Apocalipse 11
Argumento
Neste capítulo temos: I. O relato da vara de medir dada ao apóstolo para medir as dimensões do templo, vv. 1-2. II. O relato das duas testemunhas de Deus, vv. 3-13. III. O toque da sétima trombeta e o que se seguiu, v. 14 etc.
Versículos 1 a 2
A Medição do Templo. (95 d.C.)
Esta passagem profética sobre a medição do templo faz clara referência ao que encontramos na visão de Ezequiel (Ezequiel 40:3 etc.). Mas não é fácil entender nem uma nem outra passagem. Ao que parece, no primeiro caso o templo foi medido para ser reconstruído, e de forma aprimorada.
Aqui, a medição parece ter um destes propósitos: 1. Preservá-lo durante os tempos de perigo público e calamidade aqui preditos; 2. Prová-lo, para ver até que ponto corresponde ao padrão ou modelo do monte; ou 3. Reformá-lo, regulando tudo o que fosse excessivo, deficiente ou alterado segundo o verdadeiro modelo. Observe:
I. O que devia ser medido. 1. O templo, isto é, a igreja evangélica em geral: se está construída e constituída conforme a regra do evangelho; se é estreita ou ampla demais e se a porta é larga ou apertada demais.
O altar. O lugar dos atos mais solenes de culto pode representar o culto religioso em geral. A igreja tem os altares verdadeiros, tanto em sua essência como em sua posição? Quanto à essência, toma Cristo por seu altar e depõe nele todas as suas ofertas? Quanto à posição, está o altar no Santo dos Santos, isto é, adora a Deus em espírito e em verdade?
Também os adoradores devem ser medidos: fazem da glória de Deus seu propósito e de sua palavra sua regra em todos os atos de culto? Aproximam-se de Deus com afetos apropriados? Sua conduta é digna do evangelho?
II. O que não devia ser medido (v. 2) e por que devia ser deixado de fora. 1. O que não devia ser medido: O átrio que está fora do templo, não o meças. Alguns dizem que Herodes, ao ampliar o templo, construiu um átrio externo chamado átrio dos gentios.
Outros nos dizem que Adriano construiu a cidade e um átrio externo, chamou a cidade de Élia e a entregou aos gentios. 2. Por que o átrio externo não devia ser medido? Não fazia parte do templo segundo o modelo de Salomão nem o de Zorobabel, e por isso Deus não lhe daria atenção.
Não o marcaria para preservação; como fora destinado aos gentios, para introduzir cerimônias e costumes pagãos e anexá-los às igrejas evangélicas, Cristo o abandonou a eles, para que o usassem como quisessem. Tanto esse átrio como a cidade seriam pisados por um período determinado: quarenta e dois meses, que alguns entendem como todo o tempo do reinado do anticristo.
Os que adoram no átrio externo ou adoram de modo falso ou com coração hipócrita; Deus os rejeita, e eles serão encontrados entre seus inimigos. 3. Observemos o conjunto: (1.) Deus terá um templo e um altar no mundo até o fim dos tempos. (2.) Ele cuida atentamente desse templo e observa como tudo é conduzido nele.
(3.) Os que adoram no átrio externo serão rejeitados; somente os que adoram dentro do véu serão aceitos. (4.) A cidade santa, a igreja visível, é muito pisada no mundo. (5.) As desolações da igreja têm duração limitada e breve, e ela será liberta de todas as suas aflições.
Versículos 3 a 13
As Duas Testemunhas. (95 d.C.)
Neste tempo em que a igreja é pisada, Deus reservou para si testemunhas fiéis, que não deixarão de atestar a verdade de sua palavra e de seu culto e a excelência de seus caminhos. Observe:
I. O número dessas testemunhas: é pequeno, mas suficiente. 1. É pequeno. Muitos reconhecerão e confessarão Cristo em tempos de prosperidade, mas o abandonarão e negarão em tempos de perseguição. Quando a causa está sendo julgada, uma testemunha vale mais que muitas em outras ocasiões.
- É suficiente; pois, pela boca de duas testemunhas, toda causa será estabelecida. Cristo enviou seus discípulos de dois em dois para pregar o evangelho. Alguns pensam que essas duas testemunhas são Enoque e Elias, que voltarão à terra por algum tempo; outros, a igreja dos judeus crentes e a igreja dos gentios.
Parece mais provável que sejam os ministros fiéis e eminentes de Deus, que não somente continuarão a professar a religião cristã, mas também a pregá-la nos piores tempos.
II. O tempo de sua profecia ou de seu testemunho por Cristo: mil duzentos e sessenta dias, isto é, como muitos pensam, até o fim do reinado do anticristo. Se fosse possível determinar o início desse período, esse número de dias proféticos, considerando-se cada dia como um ano, nos daria uma perspectiva de quando chegaria o fim.
III. Seu traje e sua postura: profetizam vestidos de saco, como pessoas profundamente afetadas pela condição humilde e aflita das igrejas e da causa de Cristo no mundo.
IV. Como eram sustentados e supridos durante a realização de sua grande e difícil obra: estavam diante do Deus de toda a terra, e ele lhes deu poder para profetizar. Fez que fossem como Zorobabel e Josué, as duas oliveiras e o candeeiro da visão de Zacarias (Zacarias 4:2 etc.).
Deus lhes deu o óleo do zelo santo, da coragem, da força e do consolo; fez deles oliveiras, e suas lâmpadas de profissão de fé continuaram acesas pelo óleo dos princípios interiores da graça, que recebiam de Deus. Tinham óleo não apenas nas lâmpadas, mas também nas vasilhas: hábitos de vida espiritual, luz e zelo.
V. Sua segurança e defesa durante o tempo de sua profecia: Se alguém tentasse feri-las, fogo sairia da boca delas e o devoraria (v. 5). Alguns pensam que isso alude ao pedido de Elias para que descesse fogo do céu e consumisse os capitães e seus grupos que vieram prendê-lo (2 Reis 1:12).
Deus prometeu ao profeta Jeremias (cap. 5, v. 14): Eis que farei de minhas palavras fogo em tua boca, e deste povo, lenha, e o fogo o devorará. Por meio da oração, da pregação e da coragem no sofrimento, eles ferirão profundamente o coração e a consciência de muitos perseguidores.
Estes partirão condenados por si mesmos e se tornarão terror para si próprios, como Pasur diante das palavras do profeta Jeremias (Jeremias 20:4).
Terão livre acesso a Deus e influência junto a ele, de modo que, em resposta às suas orações, Deus enviará pragas e juízos sobre seus inimigos, como fez ao faraó: transformou os rios dele em sangue e reteve o orvalho do céu, fechando-o para que não chovesse por muitos dias, em resposta às orações de Elias (1 Reis 17:1).
Deus preparou suas flechas contra os perseguidores e muitas vezes os aflige enquanto perseguem seu povo. Para eles, é difícil recalcitrar contra os aguilhões.
VI. A morte das testemunhas. Para que seu testemunho fosse mais forte, deveriam selá-lo com o próprio sangue. Observe: 1. Quando seriam mortas: quando terminarem seu testemunho. São imortais e invulneráveis até que seu trabalho termine.
Alguns pensam que se deveria traduzir: quando estivessem para terminar seu testemunho. Depois de profetizarem vestidos de saco durante a maior parte dos 1.260 anos, sentiriam o último efeito da malícia anticristã.
O inimigo que as venceria e mataria: a besta que sobe do abismo. O anticristo, grande instrumento do diabo, faria guerra contra elas não somente com as armas de um saber sutil e sofístico, mas principalmente com força e violência abertas. Por algum tempo, Deus permitiria que seus inimigos prevalecessem contra suas testemunhas.
O tratamento bárbaro dado às testemunhas mortas. A malícia dos inimigos não se satisfaria com seu sangue e sua morte; perseguiria até seus corpos mortos. (1.) Não lhes permitiriam uma sepultura tranquila: seus corpos seriam lançados na rua pública, a via principal de Babilônia, ou na estrada que levava à cidade.
Essa cidade é chamada espiritualmente Sodoma por sua maldade monstruosa e Egito por sua idolatria e tirania. Aqui, Cristo sofreu mais em seu corpo místico do que em qualquer outro lugar do mundo. (2.) Os habitantes da terra insultariam os cadáveres, e a morte das testemunhas seria motivo de alegria e regozijo para o mundo anticristão (v. 10).
Alegrar-se-iam por se livrarem dessas testemunhas, que, por sua doutrina e exemplo, haviam importunado, aterrorizado e atormentado a consciência de seus inimigos. Essas armas espirituais ferem o coração dos ímpios e os enchem de grande ira e malícia contra os fiéis.
VII. A ressurreição das testemunhas e suas consequências. Observe: 1. Quando ressuscitariam: depois de permanecerem mortas três dias e meio (v. 11), pouco tempo comparado ao período em que profetizaram.
Pode haver aqui uma referência à ressurreição de Cristo, que é a ressurreição e a vida: “Os teus mortos viverão; juntamente com o meu cadáver ressuscitarão.” Ou talvez haja uma referência à ressurreição de Lázaro no quarto dia, quando julgavam que isso era impossível.
As testemunhas de Deus podem ser mortas, mas ressuscitarão; não em sua própria pessoa, antes da ressurreição geral, mas em seus sucessores. Deus reavivará sua obra quando ela parecer morta no mundo.
O poder pelo qual foram ressuscitadas: o espírito de vida vindo de Deus entrou nelas, e puseram-se em pé. Deus lhes deu não somente vida, mas também coragem. Deus pode dar vida aos ossos secos; é o Espírito de vida vindo de Deus que vivifica as almas mortas, vivificará os corpos mortos de seu povo e reavivará sua causa moribunda no mundo.
O efeito de sua ressurreição sobre os inimigos: grande temor caiu sobre eles. O reavivamento da obra e das testemunhas de Deus aterrorizará a alma de seus inimigos. Onde há culpa, há medo; o espírito perseguidor, embora cruel, não é corajoso, mas covarde. Herodes temia João Batista.
VIII. A ascensão das testemunhas ao céu e suas consequências (vv. 12-13). Observe: 1. Sua ascensão. Por céu, podemos entender uma posição mais eminente na igreja, reino da graça neste mundo, ou um lugar elevado no reino da glória. Parece que o primeiro sentido é o pretendido.
Subiram ao céu numa nuvem, em sentido figurado, não literal, e seus inimigos os viram. Uma parte considerável do castigo dos perseguidores, neste mundo e no grande dia, será ver os servos fiéis de Deus grandemente honrados e elevados.
Eles não tentaram ascender a essa honra antes de Deus os chamar e dizer: “Subi para aqui.” As testemunhas do Senhor devem esperar que Deus as chame para serem elevadas, tanto na igreja como no céu. Não devem cansar-se do sofrimento e do serviço nem apressar-se em tomar a recompensa; devem esperar até que seu Mestre as chame e então subir a ele com alegria.
- As consequências de sua ascensão: grande abalo e convulsão no império anticristão e a queda de uma décima parte da cidade. Alguns aplicam isso ao início da Reforma contra o papismo, quando muitos príncipes e Estados deixaram de se submeter a Roma.
Essa grande obra encontrou forte oposição; todo o mundo ocidental sentiu grande abalo, e o interesse anticristão recebeu duro golpe e perdeu muito terreno e influência: (1.) pela espada da guerra, então desembainhada. Muitos dos que combatiam sob a bandeira do anticristo foram mortos por ela.
(2.) Pela espada do Espírito: grande temor de Deus caiu sobre muitos. Convenceram-se de seus erros, superstições e idolatria; pelo verdadeiro arrependimento e por abraçarem a verdade, deram glória ao Deus do céu. Assim, quando a obra e as testemunhas de Deus revivem, a obra e as testemunhas do diabo caem diante dele.
Versículos 14 a 19
A Sétima Trombeta. (95 d.C.)
Temos aqui o toque da sétima e última trombeta, precedido pelo aviso habitual e pelo chamado à atenção: “O segundo ai passou; e eis que o terceiro ai virá em breve.” Então o sétimo anjo tocou a trombeta.
Isso havia sido suspenso por algum tempo, até que o apóstolo conhecesse acontecimentos intermediários de grande importância, dignos de sua atenção e observação. Agora, porém, ouviu o que antes esperava: o toque da sétima trombeta. Observe seus efeitos e consequências.
I. Houve fortes e alegres aclamações dos santos e anjos no céu. Observe: 1. O modo de sua adoração: levantaram-se de seus assentos, prostraram-se com o rosto em terra e adoraram a Deus; fizeram-no com reverência e humildade.
- O conteúdo de sua adoração. (1.) Reconhecem com gratidão o direito de nosso Deus e Salvador de governar e reinar sobre o mundo inteiro: “Os reinos do mundo vieram a ser de nosso Senhor e do seu Cristo” (v. 15). Sempre lhe pertenceram por direito, tanto pela criação como pela redenção.
(2.) Reconhecem com gratidão sua posse efetiva desses reinos e seu governo sobre eles; agradecem-lhe por ter tomado em suas mãos seu grande poder, reivindicado seus direitos e exercido seu poder, convertendo assim o direito em posse.
(3.) Alegram-se porque seu reino jamais terá fim: “Ele reinará para todo o sempre”, até que todos os inimigos sejam postos debaixo de seus pés; ninguém jamais lhe arrancará o cetro da mão.
II. O mundo se indignou contra essas justas manifestações e ações do poder de Deus (v. 18). “As nações se indignaram”: não somente se haviam indignado, mas continuavam indignadas. Seu coração se levantava contra Deus; respondiam à ira dele com a própria ira.
Era um tempo em que Deus executava justa vingança contra os inimigos de seu povo, retribuindo tribulação aos que os atribulavam. Começava também a recompensar os serviços e sofrimentos fiéis de seu povo. Os inimigos não podiam suportar isso: enfureciam-se contra Deus, aumentando assim sua culpa e apressando sua destruição.
III. Outra consequência foi a abertura do templo de Deus no céu. Isso pode significar que agora havia comunicação mais livre entre o céu e a terra, com orações e louvores subindo mais livre e frequentemente e graças e bênçãos descendo em abundância.
Parece, porém, referir-se antes à igreja de Deus na terra, templo celestial. É uma alusão às diferentes condições do primeiro templo. Sob príncipes idólatras e perversos, o templo era fechado e negligenciado; sob príncipes religiosos e reformadores, era aberto e frequentado.
Assim, durante o poder do anticristo, o templo de Deus parecia fechado, e em grande medida estava. Agora, porém, fora aberto novamente. Ao abrir-se, observe: 1. O que foi visto ali: a arca do testamento de Deus. Ela ficava no Santo dos Santos, e nela eram guardadas as tábuas da lei.
Como, antes do tempo de Josias, a lei de Deus se perdera e então foi encontrada, assim, no reinado do anticristo, a lei de Deus foi posta de lado e anulada por suas tradições e decretos. As Escrituras ficaram fechadas para o povo, que não podia consultar esses oráculos divinos. Agora, porém, estão abertas e são apresentadas à vista de todos.
Esse foi um privilégio inestimável e incomparável; e, como a arca do testamento, foi sinal de que a presença de Deus voltara ao seu povo e de que ele lhe mostrava favor em Jesus Cristo, a propiciação.
- O que foi ouvido e sentido ali: relâmpagos, vozes, trovões, um terremoto e grande saraiva. A grande bênção da Reforma veio acompanhada de providências terríveis; por feitos terríveis de justiça, Deus responderia às orações apresentadas em seu templo santo, agora aberto.
Todas as grandes revoluções do mundo são planejadas no céu e são respostas às orações dos santos.