Matthew Henry

2 Samuel 8

Argumento

Davi buscou primeiro o reino de Deus e a sua justiça, e colocou a arca em seu lugar assim que ele próprio se estabeleceu bem. Aqui nos é contado como todas as outras coisas lhe foram acrescentadas. Temos aqui um relato: I. Das suas conquistas. Ele triunfou:

  1. Sobre os filisteus, v. 1. 2. Sobre os moabitas, v. 2. 3. Sobre o rei de Zobá, v. 3, 4. 4. Sobre os sírios, vv. 5-8, 13. 5. Sobre os edomitas, v. 14.

II. Dos presentes que lhe trouxeram e das riquezas que obteve das nações que subjugou, as quais dedicou a Deus, vv. 9-12. III. Da sua corte, da administração do seu governo (v. 15) e dos seus principais oficiais, vv. 16-18. Isso nos dá uma ideia geral da prosperidade do reinado de Davi.

Versículos 1 a 8

As Conquistas de Davi. (a.C. 1042.)

Deus dera descanso a Davi de todos os inimigos que se opunham a ele e o enfrentavam. Davi fez bom uso desse descanso e agora recebeu autorização para guerrear contra eles, tomando a ofensiva para vingar as desavenças de Israel e recuperar os seus direitos. Pois ainda não possuíam plenamente aquela terra a que tinham direito pela promessa de Deus.

I. Ele subjugou completamente os filisteus (v. 1). Eles o haviam atacado quando pensaram que estava fraco (2 Samuel 5:17) e levaram a pior. Mas, quando Davi se viu forte, atacou-os e se tornou senhor do território deles.

Há muito tempo eles eram uma ameaça e oprimiam Israel. Saul não conseguiu avançar contra eles; mas Davi completou a libertação de Israel das mãos deles, iniciada por Sansão muito tempo antes (Juízes 13:5).

Metegue-Amá era Gate, a principal cidade dos filisteus e sua cidade real, com as cidades que lhe pertenciam. Entre elas, os filisteus mantinham uma guarnição permanente no monte Amá (2 Samuel 2:24). Esse lugar era Metegue, que significa freio ou rédea, um freio sobre o povo de Israel. Davi o tomou das mãos deles e o usou para contê-los.

Assim, quando o homem forte é desarmado, tiram-lhe a armadura em que confiava e a usam contra ele (Lucas 11:22).

Depois das longas e frequentes lutas que os santos travaram contra os poderes das trevas, como Israel contra os filisteus, o Filho de Davi os pisará a todos e fará dos santos mais que vencedores.

II. Ele derrotou os moabitas e os tornou tributários de Israel (v. 2). Dividiu o território em três partes. Destruiu duas delas, derrubando as fortalezas e passando todos ao fio da espada.

Poupou a terceira parte para cultivar a terra e servir a Israel. O Dr. Lightfoot diz: “Ele os deitou no chão e os mediu com uma corda, para decidir quem seria morto e quem viveria”; e isso é chamado de “medir o vale de Sucote” (Salmos 60:6).

Os judeus dizem que ele tratou os moabitas com tanta severidade porque haviam matado seus pais e irmãos, a quem Davi pusera sob a proteção do rei de Moabe durante o exílio (1 Samuel 22:3, 4).

Ele agiu com justiça, porque os moabitas tinham sido inimigos perigosos do Israel de Deus; e com prudência, porque, se continuassem fortes, ainda seriam inimigos.

Mas repare: embora fosse necessário eliminar dois terços, a medida destinada a deixar vivos os restantes, ainda que fosse apenas uma, foi determinada como medida cheia.

Cuide para que ela tenha comprimento suficiente; que a medida da misericórdia seja estendida ao máximo, em favorem vitæ — para favorecer a vida. Os atos de anistia devem ser interpretados de modo a ampliar o favor.

Então se cumpriu a profecia de Balaão: “Um cetro se levantará de Israel e ferirá os cantos de Moabe”, até onde se estendia a medida fatal (Números 24:17). Os moabitas continuaram tributários de Israel até depois da morte de Acabe (2 Reis 3:4, 5). Então se rebelaram e nunca mais foram subjugados.

III. Ele derrotou os sírios, ou arameus. Havia entre eles dois reinos distintos, como os encontramos mencionados no título de Salmos 60: Arã-Naaraim, a Síria dos rios, cuja cidade principal era Damasco, famosa pelos seus rios (2 Reis 5:12), e Arã-Zobá, que fazia fronteira com ela e se estendia até o Eufrates. Essas eram as duas coroas do norte.

  1. Davi começou pelos sírios de Zobá (vv. 3-4). Ele foi estabelecer a fronteira junto ao rio Eufrates, pois a terra concedida por Deus a Abraão e à sua descendência se estendia até lá (Gênesis 15:18). O rei de Zobá se opôs a ele, pois ocupava terras que pertenciam a Israel.

Davi derrotou as suas forças e tomou os seus carros e cavaleiros. Aqui se diz que eram setecentos cavaleiros, mas em 1 Crônicas 18:4 se diz que eram sete mil. É provável que tenham dividido os cavaleiros em companhias de dez: havia setecentos capitães e companhias, mas sete mil cavaleiros.

Davi cortou os jarretes dos cavalos, seccionando-lhes os tendões e assim os deixando mancos e inúteis, ao menos para a guerra. Deus proibira que Israel multiplicasse cavalos (Deuteronômio 17:16).

Davi reservou apenas cem carros, dentre mil, para seu próprio uso, pois não depositava sua força em carros nem em cavalos, mas no Deus vivo (Salmos 20:7). Com base em sua própria observação, escreveu que “um cavalo é coisa vã para a segurança” (Salmos 33:16, 17).

  1. Os sírios de Damasco vieram socorrer o rei de Zobá e caíram junto com ele. Vinte e dois mil foram mortos no campo (v. 5). Assim, foi fácil para Davi tomar o território e guarnecê-lo para si (v. 6).

Os inimigos da igreja de Deus, quando pensam que vão se proteger, acabarão se arruinando ao se aliarem uns aos outros. “Associai-vos, e sereis despedaçados” (Isaías 8:9).

IV. Em todas essas guerras: 1. Davi foi protegido: o Senhor o preservava por onde quer que fosse. Parece que ele ia pessoalmente e, na causa de Deus e de Israel, arriscava a própria vida nos lugares altos do campo de batalha. Mas Deus cobria a sua cabeça no dia da batalha, como Davi tantas vezes declara nos salmos, para a glória de Deus.

  1. Davi enriqueceu. Tomou os escudos de ouro que estavam sob a guarda dos servos de Hadadezer (v. 7) e muito bronze de várias cidades da Síria (v. 8).

Tinha direito a esses bens não só jure belli, pelo direito incontestável da espada mais longa (“Conquiste e tome”), mas também por uma comissão do céu e pelo antigo direito de herança dessas terras concedido à descendência de Abraão.

Versículos 9 a 14

Davi Conquista Edom. (a.C. 1042.)

Aqui está: 1. A homenagem prestada a Davi pelo rei de Hamate, que, ao que parece, estava então em guerra com o rei de Zobá.

Ao saber do sucesso de Davi contra o inimigo, enviou-lhe o próprio filho como embaixador (v. 9, 10) para felicitá-lo pela vitória, agradecer-lhe pelo favor de ter enfraquecido alguém que ele temia e pedir a sua amizade.

Assim, não só se protegeu, como também se fortaleceu. Davi nada perdeu ao colocar esse pequeno príncipe sob a sua proteção, assim como os antigos romanos não perderam com a mesma política.

A riqueza que recebera como despojo dos países conquistados, recebeu desta vez como presente ou gratificação: utensílios de prata e ouro. É melhor obter por acordo do que por coerção.

  1. A oferta que Davi fez a Deus dos despojos das nações e de todas as coisas valiosas que lhe foram trazidas. Dedicou tudo ao Senhor (v. 11, 12). Isso coroou todas as suas vitórias e as fez superar em muito as de Alexandre ou de César. Eles buscaram a própria glória, mas Davi visou à glória de Deus.

Todas as coisas preciosas que estavam em seu poder eram coisas consagradas, isto é, destinadas à construção do templo. Isso foi um bom sinal da bondade que, na plenitude dos tempos, seria demonstrada aos gentios, e de que a casa de Deus se tornaria casa de oração para todos os povos. O templo foi construído com os despojos e presentes das nações gentias.

A isso alude o texto quando diz que os reis da terra levam a sua glória e honra para a Nova Jerusalém (Apocalipse 21:24). Davi queimou os deuses de ouro deles (2 Samuel 5:21), mas dedicou os utensílios de ouro.

Assim, na conquista de uma alma pela graça do Filho de Davi, o que se opõe a Deus precisa ser destruído: toda paixão pecaminosa deve ser mortificada e crucificada. Mas aquilo que pode glorificá-lo deve ser dedicado a ele, e sua propriedade deve passar para Deus.

Até a mercadoria e o salário devem ser consagrados ao Senhor (Isaías 23:18), e o lucro deve ser consagrado ao Senhor de toda a terra (Miquéias 4:13). Então, de fato, tudo isso será nosso, para o nosso maior consolo.

  1. A reputação que Davi conquistou, em particular, pela vitória sobre os sírios e seus aliados, os edomitas, que lutaram ao lado deles. Isso se vê ao comparar o título de Salmos 60, escrito nessa ocasião, com o v. 13. Davi ganhou fama por toda a conduta e coragem próprias de um grande e notável general.

Ao que parece, houve algo extraordinário naquela ação, que muito contribuiu para sua honra. Ainda assim, ele teve o cuidado de atribuir a honra a Deus, como se vê no salmo que escreveu nessa ocasião (Salmos 60:12): é por meio de Deus que agimos com bravura.

  1. O sucesso de Davi contra os edomitas. Todos se tornaram servos de Davi (v. 14). Só então se cumpriu a bênção de Isaque, pela qual Jacó se tornou senhor de Esaú (Gênesis 27:37-40).

Os edomitas continuaram tributários dos reis de Judá por muito tempo, assim como os moabitas eram dos reis de Israel, até que se revoltaram no tempo de Jorão (2 Crônicas 21:8), como Isaque predissera: com o tempo, Esaú sacudiria o jugo de seu pescoço.

Assim, Davi, por meio das suas conquistas: (1.) Garantiu paz para o filho, a fim de que ele tivesse tempo para construir o templo. (2.) Obteve riquezas para o filho, para que tivesse com que construí-lo.

Deus emprega seus servos de diferentes maneiras: uns num serviço, outros noutro; uns nas batalhas espirituais, outros nas construções espirituais. Um prepara o trabalho para o outro, para que Deus receba a glória por tudo.

Todas as vitórias de Davi prefiguravam o sucesso do evangelho contra o reino de Satanás. Nessa obra, o Filho de Davi avançou, vencendo e para vencer, e reinará até derrubar todo governo, principado e poder que se opõe a ele.

Como Davi, ele tem uma medida para matar e uma medida para salvar (v. 2), pois o mesmo evangelho é para alguns cheiro de vida para vida e, para outros, cheiro de morte para morte.

Versículos 15 a 18

A Administração do Governo de Israel por Davi. (a.C. 1042.)

Davi não estava tão ocupado com as guerras no exterior a ponto de negligenciar a administração do governo no país.

I. Seu cuidado se estendia a todas as partes do seu domínio: “Reinava sobre todo o Israel” (v. 15). Não só tinha o direito de reinar sobre todas as tribos, como também reinava sobre elas. Todas estavam seguras sob sua proteção e compartilhavam os frutos do seu bom governo.

II. Ele fazia justiça com mão firme e imparcial: “Executava juízo para todo o seu povo.” Não prejudicava ninguém nem negava ou adiava o direito de ninguém.

Isso indica: 1. Sua diligência e dedicação ao trabalho, sua facilidade de acesso e prontidão para receber todos os pedidos e recursos apresentados a ele. Todo o seu povo, até os mais humildes e os das tribos mais humildes, era bem-vindo à sua sala de conselho.

  1. Sua imparcialidade e a equidade dos seus procedimentos ao administrar a justiça. Nunca perverteu a justiça por favor ou afeição, nem favoreceu pessoas ao julgar.

Nisso, Davi foi um tipo de Cristo, “fiel e verdadeiro”, que “com justiça julga e guerreia” (Apocalipse 19:11). Veja também Salmos 72:1, 2.

III. Ele mantinha boa ordem e bons oficiais na corte. Como Davi foi o primeiro rei a ter um governo estabelecido, pois o reinado de Saul foi breve e instável, coube a ele organizar a administração.

No tempo de Saul, não lemos sobre nenhum outro grande oficial além de Abner, comandante do exército. Davi, porém, nomeou mais oficiais.

Joabe era o general das forças no campo, e Benaia comandava os quereteus e peleteus. Eles eram, talvez, as tropas da cidade, arqueiros e fundeiros, como diz a versão caldaica; ou, mais provavelmente, a guarda pessoal do rei, uma força permanente, a guarda pretoriana, a milícia.

Estavam prontos para servir em casa, ajudar na administração da justiça e preservar a paz pública. Nós os encontramos proclamando Salomão (1 Reis 1:38).

  1. Havia dois oficiais eclesiásticos. Zadoque e Aimeleque eram sacerdotes, isto é, eram os que mais se ocupavam do trabalho sacerdotal sob Abiatar, o sumo sacerdote.

  2. Havia dois oficiais civis: um era cronista, ou memorialista, encarregado de lembrar o rei dos assuntos no momento oportuno. Era o principal ministro de Estado, mas não tinha a responsabilidade pela consciência do rei, como dizem que tem o nosso lorde chanceler; cuidava apenas da memória do rei.

Bastava lembrá-lo dos assuntos, e ele mesmo os resolveria. O outro era escriba, ou secretário de Estado, que redigia ordens públicas e despachos e registrava os julgamentos proferidos.

  1. Quando os filhos de Davi cresciam e se mostravam aptos para o trabalho, eram nomeados chefes. Recebiam posições de honra e confiança no palácio, no acampamento ou nos tribunais, conforme suas aptidões. Eram chefes junto ao rei (como explica 1 Crônicas 18:17), servindo perto dele, sob seus olhos.

Nosso Senhor Jesus nomeou oficiais em seu reino, para sua honra e o bem da comunidade. Quando subiu ao alto, deu esses dons (Efésios 4:8-11), designando “a cada um o seu trabalho” (Marcos 13:34).

Davi fez dos filhos chefes; mas todos os crentes, descendência espiritual de Cristo, recebem posição melhor, pois são feitos reis e sacerdotes para o nosso Deus (Apocalipse 1:6).


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