Matthew Henry

Apocalipse 10

Argumento

Este capítulo introduz a parte final das profecias deste livro.

Discute-se entre os estudiosos que investigam esses escritos obscuros se o que vem entre este capítulo e o toque da sétima trombeta (Apocalipse 11:15) é uma profecia distinta da anterior ou apenas um relato mais geral de algumas das principais coisas nela incluídas.

De todo modo, temos aqui: I. Uma descrição notável de um anjo muito glorioso, com um livro aberto na mão, vv. 1-3. II. Os sete trovões ouvidos pelo apóstolo em resposta à voz do anjo, cujas revelações ainda não lhe era permitido escrever, v. 4. III. O juramento solene feito por aquele que tinha o livro na mão, vv. 5-7. IV. A ordem dada ao apóstolo e cumprida por ele, vv. 8-11.

Versículos 1 a 7

Os Sete Trovões. (95 d.C.)

Temos aqui o relato de outra visão concedida ao apóstolo entre o toque da sexta trombeta e o da sétima. Observe:

I. A pessoa principalmente encarregada de comunicar essa revelação a João: um anjo vindo do céu, outro anjo poderoso, descrito de tal modo que nos levaria a pensar que não poderia ser outro senão nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo:

  1. Estava vestido de uma nuvem: vela sua glória, grande demais para ser contemplada por mortais, e cobre com um véu seus atos de providência. Nuvens e escuridão o rodeiam.

  2. Tinha um arco-íris sobre a cabeça: lembra-se sempre de sua aliança e, mesmo quando sua conduta é mais misteriosa, é perfeitamente justa e fiel. 3. Seu rosto era como o sol, todo brilhante e cheio de esplendor e majestade (Apocalipse 1:16). 4. Seus pés eram como colunas de fogo: todos os seus caminhos, tanto os da graça como os da providência, são puros e firmes.

II. Sua posição e postura: pôs o pé direito sobre o mar e o esquerdo sobre a terra, para mostrar seu poder e domínio absolutos sobre o mundo. Tinha na mão um livrinho aberto, provavelmente o mesmo que antes estivera selado, mas que agora fora aberto e seria cumprido gradualmente por ele.

III. Sua voz terrível: clamou em alta voz, como ruge um leão (v. 3), e sua voz terrível foi ecoada por sete trovões, sete modos solenes e terríveis de revelar a vontade de Deus.

IV. A proibição dada ao apóstolo: não deveria publicar, mas ocultar, o que aprendera com os sete trovões (v. 4). O apóstolo queria preservar e publicar tudo o que vira e ouvira nessas visões, mas ainda não chegara o tempo.

V. O juramento solene feito por esse anjo poderoso. 1. O modo como jurou: levantou a mão ao céu e jurou por aquele que vive para todo o sempre, por si mesmo, como Deus muitas vezes fez, ou por Deus como Deus, a quem ele, como Senhor, Redentor e governador do mundo, agora invoca.

  1. O conteúdo do juramento: que não haveria mais tempo. Isso pode significar: (1.) Que não haveria mais demora no cumprimento das profecias deste livro até que o último anjo tocasse a trombeta; então tudo seria executado prontamente: o mistério de Deus será concluído (v. 7).

Ou (2.) que, quando o mistério de Deus fosse cumprido, o próprio tempo deixaria de existir, pois mede as coisas sujeitas a mudanças; por fim, porém, tudo ficaria estabelecido para sempre, e assim o próprio tempo seria absorvido pela eternidade.

Versículos 8 a 10

O Livrinho. (95 d.C.)

Temos aqui: I. Uma ordem rigorosa dada ao apóstolo, que consistia em: 1. Ir e tomar o livrinho das mãos daquele anjo poderoso mencionado antes. Essa ordem não foi dada pelo próprio anjo que estava sobre a terra, mas pela mesma voz do céu que, no v. 4, lhe ordenara não escrever o que discernira pelos sete trovões.

  1. Comer o livro. Essa parte da ordem foi dada pelo próprio anjo, dando a entender ao apóstolo que, antes de publicar o que descobrira, deveria digerir mais profundamente as profecias e ser interiormente afetado por elas de modo apropriado.

II. O gosto e o sabor que esse livrinho teria quando o apóstolo o tomasse: a princípio, enquanto estivesse na boca, seria doce. Todas as pessoas sentem prazer em examinar acontecimentos futuros e ouvi-los preditos; e todos os homens bons gostam de receber uma palavra de Deus, qualquer que seja seu conteúdo.

Mas, quando o apóstolo digerisse mais profundamente esse livro de profecia, seu conteúdo seria amargo. Eram acontecimentos tão espantosos e terríveis, perseguições tão dolorosas contra o povo de Deus e tamanha desolação na terra, que prevê-los e conhecê-los de antemão seria doloroso, não agradável, para a mente do apóstolo. Assim foi a profecia de Ezequiel para ele (Ezequiel 3:3).

III. O cumprimento, pelo apóstolo, do dever que lhe fora ordenado (v. 10): Tomou o livrinho da mão do anjo, comeu-o todo e achou que seu sabor era como lhe haviam dito. 1. Convém aos servos de Deus digerir em sua própria alma as mensagens que, em nome de Deus, levam aos outros e ser eles mesmos devidamente afetados por elas.

  1. Convém-lhes transmitir toda mensagem que lhes foi confiada, seja agradável ou desagradável aos homens. A mensagem menos agradável pode ser a mais proveitosa; de todo modo, os mensageiros de Deus não devem reter parte alguma do conselho de Deus.

IV. O apóstolo é levado a saber que esse livro de profecia, que acabara de tomar, não lhe fora dado apenas para satisfazer sua curiosidade ou para causar-lhe prazer ou dor, mas para ser comunicado por ele ao mundo.

Sua comissão profética parece ser renovada aqui, e ele recebe ordem de preparar-se para outra missão: transmitir declarações da mente e da vontade de Deus de grande importância para todo o mundo e para os homens de posição mais elevada e de maior importância no mundo, declarações que deveriam ser lidas e registradas em muitas línguas.

De fato, é o que acontece: temos essas declarações em nossa língua e todos somos obrigados a lhes dar atenção, investigar humildemente seu significado e crer firmemente que todas se cumprirão no tempo devido; e, quando as profecias se cumprirem, seu sentido e sua verdade ficarão manifestos, e serão adorados a onisciência, o poder e a fidelidade do grande Deus.


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