente como Criador e Legislador, mas como nosso Deus e Salvador. Todo o mundo tem razão para alegrar-se com isso.

O cântico de louvor oferecido ao Cordeiro nessa ocasião tem três partes: uma cantada pela igreja, outra pela igreja e pelos anjos, e a terceira por toda criatura.

  1. A igreja inicia a doxologia, pois está mais diretamente envolvida nela (v. 8). Os quatro seres viventes e os vinte e quatro anciãos, o povo cristão sob a direção de seu ministro, conduzem o coro. Observe: (1.) O objeto de sua adoração: o Cordeiro, o Senhor Jesus Cristo. É vontade declarada de Deus que todos honrem o Filho como honram o Pai, pois ele tem a mesma natureza.

(2.) Sua postura: prostraram-se diante dele; não lhe prestaram uma adoração inferior, mas a mais profunda adoração. (3.) Os instrumentos usados em sua adoração: harpas e taças. As harpas eram instrumentos de louvor; as taças estavam cheias de aromas ou incenso, que representam as orações dos santos. Oração e louvor devem sempre andar juntos.

(4.) O conteúdo de seu cântico correspondia à nova condição da igreja, o estado evangélico introduzido pelo Filho de Deus. Nesse cântico novo: [1.] Reconhecem a aptidão e dignidade infinitas do Senhor Jesus para esta grande obra de abrir e executar o conselho e os propósitos de Deus (v. 9): “Digno és de tomar o livro e de abrir os seus selos”; ele é inteiramente capaz da obra e merece a honra.

[2.] Mencionam os fundamentos e as razões dessa dignidade. Não excluem a dignidade de sua pessoa como Deus, sem a qual não seria capaz de realizar a obra; insistem sobretudo, porém, no mérito de seus sofrimentos, que suportou por eles. Esses sofrimentos tocavam mais profundamente sua alma, enchendo-a de gratidão e alegria.

Primeiro, mencionam seu sofrimento: ele foi morto como sacrifício, e seu sangue foi derramado. Segundo, os frutos de seus sofrimentos: 1. A redenção para Deus. Cristo resgatou seu povo da escravidão do pecado, da culpa e de Satanás; resgatou-o para Deus, libertando-o para servi-lo e desfrutar dele.

  1. A mais elevada exaltação: “Para o nosso Deus nos fizeste reis e sacerdotes, e reinaremos sobre a terra” (v. 10). Nem todo escravo resgatado é logo elevado à honra; considera grande favor ser restituído à liberdade.

Mas, quando os eleitos de Deus foram escravizados pelo pecado e por Satanás em todas as nações do mundo, Cristo não somente comprou sua liberdade, mas lhes conferiu a mais alta honra e posição: fez deles reis e sacerdotes.

Reis para governar o próprio espírito, vencer o mundo e o maligno; sacerdotes por lhes dar acesso a si mesmo e liberdade para oferecer sacrifícios espirituais. E reinarão sobre a terra: com Cristo, julgarão o mundo no grande dia.

  1. A doxologia iniciada pela igreja é continuada pelos anjos, que entoam a segunda parte em conjunto com a igreja (v. 11). Diz-se que são inumeráveis, assistentes do trono de Deus e guardiões da igreja.

Embora não precisassem de Salvador, alegram-se com a redenção e a salvação dos pecadores e concordam com a igreja em reconhecer os méritos infinitos do Senhor Jesus, que morreu por pecadores e é digno de receber poder, riquezas, sabedoria, força, honra, glória e bênção.

(1.) Ele é digno do ofício e da autoridade que requerem o maior poder e sabedoria, os maiores recursos e toda excelência, para serem exercidos corretamente. (2.) É digno de toda honra, glória e bênção, porque é capaz de exercer esse ofício e nele é fiel.

  1. A doxologia iniciada pela igreja e continuada pelos anjos ressoa e ecoa em toda a criação (v. 13). O céu e a terra ressoam com os altos louvores ao Redentor. Toda a criação se beneficia de Cristo. Por meio dele todas as coisas subsistem.

Se tivessem entendimento e linguagem, todas as criaturas adorariam esse grande Redentor, que liberta a criação da escravidão sob a qual geme por causa da corrupção dos homens e da justa maldição que o grande Deus pronunciou depois da queda. A parte que, por uma prosopopeia, representa toda a criação entoa um cântico de bênção, honra, glória e poder:

(1.) Àquele que está sentado no trono, a Deus como Deus, ou a Deus Pai, primeira pessoa da Trindade e primeiro na economia de nossa salvação; e (2.) ao Cordeiro, segunda pessoa da divindade e Mediador da nova aliança.

A adoração prestada ao Cordeiro não é de outra natureza nem inferior. As mesmas palavras atribuem a ele e àquele que está sentado no trono exatamente a mesma honra e glória, pois sua essência é a mesma. Como suas partes na obra de nossa salvação são distintas, são adorados distintamente. Adoramos e glorificamos um só e mesmo Deus por nossa criação e por nossa redenção.

Vemos que a igreja, que iniciou o hino celestial, ao perceber que o céu e a terra se uniam no concerto, encerra tudo com seu “Amém” e termina como começou: prostrada diante do Deus eterno e sem fim. Assim vimos este livro selado passar, com grande solenidade, da mão do Criador à do Redentor.


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