Matthew Henry

Apocalipse 15

Argumento

Até aqui, segundo o juízo de expositores muito eminentes, Deus havia representado a seu servo João: I. O estado da igreja sob os poderes pagãos, nos seis selos abertos; depois, II. O estado da igreja sob os poderes papais, na visão das seis trombetas que começaram a soar quando se abriu o sétimo selo.

A isso se acrescenta III. Um relato mais geral e breve do estado passado, presente e futuro da igreja, no livrinho etc.

Agora ele prossegue: IV. Mostra a João como o anticristo seria destruído e por quais etapas essa destruição se realizaria, na visão das sete taças.

Este capítulo contém uma temível introdução ou preparação para o derramamento das taças. Temos aqui: 1. Uma visão dos anjos no céu encarregados da execução dessa grande obra e das aclamações de alegria com que as hostes celestiais aplaudiam esse grande desígnio (vv. 1-4).

  1. Uma visão desses anjos saindo do céu para receber as taças que derramariam e das grandes comoções que isso causou no mundo (v. 5 etc.).

Versículos 1 a 4

As sete taças. (95 d.C.)

Temos aqui a preparação para o derramamento das sete taças, confiado a sete anjos. Observemos como esses anjos apareceram ao apóstolo: no céu, de modo extraordinário. Isso se devia a:

  1. A obra que tinham de realizar: concluir a destruição do anticristo. Deus estava prestes a derramar sobre essa causa suas sete últimas pragas. Como a medida dos pecados da Babilônia estava cheia, ela receberia agora toda a medida da ira vingadora de Deus.

  2. Os espectadores e testemunhas dessa comissão: todos os que venceram a besta etc. Eles estavam em pé sobre um mar de vidro que, para alguns, representa este mundo, coisa frágil que será despedaçada; para outros, representa a aliança do evangelho, em alusão ao mar de bronze do templo, onde os sacerdotes se lavavam. Os servos fiéis de Deus estão firmados sobre o fundamento da justiça de Cristo.

Outros entendem que se trata do mar Vermelho, que ficou como que congelado enquanto os israelitas o atravessavam. Como o pilar de fogo refletia sua luz sobre as águas, elas pareciam misturadas com fogo. Isso mostraria que o fogo da ira de Deus contra o faraó e seus cavalos dissolveria as águas congeladas e os destruiria. Parece haver uma alusão a isso no cântico de Moisés, no qual:

(1.) Eles exaltam a grandeza das obras de Deus e a justiça e a verdade de seus caminhos, tanto ao livrar seu povo como ao destruir seus inimigos. Alegravam-se na esperança e diante da perspectiva próxima desse acontecimento, embora ele ainda não houvesse se cumprido.

(2.) Convocam todas as nações a renderem a Deus o temor, a glória e a adoração devidos à manifestação de sua verdade e justiça: “Quem não te temerá?” (v. 4).

Versículos 5 a 8

As sete taças. (95 d.C.)

Observemos:

I. Como os anjos apareceram, saindo do céu para cumprir sua comissão: “Abriu-se o templo do tabernáculo do testemunho no céu” (v. 5). Há aqui uma alusão ao lugar santíssimo do tabernáculo e do templo, onde ficava o propiciatório que cobria a arca do testemunho, e onde o sumo sacerdote intercedia, Deus se comunicava com seu povo e ouvia suas orações.

Com isso, tal como a passagem o menciona, podemos entender:

  1. Nos juízos que Deus estava prestes a executar contra a causa anticristã, ele cumpria as profecias e promessas de sua Palavra e de sua aliança, sempre diante dele e das quais nunca se esquecia.

  2. Por essa obra, ele respondia às orações do povo, apresentadas a ele por seu grande sumo sacerdote.

  3. Nisso, vingava a causa de seu próprio Filho e nosso Salvador Jesus Cristo: seus ofícios e sua autoridade haviam sido usurpados, seu nome desonrado e os grandes propósitos de sua morte combatidos pelo anticristo e seus seguidores.

  4. Ele abria para seu povo uma porta mais ampla de liberdade para adorá-lo em numerosas assembleias solenes, sem temor dos inimigos.

II. Como foram equipados e preparados para sua obra. Observemos:

  1. Seu traje: “estavam vestidos de linho puro e branco e cingidos à altura do peito com cintos de ouro” (v. 6). Esse era o traje dos sumos sacerdotes quando entravam para consultar a Deus e saíam com uma resposta dele.

Isso mostrava que os anjos agiam em todas as coisas por determinação e direção divinas e que se preparavam para oferecer um sacrifício ao Senhor, chamado a ceia do grande Deus (Apocalipse 19:17). Os anjos são ministros da justiça divina e fazem tudo de maneira pura e santa.

  1. Seu armamento: o que era e de quem o receberam. O armamento com que executariam essa grande obra consistia em sete taças cheias da ira de Deus; estavam armados com a ira de Deus contra seus inimigos.

A mais insignificante criatura, quando armada com a cólera de Deus, será forte demais para qualquer homem do mundo; quanto mais um anjo de Deus! Essa ira não seria derramada toda de uma vez, mas dividida em sete partes, que cairiam sucessivamente sobre o partido anticristão.

De quem receberam essas taças? De um dos quatro seres viventes, um dos ministros da verdadeira igreja; isto é, em resposta às orações dos ministros e do povo de Deus, e para vingar sua causa, serviço no qual os anjos se empenham de boa vontade.

III. A impressão que essas coisas causaram em todos os que estavam perto do templo: todos ficaram, por assim dizer, envoltos em nuvens de fumaça que enchiam o templo, provenientes da gloriosa e poderosa presença de Deus; por isso, ninguém podia entrar no templo até que a obra fosse concluída.

Os interesses do anticristo estavam tão entrelaçados com os interesses civis das nações que ele não poderia ser destruído sem provocar um grande abalo em todo o mundo. Enquanto essa grande obra estivesse em andamento, o povo de Deus teria pouco descanso e pouco tempo livre para se reunir diante dele.

Por ora, seus sábados seriam interrompidos, as ordenanças do culto público seriam suspensas e tudo seria lançado em confusão geral. O próprio Deus pregava então à igreja e ao mundo inteiro por meio de feitos terríveis em justiça.

Concluída essa obra, porém, as igrejas teriam descanso, o templo seria aberto e as assembleias solenes seriam reunidas, edificadas e multiplicadas. As maiores libertações da igreja se realizam por etapas terríveis e assombrosas da providência.


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