Matthew Henry

Amós 8

Argumento

Os tempos de pecado vêm aqui acompanhados de tempos de tristeza, tão necessária é a ligação entre eles. Repetidas vezes se ameaça que o riso se transformará em luto. I. A visão do “cesto de frutos de verão” significa que a ruína anunciada se aproxima rapidamente (vv. 1-3), e isso mudará seu canto.

II. Os opressores são chamados a prestar contas dos abusos cometidos contra os pobres; sua destruição é predita, e ela os fará lamentar (vv. 4-10). III. Uma fome da palavra de Deus é aqui imposta como castigo a um povo que se prostitui com outros deuses (vv. 11-14). Contudo, esse juízo, o mais triste de todos, não os leva aqui ao luto.

Versículos 1 a 3

A Visão dos Frutos de Verão. (a.C. 785.)

A principal razão pela qual os pecadores adiam o arrependimento de die in diem, de um dia para o outro, é que pensam que Deus também adia assim seus juízos. Nenhuma canção os embala com tanta eficácia quanto esta: “Meu Senhor demora a vir”.

Por isso Deus, por meio de seus profetas, muitas vezes apresenta a Israel o dia de sua cólera não apenas como justo e certo, mas também como muito próximo e avançando depressa. É o que faz nestes versículos.

I. A proximidade da ruína anunciada é representada por um cesto de frutos de verão que Amós viu numa visão. O Senhor lhe mostrou o cesto (v. 1) e o obrigou a prestar atenção nele (v. 2): “Amós, que vês?”

Repare: cabe-nos perguntar se de fato vemos o que Deus teve por bem nos mostrar e ouvimos o que teve por bem nos dizer. Pois Deus fala e mostra muitas coisas uma vez, sim, duas, sem que os homens as percebam. Estamos em meio às visões do Todo-Poderoso? Consideremos o que vemos.

Ele viu um cesto de frutos de verão já colhidos e prontos para serem comidos. Isso significava: 1. Que estavam maduros para a destruição, maduros a ponto de apodrecer. Chegara a hora de Deus lançar a foice dos seus juízos e eliminá-los. Na verdade, a coisa já estava praticamente feita, e eles estavam prontos para ser consumidos.

  1. Que o ano da paciência de Deus se aproximava do fim. Para eles era outono, e logo seu ano terminaria num inverno sombrio. 3. Chamamos frutos de verão àqueles que não se conservam até o inverno e precisam ser consumidos de imediato: imagem desse povo, que não tinha nada de sólido nem estável.

II. O propósito e o sentido da visão são apenas estes: ela significa que chegou o fim para o meu povo Israel. A palavra que significa fim é ketz, muito semelhante a kitz, a palavra usada para fruto de verão.

Deus os poupou e suportou por muito tempo, mas agora sua paciência se esgotou. Eles são, de fato, seu povo Israel; contudo, o fim deles, aquele fim último do qual tantas vezes foram lembrados e que por tanto tempo esqueceram, chegou.

Repare: se os pecadores não puserem fim ao pecado, Deus porá fim a eles, ainda que sejam seu povo Israel. O que foi dito em Amós 7:8 é repetido aqui como decisão firme de Deus: “Nunca mais passarei por eles”. Não serão mais tolerados como antes, nem o juízo que se aproxima será afastado.

III. A consequência será uma devastação geral (v. 3). Quando chegar o fim, a tristeza e a morte desfilarão triunfantes. Costumam andar juntas e, por fim, juntas desaparecerão, quando no céu não houver mais morte nem tristeza (Apocalipse 21:4). Mas aqui, num mundo e numa nação pecadores:

  1. A tristeza reina, a ponto de os cânticos do templo se tornarem uivos: os cânticos do templo de Deus em Jerusalém ou, mais provavelmente, dos templos dos ídolos. Ali, depois de comer e beber em honra aos bezerros de ouro, costumavam levantar-se para brincar.

Talvez fossem cânticos profanos e licenciosos; é certo que, cedo ou tarde, se transformariam em uivos. Ou, se tivessem aparência e som de piedade e religião, Deus não lhes daria valor, pois não vinham do coração nem eram cantados para sua glória. Com justiça, ele os transformaria em uivos.

Repare: o luto virá depois da alegria pecaminosa; sim, até depois da alegria religiosa, se ela não for sincera. Quando os juízos de Deus se espalham, logo transformam a maior alegria na tristeza mais profunda. Os cânticos do templo, antes tão agradáveis, viram não apenas suspiros e gemidos, mas uivos altos e lúgubres.

Chegarão ao templo e, ao encontrá-lo em ruínas, ali uivarão com a maior amargura. 2. A morte reina, a ponto de haver cadáveres, muitos cadáveres por toda parte (Salmos 110:6), mortos pela espada ou pela peste.

Serão tantos que os sobreviventes não os sepultarão com a pompa e a solenidade habituais dos funerais; nem sequer mandarão dobrar os sinos. Antes, lançarão os corpos fora em silêncio, sepultando-os na calada da noite e ordenando a todos ao redor que se calem e observem isso.

Talvez procedam assim por não terem recursos para arcar com um funeral; ou porque a doença mortal é contagiosa e ninguém quer aproximar-se; ou por medo de provocar o inimigo, caso perceba que lamentam seus mortos.

Ou talvez recomendem silenciosamente a si mesmos e uns aos outros que se submetam à mão de Deus nesses juízos devastadores, sem resmungar nem contender com ele. O silêncio, porém, também pode ser interpretado não como resignação paciente, mas como obstinação.

Seus corações estarão endurecidos, e todos esses juízos não arrancarão deles uma só palavra que reconheça a justiça de Deus ou sua própria injustiça.

Versículos 4 a 10

O Pecado e a Condenação dos Opressores. (a.C. 785.)

Deus está aqui contendendo com os opressores orgulhosos e lhes mostrando:

I. A gravidade do pecado de que eram culpados; em suma, tinham o caráter do juiz injusto (Lucas 18:2), que não temia a Deus nem respeitava os homens:

  1. Observe-os em suas práticas religiosas, e você dirá: “Eles não tinham reverência por Deus”. Apesar de sua maldade, mantinham uma aparência e uma forma de piedade. Observavam o sábado e a lua nova, distinguindo esses dias dos demais.

Mas logo se cansavam deles e não lhes tinham o menor apreço, pois seu coração estava inteiramente voltado ao mundo e às coisas do mundo. Isso revela neles uma triste disposição, expressa na pergunta: “Quando passará o sábado, para que vendamos cereal?” Essa ainda é a disposição de muitos dos que se chamam cristãos.

(1.) Estavam cansados dos sábados. “Quando passarão?” Cansavam-se das restrições dos sábados e das luas novas e desejavam que terminassem, porque nesses dias não podiam realizar trabalho servil.

Cansavam-se também das ocupações próprias desses dias e as desprezavam (Malaquias 1:13). Como Doegue, estavam retidos diante do Senhor (1 Samuel 21:7); preferiam estar em qualquer outro lugar a estar junto dos altares de Deus.

Repare: os dias de sábado e seus deveres são um peso para os corações carnais, sempre receosos de fazer demais por Deus e pela eternidade. Poderíamos empregar nosso tempo melhor do que em comunhão com Deus? E quanto tempo passamos prazerosamente com o mundo?

O sábado não acabará antes de termos concluído seus deveres e colhido seus benefícios? Por que, então, tanta pressa em deixá-lo passar?

(2.) Gostavam dos dias de mercado: ansiavam por vender cereal e pôr trigo à venda. Durante os cultos, pensavam em suas transações. Seu coração corria atrás da cobiça (Ezequiel 33:31), e assim faziam da casa de meu Pai uma casa de comércio, ou melhor, um covil de ladrões.

Estavam cansados dos deveres santos porque, enquanto os cumpriam, seus negócios ficavam parados. Nos negócios sentiam-se em seu elemento; no santuário de Deus, eram como um peixe em terra seca.

Repare: são estranhos a Deus e inimigos de si mesmos os que amam mais os dias de mercado que os sábados e preferem vender cereal a adorar a Deus.

  1. Observe-os em sua conduta, e verá que não respeitam os homens. Isso costuma decorrer do primeiro mal: quem perdeu o gosto pela piedade não conserva por muito tempo o senso da honestidade comum. Não praticam a justiça nem amam a misericórdia.

(1.) Enganam aqueles com quem negociam. Ao vender cereal, defraudam o comprador tanto na entrega da mercadoria quanto no recebimento do pagamento. Medem o cereal com uma medida sua e fingem dar a quantidade combinada, mas diminuem o efa.

A medida é insuficiente, fora do padrão legal, e assim prejudicam o comprador. Ao receber o dinheiro, pesam-no em sua própria balança, com seus próprios pesos. O siclo usado na pesagem é maior que o padrão: aumentam o siclo, de modo que o dinheiro pareça leve e o comprador tenha de acrescentar mais.

Assim também o enganam, tudo sob aparência e alegação de exatidão no exercício da justiça. Práticas perversas como essas revelam tamanho apego ao mundo, amor a si mesmos e desprezo pela humanidade em geral, pelas pessoas com quem negociam e pelas leis sagradas da justiça.

Isso prova que não há em seu coração temor nem amor ao Deus que declarou tão claramente serem abomináveis para ele os pesos e balanças falsos. Outro exemplo de fraude é venderem o refugo do trigo, aproveitando-se da ignorância ou da necessidade do próximo para cobrar por ele o mesmo preço do trigo mais fino.

(2.) São cruéis e impiedosos com os pobres: devoram os necessitados e fazem desaparecer os pobres da terra. [1.] Valorizavam tanto sua riqueza que olhavam todos os pobres com o maior desprezo imaginável. Odiavam-nos, não os suportavam e os abandonavam.

Por isso faziam o possível para eliminá-los, não socorrendo-os para que deixassem de ser pobres, mas expulsando-os e destruindo-os para que deixassem de existir ou, pelo menos, de viver em sua terra. Mas quem assim despreza o pobre despreza seu Criador, em cujas mãos ricos e pobres se encontram.

[2.] Tinham tanta avidez por aumentar a riqueza que roubavam os pobres para enriquecer. Faziam deles sua presa porque não conseguiam reparação nem podiam resistir à violência dos opressores ou vingar-se dela. As riquezas obtidas mediante a ruína dos pobres arruinarão aqueles que as acumulam.

Devoravam os pobres impondo-lhes negócios difíceis e enganando-os nesses acordos. Para isso falsificavam as balanças. Não visavam apenas enriquecer e ter dinheiro à disposição, imaginando assim ter tudo mais à disposição; queriam também empobrecer os que viviam ao redor.

Rebaixavam-nos até poder obrigá-los a ser seus escravos. Depois de lhes tirar tudo, obtinham seu trabalho de graça ou quase de graça. Assim compravam os pobres por prata: reduziam-nos, com seus filhos, à escravidão, porque não tinham como pagar o cereal comprado. Veja Neemias 5:2-5.

E eram tantos os reduzidos a essa situação extrema que seu preço era baixíssimo. Os opressores o haviam rebaixado tanto que era possível comprar um homem pobre como escravo por um par de sandálias. Primeiro se invadia a propriedade, depois a liberdade: o método dos opressores é fazer dos homens mendigos e então torná-los seus servos.

Assim, a dignidade da natureza humana se perde na miséria dos que são pisoteados, e sua ternura se perde no pecado daqueles que os pisoteiam.

II. A severidade do castigo que lhes será imposto por esse pecado. Quando os pobres são prejudicados, clamam a Deus, e ele ouve seu clamor e pede contas aos que os prejudicam. Pois, sendo os pobres seus representantes, Deus considera as injustiças cometidas contra eles como se fossem feitas contra ele próprio (Êxodo 22:23,24).

  1. Deus se lembrará do pecado deles para acusá-los. Ele jurou pela excelência de Jacó (v. 7), isto é, por si mesmo, pois não pode jurar por alguém maior. Quem, senão ele, é a glória e a magnificência de Jacó?

Jurou pelos sinais de sua presença entre eles e de seu favor para com eles, sinais que haviam profanado e maltratado, fazendo todo o possível para se tornarem abomináveis a ele. Pois é dito que ele abomina a excelência de Jacó (Amós 6:8).

Jura em sua cólera, pelo próprio nome, tão conhecido e tão grande em Israel: “Certamente, jamais me esquecerei de nenhuma de suas obras”. Em toda ocasião, essas obras serão lembradas contra eles, pois a frase implica mais do que diz expressamente.

“Jamais me esquecerei deles” equivale a dizer: “Jamais os perdoarei”. Isso mostra quão miserável é a condição desses homens injustos e impiedosos: miserável por toda a eternidade. Ai, e mil vezes ai, daquele que um juramento de Deus exclui de todo benefício da misericórdia que perdoa! Quem não mostrou misericórdia tem motivos para temer um juízo sem misericórdia.

  1. Ele os levará à ruína e à confusão completas. Isso é descrito aqui extensamente, com várias expressões fortes, para que, se possível, fossem levados pelo medo ao arrependimento sincero e à reforma de vida.

(1.) Haverá terror e consternação em toda parte: “Porventura não tremerá a terra por causa disto?” (v. 8). Esta terra da qual pensavam expulsar os pobres? “E não pranteará todo aquele que nela habita?” Certamente pranteará.

Repare: aqueles que não querem tremer e lamentar como deveriam pelos pecados da nação serão levados a tremer e lamentar pelos juízos contra ela. Há quem contemple sem preocupação o pecado dos opressores, que deveria fazê-lo tremer, e a miséria dos oprimidos, que deveria fazê-lo lamentar.

Deus encontrará um modo de fazê-los tremer diante da fúria dos que os oprimem e lamentar as perdas e sofrimentos que ela lhes causará.

(2.) Haverá uma inundação e uma devastação universais. Quando Deus vier contra eles, as águas da aflição e da calamidade se erguerão como um rio em cheia que, represado, cresce até transbordar suas margens. Tudo conspirará contra eles.

Aquilo com que pensavam deter o avanço dos juízos de Deus apenas fará as águas subirem ainda mais. Os juízos abrirão caminho como águas que rompem uma barragem. Toda a terra será arrastada, submersa e coberta de água, como a terra do Egito a cada ano pelo transbordamento do Nilo.

Ou as expressões podem aludir a juízos anteriores de Deus. A ruína deles se erguerá inteiramente como uma inundação, à semelhança do dilúvio de Noé, que cobriu o mundo inteiro; este cobrirá toda a terra.

E a terra será submersa como pela inundação do Egito, tal como Faraó e seus egípcios foram sepultados no mar Vermelho, que para eles foi a inundação do Egito. Ambos os juízos, assim como o anunciado aqui, foram castigos pela violência e pela opressão, das quais o Senhor é o vingador.

  1. O castigo os surpreenderá e virá quando menos o esperarem (v. 9): “Farei o sol se pôr ao meio-dia, quando está em pleno vigor e brilho; no meio-dia deles, quando esperam uma tarde longa e pensam que ainda têm pela frente ao menos metade de um dia bom. Escurecerei a terra em pleno dia claro, quando tudo parece agradável e promissor.”

Como são incertos todos os nossos confortos e prazeres terrenos, até mesmo a própria vida! O auge da saúde e da prosperidade muitas vezes precede imediatamente a doença e a adversidade. O sol de Jó se pôs ao meio-dia; muitos são levados em meio a seus dias, e seu sol se põe ao meio-dia. Em meio à vida, estamos na morte.

Como são terríveis os juízos de Deus para quem dorme em segurança! Para essas pessoas, são como o pôr do sol ao meio-dia: quanto menos esperados, mais perturbadores. Quando dizem “Paz e segurança”, então lhes sobrevém repentina destruição, como um laço (Lucas 21:35).

  1. O castigo mudará seu canto e estragará toda a sua alegria (v. 10): “Converterei as vossas festas em luto”, assim como, no v. 3, os cânticos do templo se tornaram uivos. Repare: o fim da diversão e da folia do pecador é a tristeza.

Assim como para os retos a luz nasce nas trevas e lhes dá o óleo da alegria em lugar do luto, sobre os ímpios caem trevas em meio à luz, transformando seu riso em luto e sua alegria em tristeza.

A devastação será tão grande e tão generalizada que todos os lombos serão cobertos de pano de saco, e todas as cabeças, rapadas, em lugar dos cabelos bem arrumados e das roupas finas que costumavam usar. O luto daquele dia será como o luto por um filho único, sinal do lamento mais amargo e duradouro.

Mas não há esperança de que, quando as coisas chegarem ao pior ponto, melhorem, e de que ao anoitecer ainda haja luz? Não: até seu fim será como um dia amargo, um dia de luto amargo. A condição dos pecadores impenitentes vai de mal a pior, e o fim será o pior de tudo. Isto vocês receberão da minha mão: irão deitar-se em tristeza.

Versículos 11 a 14

Ameaça de Fome Espiritual; Ameaças de Juízos. (a.C. 785.)

Nestes versículos é anunciada:

I. Uma fome espiritual que atingirá toda a terra: fome da palavra de Deus, com o fim dos oráculos e a escassez da boa pregação. Fala-se disso como algo ainda distante: “Eis que vêm dias”. Virão mais tarde, quando outro tipo de escuridão cobrir aquela terra de luz.

Quando Amós profetizava, e por um tempo considerável depois, havia muitos profetas. Eram abundantes as oportunidades de ouvir a palavra de Deus, em tempo e fora de tempo. Tinham preceito sobre preceito e regra sobre regra; a profecia era seu pão de cada dia.

É provável que se tenham empanturrado dela, como Israel do maná; por isso Deus anuncia que mais tarde os privará desse privilégio. É provável que, quando a destruição chegou à terra de Israel, já não houvesse ali tantos profetas quanto na terra de Judá.

Quando as dez tribos foram para o cativeiro, não viram seus sinais: já não havia profetas, ninguém que lhes dissesse até quando (Salmos 74:9). Depois de Malaquias, a comunidade judaica ficou sem profetas durante muitos séculos.

Alguns entendem que essa ameaça aponta ainda mais longe: para a cegueira que veio em parte sobre Israel nos dias do Messias e para o véu que cobre o coração dos judeus incrédulos. Eles rejeitam o evangelho e os ministros que Deus lhes envia, mas desejam ter profetas próprios, como seus pais tiveram.

Não os terão, porém, pois o reino de Deus lhes foi tirado e entregue a outro povo. Observe aqui:

  1. Qual é o próprio juízo anunciado. É uma fome, uma escassez, não de pão e água, necessários para sustentar o corpo e cuja falta é muito penosa, mas um juízo muito mais severo: fome de ouvir as palavras do Senhor.

Não haverá congregações para os ministros pregarem, nem ministros que preguem, nem instrução ou capacidade concedidas aos que se apresentarem como pregadores para habilitá-los à tarefa. A palavra do Senhor será preciosa e rara; não haverá visão (1 Samuel 3:1).

Terão a palavra escrita, Bíblias para ler, mas não ministros que a expliquem e apliquem a eles. Haverá água no poço, mas nada com que tirá-la. Há uma promessa bondosa em Isaías 30:20: mesmo que lhes falte pão, terão abundância dos meios da graça.

Deus lhes dará o pão da adversidade e a água da aflição, mas seus olhos verão seus mestres. Era comum entre os puritanos o ditado de que pão escuro e evangelho fazem uma boa refeição. Aqui, porém, anuncia-se o contrário: terão pão e água em abundância, mas seus mestres serão retirados.

Ora, (1.) Isso significava a perda de grande parte da glória de sua terra. O que tornava sua nação grande e elevada era terem recebido os oráculos de Deus. Quando estes lhes foram tirados, sua beleza ficou manchada e sua honra foi lançada ao pó.

(2.) Era sinal do maior desagrado de Deus contra eles. Certamente estava muito irado quando deixou de lhes falar como antes e os abandonou à ruína, já não lhes oferecendo os meios que poderiam levá-los ao arrependimento.

(3.) Isso tornou verdadeiramente sombrias todas as outras calamidades que lhes sobrevieram. Não tinham profetas que os instruíssem e consolassem com a palavra de Deus, nem que lhes dessem alguma esperança para o futuro. Devemos dizer em qualquer tempo, e o diremos em tempos de aflição, que a fome da palavra de Deus é a mais severa das fomes e o mais pesado dos juízos.

  1. Qual será o efeito disso (v. 12): “Andarão errantes de mar a mar”, desde o mar de Tiberíades até o mar Grande, de uma fronteira do país à outra. Buscarão saber se Deus lhes enviará profetas de outras nações, pelo mar ou pela terra, já que não os têm entre si.

Irão do norte ao leste; frustrados num lugar, tentarão outro. Correrão de um lado para o outro, como pessoas perdidas e empenhadas numa busca intensa pela palavra do Senhor. Perguntarão se há profetas, alguma profecia ou alguma mensagem de Deus; mas não a encontrarão.

(1.) Para muitos, isso não será aflição nenhuma. Alguns, porém, sentirão muito essa grave perda e viajarão de bom grado grandes distâncias para ouvir um bom sermão. Sentirão profundamente a perda das bênçãos que outros, por insensatez, perderam com seus pecados.

(2.) Até aqueles que menosprezaram os profetas enquanto os tinham sentirão falta deles quando forem privados de sua presença, como Saul sentiu falta de Samuel. Muitos só descobrem o valor das bênçãos ao perdê-las.

Ou o sentido pode ser este: ainda que andem errantes de mar a mar à procura da palavra de Deus, não a encontrarão. Repare: os meios da graça podem ser retirados. O candelabro, quando nos parece mais firme, pode ser removido do seu lugar (Apocalipse 2:5).

E aqueles que agora menosprezam os dias do Filho do Homem talvez desejem em vão vê-los. No dia dessa fome, as virgens formosas e os jovens desmaiarão de sede (v. 13). Mesmo os que pareciam capazes de suportar o esforço sucumbirão a ele.

Alguns entendem que as virgens e os jovens representam as comunidades judaicas e os dirigentes de suas sinagogas. Estes perderão a palavra do Senhor e o benefício da revelação divina; desmaiarão pela falta dela e perderão toda a força e beleza.

Outros entendem que as virgens formosas e os jovens escolhidos representam os que confiam em seus próprios méritos e em sua própria justiça e pensam não precisar de Cristo. Desmaiarão de sede, enquanto os que têm fome e sede da justiça de Cristo serão abundantemente satisfeitos e saciados.

II. A destruição particular dos que lideravam a idolatria (v. 14). Observe: 1. O pecado de que são acusados: Juram pelo pecado de Samaria, isto é, pelo deus de Samaria, o ídolo adorado em Betel, não muito longe de Samaria.

Assim se gloriavam em sua vergonha e juravam por aquilo que consideravam seu deus, mas era sua iniquidade. Pensavam que os poderia ajudar o que certamente os arruinaria e davam a mais alta honra àquilo que deveriam encarar com o maior horror e repulsa.

Dizem: “Vive o teu deus, ó Dã!” Era o outro bezerro de ouro, um ídolo mudo de madeira, e contudo era acariciado e elogiado como se fosse o Deus vivo e verdadeiro.

Dizem: “Vive o costume, ou o caminho, de Berseba!” Juravam pela religião de Berseba, pelo modo de culto praticado ali, que consideravam sagrado. Por isso juravam por ele e apelavam a ele como juiz das controvérsias. Assim os papistas juram pela missa, como o faziam pelo costume de Berseba.

  1. A destruição com que são ameaçados. Os que dão a ídolos a honra devida somente a Deus descobrirão que ofenderam o Deus verdadeiro e fizeram dele seu inimigo. Cairão, e os deuses que servem não poderão ajudá-los; por isso nunca mais se levantarão.

Descobrirão que Deus é zeloso e reagirá à afronta que lhe fizeram; ele será vitorioso, e é inútil lutar contra ele.


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