2 Samuel 4
Argumento
Quando Abner foi abatido, Davi ficou sem um amigo que completasse a submissão das tribos que ainda apoiavam Isbosete. Não sabia que caminho tomar para conseguir isso.
Mas a Providência o realizou aqui, removendo Isbosete. I. O assassinato de Isbosete por dois de seus próprios servos e a entrega da cabeça a Davi (vv. 1-8). II. A execução dos servos por Davi, em vez de uma recompensa pelo que fizeram (vv. 9-12).
Versículos 1 a 8
Isbosete é Morto por Seus Servos. (a.C. 1048.)
Aqui está: I. A fraqueza da casa de Saul, que continuava a enfraquecer. 1. Quanto a Isbosete, que ocupava o trono, suas mãos estavam fracas (v. 1). Toda a força que tinham vinha do apoio de Abner; agora que ele morrera, faltava-lhe ânimo.
Embora Abner tivesse abandonado a causa de Isbosete num acesso de cólera, Isbosete ainda esperava, por meio dele, chegar a bons termos com Davi. Agora até essa esperança se perdeu, e Isbosete se viu abandonado pelos amigos e à mercê dos inimigos.
Todos os israelitas que permaneciam ao seu lado estavam aflitos e sem saber o que fazer: deveriam ou não continuar as negociações com Davi?
- Quanto a Mefibosete, que por ser filho de Jônatas tinha direito anterior ao trono, seus pés eram aleijados e ele não servia para nenhum serviço (v. 4). Tinha apenas cinco anos quando seu pai e seu avô foram mortos.
Sua ama, ao ouvir da vitória dos filisteus, temeu que, na perseguição, eles enviassem imediatamente um grupo à casa de Saul para exterminar todos os que pertenciam à casa e tivessem como alvo especial seu jovem senhor, então o próximo herdeiro da coroa.
Com esse temor, fugiu com a criança nos braços, para escondê-la num lugar secreto onde não pudessem encontrá-la ou num lugar fortificado a que não pudessem chegar. Mas, com mais pressa do que prudência, caiu com a criança; algum osso se quebrou ou deslocou-se e não foi bem recolocado.
Por isso, Mefibosete ficou manco por toda a vida e inapto tanto para a corte quanto para o acampamento. Veja a que acidentes dolorosos as crianças estão sujeitas na infância e como seus efeitos podem causar-lhes grande incômodo por toda a vida.
Nem mesmo os filhos de príncipes e grandes homens, os filhos de homens bons — pois Jônatas era um deles —, bem cuidados e com amas próprias, estão sempre seguros.
Que motivo temos para agradecer a Deus por nos ter preservado os membros e os sentidos durante os muitos perigos de nossa infância, tão fraca e desamparada, e reconhecer sua bondade por dar ordens a seus anjos a nosso respeito, para nos carregarem nos braços, dos quais não há perigo de cair (Salmos 91:12).
II. O assassinato do filho de Saul. Aqui nos dizem:
- Quem eram os assassinos: Baaná e Recabe (v. 2, 3). Eram irmãos, como Simeão e Levi, e parceiros na iniquidade.
Eram, ou tinham sido, servos do próprio Isbosete, empregados por ele; mais vil e traiçoeiro, portanto, foi o dano que lhe causaram. Eram benjamitas, da mesma tribo que Isbosete, e naturais da cidade de Beerote.
Por algum motivo que hoje não podemos explicar, o relato faz questão de nos informar, entre parênteses, que Beerote pertencia ao território de Benjamim, como lemos em Josué 18:25.
Mas, por alguma razão — talvez pela morte de Saul —, seus habitantes se retiraram para Gitaim, outra cidade próxima, na mesma tribo, naturalmente mais fortificada, situada, se pudermos confiar no mapa do sr. Fuller, entre os dois rochedos Bozez e Sené.
Quando isso foi escrito, os beerotitas estavam ali e provavelmente se estabeleceram naquele lugar, sem nunca mais voltar a Beerote. Por isso, Beerote, que fora uma das cidades dos gibeonitas (Josué 9:17), foi esquecida, enquanto Gitaim ficou conhecida muito tempo depois, como vemos em Neemias 11:33.
- Como o assassinato foi cometido (vv. 5-7). Observe: (1.) A preguiça de Isbosete. Ele estava deitado na cama ao meio-dia.
Não parece que o clima da região fosse, em qualquer época do ano, tão quente que obrigasse os habitantes a se recolherem ao meio-dia, como dizem que fazem na Espanha no auge do verão. Isbosete, porém, era indolente, gostava do conforto e detestava o trabalho.
Naquele momento crítico, deveria estar à frente de suas tropas no campo ou à frente das deliberações sobre um tratado com Davi; em vez disso, estava deitado e dormindo, pois suas mãos estavam fracas (v. 1), assim como sua cabeça e seu coração.
Quando as dificuldades nos desanimam, embora devessem antes nos fortalecer e aguçar nossos esforços, colocamos em risco tanto a coroa quanto a vida. Não ame o sono, para não cair na pobreza e na ruína. A alma ociosa é presa fácil para o destruidor.
(2.) A traição de Baaná e Recabe. Entraram na casa sob o pretexto de buscar trigo para abastecer seus regimentos. Na simplicidade daqueles tempos, a sala de armazenamento dos cereais do rei ficava perto de seu quarto; assim, ao buscar trigo, tiveram a oportunidade de matá-lo na cama.
Não sabemos quando nem onde a morte nos encontrará. Quando nos deitamos para dormir, não temos certeza de que não dormiremos o sono da morte antes de despertar; tampouco sabemos de que mão inesperada virá o golpe fatal.
Os próprios homens de Isbosete, que deveriam proteger sua vida, tiraram-na.
- Os assassinos triunfaram pelo que fizeram. Como se tivessem realizado uma façanha gloriosa e como se fazê-la em benefício de Davi não apenas a justificasse, mas até a santificasse, presentearam Davi com a cabeça de Isbosete (v. 8): “Eis a cabeça do teu inimigo!” Pensavam que nada poderia agradá-lo mais.
E ainda se fizeram instrumentos da justiça de Deus, ministros encarregados de empunhar sua espada, embora não tivessem recebido mandato: alegavam que o Senhor havia vingado Davi naquele dia de Saul e de sua descendência.
Não que se importassem com Deus ou com a honra de Davi. Seu único objetivo era fazer fortuna, como se diz, e obter um cargo na corte de Davi. Para conquistar seu favor, fingiram preocupar-se com a vida dele, reconhecer seu direito e desejar fervorosamente vê-lo no pleno exercício do trono.
Jeú também fingiu zelo pelo Senhor dos Exércitos, embora sua ambição de estabelecer a si mesmo e à própria família fosse a verdadeira mola de suas ações.
Versículos 9 a 12
Os Assassinos de Isbosete São Punidos. (a.C. 1048.)
Aqui vemos a justiça aplicada aos assassinos de Isbosete.
I. A sentença proferida contra eles. Não eram necessárias provas: as próprias palavras os condenavam. Longe de negar o crime, eles se vangloriavam dele.
Por isso, Davi lhes mostra a gravidade do crime e que o sangue exigia sangue de sua mão, pois agora era o magistrado supremo e, por dever de ofício, o vingador do sangue. Talvez tenha sido ainda mais rigoroso ao processá-los porque, por razões de Estado, poupara Joabe: “Não devo exigir o sangue do morto das mãos dos assassinos e, já que não podem restituí-lo, tomar o deles em seu lugar?”
Observe:
- Como Davi agrava o crime (v. 11). Isbosete era um homem justo; não lhes fizera mal algum nem pretendia fazê-lo. Quanto a si mesmo, Davi estava convencido de que a oposição de Isbosete não vinha de malícia, mas de um engano: ele pensava ter direito à coroa e outros o influenciavam e o incentivavam a reivindicá-la.
Repare: a caridade nos ensina a pensar o melhor não só de nossos amigos, mas também de nossos inimigos, e a admitir que alguém pode ser justo e, em certas situações, ainda assim nos fazer mal. Não devo logo julgar alguém mau só porque o considero mau para comigo.
Davi reconhece que Isbosete era um homem honesto, embora lhe tivesse causado injustamente muitos problemas. A maneira como foi morto agravava muito o crime.
Abatê-lo em sua própria casa, que deveria ser sua fortaleza, e em sua cama, quando não podia oferecer resistência, foi traiçoeiro, bárbaro e vil. O coração de qualquer pessoa que não tenha perdido por completo toda honra e humanidade se indigna ao pensar nisso.
Assassinar alguém é reconhecidamente a forma mais odiosa e vil de matar. Maldito aquele que ferir seu próximo em segredo.
- Davi cita um precedente (v. 10). Havia mandado executar aquele que lhe trouxera a notícia da morte de Saul, por pensar que Davi a receberia como boa notícia. Não se diz aqui que o amalequita tivesse ajudado Saul a se matar; menciona-se apenas que lhe trouxera notícia de sua morte.
Parece, portanto, que, depois de investigado, o relato que ele contou se revelou falso e que sua mentira se voltou contra a própria cabeça. “Naquela ocasião”, diz Davi, “tratei como criminoso, e não como favorito — como ele esperava —, aquele que me trouxe a coroa de Saul; serão agora considerados inocentes os que me trazem a cabeça de Isbosete?”
- Davi confirma a sentença com um juramento (v. 9): “Tão certo como vive o Senhor, que redimiu a minha alma de toda adversidade.”
Fala com firmeza para impedir que os que o cercavam intercedessem pelos criminosos. Fala também com piedade, dando a entender que dependia de Deus para tomar posse do trono prometido e que não ficaria devendo a pessoa alguma por ajudá-lo a obtê-lo por meios indiretos ou ilícitos.
Até ali, Deus o redimira de toda adversidade, ajudando-o a superar muitas dificuldades e perigos; por isso, Davi confiaria que Deus completaria sua própria obra e o coroaria. Fala de sua libertação de toda adversidade como algo já realizado, embora ainda tivesse muitas tempestades à frente, pois sabia que aquele que o livrara continuaria a livrá-lo.
- Em seguida, assina a ordem para a execução daqueles homens (v. 12). Isso pode parecer severo, já que pretendiam fazer-lhe um favor; mas (1.) Davi queria mostrar seu horror por aquela vileza.
Quando soube que o Senhor ferira Nabal, deu graças (1 Samuel 25:38, 39), pois Deus é aquele a quem pertence a vingança. Mas, se homens perversos matam Isbosete, merecem morrer por se apropriarem do trabalho de Deus.
(2.) Davi também queria mostrar o quanto se ressentia da grande afronta que lhe fizeram ao esperar que ele patrocinasse e recompensasse o crime. Dificilmente poderiam tê-lo ofendido mais do que presumindo que ele era exatamente como eles, alguém que não se importaria com quanto sangue tivesse de atravessar para alcançar a coroa.
II. A execução. Os assassinos foram mortos segundo a lei, e suas mãos e seus pés foram pendurados. Não seus corpos inteiros, pois a lei proibia isso; apenas mãos e pés, in terrorem — para assustar os outros, como monumentos da justiça de Davi e para chamar atenção ao que o recomendaria à estima do povo como alguém digno de governar.
Isso mostrava que Davi não buscava um cargo para si nem nutria inimizade contra a casa de Saul; seu único e sincero objetivo era o bem público. Que terrível confusão e decepção para os dois assassinos!
É isso que encontrarão os que pensam servir aos interesses do Filho de Davi por práticas imorais: guerra e perseguição, fraude e pilhagem; os que, em nome da religião, assassinam príncipes, rompem acordos solenes, devastam países, odeiam os irmãos, expulsam-nos e dizem: “Que o Senhor seja glorificado”; matam-nos e pensam que assim prestam bom serviço a Deus.
Por mais que as pessoas canonizem tais métodos de servir à igreja e à causa católica, Cristo lhes fará saber, no dia vindouro, que o cristianismo não foi feito para destruir a humanidade. Os que pensam merecer o céu por esses meios não escaparão da condenação do inferno.