Matthew Henry

Apocalipse 13

Argumento

Neste capítulo temos uma revelação e descrição adicional dos inimigos da igreja. Não se trata de outros inimigos além dos já mencionados, mas são descritos de outra maneira, para que seus métodos de inimizade apareçam com mais clareza. São representados por duas bestas: da primeira temos o relato nos vv. 1-10; da segunda, no v. 11 etc.

Alguns entendem que a primeira representa a Roma pagã e a segunda, a Roma papal; outros entendem que ambas representam a Roma papal, a primeira em seu poder secular e a segunda em seu poder eclesiástico.

Versículos 1 a 9

A Primeira Besta. (95 d.C.)

Temos aqui o relato do surgimento, da forma e do progresso da primeira besta. Observe: 1. De onde o apóstolo viu esse monstro. Parecia-lhe estar na praia, embora provavelmente ainda estivesse em êxtase. Pensava estar na ilha de Patmos, mas não sabia se estava no corpo ou fora dele.

  1. De onde vinha essa besta: do mar. Pela descrição, porém, pareceria mais provável que fosse um monstro terrestre; mas, quanto mais monstruosa fosse em todos os aspectos, mais apropriada seria como emblema do mistério da iniquidade e da tirania.

  2. A forma e o aspecto da besta. Era em sua maior parte semelhante a um leopardo, mas tinha pés como os de um urso e boca como a de um leão. Tinha sete cabeças, dez chifres e, sobre as cabeças, um nome de blasfêmia: um monstro horrendo e medonho!

Parte dessa descrição parece aludir à visão de Daniel sobre as quatro bestas, que representavam as quatro monarquias (Daniel 7:1-3 etc.). Uma dessas bestas era como leão, outra como urso e outra como leopardo. Esta besta era uma composição das três, com toda a ferocidade, força e rapidez delas.

As sete cabeças e os dez chifres parecem representar seus vários poderes; as dez coroas, seus príncipes tributários; e a palavra “blasfêmia” em sua testa proclama sua inimizade direta e oposição à glória de Deus, promovendo a idolatria.

  1. A origem e fonte de sua autoridade: o dragão. Ele lhe deu seu poder, seu trono e grande autoridade. Foi estabelecida pelo diabo e por ele sustentada para fazer sua obra e promover sua causa; o diabo lhe prestou todo o auxílio possível.

  2. Uma cabeça foi ferida de modo perigoso e, inesperadamente, curada (v. 3). Alguns pensam que essa cabeça ferida representa a abolição da idolatria pagã; a cura da ferida, a introdução da idolatria papal, igual em essência à anterior, mas com nova aparência e igualmente eficaz para cumprir o propósito do diabo.

  3. A honra e a adoração prestadas a esse monstro infernal: “Toda a terra se maravilhou após a besta.” Todos admiravam seu poder, sua política e seu êxito; adoravam o dragão que dera poder à besta e também a besta.

Prestavam honra e sujeição ao diabo e a seus instrumentos, pensando que nenhum poder seria capaz de resistir-lhes. Que trevas, degeneração e loucura dominavam o mundo!

  1. Como ele exercia seu poder e sua política infernais. Tinha uma boca que dizia grandes coisas e blasfêmias. Blasfemava contra Deus, contra o nome de Deus, contra o tabernáculo de Deus e contra todos os que habitam no céu. Fazia guerra contra os santos, vencia-os e conquistava uma espécie de império universal no mundo.

Sua malícia se dirigia principalmente contra o Deus do céu e seus servos celestiais: contra Deus, fazendo imagens daquele que é invisível e adorando-as; contra o tabernáculo de Deus, isto é, segundo alguns, contra a natureza humana do Senhor Jesus Cristo, na qual Deus habita como num tabernáculo.

Essa natureza é desonrada pela doutrina da transubstanciação, que não permite que seu corpo seja um corpo verdadeiro e dá a todo sacerdote o poder de preparar um corpo para Cristo. A besta também se volta contra os que habitam no céu, os santos glorificados, colocando-os no lugar dos demônios pagãos e dirigindo-lhes orações.

Longe de se agradarem disso, os santos julgam que são injustiçados e desonrados. Assim se manifesta a malícia do diabo contra o céu e seus benditos habitantes, que estão fora do alcance de seu poder. Ele só pode blasfemar contra eles.

Os santos na terra, porém, estão mais expostos à crueldade dele; às vezes lhe é permitido triunfar sobre eles e pisoteá-los.

  1. A limitação do poder e do êxito do diabo, tanto quanto ao tempo como quanto às pessoas. Seu reinado é limitado a quarenta e dois meses (v. 5), conforme as outras descrições proféticas do reinado do anticristo.

Também são limitados os povos e as pessoas que ele sujeitará por completo à sua vontade e ao seu poder: somente aqueles cujos nomes não estão escritos no livro da vida do Cordeiro. Cristo tinha um remanescente escolhido, redimido por seu sangue, registrado em seu livro e selado por seu Espírito.

Embora o diabo e o anticristo pudessem vencer sua força corporal e tirar-lhes a vida natural, nunca poderiam conquistar-lhes a alma nem persuadi-los a abandonar o Salvador e passar para o lado de seus inimigos.

  1. Aqui se pede atenção ao que foi revelado sobre os grandes sofrimentos e aflições da igreja, e se assegura que, quando Deus concluir sua obra no monte Sião, sua obra de refino, voltará a mão contra os inimigos de seu povo. Os que mataram à espada cairão eles mesmos pela espada (v. 10), e os que levaram cativo o povo de Deus serão feitos cativos.

Isso será ocasião apropriada para exercitar a paciência e a fé dos santos: paciência diante da perspectiva de sofrimentos tão grandes e fé na perspectiva de livramento tão glorioso.

Versículos 11 a 18

A Segunda Besta. (95 d.C.)

Os que pensam que a primeira besta significa a Roma pagã entendem que esta segunda representa a Roma papal, que promove a idolatria e a tirania, mas de modo mais suave e semelhante a um cordeiro.

Os que entendem que a primeira besta representa o poder secular do papado veem na segunda seus poderes espirituais e eclesiásticos, que agem sob o disfarce da religião e da caridade pelas almas dos homens. Observemos:

I. A forma e o aspecto desta segunda besta: ela tinha dois chifres semelhantes aos de um cordeiro, mas uma boca que falava como o dragão. Todos concordam que deve ser algum grande impostor que, sob o pretexto da religião, enganará as almas dos homens. Os papistas querem que seja Apolônio de Tiana, mas o Dr. More rejeitou essa opinião e identifica a besta com os poderes eclesiásticos do papado.

O papa mostra chifres de cordeiro; pretende ser o vigário de Cristo na terra e, assim, estar investido de seu poder e autoridade. Sua fala, porém, o denuncia, pois proclama doutrinas falsas e decretos cruéis que mostram que ele pertence ao dragão, e não ao Cordeiro.

II. O poder que exerce: todo o poder da besta anterior (v. 12). Ele promove a mesma causa e, em essência, persegue o mesmo desígnio: afastar os homens da adoração ao Deus verdadeiro para adorarem aqueles que por natureza não são deuses, e sujeitar as almas e as consciências dos homens à vontade e à autoridade humanas, em oposição à vontade de Deus.

Esse desígnio é promovido tanto pelo papismo como pelo paganismo, e tanto pelos artifícios astutos do papismo como pelo braço secular; ambos servem à causa do diabo, embora de maneiras diferentes.

III. Os métodos pelos quais esta segunda besta promovia seus interesses e desígnios eram de três tipos:

  1. Sinais mentirosos, milagres fingidos, pelos quais os homens seriam enganados e levados a adorar a besta anterior nesta nova imagem ou forma que então se fez para ela. Fingiriam fazer descer fogo do céu, como Elias.

Deus às vezes permite que seus inimigos, como fez com os magos do Egito, realizem coisas que parecem muito extraordinárias e pelas quais pessoas incautas podem ser iludidas. É bem sabido que o reino papal há muito tem sido sustentado por milagres fingidos.

  1. Excomunhões, anátemas e censuras severas, pelas quais pretendem separar os homens de Cristo e entregá-los ao poder do diabo, mas na verdade os entregam ao poder secular, para que sejam mortos. Assim, apesar de sua vil hipocrisia, são justamente acusados de matar aqueles que não conseguem corromper.

  2. A privação de direitos: ninguém pode desfrutar de direitos naturais, civis ou municipais se não adorar aquela besta papal, isto é, a imagem da besta pagã. Para comprar e vender, desfrutar dos direitos naturais e ocupar cargos lucrativos e de confiança, é preciso ter a marca da besta na testa e na mão direita, bem como seu nome e o número de seu nome.

É provável que a marca, o nome e o número da besta signifiquem todos a mesma coisa: que façam profissão pública de sujeição e obediência ao papado, recebendo assim a marca na testa, e que se obriguem a empregar toda a sua influência, poder e esforço para promover a autoridade papal, recebendo assim a marca na mão direita.

Conta-se que o papa Martinho V, em sua bula anexada ao Concílio de Constança, proíbe os católicos romanos de permitir que hereges morem em seus países, façam contratos, exerçam ofícios ou ocupem cargos civis. Essa é uma interpretação muito clara desta profecia.

IV. Temos aqui o número da besta, apresentado de tal modo que revela a infinita sabedoria de Deus e exercitará suficientemente toda a sabedoria e a precisão dos homens. O número é o de um homem, calculado segundo o costume dos homens, e é 666.

Não se sabe se esse é o número dos erros e das heresias contidos no papismo ou, como pensam outros, o número dos anos entre seu surgimento e sua queda; muito menos se sabe qual período é descrito por esses números proféticos. A dissertação mais admirada sobre esse assunto intricado é a do Dr. Potter, na qual os leitores curiosos encontrarão bastante para se entreter.

Parece-me que este é um daqueles períodos que Deus reservou para si; sabemos apenas que Deus escreveu Mene Tequel sobre todos os seus inimigos: contou seus dias, e eles chegarão ao fim, mas o seu próprio reino durará para sempre.


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