Matthew Henry

Apocalipse 20

Argumento

Alguns consideram este capítulo a parte mais obscura de toda esta profecia. É muito provável que os acontecimentos nele descritos ainda não tenham se cumprido; por isso, o mais sábio é contentar-nos com observações gerais, em vez de sermos categóricos e específicos em nossas explicações.

Aqui temos um relato: I. Do aprisionamento de Satanás por mil anos (vv. 1-3). II. Do reinado dos santos com Cristo pelo mesmo período (vv. 4-6). III. Da soltura de Satanás e do conflito da igreja com Gogue e Magogue (vv. 7-10). IV. Do dia do juízo (v. 11, etc.).

Versículos 1 a 10

O Aprisionamento de Satanás. (95 d.C.)

Temos aqui: I. uma profecia do aprisionamento de Satanás por um período determinado, durante o qual ele teria muito menos poder e a igreja, muito mais paz que antes.

O poder de Satanás foi parcialmente quebrado quando o reino do evangelho foi estabelecido no mundo; diminuiu ainda mais quando o império se tornou cristão; foi ainda mais quebrado pela queda da Babilônia mística. Mas essa serpente ainda tinha muitas cabeças: quando uma é ferida, outra continua viva. Aqui temos nova limitação e redução de seu poder. Observe:

  1. A quem foi confiada a tarefa de prender Satanás: a um anjo vindo do céu. É muito provável que esse anjo não seja outro senão o Senhor Jesus Cristo; a descrição dificilmente se ajustaria a qualquer outro.

Ele é alguém que tem poder para prender o homem forte, armado, expulsá-lo e saquear seus bens; portanto, tem de ser mais forte que ele.

  1. Os meios usados nessa obra: o anjo tem uma corrente e uma chave, uma grande corrente para prender Satanás e a chave da prisão em que ele seria confinado.

Cristo nunca carece de poderes e instrumentos apropriados para quebrar o poder de Satanás, pois tem os poderes do céu e as chaves do inferno.

  1. A execução da obra (v. 2, 3):

(1.) “Ele agarrou o dragão, aquela antiga serpente, que é o diabo e Satanás.” Nem a força do dragão nem a astúcia da serpente bastaram para livrá-lo das mãos de Cristo. Ele o agarrou e o manteve preso.

E (2.) Lançou-o no abismo sem fundo, derrubando-o à força e com justa vingança em seu próprio lugar e prisão, de onde lhe fora permitido escapar para perturbar as igrejas e enganar as nações. Agora é levado de volta àquela prisão e ali acorrentado.

(3.) Satanás é encerrado, e um selo é posto sobre ele. Cristo fecha, e ninguém pode abrir; fecha com seu poder e sela com sua autoridade. Nem os próprios demônios podem arrombar sua fechadura e romper seu selo.

(4.) O período desse confinamento: mil anos, após os quais ele seria solto por pouco tempo. A igreja teria um período considerável de paz e prosperidade, mas suas provações ainda não haviam terminado.

II. Temos um relato do reinado dos santos durante o mesmo período em que Satanás permaneceu preso (vv. 4-6). Observe:

  1. Quem recebeu tamanha honra: os que sofreram por Cristo e todos os que permaneceram fiéis a ele, sem receber a marca da besta nem adorar sua imagem; todos os que se mantiveram livres da idolatria pagã e papal.

  2. A honra que lhes foi concedida:

(1.) Foram ressuscitados dentre os mortos e restituídos à vida. Isso pode ser entendido literal ou figuradamente: estavam mortos em sentido civil e político e tiveram uma ressurreição política; suas liberdades e seus privilégios foram reavivados e restaurados.

(2.) Foram-lhes dados tronos e poder para julgar. Possuíam grande honra, influência e autoridade, que suponho serem antes de natureza espiritual que secular.

(3.) Reinaram com Cristo por mil anos. Os que sofrem com Cristo reinarão com ele; reinarão em seu reino espiritual e celestial, em gloriosa conformidade a ele em sabedoria, justiça e santidade, além do que antes fora conhecido no mundo.

Isso se chama a primeira ressurreição, com a qual só serão favorecidos os que serviram a Cristo e sofreram por ele. Quanto aos ímpios, não serão levantados e restituídos a seu poder novamente até que Satanás seja solto. Isso pode ser chamado ressurreição, assim como se diz que a conversão dos judeus é vida dentre os mortos.

  1. Declara-se a felicidade desses servos de Deus:

(1.) São bem-aventurados e santos (v. 6). Ninguém pode ser bem-aventurado sem ser santo, e todos os santos serão bem-aventurados. Nessa ressurreição espiritual, foram santos como uma espécie de primícias para Deus e, como tais, abençoados por ele.

(2.) Estão protegidos do poder da segunda morte. Sabemos algo sobre a primeira morte, e ela é temível; mas não sabemos o que é a segunda morte. Deve ser muito mais temível: é a morte da alma, a separação eterna de Deus. Que o Senhor conceda que jamais a conheçamos por experiência! Os que experimentaram uma ressurreição espiritual são salvos do poder da segunda morte.

III. Temos um relato do retorno das perturbações da igreja e de outro grande conflito, muito intenso, mas breve e decisivo. Observe:

  1. Por fim, são retiradas as restrições impostas a Satanás durante muito tempo. Enquanto este mundo existir, o poder de Satanás nele não será totalmente destruído; poderá ser limitado e reduzido, mas ele ainda terá algo a fazer para perturbar o povo de Deus.

  2. Mal é solto, Satanás retoma sua antiga obra: engana as nações e as incita a guerrear contra os santos e servos de Deus. Elas jamais fariam isso se ele não as tivesse enganado primeiro.

São enganadas tanto quanto à causa que defendem — acreditam ser uma boa causa, quando de fato é muito má — como quanto ao desfecho: esperam vencer, mas certamente serão derrotadas.

  1. Seus últimos esforços parecem ser os maiores. O poder que lhe é permitido exercer agora parece mais amplo que antes. Recebeu liberdade para recrutar voluntários nos quatro cantos da terra e levantou um grande exército, cujo número era como a areia do mar (v. 8).

  2. Temos os nomes dos principais comandantes desse exército sob o dragão: Gogue e Magogue. Não precisamos investigar demais quais poderes específicos esses nomes representam, pois o exército foi reunido de todas as partes do mundo.

Esses nomes aparecem em outras partes das Escrituras. Lemos sobre Magogue em Gênesis 10:2. Era um dos filhos de Jafé e povoou a região chamada Síria, de onde seus descendentes se espalharam por muitas outras partes.

Só encontramos Gogue e Magogue juntos em Ezequiel 38:2, profecia da qual Apocalipse toma emprestadas muitas imagens.

  1. Temos a marcha e a disposição militar desse exército temível (v. 9): “Subiram sobre a largura da terra e cercaram o arraial dos santos e a cidade amada”, isto é, a Jerusalém espiritual, onde estão depositados os interesses mais preciosos do povo de Deus e que, por isso, lhe é tão amada.

O exército dos santos é descrito como tendo saído da cidade e acampado sob suas muralhas para defendê-la; estava acampado ao redor de Jerusalém. Mas o exército inimigo era muito superior ao da igreja e cercou os santos e sua cidade.

  1. Você tem o relato da batalha e do desfecho da guerra: Fogo desceu de Deus, do céu, e devorou o inimigo. Assim se anuncia a ruína de Gogue e Magogue (Ezequiel 38:22): “Farei chover sobre ele e sobre os seus bandos uma chuva transbordante, e grandes pedras de saraiva, e fogo e enxofre”.

Deus lutaria por seu povo de maneira extraordinária e mais direta nessa batalha final e decisiva, para que a vitória fosse completa e a glória redundasse para ele mesmo.

  1. A condenação e o castigo do grande inimigo, o diabo: agora ele é lançado no inferno com seus dois grandes oficiais, a besta e o falso profeta, isto é, a tirania e a idolatria. Não ficará ali por um período determinado, mas será atormentado dia e noite, para todo o sempre.

Versículos 11 a 15

O Juízo Universal. (95 d.C.)

A destruição completa do reino do diabo conduz muito apropriadamente ao relato do dia do juízo, que determinará o estado eterno de cada pessoa. E podemos estar certos de que haverá um juízo quando vemos que “o príncipe deste mundo é julgado” (João 16:11).

Será um grande dia, o grande dia, em que todos comparecerão diante do tribunal de Cristo. Que o Senhor nos ajude a crer firmemente na doutrina do juízo vindouro! Essa doutrina fez Félix tremer.

Temos aqui uma descrição desse dia. Observe:

  1. Contemplamos o trono e tribunal do juízo, grande e branco, muito glorioso e perfeitamente justo e reto. O trono da iniquidade, que estabelece a maldade por uma lei, não tem comunhão com esse trono e tribunal de justiça.

  2. A aparição do Juiz, que é o Senhor Jesus Cristo. Então ele se revestirá de tamanha majestade e terror que a terra e o céu fugirão de sua presença, e não se achará lugar para eles: toda a estrutura da natureza será dissolvida (2 Pedro 3:10).

  3. As pessoas a serem julgadas (v. 12): “Os mortos, pequenos e grandes”, isto é, jovens e velhos, baixos e altos, pobres e ricos.

Ninguém é tão insignificante que não tenha alguns talentos pelos quais prestar contas, e ninguém é tão importante que possa escapar à jurisdição desse tribunal. Serão julgados não apenas os que estiverem vivos na vinda de Cristo, mas também todos os que morreram antes.

A sepultura entregará os corpos dos homens; o inferno entregará as almas dos ímpios; e o mar entregará os muitos que pareciam ter-se perdido nele.

  1. A regra do juízo é estabelecida: “Abriram-se os livros”. Que livros? Os da onisciência de Deus, que é maior que a nossas consciências e sabe todas as coisas; com ele há um livro de lembrança tanto dos bons como dos maus.

Há também o livro da consciência do pecador, que, embora antes secreto, agora será aberto. Outro livro será aberto: o livro das Escrituras, o livro das leis do céu, a regra da vida.

Esse livro é aberto por conter a lei, o padrão pelo qual os corações e as vidas dos homens serão examinados. Ele determina o direito; os outros livros apresentam provas dos fatos.

Alguns entendem pelo outro livro, chamado livro da vida, o livro dos conselhos eternos de Deus; mas isso não parece fazer parte do juízo. Na eleição eterna, Deus não age como juiz, mas com absoluta e soberana liberdade.

  1. A causa a ser julgada: as obras dos homens, isto é, o que fizeram e se foi bom ou mau. Pelas obras, os homens serão justificados ou condenados.

Embora Deus conheça seu estado e seus princípios, e olhe principalmente para eles, ainda assim, tendo de mostrar-se aos anjos e aos homens como um Deus justo, ele provará os princípios pelas práticas. Assim será justificado quando falar e inculpável quando julgar.

  1. O desfecho do julgamento e do juízo será segundo as provas dos fatos e a regra do juízo. Todos os que fizeram aliança com a morte e acordo com o inferno serão condenados com seus aliados infernais e lançados com eles no lago de fogo, pois não têm direito à vida eterna segundo as regras de vida estabelecidas nas Escrituras.

Mas aqueles cujos nomes estão escritos naquele livro — isto é, os justificados e absolvidos pelo evangelho — serão então justificados e absolvidos pelo Juiz e entrarão na vida eterna, sem nada mais temer da morte, do inferno ou dos ímpios, pois todos serão destruídos juntos.

Que nossa grande preocupação seja saber em que termos estamos diante de nossas Bíblias: se agora elas nos justificam ou nos condenam. Pois o Juiz de todos procederá segundo essa regra.

Cristo julgará os segredos de todos os homens segundo o evangelho. Felizes os que ordenaram e apresentaram sua causa segundo o evangelho, de modo que saibam de antemão que serão justificados no grande dia do Senhor!


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